{"id":27876,"date":"2021-09-27T11:27:24","date_gmt":"2021-09-27T14:27:24","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27876"},"modified":"2021-09-27T11:27:24","modified_gmt":"2021-09-27T14:27:24","slug":"lumpenizacao-das-classes-sociais-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27876","title":{"rendered":"Lumpeniza\u00e7\u00e3o das classes sociais no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2021\/08\/original.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Giovanni Alves<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>\u201cEu tenho fome<br \/>\nEu tenho em mente<br \/>\nUma grande orgia<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho rosto<br \/>\nNada do que voc\u00ea possa<br \/>\nSe lembrar depois\u201d<br \/>\nOrgia, de Paulo Miklos<\/p>\n<p>\u00c9 com a crise estrutural do capital que na sua etapa de crise do capitalismo global se redefine o novo imperialismo e a recoloniza\u00e7\u00e3o dos ditos pa\u00edses \u201cemergentes\u201d (como o Brasil) num cen\u00e1rio hist\u00f3rico de disputa pela nova hegemonia do capital entre EUA e China. A reposi\u00e7\u00e3o do sentido da coloniza\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 refor\u00e7ada na medida em que nos tornamos pa\u00eds exportador de commodities \u2013 vale dizer, commodities de alto valor agregado, mas uma riqueza que \u00e9 incapaz de se disseminar pela na\u00e7\u00e3o. O agroneg\u00f3cio vitorioso faz subsistir ilhas de prosperidade miser\u00e1vel cercadas pela barb\u00e1rie do trabalho sem forma por todos os lados.<\/p>\n<p>Em Para al\u00e9m do capital, Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros observou que \u201ca crise do capital que experimentamos hoje, \u00e9 fundamentalmente uma crise estrutural\u201d. Como observado por ele, n\u00e3o h\u00e1 nada especial em associar-se capitalismo a crise. Pelo contr\u00e1rio, crises de intensidade e dura\u00e7\u00e3o variadas s\u00e3o o modo natural de exist\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>As crises s\u00e3o maneiras do capital progredir para al\u00e9m de suas barreiras imediatas e assim, estender com dinamismo cruel, sua esfera de opera\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o. O capital necessita de crises para que possa se desenvolver como sistema de acumula\u00e7\u00e3o de mais-valor. Nesse sentido, como salientou M\u00e9sz\u00e1ros, a \u00faltima coisa que o capital poderia desejar seria uma supera\u00e7\u00e3o permanente de todas as crises, mesmo que seus ide\u00f3logos e propagandistas frequentemente sonhem com (ou ainda, reivindiquem a realiza\u00e7\u00e3o de) exatamente isso.<\/p>\n<p>A novidade hist\u00f3rica da crise que atinge o sistema mundial do capital \u2013 pelo menos desde a d\u00e9cada de 1970, tornou-se manifesta em quatro aspectos principais:<\/p>\n<p>(1) seu car\u00e1ter \u00e9 universal, no sentido de ser uma crise sist\u00eamica \u2013 incluindo crise social, pol\u00edtica, ambiental, cultural e civilizat\u00f3ria. Enfim, a crise do capital n\u00e3o se restringe a uma esfera particular (por exemplo, crise financeira ou comercial, ou afetando este ou aquele ramo particular de produ\u00e7\u00e3o, aplicando-se a este e n\u00e3o \u00e0quele tipo de trabalho com sua gama espec\u00edfica de habilidades e graus de produtividade etc);<\/p>\n<p>(2) seu alcance territorial \u00e9 verdadeiramente global no sentido mais literal e amea\u00e7ador do termo, em lugar de limitado a um conjunto particular de pa\u00edses (como foram todas as principais crises no passado);<\/p>\n<p>(3) sua escala de tempo \u00e9 extensa, cont\u00ednua e se preferir, permanente, em lugar de limitada e c\u00edclica, como foram todas as crises anteriores do capital \u2013 e, desde o big crash financeiro de 2008, o capitalismo no centro ou nas periferias vive um cont\u00ednuo e persistente mal-estar social, independente do crescimento do PIB com vigor (o capitalismo desconectou de vez, crescimento da economia e bem-estar social);<\/p>\n<p>(4) em contraste com as erup\u00e7\u00f5es e os colapsos mais espetaculares e dram\u00e1ticos do passado, o modo da crise estrutural se desdobrar poderia ser chamado de rastejante, desde que, como observou M\u00e9sz\u00e1ros em Para al\u00e9m do capital, acrescentemos a ressalva de que \u201cnem sequer as convuls\u00f5es mais veementes ou violentas poderiam ser exclu\u00eddas no que se refere ao futuro: a saber, quando a complexa maquinaria agora ativamente empenhada na \u2018administra\u00e7\u00e3o da crise\u2019 e no \u2018deslocamento\u2019 mais ou menos tempor\u00e1rio das crescentes contradi\u00e7\u00f5es perder sua energia\u201d. Prossegue M\u00e9sz\u00e1ros: \u201cSeria extremamente tolo negar que tal maquinaria existe e \u00e9 poderosa, nem se deveria excluir ou minimizar a capacidade do capital de somar novos instrumentos ao seu j\u00e1 vasto arsenal de autodefesa cont\u00ednua. N\u00e3o obstante, o fato de que a maquinaria existente esteja sendo posta em jogo com frequ\u00eancia crescente e com efic\u00e1cia decrescente \u00e9 uma medida apropriada da severidade da crise estrutural que se aprofunda\u201d.