{"id":27805,"date":"2021-09-08T22:26:51","date_gmt":"2021-09-09T01:26:51","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27805"},"modified":"2021-09-08T22:26:51","modified_gmt":"2021-09-09T01:26:51","slug":"tres-notas-sobre-a-luta-politica-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27805","title":{"rendered":"Tr\u00eas notas sobre a luta pol\u00edtica no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2021\/08\/imagempost-12-1.png\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Jones Manoel<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Jones Manoel esquadrinha as tr\u00eas principais ilus\u00f5es presentes nas esquerdas brasileiras no cen\u00e1rio atual.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da classe trabalhadora, em momentos de transi\u00e7\u00e3o geracional e derrota estrat\u00e9gica, \u00e9 comum uma \u201ccrise de criatividade\u201d. Os dirigentes envelhecidos e desatualizados de novos m\u00e9todos e t\u00e1ticas tendem a uma eterna repeti\u00e7\u00e3o de formas de fazer pol\u00edtica j\u00e1 consagradas \u2013 as quais, em outros momentos da hist\u00f3ria, deram resultados positivos, mas agora tendem a ser express\u00e3o de anacronismo e paralisia.<\/p>\n<p>As esquerdas brasileiras passam por esse momento. A gera\u00e7\u00e3o do fim da ditadura militar, que teve papel central na cria\u00e7\u00e3o da Nova Rep\u00fablica est\u00e1 (em sua maioria) envelhecida, perdida, sem norte pol\u00edtico e t\u00e1tico, e n\u00e3o consegue responder \u00e0s mudan\u00e7as r\u00e1pidas da pol\u00edtica brasileira e da din\u00e2mica geopol\u00edtica. Uma das express\u00f5es disso \u00e9 a perman\u00eancia de tr\u00eas ilus\u00f5es centrais que refletem uma tentativa \u2013 consciente ou n\u00e3o \u2013 de repetir o cen\u00e1rio dos anos 1980 e 1990.<\/p>\n<p>Primeiro, existe um grito onipresente, desesperado, pela forma\u00e7\u00e3o de uma frente ampla para enfrentar a extrema direita. O conceito cl\u00e1ssico de frente ampla diz respeito a uma uni\u00e3o de setores da classe trabalhadora, camadas m\u00e9dias e burguesia em momentos de amea\u00e7a fascista, de extrema direita ou de invas\u00f5es imperialistas (tomando a forma de frente nacional, um dos tipos da frente ampla). Ela geralmente opera numa perspectiva defensiva, evitando a piora das condi\u00e7\u00f5es de luta e buscando acumular for\u00e7as para uma futura ofensiva.<\/p>\n<p>Como podemos ver, \u00e9 pressuposto para a exist\u00eancia da frente ampla a disposi\u00e7\u00e3o de setores da burguesia e suas express\u00f5es pol\u00edticas (partidos, entidades de representa\u00e7\u00e3o empresarial etc.) para formar tal unidade. Ao final de 1970, por uma s\u00e9rie de motivos, setores da classe dominante brasileira, notadamente a burguesia paulista, descolaram-se do regime empresarial-militar e passaram a defender a abertura \u201cdemocr\u00e1tica\u201d. Combinado a isso, os Estados Unidos \u2013 com o exterm\u00ednio das vanguardas revolucion\u00e1rias no continente \u2013 apoiaram a volta \u00e0s democracias burguesas. Frentes como as Diretas J\u00e1 foram express\u00e3o n\u00e3o da vontade ou da genialidade de l\u00edderes de esquerda, como Brizola, Lula e M\u00e1rio Covas, mas de condi\u00e7\u00f5es objetivas de classe e do momento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Atualmente, nenhum setor da burguesia deseja uma frente ampla e a derrota do bolsonarismo. Este vem conseguindo entregar um pacote de ataques \u00e0 classe trabalhadora, \u00e0 soberania nacional, a regulamenta\u00e7\u00f5es ambientais e a empresas p\u00fablicas, que abre largas perspectivas de lucro para as classes dominantes. A frente ampla est\u00e1 formada e atua em prol do maior ataque j\u00e1 visto na hist\u00f3ria da Rep\u00fablica \u00e0 classe trabalhadora. A busca a todo custo por uma frente ampla contra Bolsonaro, tentando repetir o cen\u00e1rio do fim da ditadura, n\u00e3o tem lastro na realidade e est\u00e1 fadada ao fracasso, colocando no colo das esquerdas a responsabilidade por construir essa \u201cunidade\u201d \u00e0 custa da deser\u00e7\u00e3o de qualquer proposta e identidade pol\u00edtica de esquerda.