{"id":27769,"date":"2021-08-28T02:11:13","date_gmt":"2021-08-28T05:11:13","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27769"},"modified":"2021-09-05T02:58:05","modified_gmt":"2021-09-05T05:58:05","slug":"imperialismo-dos-eua-provoca-o-caos-no-afeganistao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27769","title":{"rendered":"Imperialismo dos EUA provoca o caos no Afeganist\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.deccanherald.com\/sites\/dh\/files\/styles\/article_detail\/public\/articleimages\/2021\/08\/19\/2021-08-16t145741z2112283558rc2e6p9kb2wvrtrmadp3afghanistan-conflictjpg-1021407-1629380631.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Nota Pol\u00edtica do PCB<\/p>\n<p>A retomada de Cabul e das principais cidades do Afeganist\u00e3o pelo Talib\u00e3 \u00e9 o ponto culminante do processo de desgaste da ocupa\u00e7\u00e3o militar do pa\u00eds pelos Estados Unidos, OTAN e seus aliados, a partir de 2001. \u00c9 uma clara derrota do imperialismo estadunidense naquela regi\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Por sua vez, os Estados Unidos nunca tiveram como objetivo empreender a\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas para superar a mis\u00e9ria e o desemprego urbano que impera no Afeganist\u00e3o, um dos mais oprimidos pa\u00edses perif\u00e9ricos do mundo. Efetivaram iniciativas de pequeno alcance, concentradas em Cabul e algumas cidades, como a constru\u00e7\u00e3o de escolas e o fomento ao pequeno com\u00e9rcio, sem qualquer altera\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio de falta de infraestrutura econ\u00f4mica e social. O pa\u00eds continuou sendo um dos mais pobres do mundo, com elevad\u00edssimos \u00edndices de desemprego e analfabetismo. A ocupa\u00e7\u00e3o militar manteve o dom\u00ednio das antigas classes dominantes e lideran\u00e7as pol\u00edticas regionais, n\u00e3o conseguindo derrotar o Talib\u00e3, que, pouco a pouco, foi reconstruindo alian\u00e7as pol\u00edticas e reconquistando territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>A economia do pa\u00eds manteve-se em torno da agricultura de subsist\u00eancia e do cultivo da papoula, que cresceu durante a ocupa\u00e7\u00e3o imperialista. A papoula \u00e9 a mat\u00e9ria-prima b\u00e1sica para a fabrica\u00e7\u00e3o do \u00f3pio e da hero\u00edna, e a renda auferida na sua produ\u00e7\u00e3o, organizada como um \u201ccapitalismo rural\u201d, vai para os \u201csenhores da guerra\u201d locais, que det\u00eam grande poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o se deu como uma resposta dos EUA aos ataques contra as torres g\u00eameas e outros alvos desferidos pela Al-Qaeda naquele ano, que deixaram um saldo de cerca de tr\u00eas mil americanos mortos e mostrou ao mundo uma imagem de fragilidade do pa\u00eds. A alega\u00e7\u00e3o dos EUA para a invas\u00e3o foi a de que o Talib\u00e3 dava apoio a Osama Bin Laden, l\u00edder da Al-Qaeda, que estaria em territ\u00f3rio afeg\u00e3o, e a outras organiza\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas terroristas antiamericanas. Na realidade, a motiva\u00e7\u00e3o de fundo para a a\u00e7\u00e3o foi a tentativa de recuperar a imagem de for\u00e7a e a condi\u00e7\u00e3o de principal pot\u00eancia do mundo, que os EUA j\u00e1 vinham perdendo no cen\u00e1rio de multipolaridade que ent\u00e3o se consolidava.<\/p>\n<p>O Afeganist\u00e3o tem uma posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica importante, fazendo fronteira com China, Paquist\u00e3o, Ir\u00e3, Turcomenist\u00e3o, Uzbequist\u00e3o e Tajiquist\u00e3o. Contando sempre com rotas comerciais valiosas, foi alvo de invas\u00f5es de persas, mong\u00f3is e outros povos, e esteve sob controle da Inglaterra no s\u00e9culo XIX, no processo de disputa com a R\u00fassia pelo dom\u00ednio do territ\u00f3rio. A Rep\u00fablica foi alcan\u00e7ada em 1973, em meio a conflitos \u00e9tnicos, disputas religiosas e divis\u00f5es tribais seculares.