{"id":27793,"date":"2021-09-05T02:59:05","date_gmt":"2021-09-05T05:59:05","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27793"},"modified":"2021-09-05T02:59:05","modified_gmt":"2021-09-05T05:59:05","slug":"os-talibas-e-a-obra-sangrenta-da-otan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27793","title":{"rendered":"Os talib\u00e3s e a obra sangrenta da OTAN"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images.axios.com\/GmSu5paXdam8dnaq0CcZSa0wAPk%3D\/0x113:6869x3977\/1920x1080\/2018\/11\/14\/1542207350503.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Um fuzileiro norte-americano na base a\u00e9rea de Bost, em Helmand, Afeganist\u00e3o (foto de arquivo)<br \/>\nCr\u00e9ditosAndrew Renneisen \/ Getty Images<\/p>\n<p>Por Jos\u00e9 Goul\u00e3o<\/p>\n<p>ABRIL ABRIL<\/p>\n<p>Uma das criaturas, os Talib\u00e3, voltou-se contra o criador, na sequ\u00eancia da arrog\u00e2ncia e de um erro de c\u00e1lculo deste. Isto n\u00e3o quer dizer que a li\u00e7\u00e3o tenha sido aprendida em Washington e em Bruxelas.<\/p>\n<p>A OTAN foi expulsa do Afeganist\u00e3o, derrotada e humilhada. Vinte anos, centenas de milhares de v\u00edtimas humanas, 2,23 bilh\u00f5es de d\u00f3lares depois deixa um pa\u00eds destro\u00e7ado, o s\u00e9timo mais pobre do mundo, com 47% da popula\u00e7\u00e3o abaixo do n\u00edvel de pobreza e tr\u00eas quartos do or\u00e7amento do governo dependente da ajuda internacional; as \u00fanicas atividades econ\u00f4micas s\u00e3o a corrup\u00e7\u00e3o da elite colaboracionista e a exporta\u00e7\u00e3o de \u00f3pio, respons\u00e1vel por mais de 80% da hero\u00edna comercializada ilegalmente no mundo. Para tr\u00e1s ficou uma na\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os da mesma organiza\u00e7\u00e3o em que se encontrava quando se iniciou a invas\u00e3o ocidental, em outubro de 2001 \u2013 os extremistas isl\u00e2micos dos Talib\u00e3. Da prometida democracia e do Estado centralizado nem sinais.<\/p>\n<p>Ah n\u00e3o, afinal n\u00e3o era isso que estava em causa para lan\u00e7ar a guerra, apesar das justifica\u00e7\u00f5es dadas ent\u00e3o pelo presidente George W. Bush. \u00abA nossa miss\u00e3o no Afeganist\u00e3o nunca teve como objetivo a constru\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o; nunca teve como objetivo a cria\u00e7\u00e3o de uma democracia unificada e centralizada\u00bb, explica o presidente norte-americano de agora, Joseph Biden. Quer\u00edamos apenas \u00abprevenir um ataque terrorista contra a p\u00e1tria americana\u00bb.<\/p>\n<p>Estas surpreendentes declara\u00e7\u00f5es levaram inclusive o jornal Washington Post, um dos \u00edcones da propaganda imperial corporativa, a constatar que \u00abos presidentes dos Estados Unidos\u00bb \u2013 e foram quatro \u2013 \u00abe os dirigentes militares enganaram deliberadamente o p\u00fablico sobre a mais longa guerra americana, conduzida durante duas d\u00e9cadas no Afeganist\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>A \u00abguerra contra o terror\u00bb e o \u00abterror\u00bb no poder<\/p>\n<p>\u00c9 cedo, muito cedo ainda para se conhecerem os pr\u00f3ximos caminhos do Afeganist\u00e3o depois de os Talib\u00e3 terem chegado a Cabul vencendo uma guerra de guerrilha em que, inseridos pacientemente na complexa sociedade afeg\u00e3, puseram em xeque a mais monstruosa m\u00e1quina de guerra alguma vez reunida no mundo. Verdade seja dita que a OTAN perdeu, mas o mesmo n\u00e3o aconteceu com alguns dos seus principais patrocinadores: o valor das a\u00e7\u00f5es dos cinco mais importantes negociantes de guerra dos Estados Unidos cresceu 58% em 20 anos.