{"id":27853,"date":"2021-09-20T23:42:23","date_gmt":"2021-09-21T02:42:23","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27853"},"modified":"2021-09-20T23:42:23","modified_gmt":"2021-09-21T02:42:23","slug":"cronica-de-uma-derrota-anunciada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27853","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica de uma derrota anunciada"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.francetvinfo.fr\/pictures\/B200SYj7A-M8UclaOioU_O91FBg\/752x423\/2021\/08\/16\/php2HB3Oj.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->foto: WAKIL KOHSAR \/ AFP<\/p>\n<p>H. Suricatto<\/p>\n<p>Pref\u00e1cio<\/p>\n<p>Este presente artigo visa realizar uma an\u00e1lise que abrange em sua primeira parte, todo o contexto hist\u00f3rico do atual conflito afeg\u00e3o e o barril de p\u00f3lvora que este pa\u00eds tem manifestado nos \u00faltimos 45 anos. Importante para analisar como as rela\u00e7\u00f5es internacionais, a geopol\u00edtica e a evolu\u00e7\u00e3o da guerra se manifestam neste montanhoso pa\u00eds da \u00c1sia central, cujos eventos dos \u00faltimos meses merecem uma aten\u00e7\u00e3o dos comunistas do mundo todo, sem se prender a determinismos t\u00edpicos de manuais. Esse regresso \u00e0 hist\u00f3ria n\u00e3o se trata de vaidade intelectual, mas para justamente entender o movimento dos fatos hist\u00f3ricos, suas determina\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas, se manifestaram na s\u00edntese do desfecho da guerra afeg\u00e3-americana. Sobre os eventos mais recentes e as fontes da pesquisa para este artigo, irei abordar na segunda parte, que vai tratar desde o acordo de paz entre Trump e o Taleban at\u00e9 a sa\u00edda oficial das for\u00e7as armadas americanas em 29 de Agosto de 2021.<\/p>\n<p>Aeroporto de Kabul, Afeganist\u00e3o, 16 de Agosto de 2021<\/p>\n<p>Um C-17 da For\u00e7a a\u00e9rea americana decola desse aeroporto com mais de 800 pessoas embarcadas dentro de sua aeronave. Antes de decolar, dezenas de afeg\u00e3os se penduram em sua aeronave na esperan\u00e7a de conseguir ser levado por ela para bem longe dali, para algum lugar que n\u00e3o fosse esse pa\u00eds. Logo depois da decolagem, uma pessoa \u00e9 vista despencando a centenas de metros de altura da aeronave at\u00e9 se espatifar na pista de pouso. Segundo as fontes locais, era uma jovem promessa do futebol de apenas 19 anos.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 20 anos, trabalhadores do World Trade Center se jogavam das torres g\u00eameas em um ato de desespero extremo, vimos essa infeliz cena ser reproduzida 20 anos e h\u00e1 dezenas de milhares de quil\u00f4metros dali, numa guerra iniciada oficialmente por aquele atentado e que se encerra com a vit\u00f3ria da for\u00e7a que um dia os EUA subjugaram. Seja nos atentados das torres g\u00eameas, seja no aeroporto de Cabul, a bucha de canh\u00e3o para as aventuras militares sempre est\u00e1 nas classes mais oprimidas, sejam faxineiras e bombeiros nova iorquinos, sejam alde\u00f5es, militares e colaboradores afeg\u00e3os que acreditaram na ret\u00f3rica de \u201cdemocracia e liberdade\u201d.<\/p>\n<p>As manchetes da imprensa mundial s\u00e3o tomadas pela queda de Cabul, capital do Afeganist\u00e3o, para as for\u00e7as fundamentalistas isl\u00e2micas do Taleban, derrubado pelos estadunidenses em 2001, na sua ca\u00e7a por vingan\u00e7a pelos atentados de 11 de Setembro de 2001. A fuga do presidente do Afeganist\u00e3o, a \u201cr\u00e1pida\u201d captura das principais cidades do pa\u00eds e a pressa das for\u00e7as invasoras da OTAN em evacuar suas bases militares e seu corpo diplom\u00e1tico em contraste com o avan\u00e7o de Pick-Up\u2019s armados de jihadistas tomando pontos estrat\u00e9gicos, evidencia a tudo e a todos a queda da ret\u00f3rica do imp\u00e9rio sobre o verdadeiro andamento da guerra estadunidense do Afeganist\u00e3o (2001-2021) a mais longa da hist\u00f3ria dos EUA.<\/p>\n<p>Existem li\u00e7\u00f5es boas para se tirar diante de todos estes eventos para compreender como esse fato consumado est\u00e1 inserido na atual conjuntura internacional, e em particular, na atual estrat\u00e9gia pol\u00edtica externa dos EUA frente \u00e0 nova d\u00e9cada.<\/p>\n<p>O regresso necess\u00e1rio \u00e0 hist\u00f3ria<\/p>\n<p>O sujeito que escreve sobre o presente, \u00e0s vezes comete sempre o equ\u00edvoco de ficar preso no imediato para explicar os eventos, e retira do passado apenas aquilo que lhe conv\u00e9m e n\u00e3o o que \u00e9 necess\u00e1rio de fato. Os pontos se ligam n\u00e3o porque h\u00e1 vaidade hist\u00f3rica de explicar cada evento ali e aqui para dar doses gratuitas de pedantismo, mas de melhor compreender o movimento hist\u00f3rico dos eventos que culminaram no presente e subsidiam os progn\u00f3sticos do futuro.