<\/p>\n<p>Evidentemente, \u00e9 poss\u00edvel construir uma frente eleitoral com a burguesia e os partidos da direita neoliberal n\u00e3o diretamente fascista. Seja em escala nacional ou regional, isso vem sendo tentado \u2013 como mostram os exemplos de Lula e Marcelo Freixo. O que precisa ser dito, contudo, \u00e9 que Freixo desistiu de qualquer programa de esquerda e Lula atua como o verdadeiro candidato de \u201ccentro\u201d, buscando uma \u201creconcilia\u00e7\u00e3o nacional\u201d que tem como pressuposto n\u00e3o enfrentar as contrarreformas aprovadas de 2015 at\u00e9 agora e cimentar uma nova anistia \u201campla, geral e irrestrita\u201d para os autores do genoc\u00eddio em curso.<\/p>\n<p>Nesse caso, nunca \u00e9 demais lembrar que vit\u00f3rias eleitorais n\u00e3o significam vit\u00f3rias pol\u00edticas. Uma vit\u00f3ria eleitoral de Marcelo Freixo no Rio de Janeiro, levando a tiracolo Rodrigo Maia, Eduardo Paes, Raul Jungmann e parceiros, pode significar, no m\u00e1ximo, uma \u201cpausa\u201d ou redu\u00e7\u00e3o de ritmo no avan\u00e7o da barb\u00e1rie, mas n\u00e3o uma vit\u00f3ria da classe trabalhadora e uma \u201creconstru\u00e7\u00e3o\u201d das condi\u00e7\u00f5es de vida, trabalho e sociabilidade.<\/p>\n<p>O segundo erro \u00e9 imaginar que o impeachment de Bolsonaro seria igual ao de Collor e de Dilma, considerando apenas a popularidade e a base no Congresso e ignorando o fator militar. O bolsonarismo \u00e9, antes de tudo, o projeto militar, burgu\u00eas e antinacional que encontrou no deputado miliciano do Rio de Janeiro a sua figura carism\u00e1tica. Temos o governo mais militarizado da hist\u00f3ria brasileira, com n\u00fameros que variam \u2013 a depender da fonte \u2013 entre 6 mil ou 7 mil militares no governo. O bolsonarismo, em cada crise ou abalo pol\u00edtico, militariza mais o governo: foi assim com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, Casa Civil, Petrobras etc.<\/p>\n<p>As esquerdas brasileiras, mesmo os setores socialistas e comunistas, abra\u00e7aram Bobbio e esqueceram L\u00eanin: ignoram o poder das armas, a dimens\u00e3o violenta de toda pol\u00edtica, e se veem despreparadas, na teoria, na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e na organiza\u00e7\u00e3o, para lidar com fuzis e coturnos. Com nobres e raras exce\u00e7\u00f5es, como a brilhante an\u00e1lise Carta no coturno \u2013 A volta do Partido Fardado no Brasil (Baioneta, 2020), temos uma fuga do problema e a en\u00e9sima tentativa de bajular os militares, poupando-os de cr\u00edticas, ou ent\u00e3o \u2013 o que \u00e9 pior \u2013 buscando esse ou aquele \u201cgeneral democr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p>O c\u00famulo do rid\u00edculo foi visto recentemente. Memes e piadas sobre os \u201ctanques velhos\u201d desfilando numa amea\u00e7a armada. \u00c9 preciso lembrar tr\u00eas coisas fundamentais. Entre 1964 e 1985, nos 21 anos de ditadura empresarial-militar, as for\u00e7as armadas brasileiras n\u00e3o estavam na vanguarda tecnol\u00f3gica do mundo e n\u00e3o poderiam ser consideradas as mais avan\u00e7adas. Isso n\u00e3o impediu ou dificultou milhares de mortes, torturas, pris\u00f5es e a\u00e7\u00f5es repressivas. Tamb\u00e9m n\u00e3o impediu uma vit\u00f3ria relativamente f\u00e1cil sobre os grupos de luta armada resistentes \u00e0 ditadura.<\/p>\n<p>A segunda coisa, e mais \u00f3bvia, \u00e9 que n\u00e3o importa se o tanque de guerra tem um padr\u00e3o tecnol\u00f3gico de 40 anos atr\u00e1s. Se um lado tem um tanque \u201cvelho\u201d e o outro n\u00e3o tem nada, adivinha quem vai morrer? Ali\u00e1s, recomendo para a milit\u00e2ncia brasileira que s\u00f3 achou gra\u00e7a no desfile dos tanques perguntar para o povo trabalhador do Rio de Janeiro \u2013 ou do Haiti! \u2013 se as \u201carmas velhas\u201d das For\u00e7as Armadas brasileiras matam ou n\u00e3o!<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, o fato de existir um desfile militar como amea\u00e7a ao Congresso j\u00e1 \u00e9 um fato pol\u00edtico. \u00c9 um avan\u00e7o simb\u00f3lico e pol\u00edtico do Partido Fardado, introduzindo mais um elemento da din\u00e2mica do quartel na pol\u00edtica burguesa. Como me disse certa vez Pedro Marin, em conversa pessoal, assistimos \u00e0 \u201cquarteliza\u00e7\u00e3o\u201d da pol\u00edtica. Se a pol\u00edtica burguesa assume cada vez mais a l\u00f3gica do quartel, por qual motivo, caso Bolsonaro perca em 2022, os militares atuariam de acordo com a \u201cl\u00f3gica\u201d ideal republicana (que nunca foi realidade no Brasil!) e simplesmente voltariam \u00e0 caserna?