<\/p>\n<p>Apesar das alarmantes antevis\u00f5es catastrofistas em tons coloniais postas a circular pelos t\u00e3o zelosos defensores dos \u00abvalores ocidentais\u00bb, com destaque para o chefe da pol\u00edtica externa da Uni\u00e3o Europeia, Josep Borrell, \u00e9 prematuro fazer previs\u00f5es sobre o que vir\u00e1 efetivamente a ser a atua\u00e7\u00e3o de um governo resultante da vit\u00f3ria talib\u00e3. Poder\u00e1 admitir-se, sem grande margem de erro, que n\u00e3o suscitar\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o pior, em termos de direitos humanos e das mulheres, do que as j\u00e1 existentes, por exemplo, na Ar\u00e1bia Saudita, Qatar, Emirados \u00c1rabes Unidos ou mesmo no enclave s\u00edrio de Idlib, governado pela al-Qaeda a rogo dos Estados Unidos e da OTAN. Sendo que estes casos entre os \u00abnossos aliados\u00bb n\u00e3o suscitam t\u00e3o vis\u00edvel inc\u00f4modo dos dedicados ativistas do atlantismo, de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais afins e respectivos porta-vozes na comunica\u00e7\u00e3o social dominante.<\/p>\n<p>\u00c9 oportuno assinalar, por outro lado, que a g\u00eanese da situa\u00e7\u00e3o atual poderia ter sido evitada. \u00c9 um fato hist\u00f3rico, mas significativamente omitido, que ap\u00f3s a forma\u00e7\u00e3o do primeiro governo colaboracionista em Cabul, logo a seguir ao in\u00edcio da invas\u00e3o, v\u00e1rios chefes talib\u00e3, entre eles o mullah Abdul Ghani Baradar, recente interlocutor do chefe da CIA numa reuni\u00e3o secreta e chefe da delega\u00e7\u00e3o talib\u00e3 nas negocia\u00e7\u00f5es do Qatar, propuseram uma plataforma de acordo com o ent\u00e3o presidente Hamid Karzai mediante a qual os Talib\u00e3 poderiam ter reconhecido o regime e integrar-se no sistema pol\u00edtico.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi Cabul que rejeitou a proposta, mas sim George W. Bush, ansioso pelas gl\u00f3rias imperiais da \u00abguerra contra o terror\u00bb, na sequ\u00eancia da qual acabou por colocar na capital afeg\u00e3, 20 anos depois, um grupo que faz parte da lista norte-americana e europeia de \u00aborganiza\u00e7\u00f5es terroristas\u00bb. Bush n\u00e3o queria ouvir falar de outra coisa que n\u00e3o fosse a guerra, ali\u00e1s j\u00e1 programada cerca de dois meses antes do 11 de Setembro. O resultado est\u00e1 \u00e0 vista.<\/p>\n<p>O caminho dos Talib\u00e3<\/p>\n<p>O que far\u00e3o os Talib\u00e3 com o poder que conquistaram pelas armas, expulsando o todo-poderoso ex\u00e9rcito imperial?<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre se estamos perante o movimento que governou o Emirado Isl\u00e2mico do Afeganist\u00e3o entre 1996 e 2001, com o qual a administra\u00e7\u00e3o Clinton chegou a entender-se pelo menos em neg\u00f3cios petrol\u00edferos, ou perante um \u00abnovo Talib\u00e3\u00bb \u00e9 ainda acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Existem ind\u00edcios de que os Talib\u00e3, na verdade uma imensa e complexa associa\u00e7\u00e3o fluida de senhores da guerra fundamentalistas isl\u00e2micos, na linha direta dos que em tempos foram patrocinados pela CIA para combater a presen\u00e7a militar sovi\u00e9tica em territ\u00f3rio afeg\u00e3o, s\u00e3o hoje uma entidade mais inclusiva, integrando setores tribais que v\u00e3o para l\u00e1 da dominante pashtun, designadamente tajiques, usbeques e at\u00e9 xiitas hazara. Estes foram, nos tempos iniciais dos Talib\u00e3, na primeira metade da d\u00e9cada de noventa, as grandes v\u00edtimas dos ent\u00e3o conhecidos como \u00abestudantes de teologia\u00bb, oriundos do Paquist\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m ind\u00edcios comprovados de que os Talib\u00e3 est\u00e3o negociando uma ampliada coliga\u00e7\u00e3o de governo, no m\u00ednimo para criar uma situa\u00e7\u00e3o em que um novo executivo em Cabul seja reconhecido internacionalmente, uma hip\u00f3tese remota para n\u00e3o ficar sujeito \u00e0 asfixia financeira preparada pelos Estados Unidos: congelamento dos 9,4 bilh\u00f5es de d\u00f3lares de reservas do Banco Central Afeg\u00e3o, cancelamento de empr\u00e9stimos do FMI \u2013 aut\u00eantico instrumento da OTAN \u2013 incluindo o de 460 milh\u00f5es de d\u00f3lares a t\u00edtulo do combate \u00e0 Covid-19, prov\u00e1vel esbulho do ouro afeg\u00e3o depositado internacionalmente, como acontece em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Venezuela.