<\/p>\n<p>O Afeganist\u00e3o \u00e9 tido como um dos pa\u00edses mais dif\u00edceis do mundo para se controlar por for\u00e7as estrangeiras, um verdadeiro cemit\u00e9rio de imp\u00e9rios. Desde os tempos de Alexandre o Grande at\u00e9 o imp\u00e9rio mongol, a geografia, as rela\u00e7\u00f5es tribais, o ambiente hostil e a cultura de \u201csenhores da guerra\u201d sempre foram obst\u00e1culos para as for\u00e7as que um dia tentaram ocupar e dominar este territ\u00f3rio. Nos atuais tempos capitalistas, no S\u00e9culo XIX, o imp\u00e9rio brit\u00e2nico em disputa com o imp\u00e9rio russo pela posse neocolonial do Afeganist\u00e3o, sempre teve s\u00e9rias dificuldades de estabelecer um dom\u00ednio completo sobre o territ\u00f3rio, sendo uma de suas col\u00f4nias mais problem\u00e1ticas. No s\u00e9culo XX, ao verem os brit\u00e2nicos abandonarem de vez o Afeganist\u00e3o, na esteira do fim da primeira guerra, o pa\u00eds passou por um relativo desenvolvimento local t\u00edpico de um estado de maioria isl\u00e2mica da \u00c1sia central. A sociedade afeg\u00e3 se mobiliza em torno de avan\u00e7os pol\u00edticos que d\u00e9cadas depois culminariam numa revolu\u00e7\u00e3o popular socialista, a rep\u00fablica de Saur em 1978. N\u00e3o era um estado socialista aos moldes do leste europeu ou dos seus vizinhos chineses, mas era um estado nacional popular com claros fins de desenvolvimento econ\u00f4mico e social do pa\u00eds em seus moldes burgueses, o que n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil numa na\u00e7\u00e3o com seculares rela\u00e7\u00f5es tribais e com o fundamentalismo religioso forte. Prosseguiram com a moderniza\u00e7\u00e3o do estado sob princ\u00edpios socialistas visando superar os resqu\u00edcios de depend\u00eancia econ\u00f4mica colonial e pr\u00e9-capitalistas, com pesado investimento de infraestrutura sovi\u00e9tica. Com a hostiliza\u00e7\u00e3o de for\u00e7as reacion\u00e1rias lastreadas no extremismo dos tribais senhores da guerra, financiado pela Ar\u00e1bia Saudita e Paquist\u00e3o, o estado socialista afeg\u00e3o convoca a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica para lhe auxiliar militarmente no combate a tais for\u00e7as que geravam instabilidade e desejavam restabelecer a autocracia isl\u00e2mica com claros tra\u00e7os medievais. Aqui come\u00e7a o atual ciclo de conflitos armados local.<\/p>\n<p>Brejnev delibera a ocupa\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica do Afeganist\u00e3o em 1979, os EUA reagem de imediato a esse \u201catentado \u00e0 liberdade\u201d do povo afeg\u00e3o armando a mais cara e complexa opera\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da CIA. Comprando o arsenal pilhado por Israel das guerras \u00e1rabes-israelenses dos anos 1960\/70 e atravessando a fronteira do Paquist\u00e3o, esses \u201cguerreiros da liberdade\u201d, como os Mujahideen eram classificados pela m\u00e1quina de propaganda dos capitalistas, antes armados com simples rifles de a\u00e7\u00e3o por ferrolhos brit\u00e2nicos, estavam bem armados com Kalashnikovs sovi\u00e9ticas que antes tinham sido destinadas a ex\u00e9rcitos \u00e1rabes. Como eram tempos de guerra fria e a URSS era uma superpot\u00eancia militar, as dificuldades no campo militar eram poucas no in\u00edcio, dado que a superioridade b\u00e9lica sovi\u00e9tica se imp\u00f4s com destacamentos avan\u00e7ados sobre territ\u00f3rio afeg\u00e3o para al\u00e9m das vilas e cidades, com intenso patrulhamento de suas rotas. A doutrina militar sovi\u00e9tica consistia em uma posse completa do territ\u00f3rio, ao mesmo tempo, em capacitar e treinar o ex\u00e9rcito afeg\u00e3o e auxiliar no desenvolvimento social e econ\u00f4mico do Afeganist\u00e3o para que a revolu\u00e7\u00e3o nacional passasse para a via do socialismo, enquanto a opera\u00e7\u00e3o durasse.<\/p>\n<p>Pois sabemos bem que a dificuldade em si residia justamente no campo pol\u00edtico, em se contrapor \u00e0s antigas tradi\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas seculares extremamente enraizadas no povo local, constantemente refor\u00e7adas pela pesada propaganda imperialista antissovi\u00e9tica divulgada sobre o conflito. A propaganda foi eficiente para recrutar jihadistas do mundo inteiro para se somar \u00e0s fileiras Mujahideen contra os sovi\u00e9ticos. O que antes, o terrorismo isl\u00e2mico, disperso e local, era dom\u00e9stico e fr\u00e1gil, com os recursos, a infraestrutura e a log\u00edstica fornecidas pela CIA com a colabora\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os secretos sauditas, paquistaneses e chineses, transportaram centenas de milhares de jihadistas a, pela primeira vez, se agrupar em uma verdadeira Legi\u00e3o Estrangeira em combate contra o comunismo. N\u00e3o \u00e9 novidade para ningu\u00e9m como o ent\u00e3o presidente americano Ronald Reagan, ao receber relat\u00f3rios da CIA sobre o sucesso do recrutamento em massa, celebrava os \u201cguerreiros da liberdade\u201d, os recebendo no sal\u00e3o oval da Casa Branca.