{"id":27757,"date":"2021-08-25T02:17:48","date_gmt":"2021-08-25T05:17:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27757"},"modified":"2021-08-25T02:17:48","modified_gmt":"2021-08-25T05:17:48","slug":"entrevista-do-momento-mauro-iasi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27757","title":{"rendered":"Entrevista do Momento: Mauro Iasi"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/AM-JKLWZRxZrSqFQShCru0ehKqHwadDSoVdF5Wc20APMzH_4xmUvhojAvmq1yNmiXH4HWqKIVluLND-n8WwpoIYVt154QjL8Yqd6hiSZh5piGpv4vS-x3AY29ipdh4Pb7mFGgpnG41EI93LdtAFmW29javyL=w987-h656-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Milton Pinheiro<\/p>\n<p>Jornal O Momento &#8211; PCB da Bahia<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB.<\/p>\n<p>O MOMENTO \u2013 A presen\u00e7a de amplos setores populares e de esquerda nas ruas pode modificar a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na conjuntura brasileira?<\/p>\n<p>MAURO IASI \u2013 Na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em uma conjuntura um fator fundamental \u00e9 a capacidade de determinar o cen\u00e1rio no qual se desenvolver\u00e3o os fatos. Quando o cen\u00e1rio \u00e9 o Parlamento ou a CPI, os segmentos populares j\u00e1 saem em desvantagem. Trazer para as ruas a contradi\u00e7\u00e3o, expressar nossos interesses \u00e9 muito importante, nem que seja para diminuir o espa\u00e7o de a\u00e7\u00e3o dos inimigos.<\/p>\n<p>Acredito que a for\u00e7a dos atos de rua que temos visto j\u00e1 produzem um efeito na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, no entanto, precisamos ver os outros atores envolvidos e seus recursos de poder, como a grande m\u00eddia, os militares, o bolsonarismo, para realizarmos uma an\u00e1lise objetiva. A for\u00e7a dos atos ainda n\u00e3o foi suficiente para deslocar o eixo da contradi\u00e7\u00e3o para fora dos espa\u00e7os institucionais, sejam eles a CPI ou as elei\u00e7\u00f5es de 2022.<\/p>\n<p>O MOMENTO \u2013 Como podemos analisar o papel do bolsonarismo na luta pol\u00edtica em curso?<\/p>\n<p>MAURO IASI \u2013 O bolsonarismo n\u00e3o pode ser reduzido \u00e0 figura pat\u00e9tica do miliciano no poder, ele expressa algo mais profundo na sociedade brasileira, o car\u00e1ter da burguesia em nosso pa\u00eds, os setores m\u00e9dios reacion\u00e1rios, os interesses do grande capital. Se n\u00e3o fosse por estas bases o miliciano j\u00e1 teria ca\u00eddo faz tempo.<\/p>\n<p>A extrema direita, que encontrou um porta voz e uma personifica\u00e7\u00e3o no triste personagem, apoia sua for\u00e7a em um grande ressentimento que se apresenta em um duplo sentido. De um lado temos uma classe dominante subordinada aos interesses do imperialismo, uma rid\u00edcula minoria em um oceano de mis\u00e9ria que teme a revolta do povo. De outro, uma massa de explorados que deixou de se ver como classe, manipulada por uma ideologia de livre concorr\u00eancia na qual est\u00e1 condenada a perder sempre e tem que culpar algu\u00e9m. No meio uma classe m\u00e9dia inculta e inst\u00e1vel que inveja a minoria rica e teme os pobres.<\/p>\n<p>O bolsonarismo \u00e9 a express\u00e3o pol\u00edtica deste ressentimento que se apresenta obscurantista, irracional, preconceituoso e violento. O elogio da for\u00e7a, seja do mito militar ou dos aparatos policiais, s\u00e3o representativos desta impot\u00eancia ressentida e a da busca de uma solu\u00e7\u00e3o golpista para os impasses que em grande medida o bolsonarismo n\u00e3o compreende.<\/p>\n<p>O MOMENTO \u2013 Os testes de for\u00e7a que o agitador fascista, Jair Bolsonaro, realiza em suas apari\u00e7\u00f5es nos cercadinhos da pol\u00edtica confirmam o caminho da ruptura institucional?<\/p>\n<p>MAURO IASI \u2013 Bolsonaro sempre desejou uma ruptura e deixou claro isso em in\u00fameras oportunidades, tanto antes das elei\u00e7\u00f5es como no governo. Ele alimenta um desejo de repetir o golpe de 1964 porque o julga, como a ideologia militar que o impregnou, salvador. Sua t\u00e1tica \u00e9 a provoca\u00e7\u00e3o e o tencionar dos limites para provocar uma rea\u00e7\u00e3o. \u00c9 um provocador. Entretanto, toda ideologia implica em uma dose de autoengano. Ele realmente se acredita como um salvador, um messias, mas o golpe n\u00e3o \u00e9 apenas a express\u00e3o delirante de um personagem autorit\u00e1rio e desclassificado, \u00e9 um recurso a servi\u00e7o de interesses muito precisos na luta de classes.