{"id":27878,"date":"2021-09-27T14:10:45","date_gmt":"2021-09-27T17:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27878"},"modified":"2021-09-27T14:10:45","modified_gmt":"2021-09-27T17:10:45","slug":"sobre-a-responsabilidade-dos-intelectuais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27878","title":{"rendered":"Sobre a responsabilidade dos intelectuais"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/t.jus.com.br\/r2YMK4TL8oV605YJ5dxGhhBUkWw%3D\/1200x900\/smart\/assets.jus.com.br\/system\/file\/237\/2c177f651f7c74e2ec40bd243de85d6b.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->LAVRA PALAVRA<\/p>\n<p>Por Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs, via gyorgylukacs.wordpress.com, traduzido por Bruno Bianchi<\/p>\n<p>Escrito em 1948.<\/p>\n<p>Durante a Segunda Guerra Mundial, muitos esperavam que a destrui\u00e7\u00e3o do regime hitleriano tamb\u00e9m erradicasse a ideologia fascista. Mas o que tem sido visto desde o fim da guerra em diante na Alemanha Ocidental indica que a rea\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00f4nica at\u00e9 mesmo salvou e fomentou as bases econ\u00f4micas e pol\u00edticas para um renascimento do fascismo hitleriano. As consequ\u00eancias s\u00e3o sentidas tamb\u00e9m no campo ideol\u00f3gico. Portanto, a ideologia do hitlerismo representa ainda hoje um problema atual, e n\u00e3o meramente hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Se olharmos para a ascens\u00e3o do fascismo, vemos a grave responsabilidade que os intelectuais t\u00eam na forma\u00e7\u00e3o da ideologia fascista. Aqui, no entanto, as exce\u00e7\u00f5es louv\u00e1veis s\u00e3o muito poucas.<\/p>\n<p>Gostaria de pedir aos chamados homens pr\u00e1ticos que n\u00e3o subestimem as quest\u00f5es ideol\u00f3gicas. Darei apenas um exemplo. Sabemos muito bem como a pol\u00edtica hitleriana conduziu com necessidade f\u00e9rrea aos horrores de Auschwitz e Maidanek. Mas n\u00e3o devemos ignorar que um dos fatores que permitiu que esses horrores acontecessem foi a sistem\u00e1tica demoli\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da igualdade de todos os homens. Teria sido muito mais dif\u00edcil levar a cabo a bestialidade organizada do fascismo contra milh\u00f5es de pessoas se Hitler n\u00e3o tivesse conseguido enraizar nas massas alem\u00e3s mais amplas a convic\u00e7\u00e3o de que qualquer pessoa que n\u00e3o fosse \u201cde ra\u00e7a pura\u201d n\u00e3o era \u201cpropriamente\u201d um homem.<\/p>\n<p>Este \u00e9 apenas um exemplo entre tantos. Deve apenas demonstrar que uma ideologia reacion\u00e1ria inocente n\u00e3o pode existir. A gera\u00e7\u00e3o mais velha se lembrar\u00e1 muito bem de certas cr\u00edticas \u201celitistas\u201d, acad\u00eamicas, ensa\u00edsticas, da cren\u00e7a \u201cvulgar\u201d na igualdade dos homens; e cr\u00edticas an\u00e1logas do progresso, da raz\u00e3o, da democracia, etc. A maioria dos intelectuais teve sua parte, de modo ativo ou receptivo, a este movimento. Em um primeiro momento, foram publicados sobre estes temas apenas livros esot\u00e9ricos, ensaios engenhosos, mas depois, destes derivaram artigos de jornal, panfletos, conversas de r\u00e1dio, e estes j\u00e1 atingiram um p\u00fablico de dezenas de milhares de pessoas. Finalmente, Hitler tirou destes discursos de sal\u00e3o e de caf\u00e9s, destas palestras universit\u00e1rias e ensaios, todo o conte\u00fado reacion\u00e1rio que poderia servir \u00e0 sua demagogia de rua. Em Hitler n\u00e3o se encontra uma palavra que n\u00e3o tenha sido dita \u201cem alto n\u00edvel\u201d por Nietzsche ou por Bergson, por Spengler ou por Ortega y Gasset. A chamada oposi\u00e7\u00e3o individual \u00e9 irrelevante do ponto de vista hist\u00f3rico. Que significa um fraco meio protesto de Spengler ou de George contra um inc\u00eandio mundial que se contribuiu a propagar com o pr\u00f3prio cigarro?