{"id":27836,"date":"2021-09-15T00:20:45","date_gmt":"2021-09-15T03:20:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27836"},"modified":"2021-09-15T00:20:45","modified_gmt":"2021-09-15T03:20:45","slug":"reencontrando-giocondo-e-prestes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27836","title":{"rendered":"Reencontrando Giocondo e Prestes!"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/AM-JKLVG1iPT_OY8j6kacC3xhqkSb6mkydhm3DOdBXCOAHn7DohWuVa_9kXMEqhjAmx-45l7RxafNxzSXiU8iUmleAASzbYyZVJ6aWOGfX-w7ClJ6IqoBFPdaK-JZT9mYIdcyaxYaioEokSN6zEI9be8waYb=w646-h361-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong><em>Ivan Pinheiro<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o poderia deixar de socializar ao meu c\u00edrculo de amizade e camaradagem um resumo dos pensamentos e sentimentos que me envolvem e fazem refletir, desde quando, h\u00e1 poucos dias, li um texto de Luiz Carlos Prestes, de mar\u00e7o de 1981\u00a0<strong>(\u201c<em>Aprender com os erros do passado, para construir um partido novo, efetivamente revolucion\u00e1rio<\/em><\/strong>\u201d), e, logo em seguida, assisti o document\u00e1rio \u201c<strong><em>Giocondo Dias \u2013 um clandestino ilustre<\/em><\/strong>\u201d, do cineasta Wladimir Carvalho, lan\u00e7ado recentemente.<\/p>\n<p>Como se sabe, Prestes e Giocondo protagonizaram uma intensa luta interna que levou \u00e0 divis\u00e3o do PCB no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980. Prestes era o Secret\u00e1rio Geral antes da divis\u00e3o e Giocondo passou a s\u00ea-lo em seguida, at\u00e9 sua morte em 1987.<\/p>\n<p>A coincid\u00eancia dessas leituras foi impactante. Esses dois camaradas foram \u2013 em \u00e9pocas e por raz\u00f5es diferentes &#8211; as minhas principais refer\u00eancias pol\u00edticas no PCB, inclusive no momento em que, como militante do partido, fui obrigado a fazer uma escolha dram\u00e1tica entre os distintos caminhos que os dois seguiriam. Como minha milit\u00e2ncia sindical \u00e0 \u00e9poca resultava em alguma exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica, foi natural ter sido convidado para conversas particulares com ambos e que obviamente eu as aceitasse. No meu caso, esses encontros foram muito mais para ouvir do que dialogar, at\u00e9 porque havia poucas informa\u00e7\u00f5es sobre as diverg\u00eancias, al\u00e9m dos rumores.<\/p>\n<p>Depois de conhecer opini\u00f5es de outros quadros e de intermin\u00e1veis debates na c\u00e9lula em que militava, consolidei uma opini\u00e3o que me dividia ao meio: concordava (e ainda concordo) com a maioria das cr\u00edticas do camarada Prestes expostas na\u00a0<strong>Carta aos Comunistas<\/strong>\u00a0(de mar\u00e7o de 1980), mas n\u00e3o com sua decis\u00e3o de sair do PCB antes do seu pr\u00f3ximo Congresso Nacional, que iniciou-se em 13 de dezembro de 1982\u00a0<em>[\u00b9]<\/em>, o que pode ter sido um dos fatores que inviabilizaram o seu projeto de criar um novo partido, efetivamente revolucion\u00e1rio, como anuncia no texto.<\/p>\n<p>Respeito a opini\u00e3o dos que consideram que naquele momento j\u00e1 n\u00e3o havia mais espa\u00e7o no partido para a luta interna, mas penso que essa conclus\u00e3o s\u00f3 \u00e9 razo\u00e1vel se a an\u00e1lise daquela correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as levar em conta apenas a que existia no interior do ent\u00e3o Comit\u00ea Central, em que Prestes n\u00e3o s\u00f3 era minorit\u00e1rio, mas v\u00edtima de isolamento e apagamento pol\u00edtico, que ficam evidentes em alguns depoimentos no filme sobre Giocondo e que percebi no dia em que o Cavaleiro da Esperan\u00e7a foi recebido calorosamente no aeroporto do Gale\u00e3o, ao retornar de um longo ex\u00edlio em Moscou ap\u00f3s a anistia pol\u00edtica, no final de 1979.<\/p>\n<p>Alguns dias antes desse evento, fui procurado por um dos poucos membros do CC que ficaram clandestinos no Brasil e escaparam de ser presos e desaparecidos, como os camaradas que Prestes homenageia no texto. Os demais membros do CC estavam no ex\u00edlio, uma parte em Moscou e Praga, outra em Paris, Roma, Lisboa e outros destinos. Este camarada, com quem me encontrava em \u201cpontos\u201d\u00a0<em>[\u00b2]<\/em>\u00a0e que me dava assist\u00eancia em quest\u00f5es que extrapolavam o \u00e2mbito da c\u00e9lula de banc\u00e1rios a que eu pertencia, orientou-me, segundo ele em nome do Secretariado do CC, a n\u00e3o comparecer \u00e0 recep\u00e7\u00e3o do camarada Prestes, porque a ditadura podia \u201cdesconfiar\u201d que eu fosse militante do partido! Em v\u00e3o, ponderei que a figura de Prestes, um her\u00f3i nacional, extrapolava em muito as fronteiras do partido e que uma recep\u00e7\u00e3o expressiva a ele seria um importante ato p\u00fablico contra a ditadura e favor\u00e1vel \u00e0 imagem do PCB.<\/p>\n<p>Apesar de desconfiado, respeitando essa orienta\u00e7\u00e3o levei de carro ao Gale\u00e3o tr\u00eas camaradas banc\u00e1rios, entre os quais minha ent\u00e3o companheira, e os fiquei aguardando no estacionamento do aeroporto, decepcionado porque o som dos discursos n\u00e3o descia ao subsolo! S\u00f3 tive certeza de que se tratara de uma manobra para esvaziar a recep\u00e7\u00e3o a Prestes quando, alguns dias depois, veio a p\u00fablico a luta interna, desconhecida at\u00e9 ent\u00e3o por todos os militantes de base do partido.