<\/p>\n<p>Enfim, a crise estrutural do capital com sua din\u00e2mica sist\u00eamica, global, permanente e rastejante, tem implica\u00e7\u00f5es sociometab\u00f3licas capazes de alterar o registro civilizat\u00f3rio no sentido radical \u2013 e nos casos de pa\u00edses do capitalismo perif\u00e9rico como o Brasil, isso torna-se efetivamente sens\u00edvel (e Bolsonaro \u00e9 s\u00f3 a representa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do esgotamento irremedi\u00e1vel da promessa civilizat\u00f3ria do capitalismo brasileiro). Por isso, o decl\u00ednio hist\u00f3rico-estrutural do capitalismo no plano global constitui um novo metabolismo social: o sociometabolismo da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>No caso do Brasil, pa\u00eds capitalista dependente de entifica\u00e7\u00e3o hipertardia e extra\u00e7\u00e3o colonial-escravista, o sociometabolismo do capital exp\u00f5e uma fenomenologia pr\u00f3pria que se caracteriza pela lumpeniza\u00e7\u00e3o da burguesia e lumpeniza\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho, isto \u00e9, uma classe dominante hegemonizada pela fra\u00e7\u00e3o rentista-parasit\u00e1ria, indiferente (e avessa) a um projeto nacional de desenvolvimento; e um mundo do trabalho urbano, sem forma, desorganizado, imerso em afetos particularistas, tendo como horizonte \u00faltimo, o acesso a direitos trabalhistas anacr\u00f4nicos \u00e0 temporalidade hist\u00f3rica presente do capital.<\/p>\n<p>\u00c9 importante resgatar como cr\u00edtica, tais elementos sociais de fundo, pois a \u201clumpeniza\u00e7\u00e3o\u201dda burguesia e do mundo do trabalho no Brasil, tem candentes implica\u00e7\u00f5es sociometab\u00f3licas nas classes sociais, incluindo burguesia, classe m\u00e9dia e o proletariado propriamente dito.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 importante distinguir a barb\u00e1rie social de outras formas hist\u00f3ricas da barb\u00e1rie no s\u00e9culo XX. Por exemplo, o nazifascismo foi uma forma hist\u00f3rica de \u201cbarb\u00e1rie pol\u00edtica\u201d no s\u00e9culo XX. Mas, com a crise estrutural do capital a partir de meados da d\u00e9cada de 1970, a barb\u00e1rie adquiriu uma forma sociometab\u00f3lica oriunda do complexo de reestrutura\u00e7\u00f5es capitalistas que colocou o mercado como sendo a inst\u00e2ncia de controle social.<\/p>\n<p>Com a vig\u00eancia do neoliberalismo, agudizou-se o fetichismo da domina\u00e7\u00e3o do capital. Diferentemente, por exemplo, do Estado pol\u00edtico nazifascista do capital, o \u201cfascismo de mercado\u201d ou \u201cfascismo social\u201d, \u00e9 de dif\u00edcil identifica\u00e7\u00e3o imediata, sendo intransparente e intang\u00edvel. Ele \u00e9 a forma mercantil do estranhamento social, introjetando-se nos sujeitos, confundindo-se com suas puls\u00f5es, vontades e desejos. A barb\u00e1rie social \u00e9 a forma da \u201cservid\u00e3o volunt\u00e1ria\u201d p\u00f3s-moderna. A barb\u00e1rie social \u00e9 o modo de ser do metabolismo social do capital na era do capitalismo manipulat\u00f3rio. Como subproduto do novo sociometabolismo do capital, a barb\u00e1rie social tornou-se a base material para as pol\u00edticas da extrema-direita no s\u00e9culo XXI (o que demonstra a afinidade eletiva perversa entre barb\u00e1rie social e necropol\u00edtica). A pandemia do novo coronav\u00edrus explicitou tais v\u00ednculos org\u00e2nicos de modo obsceno \u2013 s\u00f3 n\u00e3o v\u00ea quem n\u00e3o quer ver.<\/p>\n<p>Com a barb\u00e1rie social, dissemina-se o que temos denominado de atitudes particularistas ou \u201censimesmadas\u201d das individualidades pessoais de classe. Instauram-se formas perversas de la\u00e7os sociais que impregnam o sociometabolismo. A barb\u00e1rie social \u00e9 o sistema social de pervers\u00f5es narc\u00edsicas. As ciladas do identitarismo liberal \u2013 de g\u00eanero, de etnia, etc. \u2013 e supostamente de esquerda (como se manifestam no PT e principalmente no PSOL), representam o modo de ser do particularismo social que rompe com a perspectiva hist\u00f3rica da classe que vive do trabalho, como diria Ricardo Antunes.<\/p>\n<p>O conceito de barb\u00e1rie social possui um sentido sociol\u00f3gico preciso que se distingue de outras formas de aliena\u00e7\u00e3o e autoaliena\u00e7\u00e3o do passado hist\u00f3rico do capital. Ela se afirma com o capitalismo manipulat\u00f3rio que corr\u00f3i o sujeito humano. A barb\u00e1rie social \u00e9 a forma de ser do metabolismo social nas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas da \u201cdessubjetiva\u00e7\u00e3o de classe\u201d. Ela \u00e9 o elemento crucial do processo de (de)forma\u00e7\u00e3o da classe (o que explica o afundamento da esquerda brasileira enquanto projeto politico-ideol\u00f3gico).<\/p>\n<p>O fim da ascens\u00e3o hist\u00f3rica do capital no Ocidente (1973) alterou radical e irremediavelmente, as condi\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o expandida do sistema mundial do capital, empurrando para o primeiro plano, suas tend\u00eancias destrutivas. A barb\u00e1rie social \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o destrutiva da sociabilidade humana nas condi\u00e7\u00f5es de uma sociedade cada vez mais social (a sociedade burguesa). A barb\u00e1rie social \u00e9 a barb\u00e1rie hist\u00f3rica no est\u00e1gio mais desenvolvido do processo civilizat\u00f3rio (no sentido de afastamento tardio das barreiras naturais).