{"id":27863,"date":"2021-09-22T22:52:14","date_gmt":"2021-09-23T01:52:14","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27863"},"modified":"2021-09-22T22:52:25","modified_gmt":"2021-09-23T01:52:25","slug":"154-anos-da-publicacao-do-1o-volume-de-o-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27863","title":{"rendered":"154 anos da publica\u00e7\u00e3o do 1\u00ba volume de O Capital"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/20170828_Das_Kapital_Marx_1867.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Warlen Nunes \u2013 militante do PCB-MG<\/p>\n<p>O Poder Popular &#8211; MG<\/p>\n<p>154 anos da publica\u00e7\u00e3o do Primeiro Volume de \u201cO Capital\u201d de Karl Marx: contribui\u00e7\u00e3o para a cr\u00edtica das ilus\u00f5es fetichistas<\/p>\n<p>No ano de 1867, vem \u00e0 luz a obra magna de Karl Marx: \u201cO Capital\u201d. Essa n\u00e3o \u00e9 uma obra de agita\u00e7\u00e3o ou propaganda, \u00e9 uma obra cient\u00edfica que oferece, para as vanguardas dos trabalhadores, as armas da cr\u00edtica que s\u00e3o um complemento necess\u00e1rio para a cr\u00edtica feita com as armas.<\/p>\n<p>Poucas vezes um livro foi gerado em condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o adversas para seu autor. Al\u00e9m da mis\u00e9ria material, Marx tamb\u00e9m f\u00f4ra acometido por uma s\u00e9rie de doen\u00e7as, entre elas terr\u00edveis fur\u00fanculos, que o levaram certa vez a afirmar: \u201cem qualquer caso, espero que a burguesia se lembre de meus fur\u00fanculos at\u00e9 que chegue a hora dela. Maldita seja!\u201d<\/p>\n<p>Do ponto de vista te\u00f3rico-metodol\u00f3gico, \u201cO Capital\u201d \u00e9 como o pr\u00f3prio Marx afirmou, \u201cum todo art\u00edstico\u201d, isto \u00e9, uma totalidade concreta que reproduz, por meio do pensamento, as tend\u00eancias objetivas do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Para Marx, os economistas que o antecederam conseguiam no m\u00e1ximo uma representa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica do todo, pois sempre partiram do todo vivo: da popula\u00e7\u00e3o, do estado, da na\u00e7\u00e3o, por exemplo, e por meio da decomposi\u00e7\u00e3o desta totalidade chegavam ao conjunto de categorias simples como divis\u00e3o do trabalho, valor, dinheiro etc. Ap\u00f3s este trabalho, os economistas fixaram essas categorias, chegando assim aos modernos sistemas e tratados econ\u00f4micos. Dessa forma, o todo apareceria, para estes, como uma jun\u00e7\u00e3o de partes.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo cientificamente exato de exposi\u00e7\u00e3o para Marx, pressup\u00f5e partir destas categorias simples, pouco determinadas, at\u00e9 as categorias complexas (determinadas), um caminho que vai do abstrato at\u00e9 o concreto, do imediato ao mediato, do simples ao complexo, da apar\u00eancia \u00e0 ess\u00eancia. Esse \u00e9 o modo de reproduzir, pelo pensamento, o todo como uma rica totalidade de rela\u00e7\u00f5es diversas.<\/p>\n<p>\u00c9 em \u201cO Capital\u201d que Marx desvela a anatomia da sociedade burguesa e, por conseguinte revela, de forma cient\u00edfica, que as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o assumem necessariamente a forma de uma rela\u00e7\u00e3o entre coisas. Ou seja, as rela\u00e7\u00f5es entre pessoas s\u00f3 podem se expressar atrav\u00e9s de coisas. Em \u201cO Capital\u201d acompanhamos a trama fantasmag\u00f3rica da Mercadoria, do Dinheiro e do Capital.<\/p>\n<p>Marx chamou de fetichistas as caracter\u00edsticas que os produtos do trabalho assumem nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalista, pois estes s\u00e3o ao mesmo tempo objetos sens\u00edveis e suprassens\u00edveis, concretos e abstratos. Nos dizeres de Marx, a mercadoria \u00e9 algo cheio de sutilezas metaf\u00edsicas e manhas teol\u00f3gicas. Esse car\u00e1ter fetichista dos produtos do trabalho, que faz com que as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o entre as pessoas tenham que necessariamente se expressar em coisas, p\u00f5e o mundo de ponta cabe\u00e7a, pois aquilo que \u00e9 essencial ao homem s\u00f3 se realiza pela media\u00e7\u00e3o do mercado.