<\/p>\n<p>Minha opini\u00e3o divergente da posi\u00e7\u00e3o de Prestes, de romper com o partido sem insistir mais na luta interna (que fatos como o mencionado explicam), era baseada na viv\u00eancia que eu tinha entre os camaradas que atuavam no movimento sindical, n\u00e3o s\u00f3 no Rio de Janeiro, onde eu era presidente do Sindicato dos Banc\u00e1rios e coordenava a Intersindical estadual, mas em outros Estados. Entre minhas tarefas vinculadas \u00e0 Fra\u00e7\u00e3o Sindical do CC, estava o esfor\u00e7o do partido para criar articula\u00e7\u00f5es intersindicais estaduais, na perspectiva de uma central sindical nacional. Eu circulava, portanto, entre camaradas que atuavam diretamente nas lutas em defesa dos interesses dos trabalhadores, em geral mais refrat\u00e1rios \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o de classe.<\/p>\n<p>Naquele momento o PCB era a for\u00e7a mais expressiva e influente entre as que atuavam no movimento sindical brasileiro, por conta de sua milit\u00e2ncia n\u00e3o ter abandonado o trabalho sindical, mesmo em plena ditadura. \u00c9 bom lembrar que infelizmente esse patrim\u00f4nio pol\u00edtico foi sendo destru\u00eddo, de forma mais acentuada a partir de 1983, quando o reformismo vigente no CC optou pelo rompimento com o projeto de cria\u00e7\u00e3o da ent\u00e3o combativa CUT, em favor da alian\u00e7a com o sindicalismo burocr\u00e1tico e conciliador que resultou em centrais pelegas.<\/p>\n<p>Mas essa diferen\u00e7a de avalia\u00e7\u00e3o sobre aquele impasse que resultou na sa\u00edda de Prestes do PCB n\u00e3o desmerece o legado pol\u00edtico deste que, na minha avalia\u00e7\u00e3o, foi o mais importante revolucion\u00e1rio brasileiro de todos os tempos.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos depoimentos que Wladimir Carvalho colheu de mim e editou em seu document\u00e1rio sobre Giocondo, presto uma justa homenagem a este tamb\u00e9m her\u00f3i por, entre outras virtudes que valorizo, ter entregue sua vida ao partido e pela franqueza como expunha suas opini\u00f5es, em qualquer circunst\u00e2ncia, e respeitava as diverg\u00eancias. Com ele convivi no CC e na ent\u00e3o Executiva Nacional do PCB at\u00e9 sua morte, em 1987.<\/p>\n<p>No balan\u00e7o sobre o seu papel na formula\u00e7\u00e3o da linha pol\u00edtica e da a\u00e7\u00e3o do partido, entre o golpe de 1964 e o fim da d\u00e9cada de 1970, debito em sua conta a o papel que teve na manuten\u00e7\u00e3o das Resolu\u00e7\u00f5es do VI Congresso (1967), que insistiram na equivocada estrat\u00e9gia nacional libertadora e democr\u00e1tica burguesa, e credito sua contribui\u00e7\u00e3o para a manuten\u00e7\u00e3o do partido na clandestinidade em condi\u00e7\u00f5es adversas e para uma t\u00e1tica (datada!) de frente democr\u00e1tica, que privilegiou a atua\u00e7\u00e3o no MDB, \u00fanico e \u00e0 \u00e9poca plural partido consentido, entre a intelectualidade progressista e no ambiente sindical. Nesse per\u00edodo, as derrotas eleitorais da ditadura, a revoga\u00e7\u00e3o do AI-5 e o advento da anistia, apesar de poupar os torturadores, contribu\u00edram para a explos\u00e3o do movimento sindical e de massas e o surgimento de outras correntes pol\u00edticas \u00e0 esquerda, na virada da d\u00e9cada de 70 para 80.<\/p>\n<p>Apesar do respeito que nutro pelo camarada Giocondo Dias, n\u00e3o reivindico o saldo do seu legado pol\u00edtico como Secret\u00e1rio Geral do PCB durante a d\u00e9cada de 1980, pois o considero negativo para as novas e futuras gera\u00e7\u00f5es de militantes comunistas, por estimular a concilia\u00e7\u00e3o de classe e as ilus\u00f5es sobre a\u00a0<em>humaniza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0do capitalismo e a democracia burguesa.<\/p>\n<p>A partir de 1979, a emerg\u00eancia das lutas sindicais e oper\u00e1rias em nosso pa\u00eds indicava evidentemente a necessidade de uma inflex\u00e3o na linha pol\u00edtica, na perspectiva de alian\u00e7as com for\u00e7as de esquerda que surgiam, ainda que majoritariamente socialdemocratas, como o PT e o PDT de Brizola. Sob a lideran\u00e7a de Giocondo, as resolu\u00e7\u00f5es de vi\u00e9s eurocomunista do VII Congresso do PCB (\u201c<strong><em>Alternativa democr\u00e1tica da crise brasileira<\/em><\/strong>\u201d), divulgadas em janeiro de 1984\u00a0<em>[\u00b9]<\/em>, escalaram a trajet\u00f3ria de concilia\u00e7\u00e3o de classes e de degenera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do partido, que levou os reformistas inclusive a ousarem tentar liquidar o PCB, em 1991 e 1992, quando, \u00e9 justo lembrar, Giocondo j\u00e1 havia falecido.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o me valho do benef\u00edcio da d\u00favida para me iludir com a posi\u00e7\u00e3o que ele adotaria no \u201cracha\u201d, que se deu em janeiro de 1992. Se vivo fosse, estaria com certeza ao lado dos que tentaram acabar com o PCB, ainda que talvez iludido com a lenda de que o partido sobreviveria de fato como n\u00facleo dirigente da sigla que o sucedesse, como tentou convencer-me Salom\u00e3o Malina, cuja trajet\u00f3ria tamb\u00e9m respeito. Al\u00e9m de suas afinidades pol\u00edticas, grande parte dos velhos dirigentes que mantiveram o partido vivo, mesmo durante os piores momentos da ditadura, cultivava um compreens\u00edvel esp\u00edrito de corpo.