<\/p>\n<p>Tal iniciativa foi respons\u00e1vel por tornar a ocupa\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica no Afeganist\u00e3o, que era para ser pontual e pr\u00e1tica, num verdadeiro atoleiro, a envolver cada vez mais a din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es externas e internas da URSS para tal guerra. Levando consigo a morte de 15 mil sovi\u00e9ticos e mais de 100 mil feridos. As coisas complicaram mais ainda quando os EUA levaram para estes senhores da guerra armas antia\u00e9reas port\u00e1teis Stinger, sofisticadas demais para a \u00e9poca, operadas nos desfiladeiros e penhascos do acidentado e montanhoso territ\u00f3rio afeg\u00e3o, ideais para seu uso efetivo e um inferno para manobras evasivas das tropas sovi\u00e9ticas, empregadas contra helic\u00f3pteros e aeronaves, levando dezenas ao ch\u00e3o e arrastando o conflito at\u00e9 fevereiro de 1989, quando a coopera\u00e7\u00e3o militar com os afeg\u00e3os cessa e as tropas sovi\u00e9ticas regressam a URSS para resolver os j\u00e1 candentes conflitos internos.<\/p>\n<p>Com o colapso do estado sovi\u00e9tico, o estado socialista afeg\u00e3o n\u00e3o encontra suporte na conjuntura internacional para se manter, embora tenha resistido bravamente por alguns anos e com apoio popular. Os limites da Rep\u00fablica de Saur estavam evidentes e n\u00e3o poderiam ser superados se n\u00e3o houvesse um salto qualitativo nas rela\u00e7\u00f5es que o Estado tinha com a sociedade afeg\u00e3, sem precisar se escorar na solidariedade internacional. A Guerra civil se torna inevit\u00e1vel e, em 1993, a rep\u00fablica de Saur cai e se inicia a guerra civil entre os mujahideen at\u00e9 que esta \u00e9 \u201cvencida\u201d pelo Taleban em 1996.<\/p>\n<p>Os \u201cguerreiros da liberdade\u201d travam uma guerra entre si pela posse do estado afeg\u00e3o. O Taleban, fundado em 1994, ganha a sua maior por\u00e7\u00e3o, tomando Cabul e a maioria das prov\u00edncias. Instala seu governo com sua interpreta\u00e7\u00e3o local da etnia Pashtun, com uma legisla\u00e7\u00e3o lastreada no Alcor\u00e3o e na ponta do cano de seus fuzis. Seria tautol\u00f3gico dizer que o conjunto de direitos m\u00ednimos de liberdade, propiciados \u00e0 sociedade afeg\u00e3 at\u00e9 a queda da Rep\u00fablica de Saur, foi suprimido em poucos anos, com um enorme legado s\u00f3cio-pol\u00edtico e econ\u00f4mico para aquele canto do mundo. Mulheres tratadas como objeto de fato, puni\u00e7\u00f5es medievais a crimes n\u00e3o hediondos, implos\u00e3o de s\u00edmbolos culturais e religiosos a atentar contra aquilo que consideram os princ\u00edpios do Isl\u00e3, a produ\u00e7\u00e3o de \u00f3pio para exporta\u00e7\u00e3o e o grande campo de treinamento de terroristas profissionais para o mundo que se tornou aquele pa\u00eds, com consequ\u00eancias diretas nos conflitos militares mais not\u00e1veis dos anos 1990 \u2013 a Guerra do Golfo, as duas guerras da Chech\u00eania, as guerras iugoslavas e as incurs\u00f5es terroristas na \u00c1frica e na \u00c1sia \u2013 com not\u00e1vel desenvolvimento da Al Qaeda, dirigida por um \u201cguerreiro da liberdade\u201d chamado Osama Bin Laden, este mesmo que estampou em um jornal estadunidense acerca de \u201ccomo sua luta serve para libertar o povo oprimido do Afeganist\u00e3o das garras do comunismo sovi\u00e9tico e tudo aquilo que ele entendia como progresso\u201d. Bem not\u00e1vel o motivo da hostilidade destes nobres combatentes era percept\u00edvel nos lamentos dos senhores da guerra ao verem, durante a Rep\u00fablica de Saur, os socialistas ensinando suas mulheres a ler e a escrever e a se libertar da ignor\u00e2ncia feudal que prendia essa sociedade a rela\u00e7\u00f5es retr\u00f3gradas tranquilas de serem mantidas, desde que cumprissem seu papel na sociedade global capitalista.<\/p>\n<p>Os EUA t\u00eam uma facilidade enorme de apoiar grupos insurgentes que se voltam contra si uma hora por demonstrar que n\u00e3o ir\u00e3o cumprir seu acordo nas negocia\u00e7\u00f5es prometidas. A sagrada interven\u00e7\u00e3o nos assuntos internos do mundo \u00e1rabe pelo Ocidente j\u00e1 estava tensionada desde que os EUA, nos anos 1970, se aproximam bastante de Israel numa \u00e9poca que nem a Europa Ocidental em suas rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas hesitavam em apoiar fortemente o Estado judeu. A imposi\u00e7\u00e3o de um estado israelense seria um dos motivos, mas n\u00e3o o fundamental elemento para a descren\u00e7a destes grupos jihadistas com os EUA. Basta recordar que na guerra Ir\u00e3-Iraque, dos anos 1980, Os EUA apoiavam indiretamente o regime de Saddam Hussein em nome da derrota de um inimigo geopol\u00edtico ainda maior, o Ir\u00e3 dos aiatol\u00e1s, da Revolu\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica e da consequente expuls\u00e3o e enforcamento de diplomatas em guindastes em plena pra\u00e7a p\u00fablica de Teer\u00e3. A ret\u00f3rica do imp\u00e9rio de cercar o Ir\u00e3 n\u00e3o se dava apenas na frente iraquiana. Vale lembrar que o Afeganist\u00e3o tamb\u00e9m faz fronteira com aquele pa\u00eds, e a guerra sovi\u00e9tica-afeg\u00e3 n\u00e3o s\u00f3 tinha pretens\u00f5es de expulsar a URSS e o comunismo