<\/p>\n<p>A barb\u00e1rie que se manifesta e se materializa na conforma\u00e7\u00e3o de um novo governo ligado ao fundamentalismo isl\u00e2mico no Afeganist\u00e3o \u00e9 resultado direto de d\u00e9cadas de interven\u00e7\u00e3o imperialista na regi\u00e3o e da derrota da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Afeganist\u00e3o (RDA) nos anos oitenta do s\u00e9culo XX. Recordemos que a Revolu\u00e7\u00e3o Popular de Abril de 1978 (Revolu\u00e7\u00e3o de Saur), realizada sob a dire\u00e7\u00e3o do Partido Democr\u00e1tico Popular do Afeganist\u00e3o (PDPA), promoveu transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, culturais, econ\u00f4micas e sociais, tais como a Reforma Agr\u00e1ria, garantia do acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, direitos fundamentais para as mulheres afeg\u00e3s, dentre outros.<\/p>\n<p>Em 1979, ap\u00f3s uma intensa crise pol\u00edtica que contou com a a\u00e7\u00e3o de grupos armados de oposi\u00e7\u00e3o ao novo governo de corte socialista, que culminou com o assassinato do presidente, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica forneceu ajuda militar ao pa\u00eds e manteve o apoio ao regime socialista, que contou com Brabak Kamal na presid\u00eancia at\u00e9 1986. A ajuda internacionalista do Ex\u00e9rcito Vermelho Sovi\u00e9tico foi solicitada pelo Governo Afeg\u00e3o para combater a contrarrevolu\u00e7\u00e3o apoiada pelos Estados Unidos e aliados da OTAN. Houve forte oposi\u00e7\u00e3o aos governos socialistas por parte de setores conservadores da sociedade afeg\u00e3, principalmente contra as propostas de reforma agr\u00e1ria e de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres, um ponto inegoci\u00e1vel para as organiza\u00e7\u00f5es comunistas afeg\u00e3s. O imperialismo apoiou, armou e treinou os Dusmanis (Mujahedins). Da base social desses agrupamentos surgiram os Talib\u00e3s (formados nos campos de refugiados e escolas isl\u00e2micas do Paquist\u00e3o) e outras fac\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas que se orientam por uma interpreta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e fundamentalista do Isl\u00e3.<\/p>\n<p>A URSS, sob comando de Gorbachev, come\u00e7ou a retirar a ajuda internacionalista a partir de 1988, deixando completamente o pa\u00eds em 1989 e, ap\u00f3s alguns anos de guerra civil que se iniciou entre grupos \u00e9tnicos e religiosos, o grupo sunita Talib\u00e3 tomou o controle das principais cidades do Afeganist\u00e3o e da capital, Cabul, em 1996. Imp\u00f4s-se um regime teocr\u00e1tico fundamentalista no pa\u00eds, que transformou escolas em quart\u00e9is e promoveu execu\u00e7\u00f5es de \u201cinfi\u00e9is\u201d, persegui\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio das lideran\u00e7as comunistas e intensa repress\u00e3o \u00e0s mulheres \u2013 adultas e crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Mantiveram-se, no per\u00edodo da ocupa\u00e7\u00e3o imperialista dos EUA, OTAN e aliados, governos artificiais e corruptos, que empregaram uma pequena parte da popula\u00e7\u00e3o. Foi constru\u00eddo e treinado um ex\u00e9rcito afeg\u00e3o, com cerca de trezentos mil soldados, cujo n\u00e3o apoio aos invasores foi claramente demonstrado pela sua total ina\u00e7\u00e3o e mesmo ades\u00e3o desses militares ao Talib\u00e3. A ofensiva para a retomada do poder contou com alian\u00e7as entre o Talib\u00e3, os grupos dominantes e l\u00edderes locais e n\u00e3o sofreu oposi\u00e7\u00e3o. Come\u00e7aram a haver, ent\u00e3o, negocia\u00e7\u00f5es entre os EUA e as lideran\u00e7as da regi\u00e3o para a retirada das tropas invasoras do Afeganist\u00e3o. Houve tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de acordos com o Talib\u00e3 por parte da OTAN.