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a que fundou o PPS (que se apresentava\u00a0<em>popular<\/em>\u00a0e\u00a0<em>socialista<\/em>) uniu, de um lado, comunistas hist\u00f3ricos que n\u00e3o conseguiam imaginar a sobreviv\u00eancia do partido comunista no Brasil sem a dire\u00e7\u00e3o e o apoio do Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, ao qual sempre seguiram \u00e0 risca, nos erros e acertos e, de outro, parlamentares\u00a0\u00a0que n\u00e3o queriam perder suas reelei\u00e7\u00f5es e intelectuais e profissionais que n\u00e3o queriam perder seus prest\u00edgios e privil\u00e9gios, em um momento em que os escombros da contrarrevolu\u00e7\u00e3o na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica caiam apenas sobre nossas cabe\u00e7as. Era hora de \u201csalvarem\u201d suas biografias e abandonarem um navio que imaginavam afundar!<\/p>\n<p>Muitos daqueles que, por ilus\u00e3o ou autoengano, acreditaram na fal\u00e1cia de que o partido sobreviveria e perceberam cedo a degenera\u00e7\u00e3o da legenda eleitoral que ajudaram a criar, ca\u00edram em depress\u00e3o que abreviou suas vidas. Estes, pelo menos, como Malina, Gerald\u00e3o, Almir Neves, Lindolfo Silva, Z\u00e9 Raimundo, Amaro Valentim e Hil\u00e1rio Pinha, com os quais convivi no CC, n\u00e3o assistiram a legenda PPS abrir m\u00e3o at\u00e9 da refer\u00eancia\u00a0<em>popular<\/em>\u00a0<em>socialista<\/em>\u00a0para se chamar Cidadania, defini\u00e7\u00e3o ainda mais dilu\u00edda e bem comportada, dentro das \u201cquatro linhas\u201d do intoc\u00e1vel\u00a0<em>estado democr\u00e1tico de direito.\u00a0<\/em>Pelo menos n\u00e3o passaram pelo desgosto de ver at\u00e9 onde chegou o p\u00e2ntano que objetivamente engendraram, a maioria por omiss\u00e3o!<\/p>\n<p>O document\u00e1rio vale por interessantes relatos da trajet\u00f3ria de Giocondo. Mas nele a hist\u00f3ria do PCB \u00e9 contada pela \u00f3tica dos que sa\u00edram do partido, n\u00e3o apenas para exercer o direito natural de algu\u00e9m se desligar de uma uni\u00e3o volunt\u00e1ria \u2013 que Prestes dignamente exerceu \u2013 mas para tentar acabar com sua exist\u00eancia e nos impedir de mant\u00ea-la e reconstru\u00ed-la. Tanto \u00e9 assim que falsificaram a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as de uma farsa que chamaram de \u201ccongresso\u201d, dando direito de voto a n\u00e3o membros do PCB para aprovar a cria\u00e7\u00e3o de uma nova \u201cforma partido\u201d, e tentaram impugnar no TSE o nosso pedido de manuten\u00e7\u00e3o do registro do partido e da anota\u00e7\u00e3o do seu novo Estatuto que logo em seu primeiro artigo declarava-se \u201c<strong><em>herdeiro de fato e de direito do PCB, fundado em 25 de mar\u00e7o de 1922<\/em><\/strong>\u201d, e de seu novo Comit\u00ea Central, em que Oscar Niemeyer era o Presidente de Honra e Hor\u00e1cio Macedo de fato.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso deixar tamb\u00e9m de criticar, n\u00e3o o excelente trabalho t\u00e9cnico e art\u00edstico do cineasta, mas a inclus\u00e3o de alguns coment\u00e1rios desrespeitosos e desonestos em rela\u00e7\u00e3o ao camarada Prestes, que ao se desligar do partido n\u00e3o visava a sua destrui\u00e7\u00e3o, mas a sua reconstru\u00e7\u00e3o ou a constru\u00e7\u00e3o de um novo partido revolucion\u00e1rio, n\u00e3o uma legenda para servir \u00e0s classes dominantes, usando cinicamente a hist\u00f3ria do PCB.<\/p>\n<p>J\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o ao texto de Luiz Carlos Prestes, que encaminho em seguida, recomendo vivamente sua leitura. Independentemente das conclus\u00f5es a que cada um de n\u00f3s chegar, s\u00e3o ineg\u00e1veis a extraordin\u00e1ria contribui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e te\u00f3rica e os exemplos de abnega\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que este grande comunista deixa \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es. Devemos a preserva\u00e7\u00e3o de seu rico acervo fundamentalmente ao trabalho de documenta\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o de Anita Prestes, n\u00e3o s\u00f3 como historiadora, mas principalmente como revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em sua cr\u00edtica e autocr\u00edtica, em 1981, a respeito dos erros que o PCB insistiria nos anos seguintes, o camarada Prestes aponta corretamente como o principal erro da hist\u00f3ria do partido \u201c<strong><em>a falsa aprecia\u00e7\u00e3o da realidade, ainda em 1945, de definir o car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o brasileira como \u201cdemocr\u00e1tica-burguesa<\/em><\/strong>\u201d, negando, desde ent\u00e3o, que \u201c<strong><em>a forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social dominante no Brasil fosse a capitalista, embora desde o in\u00edcio marcada como dependente, mas de qualquer forma