<\/p>\n<p>\u00c9, portanto, uma necessidade absoluta, e uma grande tarefa para os intelectuais progressistas, desmascarar toda esta ideologia tamb\u00e9m em seus representantes mais \u201celeitos\u201d: mostrar como destas premissas surgiu por necessidade hist\u00f3rica a ideologia fascista, mostrar que uma linha reta leva de Nietzsche, passando por Simmel, Spengler, Heidegger etc. at\u00e9 Hitler; e que por outro lado homens como Bergson e Pareto, os pragmatistas e os sem\u00e2nticos, Berdjaev e Ortega, criaram uma atmosfera a partir da qual a fascistiza\u00e7\u00e3o da ideologia poderia extrair um rico alimento. N\u00e3o \u00e9 gra\u00e7as a eles que, at\u00e9 agora, o fascismo n\u00e3o nasceu na Fran\u00e7a, na Inglaterra ou nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Devemos, portanto, destacar \u2013 tamb\u00e9m ideologicamente \u2013 o papel dominante que a Alemanha tem desempenhado at\u00e9 agora no desenvolvimento da ideologia reacion\u00e1ria, mas a luta decisiva contra a ideologia imperialista alem\u00e3 nunca deve servir para justificar os irracionalistas, os inimigos do progresso, os aristocratas da ideologia de outros pa\u00edses. Ser\u00edamos m\u00edopes se acredit\u00e1ssemos que a nova rea\u00e7\u00e3o que agora se desenvolve segue no campo ideologicamente absolutamente o mesmo caminho que a velha rea\u00e7\u00e3o, que opera exatamente com os mesmos meios culturais.<\/p>\n<p>Naturalmente, no nosso per\u00edodo, no per\u00edodo do imperialismo, a subst\u00e2ncia geral de qualquer rea\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma: as reivindica\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas do capital monopolista, o consequente perigo cont\u00ednuo de ditaduras fascistas e de guerras mundiais; naturalmente, ditaduras e guerras v\u00e3o oprimir e destruir com brutalidade ao menos igual quanto sob Hitler.<\/p>\n<p>Mas disso n\u00e3o deriva de fato que o novo fascismo tentar\u00e1 se impor, em particular no campo ideol\u00f3gico, com m\u00e9todos exatamente copiados daqueles de Hitler. Pelo contr\u00e1rio, a situa\u00e7\u00e3o hoje apresenta j\u00e1 aspectos ideol\u00f3gicos quase opostos. A agress\u00e3o de ontem veio de imperialismos que se consideravam sacrificados na reparti\u00e7\u00e3o do mundo. Hoje a agress\u00e3o \u00e9 amea\u00e7ada por um potente imperialismo que quer completar a sua meia domina\u00e7\u00e3o mundial. Tem em seu rastro imperialismos que sentem vacilantes e amea\u00e7ados os seus imp\u00e9rios, que apoiam os EUA na esperan\u00e7a \u2013 objetivamente v\u00e3 \u2013 de poderem conservar, ampliar e consolidar as suas posses.<\/p>\n<p>Por outro lado, os aspectos gerais do imperialismo permanecem inalterados: ainda hoje os seus objetivos est\u00e3o em conflito com os interesses de suas pr\u00f3prias massas e com os interesses dos povos que defendem a sua liberdade. E este contraste, a necessidade que surge para os imperialistas agressivos de oprimir os povos no pa\u00eds e no exterior, e ao mesmo tempo de mobilizar demagogicamente as pr\u00f3prias massas populares para a nova reparti\u00e7\u00e3o do mundo, para a nova guerra mundial, demonstra que a pol\u00edtica interna e externa fascista, cujos contornos hoje aparecem j\u00e1 claros, deve seguir um curso obrigat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Com toda probabilidade, esta nova fase de desenvolvimento do imperialismo n\u00e3o se chamar\u00e1 fascismo. E por tr\u00e1s da nova nomenclatura se encerra um novo problema ideol\u00f3gico: o imperialismo \u201cfaminto\u201d dos alem\u00e3es gerou um cinismo niilista que rompia abertamente com todas as tradi\u00e7\u00f5es da humanidade. As tend\u00eancias fascistas que hoje crescem