<\/p>\n<p>Os Talib\u00e3 est\u00e3o negociando com Hamid Karzai, o primeiro presidente do regime de ocupa\u00e7\u00e3o; Abdullah Abdullah, chefe do \u00abConselho Superior de Reconcilia\u00e7\u00e3o Nacional\u00bb \u2013 ambos \u00abaceit\u00e1veis\u00bb pelos norte-americanos; e ainda com o senhor da guerra Gulbudin Hekmatiar, duas vezes primeiro-ministro, chefe da Irmandade Mu\u00e7ulmana no Afeganist\u00e3o e um pol\u00edtico que, apesar de ter jurado fidelidade \u00e0 al-Qaeda, concorreu \u00e0s \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais patrocinadas pela OTAN.<\/p>\n<p>Instabilidade como continua\u00e7\u00e3o da guerra<\/p>\n<p>Com esta estrat\u00e9gia de negocia\u00e7\u00e3o ampliada os Talib\u00e3 pretendem dar corpo \u00e0 sua promessa de \u00abgoverno inclusivo\u00bb e, ao mesmo tempo, tentar retirar espa\u00e7o \u00e0 argumenta\u00e7\u00e3o norte-americana e dos aliados da OTAN sobre o seu irredentismo terrorista.<\/p>\n<p>As recentes visitas de delega\u00e7\u00f5es talib\u00e3 \u00e0 R\u00fassia, \u00e0 China e ao Ir\u00e3 revelam um esfor\u00e7o no sentido da estabilidade regional atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o no processo de integra\u00e7\u00e3o da \u00c1sia Central e do Sul cujo principal ve\u00edculo \u00e9 a Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai (OCX), entidade que d\u00e1 corpo aos entendimentos entre Moscou e Pequim.<\/p>\n<p>Os presidentes Putin e Xi Jinping falaram por telefone depois da chegada dos Talib\u00e3 a Cabul e salientaram a import\u00e2ncia da \u00abrapidez em intensificar os esfor\u00e7os contra as amea\u00e7as do terrorismo e o tr\u00e1fico de droga com origem no Afeganist\u00e3o, a import\u00e2ncia de estabelecer a paz e de impedir que a instabilidade passe para pa\u00edses adjacentes\u00bb.<\/p>\n<p>A R\u00fassia preza sobretudo a estabilidade em pa\u00edses vizinhos do Afeganist\u00e3o como o Uzbequist\u00e3o, o Tajiquist\u00e3o e o Turquemenist\u00e3o.<\/p>\n<p>A China pretende defender os investimentos que tem realizado no Afeganist\u00e3o, nomeadamente na atividade mineira, na constru\u00e7\u00e3o da autoestrada que vence a m\u00edtica passagem do Khyber e na extens\u00e3o ao territ\u00f3rio afeg\u00e3o do eixo entre o territ\u00f3rio chin\u00eas e o Paquist\u00e3o integrado na Iniciativa Cintura e Estrada (ICE) ou nova Rota da Seda. Um oleoduto entre o Ir\u00e3 e territ\u00f3rio chin\u00eas \u00e9 outro objetivo a ser equacionado, neste caso no \u00e2mbito do volumoso acordo econ\u00f4mico estabelecido recentemente entre a China e Teer\u00e3. Pequim deseja igualmente que o novo governo afeg\u00e3o vede em absoluto as tentativas de incurs\u00f5es terroristas contra o territ\u00f3rio uigur do Xijiang. N\u00e3o faltam mercen\u00e1rios uigures no Isis e na al-Qaida, manobrados por m\u00e3os norte-americanas e turcas.<\/p>\n<p>Perante a eventualidade deste novo quadro regional e no \u00e2mbito da estrat\u00e9gia para cercar a R\u00fassia e isolar a China, os Estados Unidos n\u00e3o podem ver com bons olhos um caminho assim contr\u00e1rio aos objetivos ocidentais de globalismo e unilateralismo. A chamada \u00abordem internacional baseada em regras\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o surpreender\u00e1, portanto, que o objetivo actual de Washington seja a continua\u00e7\u00e3o da guerra atrav\u00e9s da sabotagem de todos os esfor\u00e7os para estabilizar a situa\u00e7\u00e3o afeg\u00e3.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da complexidade da estrutura tribal e \u00e9tnica da sociedade do Afeganist\u00e3o, onde frequentemente pontificam os senhores da guerra muito sens\u00edveis a quem d\u00e1 mais e onde o conceito de na\u00e7\u00e3o \u00e9 muito fr\u00e1gil, Washington poder\u00e1 recorrer tamb\u00e9m \u00e0s suas conhecidas liga\u00e7\u00f5es com o Isis, Daesh ou Estado Isl\u00e2mico \u2013 no caso afeg\u00e3o o Isis-Khorasan \u2013 e com a al-Qaida, que mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o amb\u00edgua com os Talib\u00e3.