{"id":27795,"date":"2021-09-05T18:56:47","date_gmt":"2021-09-05T21:56:47","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27795"},"modified":"2021-09-05T18:56:47","modified_gmt":"2021-09-05T21:56:47","slug":"as-garras-ainda-afiadas-do-imperio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27795","title":{"rendered":"As garras ainda afiadas do Imp\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/media.defense.gov\/2019\/Mar\/22\/2002104513\/-1\/-1\/0\/190314-F-YC884-9750.JPG\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Piv\u00f4 para a \u00c1sia, condor para a Am\u00e9rica: as garras ainda afiadas do imp\u00e9rio [Parte 1]<\/p>\n<p>As reviravoltas geopol\u00edticas, durante todo o projeto imperial norte-americano, sempre implicaram mudan\u00e7as significativas na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Por Pedro Marin | Revista Opera<\/p>\n<p>No s\u00e9culo 19, a China contava com uma popula\u00e7\u00e3o superior a 450 milh\u00f5es de habitantes. Era h\u00e1 muito tempo um dos mercados mais importantes do mundo, compreendendo um ter\u00e7o da economia mundial e da popula\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria; um pa\u00eds unificado h\u00e1 vinte s\u00e9culos e assentado em uma hist\u00f3ria e cultura milenar. As Treze Col\u00f4nias Brit\u00e2nicas foram formadas entre os s\u00e9culos 17 e 18 na costa da Am\u00e9rica do Norte. Em 1776, declararam independ\u00eancia e formaram os Estados Unidos da Am\u00e9rica, com uma popula\u00e7\u00e3o de quase quatro milh\u00f5es de habitantes. Ao longo do s\u00e9culo 19, os Estados Unidos expandiriam seu territ\u00f3rio agressivamente em dire\u00e7\u00e3o ao oeste, sobre os corpos e a soberania de peles vermelhas e mexicanos, matando a sede de sua marcha com sangue de africanos escravizados, ao passo que aceleravam violentamente sua industrializa\u00e7\u00e3o. De quinta maior pot\u00eancia industrial, em 1840, os EUA passaram ao primeiro lugar, em 1895.<\/p>\n<p>O vigoroso crescimento econ\u00f4mico, no entanto, se chocava com tr\u00eas desafios: primeiro, as fronteiras de expans\u00e3o eram limitadas na medida em que se acabavam os territ\u00f3rios dispon\u00edveis \u00e0 conquista dentro da massa de terra onde as Treze Col\u00f4nias tinham sido fixadas a princ\u00edpio; segundo, as pot\u00eancias europeias, apesar de deixadas para tr\u00e1s na disputa pelos lucros, mantinham ainda um enorme poder colonial em todo o mundo, se n\u00e3o mais alicer\u00e7ado no tr\u00e1fico de escravos pelo Atl\u00e2ntico, de certo garantindo ainda formas de acumula\u00e7\u00e3o primitiva e uma primazia estrat\u00e9gica sobre os Estados Unidos; terceiro, essas pot\u00eancias europeias eram as credoras de boa parte da d\u00edvida norte-americana, pela qual financiaram seu desenvolvimento econ\u00f4mico. \u201cO crescimento da ind\u00fastria americana tornou a conquista de mercados no exterior n\u00e3o somente uma possibilidade, mas uma necessidade, duramente sentida. O militarismo constituiu, ent\u00e3o, o elemento indispens\u00e1vel, primeiro sob a forma de poderio naval, no seu processo de expans\u00e3o imperial\u201d, escreveu Moniz Bandeira. O esp\u00edrito da \u00e9poca pode ser compreendido pelas palavras exclamadas por William H. Seward, secret\u00e1rio de Estado norte-americano: \u201cVoc\u00eas j\u00e1 s\u00e3o a grande pot\u00eancia continental da Am\u00e9rica. Mas ser\u00e1 que isso os contenta? Eu acredito que n\u00e3o. Voc\u00eas querem o com\u00e9rcio do mundo. Isso \u00e9 algo que deve ser buscado no Pac\u00edfico. A na\u00e7\u00e3o que extrai o m\u00e1ximo da terra e fabrica mais, e mais vende a na\u00e7\u00f5es estrangeiras, deve ser e ser\u00e1 a grande pot\u00eancia da Terra\u201d.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o sobre o Pac\u00edfico, com foco na produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar e no mercado chin\u00eas, foi garantido, dentre outras coisas, pela invas\u00e3o ao Hava\u00ed em 1893, seguida pela proclama\u00e7\u00e3o de uma rep\u00fablica sob a presid\u00eancia do norte-americano Sanford B. Dole e a anexa\u00e7\u00e3o oficial do territ\u00f3rio pelos Estados Unidos. Enquanto avan\u00e7avam sobre o arquip\u00e9lago no Pac\u00edfico, os Estados Unidos voltavam sua aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m para as col\u00f4nias espanholas, dentre as quais se inclu\u00edam Cuba, Porto Rico, Guam e Filipinas, cujo dom\u00ednio foi conquistado ao fim da Guerra Hispano-Americana, com o Tratado de Paris. Para as Am\u00e9ricas, a anuncia\u00e7\u00e3o da Doutrina Monroe, em 1823 \u2013 segundo a qual todo o continente sul-americano constitu\u00eda um protetorado dos EUA, do qual o colonialismo europeu deveria ser expulso e ter seu acesso restrito \u2013, encontrava no governo de Theodore Roosevelt (1901-1909) sua forma mais acabada. A Pol\u00edtica do Big Stick e o Corol\u00e1rio Roosevelt promulgavam que \u201cirregularidades cr\u00f4nicas, ou uma incapacidade que resulte num afrouxamento geral dos la\u00e7os da sociedade civilizada, podem em \u00faltima inst\u00e2ncia exigir, na Am\u00e9rica como em outro lugar, interven\u00e7\u00e3o por alguma na\u00e7\u00e3o civilizada, e no Hemisf\u00e9rio Ocidental a ades\u00e3o dos Estados Unidos \u00e0 Doutrina Monroe pode for\u00e7ar os Estados Unidos, ainda que com relut\u00e2ncia, em casos flagrantes de tais irregularidades ou incapacidade, ao exerc\u00edcio de um poder de pol\u00edcia internacional\u201d.