<\/p>\n<p>Dessa maneira, no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista dominado pela forma-mercadoria, a realidade est\u00e1 duplicada entre a mercadoria com sua forma natural (valor de uso) que serve para satisfazer as necessidades humanas, e a realidade abstrata e suprassens\u00edvel do valor (ANTUNES, 2018). O valor de uso \u00e9 o conte\u00fado essencial da riqueza para os homens, embora nesta sociedade ele s\u00f3 possa se realizar mediante o consumo e nesta sociedade este tem que passar necessariamente pela troca. Toda mercadoria \u00e9 um n\u00e3o valor de uso para seu propriet\u00e1rio e a troca pressup\u00f5e justamente a nega\u00e7\u00e3o dos aspectos concretos, \u00fateis, da mercadoria, em favor de sua determina\u00e7\u00e3o abstrata, suprassens\u00edvel do valor, valor esse que s\u00f3 adquire express\u00e3o atrav\u00e9s do valor de troca e, ao se expressar no valor de troca, esse \u00faltimo aparece como sendo o pr\u00f3prio valor. Esse quiproqu\u00f3 fica ainda mais m\u00edstico com a convers\u00e3o da mercadoria em dinheiro.<\/p>\n<p>O dinheiro tem sua g\u00eanese como equivalente particular nas rela\u00e7\u00f5es de troca, para logo depois se tornar a forma de manifesta\u00e7\u00e3o geral do ser abstrato, gen\u00e9rico e suprassens\u00edvel, que s\u00f3 pode se manifestar nas trocas de mercadorias. Essa subst\u00e2ncia abstrata \u00e9 o valor cristalizado no corpo das mercadorias que se manifesta no corpo da mercadoria- dinheiro.<\/p>\n<p>Ademais, o dinheiro \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da riqueza real, sens\u00edvel, concreta (valores de uso) em prol da realidade suprassens\u00edvel e abstrata do valor (ANTUNES, 2018). O dinheiro \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do trabalho concreto, em favor do trabalho abstrato, o dinheiro \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do trabalho \u00fatil, em favor do trabalho gen\u00e9rico (ANTUNES, 2018). O dinheiro \u00e9 o sens\u00edvel-suprassens\u00edvel da riqueza e mesmo que imprest\u00e1vel do ponto de vista da satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas, ele \u00e9 objeto de culto e adora\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 o verdadeiro Cristo encarnado.<\/p>\n<p>Desse modo, o dinheiro aparece como o regente deste processo, como o Deus do mundo das trocas, mesmo sendo por ele determinado. Nos Grundrisse, Marx nos d\u00e1 uma dimens\u00e3o dessa mercadoria celeste: \u201cde sua figura de servo, na qual se manifesta como simples meio de circula\u00e7\u00e3o, converte-se repentinamente em senhor e deus, no mundo das mercadorias. Representa a exist\u00eancia celeste das mercadorias, enquanto as mercadorias representam sua exist\u00eancia mundana\u201d (MARX, 2011, p.165).<\/p>\n<p>Entretanto, na sociedade capitalista, o dinheiro n\u00e3o tem s\u00f3 as fun\u00e7\u00f5es de equivalente geral das trocas. O dinheiro tamb\u00e9m tem que circular ou se converter em capital, expresso por Marx na f\u00f3rmula D-M-D. E desse modo:<\/p>\n<p>As formas independentes, as formas-dinheiro, que o valor das mercadorias assume na circula\u00e7\u00e3o simples, servem apenas de media\u00e7\u00e3o para a troca de mercadorias e desaparecem no resultado do movimento. Na circula\u00e7\u00e3o D-M-D, ao contr\u00e1rio, mercadoria e dinheiro funcionam apenas como modos diversos de exist\u00eancia do pr\u00f3prio valor: o dinheiro como seu modo de exist\u00eancia universal e a mercadoria como seu modo de exist\u00eancia particular, por assim dizer, disfar\u00e7ado. O valor passa constantemente de uma forma a outra, sem se perder nesse movimento e, com isso, transforma-se no sujeito autom\u00e1tico do processo (MARX, 2013, p. 229-230).