<\/p>\n<p>Em 1964, por exemplo, enquanto a ideologia agitava o fantasma do perigo vermelho e vociferava um anticomunismo t\u00edpico da guerra fria, o que vimos foi um alinhamento da burguesia brasileira, do latif\u00fandio e do imperialismo para manter o modelo econ\u00f4mico e seus privil\u00e9gios. Hoje o grande capital, que apoia e sustenta o governo do miliciano, n\u00e3o aposta em uma solu\u00e7\u00e3o de for\u00e7a que rompa com a institucionalidade.<\/p>\n<p>Fundamentalmente por dois motivos: primeiro esta institucionalidade lhe serve e est\u00e1 longe de colocar em risco seus interesses, segundo que o golpe bolsonarista n\u00e3o traria estabilidade institucional, mas pode abrir um cen\u00e1rio imprevis\u00edvel que n\u00e3o interessa aos setores dominantes.<\/p>\n<p>O MOMENTO \u2013 O avan\u00e7o da CPI da Covid 19 na identifica\u00e7\u00e3o de crimes cometidos pelos dois eixos da pequena pol\u00edtica brasileira, Centr\u00e3o e For\u00e7as Armadas, pode gerar um movimento pol\u00edtico mais forte na perspectiva do impedimento do presidente?<\/p>\n<p>MAURO IASI \u2013 Acredito que o que prevalece hoje \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o dos segmentos dominantes em desgastar o governo com vistas a produzir uma alternativa eleitoral em 2022. Entretanto, a gravidade dos crimes, a rea\u00e7\u00e3o das ruas e a queda vertiginosa da popularidade do miliciano podem criar uma situa\u00e7\u00e3o onde o impedimento acabe por se impor. O problema \u00e9 o calend\u00e1rio e as alternativas. Afastar o criminoso exige, por parte das camadas dominantes, a certeza de uma transi\u00e7\u00e3o sob controle, seja com Mour\u00e3o ou outra alternativa. N\u00e3o se sabe qual a rea\u00e7\u00e3o de Bolsonaro se ficar claro que ser\u00e1 afastado, uma vez que mesmo sem condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de consolidar seus planos (exatamente pela posi\u00e7\u00e3o do grande capital e das pr\u00f3prias for\u00e7as armadas), o miliciano pode tentar reagir com as for\u00e7as que disp\u00f5e e isso \u00e9 imponder\u00e1vel.<\/p>\n<p>Outro fator \u00e9 o tempo, uma vez que, chegando claramente a um crime de responsabilidade (e nem precis\u00e1vamos da CPI para isso), deve-se apresentar den\u00fancia, abrir um processo de impeachment, aprov\u00e1-lo no parlamento e lev\u00e1-lo adiante. Mesmo supondo a boa vontade de faz\u00ea-lo, este processo leva um tempo e j\u00e1 estar\u00edamos em ano eleitoral, ou mesmo durante o processo eleitoral. Parece-me que prevalece a tese da fritura lenta para inviabilizar o bolsonarismo eleitoralmente enquanto se busca uma alternativa.<\/p>\n<p>O MOMENTO \u2013 A amea\u00e7a de golpe dos militares e do presidente pode se efetuar no sentido tradicional, ou seja, com possibilidade de fechamento institucional e um Estado de exce\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>MAURO IASI \u2013 N\u00e3o creio, pelos motivos que apresentei. O golpe de 1964 foi apoiado diretamente pelo imperialismo e teve respaldo da grande burguesia e do latif\u00fandio, al\u00e9m do apoio de amplos setores m\u00e9dios assustados com a propaganda anticomunista. O principal fator que faz com os cen\u00e1rios sejam diferentes s\u00e3o, ao meu ver, que em 1964 a institucionalidade e seu funcionamento normal colocavam em risco os interesses dominantes e hoje n\u00e3o. O grande capital precisa muito mais de estabilidade institucional para impor seus interesses do que uma ruptura.<\/p>\n<p>O MOMENTO \u2013 Tem um setor da esquerda que se movimenta na luta pol\u00edtica tendo como horizonte as elei\u00e7\u00f5es de 2022. Essa postura pode comprometer as tarefas atuais da classe trabalhadora?