capitalista<\/em><\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>Uma vez mantido e reconstru\u00eddo revolucionariamente, o PCB reconheceu o car\u00e1ter capitalista da sociedade brasileira e rompeu com o que chamamos de\u00a0<em>etapismo<\/em>, afirmando a estrat\u00e9gia socialista da Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n<p>Entre outras importantes observa\u00e7\u00f5es, o camarada Prestes nos chama aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de n\u00e3o reincidirmos em erros que a hist\u00f3ria do movimento comunista registra, como\u00a0a incapacidade de articular corretamente todas as lutas \u00e0 estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria, que aponta o caminho ao socialismo e de assim n\u00e3o levar em conta, na pr\u00e1tica, que \u201c<strong><em>numa sociedade capitalista, a contradi\u00e7\u00e3o fundamental \u00e9 a existente entre o proletariado e a burguesia<\/em><\/strong>\u201d.<\/p>\n<p><strong><em>Ivan Pinheiro \u00e9 membro do Comit\u00ea Central do PCB<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>(14 de setembro de 2021)<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>[1] &#8211; No VII Congresso do PCB, cujas Teses e Tribunas de Debate foram publicadas nas p\u00e1ginas do oficioso seman\u00e1rio Voz da Unidade, n\u00e3o foi poss\u00edvel realizar sequer sua primeira sess\u00e3o, em 13\/12\/1982, j\u00e1 que o local onde se realizaria, no centro de S\u00e3o Paulo, foi invadido por um contingente da Pol\u00edcia Federal, o que resultou na pris\u00e3o dos que \u00e9ramos delegados. A invas\u00e3o se deu menos de meia hora ap\u00f3s sua abertura, quando Giocondo Dias ainda apresentava aos cerca de 80 delegados algumas informa\u00e7\u00f5es e o balan\u00e7o pol\u00edtico em nome do ent\u00e3o CC.\u00a0\u00a0Durante o ano de 1983, o Congresso realizou-se de forma \u201cfatiada\u201d, em um cronograma de reuni\u00f5es em datas diferentes de grupos de 15 a 20 delegados, de forma discreta, no escrit\u00f3rio de advocacia que nos defendia no processo com base na Lei de Seguran\u00e7a Nacional, extinto anos depois. Por isso, as Resolu\u00e7\u00f5es s\u00f3 foram tornadas p\u00fablicas em janeiro de 1984.<\/em><\/p>\n<p><em>[\u00b2] \u2013 Como o partido estava clandestino e n\u00e3o podia sequer manter sedes, os encontros com os camaradas em clandestinidade absoluta se davam em locais p\u00fablicos diferentes e discretos, geralmente em bairros suburbanos.<\/em><\/p>\n<p><strong>(N\u00e3o deixe de ler a seguir \u201c<em>Aprender com os erros do passado, para construir um partido novo, efetivamente revolucion\u00e1rio<\/em>\u201d, de Luiz Carlos Prestes)<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/prestes\/1981\/03\/aprender.htm\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/prestes\/1981\/03\/aprender.htm<\/a><\/p>\n<p><strong>Aprender Com os Erros do Passado Para Construir um Partido Novo, Efetivamente Revolucion\u00e1rio<br \/>\n<\/strong><strong>[25 de Mar\u00e7o: O PCB Completa 59 Anos de Lutas Pelos Interesses dos Trabalhadores, Pelas Liberdades e Por Todas a Causas Justas de Nosso Povo]<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luiz Carlos Prestes<\/strong><\/p>\n<p><strong>1981<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fonte:\u00a0<\/strong>Prestes Hoje, Editora Codecri, 1983.<br \/>\n<strong>Transcri\u00e7\u00e3o e HTML:<\/strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/admin\/correio.htm\">Fernando A. S. Ara\u00fajo<\/a>, dezembro 2006.<br \/>\n<strong>Direitos de Reprodu\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/prestes\/autoriza.htm\">Autoriza\u00e7\u00e3o<\/a>. A c\u00f3pia ou distribui\u00e7\u00e3o deste documento \u00e9 livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.<\/p>\n<p>\u00c9 com justo orgulho que os comunistas, seus amigos e simpatizantes comemoram mais um anivers\u00e1rio de funda\u00e7\u00e3o, em nossa terra, do Partido Comunista.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do PC no Brasil \u2014 fundado \u00e0 luz e sob a influ\u00eancia do grande acontecimento hist\u00f3rico que foi a realiza\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o pelo proletariado da R\u00fassia, dirigido pelo Partido Bolchevique, que tinha \u00e0 sua frente o g\u00eanio de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/l\/lenin.htm\">L\u00eanin<\/a>\u00a0\u2014 foi, no fundamental, a consequ\u00eancia necess\u00e1ria do amadurecimento da classe oper\u00e1ria que j\u00e1 sentia a necessidade de uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pr\u00f3pria, capaz de dirigir as lutas por suas reivindica\u00e7\u00f5es de classe e de lutar consequentemente por um novo regime pol\u00edtico, de realizar transforma\u00e7\u00f5es sociais profundas que libertem os trabalhadores da explora\u00e7\u00e3o de que s\u00e3o v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Recordamos nesta data o pequeno grupo, constitu\u00eddo, na sua quase totalidade, por oper\u00e1rios e dirigentes sindicais (de origem anarco-sindicalista), tendo \u00e0 frente o intelectual de destaque que foi\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/p\/pereira_astrojildo.htm\">Astrojildo