nos EUA trabalham com o m\u00e9todo de uma hipocrisia niilista: destroem a autodetermina\u00e7\u00e3o interna e externa dos povos em nome da democracia; exercitam a opress\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o das massas em nome da humanidade e da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um outro exemplo. Para Hitler, foi necess\u00e1rio construir uma teoria racial pr\u00f3pria, sobre bases gestadas por Gobineau e Chamberlain, para mobilizar demagogicamente as massas na liquida\u00e7\u00e3o da democracia e do progresso, do humanismo e da civiliza\u00e7\u00e3o. Os imperialistas dos EUA t\u00eam uma tarefa mais f\u00e1cil: basta que tornem universal e sistem\u00e1tica a velha pr\u00e1tica que eles t\u00eam seguido em rela\u00e7\u00e3o aos negros. E como at\u00e9 agora eles conseguiram \u201cconciliar\u201d esta pr\u00e1tica com a ideologia que faz dos EUA o paladino da democracia e do humanismo, \u00e9 f\u00e1cil entender por que aqui n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil surgir uma ideologia similar do niilismo hip\u00f3crita que pode conseguir dominar com meios demag\u00f3gicos. Que esta universaliza\u00e7\u00e3o e sistematiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 atingindo r\u00e1pidos progressos, pode ser vista por qualquer um que acompanhe a sorte dos melhores intelectuais progressistas dos EUA, como Gerhart Eisler ou Howard Fast. Como estes m\u00e9todos v\u00eam se generalizando h\u00e1 muito tempo, o tem demonstrado h\u00e1 muito um escritor moderado como Sinclair Lewis em Elmer Gantry.<\/p>\n<p>Aqui, naturalmente, estamos tratando apenas da forma abstratamente pura do novo fascismo. O seu desenvolvimento real segue \u00e0s vezes caminhos mais complicados, especialmente na Fran\u00e7a e na Inglaterra, onde a situa\u00e7\u00e3o interna da rea\u00e7\u00e3o imperialista \u00e9 muito mais dif\u00edcil. Mas, para voltar aos problemas ideol\u00f3gicos, basta considerar o existencialismo e se ver\u00e1 facilmente que a tentativa de trazer em harmonia o niilismo aberto do Heidegger pr\u00e9-fascista com os problemas de hoje faz vergar o cinismo para a hipocrisia.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s, peguemos Toynbee. O seu livro representa o maior sucesso da filosofia da hist\u00f3ria depois de Spengler. Toynbee estuda o surgimento e o decl\u00ednio de todas as civiliza\u00e7\u00f5es e chega \u00e0 conclus\u00e3o de que nem o dom\u00ednio das for\u00e7as naturais nem aquele das circunst\u00e2ncias sociais s\u00e3o capazes de influenciar este processo; ele tamb\u00e9m quer mostrar que todas as tentativas de influenciar o curso do desenvolvimento atrav\u00e9s do uso da viol\u00eancia \u2013 isto \u00e9, todas as revolu\u00e7\u00f5es \u2013 est\u00e3o condenadas a priori ao fracasso. Vinte e uma civiliza\u00e7\u00f5es j\u00e1 desapareceram. Uma s\u00f3, a Europa Ocidental, cresceu at\u00e9 os dias de hoje porque no seu in\u00edcio Jesus encontrou esta nova via n\u00e3o violenta de renova\u00e7\u00e3o. E hoje? Toynbee resume seus seis volumes publicados at\u00e9 agora dizendo que Deus \u2013 porque sua natureza \u00e9 t\u00e3o constante quanto a dos homens \u2013 n\u00e3o nos recusar\u00e1 uma nova salva\u00e7\u00e3o enquanto rezarmos a Ele com suficiente humildade.<\/p>\n<p>O melhor que, em minha opini\u00e3o, o mais fan\u00e1tico defensor da guerra at\u00f4mica nos EUA pode esperar \u00e9 que os intelectuais progressistas simplesmente pe\u00e7am este perd\u00e3o, enquanto ele pode organizar sem perturba\u00e7\u00f5es a guerra at\u00f4mica.