{"id":27857,"date":"2021-09-22T02:39:09","date_gmt":"2021-09-22T05:39:09","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27857"},"modified":"2021-09-22T02:39:09","modified_gmt":"2021-09-22T05:39:09","slug":"capitalismo-e-producao-de-subjetividades-negras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27857","title":{"rendered":"Capitalismo e produ\u00e7\u00e3o de subjetividades negras"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Da-5-Bloods-5-768x513.jpeg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->LavraPalavra<\/p>\n<p>Por Jo\u00e3o Henrique Lima Almeida<\/p>\n<p>\u201cSe a subjetividade se institui e se organiza atrav\u00e9s de nossas pr\u00e1ticas sociais, estas orquestradas pelo capitalismo, e o capitalismo alocou os negros na situa\u00e7\u00e3o de sub-emprego e desemprego, numa franja marginal, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil reconhecer que o capitalismo produz as agruras que marcam a subjetividade (palavra contempor\u00e2nea para alma) do povo preto.\u201d<\/p>\n<p>(Fala realizada na XVII Semana de Integra\u00e7\u00e3o do curso de Psicologia da UEFS, na mesa As almas do povo preto: capitalismo e produ\u00e7\u00e3o de subjetividades negras. 10 de agosto de 2021.)<\/p>\n<p>\u201cSer pobre \u00e9 dif\u00edcil, mas ser um homem [ou uma mulher] de uma ra\u00e7a inferiorizada em um lugar dominado pelo dinheiro \u00e9 a maior das agruras[1]\u201d<\/p>\n<p>W.E.B. Du Bois<\/p>\n<p>1. Essa cita\u00e7\u00e3o de Du Bois foi enunciada no livro que d\u00e1 nome \u00e0 mesa: As almas do povo preto. Ele fez parte da primeira gera\u00e7\u00e3o de negros estadunidenses que nasceu no per\u00edodo p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, tendo lan\u00e7ado esse livro em 1903. Para um livro lan\u00e7ado na inf\u00e2ncia de ci\u00eancias como a sociologia e psicologia, o livro surpreende por sua intui\u00e7\u00e3o de conceitos aptos \u00e0 ci\u00eancia como os de v\u00e9u e consci\u00eancia dual. Mas nos atentemos por um momento a essa cita\u00e7\u00e3o em espec\u00edfico. Ela fala da agrura de ser uma ra\u00e7a inferiorizada em um lugar dominado pelo dinheiro. Essa ra\u00e7a, n\u00e3o inferior, mas inferiorizada da qual Du Bois fala \u00e9 composta pelos negros e negras. O lugar dominado pelo dinheiro, os Estados Unidos. Mas pode-se generalizar a afirma\u00e7\u00e3o para qualquer ra\u00e7a inferiorizada em qualquer pa\u00eds capitalista.<\/p>\n<p>Essa fala, de mais de 100 anos atr\u00e1s, possui o insight de que as caracter\u00edsticas do local em que vivemos determinam nosso sofrimento ps\u00edquico. Portanto, para compreender o sofrimento de um sujeito, \u00e9 necess\u00e1rio que compreendamos o local em que ele vive. Voc\u00eas ver\u00e3o que na psicologia ainda persiste muito moralismo e muito psicologismo \u2013 a cren\u00e7a que caracter\u00edsticas psicol\u00f3gicas determinam a realidade objetiva, inclusive nosso comportamento -, mas n\u00e3o ver\u00e3o nenhum professor nessa casa ignorar o fato de que fatores sociais constituem nossa subjetividade. O que nos resta responder \u00e9 como fatores sociais constituem subjetividades. Eu n\u00e3o tenho as respostas, mas espero trazer elementos para estimular o debate.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da ra\u00e7a inferiorizada, Du Bois fala de um \u201clugar dominado pelo dinheiro\u201d. Entendemos essa frase como referente ao capitalismo uma vez que, sob o capitalismo, o dinheiro alcan\u00e7a o estatuto mais elevado de sua hist\u00f3ria. Isso porque o capitalismo \u00e9 um modo de produ\u00e7\u00e3o baseado na propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o em que o dinheiro se transforma em mais dinheiro. O que eu quero dizer com isso? \u00c9 uma forma de vida que busca e alcan\u00e7a o constante enriquecimento dos burgueses, dos grandes patr\u00f5es, aqueles que s\u00e3o donos de f\u00e1bricas, grandes com\u00e9rcios, bancos etc. A defini\u00e7\u00e3o de capital ent\u00e3o \u00e9: dinheiro que, em sua circula\u00e7\u00e3o, adquire mais-valor. O fato de que n\u00f3s e a maior parte do mundo vivemos numa sociedade capitalista hoje, \u00e9 algo do qual n\u00e3o podemos fugir. \u00c9 essa determina\u00e7\u00e3o para a acumula\u00e7\u00e3o dos grandes patr\u00f5es que guia toda a sociedade: quem trabalha e quem fica desempregado, quando a comida vai ficar mais cara e quando vai ficar mais barata \u2013 ou seja, quantas pessoas passar\u00e3o fome \u2013, quais pol\u00edticos gerenciar\u00e3o melhor a economia, em \u00faltima inst\u00e2ncia, o capitalismo organiza nossa sociedade como um todo.