Pereira<\/a>, grupo que soube vencer todas as dificuldades e enfrentar mil incompreens\u00f5es para, voltado para o futuro, fundar em nosso Pa\u00eds o primeiro partido pol\u00edtico dos oprimidos. Apesar de todas as persegui\u00e7\u00f5es, das repetidas vezes que foi considerado totalmente aniquilado pelas for\u00e7as reacion\u00e1rias, este partido manteve-se vivo e atuante, sempre ressurgindo com novo e maior vigor, de forma a ser hoje a express\u00e3o in\u00e9dita em nosso Pa\u00eds do \u00fanico partido pol\u00edtico que j\u00e1 entra no sexag\u00e9simo ano de vida. E isto num pa\u00eds como o nosso, cujo atraso cultural e pol\u00edtico est\u00e1 concretamente expresso na falta de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas est\u00e1veis, j\u00e1 que as classes dominantes, para enganar a popula\u00e7\u00e3o, diante de cada crise e da consequente desmoraliza\u00e7\u00e3o de seus partidos pol\u00edticos, tratam de modificar, na defesa de seus interesses, o nome dos partidos pol\u00edticos, de reduzi-los, por exemplo, a simples ajuntamentos pol\u00edticos, como a ARENA e o MDB, para, em seguida, como aconteceu recentemente, em nome de uma chamada reestrutura\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, dividir a &#8220;oposi\u00e7\u00e3o&#8221; de maneira a poder manter, atrav\u00e9s do voto, o sistema de domina\u00e7\u00e3o dos monop\u00f3lios nacionais e estrangeiros.<\/p>\n<p>Nosso Partido n\u00e3o pode, na verdade, ser eliminado, nem desaparecer, porque \u00e9 a express\u00e3o pol\u00edtica da classe mais avan\u00e7ada da sociedade capitalista, aquela que, inexoravelmente, cresce com o pr\u00f3prio desenvolvimento do capitalismo.<\/p>\n<p>Desde sua funda\u00e7\u00e3o, nas dezenas de anos decorridos, teve sempre o m\u00e9rito de levantar e lutar com abnega\u00e7\u00e3o pelas principais causas justas dos trabalhadores e das demais camadas sociais oprimidas ou exploradas da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Lutou sempre pela melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores, pela limita\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, por uma legisla\u00e7\u00e3o trabalhista mais justa, pela fixa\u00e7\u00e3o pelo Estado de um sal\u00e1rio m\u00ednimo, bem como pelo 13\u00ba sal\u00e1rio e demais reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores. Foram os comunistas os primeiros a levantar o problema da reforma agr\u00e1ria, lutar pela elimina\u00e7\u00e3o do latif\u00fandio, contra as formas pr\u00e9-capitalistas de explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores do campo e pela entrega da terra aos que nela efetivamente trabalham. Coube, tamb\u00e9m, aos comunistas a iniciativa, em nossa terra, de desmascarar a opress\u00e3o imperialista e dar passos importantes no caminho da luta contra a explora\u00e7\u00e3o do nosso povo pelo capital estrangeiro. Mesmo nas condi\u00e7\u00f5es da mais brutal repress\u00e3o policial, exerceram os comunistas papel de destaque na luta em defesa das riquezas naturais da Na\u00e7\u00e3o, na luta contra a entrega dos min\u00e9rios e, em particular, do petr\u00f3leo aos trustes imperialistas, participando ativamente da hist\u00f3rica campanha pelo monop\u00f3lio estatal da explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo. Nosso Partido, que mobilizou massas em defesa da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, trai\u00e7oeiramente atacada pelo banditismo hitleriano, sendo numerosos os seus membros que participaram do contingente militar que lutou na It\u00e1lia, ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra Mundial exigiu que os soldados norte-americanos abandonassem o solo de nossa P\u00e1tria e fossem eliminadas as bases militares ianques que durante a guerra foram instaladas em nosso Pa\u00eds. Participando sempre de todas as lutas pela redemocratiza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds, al\u00e9m de utilizar o voto, tanto na legalidade como nos per\u00edodos de maior repress\u00e3o, os comunistas se fizeram representar na Constituinte de 1946, na qual, apesar do n\u00famero reduzido de representantes que constitu\u00edam a bancada comunista, tiveram papel destacado no esfor\u00e7o para que fossem registrados na Constitui\u00e7\u00e3o de 1946 os principais direitos democr\u00e1ticos, inclusive o direito de greve para os oper\u00e1rios, de tal forma que, apesar das caracter\u00edsticas fundamentais reacion\u00e1rias da referida Constitui\u00e7\u00e3o, \u00e9 ela, no terreno dos direitos civis, a mais democr\u00e1tica que j\u00e1 teve nosso povo. Quando pesou sobre nosso povo a terr\u00edvel amea\u00e7a de fascistiza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds, foram os comunistas que tiveram a iniciativa de formar a ampla\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/a\/alian_nacion_libert.htm\">Alian\u00e7a Nacional Libertadora<\/a>\u00a0e de empunhar armas em defesa da democracia. Apesar dos erros que foram cometidos e que ainda n\u00e3o foram de maneira suficiente analisados, o movimento armado de 1935 representa na vida de nosso Partido o ponto mais elevado de sua atividade pol\u00edtica \u2014 