<\/p>\n<p>Como reafirma Marx: \u201co valor se torna aqui o sujeito autom\u00e1tico do processo\u201d (MARX, 2013, p. 229-230). Mesmo que o capitalista possuidor de dinheiro seja o dono do processo de produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 ele que o controla, pois, o capital, na medida em que \u00e9 valor que se auto valoriza, \u00e9 que determina todo o processo. Ele \u00e9 o Esp\u00edrito Absoluto do processo de valoriza\u00e7\u00e3o. Assim, fica n\u00edtido o car\u00e1ter fetichista do capital:<\/p>\n<p>[\u2026] aqui ele se apresenta, de repente, como uma subst\u00e2ncia em processo, que move a si mesma e para a qual mercadorias e dinheiro n\u00e3o s\u00e3o mais do que meras formas. E mais ainda: em vez de representar rela\u00e7\u00f5es de mercadorias, ele agora entra, por assim dizer, numa rela\u00e7\u00e3o privada consigo mesmo. Como valor original, ele se diferencia de si mesmo como mais-valor, [\u2026]. O valor se torna, assim, valor em processo, dinheiro em processo e, como tal, capital. (MARX, 2013, p. 230-231).<\/p>\n<p>Desse modo, o movimento do capital se autonomiza da vontade dos indiv\u00edduos. Esse movimento pode ser resumido nos seguintes momentos da totalidade produtiva, reprodutiva e expansionista do capital: o possuidor de dinheiro (D) vai ao mercado e compra dois tipos de mercadorias, for\u00e7a de trabalho (FT) e meios de produ\u00e7\u00e3o (MP), as p\u00f5em em a\u00e7\u00e3o no processo produtivo, (P), que produz uma nova mercadoria acrescida de mais-valor (M\u2019) que ao ser vendida se transforma novamente em dinheiro acrescido de mais-valor, (D\u2019) \u2013 o ciclo do capital em sua totalidade \u00e9: D-M- (FT-MP) P-M\u2019-D\u2019. Embora o lucro apare\u00e7a como uma m\u00e1gica operada pelo capital, este s\u00f3 foi poss\u00edvel pela brutal explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, \u00fanica mercadoria capaz de produzir um valor maior do que o que ela pr\u00f3pria vale.<\/p>\n<p>Portanto, o livro \u201cO Capital\u201d de Marx nos permite desvelar as formas fetichistas da mercadoria, do dinheiro e do capital.<\/p>\n<p>O capital nasceu jorrando sangue e fezes de seus poros. Entre os pressupostos hist\u00f3ricos que permitiram a g\u00eanese desta insana forma social, temos: a expropria\u00e7\u00e3o violenta dos produtores diretos, separando estes dos seus meios de produ\u00e7\u00e3o, tornando-os homens livres para serem esfolados pelo capital. Essa trama fantasmag\u00f3rica s\u00f3 foi poss\u00edvel porque foi erguida sobre a viol\u00eancia sistem\u00e1tica e, hoje ela s\u00f3 se reproduz sugando vampirescamente as energias e as potencialidades dos trabalhadores. Mas chegar\u00e1 o dia em que os expropriados expropriar\u00e3o seus expropriadores.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>ANTUNES, Jadir. Marx e o Fetichismo da Mercadoria Dinheiro. Revista Dialectus. Ano 5. n.12, Jan-jul. 2018.<\/p>\n<p>MARX, Karl. Grundrisse. Tradu\u00e7\u00e3o: M\u00e1rio Duayer; N\u00e9lio Schneider. S\u00e3o Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2011.<\/p>\n<p>______________. \u201cO Capital\u201d: cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica. Livro 1: O processo de produ\u00e7\u00e3o do capital. Tradu\u00e7\u00e3o: Rubens Enderle. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/p>\n<p>https:\/\/www.poderpopularmg.org\/154anosdeocapitalkarlmarx\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27863\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[84],"tags":[222],"class_list":["post-27863","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c97-classicos-do-marxismo","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7fp","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27863","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27863"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27863\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27863"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27863"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27863"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}