<\/p>\n<p>Essa \u201cpol\u00edcia internacional\u201d e seu porrete eram a manifesta\u00e7\u00e3o \u00faltima de uma produ\u00e7\u00e3o industrial que passava a encontrar sua \u00faltima fronteira: com um mercado interno cuja demanda j\u00e1 havia sido h\u00e1 muito superada pela capacidade produtiva, era hora de dar o passo seguinte e assegurar novos mercados. Longe das concep\u00e7\u00f5es quase religiosas pelas quais os norte-americanos se viam no espelho, expandir era o \u201cdestino manifesto\u201d da superprodu\u00e7\u00e3o capitalista, n\u00e3o de um povo escolhido por Deus; essa expans\u00e3o n\u00e3o se assentaria em m\u00e3os divinas, mas no poder naval, como pregava o comandante Alfred T. Mahan; n\u00e3o nos c\u00e9us, mas nos oceanos (o Pac\u00edfico e o Atl\u00e2ntico); n\u00e3o pela convers\u00e3o dos selvagens, mas pela guerra e o dom\u00ednio de seus territ\u00f3rios. O fr\u00edgido milagre mosaico da abertura dos dois mares veio com a constru\u00e7\u00e3o do Canal do Panam\u00e1, iniciada em 1904, quando os Estados Unidos arrancaram o pa\u00eds da Col\u00f4mbia, e finalizada em 1914.<\/p>\n<p>Assim, dos tr\u00eas desafios, dois passavam a ter solu\u00e7\u00e3o: os Estados Unidos aumentavam seus territ\u00f3rios e competiam por mercados na mesma medida em que tomavam o lugar dos antigos poderes coloniais, enquanto blindavam \u2013 da presen\u00e7a e influ\u00eancia deles \u2013 o hemisf\u00e9rio ocidental.<\/p>\n<p>A Primeira Guerra e a d\u00edvida<\/p>\n<p>Apesar dos avan\u00e7os dos Estados Unidos para al\u00e9m de suas fronteiras, em todo o continente americano e em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00c1sia, e do rebaixamento imposto \u00e0 Espanha, outras pot\u00eancias mantinham seus dom\u00ednios nos continentes asi\u00e1tico e africano, como Alemanha, Gr\u00e3-Bretanha e Fran\u00e7a. Ao contr\u00e1rio dos Estados Unidos, no entanto, estes poderes europeus n\u00e3o contavam com um espa\u00e7o vital assegurado, como era para os promulgadores da Doutrina Monroe o hemisf\u00e9rio ocidental, e haviam desenvolvido seu capitalismo em um mundo \u201cj\u00e1 territorialmente dividido em uma pluralidade de Estados feudais tardios, em disputa uns contra os outros, cada qual com seus pr\u00f3prios meios de agress\u00e3o e sistemas de agress\u00e3o\u201d, nas palavras de Perry Anderson. Este n\u00e3o era exatamente o caso de um pa\u00eds fundado a partir da coloniza\u00e7\u00e3o europeia, em um territ\u00f3rio \u201cvirgem\u201d, que assegurava para si um espa\u00e7o vital dentro e al\u00e9m de suas fronteiras, e separado de seus principais competidores pelos mares \u2013 n\u00e3o por t\u00edmidas fronteiras terrestres.<\/p>\n<p>Quando a Primeira Guerra estourou na Europa, as col\u00f4nias foram prontamente envolvidas. Um aumento enorme na demanda por produtos agr\u00edcolas, material b\u00e9lico e cr\u00e9dito assegurou que, ao fim da guerra, os Estados Unidos tivessem 21 mil novos milion\u00e1rios; que passassem de uma posi\u00e7\u00e3o em que deviam \u00e0 Europa uma soma entre 4 e 5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, em 1914, para uma em que eram credores de 11 bilh\u00f5es em d\u00edvidas europeias, em 1918. Entre os mortos da guerra, que n\u00e3o envolveu diretamente o territ\u00f3rio estadunidense, s\u00f3 0,58% eram norte-americanos; e o conflito terminou assegurando a ru\u00edna da Alemanha, segunda maior pot\u00eancia da \u00e9poca, bem como do imp\u00e9rio austro-h\u00fangaro, do otomano e do russo, de onde nascia a primeira revolu\u00e7\u00e3o socialista da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Com as pot\u00eancias competidoras destru\u00eddas e\/ou endividadas, os Estados Unidos emergiam na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 20 como uma pot\u00eancia imperialista inconteste. Apesar dessa posi\u00e7\u00e3o, e do \u201cglobalismo milenar\u201d que caracterizou a pol\u00edtica externa do presidente Wilson (1913-1921), a pol\u00edtica norte-americana da d\u00e9cada de 1920, sob os governos republicanos de Warren G. Hardin (1921-1923), Calvin Coolidge (1923-1929) e Herbert Hoover (1929-1933) seria caracterizada por um relativo isolacionismo. Conforme escreveu Perry Anderson, \u201cos Estados Unidos se concentraram na recupera\u00e7\u00e3o dos seus empr\u00e9stimos \u00e0 Europa, limitando suas outras opera\u00e7\u00f5es fora do hemisf\u00e9rio a tentativas ineficazes de levar a Alemanha a se recompor e de restringir a expans\u00e3o exagerada do Jap\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 China. [\u2026] Em uma d\u00e9cada, por\u00e9m, a chegada da Grande Depress\u00e3o foi um sinal de que a pr\u00e9-hist\u00f3ria do imp\u00e9rio norte-americano se aproximava do fim. [\u2026] A crise deixou claro que, por mais que as f\u00e1bricas norte-americanas \u2013 as fazendas em menor escala \u2013 estivessem relativamente isoladas do com\u00e9rcio mundial, os dep\u00f3sitos dos EUA n\u00e3o estavam isolados dos mercados financeiros internacionais [\u2026]\u201d.<\/p>\n<p>A Segunda Guerra e a reparti\u00e7\u00e3o do mundo<\/p>\n<p>A eclos\u00e3o de uma nova guerra mundial, em 1939, determinou as fronteiras dos c\u00e1lculos geopol\u00edticos norte-americanos. Por um lado, o sucesso alem\u00e3o implicaria numa ressurrei\u00e7\u00e3o da antiga segunda pot\u00eancia, agora ampliada com dom\u00ednios coloniais na pr\u00f3pria Europa. Por outro, uma vit\u00f3ria brit\u00e2nica fortificaria o bloco da libra esterlina. E \u201co pior de tudo talvez fosse uma destrui\u00e7\u00e3o m\u00fatua tal que, no caos que se seguiria, uma ou outra forma de socialismo pudesse tomar o controle do continente\u201d, como observa Anderson. Essa amea\u00e7a havia nascido na guerra anterior, obrigando uma participa\u00e7\u00e3o mais ativa dos Estados Unidos com suas tropas no campo de batalha, sem que isso significasse, no entanto, uma postura muito ativa em rela\u00e7\u00e3o ao nazismo. De fato, como declarou Truman, ent\u00e3o senador e futuro presidente no p\u00f3s-guerra e na Guerra Fria, em junho de 1941, semanas antes da Opera\u00e7\u00e3o Barbarossa jogar sete pa\u00edses contra o territ\u00f3rio sovi\u00e9tico, \u201cse virmos que a Alemanha est\u00e1 ganhando, devemos ajudar a R\u00fassia, e se a R\u00fassia estiver ganhando, devemos ajudar a Alemanha e, desse modo, deix\u00e1-los matar o maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas\u201d.