do Afeganist\u00e3o, mas de continuar gerando uma fronteira inst\u00e1vel na teocracia dos aiatol\u00e1s que ousou bater de frente com o imp\u00e9rio. Os terroristas isl\u00e2micos em sua enorme maioria t\u00eam lastro na vertente wahabista dos sunitas, cuja origem se encontra na Ar\u00e1bia Saudita, um grande patrocinador do terrorismo internacional e aliado dos EUA. Claro que n\u00e3o foram na fonte para liquidar a origem dos terroristas, sobretudo quando estes eram grandes aliados, que compravam sem hesitar os arsenais americanos, oferecendo bases militares e controlando o pre\u00e7o do petr\u00f3leo muitas vezes de forma unilateral. Com a trai\u00e7\u00e3o a Hussein na Guerra do Golfo em nome do rearranjo geopol\u00edtico para voltar seus interesses \u00e0 captura de estados n\u00e3o aliados com grandes recursos minerais \u2013 petr\u00f3leo notavelmente \u2013 tais agrupamentos se sentem tra\u00eddos por seu aliado de outrora, e de fato s\u00e3o tra\u00eddos \u00e0 medida em que estes j\u00e1 cumpriram sua \u201cmiss\u00e3o\u201d com os americanos e n\u00e3o t\u00eam serventia mais em grande escala. D\u00e9cadas mais tarde, seriam os curdos a sentirem este gosto amargo do seu uso como mero pe\u00e3o do xadrez geopol\u00edtico.<\/p>\n<p>Mas os fundamentalistas isl\u00e2micos souberam aprender, com seus ent\u00e3o aliados, li\u00e7\u00f5es militares valiosas. A Al Qaeda se profissionaliza, torna-se uma rede digna de ag\u00eancia estatal de espionagem, para executar seus objetivos e de forma t\u00edmida emprega suas a\u00e7\u00f5es de terrorismo mundo afora, se aprimorando a cada atentado at\u00e9 executar sua pe\u00e7a de propaganda-mor. Aquela que tiraria o sono do mundo e provocaria uma humilha\u00e7\u00e3o sem precedentes ao campe\u00e3o do mundo livre.<\/p>\n<p>Ao conseguir executar, em 11 de Setembro de 2001, o atentado \u00e0s torres g\u00eameas, ao Pent\u00e1gono e quase enfiar um avi\u00e3o na Casa Branca, a organiza\u00e7\u00e3o extremista isl\u00e2mica vira alvo n\u00ba 1 dos EUA e teria serventia grande para que se tocasse a plenos pulm\u00f5es o papel de pol\u00edcia do mundo, sem contesta\u00e7\u00f5es. Estava inaugurado o s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>A Guerra ao Terror e o ensaio de uma hegemonia global<\/p>\n<p>Os anos 1990 testemunharam a queda da URSS e do socialismo do Leste Europeu, da enorme ofensiva neoliberal sobre os escombros do movimento oper\u00e1rio mundial, \u00f3rf\u00e3os de sua maior conquista hist\u00f3rica. Os EUA passaram a reinar em absoluto como superpot\u00eancia econ\u00f4mica, pol\u00edtica e militar. Hora de executar o ensaio geral de pol\u00edcia do mundo.<\/p>\n<p>Se na Guerra do Golfo, os EUA, junto aos seus aliados locais do Oriente M\u00e9dio e da OTAN, puderam demonstrar gratuitamente ao mundo como seria este ap\u00f3s a sua vit\u00f3ria na Guerra Fria (Gorbatchev meio que \u201caben\u00e7oou\u201d Bush Pai ao lavar as m\u00e3os com a invas\u00e3o). Foi entre 1992 e 2008 que os EUA puderam exercer com vigorosa for\u00e7a a sua influ\u00eancia sobre praticamente todas as sociedades existentes no planeta e se prontificaram a se envolver em pequena e m\u00e9dia escala em quase todo o conflito existente no mundo, seja na Som\u00e1lia, no Haiti, no Kosovo ou em v\u00e1rios estados latino-americanos.<\/p>\n<p>Logo depois do fim da Guerra Fria, um grupo de trabalho criado pelo ent\u00e3o presidente George Bush (o pai) e liderado pelo seu secret\u00e1rio da Defesa, Dick Cheney \u2014 que viria a ser vice-presidente de Bush filho \u2014 definiu como principal objetivo estrat\u00e9gico dos EUA consolidar o poder conquistado em 1991, impedindo o aparecimento de um novo concorrente regional ou global como a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Naquele momento, falaram da necessidade de algo parecido com um novo Pearl Harbour para mobilizar apoios e viabilizar a imposi\u00e7\u00e3o do poder global americano.<\/p>\n<p>Ao invocar o estatuto da OTAN, segundo o qual, quando um membro do tratado \u00e9 atacado, todos t\u00eam o dever de defender o estado assaltado, os EUA arrastam consigo na sua aventura afeg\u00e3 os demais membros do tratado. Se, por um lado, o ataque ao orgulho americano, com um golpe ao seu f\u00e1lico s\u00edmbolo de triunfo do capitalismo, ferido em plena manh\u00e3 de Manhattan, por outro, a alian\u00e7a do Ocidente contra o mundo \u00e1rabe serviu de grande propaganda para todo tipo de fundamentalismo religioso isl\u00e2mico mundo afora, a legitimar cada vez mais suas incurs\u00f5es terroristas externa e internamente \u00e0s fronteiras dos estados de maioria mu\u00e7ulmana ou com not\u00e1vel popula\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica, agora mais profissionalizado, mais bem organizado e com liga\u00e7\u00f5es em cadeia global a dar dor de cabe\u00e7a a todos estes pa\u00edses. Est\u00e1 inaugurada a Guerra ao Terror.