<\/p>\n<p>Trata-se, no fundo, da tentativa de engendrar no Afeganist\u00e3o uma situa\u00e7\u00e3o ingovern\u00e1vel como a deixada pela OTAN depois de desmantelar a L\u00edbia, igualmente em alian\u00e7a com mercen\u00e1rios extremistas isl\u00e2micos. \u00c9 o tipo de quadro, caracterizado pelos dom\u00ednios locais de feudos e mil\u00edcias, muito a jeito das transnacionais e do seu poder para corromper. E o Afeganist\u00e3o \u00e9 um fabuloso dep\u00f3sito de metais terras raras e tamb\u00e9m de l\u00edtio, riquezas essenciais para as novas tecnologias.<\/p>\n<p>Os recentes atentados em Cabul s\u00e3o sinais de uma estrat\u00e9gia que pretende demonstrar a incapacidade talib\u00e3 para fazer funcionar o pa\u00eds com estabilidade. Este quadro revela a import\u00e2ncia e o perigo dos instrumentos de desestabiliza\u00e7\u00e3o e de desgaste continuado do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O Isis-Khorasan ou Isis-K apenas se tornou uma verdadeira realidade no Afeganist\u00e3o a partir de 2015 e depois da derrota do \u00abcalifado\u00bb do Isis em torno de Raqqa, na S\u00edria.<\/p>\n<p>Datam dessa \u00e9poca as not\u00edcias segundo as quais os Estados Unidos e o Reino Unido promoveram, atrav\u00e9s da CIA, a transfer\u00eancia de mercen\u00e1rios do Isis e respectivas fam\u00edlias da S\u00edria para o Leste do Afeganist\u00e3o. Mais recentemente tem-se falado muito do fen\u00f4meno \u00abDaesh Airlines\u00bb, a ponte a\u00e9rea patrocinada pela Turquia que transfere terroristas do Isis de Idleb, na S\u00edria, para o Afeganist\u00e3o, a exemplo do movimento que tamb\u00e9m existiu em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 L\u00edbia.<\/p>\n<p>Outro neg\u00f3cio de grande porte e que ter\u00e1 certamente influ\u00eancia nos caminhos a seguir pelo Afeganist\u00e3o \u00e9 o da produ\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio de \u00f3pio, essencial para o abastecimento global de hero\u00edna, papel que o Afeganist\u00e3o da OTAN assumiu com um papel de quase-monop\u00f3lio em volumes jamais atingidos.<\/p>\n<p>Segundo os dados de Washington, foram investidos 10 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em opera\u00e7\u00f5es anti-droga durante a ocupa\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o. Esse foi o per\u00edodo, no entanto, em que a \u00e1rea de produ\u00e7\u00e3o de \u00f3pio no pa\u00eds quadriplicou, n\u00e3o sendo segredo que o narcotr\u00e1fico \u00e9 um expediente atrav\u00e9s do qual a CIA financia as suas opera\u00e7\u00f5es clandestinas. Como a cria\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o do seu \u00abex\u00e9rcito sombra\u00bb no Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>Disseram \u00abdireitos humanos\u00bb?<\/p>\n<p>\u00abEx\u00e9rcito sombra\u00bb. Uma estrutura terrorista clandestina ramificada e infiltrada que funciona no Afeganist\u00e3o sob a tutela da CIA no \u00e2mbito da ocupa\u00e7\u00e3o e que ganhou maior incremento a partir da \u00abOpera\u00e7\u00e3o \u00d4mega\u00bb, iniciativa da administra\u00e7\u00e3o de Barack Obama que se caracterizou pela transfer\u00eancia de for\u00e7as especiais das for\u00e7as armadas para os servi\u00e7os secretos. Aqui tiveram a possibilidade de criar e formar redes de terror para fazer trabalhos sujos que s\u00e3o \u00abincompat\u00edveis\u00bb com organiza\u00e7\u00f5es \u00abcivilizadas\u00bb como a OTAN, por exemplo a tortura, os assass\u00ednios seletivos e as atividades pr\u00f3prias dos esquadr\u00f5es da morte.