<\/p>\n<p>No p\u00f3s-guerra seria necess\u00e1rio, mais do que assegurar a ocupa\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios, garantir uma nova ordem pol\u00edtica e econ\u00f4mica mundial que preservasse o capitalismo e o livre com\u00e9rcio em um grande bloco integrado \u00e0 hegemonia norte-americana, mas sem implicar nos erros cometidos depois da Primeira Guerra, e limitando a expans\u00e3o sovi\u00e9tica. Este foi o sentido geral da pol\u00edtica norte-americana durante os anos finais do conflito. Os principais rivais industriais dos EUA \u2013 Gr\u00e3-Bretanha, Alemanha e Jap\u00e3o \u2013 terminaram a guerra absolutamente destru\u00eddos (f\u00edsica ou economicamente), e era hora do imp\u00e9rio americano aprender com as li\u00e7\u00f5es da Primeira Guerra, seguindo o ensinamento de Maquiavel, segundo quem uma associa\u00e7\u00e3o de aliados, \u201cguardando contudo o comando da alian\u00e7a, a sede do imp\u00e9rio e a gl\u00f3ria da conquista\u201d (como faziam os romanos), \u00e9 superior \u00e0 liga de iguais e \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de s\u00faditos e soberanos.<\/p>\n<p>A sa\u00edda foi o renascimento da Liga das Na\u00e7\u00f5es, proposta por Wilson, agora como Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas; a expans\u00e3o global do princ\u00edpio de Portas Abertas (pol\u00edtica que os EUA fizeram avan\u00e7ar na China entre os s\u00e9culos 19 e 20, que promulgava condi\u00e7\u00f5es iguais de com\u00e9rcio para todas as pot\u00eancias); a cria\u00e7\u00e3o do Fundo Monet\u00e1rio Internacional como ferramenta de convertibilidade e estabilidade das moedas, buscando impedir desarranjos como o da crise de 29; o estabelecimento do Banco Internacional de Desenvolvimento e Reconstru\u00e7\u00e3o (BIRD) e o Banco Mundial, como formas de restaurar e reconstruir os pa\u00edses abalados pela Segunda Guerra, e impedir que o ciclo alem\u00e3o (da Primeira Guerra para a Segunda) se repetisse.<\/p>\n<p>\u201cTradicionalmente, as fortalezas do nacionalismo isolacionista [dos EUA] se localizavam nas pequenas empresas e na popula\u00e7\u00e3o de agricultores do centro-oeste; e os basti\u00f5es de um nacionalismo mais intervencionista \u2013 ou, na linguagem local, um \u2018internacionalismo\u2019 \u2013, nas elites banc\u00e1rias e corporativas da Costa Leste. A guerra uniu esses dois lados\u201d, escreve Anderson. \u201cEm 1945, com seu territ\u00f3rio intocado pela guerra, os Estados Unidos tinham uma economia tr\u00eas vezes maior que a URSS e cinco vezes maior que a da Gr\u00e3-Bretanha, controlavam metade da produ\u00e7\u00e3o industrial do mundo e tr\u00eas quartos das suas reservas de ouro. As bases institucionais de uma paz est\u00e1vel teriam de refletir essa predomin\u00e2ncia\u201d. A Europa passava a se integrar, depois da guerra, a esse sistema institucional sob o dom\u00ednio do d\u00f3lar, e Jap\u00e3o e Alemanha, \u201cas duas regi\u00f5es industriais mais avan\u00e7adas que se encontravam entre os EUA e a URSS, e que haviam detonado a guerra\u201d, tiveram sua reconstru\u00e7\u00e3o assegurada pelos EUA \u201ccomo pr\u00f3speros baluartes do mundo livre e posi\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas do poderio militar norte-americano\u201d.<\/p>\n<p>A Guerra Fria nascia e, como escrevi antes, \u201cfoi combatida em todo o mundo, nas dimens\u00f5es cultural, pol\u00edtica e econ\u00f4mica. Batalhas militares eram efetivamente travadas, mas com car\u00e1ter limitado.\u201d Esses limites eram as fronteiras entre o Primeiro e o Terceiro Mundo. A no\u00e7\u00e3o de \u201cseguran\u00e7a\u201d dos Estados Unidos obteve primazia neste tempo, sem que outros princ\u00edpios, como o excepcionalismo e o Destino Manifesto, fossem abandonados. A Lei de Seguran\u00e7a Nacional criou o gigantesco Departamento de Defesa, o Estado-Maior Unificado (conselho de generais que assessora o secret\u00e1rio de Defesa e o presidente), o Conselho de Seguran\u00e7a Nacional e a maior ag\u00eancia de espionagem do mundo, a Ag\u00eancia Central de Intelig\u00eancia (CIA). A pol\u00edtica externa de Truman (1945\u20131953), moldada para o per\u00edodo, se caracterizava pela \u201cdefesa\u201d do mundo ocidental e a \u201cconten\u00e7\u00e3o\u201d do poder sovi\u00e9tico. Mas como bem observou Anderson, \u201ca iniciativa do conflito entre os dois [EUA e URSS] estava com a parte mais forte [\u2026], a subst\u00e2ncia da doutrina estava longe de ser defensiva. Em termos nominais, o conselho era ser firme e ter paci\u00eancia t\u00e1tica com o objetivo de cansar o inimigo pela \u2018aplica\u00e7\u00e3o h\u00e1bil e vigilante de for\u00e7as contr\u00e1rias em uma s\u00e9rie de pontos geogr\u00e1ficos e pol\u00edticos em constante mudan\u00e7a\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Este objetivo fora alcan\u00e7ado nos pa\u00edses que compuseram o Eixo durante a Segunda Guerra. A Alemanha foi dividida, e o Jap\u00e3o passou rapidamente \u00e0 esfera de influ\u00eancia norte-americana. Na Europa, pa\u00edses como Gr\u00e9cia, Fran\u00e7a e It\u00e1lia, onde a resist\u00eancia comunista ao fascismo ganhara ades\u00e3o e simpatia popular, foram trazidos para perto do bloco capitalista depois do fim da guerra \u2013 no caso grego, por meio de um golpe militar, nos casos italiano e franc\u00eas, por uma s\u00e9rie de medidas combinadas, clandestinas e fraudulentas, para impedir a ascens\u00e3o dos partidos comunistas.