<\/p>\n<p>MAURO IASI \u2013 Considero esta postura um equ\u00edvoco. Estamos em um momento no qual h\u00e1 uma disputa no seio dos segmentos dominantes provocada pelo car\u00e1ter do atual governo que aposta na radicaliza\u00e7\u00e3o do conflito visando uma ruptura institucional. Entretanto, esta diverg\u00eancia n\u00e3o \u00e9 a respeito da pauta do grande capital (a reforma administrativa e tribut\u00e1ria, a reforma da previd\u00eancia, o arrocho sobre os trabalhadores, o saneamento financeiro do Estado, desmonte das pol\u00edticas p\u00fablicas etc) e sim sobre os del\u00edrios rupturistas e sua grossa incompet\u00eancia em exercer de forma civilizada o papel de presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s n\u00e3o se trata de encontrar uma figura mais civilizada para executar a mesma pauta, seja na direita ou na centro-esquerda, mas de criar as condi\u00e7\u00f5es para combat\u00ea-la e procurar reverter as medidas tomadas contra os trabalhadores e o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o momento de radicalizar as lutas e colocar as demandas das massas populares na pauta, diminuindo o espa\u00e7o para acordos e negocia\u00e7\u00f5es de governabilidade em qualquer eventual futuro governo. As elei\u00e7\u00f5es ser\u00e3o um cen\u00e1rio de luta importante em 2022, mas sua qualidade depende em grande medida das lutas que formos capazes de empreender ainda este ano.<\/p>\n<p>O MOMENTO \u2013 Quais s\u00e3o os cen\u00e1rios poss\u00edveis diante das fortes tens\u00f5es do atual cen\u00e1rio da luta de classes, o que fazer?<\/p>\n<p>MAURO IASI \u2013 Os cen\u00e1rios que se abrem na atual conjuntura pol\u00edtica brasileira poderiam ser resumidos assim. No primeiro cen\u00e1rio os segmentos das classes dominantes que apostam no esvaziamento de Bolsonaro, conseguiram neutralizar seus arroubos golpistas e lograriam constituir uma terceira via. Neste cen\u00e1rio, inicia-se um ataque \u00e0 candidatura da centro-esquerda, hoje favorita, buscando reunificar a direita, a extrema direita e o centro pelo apelo antipetista.<\/p>\n<p>Este cen\u00e1rio pressup\u00f5e que a direita brasileira pactue o isolamento do atual presidente retirando deste a capacidade de rea\u00e7\u00e3o diante de sua poss\u00edvel puni\u00e7\u00e3o ou desidrata\u00e7\u00e3o eleitoral. O problema \u00e9 que Bolsonaro se prepara para este cen\u00e1rio amea\u00e7ando uma ruptura, resta saber se de fato tem apoio em aparatos militares e policiais para tanto, assim como respaldo de segmentos de massa, ou estamos diante de um blefe.<\/p>\n<p>O segundo cen\u00e1rio \u00e9 que o desgaste n\u00e3o \u00e9 suficiente para retirar o atual presidente da disputa eleitoral, nem a ofensiva jur\u00eddico e pol\u00edtica resulta em impedimento, ao mesmo tempo em que a esperada terceira via n\u00e3o se efetiva. Este cen\u00e1rio abre duas possibilidades: de um lado uma blocagem da rea\u00e7\u00e3o em torno de Bolsonaro (como em 2018) para evitar a volta do petismo, ou um pacto com Lula para que este seja de fato a \u201cterceira via\u201d (coisa que ao que tudo indica o l\u00edder petista parece estar disposto).<\/p>\n<p>Seja qual for o cen\u00e1rio, o papel das manifesta\u00e7\u00f5es de massa \u00e9 essencial. N\u00e3o estamos preparados para enfrentar uma ruptura, assim como a esquerda tem mais dificuldades em se apresentar como alternativa eleitoral do que a pr\u00f3pria terceira via. Nesta dire\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial que o processo de luta neste ano encurte o espa\u00e7o das manobras e acordos e coloque com clareza os interesses populares na pauta pol\u00edtica. As lutas nos fortalecem para o enfrentamento contra a extrema direita, nos ajudam a precaver das manipula\u00e7\u00f5es da direita que tentar\u00e1 se apresentar com novo roupagem para passar a mesma pauta reacion\u00e1ria, da mesma forma que colocam as massas e os trabalhadores como for\u00e7a pol\u00edtica que n\u00e3o pode ser ignorada pela centro-esquerda em seus anseios conciliat\u00f3rios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27757\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[223],"class_list":["post-27757","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7dH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27757","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27757"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27757\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27757"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27757"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27757"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}