<\/p>\n<p>A retomada do poder pelo Talib\u00e3, operada em paralelo \u00e0 retirada das for\u00e7as militares dos EUA e seus aliados, foi mais um golpe para o imperialismo, que j\u00e1 havia sido derrotado na Guerra da S\u00edria. A decis\u00e3o de retirar as tropas foi tomada por conta n\u00e3o apenas do desgaste interno causado pelo impacto social das mortes de soldados, mas tamb\u00e9m pelos gastos de trilh\u00f5es de d\u00f3lares realizados ao longo de duas d\u00e9cadas para a manuten\u00e7\u00e3o da guerra, e j\u00e1 vinha sendo negociada com o Talib\u00e3 havia tempo.<\/p>\n<p>A retirada n\u00e3o interrompe o movimento de tentativa, pelo governo dos Estados Unidos, de reposicionamento do pa\u00eds no cen\u00e1rio internacional, onde tenta retomar a hegemonia pol\u00edtica desgastada e se fortalecer para enfrentar a China e seu bloco de alian\u00e7as \u2013 com destaque para a R\u00fassia \u2013 no mercado mundial e no campo pol\u00edtico. A retirada tampouco significa a redu\u00e7\u00e3o das posturas belicistas e intervencionistas que os EUA adotam, rotineiramente, em suas a\u00e7\u00f5es externas. \u00c9 prov\u00e1vel que a alian\u00e7a do novo governo Talib\u00e3 com o bloco China-R\u00fassia traga investimentos econ\u00f4micos e sociais para o Afeganist\u00e3o, como se observa nas a\u00e7\u00f5es chinesas com o seu aliado na Rota da Seda e outras iniciativas.<\/p>\n<p>A nova lideran\u00e7a Talib\u00e3 no poder se apresentou inicialmente com uma postura mais moderada e mais pol\u00edtica em compara\u00e7\u00e3o com a dos anos 1996 \u2013 2001, quando esteve no poder. Busca algum reconhecimento internacional e anuncia que respeitar\u00e1 os direitos das mulheres, as quais, segundo os pronunciamentos mais recentes dos novos governantes, poder\u00e3o estudar, trabalhar e andar desacompanhadas nas ruas, desde que sigam as leis isl\u00e2micas, a sharia, na interpreta\u00e7\u00e3o talib\u00e3.<\/p>\n<p>Essa postura pode indicar que as alas mais extremistas \/ obscurantistas foram afastadas, e que o novo regime ter\u00e1 uma estrutura mais legalmente estruturada. Mas tudo leva a crer tratar-se apenas de um jogo de cena, consubstanciado por um discurso mais flex\u00edvel, com vistas a atenuar as resist\u00eancias contr\u00e1rias ao novo governo e dissuadir, entre outros, as organiza\u00e7\u00f5es anti-imperialistas para que passem a apoiar o Talib\u00e3.<\/p>\n<p>O momento pede que as for\u00e7as revolucion\u00e1rias, comunistas, socialistas e progressistas mantenham aten\u00e7\u00e3o sobre a evolu\u00e7\u00e3o dos acontecimentos no Afeganist\u00e3o e a mobiliza\u00e7\u00e3o para que a derrota do imperialismo naquele pa\u00eds seja acompanhada pela resist\u00eancia popular e a luta por um processo de constru\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a e igualdade social, com a supera\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria, da opress\u00e3o e do obscurantismo e a elimina\u00e7\u00e3o da estrutura capitalista naquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>Comit\u00ea Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27769\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[374,26],"tags":[233,246],"class_list":["post-27769","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-afeganistao","category-c25-notas-politicas-do-pcb","tag-6a","tag-np"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7dT","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27769","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27769"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27769\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27769"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27769"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27769"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}