movimento &#8220;<strong>Por P\u00e3o, Terra e Liberdade<\/strong>&#8221; \u2014 movimento que por ser patri\u00f3tico e honesto, n\u00e3o podia, como ensina\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/l\/lenin.htm\">L\u00eanin<\/a>, deixar de produzir frutos e de, apesar de derrotado, n\u00e3o ter permitido a implanta\u00e7\u00e3o de um regime fascista em nosso Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Com o golpe militar reacion\u00e1rio de 1964, mais uma vez, os comunistas, apesar dos erros cometidos e que contribu\u00edram para a vit\u00f3ria f\u00e1cil da contra-revolu\u00e7\u00e3o, continuaram resistindo e lutando pelas liberdades democr\u00e1ticas e souberam travar uma justa luta contra as tend\u00eancias equivocadas daqueles que se lan\u00e7aram, inoportunamente, \u00e0 luta armada. Tanto no per\u00edodo anterior ao golpe, como depois dele, foram numerosos os comunistas que sacrificaram suas vidas na luta pelos interesses da classe oper\u00e1ria e do povo. Somente no governo do sr.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/d\/dutra_eurico.htm\">Dutra<\/a>, 55 companheiros tombaram sob as balas assassinas da rea\u00e7\u00e3o e, ap\u00f3s 1964, durante o governo do sr,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/g\/geisel_ernesto.htm\">Geisel<\/a>, morre na tortura o her\u00f3ico dirigente da\u00a0<strong>Juventude Comunista<\/strong>\u00a0\u2014\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/l\/lima_jose_montenegro.htm\">Jos\u00e9 Montenegro de Lima<\/a>\u00a0\u2014 e s\u00e3o sequestrados e continuam at\u00e9 hoje desaparecidos os membros do CC:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/c\/capistrano_david.htm\">David Capistrano da Costa<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/c\/costa_elson.htm\">Elson Costa<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/m\/massena_joao.htm\">Jo\u00e3o Massena<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/m\/maranhao_luis.htm\">Lu\u00eds Maranh\u00e3o Filho<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/r\/ribeiro_walter.htm\">Valter Ribeiro<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/p\/pereira_hiran.htm\">Hiran Pereira<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/v\/veloso_itair.htm\">Itair Veloso<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/m\/miranda_jayme.htm\">Jaime Miranda<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/b\/bonfim_orlando.htm\">Orlando Bonfim<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/v\/veras_nestor.htm\">Nestor Veras<\/a>.<\/p>\n<p>Citando estes nomes que refletem as qualidades m\u00e1ximas do verdadeiro comunista, a honra e a dignidade do soldado do proletariado, queremos aqui homenagear a todos os companheiros que nestes 59 anos de luta, sofreram nas pris\u00f5es da rea\u00e7\u00e3o e chegaram muitos deles at\u00e9 ao sacrif\u00edcio da pr\u00f3pria vida pelos interesses dos trabalhadores, por um futuro de felicidade para o povo, da liberdade, independ\u00eancia e progresso para a P\u00e1tria. Seu sacrif\u00edcio n\u00e3o foi em v\u00e3o e a mem\u00f3ria deles estar\u00e1 sempre presente na luta dos comunistas pelo socialismo e pela instaura\u00e7\u00e3o vitoriosa em nossa Terra da sociedade comunista.<\/p>\n<p>Mas a maior homenagem que a todos podemos prestar consiste, agora, em sermos honestos conosco mesmos, em sermos capazes de reconhecer que n\u00e3o tivemos a capacidade de fazer do PCB um partido efetivamente revolucion\u00e1rio, de transform\u00e1-lo na vanguarda da classe oper\u00e1ria, na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica capaz de conduzir os trabalhadores \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista.\u00a0<em>No fundamental, o principal erro que cometemos consiste na incapacidade de nossa parte de articular corretamente todas as lutas a que anteriormente nos referimos com uma estrat\u00e9gia efetivamente revolucion\u00e1ria, com uma estrat\u00e9gia que, partindo de uma an\u00e1lise correta da realidade brasileira, apontasse o caminho para o socialismo nas condi\u00e7\u00f5es de nosso Pa\u00eds.<\/em><\/p>\n<p>Na verdade, devemos reconhecer que n\u00e3o conhec\u00edamos e fomos incapazes de p\u00f4r em pr\u00e1tica a grande li\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/l\/lenin.htm\">L\u00eanin<\/a>:<\/p>\n<p><strong>&#8220;\u00c9 necess\u00e1rio dizer as coisas como elas s\u00e3o: o Programa do Partido deve conter o que \u00e9 absolutamente indiscut\u00edvel, o que foi efetivamente comprovado e s\u00f3 ent\u00e3o ser\u00e1 um programa marxista.&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Onde est\u00e3o, por\u00e9m, as ra\u00edzes do erro cometido? N\u00e3o podemos deixar de reconhecer que elas est\u00e3o no nosso pr\u00f3prio atraso cultural, como parcela que padece do efetivo atraso cultural da sociedade brasileira, da consequente tend\u00eancia a copiar ou transferir mecanicamente solu\u00e7\u00f5es adotadas para organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias de outros pa\u00edses para o nosso \u2014 dogmatismo, portanto \u2014, al\u00e9m de nosso pr\u00f3prio desconhecimento da realidade brasileira, a par de insuficiente conhecimento da teoria marxista-leninista.