<\/p>\n<p>No Manifesto Comunista de 1848, Karl Marx e Friedrich Engels observaram que a \u201cbarb\u00e1rie\u201d \u00e9 uma importante determina\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o do capital. O desenvolvimento natural do capitalismo tendia a ser interrompido por uma epidemia de superprodu\u00e7\u00e3o de mercadoria. Dizem eles: \u201cA sociedade v\u00ea-se de repente retransportada a um estado de moment\u00e2nea barb\u00e1rie [\u2026] E por que? Porque a sociedade possui civiliza\u00e7\u00e3o em excesso\u201d. Enfim, o estado de barb\u00e1rie decorria da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o em excesso\u201d. Essa suprema \u201ccontradi\u00e7\u00e3o viva\u201d do capital tem impactos decisivos no metabolismo social da modernidade capitalista. Pela primeira vez na hist\u00f3ria humana, o elemento de barb\u00e1rie, isto \u00e9, a destrui\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas sociais, incluindo o trabalho vivo, tornou-se parte irremedi\u00e1vel do modo de produ\u00e7\u00e3o (o que n\u00e3o ocorria em nenhum dos modos de produ\u00e7\u00e3o anteriores).<\/p>\n<p>Mas na \u00e9poca de Marx e Engels, o estado de barb\u00e1rie manifestava-se no momento das crises c\u00edclicas do capitalismo. Com a crise estrutural do capital, a barb\u00e1rie n\u00e3o se manifesta apenas durante as crises c\u00edclicas do capitalismo, mas torna-se um elemento compositivo da reprodu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do sistema do capital: torna-se barb\u00e1rie social. N\u00e3o se trata mais de um momento de estado de barb\u00e1rie, mas sim, o sociometabolismo da barb\u00e1rie que caracteriza o capitalismo em sua etapa de decl\u00ednio hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Marx caracterizou o capital como sendo a \u201ccontradi\u00e7\u00e3o viva\u201d. Em sua etapa de decl\u00ednio hist\u00f3rico, as contradi\u00e7\u00f5es capitalistas explodem; n\u00e3o apenas as \u201ccontradi\u00e7\u00f5es fundamentais\u201d do capitalismo, mas inclusive, as \u201ccontradi\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas\u201d do capital: a exposi\u00e7\u00e3o da fratura metab\u00f3lica entre o capital e a natureza.<\/p>\n<p>Por um lado, a sociedade burguesa, \u00e9 a sociedade que se torna cada vez mais social (o que Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs salienta como sendo um elemento do processo civilizat\u00f3rio). Por outro lado, devido ao estado permanente de barb\u00e1rie (a barb\u00e1rie social), a sociedade burguesa obstaculiza com intensidade e amplitude, o desenvolvimento do ser gen\u00e9rico do homem, dessocializando-o, n\u00e3o apenas pelo trabalho estranhado, mas pelo n\u00e3o-trabalho (desemprego em massa e a nova precariedade salarial que no caso da prov\u00edncia do Brasil, expressa-se com vigor pela \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d do trabalho que degrada f\u00edsica, mental e moralmente a for\u00e7a de trabalho).<\/p>\n<p>Enfim, a barb\u00e1rie social \u00e9 a etapa tardia da civiliza\u00e7\u00e3o do capital que explicita, no s\u00e9culo XXI, a incapacidade do capital de realizar suas promessas civilizat\u00f3rias. Com o colapso da moderniza\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses de capitalismo dependente hipertardio e de extra\u00e7\u00e3o colonial-escravista (como o Brasil), a partir da ascens\u00e3o do capitalismo global e da l\u00f3gica do capitalismo neoliberal e da nova raz\u00e3o do mundo (Dardot e Laval), tornou-se expl\u00edcito o estado permanente de barb\u00e1rie social.<\/p>\n<p>O novo metabolismo social do capital representou a corros\u00e3o da base material para a forma\u00e7\u00e3o de subjetividade de classe capaz de realizar a \u201cnega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o\u201d. O horizonte da classe que nega o sistema social do capital foi corro\u00eddo. No limite, a barb\u00e1rie social \u00e9 express\u00e3o m\u00f3rbida do apodrecimento do homem burgu\u00eas \u2013 e com ele, de todas as classes sociais. O capitalismo neoliberal \u00e9 a forma estrutural da evolu\u00e7\u00e3o do sistema do capital, incapaz de desenvolvimento por conta das contradi\u00e7\u00f5es alavancadas do capitalismo na sua etapa de decl\u00ednio hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Podemos derivar mais consequ\u00eancias hist\u00f3ricas deste processo hist\u00f3rico que vivemos h\u00e1 pelo menos trinta anos de neoliberalismo no Brasil: a barb\u00e1rie social representa a exacerba\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica da forma-mercadoria diante do colapso\/expans\u00e3o da forma-valor. Por isso, ampliaram os fetichismos sociais (fetichismo do Estado, fetichismo da t\u00e9cnica, fetichismo do dinheiro, etc.).<\/p>\n<p>O capitalismo globalizado do s\u00e9culo XXI \u00e9 o capitalismo do hiperfetichismo e do capitalismo qu\u00e2ntico, com a alta produtividade do trabalho suprassumindo os fundamentos do valor e das categorias fundantes e fundamentais do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u2013 no interior do pr\u00f3prio capital. Sob a vig\u00eancia da forma-mercadoria, os produtos da atividade humana (objetos, institui\u00e7\u00f5es e valores) se tornaram \u201ccoisas\u201d, isto \u00e9, opacos e intransparentes, recalcitrantes ao controle social, \u201cnegando\u201d efetivamente o modo de ser \u201csujeito humano\u201d capaz de autotranscend\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido preciso que a barb\u00e1rie social significa n\u00e3o apenas a dessocializa\u00e7\u00e3o do homem como ser gen\u00e9rico, o irracionalismo que ascende historicamente com o capitalismo manipulat\u00f3rio do s\u00e9culo XX; mas a barb\u00e1rie significa a extin\u00e7\u00e3o da genericidade humana expressa na sua dilui\u00e7\u00e3o nos particularismos em conflito na selva do mercado. Quando Chico de Oliveira registrou a extin\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o como comunidade pol\u00edtica, ele quis dizer: eis a era da barb\u00e1rie social!