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o capitalismo ganha relev\u00e2ncia no nome da mesa: o capitalismo \u00e9 o determinante social mais geral e mais poderoso h\u00e1 pelo menos 200 anos. At\u00e9 agora, n\u00e3o fa\u00e7o nenhum ju\u00edzo de valor sobre o capitalismo, apenas aponto o fato trivial de que ele organiza a sociedade em que vivemos. O pressuposto do qual partiremos e o contexto de discuss\u00e3o em que estamos inseridos nessa mesa \u00e9, ent\u00e3o, o mesmo de Du Bois: ser negro numa sociedade capitalista.<\/p>\n<p>2. Para compreender o que \u00e9 ser um indiv\u00edduo de uma ra\u00e7a inferiorizada num lugar dominado pelo dinheiro, precisamos pelo menos descrever como essa ra\u00e7a surge, como se inferioriza, e como se relaciona com esse lugar. A civiliza\u00e7\u00e3o europeia tem contato com negros, mouros, \u00e1rabes, mong\u00f3is, numa palavra, indiv\u00edduos com marcas corporais e fision\u00f4micas distintas dos brancos europeus, h\u00e1 mil\u00eanios. Mas porque n\u00e3o se falava de ra\u00e7a nem havia domina\u00e7\u00e3o racial at\u00e9 o in\u00edcio da idade moderna? Sabemos que havia escravid\u00e3o na antiguidade, mas se tratava de escravid\u00e3o por guerras ou por d\u00edvidas, enquanto que o escravismo moderno \u00e9 marcado pela no\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a. Vejamos se a caracteriza\u00e7\u00e3o do que \u00e9 modernidade traz alguma luz a essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>O principal fen\u00f4meno que marca a transi\u00e7\u00e3o da idade m\u00e9dia para a idade moderna \u00e9 o fim do dom\u00ednio do modo de produ\u00e7\u00e3o feudal. O feudalismo era composto por reinos mais ou menos isolados economicamente, e, em resumo, o fortalecimento de uma classe comercial, chamada de burguesia, pressionou por uma circula\u00e7\u00e3o cada vez mais ampla de produtos e pela ruptura do isolamento econ\u00f4mico feudal. Nas trocas econ\u00f4micas o burgu\u00eas precisa basicamente: encontrar valores-de-uso (artigos de consumo, como as especiarias) e encontrar quem compre esses valores-de-uso. Essa necessidade de acumula\u00e7\u00e3o foi o impulso para, por exemplo, as grandes navega\u00e7\u00f5es: a competi\u00e7\u00e3o na busca por valores-de-uso vend\u00e1veis. Quando os europeus encontram as vastas e riqu\u00edssimas terras das am\u00e9ricas, eles encontram aqueles valores-de-uso que os permitiram sair l\u00e9guas na frente da competi\u00e7\u00e3o e enriquecer seus financiadores: os governos dos seus pa\u00edses de origem. O territ\u00f3rio da am\u00e9rica latina era \u2013 e ainda \u00e9, mas muito menos \u2013 riqu\u00edssima em ouro, prata, outros min\u00e9rios, madeira e terras plant\u00e1veis. S\u00f3 havia um problema: parte desse territ\u00f3rio era ocupada por povos origin\u00e1rios. Mas esse problema poderia tamb\u00e9m ser uma solu\u00e7\u00e3o: os europeus n\u00e3o esperavam tamanha riqueza e agora necessitavam de for\u00e7a de trabalho para extra\u00ed-la. Os ind\u00edgenas americanos, juntamente com os negros, que os europeus posteriormente foram buscar em \u00c1frica eram a for\u00e7a de trabalho perfeita. Os europeus j\u00e1 tinham quem se apropriasse da riqueza \u2013 eles mesmos \u2013, s\u00f3 faltava quem trabalhasse por ela. Um pequeno detalhe \u00e9 que os povos africanos e os origin\u00e1rios americanos n\u00e3o foram convidados a trabalhar em troca de sal\u00e1rio, mas foram tomados como propriedade dos europeus, retirados \u00e0 for\u00e7a de seus territ\u00f3rios e escravizados.