<\/p>\n<p>A resposta r\u00e1pida americana n\u00e3o tardou. Em outubro de 2001, os EUA invadem o Afeganist\u00e3o ao acusar o Taleban de abrigar Bin Laden e a Al Qaeda, mesmo que esse pa\u00eds tenha determinado a expuls\u00e3o destes. Em dezembro, o Taleban \u00e9 deposto e a guerra se concentra em ca\u00e7ar a alta c\u00fapula da Al Qaeda e o pr\u00f3prio Osama. Se, aos olhos da imprensa mundial e da opini\u00e3o p\u00fablica, a opera\u00e7\u00e3o Liberdade Duradoura (Sic) era leg\u00edtima e justa. Um outro conflito, desencadeado dois anos depois, seria respons\u00e1vel por botar a nu a real pretens\u00e3o dos EUA na Guerra ao Terror.<\/p>\n<p>O Iraque explica<\/p>\n<p>\u201cNo conflito com o isl\u00e3 radical, eles querem nos humilhar. E n\u00f3s precisamos humilh\u00e1-los. \u201d &#8211; Henry Kissinger<\/p>\n<p>O Iraque, em mar\u00e7o de 2003, seria a guerra que explicaria muito mais o que os americanos faziam no Afeganist\u00e3o que o pr\u00f3prio Afeganist\u00e3o. A guerra preventiva da doutrina Bush \u00e9 levada a cabo contra um dos membros do pitoresco \u201ceixo do mal\u201d, no qual figurava (ou figura) a Cor\u00e9ia Popular junto a tr\u00eas estados \u00e1rabes como inimigos da paz mundial Iraque, S\u00edria e L\u00edbia. E era dever \u201ccivilizat\u00f3rio\u201d dos democratas do Ocidente levar \u201cdemocracia e liberdade\u201d a estas na\u00e7\u00f5es. A doutrina da guerra preventiva d\u00e1 seus primeiros passos no Iraque, onde Bush informa a exist\u00eancia de \u201carmas de destrui\u00e7\u00e3o em massa\u201d em solo iraquiano a amea\u00e7ar a paz mundial, e Saddam precisa ser detido de uma vez por todas. Se em rela\u00e7\u00e3o aos atentados de 11 de setembro, as teorias conspirat\u00f3rias encontram pouca margem de manobra nas suas fr\u00e1geis argumenta\u00e7\u00f5es (de que os EUA arquitetaram este atentado contra seu pr\u00f3prio pa\u00eds para justificar uma interven\u00e7\u00e3o militar no Afeganist\u00e3o, coisa que deve ser levada pouco a s\u00e9rio). O Iraque foi praticamente todo sustentado no grande blefe do s\u00e9culo at\u00e9 aqui, como ficaria comprovado pela pr\u00f3pria opini\u00e3o p\u00fablica americana meses depois da ocupa\u00e7\u00e3o, pelos soldados l\u00e1 enviados e anos mais tarde por extensos relat\u00f3rios vazados pelo Wikileaks.<\/p>\n<p>Se Saddam Hussein era um ditador teocr\u00e1tico conden\u00e1vel, isso n\u00e3o surpreende ningu\u00e9m, mas sabemos que quest\u00f5es morais em guerras entre estados capitalistas s\u00f3 servem para pe\u00e7a de propaganda, como o pr\u00f3prio Afeganist\u00e3o nos comprova agora. As tais armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa nunca foram encontradas, uma outra justificativa precisava ser encontrada para explicar a Guerra do Iraque. A encontrada foi que o pa\u00eds oferecia abrigo para opera\u00e7\u00f5es da Al Qaeda e que era dever do Ocidente levar a civiliza\u00e7\u00e3o, a democracia e os princ\u00edpios liberais a estas na\u00e7\u00f5es no mundo globalizado. Nada disso foi facilmente engolido pela opini\u00e3o p\u00fablica mais consciente. Atos pipocaram mundo afora contra a guerra, com intensidade maior no pr\u00f3prio territ\u00f3rio estadunidense. A guerra, que era para ser uma curta interven\u00e7\u00e3o aos moldes de Granada, L\u00edbano, Panam\u00e1, Haiti, Som\u00e1lia, Kosovo e no pr\u00f3prio Iraque de 1991, n\u00e3o se concretizou. Inflou mais ainda o radicalismo isl\u00e2mico, fortaleceu a islamofobia mundo afora e deu mais legitimidade ret\u00f3rica a grupos terroristas a prosseguir com seus atentados, agora voltados aos aliados dos EUA nas suas aventuras militares, com destaque a Madri de 2004, Londres de 2005 e Paris de 2015. Fora os que rolaram na \u00c1frica e na \u00c1sia durante esse tempo.<\/p>\n<p>Saddam foi capturado e executado, seu governo deposto, mas a guerra precisava prosseguir, a doutrina precisava ser mantida. Nesta oportunidade de se aproveitar dos recursos naturais do Iraque e promover seu projeto civilizat\u00f3rio, muitos viram uma bela oportunidade de neg\u00f3cio, essa que quase levou os EUA \u00e0 bancarrota anos mais tarde, em 2008.<\/p>\n<p>A guerra do Afeganist\u00e3o e do Iraque como um grande neg\u00f3cio<\/p>\n<p>Enquanto a opini\u00e3o p\u00fablica majorit\u00e1ria dos EUA estava a favor da guerra, a burocracia do Pent\u00e1gono se apressou para justificar seus altos gastos e investimentos f\u00fateis sobre a necessidade de prosseguir com a guerra. Bem alimentada, sobretudo, com lobby da ind\u00fastria das armas e de toda uma rede de empresas a substituir o Estado em compet\u00eancias que antes eram exclusivas de divis\u00f5es militares, como log\u00edstica, suprimentos e infraestrutura. A privatiza\u00e7\u00e3o da guerra em escala industrial come\u00e7a aqui, afinal as armas s\u00e3o cifras e \u00e9 mais f\u00e1cil entender sobre rela\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas e rela\u00e7\u00f5es internacionais se analisando uma guerra do que documentos de diplomacia.