<\/p>\n<p>Instaurou-se um movimento de monstruosa regressividade ontol\u00f3gica do ser social: as individualidades pessoais de classe s\u00e3o desconstitu\u00eddas em si e para si. A condi\u00e7\u00e3o de \u201cclasse\u201d do proletariado levada \u00e0 exaust\u00e3o com a \u201clumpeniza\u00e7\u00e3o\u201d do proletariado, tende a negar a dimens\u00e3o pessoal das individualidades humanas, decompondo-as como simulacros de personalidades, autocentradas e vazias, refugiadas nos identitarismos particularistas e suas ciladas, subproduto da ignor\u00e2ncia cultural at\u00e1vica de um capitalismo atr\u00f3fico, que ocultam a profunda car\u00eancia de uma vida plena de sentido. As personalidades humanas esvaziadas pelo capital s\u00e3o t\u00e3o fict\u00edcias quanto o capital fict\u00edcio que hegemoniza a nova din\u00e2mica do capitalismo neoliberal.<\/p>\n<p>Nosso tempo hist\u00f3rico \u00e9 o tempo das contradi\u00e7\u00f5es supremas do capital social total como etapa hist\u00f3rica de decl\u00ednio da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa. A dessocializa\u00e7\u00e3o humana exposta acima ocorre na etapa mais elevada do processo civilizat\u00f3rio do homem (a redu\u00e7\u00e3o das barreiras naturais). O homem se ressocializa no momento hist\u00f3rico em que a sociedade se tornou cada vez mais social. A dessocializa\u00e7\u00e3o do homem \u00e9 produto do desemprego em massa e exclus\u00e3o social; e do processo de precariza\u00e7\u00e3o e institucionaliza\u00e7\u00e3o da nova precariedade salarial baseada em formas de gest\u00e3o toyotista (gest\u00e3o pelo estresse); e a fragmenta\u00e7\u00e3o dos coletivos sociais pelo capitalismo de plataforma com a ideologia do empreendedorismo e \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d do trabalho \u2013 trabalho sem forma \u2013 em plena Ind\u00fastria 4.0.<\/p>\n<p>O Brasil tornou-se vitrine da barb\u00e1rie social do capitalismo globalizado do s\u00e9culo XXI. Pa\u00eds do futuro, sem futuro, porque\u2026 o futuro j\u00e1 chegou. \u00c9 com a vig\u00eancia da barb\u00e1rie social que se exp\u00f5e o problema crucial da possibilidade de constitui\u00e7\u00e3o do sujeito hist\u00f3rico capaz de ir al\u00e9m do capital. Como sintomas da barb\u00e1rie social, temos a dissolu\u00e7\u00e3o do horizonte ut\u00f3pico e a reitera\u00e7\u00e3o do tempo presente (a \u201cpresentifica\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica\u201d). A barb\u00e1rie social explicita o novo irracionalismo social caracterizado pelo intimismo narc\u00edsico, express\u00e3o de personalidades fict\u00edcias cada vez mais particularistas, imersas na concorr\u00eancia de mercado; pelo ideal de consumismo voraz \u2013 inclusive, o \u201cconsumismo de outros\u201d \u2013 que visa suprir o vazio existencial de vidas inaut\u00eanticas. E pior: a barb\u00e1rie social na periferia exp\u00f5e a mis\u00e9ria do sobrevivencialismo que faz com que a massa das multid\u00f5es que vivem do trabalho prec\u00e1rio tenham como \u00fanica utopia sobreviver no dia-a-dia.<\/p>\n<p>A nova l\u00f3gica da virtualiza\u00e7\u00e3o do trabalho faz com que as sociedades neoliberais sejam sociedades da autoexplora\u00e7\u00e3o, com a digitaliza\u00e7\u00e3o do trabalho aprofundando a aliena\u00e7\u00e3o e autoaliena\u00e7\u00e3o que caracterizam o trabalho capitalista. A problem\u00e1tica da autoaliena\u00e7\u00e3o \u00e9 a problem\u00e1tica candente dos tempos de barb\u00e1rie social. Ela se expressa nos adoecimentos f\u00edsicos e mentais. Mesmo antes da pandemia, a preocupa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade dos trabalhadores e trabalhadoras era crescente. Com o aprofundamento da barb\u00e1rie social na situa\u00e7\u00e3o de pandemia, cresceram os indicadores de transtornos psicol\u00f3gicos e depress\u00e3o no mundo do trabalho.<\/p>\n<p>A ru\u00edna do mercado do trabalho no Brasil, o aumento da nova pobreza de classe m\u00e9dia, somando-se \u00e0 pobreza cr\u00f4nica estrutural da sociedade capitalista no Brasil e a pandemia do novo coronav\u00edrus, a preocupa\u00e7\u00e3o com a sobreviv\u00eancia tornou-se um elemento fundamental. A sociedade brasileira \u00e9 hoje a sociedade da luta pela sobreviv\u00eancia. O Brasil tornou-se um pa\u00eds do sobrevivencialismo. N\u00e3o se trata apenas dos mundos de miser\u00e1veis que habitam no Brasil e que se preocupam cotidianamente em n\u00e3o morrer de fome. Mesmo nas camadas m\u00e9dias assalariadas o sobrevivencialismo \u00e9 um elemento de preocupa\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho. Nesse caso, o sobrevivencialismo das camadas m\u00e9dias \u00e9 de outra natureza: elas se preocupam em n\u00e3o se \u201cmiserabilizar\u201d, isto \u00e9, lutar para que o padr\u00e3o de vida delas n\u00e3o caia ao n\u00edvel dos \u201cpobres\u201d.