<\/p>\n<p>Por fim, vivendo um ciclo eterno de autoilus\u00e3o, os setores majorit\u00e1rios da esquerda brasileira apostam tudo em 2022, como se um novo governo fosse capaz de restaurar tudo que foi quebrado, voltar \u00e0 normalidade (e partindo do pressuposto que a elei\u00e7\u00e3o vai transcorrer dentro da \u201cnormalidade\u201d). Como disse Marx, sim, a hist\u00f3ria se repete, mas primeiro como trag\u00e9dia e depois como farsa.<\/p>\n<p>A ofensiva burguesa com o \u201cteto de gastos\u201d, a contrarreforma trabalhista e previdenci\u00e1ria, a destrui\u00e7\u00e3o do complexo do petr\u00f3leo e g\u00e1s e a privatiza\u00e7\u00e3o de subsidi\u00e1rias da Petrobras e BR Distribuidora, a \u201cautonomia\u201d do Banco Central e o novo pacote de ataques \u2013 como a contrarreforma administrativa \u2013 criaram uma amarra\u00e7\u00e3o institucional que torna imposs\u00edvel governos de pacto de classe em que \u201ctodos ganham\u201d, como os governos de Lula e, at\u00e9 certo ponto, de Dilma Rousseff. Algu\u00e9m tem que perder!<\/p>\n<p>A ideia de que uma nova elei\u00e7\u00e3o, com a derrota de Bolsonaro, vai recuperar o Eldorado da democracia \u2013 que nunca existiu para as maiorias \u2013 ignora a geopol\u00edtica, o poder militar, as contrarreformas neoliberais do Estado, o acirramento da press\u00e3o militar-imperialista dos Estados Unidos na Am\u00e9rica Latina e a ofensiva reacion\u00e1ria da burguesia interna. Ilus\u00e3o perigosa, que condena nosso povo trabalhador a uma longa noite de derrotas. A classe dominante como um todo n\u00e3o deseja concilia\u00e7\u00e3o, padr\u00f5es m\u00ednimos de democracia pol\u00edtica e direitos econ\u00f4micos e sociais, e n\u00e3o ser\u00e1 um \u201cgestor experiente\u201d \u2013 Lula, Ciro Gomes, Fl\u00e1vio Dino ou qualquer outro \u2013 que conseguir\u00e1 mudar isso. N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de di\u00e1logo, mas de for\u00e7a, de luta \u2013 de luta de classes. Eles est\u00e3o prontos para a guerra (e os fuzis j\u00e1 est\u00e3o apontados). E n\u00f3s?<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Jones Manoel \u00e9 pernambucano, filho da Dona Elza e comunista de carteirinha. Come\u00e7ou sua milit\u00e2ncia na favela onde nasceu e cresceu, a comunidade da Borborema, construindo um cursinho popular, o Novo Caminho, junto com seu amigo Julio Santos (ele, Julio e outro amigo, Felipe Bezerra, foram os primeiros jovens da hist\u00f3ria de Borborema a entrar em uma universidade p\u00fablica). Depois de dois anos com o cursinho popular, passou a militar no movimento estudantil em paralelo ao seu curso de hist\u00f3ria na UFPE. Pouco tempo depois, ingressou nas fileiras da UJC (a juventude do PCB). Ativo no movimento estudantil at\u00e9 2016, hoje atua no movimento sindical e na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o popular. Mestre em servi\u00e7o social, atualmente \u00e9 professor de hist\u00f3ria, mant\u00e9m um canal no YouTube e participa do podcast Revolushow. Segue militante do PCB. Organizou pela Boitempo o livro Colonialismo e luta anticolonial: desafios da revolu\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XXI (2020), colet\u00e2nea com artigos, transcri\u00e7\u00f5es de palestras e entrevistas de Domenico Losurdo. Escreve para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27805\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[221],"class_list":["post-27805","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7et","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27805","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27805"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27805\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27805"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27805"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27805"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}