<\/p>\n<p>No Leste Europeu, na \u00c1sia, Oriente M\u00e9dio e \u00c1frica, a situa\u00e7\u00e3o era um pouco mais disputada: a revolu\u00e7\u00e3o chinesa, em 1949, e a revolu\u00e7\u00e3o coreana, de 1948 a 1953, constitu\u00edram um contrapeso \u00e0 presen\u00e7a norte-americana na regi\u00e3o. No Oriente M\u00e9dio, Ir\u00e3, Iraque e Egito tamb\u00e9m o compunham. Mas no seu espa\u00e7o vital, a Am\u00e9rica Latina e Caribe, os Estados Unidos mantinham-se em absoluta seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>O impacto geopol\u00edtico da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana<\/p>\n<p>Sozinha, a revolu\u00e7\u00e3o cubana constituiu, na Am\u00e9rica Latina, o evento mais importante do s\u00e9culo 20. Em termos pol\u00edticos, geopol\u00edticos, militares e sociais, estreou uma situa\u00e7\u00e3o exc\u00eantrica para um imp\u00e9rio que, at\u00e9 ent\u00e3o, tinha conseguido manter o hemisf\u00e9rio ocidental como zona liberada; algo que n\u00e3o se pode perder de vista nunca nas acaloradas discuss\u00f5es sobre Cuba hoje.<\/p>\n<p>No campo pol\u00edtico, Cuba inaugurou a constitui\u00e7\u00e3o de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista no continente; em termos militares, debutou a possibilidade de uma guerra de guerrilhas triunfar nas Am\u00e9ricas; em termos sociais, encetou um n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, seguran\u00e7a e distribui\u00e7\u00e3o de renda e terra inaudito para a regi\u00e3o e, em termos geopol\u00edticos, foi uma cusparada nos pap\u00e9is velhos da Doutrina Monroe. Tudo no apogeu da Guerra Fria.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1958, meses antes do triunfo da revolu\u00e7\u00e3o, os Estados Unidos, que haviam dado apoio ao ditador Fulgencio Batista durante toda sua \u201cluta contra o comunismo\u201d (nas palavras de Nathan F. Twining, presidente do Estado-Maior-Conjunto de Eisenhower), passaram a trabalhar por uma alternativa capaz de impedir a ascens\u00e3o de Castro e seus guajiros. A primeira esperan\u00e7a foi que Rivero Ag\u00fcero, candidato ligado a Batista, eleito em um processo convocado \u00e0s pressas pelo ditador (que teve absten\u00e7\u00e3o de 80%, apesar do voto ser obrigat\u00f3rio) pudesse represent\u00e1-la. N\u00e3o p\u00f4de. Formaram ent\u00e3o uma lista de nomes que, possivelmente, poderiam compor uma junta provis\u00f3ria, que inclu\u00eda o coronel Ram\u00f3n Barqu\u00edn, o major Enrique Borbonet, o general Mart\u00edn D\u00edaz Tamayo e o propriet\u00e1rio da Bacardi, Jos\u00e9 Pep\u00edn Bosch. Tamb\u00e9m n\u00e3o funcionou. Com o avan\u00e7o das colunas de Che Guevara e Camilo Cienfuegos sobre Santa Clara e da coluna de Fidel sobre Santiago, Batista renunciou e fugiu, junto de Ag\u00fcero, para a Rep\u00fablica Dominicana. A \u00faltima e in\u00fatil cartada foi tentar a forma\u00e7\u00e3o de uma junta civil-militar liderada por Barqu\u00edn. Mas a revolu\u00e7\u00e3o triunfou sobre ela, marcando, em 1 de janeiro de 1959, um ano verdadeiramente novo em Havana.<\/p>\n<p>Nos anos 1960 come\u00e7aram a se formar os primeiros grupos contrarrevolucion\u00e1rios de exilados nos Estados Unidos, que j\u00e1 naquela altura sa\u00edam com avi\u00f5es de bases na Fl\u00f3rida para incendiar canaviais cubanos. \u00c9 neste ano que a enorme depend\u00eancia de Cuba na sua produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar (80% de suas exporta\u00e7\u00f5es eram feitas a partir da cana) e dos Estados Unidos, que absorvia entre 50% e 60% disso, ser\u00e1 usada pela primeira vez como arma. \u201c\u00c0quele tempo, embora numerosos pa\u00edses, sem incluir os da Europa Oriental, tivessem condi\u00e7\u00f5es, isoladamente ou em grupo, de suprir os bens e servi\u00e7os de que Cuba necessitava, poucos poderiam aumentar significativamente suas importa\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar, de modo a equilibrar a balan\u00e7a comercial. Com exce\u00e7\u00e3o da Gr\u00e3-Bretanha, a maior parte produzia a\u00e7\u00facar al\u00e9m de suas necessidades de consumo e distribu\u00eda as importa\u00e7\u00f5es por um n\u00famero mais ou menos constante de tradicionais exportadores, sendo que os pa\u00edses europeus adquiriam, direta ou indiretamente, grande quantidade de col\u00f4nias africanas ou insulares. Tratava-se, por conseguinte, de um mercado de certa forma vinculado por \u00adacordos regionais, monet\u00e1rios e de v\u00e1rios outros tipos a fornece\u00addores tra\u00ad\u00addicionais, bem como saturado, devido ao aumento da produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 do a\u00e7\u00facar de cana, pelos pa\u00edses subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, como tamb\u00e9m do a\u00e7\u00facar de beterraba pelas na\u00e7\u00f5es industriais\u201d, de acordo com Moniz Bandeira.