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava em oferecer suporte para as cadeias de suprimentos aos militares, cuja prepara\u00e7\u00e3o foi feita visando uma interven\u00e7\u00e3o curta e cir\u00fargica, sem necessidade de distribuir Marines por todo o territ\u00f3rio iraquiano e afeg\u00e3o, o que acabou ocorrendo meses depois. Ao ver que a guerra seria mais prolongada do que se supunha, logo as necessidades surgiram e com elas as oportunidades. Como estes servi\u00e7os tamb\u00e9m estavam alinhados na promo\u00e7\u00e3o dos valores ocidentais, era at\u00e9 de bom grado que estas empresas privadas estivessem l\u00e1, que tivessem bastante civis para trabalhar nas Zonas Verdes e levassem o progresso para l\u00e1. Era um neg\u00f3cio pr\u00f3spero. A diferen\u00e7a do Estado afeg\u00e3o do americano \u00e9 que, enquanto em um se chama corrup\u00e7\u00e3o, no campe\u00e3o do mundo livre isso \u00e9 visto como lobby. Muitos generais ficaram ricos com isso.<\/p>\n<p>A conta chegando&#8230;<\/p>\n<p>Mas logo, ao arrastar da guerra, a resist\u00eancia aos ocupantes, que n\u00e3o se lastreava apenas no radicalismo isl\u00e2mico, mas na cada vez maior ofensiva aos princ\u00edpios b\u00e1sicos de um estado isl\u00e2mico e de evidentes viola\u00e7\u00f5es ao povo iraquiano e afeg\u00e3o \u2013 bombardeios a resid\u00eancias civis, falsos positivos, corrup\u00e7\u00e3o do governo fantoche \u2013 tornou-se uma guerra de guerrilhas de resist\u00eancia \u00e0 invas\u00e3o, ganhando cada vez mais apoio da sociedade iraquiana e afeg\u00e3, arrastando o conflito por mais longos anos. A pr\u00f3pria presen\u00e7a dos americanos no Iraque e Afeganist\u00e3o veio gerar mais recrutamentos ao Taleban e \u00e0s fac\u00e7\u00f5es iraquianas que se contrapunham \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o de seus respectivos pa\u00edses. A mesma f\u00f3rmula usada para tencionar e hostilizar os sovi\u00e9ticos vinte anos atr\u00e1s, agora se voltava contra os EUA, mas de formas diferentes, adaptadas \u00e0 guerra do S\u00e9culo XXI e de sua not\u00e1vel evolu\u00e7\u00e3o nas t\u00e9cnicas de combate, no material b\u00e9lico empregado, mas sobretudo, na opini\u00e3o geral sobre o conflito e como jogar com a subjetividade das massas de seu pa\u00eds e do pa\u00eds inimigo contra as tropas invasoras. Nisso o Iraque tinha de sobra, o conflito era por si s\u00f3 injustific\u00e1vel e caro no senso comum americano.<\/p>\n<p>Morriam muito mais iraquianos e afeg\u00e3os do que americanos. Isso era fato. Mas uma baixa americana era muito mais cara. Enquanto um insurgente afeg\u00e3o\/iraquiano morria com um invent\u00e1rio que n\u00e3o passava de US$300, o americano, ao contar todo o seu investimento militar pr\u00e9vio, custava mais de US$ 30,000. Al\u00e9m disso havia as perdas com material b\u00e9lico tanto usado contra miser\u00e1veis cidad\u00e3os afeg\u00e3os\/iraquianos e a destrui\u00e7\u00e3o deste nas raras oportunidades operacionais em que um RPG-7 operado por um insurgente conseguia destruir um jipe ou mesmo um tanque de milh\u00f5es de d\u00f3lares, independente de quem operava, fossem as for\u00e7as de defesa do fantoche governo iraquiano\/afeg\u00e3o, ou os pr\u00f3prios militares ianques. Enquanto os insurgentes mortos eram al\u00e7ados \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de m\u00e1rtires, os militares mortos ou mesmo feridos eram vistos com desd\u00e9m pelos pr\u00f3prios americanos, jogados \u00e0 pr\u00f3pria sorte quando regressavam da guerra, com suas mutila\u00e7\u00f5es, seus ferimentos e suas perturba\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas a inviabilizar sua reintegra\u00e7\u00e3o plena na sociedade civil. N\u00e3o eram vistos como her\u00f3is pela maioria dos seus compatriotas, por mais que o cinema se esforce para apresent\u00e1-los como tais. For\u00e7as do Partido Republicano viram ali uma oportunidade, e os conservadores a empregariam anos mais tarde para constituir parte de sua atual base pol\u00edtica, personificada em Trump.<\/p>\n<p>Esses excessivos gastos seriam uma das causas da crise financeira de 2008 nos EUA. O alto custo da guerra prejudicou bastante a resposta r\u00e1pida \u00e0 crise, e tal bomba explodiu no colo do Partido Republicano. Os EUA estavam fartos de uma guerra \u2013 ao seu ju\u00edzo \u2013 injustific\u00e1vel, a arrancar a vida de jovens Marines numa guerra est\u00fapida (mas qual guerra imperialista n\u00e3o \u00e9 est\u00fapida?). O Afeganist\u00e3o ainda permanecia como uma guerra justa, afinal, Bin Laden ainda estava vivo e solto. O foco e a t\u00e1tica precisavam ser modificados, mas a guerra precisava prosseguir. A escolha foi manter o conflito no Afeganist\u00e3o e se retirar do Iraque. E seria no governo do democrata Obama cujas mudan\u00e7as seriam realizadas e tamb\u00e9m seria sob seu mandato que a guerra do Afeganist\u00e3o chegaria ao seu \u00e1pice.<\/p>\n<p>O \u00e1pice da guerra americana no Afeganist\u00e3o<\/p>\n<p>Entre 2009 e meados de 2013, a guerra atingiu o seu m\u00e1ximo de intensidade. Mas agora sob novas t\u00e1ticas e com li\u00e7\u00f5es \u2013 supostamente aprendidas \u2013 do Iraque.