<\/p>\n<p>Khost Protective Force (KPF) e a Direc\u00e7\u00e3o de Seguran\u00e7a Nacional (DNS) s\u00e3o dois corpos terroristas tutelados por for\u00e7as especiais transferidas das for\u00e7as regulares para a CIA e constitu\u00eddos por colaboracionistas afeg\u00e3os que se dedicaram a perseguir, torturar e assassinar opositores \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o. Estas mil\u00edcias, constitu\u00eddas por mais de dez mil agentes, atuaram como esquadr\u00f5es da morte atrav\u00e9s do pa\u00eds e tamb\u00e9m em Cabul. O prestigiado jornalista Seymour Hersh teve oportunidade de demonstrar que a CIA financiou as atividades do KPF atrav\u00e9s de receitas do tr\u00e1fico de hero\u00edna.<\/p>\n<p>Admite-se como poss\u00edvel que o Isis-K, tendo em conta os seus antecedentes e as suas liga\u00e7\u00f5es internas com senhores da guerra atuando em conjunto com os norte-americanos, seja um outro e mais recente corpo do \u00abex\u00e9rcito sombra\u00bb da CIA, mais orientado para a fase que se segue.<\/p>\n<p>A primeira das estruturas terroristas deste tipo a ser criada foi, h\u00e1 cerca de 10 anos, o Counter-Terrorism Pursuit Team (CTPT), um esquadr\u00e3o da morte com mais de tr\u00eas mil membros.<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio da Miss\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas no Afeganist\u00e3o (UNAMA) considerou os grupos terroristas secretos como \u00abatores militares internacionais\u00bb atuando \u00abfora da cadeia de comando de governo\u00bb, existindo \u00abrelatos constantes\u00bb de que o KPF \u00abpraticou abusos de direitos humanos matando intencionalmente civis, detendo indiv\u00edduos ilegalmente, al\u00e9m de danificar e queimar intencionalmente propriedades civis durante opera\u00e7\u00f5es de busca e ataques noturnos\u00bb.<\/p>\n<p>Estes grupos terroristas, que certamente continuar\u00e3o infiltrados apesar da nova situa\u00e7\u00e3o, guiam-se por listas de pessoas para matar e capturar, a chamada \u00abLista Conjunta de Efeitos Priorit\u00e1rios\u00bb; nos \u00faltimos anos aderiram \u00e0 \u00abdronifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia\u00bb banalizando a cadeia de mortes em s\u00e9rie e a individualiza\u00e7\u00e3o de alvos.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da transfer\u00eancia de ativos das for\u00e7as regulares para a CIA, dilu\u00edram-se os rastros que pudessem conduzir at\u00e9 aos mais altos respons\u00e1veis por estas chacinas, certamente algu\u00e9m agindo secretamente e \u00e0 margem de quaisquer regras. Ao entrar em Cabul, os Talib\u00e3 apoderaram-se das listas de agentes do KPF e da DNS. N\u00e3o \u00e9 de estranhar, portanto, o af\u00e3 de muitos destes colaboracionistas para abandonarem apressadamente o territ\u00f3rio afeg\u00e3o atr\u00e1s dos seus chefes.<\/p>\n<p>Talvez isso explique tamb\u00e9m a raz\u00e3o pela qual tantos governos europeus avessos \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o de refugiados se mostraram recentemente t\u00e3o dispon\u00edveis para acolher afeg\u00e3os em fuga, afinal verdadeiros ex\u00e9rcitos de \u00abtradutores\u00bb, a acreditar nas explica\u00e7\u00f5es oficiais, e que talvez sejam a vers\u00e3o moderna dos pides que apenas carimbavam passaportes. N\u00e3o estranhemos que entre eles cheguem indiv\u00edduos respons\u00e1veis por atos de terror a servi\u00e7o de corpos como o KPF e a DNS e ao mesmo tempo considerados cidad\u00e3os de bem a t\u00edtulo dos servi\u00e7os prestados aos ocupantes da OTAN.<\/p>\n<p>O apre\u00e7o por estes refugiados de primeira contrasta com o destino degradante que a Uni\u00e3o Europeia reserva para milhares de refugiados afeg\u00e3os e de muitas outras nacionalidades penando nos campos de concentra\u00e7\u00e3o na L\u00edbia, financiados por Bruxelas, ou que se sujeitam \u00e0s selvagerias do Frontex e da Guarda Costeira grega quando pretendem entrar no territ\u00f3rio da Gr\u00e9cia. A Uni\u00e3o Europeia paga bilh\u00f5es de euros para que essas pessoas fiquem longe dos territ\u00f3rios europeus, mesmo que se afoguem em \u00e1guas j\u00f4nicas e mediterr\u00e2nicas. Existem ind\u00edcios de que tratamentos semelhantes est\u00e3o guardados para as novas ondas de afeg\u00e3os que pretendem deixar o pa\u00eds, mas que, por azar o seu, n\u00e3o integram a elite dos \u00abtradutores\u00bb. \u00c9 n\u00edtido que os ministros europeus do Interior j\u00e1 est\u00e3o desenvolvendo esfor\u00e7os de modo a que Bruxelas pague aos pa\u00edses vizinhos do Afeganist\u00e3o para que fiquem com esses refugiados de segunda.