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica era um destes mercados saturados, com uma produ\u00e7\u00e3o crescente de a\u00e7\u00facar nos anos anteriores. Manter a balan\u00e7a comercial cubana \u201cartificialmente\u201d custaria aos sovi\u00e9ticos 0,2% de seu PIB, o que era poss\u00edvel, mas, para os norte-americanos, improv\u00e1vel, tendo em vista que Kruschev trabalhava naqueles anos pela coexist\u00eancia pac\u00edfica. Assim, a ideia era \u201cacelerar a cria\u00e7\u00e3o de um efetivo \u2018movimento patri\u00f3tico amig\u00e1vel aos Estados Unidos\u2019 dentro de Cuba e entre os exilados, a fim de conter as tend\u00eancias do regime revolucion\u00e1rio de Fidel Castro, pois a deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas do pa\u00eds, em consequ\u00eancia do corte da cota de a\u00e7\u00facar e de outras san\u00e7\u00f5es, precipitaria sua queda. Certamente, seria necess\u00e1rio algum tempo \u2013 assim os policy makers julgavam \u2013 at\u00e9 que os cubanos compreendessem que a deteriora\u00e7\u00e3o de sua vida econ\u00f4mica e pol\u00edtica decorria dos \u2018excessos\u2019 de Castro, \u2018inclusive suas conex\u00f5es com o comunismo internacional\u2019\u201d, como dizia uma carta do subsecret\u00e1rio de Quest\u00f5es Pol\u00edticas ao chefe de Opera\u00e7\u00f5es Navais da Marinha dos Estados Unidos, almirante Arleigh A. Burke.<\/p>\n<p>As san\u00e7\u00f5es e cortes logo vieram: as companhias petroleiras norte-americanas foram pressionadas para n\u00e3o refinar o petr\u00f3leo enviado \u00e0 Cuba pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, os quadros t\u00e9cnicos estadunidenses eram retirados da ilha. A resposta foi dura: o governo interveio nas instala\u00e7\u00f5es da Texaco, Esso e Shell, obrigando-as a refinar o \u00f3leo que chegava aos montes da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Em julho, Eisenhower cortou a importa\u00e7\u00e3o de 700 mil toneladas de a\u00e7\u00facar da cota prevista (3,1 milh\u00f5es de toneladas, das quais 2,3 milh\u00f5es j\u00e1 tinham sido embarcadas). Kruschev, ao contr\u00e1rio do previsto, anunciou que compraria as 700 mil toneladas e respaldou Cuba contra qualquer interven\u00e7\u00e3o estrangeira, lembrando que os EUA \u201cn\u00e3o est\u00e3o mais a uma dist\u00e2ncia t\u00e3o inacess\u00edvel \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica como antes. Falando figurativamente, se fosse necess\u00e1rio, a artilharia sovi\u00e9tica poderia apoiar o povo cubano com m\u00edsseis, se as for\u00e7as agressivas do Pent\u00e1gono ousarem come\u00e7ar uma interven\u00e7\u00e3o contra Cuba. E o Pent\u00e1gono deve ser avisado de que n\u00f3s temos foguetes que podem acertar um alvo de uma dist\u00e2ncia de 13 mil quil\u00f4metros.\u201d<\/p>\n<p>De fato, em 1961, dois anos ap\u00f3s o Movimento 26 de Julho derrubar Batista, os Estados Unidos fizeram sua primeira tentativa audaciosa na ilha (se n\u00e3o contarmos, \u00e9 claro, os combatentes que mantinham nas montanhas de Escambray e na Sierra Maestra, num simulacro odiento da pr\u00f3pria guerrilha que triunfara). A invas\u00e3o \u00e0 Ba\u00eda dos Porcos envolveu cinco navios, oito avi\u00f5es B-26 e cerca de 1500 soldados \u2013 a maioria deles exilados cubanos treinados pela CIA. Foi um fiasco ao custo de 46 milh\u00f5es de d\u00f3lares para o governo dos EUA. No ano seguinte, Kruschev concordou com o pedido de Cuba para a instala\u00e7\u00e3o de m\u00edsseis nucleares no pa\u00eds, inaugurando 13 dias de terror entre os cidad\u00e3os norte-americanos que, 17 anos depois de Hiroshima e Nagasaki, achavam que o fantasma nuclear, que apaga pessoas e eterniza sombras, voltava para assombr\u00e1-los \u00e0 sua costa oeste. A crise dos m\u00edsseis terminou em duas semanas, com a retirada do aparato nuclear da ilha em troca da retirada de m\u00edsseis americanos da Turquia e It\u00e1lia, apontados contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, al\u00e9m de uma declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos Estados Unidos de que nunca invadiriam Cuba sem uma provoca\u00e7\u00e3o direta.<\/p>\n<p>O maior desafio que Cuba implicava aos Estados Unidos \u00e0 altura n\u00e3o era tanto o fato de que houvesse expropriado suas empresas, nem que a ilha vivesse fora da esfera capitalista; mas sim que, nas margens do imp\u00e9rio, Cuba significasse para os EUA o que Jap\u00e3o, Coreia do Sul, Turquia ou Finl\u00e2ndia significavam para a URSS \u2013 com o agravante de que, numa Am\u00e9rica Latina t\u00e3o machucada quanto a dos anos 60, novas revolu\u00e7\u00f5es poderiam explodir em todo o continente, inclusive porque seu alastramento era uma necessidade geoestrat\u00e9gica e econ\u00f4mica para a ilha (como ficou demonstrado na tentativa direta de Che na Bol\u00edvia). Num cen\u00e1rio menos desesperador para os norte-americanos, a exist\u00eancia de uma Cuba revolucion\u00e1ria j\u00e1 implicava a necessidade de um maior esfor\u00e7o dos Estados Unidos para manter o apoio no continente: como o pr\u00f3prio Guevara proclamou na Confer\u00eancia do Conselho Interamericano Econ\u00f4mico e Social, realizado em Punta del Este, em 1961, quando disse que os EUA pretendia comprar os pa\u00edses com latrinas, Cuba era a \u201cgalinha dos ovos de ouro\u201d para o resto dos pa\u00edses do continente, j\u00e1 que \u201ctodos ou quase todos os senhores representantes [dos pa\u00edses latino-americanos] disseram: se a Alian\u00e7a para o Progresso fracassa, nada pode deter a onda de movimentos populares\u201d. N\u00e3o por acaso, a Am\u00e9rica Latina viveria uma onda de golpes militares patrocinados e apoiados pelos EUA nos anos seguintes.<\/p>\n<p>Cuba, por sua vez, seria alvo cont\u00ednuo de provoca\u00e7\u00f5es e ataques. O mais grave deles, o bloqueio imposto desde 1962, com o fim de sufocar a ilha economicamente. Os mais violentos, os v\u00e1rios atentados terroristas contra hot\u00e9is e companhias a\u00e9reas cubanas, realizados por homens como Rub\u00e9n D\u00e1rio L\u00f3pez-Castro, Orlando Bosch e Luis Posada Carriles, com o apoio do governo norte-americano, para desestimular o turismo. Os mais imbecis, as v\u00e1rias tentativas de assassinato contra Fidel Castro, que inclu\u00edam uma mir\u00edade de t\u00e9cnicas; de peixes explosivos a charutos envenenados.