<\/p>\n<p>A mais not\u00e1vel seria vista no plano da t\u00e1tica, vis\u00edvel no perfil das tropas terrestres a serem empregadas. Se antes os Fuzileiros Navais eram essa for\u00e7a, agora eram as Companhias Militares Privadas (PMC, em ingl\u00eas) a serem mais empregadas, nome chique para ag\u00eancia de mercen\u00e1rios. O efeito pr\u00e1tico do uso de mercen\u00e1rios era sobretudo pol\u00edtico e social, se um soldado americano morto numa guerra ao terror era conden\u00e1vel em certa parte por morrer numa causa que n\u00e3o acreditava muito, o mesmo n\u00e3o se podia dizer de um mercen\u00e1rio, afinal, estava l\u00e1 por dinheiro, que fa\u00e7a o que quiser, n\u00e3o est\u00e1 ligado a nenhum estado oficialmente, tem carta branca para exercer suas Black Ops, de realizar massacres, de praticar estupros, saques e outras viol\u00eancias que n\u00e3o devem em nada \u00e0s pr\u00e1ticas do Taleban. Mas estes \u00faltimos tinham mais honra, por mais conden\u00e1vel que sejam seus ideais, s\u00e3o ideais de fato. Mas quem chora por um cad\u00e1ver de um mercen\u00e1rio? Ou, para usar uma linguagem corporativa que eles tanto gostam de usar, a baixa do contratado n\u00e3o seria um problema para o cliente (os EUA) por n\u00e3o ser um investimento humano direto \u2013 as dezenas de milhares de d\u00f3lares investidos num \u00fanico fuzileiro, do seu recrutamento at\u00e9 a sua dispensa \u2013 causa pouco ou nenhum efeito colateral.<\/p>\n<p>Estes contratados podem, em sua miss\u00e3o, at\u00e9 encontrar novas oportunidades de neg\u00f3cio, s\u00e3o soldados da fortuna, e estar no maior produtor de \u00f3pio do mundo configurou uma excelente oportunidade de neg\u00f3cio, pois n\u00e3o h\u00e1 uma diferen\u00e7a moral entre matar afeg\u00e3os e aumentar ainda mais a produ\u00e7\u00e3o e a comercializa\u00e7\u00e3o da hero\u00edna dentro e fora do Afeganist\u00e3o e neste com\u00e9rcio virar um privilegiado intermedi\u00e1rio. E tudo isso sendo visto sob vistas grossas dos generais e do establishment, desde que cumpram sua miss\u00e3o: substituir os militares americanos em opera\u00e7\u00f5es delicadas para a opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Esse mesmo dilema moral seria tamb\u00e9m visto na For\u00e7a A\u00e9rea. Existe uma diferen\u00e7a moral gigante entre um piloto de ca\u00e7a bombardear uma posi\u00e7\u00e3o cheia de civis e regressar a sua base de Bagram e tomar contato com toda a repercuss\u00e3o local de mais um vilarejo alde\u00e3o bombardeado com civis entre os mortos e de um operador de drone (VANT, para os brasileiros), que nem dos EUA sai e totalmente alienado das consequ\u00eancias de sua miss\u00e3o, opera esse rob\u00f4 como se fosse um console de video game. Foi durante o mandato de Obama que os EUA come\u00e7aram a empregar drones em suas incurs\u00f5es a\u00e9reas em larga escala, exportando esse mesmo modus operandi para outras interven\u00e7\u00f5es pontuais mundo afora, como I\u00eamen, L\u00edbia e S\u00edria. Mais barato e com menos consequ\u00eancias pol\u00edticas que o uso de ca\u00e7as operado por humanos in loco. Obama conseguiu a fa\u00e7anha de estar bombardeando sete pa\u00edses diferentes no mesmo ano, que grande democrata ele \u00e9!<\/p>\n<p>A intensidade da guerra na primeira metade da d\u00e9cada de 2010 foi grande ao ponto de ocorrer um evento in\u00e9dito nas rela\u00e7\u00f5es internacionais: pela primeira vez na hist\u00f3ria, um Nobel da Paz (Obama) bombardeia outro Nobel da Paz (a Cruz Vermelha). Essa anedota do conflito revela a mais pura hipocrisia americana na defesa de promover valores ocidentais, quando n\u00e3o hesitou em atacar mesmo um hospital de campanha tocado por uma ONG ocidental. Censura foi o que rolou \u00e0 solta nestas guerras.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m sob o mandato de Obama que houve a captura e a morte de Osama Bin Laden em 2011, numa mal explicada opera\u00e7\u00e3o no Paquist\u00e3o. Estado este que \u00e9 um aliado da China e do pr\u00f3prio EUA e que ofereceu, desde os anos 1980, suporte aos mujahideen, sendo principal via de acesso a armas e tamb\u00e9m rota de \u00f3pio para o resto da \u00c1sia, al\u00e9m de ser escola dos fundadores do Taleban. A opera\u00e7\u00e3o foi acompanhada na improvisada War Room da Casa Branca e, depois da opera\u00e7\u00e3o, o pronunciamento na rede nacional levou milhares de americanos \u00e0s ruas para celebrar \u201cvit\u00f3ria\u201d sobre o terrorismo. A justificativa principal para prosseguir com a Guerra ao Terror e com a guerra no Afeganist\u00e3o estava quase findada, mas havia ainda a necessidade de ca\u00e7ar os demais l\u00edderes da Al Qaeda, capturados ou mortos. Isso de fato ocorreu nos anos seguintes, coincidindo com a maior intensidade dos conflitos em territ\u00f3rio afeg\u00e3o. O motivo legal para que a guerra n\u00e3o fosse findada ao concluir a liquida\u00e7\u00e3o da alta c\u00fapula da Al Qaeda e de sua articula\u00e7\u00e3o internacional encontra resposta em outra for\u00e7a terrorista, mais agressiva, a surgir dos escombros da invas\u00e3o dos EUA no Iraque, da opera\u00e7\u00e3o liberdade para o Iraque (Sic!)