<\/p>\n<p>Diante da pandemia, a dura luta pela sobreviv\u00eancia sofre radicaliza\u00e7\u00e3o viral. A guerra contra o v\u00edrus intensifica a luta pela sobreviv\u00eancia. O v\u00edrus transformou o mundo em uma quarentena em que a vida fica completamente estagnada, transformada em sobreviv\u00eancia. E na luta pela sobreviv\u00eancia, a quest\u00e3o da qualidade de vida n\u00e3o se coloca. Todas as for\u00e7as vitais s\u00e3o aplicadas para prolongar a vida a qualquer custo. A sociedade de sobreviv\u00eancia perde completamente a capacidade de valorizar a qualidade de vida. Na verdade, sacrificamos voluntariamente pela sobreviv\u00eancia tudo o que torna a vida digna de ser vivida. A pandemia do novo coronav\u00edrus instaurou uma \u201cnova normalidade\u201d, em nome da sobreviv\u00eancia. Aceitamos sem questionar o \u201cestado de exce\u00e7\u00e3o\u201d, que reduz a vida \u00e0 pura sobreviv\u00eancia. Trata-se de um fato objetivo que abre espa\u00e7o para a barb\u00e1rie social. Finalmente, um tra\u00e7o importante da mis\u00e9ria brasileira reproduzida como \u201c\u00f3pio do povo\u201d e tamb\u00e9m, como \u201cchoro das criaturas aflitas\u201d: o fundamentalismo de mercado ganha sua express\u00e3o teol\u00f3gica na dissemina\u00e7\u00e3o do neopentecostalismo da prosperidade. \u201cDeus\u201d se torna \u201cdEUs\u201d, o EU das criaturas aflitas imersas na aliena\u00e7\u00e3o e autoaliena\u00e7\u00e3o cotidiana.<\/p>\n<p>A barb\u00e1rie social se manifesta de forma extrema nos pa\u00edses de capitalismo dependente hipertardio como o Brasil. Tais tra\u00e7os da barb\u00e1rie social salientados acima s\u00e3o elevados \u00e0 en\u00e9sima pot\u00eancia no caso brasileiro. Os tra\u00e7os de barb\u00e1rie social comp\u00f5em-se e articulam-se com tra\u00e7os da \u201cmis\u00e9ria brasileira\u201d, caracterizada pela irresolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da quest\u00e3o democr\u00e1tica, quest\u00e3o nacional e quest\u00e3o social. A barb\u00e1rie social do capitalismo globalizado 4.0 e a \u201cmis\u00e9ria brasileira\u201d do arcaico sendo reposto efetivamente pelo moderno, efetuam uma \u201cdan\u00e7a macabra\u201d onde uma se confunde com a outra. N\u00e3o se trata de mera regressividade hist\u00f3rica, mas sim da atualiza\u00e7\u00e3o (aggiornamento) do capitalismo retardat\u00e1rio do Brasil. Fica a interroga\u00e7\u00e3o: como denominar a conjun\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u201cmonstruosa\u201d entre a \u201cmis\u00e9ria brasileira\u201d e o \u201csociometabolismo da barb\u00e1rie\u201d no s\u00e9culo XXI? \u00c9 a \u201cdan\u00e7a macabra\u201d entre duas formas de estranhamento social do capital que produzem a \u201clumpeniza\u00e7\u00e3o\u201d do homem burgu\u00eas no Brasil \u2013 como iremos ver adiante.<\/p>\n<p>Na medida em que ingressamos na fase de decl\u00ednio hist\u00f3rico do capital como modo de produ\u00e7\u00e3o da vida \u2013 e no Brasil, isso se exp\u00f5e como sendo a cat\u00e1strofe brasileira \u2013, manifesta-se como caracter\u00edstica do modo de controle estranhado do capital a sua expansividade e incontrolabilidade. Trata-se de uma problem\u00e1tica que deve marcar o s\u00e9culo XXI articulando as contradi\u00e7\u00f5es fundamentais do capitalismo e as contradi\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas do capital (a fratura metab\u00f3lica entre o capital e a natureza!).<\/p>\n<p>Desde o seu impulsionamento hist\u00f3rico com o globalismo neoliberal, a mundializa\u00e7\u00e3o do capital cont\u00e9m um elemento paradoxal de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o em excesso\u201d. A barb\u00e1rie sociometab\u00f3lica \u2013 outro nome para a barb\u00e1rie social \u2013 \u00e9 a nova normalidade da vida social. Ela se explicita como sendo o sistema de controle estranhado do metabolismo social por meio da dissemina\u00e7\u00e3o de personalidades narc\u00edsicas autocentradas em suas frui\u00e7\u00f5es ego\u00edsticas que se utilizam do outro como mero meio do gozo particularista (ethos burgu\u00eas). O homem perverso tende a imputar ao outro a culpa pela sua pr\u00f3pria desgra\u00e7a. \u00c9 a vig\u00eancia da banalidade do mal \u2013 banalidade (e racionaliza\u00e7\u00e3o) do mal que se incorpora no pr\u00f3prio metabolismo social. As formas perversas (e farsescas) de sociabilidade humana tornaram-se o modo de estrutura\u00e7\u00e3o do metabolismo social de manipula\u00e7\u00e3o do capital nas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas do Estado e sociedade civil neoliberal.<\/p>\n<p>No Brasil, o colapso da moderniza\u00e7\u00e3o como projeto hist\u00f3rico civilizacional desenvolvimentista e a integra\u00e7\u00e3o do pa\u00eds da \u201cmis\u00e9ria brasileira\u201d no capitalismo global significou o apodrecimento do homem burgu\u00eas e, por conseguinte, a lumpeniza\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia e o aburguesamento do lumpesinato. Trata-se de processos reflexivos e pontos nodais da conjun\u00e7\u00e3o entre sociometabolismo do capital e \u201cmis\u00e9ria brasileira\u201d. A sociomorfologia da barb\u00e1rie intensifica (e amplia) a reifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais humanas, intervertendo-as em rela\u00e7\u00f5es sociais instrumentais mediadas pelo dinheiro e poder.