<\/p>\n<p>O Afeganist\u00e3o resultante da ocupa\u00e7\u00e3o e debandada da OTAN \u00e9 um mar de inc\u00f3gnitas. Para mem\u00f3ria futura, por\u00e9m, \u00e9 importante lembrar a g\u00eanese dos problemas, de modo a tentar entender os seus desenvolvimentos atuais e as eventuais solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os Talib\u00e3 que tomaram Cabul e est\u00e3o tentando formar governo s\u00e3o um resultado natural da \u00abOpera\u00e7\u00e3o Ciclone\u00bb, atrav\u00e9s da qual os presidentes norte-americanos James Carter e Ronald Regan, a conselho de figuras sinistras da conspira\u00e7\u00e3o como Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski, resolveram h\u00e1 cerca de 40 anos mobilizar e militarizar o extremismo isl\u00e2mico e lan\u00e7\u00e1-lo contra as tropas sovi\u00e9ticas presentes no territ\u00f3rio afeg\u00e3o para defender a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Afeganist\u00e3o \u2013 \u00fanico e curto per\u00edodo em que, por exemplo, as mulheres afeg\u00e3s tiveram plenos direitos c\u00edvicos.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias dos mujahidines afeg\u00e3os, com mentalidade e modos de atuar verdadeiramente medievais, representou uma viragem hist\u00f3rica na situa\u00e7\u00e3o internacional com repercuss\u00f5es tr\u00e1gicas, d\u00e9cada ap\u00f3s d\u00e9cada, um pouco por todo o mundo, principalmente no Oriente M\u00e9dio, na \u00c1frica, na \u00c1sia e at\u00e9 na Europa \u2013 cen\u00e1rio de grav\u00edssimos atentados terroristas. Dos mujahidines nasceram os Bin Ladens, as al-Qaidas, os Talib\u00e3, os \u00cdsis e todos os seus heter\u00f4nimos transnacionais que n\u00e3o poucas vezes voltam a ser utilizados como instrumentos de a\u00e7\u00f5es agressivas e guerras conduzidas pelos Estados Unidos e a OTAN, como acontece no Afeganist\u00e3o, na S\u00edria, na L\u00edbia, no Iraque, no I\u00eamen. Por alguma raz\u00e3o os criminosos mujahidines foram qualificados como \u00abcombatentes da liberdade\u00bb e assim recebidos solenemente na Casa Branca pelo presidente Ronald Reagan.<\/p>\n<p>Aconteceu agora que uma das criaturas, os Talib\u00e3, se voltou contra o criador, na sequ\u00eancia da arrog\u00e2ncia e de um erro de c\u00e1lculo deste. Isto n\u00e3o quer dizer que a li\u00e7\u00e3o tenha sido aprendida em Washington e em Bruxelas. Estejamos certos de que, no magma de incertezas em que o Afeganist\u00e3o est\u00e1 mergulhado, n\u00e3o faltar\u00e3o esfor\u00e7os, iniciativas e conspira\u00e7\u00f5es para restaurar velhas cumplicidades ou reaproveitar as que continuam plenamente ativas.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Goul\u00e3o, Exclusivo O Lado Oculto\/AbrilAbril<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27793\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[374],"tags":[233],"class_list":["post-27793","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-afeganistao","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7eh","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27793","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27793"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27793\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27793"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27793"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27793"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}