<\/p>\n<p>O surgimento do Daesh como motivo de prolongar a guerra ao terror<\/p>\n<p>Conforme afirmado antes, os EUA t\u00eam uma capacidade incr\u00edvel de tornar seus pe\u00f5es no xadrez geopol\u00edtico em seus inimigos quando sacam que ser\u00e3o tra\u00eddos uma hora ou outra. As for\u00e7as auxiliares na queda de Saddam Hussein em 2003 e que n\u00e3o tiveram o poder partilhado consigo quando os governos fantoches iraquianos emergiram, rapidamente se reagruparam em torno de um projeto de poder sobre a posse de um amplo territ\u00f3rio dilacerado por uma guerra rec\u00e9m passada e por uma nova, a ter novamente o envolvimento dos EUA.<\/p>\n<p>Surge de forma espetacular e violenta no cen\u00e1rio local o Daesh, ou como ele ficou conhecido no ocidente como o \u201cEstado Isl\u00e2mico\u201d (EI ou ISIS). Valendo-se das m\u00eddias sociais e do espet\u00e1culo do terror como m\u00e1quina de propaganda para recrutar milhares de jovens do Ocidente a serem conduzidos aos confins da S\u00edria e do Iraque para instalar o territ\u00f3rio conhecido como califado. A forma de execu\u00e7\u00e3o de seus atentados, ao mobilizar lobos solit\u00e1rios mundo afora com o \u00e1pice do terror nos atentados de Paris de 2015 fez reviver a Guerra ao Terror em sua ret\u00f3rica de legitimidade, mesmo que o Afeganist\u00e3o n\u00e3o estivesse muito envolvido com o EI.<\/p>\n<p>O temor de o Estado Isl\u00e2mico se desenvolver no Afeganist\u00e3o, a viol\u00eancia do ISIS e sua r\u00e1pida ascens\u00e3o rearranjam o tabuleiro geopol\u00edtico mundial rapidamente. A decad\u00eancia americana \u00e9 vista pelas demais pot\u00eancias do mundo e a R\u00fassia ocupa de primeira esse v\u00e1cuo pol\u00edtico. O teatro do Oriente M\u00e9dio precisa ser visto integralmente, o que ocorre em um pa\u00eds, ocorre em pequena ou em escala superior nos demais, por terem uma liga\u00e7\u00e3o maior por conta das proximidades pol\u00edticas, econ\u00f4micas, culturais e religiosas do territ\u00f3rio. Assim como ocorre em nossa Am\u00e9rica Latina. Ap\u00f3s os atentados de Paris, no final de 2015, a Fran\u00e7a passa a confiar mais na R\u00fassia que nos EUA, pelo consequente combate que este pa\u00eds fazia frente ao terrorismo, muito bem demonstrado na sua interven\u00e7\u00e3o na guerra na S\u00edria e respons\u00e1vel por praticamente dar a vit\u00f3ria a Assad frente \u00e0 atual guerra civil s\u00edria, em vias de ser encerrada com vit\u00f3ria do regime, salvo uma virada espetacular de mesa neste atual teatro de opera\u00e7\u00f5es da geopol\u00edtica mundial.<\/p>\n<p>A comunidade internacional temeu o Estado Isl\u00e2mico, porque, diferentemente da Al Qaeda, que pregava o terrorismo pontual em defesa do tradicionalismo isl\u00e2mico, o Daesh se proclamava mais universal, querendo retomar o anacr\u00f4nico califado dos tempos medievais, que ia da Espanha a \u00cdndia. Temeu que o Afeganist\u00e3o fosse usado novamente como base de forma\u00e7\u00e3o de jihadistas profissionais. O que era imposs\u00edvel, j\u00e1 que o Taleban e o Daesh s\u00e3o divergentes e n\u00e3o passou de bravata. Ficou bem comprovado que o EI era um fen\u00f4meno local, com poucas express\u00f5es fora dos limites da S\u00edria e do Iraque e que o seu desenvolvimento foi bem potencializado com a revanche dos jihadistas contra o Ocidente, plenamente justificada na d\u00e9cada anterior por uma est\u00fapida guerra travada pelos EUA naquele territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>O evidente fracasso de uma guerra cara e prolongada estava j\u00e1 dando sinais, e logo a situa\u00e7\u00e3o se tornaria insustent\u00e1vel por v\u00e1rias determina\u00e7\u00f5es, mas encontra lastro em outros eventos geopol\u00edticos que representam a fal\u00eancia do projeto de domina\u00e7\u00e3o global dos EUA, ao ignorar o desenvolvimento de uma nova pot\u00eancia a fazer sombra \u00e0 sua influ\u00eancia no mundo.<\/p>\n<p>Os eventos que envolvem desde as negocia\u00e7\u00f5es de paz entre os EUA e o Taleban at\u00e9 a retirada das tropas americanas ser\u00e3o abordadas na parte 2 deste artigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27853\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[374],"tags":[227],"class_list":["post-27853","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-afeganistao","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7ff","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27853","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27853"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27853\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27853"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27853"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27853"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}