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o nesse per\u00edodo j\u00e1 havia uma divis\u00e3o do trabalho muito bem delimitada: os povos africanos e os povos origin\u00e1rios da Am\u00e9rica trabalhavam na extra\u00e7\u00e3o e os europeus apenas organizavam tudo e colhiam os louros. Al\u00e9m disso, havia obviamente resist\u00eancia por parte dos povos que trabalhavam, como a resist\u00eancia dos ind\u00edgenas de ver as terras em que habitavam sendo devastadas. Portanto, al\u00e9m da viol\u00eancia de tomar um outro ser humano como propriedade para trabalhar enquanto voc\u00ea colhe os frutos do seu trabalho, os europeus torturaram e massacraram negros e ind\u00edgenas. Foram milh\u00f5es e milh\u00f5es levados pelo genoc\u00eddio ind\u00edgena que ocorreu tanto na ocupa\u00e7\u00e3o dos portugueses no Brasil, como dos ingleses nos EUA e dos espanh\u00f3is no restante da am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Esse foi o principal processo pelo qual a burguesia europeia conseguiu se estabelecer enquanto classe dominante. Essa foi a \u201cacumula\u00e7\u00e3o primitiva\u201d que permitiu o estabelecimento do capitalismo, como descreve Marx:<\/p>\n<p>A descoberta das terras aur\u00edferas e argent\u00edferas na Am\u00e9rica, o exterm\u00ednio, a escraviza\u00e7\u00e3o e o soterramento da popula\u00e7\u00e3o nativa nas minas, o come\u00e7o da conquista e saqueio das \u00cdndias Orientais, a transforma\u00e7\u00e3o da \u00c1frica numa reserva para a ca\u00e7a comercial de peles-negras caracterizam a aurora da era de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Esses processos id\u00edlicos constituem momentos fundamentais da acumula\u00e7\u00e3o primitiva[2].<\/p>\n<p>Assim se estabeleceu no Brasil, al\u00e9m do genoc\u00eddio ind\u00edgena, o modo de produ\u00e7\u00e3o escravista, no qual os negros eram propriedade de uma classe senhorial. Agora voc\u00eas podem se perguntar como uma sociedade pautada por valores crist\u00e3os, pelo humanismo do renascimento e os valores de igualdade e liberdade do iluminismo conseguiram justificar e conceber tamanha barb\u00e1rie. \u00c9 aqui que surge a no\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a: como um elemento ideol\u00f3gico de justifica\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o, expropria\u00e7\u00e3o e massacre de um povo sobre o outro.<\/p>\n<p>3. Ao contr\u00e1rio do que o senso comum possa indicar, a racializa\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o \u00e9 biol\u00f3gica, nem natural, nem depende exclusivamente da cor da pele. Trata-se de um elemento ideol\u00f3gico para justificar a domina\u00e7\u00e3o de um povo sobre o outro. Um caso bastante ilustrativo \u00e9 o da domina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da Irlanda pela Inglaterra: n\u00e3o havia diferen\u00e7a de cor entre ambas as nacionalidades, mas ainda assim os irlandeses foram tomados por s\u00e9culos como seres inferiores e bestiais[3]. Como o professor Munanga aponta, foi tamb\u00e9m no contexto de domina\u00e7\u00e3o de um povo sobre o outro, dos gauleses pelos francos, que a categoria bot\u00e2nica de ra\u00e7a foi primeiramente aplicada a humanos[4]. Esses e outros exemplos hist\u00f3ricos demonstram como a domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de um povo sobre o outro, o racismo, possui preced\u00eancia sobre a ideologia racial.<\/p>\n<p>No entanto, como constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a ra\u00e7a n\u00e3o surge automaticamente com o escravismo moderno. Junto aos povos africanos, muitas outras nacionalidades europeias, tamb\u00e9m consideradas inferiores, foram trazidas para as Am\u00e9ricas enquanto servos por d\u00edvidas. \u00c9 apenas com as revoltas de servos europeus contra a servid\u00e3o perp\u00e9tua que come\u00e7a a se desenhar a necessidade de categorizar socialmente aqueles que estariam fadados \u00e0 escravid\u00e3o. No caso dos EUA, foi somente no final do s\u00e9culo XVII que a for\u00e7a de trabalho negra se constitui como escravid\u00e3o perp\u00e9tua. Segundo os registros da \u00e9poca, \u00e9 a partir da\u00ed que os povos europeus de pele clara passam a ser agrupados enquanto ra\u00e7a branca[5].