<\/p>\n<p>Foi com o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista que emergiu a coisifica\u00e7\u00e3o de homens e mulheres, transformados em mercadoria-for\u00e7a de trabalho. O Brasil nasceu sob o dom\u00ednio da reifica\u00e7\u00e3o universal tendo em vista sua forma\u00e7\u00e3o escravista-colonial. Desde o s\u00e9culo XV, n\u00f3s somos \u201cmodernos\u201d. Essa \u00e9 a nossa tr\u00e1gica particularidade hist\u00f3rica inscrita no modo de entifica\u00e7\u00e3o do capitalismo no Brasil. Mas a irrup\u00e7\u00e3o da era neoliberal h\u00e1 trinta anos, fortaleceu \u00e0 exaust\u00e3o, o la\u00e7o social estranhado contido no nosso DNA hist\u00f3rico. Na medida em que o neoliberalismo refor\u00e7ou a coisifica\u00e7\u00e3o de homens e mulheres, tornados meros meios para fins particularistas, nos reencontramos com um tra\u00e7o ontogen\u00e9tico da \u201cmis\u00e9ria brasileira\u201d: a escravid\u00e3o moderna. Neoliberalismo e recoloniza\u00e7\u00e3o articulam-se do mesmo modo que mis\u00e9ria brasileira e sociometabolismo da barb\u00e1rie. Fechou-se sobre n\u00f3s, com o globalismo neoliberal \u2013 duplamente \u2013 o \u201cimp\u00e9rio da manipula\u00e7\u00e3o social\u201d. A era lulista nos fez esquecer da farsa da Nova Rep\u00fablica, criando outra farsa exposta com o golpe de 2016. Com o capitalismo globalizado fomos repostos pelo golpe neoliberal, com nosso \u201cdestino hist\u00f3rico\u201d: o Brasil como col\u00f4nia de explora\u00e7\u00e3o que nasceu sob o estigma da forma-mercadoria (Brasil \u00e9 o nome origin\u00e1rio da mercadoria pau-brasil comercializada pelos colonizadores portugu\u00eas).<\/p>\n<p>O projeto vitorioso de ignor\u00e2ncia cultural como domina\u00e7\u00e3o de classe alcan\u00e7ou um patamar supremo com a manipula\u00e7\u00e3o espiritual das \u201ccriaturas aflitas\u201d (Igrejas neopentecostais) e a manipula\u00e7\u00e3o cognitiva pelas redes sociais da internet e meios tradicionais de manipula\u00e7\u00e3o do povo brasileiro (e classe m\u00e9dia) \u2013 jornais, revistas, r\u00e1dios e televis\u00e3o. E, por fim, manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por meio da pr\u00e1tica hist\u00f3rica da \u201cpoliticagem\u201d (o sistema pol\u00edtico comandado pelas oligarquias pol\u00edticas e os novos \u201ccurrais eleitorais\u201d).<\/p>\n<p>A ignor\u00e2ncia cultural deforma a subjetividade humana, intensificando a autoaliena\u00e7\u00e3o. O Brasil vive \u2013 no s\u00e9culo XXI \u2013 o \u201ccoquetel da morte\u201d caracterizado pela \u201cdan\u00e7a macabra\u201d entre o historicamente novo (a barb\u00e1rie social impulsionada pela nova raz\u00e3o neoliberal); e o historicamente arcaico (a mis\u00e9ria brasileira). No que diz respeito \u00e0 subjetividade social, os algozes tendem a imputar \u00e0s v\u00edtimas de opress\u00e3o, espolia\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, a culpa pela pr\u00f3pria desgra\u00e7a. Isto tornou-se elemento do sociometabolismo da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Por exemplo, no plano da organiza\u00e7\u00e3o do trabalho \u2013 setor privado e setor p\u00fablico, presenciamos a l\u00f3gica do novo gerencialismo ou gest\u00e3o do toyotismo sendo incorporada com vigor: o fracasso \u00e9 culpa do sujeito. Os atos infames dos algozes aparecem como express\u00e3o da normalidade extrema da civiliza\u00e7\u00e3o do capital. No caso do Brasil, pa\u00eds de civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3 de extra\u00e7\u00e3o colonial-escravista, o afeto da culpa faz parte h\u00e1 s\u00e9culos da subjetiva\u00e7\u00e3o social. Por isso, com o capitalismo global, o capitalismo brasileiro se reencontra com sua pr\u00f3pria mis\u00e9ria hist\u00f3rica. Na verdade, o novo controle estranhado do metabolismo social na era neoliberal opera a organiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica dos afetos regressivos da alma humana brasileira (culpa, medo e ressentimento) no sentido da conserva\u00e7\u00e3o social. Mais uma vez, eis o sentido da barb\u00e1rie social enquanto elemento compositivo da pr\u00e1tica pol\u00edtica da direita e extrema-direita. A pol\u00edtica da extrema-direita soube explorar a nova economia ps\u00edquica do capital e seu lastro material da barb\u00e1rie social.<\/p>\n<p>Antes de concluirmos, \u00e9 interessante resgatar o significado do termo \u201clumpeniza\u00e7\u00e3o\u201d do homem burgu\u00eas. Por \u201chomem burgu\u00eas\u201d entendemos n\u00e3o apenas o homem capitalista, mas o homem de classe m\u00e9dia e o homem prolet\u00e1rio enquanto sujeitos integrados \u00e0 ordem competitiva do consumo e suas expectativas contingentes de realiza\u00e7\u00e3o pessoal. Na sociedade burguesa, o aburguesamento \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica dominante, inclusive entre prolet\u00e1rios e miser\u00e1veis. Mesmo imerso na \u201cproletariedade extrema\u201d, o \u201clumpen\u201d paradoxalmente, n\u00e3o se indigna contra a ordem burguesa, mas pelo contr\u00e1rio, visa integrar-se nela. O termo \u201clumpemproletariado\u201d (do alem\u00e3o Lumpenproletariat: \u201cse\u00e7\u00e3o degradada e desprez\u00edvel do proletariado\u201d, de lump \u2018pessoa desprez\u00edvel\u2019 e lumpen \u2018trapo, farrapo\u2019 + proletariat \u2018proletariado\u2019), ou lumpesinato, ou ainda subproletariado, designa, de acordo com Marx e Engels, a popula\u00e7\u00e3o situada socialmente abaixo do proletariado com direitos sociais. O \u201clumpen\u201d do ponto de vista das condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho, \u00e9 formada por fra\u00e7\u00f5es miser\u00e1veis, n\u00e3o-organizadas do proletariado, n\u00e3o apenas destitu\u00eddas de recursos econ\u00f4micos, mas tamb\u00e9m desprovidas de consci\u00eancia pol\u00edtica e de classe, imersos em trabalho sem forma, sendo, portanto, suscet\u00edveis de servir aos interesses da burguesia. O subproletariado brasileiro historicamente esteve no limiar da lumpeniza\u00e7\u00e3o (o que explica a opera\u00e7\u00e3o dos currais eleitorais organizados pelas oligarquias burguesas dominantes).