<\/p>\n<p>A queda da URSS e o Piv\u00f4 para a \u00c1sia<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do imp\u00e9rio norte-americano \u00e9 uma hist\u00f3ria de cont\u00ednua expans\u00e3o. Se a Primeira Guerra serviu para sepultar alguns poderes coloniais e submeter os pa\u00edses europeus ao endividamento, e a Segunda para submeter todo o ocidente, inclusive politicamente, \u00e0 hegemonia norte-americana, a queda do bloco sovi\u00e9tico nos anos 90, encerrando a Guerra Fria, seria tomada como uma vit\u00f3ria de tal monta que alguns te\u00f3ricos norte-americanos passariam a acreditar sinceramente n\u00e3o em um \u201cmomento unipolar\u201d, mas numa unipolaridade perp\u00e9tua: um \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, nas palavras de Fukuyama e seus seguidores v\u00e1rios. Talvez n\u00e3o tenham compreendido que cada \u201cbem\u201d ou \u201cavan\u00e7o\u201d que promoviam sob sua concep\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica externa trazia dentro de si um \u201cmal\u201d ou um \u201cretrocesso\u201d, que se desencadeava violentamente contra suas pretens\u00f5es: a revolu\u00e7\u00e3o russa e ascens\u00e3o do nazismo na Alemanha (inclusive como um desdobramento em contradi\u00e7\u00e3o com a primeira) foram reflexos diretos da Primeira Guerra; o espraiamento das revolu\u00e7\u00f5es socialistas e lutas de liberta\u00e7\u00e3o nacional pelo Terceiro Mundo, na \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica Latina, efeitos diretos da Segunda. Com a Guerra Fria n\u00e3o seria diferente: se a queda do bloco sovi\u00e9tico \u201climpou o mundo\u201d para os Estados Unidos, tamb\u00e9m libertou a China do cerco e das rusgas mantidas com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e o cen\u00e1rio internacional hoje talvez indique que o grande acontecimento do s\u00e9culo 20 n\u00e3o tenha ocorrido em 1917, na R\u00fassia, mas em 1949, na China.<\/p>\n<p>Com uma \u00e1rea de mais de 9 milh\u00f5es de km\u00b2, banhada por um litoral de 14 mil km, com acesso direto ao Sul e Norte do Pac\u00edfico e a maior popula\u00e7\u00e3o do mundo, a China sempre foi tomada como um elemento chave e um inimigo em potencial na estrat\u00e9gia geopol\u00edtica de diversos pa\u00edses em diferentes per\u00edodos. Em 1877, em carta dirigida ao czar, o general Mikhail Skobelev declarou que \u201cno momento em que a ra\u00e7a chinesa, transbordando todas as suas fronteiras, amea\u00e7asse a Europa e a R\u00fassia com novas invas\u00f5es b\u00e1rbaras, n\u00e3o seria muito desejar ver a R\u00fassia colocar uma barreira intranspon\u00edvel aos Gengis Khan do futuro\u201d. Quase um s\u00e9culo depois, em 1960, Gorbachev repetiria \u2013 em tom mais comedido \u2013 as palavras de Skobelev: \u201cO Ocidente n\u00e3o compreende a situa\u00e7\u00e3o. Mas se a China, com seus 800 milh\u00f5es de habitantes, empreendesse a rota das antigas invas\u00f5es, o Ocidente se mostraria contente de encontrar um escudo\u201d. Ainda assim, \u201cpara os estrategistas em Washington, \u00e0 \u00e9poca, a vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa, um golpe t\u00e3o pesado quanto poderia ser, ainda era, em termos estrat\u00e9gicos, um incidente menor\u201d, de acordo com Perry Anderson. De fato, o diplomata George F. Kennan, ide\u00f3logo da Doutrina Truman, disse em 1951: \u201cquanto menos n\u00f3s norte-americanos tivermos alguma coisa a ver com a China, melhor. N\u00e3o precisamos nem cobi\u00e7ar os favores nem temer a inimizade de qualquer regime chin\u00eas. A China n\u00e3o \u00e9 o grande poder do Oriente.\u201d<\/p>\n<p>Essa ingenuidade dos anos 50 seria, em parte, remodelada na d\u00e9cada de 70, com um governo Nixon que buscaria esgar\u00e7ar a ruptura sino-sovi\u00e9tica por meio de uma aproxima\u00e7\u00e3o m\u00fatua com a China e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, adicionando \u00e0s desaven\u00e7as entre os dois pa\u00edses em rela\u00e7\u00e3o a territ\u00f3rios, coopera\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o sobre o comunismo internacional a luta por rela\u00e7\u00f5es preferenciais com os Estados Unidos, num embate em que a recusa de um acordo com os norte-americanos poderia se refletir no avan\u00e7o das rela\u00e7\u00f5es entre eles e seu competidor no mundo comunista (que era tamb\u00e9m um competidor no espa\u00e7o vital). Ainda assim, o alvo preferencial do imp\u00e9rio continuava a ser a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>J\u00e1 durante os anos 90, ap\u00f3s ter colhido a vit\u00f3ria sobre os sovi\u00e9ticos, a \u201cgrande estrat\u00e9gia\u201d norte-americana sobre a China seria focada nos benef\u00edcios obtidos pelos Estados Unidos no acesso de importa\u00e7\u00f5es baratas da China (especialmente manufaturados) que \u201cem efeito aumentam o padr\u00e3o de vida dos EUA sem aumentos (inflacion\u00e1rios) na renda, e reduzem os custos de insumos para as empresas\u201d, nas palavras de Edward Luttwak, e no acesso a capital barato, usado pelas autoridades chinesas nas compras de t\u00edtulos de d\u00edvida, notas do tesouro e outros instrumentos dolarizados. Esta seria uma pol\u00edtica externa orientada especialmente pelos interesses do capital financeiro norte-americano, em detrimento do industrial, e promovida pelo Tesouro dos EUA.