<\/p>\n<p>Nesse mesmo per\u00edodo passam a emergir teorias do racismo cient\u00edfico, nas quais se afirmava que os negros eram naturalmente inferiores, bestiais, imorais, animalescos, pregui\u00e7osos e burros, enquanto que os brancos eram moralmente e naturalmente superiores, inventivos, virtuosos e amantes da liberdade. No \u00e2mbito religioso, surgiam tamb\u00e9m as justificativas de que os negros eram uma ra\u00e7a maldita por descenderem de Caim ou de Cam, ap\u00f3s ser amaldi\u00e7oado por seu pai No\u00e9[6]. Essas justificativas ideol\u00f3gicas para a domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos negros constru\u00edram a ideologia racial.<\/p>\n<p>4. A domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos negros no Brasil n\u00e3o acabou com o fim do escravismo, que impulsionou por muito tempo o capitalismo europeu. A aboli\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o dos negros em trabalhadores assalariados e consumidores apenas configurou um novo modo de domina\u00e7\u00e3o. A aboli\u00e7\u00e3o n\u00e3o significou a eleva\u00e7\u00e3o dos negros ao estatuto social que os brancos ocupavam, porque os negros n\u00e3o foram automaticamente integrados na sociedade. Sem propriedade, eles passaram a formar uma franja marginal na sociedade, caindo nos empregos mais subalternizados ou no desemprego. Reflitam, por exemplo: onde trabalha a maior parte dos negros que conhecem? E os brancos? Onde cada um mora? Dois dados emp\u00edricos que demonstram a assimetria racial apresentam que de 1893-1980 a quantidade de negros empregadores passou de 0% para apenas 0,4%. Al\u00e9m disso, 90% dos negros se concentravam em trabalhos manuais nesse per\u00edodo enquanto que entre os brancos a porcentagem era de 75%[7]. Uma pesquisa de 2018 aponta que as coisas n\u00e3o mudaram significativamente: a divis\u00e3o racial do trabalho segue forte e os negros seguem nas vagas de menor qualifica\u00e7\u00e3o[8].<\/p>\n<p>Esses dados apontam que o sistema econ\u00f4mico em que estamos submetidos, al\u00e9m de ter se sustentado na escravid\u00e3o e exterm\u00ednio de povos julgados inferiores, ainda reserva aos negros as regi\u00f5es econ\u00f4micas mais exploradas. Em termos econ\u00f4micos, o racismo \u00e9 super-explora\u00e7\u00e3o do trabalho. O preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o anti-negros n\u00e3o passam do elemento ideol\u00f3gico que justifica a explora\u00e7\u00e3o. Podemos dizer com Fanon que \u201cas hist\u00f3rias raciais n\u00e3o passam de uma superestrutura, uma cobertura, uma surda emana\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica revestindo uma realidade econ\u00f4mica\u201d[9].<\/p>\n<p>Essa explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica n\u00e3o se resume \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o pelos empres\u00e1rios, em maioria brancos, dos frutos do trabalho negro, mas tamb\u00e9m envolve a aloca\u00e7\u00e3o dos negros no desemprego \u2013 como mostra o dado de que o desemprego \u00e9 71% maior entre os negros que entre os brancos[10]. Mesmo os desempregados geram efeitos sobre a explora\u00e7\u00e3o dos empregados, uma vez que constituem o ex\u00e9rcito industrial de reserva que for\u00e7a os sal\u00e1rios para baixo. Agora pensem, os desempregados que procuram emprego v\u00e3o ficando cada vez mais propensos a aceitar sal\u00e1rios menores, afinal, \u00e9 melhor ter um sal\u00e1rio ruim que nenhum. Se voc\u00ea \u00e9 um patr\u00e3o, o que voc\u00ea prefere, um trabalhador que receba muito ou pouco? Obviamente aquele que recebe menos, porque isso aumenta sua margem de lucro. Ent\u00e3o quanto maior o n\u00famero de desempregados, mais dif\u00edcil \u00e9 praqueles que est\u00e3o empregados manterem seus sal\u00e1rios altos, porque na primeira indica\u00e7\u00e3o de greve, na primeira resist\u00eancia, o patr\u00e3o vai sinalizar: se voc\u00ea est\u00e1 achando pouco, tem quem queira, e lhe colocar para fora.