<\/p>\n<p>A nova precariedade salarial e a multid\u00e3o de prolet\u00e1rios subutilizados no mercado de trabalho com as economias de plataformas, \u00e9 uma forma de operar a lumpeniza\u00e7\u00e3o social tendo um car\u00e1ter pol\u00edtico (e simb\u00f3lico) de conserva\u00e7\u00e3o social da ordem decr\u00e9pita do capital. Na perspectiva marxista, o lumpemproletariado seria pernicioso, j\u00e1 que seu cinismo, e sua absoluta aus\u00eancia de valores, poderiam \u201ccontaminar\u201d a consci\u00eancia social do proletariado como classe social. O termo lumpemproletariado, que pode ser traduzido, ao p\u00e9 da letra, como \u201chomem trapo\u201d, foi introduzido por Karl Marx e Friedrich Engels, em A Ideologia alem\u00e3 (1845). O lumpenproletariat na \u00e9poca de Marx e Engels, seria constitu\u00eddo por quem nada contribu\u00eda para a produ\u00e7\u00e3o, dedicados a atividades marginais, como prostitutas, ladr\u00f5es, etc. Marx assim descreveu o lumpenproletariat:<\/p>\n<p>\u201cSob o pretexto da institui\u00e7\u00e3o de uma sociedade beneficente, o lumpemproletariado parisiense foi organizado em se\u00e7\u00f5es secretas, sendo cada uma delas liderada por um agente bonapartista e tendo no topo um general bonapartista. Rou\u00e9s [rufi\u00f5es] decadentes com meios de subsist\u00eancia duvidosos e de origem duvidosa, rebentos arruinados e aventurescos da burguesia eram ladeados por vagabundos, soldados exonerados, ex-presidi\u00e1rios, escravos fugidos das galeras, gatunos, trapaceiros, lazzaroni [lazarones], batedores de carteira, prestidigitadores, jogadores, maquereaux [cafet\u00f5es], donos de bordel, carregadores, literatos, tocadores de realejo, trapeiros, amoladores de tesouras, funileiros, mendigos, em suma, toda essa massa indefinida, desestruturada e jogada de um lado para outro, que os franceses denominam la boh\u00e8me [a boemia]; com esses elementos, que lhe eram afins, Bonaparte formou a base da Sociedade 10 de Dezembro (O 18 Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte, p.91)<\/p>\n<p>N\u00e3o se faz revolu\u00e7\u00e3o social com l\u00fampens. O ser l\u00fampen significa pessoa desprovida de qualquer tipo de princ\u00edpio \u00e9tico, sendo, al\u00e9m de uma categoria sociol\u00f3gica, um estado de esp\u00edrito que n\u00e3o se restringe a classes ou categorias sociais; mas pode-se utiliz\u00e1-la para caracterizar um princ\u00edpio de subjetiva\u00e7\u00e3o. A barb\u00e1rie social \u00e9 o modo de subjetiva\u00e7\u00e3o do \u201cl\u00fampen\u201d pois implica a corros\u00e3o do car\u00e1ter ou a degrada\u00e7\u00e3o de valores \u00e9tico-politico da pr\u00e1tica social.<\/p>\n<p>No caso do Brasil, o modo de objetiva\u00e7\u00e3o prussiano-colonial do capitalismo h\u00e1 s\u00e9culos tornou o Estado burgu\u00eas fragilizado em seus componentes \u00e9tico-pol\u00edticos. Corro\u00eddo pelo patrimonialismo e interesses privatistas, o Estado burgu\u00eas no Brasil sempre teve dificuldades em constituir-se como esfera p\u00fablica. Por isso, a corrup\u00e7\u00e3o da res publica \u00e9 um fen\u00f4meno end\u00eamico lastreado pelos interesses das classes dominantes. Feito \u00e0 imagem do Estado pol\u00edtico, a sociedade civil incorporou os tra\u00e7os da corros\u00e3o \u00e9tico-moral. Com a era neoliberal, aprofundou-se as debilidades da institucionalidade p\u00fablica, tendo em vista o protagonismo do mercado com seus interesses particularistas.<\/p>\n<p>Na verdade, a era da barb\u00e1rie social \u00e9 a era da corrup\u00e7\u00e3o do capital como sistema de controle do metabolismo social. N\u00e3o se trata apenas da corrup\u00e7\u00e3o por dinheiro, mas a corrup\u00e7\u00e3o de valores morais. A corrup\u00e7\u00e3o privada subsiste \u00e0 sombra da corrup\u00e7\u00e3o estatal. O Estado pol\u00edtico \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o da sociedade civil burguesa que o constituiu a sua imagem e semelhan\u00e7a. A crise estrutural do Estado como inst\u00e2ncia pol\u00edtico-moral \u00e9 um elemento estrutural do capital em sua etapa de decl\u00ednio hist\u00f3rico. No caso do Brasil, a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um elemento da \u201cmis\u00e9ria brasileira\u201d que se aprofundou com o capitalismo neoliberal.<\/p>\n<p>A \u201clumpeniza\u00e7\u00e3o\u201d da classe m\u00e9dia significa o acirramento da concorr\u00eancia e da degrada\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios \u00e9tico-morais de sociabilidade burguesa. \u00c9 express\u00e3o do apodrecimento do homem burgu\u00eas. O homem burgu\u00eas se desmancha no ar: como tudo que \u00e9 s\u00f3lido. De guardi\u00e3 dos valores burgueses da civiliza\u00e7\u00e3o do capital, a classe m\u00e9dia tornou-se \u201ccoveira\u201d das promessas \u00e9ticas de reprodu\u00e7\u00e3o social da ordem burguesa. No mundo social da escassez, o pequeno-burgu\u00eas \u2013 por m\u00e1-f\u00e9 ou ingenuidade \u2013 \u201csujou as m\u00e3os\u201d, assumindo com fatalismo, o lado podre da vida burguesa.