<\/p>\n<p>Outra pol\u00edtica emergiria no come\u00e7o do s\u00e9culo; uma que valorizava a coopera\u00e7\u00e3o com a China em alguns aspectos, mas a via mais como um oponente, \u201ctanto multilateralmente, no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU e outros lugares, e bilateralmente em suas rela\u00e7\u00f5es com os pr\u00f3prios Estados Unidos, seus aliados e outros pa\u00edses de interesse norte-americano, incluindo estados-vil\u00f5es (rogue regimes), tanto no que tange interesses concretos norte-americanos e seus valores\u201d. Esta pol\u00edtica, que Luttwak diz ter sido promovida especialmente por Hillary Clinton enquanto Secret\u00e1ria de Estado de Obama e que teria como maior promotor o Departamento de Estado, ascendeu definitivamente a partir de 2008, quando ficou claro que \u201ca China coopera com os Estados Unidos s\u00f3 quando seus interesses demandam tal coopera\u00e7\u00e3o, enquanto que habitualmente ela se op\u00f5e aos Estados Unidos sempre que seus interesses permitem tal oposi\u00e7\u00e3o. [\u2026] Em contraste, a \u00cdndia, por exemplo, com frequ\u00eancia se op\u00f5e aos Estados Unidos, mas nas vezes que se op\u00f5e o faz por alguma raz\u00e3o positiva sua, boa ou ruim, n\u00e3o meramente porque pode faz\u00ea-lo.\u201d Assim, a conduta do Departamento do Estado seria adotar \u201coposi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica contra a China sempre que ela engaje em uma conduta expansionista\u201d. Essa pol\u00edtica visa, portanto, a conten\u00e7\u00e3o, em um globo visto agora n\u00e3o mais como ordenado sob uma unipolaridade inconteste, mas em crescente disputa.<\/p>\n<p>Por fim, uma terceira pol\u00edtica emergiria, tendo como principal promotor o Departamento de Defesa. Essa pol\u00edtica incorpora a necessidade de conten\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica anterior, do Departamento de Estado, mas v\u00ea a China como o principal inimigo internacional. \u201cCom a economia fornecendo recursos cada vez maiores, toda a superestrutura cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica da China est\u00e1 crescendo tanto quantitativa quanto qualitativamente, e isso, por sua vez, est\u00e1 fornecendo uma base de expans\u00e3o para a inova\u00e7\u00e3o militar em todos os setores e at\u00e9 mesmo em todos os subsetores\u201d, escreve Luttwak.<\/p>\n<p>Obviamente, a manuten\u00e7\u00e3o da conflitividade entre EUA e China depende de elementos internos do pa\u00eds asi\u00e1tico, que n\u00e3o s\u00e3o imut\u00e1veis nem facilmente previs\u00edveis, mas resum\u00edveis nas poss\u00edveis mudan\u00e7as de dire\u00e7\u00e3o ou lideran\u00e7a e nas veredas incalcul\u00e1veis da luta de classes. Apesar de n\u00e3o podermos prever com facilidade \u2013 especialmente de t\u00e3o longe \u2013 que caminhos ser\u00e3o esses e que tipo de lideran\u00e7a emergir\u00e1 nos pr\u00f3ximos anos na Rep\u00fablica Popular da China, o cen\u00e1rio hoje indica de todos os modos um novo cap\u00edtulo de uma luta global, seja para os propugnadores do socialismo chin\u00eas ou os cr\u00edticos do capitalismo de Estado (ou ainda capitalismo de vigil\u00e2ncia), seja ela vista como uma disputa interimperialista ou um conflito anti-imperialista. O fato \u00e9 que a um tanto furtiva ascens\u00e3o da China j\u00e1 \u00e9 o grande evento definidor da disputa geopol\u00edtica deste come\u00e7o de s\u00e9culo.<\/p>\n<p>E nisso, apesar do seu crescimento econ\u00f4mico e de seus avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e militares not\u00e1veis, a esfera de influ\u00eancia natural chinesa n\u00e3o passa inconteste \u2013 aqui est\u00e1 a import\u00e2ncia do Piv\u00f4 para a \u00c1sia de Obama, que reorientou o foco estrat\u00e9gico norte-americano do Oriente M\u00e9dio e da Europa para a \u00c1sia, especialmente para os pa\u00edses do sudeste asi\u00e1tico. A fraqueza estrat\u00e9gica chinesa estar\u00e1 precisamente no fato de n\u00e3o possuir uma contrapartida nas Am\u00e9ricas enquanto, em sua pr\u00f3pria esfera de influ\u00eancia, tem outros estados-competidores muito fortes \u2013 como a R\u00fassia e, especialmente, a \u00cdndia. Assim, ironicamente, o gigante asi\u00e1tico se confronta com um desafio estrat\u00e9gico: com muita dificuldade assegurar\u00e1 uma posi\u00e7\u00e3o de hegemon em sua esfera de influ\u00eancia, o que o impele a consolid\u00e1-la em territ\u00f3rios distantes, ao passo que os Estados Unidos se dedicam a sufoc\u00e1-la. At\u00e9 o momento, a China parece conseguir avan\u00e7ar sua estrat\u00e9gia no Oriente M\u00e9dio, na \u00c1frica e, muito parcialmente, na Europa, mas de fato o que em \u00faltima inst\u00e2ncia poder\u00e1 levar a China para uma situa\u00e7\u00e3o de relativo equil\u00edbrio estrat\u00e9gico, mais do que a robustez de sua economia, o seu n\u00edvel de desenvolvimento tecnol\u00f3gico, a incid\u00eancia de sua moeda nas trocas globais e a rigidez e extens\u00e3o de sua estrutura militar, ser\u00e1 sua capacidade ou incapacidade de prolongar sua influ\u00eancia na Am\u00e9rica Latina, espa\u00e7o vital norte-americano, de onde poderia restringir os movimentos de seu competidor ou inimigo no pr\u00f3prio ber\u00e7o, como ele pode fazer, com bastante liberdade \u2013 como demonstra a recente sa\u00edda do Afeganist\u00e3o \u2013 com o drag\u00e3o chin\u00eas. Essa \u00e9 a disputa que, ainda timidamente, assistimos hoje, e que cada vez mais deve se fazer presente em nosso territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>O voo do condor<\/p>\n<p>O mesmo Kennan que promulgava um afastamento dos Estados Unidos da \u201cquest\u00e3o chinesa\u201d em 1951 dizia um ano antes, a embaixadores norte-americanos na Am\u00e9rica do Sul, que \u201cn\u00e3o devemos hesitar diante da repress\u00e3o policial por parte dos governos locais. Isso n\u00e3o \u00e9 algo do qual devemos nos envergonhar, pois os comunistas s\u00e3o essencialmente traidores.