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o de marginaliza\u00e7\u00e3o social imposta aos negros envolveu diversas manifesta\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia, como bem documentado por Cl\u00f3vis Moura. E isso conduziu o estado brasileiro a aprimorar mecanismos de controle estatal, como a criminaliza\u00e7\u00e3o de diversas manifesta\u00e7\u00f5es culturais negras, como o samba, a capoeira e as religi\u00f5es de matriz africana. Essa criminaliza\u00e7\u00e3o possui consequ\u00eancias pr\u00e1ticas e ideol\u00f3gicas fort\u00edssimas, levando os negros a serem vistos sempre como potencialmente criminosos, ainda que n\u00e3o cometam mais contraven\u00e7\u00f5es que os brancos, assim como leva as comunidades negras a constitu\u00edrem um ponto cego para a legisla\u00e7\u00e3o brasileira, onde todo tipo de brutalidade policial \u00e9 cometida. E a justificativa ideol\u00f3gica para isso est\u00e1 muito clara: todos que morrem s\u00e3o criminosos. \u00c9 nessa posi\u00e7\u00e3o entre as camadas mais baixas da classe trabalhadora, que Cl\u00f3vis Moura chamou de franja marginal e os Panteras empregaram o termo cl\u00e1ssico de lumpenproletariado, que a maior parte dos negros brasileiros se encontra hoje. Uma ra\u00e7a inferiorizada num lugar dominado pelo dinheiro.<\/p>\n<p>5. Se adotamos para subjetividade a defini\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica de modo com o sujeito vivencia aquilo que lhe \u00e9 exterior, talvez seja um fato trivial entre os psic\u00f3logos que a nossa organiza\u00e7\u00e3o social, orquestrada pelo capitalismo, determine, condicione ou afete a subjetividade do povo preto. Na mesa sobre sa\u00fade mental do povo preto voc\u00eas ver\u00e3o alguns dos efeitos psicol\u00f3gicos da super-explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e da inferioriza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Tendo considerado que o capitalismo organiza a sociedade e a sociedade organiza subjetividades, talvez o pr\u00f3ximo passo seja tra\u00e7ar os meios para a supera\u00e7\u00e3o das agruras pelas quais passam os negros brasileiros, porque a interpreta\u00e7\u00e3o correta do mundo n\u00e3o \u00e9 nada se ela n\u00e3o conduz a uma transforma\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Para compreender a organiza\u00e7\u00e3o social da subjetividade, precisamos superar a no\u00e7\u00e3o cartesiana de que a subjetividade \u00e9 um conjunto de objetos que s\u00f3 o sujeito tem acesso direto, assim como precisamos superar a no\u00e7\u00e3o kantiana de que a subjetividade (transcendental) \u00e9 uma estrutura cognitiva universal, aprior\u00edstica e a-hist\u00f3rica, que determina a forma fenom\u00eanica pela qual os indiv\u00edduos apreendem as coisas-em-si. Ambas as no\u00e7\u00f5es s\u00e3o mistifica\u00e7\u00f5es, ainda que possuam aspectos de verdade. Isso porque, no caso de Kant, as supostas categorias universais pelas quais o sujeito apreende o mundo s\u00e3o na verdade conceitos lingu\u00edsticos institu\u00eddos atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas sociais que podem variar de acordo com o local e o tempo hist\u00f3rico. Isso n\u00e3o retira o estatuto de necessidade dessas categorias, uma vez que possuem fun\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas normativas, que regulam o uso de outros conceitos lingu\u00edsticos, mas apenas n\u00e3o podemos tomar tal necessidade como aprior\u00edstica, universal e a-hist\u00f3rica. Dessa forma, a subjetividade, o modo como vivenciamos aquilo que nos \u00e9 exterior, se institui por meio de nossas pr\u00e1ticas sociais, sendo por isso hist\u00f3rica, regional e dependente das conting\u00eancias.