<\/p>\n<p>Olvidando que nosso pa\u00eds conquistara a independ\u00eancia pol\u00edtica no princ\u00edpio do s\u00e9culo XIX e que no fim do s\u00e9culo surgira a burguesia industrial, j\u00e1 na \u00e9poca do imperialismo e, por isso, j\u00e1 nascida como uma\u00a0<strong>burguesia dependente e associada do imperialismo<\/strong>, neg\u00e1vamos j\u00e1 em pleno s\u00e9culo XX que a forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social dominante no Brasil fosse a capitalista, embora desde o in\u00edcio marcada como\u00a0<strong>dependente<\/strong>, mas de qualquer forma capitalista.<\/p>\n<p>V\u00edamos o Brasil como um pa\u00eds semicolonial e chegamos a afirmar que dependia da elimina\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o imperialista e da liquida\u00e7\u00e3o do latif\u00fandio o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Esta falsa aprecia\u00e7\u00e3o da realidade nos levou, ainda em 1945, a definir o car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o brasileira como\u00a0<strong>democr\u00e1tico-burguesa<\/strong>, transpondo ao nosso Partido aquilo que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/l\/lenin.htm\">L\u00eanin<\/a>, com acerto, afirmava para as condi\u00e7\u00f5es da R\u00fassia czarista em 1905.<\/p>\n<p>Negando o car\u00e1ter capitalista da economia brasileira, aplic\u00e1vamos mecanicamente e esquematicamente em nosso Pa\u00eds as\u00a0<strong>Teses<\/strong>\u00a0para os pa\u00edses coloniais e semicoloniais aprovadas pelo VI\u00a0\u00a0 Congresso da<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/c\/comintern.htm\">\u00a0Internacional Comunista<\/a>.\u00a0 Isto est\u00e1 expresso com bastante clareza no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/prestes\/1935\/07\/05.htm\">Manifesto de 5 de julho de 1935<\/a>, onde, estranhamente, a uma estrat\u00e9gia de direita, porque negava que j\u00e1 se realizara no Pa\u00eds a revolu\u00e7\u00e3o burguesa, adot\u00e1vamos, simultaneamente, uma t\u00e1tica &#8220;esquerdista&#8221;. Mas \u00e9 nos documentos da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/c\/conferencia_mantiqueira.htm\">Confer\u00eancia da Mantiqueira<\/a>, de 1943, e nos elaborados a partir de 1945, que se torna mais claro ainda o car\u00e1ter oportunista de direita da estrat\u00e9gia que adot\u00e1vamos.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Insistimos em negar o car\u00e1ter capitalista da forma\u00e7\u00e3o social econ\u00f4mica dominante no pa\u00eds. Negando-se \u00e0 autocr\u00edtica dessa estrat\u00e9gia oportunista de direita&#8230; o Comit\u00ea Central revelou falta de honestidade e incapacidade moral para dirigir o Partido.&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Desconhecendo que em qualquer circunst\u00e2ncia,\u00a0<strong>numa sociedade capitalista, a contradi\u00e7\u00e3o fundamental \u00e9 a existente entre o proletariado e a burguesia<\/strong>, a pretexto da luta contra o nazismo, defend\u00edamos a unidade que &#8220;pode e deve ser alcan\u00e7ada em torno do governo constitu\u00eddo, o que a\u00ed temos&#8221;, quer dizer, o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/e\/estado_novo.htm\">Estado Novo<\/a>\u00a0getulista. Nos documentos da dire\u00e7\u00e3o do Partido, j\u00e1 por mim assinados, ap\u00f3s a liberta\u00e7\u00e3o em 1945 dos presos pol\u00edticos, toda a concep\u00e7\u00e3o da unidade nacional que preg\u00e1vamos estava inteiramente ligada \u00e0 vis\u00e3o estrat\u00e9gica da luta pelo desenvolvimento do capitalismo na democracia que seria conquistada e assegurada com a vit\u00f3ria mundial sobre o nazifascismo. Insistimos, portanto, em negar o car\u00e1ter capitalista da forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social dominante em nosso Pa\u00eds, para n\u00f3s ainda considerado como semicolonial e semifeudal. Apresent\u00e1vamos, por isso, como contradi\u00e7\u00e3o fundamental na sociedade brasileira, a existente entre a Na\u00e7\u00e3o e o imperialismo. Erro de car\u00e1ter oportunista, repetido at\u00e9 os documentos do VI Congresso de 1967.<\/p>\n<p>Negando-se \u00e0 autocr\u00edtica dessa estrat\u00e9gia oportunista de direita, o CC n\u00e3o quis compreender que estava superada a Resolu\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica do VI Congresso. A proposta a este respeito, feita na reuni\u00e3o de maio de 1979, foi rejeitada com apenas dois votos a favor \u2014 o meu e o de outro camarada. Insistia o CC em que a contradi\u00e7\u00e3o fundamental na sociedade brasileira fosse, ainda, a existente entre a Na\u00e7\u00e3o e o imperialismo. N\u00e3o tomava, nem ao menos, conhecimento da vit\u00f3ria que tiveram as delega\u00e7\u00f5es dos\u00a0<strong>Partidos Comunistas e Oper\u00e1rios da Am\u00e9rica Latina<\/strong>, inclusive com a participa\u00e7\u00e3o do nosso, com a aprova\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>Resolu\u00e7\u00e3o dos Partidos Comunistas e Oper\u00e1rios<\/strong>\u00a0\u2014 na\u00a0<strong>Confer\u00eancia Internacional de 1969<\/strong>\u00a0\u2014 em que j\u00e1 ent\u00e3o separamos a