\u201d Portanto, seria \u201cmelhor ter um regime forte no poder do que um governo liberal indulgente, relaxado e impregnado de comunistas\u201d.<\/p>\n<p>Os anos seguintes dariam vaz\u00e3o ao col\u00f3quio de diplomatas ianques: uma tentativa de golpe mal-sucedida na Argentina; o estabelecimento de uma junta militar na Bol\u00edvia; o golpe de Batista em Cuba; o golpe de Rojas na Col\u00f4mbia; a deposi\u00e7\u00e3o de \u00c1rbenz na Guatemala; o golpe militar de Stroessner no Paraguai; o suic\u00eddio de Get\u00falio, acossado pelos antigos aliados militares; a tentativa de golpe contra Juscelino; a chamada \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Libertadora\u201d na Argentina (desta vez bem-sucedida), seguida por mais um golpe em 1962; a derrubada de Juan Bosch na Rep\u00fablica Dominicana; o golpe na Guatemala, seguido por Equador, Peru e Honduras; e finalmente os golpes no Brasil e Bol\u00edvia, em 1964, por meio dos quais se lan\u00e7aria a infraestrutura da Opera\u00e7\u00e3o Condor, frutificando torturas, desaparecimentos e outros golpes por todo o continente.<\/p>\n<p>Por \u00f3bvio, numa terra assentada por coturnos e cindida por golpes, o fen\u00f4meno n\u00e3o tinha um car\u00e1ter meramente internacional. Mas a Am\u00e9rica Latina, promulgada um quintal desde Monroe, evidentemente era pe\u00e7a-chave na geopol\u00edtica de um imp\u00e9rio que pugnava em um mundo dividido. N\u00e3o foi por um acaso, portanto, que a maior parte dos regimes militares ascenderam no cume da Guerra Fria, e se desvaneceram aos poucos, sem preju\u00edzo aos Estados Unidos, \u00e0 medida que os norte-americanos consolidavam e avan\u00e7avam sua pol\u00edtica de conten\u00e7\u00e3o contra a URSS \u2013 o \u201csurto nacionalista\u201d de alguns regimes nos anos 80 (como Brasil e Argentina) era mais reflexo da perda de apoio norte-americano do que causa dele.<\/p>\n<p>As altera\u00e7\u00f5es e reviravoltas na conjuntura internacional, durante todo o projeto imperial norte-americano, sempre implicaram mudan\u00e7as significativas na Am\u00e9rica Latina. A pr\u00f3pria ascens\u00e3o de projetos de independ\u00eancia na regi\u00e3o, no s\u00e9culo 19, coincide com o esgotamento do mercado interno norte-americano e sua expans\u00e3o para al\u00e9m das fronteiras \u2013 n\u00e3o por acaso o her\u00f3i e poeta independentista Jos\u00e9 Mart\u00ed falara com tanta veem\u00eancia de uma necess\u00e1ria \u201csegunda independ\u00eancia\u201d contra o monstro em cujas entranhas viveu. A Segunda Guerra aumentou o espa\u00e7o de manobra no continente, possibilitando saltos de industrializa\u00e7\u00e3o com uma pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o entre classes a partir do Estado (presentes em fen\u00f4menos como Per\u00f3n e Vargas, por exemplo) que acabou finalmente asfixiado durante a Guerra Fria. A queda do bloco sovi\u00e9tico nos anos 90 deu lugar \u00e0 ampla onda de democracias neoliberais, fielmente guiadas pelas novas demandas centrais e ditadas pelo FMI, que seriam sobrepostas por uma onda de governos social-democratas ou social-liberais no final da d\u00e9cada, mais ou menos comprometidos com o antiimperialismo e progressistas, mas atacados mais cedo ou mais tarde, por meios \u201csutis\u201d (como lawfare ou golpes brandos) ou \u201ctradicionais\u201d (como golpes de Estado e sedi\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p>Mas, apesar do avan\u00e7o da direita regional sobre a chamada \u201cmar\u00e9 rosa\u201d no continente \u2013 Macri na Argentina; Temer e Bolsonaro no Brasil; Moreno e Lasso no Equador; Pi\u00f1era no Chile; Micheletti, Sosa e JOH em Honduras; Cartes e Abdo no Paraguai \u2013, os alvos priorit\u00e1rios do imperialismo no continente se mant\u00eam (Venezuela, Cuba e Bol\u00edvia, depois do golpe), e as tentativas de consolidar uma nova hegemonia neoliberal por via \u201cdemocr\u00e1tica\u201d encontram barreiras evidentes, mesmo onde o lawfare fez mais estrago. Por outro lado, o imperialismo tamb\u00e9m se v\u00ea sob press\u00e3o dos povos do continente, como mostraram as gigantes manifesta\u00e7\u00f5es no Chile, Equador e Col\u00f4mbia, e a recente elei\u00e7\u00e3o de Castillo no Peru. Mas, acima de tudo, a influ\u00eancia econ\u00f4mica chinesa na regi\u00e3o se mant\u00e9m e expande. O que vir\u00e1 no novo ciclo? Que fen\u00f4menos testemunharemos junto \u00e0 ascens\u00e3o de uma nova pot\u00eancia? Se o mundo se dividir mais uma vez, que papel a Am\u00e9rica Latina ter\u00e1, ou que papel lhe ser\u00e1 imposto?<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a primeira parte desta s\u00e9rie de artigos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27795\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[374],"tags":[228],"class_list":["post-27795","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-afeganistao","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7ej","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27795","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27795"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27795\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27795"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27795"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27795"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}