<\/p>\n<p>Esse aspecto social e relacional da subjetividade \u00e9 apontado por Du Bois quando ele fala que os negros est\u00e3o como que cobertos por um v\u00e9u que os impede de ver o mundo como ele \u00e9, assim como impede os outros de verem os negros como s\u00e3o. Isso que Du Bois chama de v\u00e9u parece ser exatamente a ideologia racial que citamos e os efeitos dela. Du Bois tamb\u00e9m fala de consci\u00eancia dual, que corresponde \u00e0 dualidade que os negros norte-americanos vivenciam: ser negro e ser norte-americano. Isso parece indicar justamente como os valores estadunidenses se constitu\u00edram em nega\u00e7\u00e3o aos negros. N\u00e3o foi um pa\u00eds constru\u00eddo para os negros, mas sobre o sangue e suor dos negros e ind\u00edgenas, assim como o Brasil. Esse aspecto de dualidade \u00e9 retomado por Fanon, quando ele fala do branco com a ra\u00e7a universal sob a qual a ra\u00e7a negra se constitui em nega\u00e7\u00e3o particular.<\/p>\n<p>Se a subjetividade se institui e se organiza atrav\u00e9s de nossas pr\u00e1ticas sociais, estas orquestradas pelo capitalismo, e o capitalismo alocou os negros na situa\u00e7\u00e3o de sub-emprego e desemprego, numa franja marginal, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil reconhecer que o capitalismo produz as agruras que marcam a subjetividade (palavra contempor\u00e2nea para alma) do povo preto.<\/p>\n<p>Contudo, esses elementos que trago hoje sobre o capitalismo e a realidade dos negros s\u00e3o apenas fatos. Resta a n\u00f3s escolher o que faremos com esses fatos: neg\u00e1-los, acolh\u00ea-los passivamente ou utiliz\u00e1-los como instrumento de transforma\u00e7\u00e3o social. Eu j\u00e1 fiz minha escolha.<\/p>\n<p>Ser negro e ser brasileiro \u00e9 uma dualidade numa na\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi constru\u00edda para n\u00f3s, mas sobre n\u00f3s. Nesse sentido, o combate \u00e0 ideologia racial, que ainda coloca os negros em situa\u00e7\u00e3o de inferioridade, passa por uma transforma\u00e7\u00e3o material da estrutura que coloca os negros em situa\u00e7\u00e3o de sub-emprego e desemprego. Para n\u00e3o sermos mais uma ra\u00e7a inferiorizada num lugar dominado pelo dinheiro, precisamos, negros e brancos, construir uma sociedade onde o trabalho negro n\u00e3o \u00e9 apropriado por senhores, sejam eles negros ou brancos. Precisamos construir uma sociedade onde os trabalhadores eles mesmos se apropriem dos resultados do seu trabalho. Precisamos encerrar o dom\u00ednio do dinheiro, o imp\u00e9rio do capital, a maior das agruras do povo preto.<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>[1] DU BOIS, W. E. B. As almas do povo negro. Editora Veneta, 2021.<\/p>\n<p>MARX, K. O capital, livro I. Editora Boitempo, 2017, p. 821.<\/p>\n<p>[3] HAIDER, A. A armadilha da identidade. Editora Veneta, 2019.<\/p>\n<p>[4] MUNANGA, K. Uma abordagem conceitual das no\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a, racismo, identidade e etnia. 3\u00ba Semin\u00e1rio Nacional Rela\u00e7\u00f5es Raciais e Educa\u00e7\u00e3o-PENESB-RJ, 2003.<\/p>\n<p>[5] HAIDER, op. cit.<\/p>\n<p>[6] MUNANGA, op. cit.<\/p>\n<p>[7] MOURA, C. Sociologia do negro brasileiro. Editora Perspectiva, 2019.<\/p>\n<p>[8] https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/brancos-sao-maioria-em-empregos-de-elite-e-negros-ocupam-vagas-sem-qualificacao.ghtml.<\/p>\n<p>[9] FANON, Frantz. Por uma revolu\u00e7\u00e3o africana. Editora Zahar, 2021, p. 56.<\/p>\n<p>[10] https:\/\/valor.globo.com\/brasil\/noticia\/2020\/08\/28\/desemprego-entre-negros-e-71percent-maior-do-que-entre-brancos-mostra-ibge.ghtml.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27857\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[234],"class_list":["post-27857","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7fj","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27857","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27857"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27857\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27857"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27857"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27857"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}