an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o concreta na maioria de nossos pa\u00edses daquela existente nos pa\u00edses coloniais e semicoloniais da \u00c1sia e \u00c1frica. Reconhece-se naquela Resolu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><strong>&#8220;Na Am\u00e9rica Latina a maioria dos pa\u00edses conquistou a independ\u00eancia estatal nos princ\u00edpios do s\u00e9culo passado; tiveram em conjunto um relativo desenvolvimento capitalista; formou-se, cresce e se forja na luta um numeroso proletariado, tanto na cidade como no campo&#8230;&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Negava-se tamb\u00e9m o CC a tomar conhecimento da\u00a0<strong>Resolu\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia dos Partidos Comunistas da Am\u00e9rica Latina e do Caribe<\/strong>, realizada em 1975 em Havana, que j\u00e1 reconhecia que:<\/p>\n<p><strong>&#8220;&#8230;O Socialismo \u00e9 o \u00fanico sistema capaz de garantir o desenvolvimento verdadeiro da Am\u00e9rica Latina com o ritmo acelerado que exigem nossos povos&#8230;&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Insistindo na estrat\u00e9gia errada, oportunista de direita, que j\u00e1 nos levou, durante tantos anos, a erros na pol\u00edtica cotidiana, assim como a profundas deforma\u00e7\u00f5es na organiza\u00e7\u00e3o do Partido, o CC revelou sua falta de honestidade e sua incapacidade moral para dirigir o Partido.<\/p>\n<p>Tanto mais que \u00e9 imposs\u00edvel construir um partido efetivamente revolucion\u00e1rio, capaz de enraizar-se na classe oper\u00e1ria, se se baseia numa falsa concep\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estar\u00e1 nessa orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica direitista o completo insucesso na realiza\u00e7\u00e3o do que chegamos a chamar de &#8220;<strong>Desafio Hist\u00f3rico<\/strong>&#8221; na\u00a0<strong>Resolu\u00e7\u00e3o do VI Congresso?<\/strong>\u00a0E n\u00e3o revela toda a hist\u00f3ria do movimento comunista que a falta de combate, de esfor\u00e7os para combater essa estrat\u00e9gia de direita,\u00a0<strong>leva inevitavelmente \u00e0 trai\u00e7\u00e3o \u00e0 classe oper\u00e1ria, aos entendimentos esp\u00farios com a rea\u00e7\u00e3o e seus governantes e tamb\u00e9m ao anti-sovietismo?<\/strong><\/p>\n<p>Enfim, as deforma\u00e7\u00f5es em nosso Partido chegaram a tal ponto que me senti no dever de escrever a &#8220;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/prestes\/1980\/03\/carta.htm\">Carta aos Comunistas<\/a>&#8220;. Nela chamo a aten\u00e7\u00e3o para que saibamos elaborar uma nova estrat\u00e9gia, efetivamente revolucion\u00e1ria, que aponte para a constru\u00e7\u00e3o do bloco de for\u00e7as antimonopolistas, capaz de conquistar, sob a dire\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria, o poder pol\u00edtico \u2014\u00a0<strong>antimonopolista<\/strong>,\u00a0<strong>anti-imperialista<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>antilatifundi\u00e1rio<\/strong>\u00a0\u2014 que abra caminho para o socialismo. Para alcan\u00e7ar essa meta revolucion\u00e1ria, necessitamos construir um novo Partido, efetivamente revolucion\u00e1rio, o que s\u00f3 se alcan\u00e7ar\u00e1 atrav\u00e9s do trabalho de massas e aplicando uma pol\u00edtica correta de alian\u00e7as, que, atrav\u00e9s da conquista do mais amplo democratismo, da conquista de uma democracia para as massas, que crie para a classe oper\u00e1ria as condi\u00e7\u00f5es concretas para organizar o bloco de for\u00e7as antimonopolistas, indispens\u00e1vel para liquidar o poder dos monop\u00f3lios e de, portanto, abrir caminho para o\u00a0<strong>Socialismo<\/strong>.<\/p>\n<p>Ao entrarmos no sexag\u00e9simo ano de nosso Partido, \u00e9 esta a tarefa principal que enfrentamos, tarefa dif\u00edcil, mas que ser\u00e1 vitoriosa na medida em que os comunistas forem capazes de reconhecer as ra\u00edzes dos erros que cometeram, que livres da cegueira oportunista dos que defendem postos e s\u00f3 sabem ser comunistas na qualidade de dirigentes, sejam capazes de realizar uma verdadeira autocr\u00edtica \u2014 \u00fanica arma de que dispomos para transformar os erros cometidos e as s\u00e9rias deforma\u00e7\u00f5es de que padece nossa organiza\u00e7\u00e3o, nos ensinamentos que nos permitir\u00e3o construir o Partido pol\u00edtico de que necessita a classe oper\u00e1ria e nosso povo para conquistar a nova sociedade, livre da explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem e chegarmos a construir em nosso Pa\u00eds a\u00a0<strong>Sociedade Comunista<\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27836\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[221],"class_list":["post-27836","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7eY","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27836","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27836"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27836\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27836"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27836"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27836"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}