<\/p>\n<p>O caso do Brasil \u00e9 exemplar. Com o neodesenvolvimentismo da era lulista (2003-2014), a invas\u00e3o da ordem burguesa pelos \u201cnovos b\u00e1rbaros\u201d (os pobres aburguesados no limiar do lumpesinato) aterrorizou o imagin\u00e1rio da classe m\u00e9dia miserabilizada mobilizada pela direita e extrema-direita (utilizei o termo \u201cproletar\u00f3ide\u201d para caracterizar o pobre aburguesado). O l\u00fampen n\u00e3o \u00e9 burgu\u00eas, mas aspira a ser: eis o segredo oculto do lumpenizado. Ele \u00e9 o burgu\u00eas ressentido de sua miserabilidade humana. O l\u00fampen quer ser preposto do burgu\u00eas, \u201ctesta-de-ferro\u201d da classe dominante. A lumpeniza\u00e7\u00e3o significa a \u201cdecad\u00eancia sem eleg\u00e2ncia\u201d (d\u00e9cadence sans \u00e9l\u00e9gance) do homem burgu\u00eas que, com seu apodrecimento por conta do decl\u00ednio hist\u00f3rico do capital, tende a se disseminar pelo metabolismo social. Mas, a barb\u00e1rie social que se dissemina na sociedade burguesa, n\u00e3o vem de fora tal como os antigos b\u00e1rbaros que ocuparam Roma Antiga. Ela \u00e9 end\u00f3gena \u00e0 ordem metab\u00f3lica do capital \u2013 emergiu de dentro da ordem perversa do capital que degrada em suas entranhas as rela\u00e7\u00f5es humano-sociais. O homem burgu\u00eas lumpenizado invade o que est\u00e1 corro\u00eddo (e corrompido) pelo apodrecimento da rela\u00e7\u00e3o-capital.<\/p>\n<p>A \u201clumpeniza\u00e7\u00e3o\u201d da classe m\u00e9dia e o \u201caburguesamento\u201d do proletariado s\u00e3o determina\u00e7\u00f5es reflexivas da barb\u00e1rie social que, no caso da \u201cmis\u00e9ria brasileira\u201d, adquiriram dimens\u00f5es colossais. Existe um sentido de crise civilizat\u00f3ria que, com a crise do capitalismo global, aprofundou-se na d\u00e9cada de 2010.<\/p>\n<p>Conclu\u00edmos nossa larga an\u00e1lise sobre as origens hist\u00f3ricas da mis\u00e9ria brasileira fazendo refer\u00eancia ao filme O invasor (1999), de Beto Brandt. Lan\u00e7ado no come\u00e7o do s\u00e9culo XXI, o filme de Brandt \u00e9 premonit\u00f3rio ao expor elementos da barb\u00e1rie social que emergiriam no Brasil com a crise do capitalismo global da d\u00e9cada de 2010. O filme mostra o apodrecimento do Estado olig\u00e1rquico-burgu\u00eas, expondo em sua narrativa, a figura\u00e7\u00e3o n\u00edtida da desigualdade social e da corrup\u00e7\u00e3o moral da classe m\u00e9dia. An\u00edsio, interpretado por Paulo Miklos, \u00e9 o invasor, sendo ele a representa\u00e7\u00e3o do l\u00fampen aburguesado que ocupou o espa\u00e7o social da classe m\u00e9dia moralmente corrompida. Um paralelo com Jair Bolsonaro, eleito em 2018 para Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, n\u00e3o seria mera coincid\u00eancia. Bolsonaro representa isso: a classe m\u00e9dia lumpenizada instigada em seus afetos medonhos pelo medo da miserabilidade. Mesclam-se na alma do homem burgu\u00eas lumpenizado os afetos do medo, culpa, ressentimento e \u00f3dio de classe \u2013 contra os pobres. Uma das m\u00fasicas do filme se intitula \u201corgia\u201d. Diz respeito ao mundo social da barb\u00e1rie constitu\u00edda por um mundo de homens sem rostos, rostos virtualizados, vazios de express\u00e3o humana. Enfim, rostos do trabalhador sem forma. Rostos que nada dizem e nada lembram. Como diz uma passagem da letra da m\u00fasica: \u201cN\u00e3o tenho rosto\/ Nada do que possa se lembrar depois\u201d ou ainda \u201cEu tenho fome\/Eu tenho em mente\/Uma grande orgia\u201d. A letra de Paulo Miklos n\u00e3o diz respeito \u00e0 fome material, mas sim \u00e0 fome espiritual, produto hist\u00f3rico secular da ignor\u00e2ncia cultural como projeto de poder do Estado olig\u00e1rquico-burgu\u00eas no Brasil.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Giovanni Alves \u00e9 doutor em ci\u00eancias sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Mar\u00edlia. \u00c9 pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET), do Projeto Tela Cr\u00edtica e outros n\u00facleos de pesquisa reunidos em seu site giovannialves.org. \u00c9 autor de v\u00e1rios livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e prec\u00e1rio) mundo do trabalho: reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo, 2000) e Trabalho e subjetividade: o esp\u00edrito do toyotismo na era do capitalismo manipulat\u00f3rio (Boitempo, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s segundas.<\/p>\n<p>Confira aqui a primeira parte desse artigo da s\u00e9rie sobre a cat\u00e1strofe brasileira:<\/p>\n<p>https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/category\/colunas\/giovanni-alves\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27876\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[223],"class_list":["post-27876","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7fC","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27876","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27876"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27876\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27876"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27876"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27876"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}