<\/p>\n<p>Sem d\u00favidas esta tend\u00eancia fatalista e passiva de Toynbee indica que estamos apenas na fase inicial do desenvolvimento ideol\u00f3gico do novo fascismo. (Pense-se no fatalismo de Spengler em oposi\u00e7\u00e3o ao ativismo niilista e c\u00ednico de Hitler). Mas isto torna maiores, n\u00e3o menores, as tarefas e as responsabilidades dos intelectuais: ainda \u00e9 hora de dar uma viragem no desenvolvimento ideol\u00f3gico dos principais povos civilizados, ou ao menos de tentar deter o curso reacion\u00e1rio agora iniciado.<\/p>\n<p>Mas para conseguir isso, \u00e9 preciso, acima de tudo, clareza no campo ideol\u00f3gico. O que significa aqui clareza? N\u00e3o que expressemos nossos pensamentos de forma clara, estilisticamente perfeita (este dom est\u00e1 amplamente presente nos intelectuais), mas que saibamos claramente isto: onde estamos, onde o desenvolvimento nos leva, o que podemos fazer para influenciar o seu curso?<\/p>\n<p>Sob este aspecto os intelectuais do per\u00edodo imperialista se encontram em uma posi\u00e7\u00e3o muito desfavor\u00e1vel. Porque eles nunca poder\u00e3o, objetivamente, estar igualmente \u00e0 vontade em todos os setores da ci\u00eancia, cada \u00e9poca traz para o centro dos interesses determinadas ci\u00eancias, determinados ramos do saber, determinados autores considerados cl\u00e1ssicos. Assim, no s\u00e9culo XVIII a f\u00edsica newtoniana desempenhou uma grande fun\u00e7\u00e3o progressista na liberta\u00e7\u00e3o dos intelectuais franceses dos antigos preconceitos teol\u00f3gicos e da ideologia mon\u00e1rquico-absolutista que esses preconceitos mediavam. Na Fran\u00e7a daquela \u00e9poca, estimulou a prepara\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da grande revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, seria necess\u00e1rio e urgente que este posto na vida intelectual fosse ocupado pela economia pol\u00edtica, pela economia entendida no sentido marxiano como ci\u00eancia das \u201cformas de exist\u00eancia, das determina\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia\u201d prim\u00e1rias dos homens; como ci\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es reais entre os homens, das leis e das tend\u00eancias do desenvolvimento destas rela\u00e7\u00f5es. Mas na realidade, encontramos precisamente tend\u00eancias opostas. A filosofia, a psicologia, a historiografia etc., do per\u00edodo imperialista tentam todas depreciar o conhecimento econ\u00f4mico, difam\u00e1-lo declarando-o \u201csuperficial\u201d, \u201cinessencial\u201d, indigno de uma vis\u00e3o de mundo mais \u201cprofunda\u201d.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a consequ\u00eancia? Os intelectuais, n\u00e3o podendo discernir as bases objetivas da sua pr\u00f3pria exist\u00eancia social, tornam-se cada vez mais v\u00edtimas da fetichiza\u00e7\u00e3o dos problemas sociais e, atrav\u00e9s dela, v\u00edtimas indefesas de qualquer demagogia social.<\/p>\n<p>Seria f\u00e1cil citar exemplos. Mencionarei apenas alguns dos mais essenciais. Em primeiro lugar, a fetichiza\u00e7\u00e3o da democracia. Isto \u00e9, nunca se pergunta: democracia para quem e com exclus\u00e3o de quem? Nunca se pergunta qual \u00e9 o verdadeiro conte\u00fado social de uma democracia concreta, e ao n\u00e3o fazer estas perguntas, oferecemos um dos mais s\u00f3lidos suportes ao neofascismo que agora se est\u00e1 formando. Depois h\u00e1 a fetichiza\u00e7\u00e3o do desejo de paz dos povos, expressa em sua maioria sob a forma de pacifismo abstrato, na qual o desejo de paz n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 degradado ao n\u00edvel da passividade, mas se torna at\u00e9 mesmo a palavra de ordem para a anistia dos criminosos de guerra fascistas e facilita assim a prepara\u00e7\u00e3o de uma nova guerra. H\u00e1 ainda a fetichiza\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o. Por tr\u00e1s desta fachada, desaparecem as diferen\u00e7as entre os leg\u00edtimos interesses vitais nacionais de um povo e as tend\u00eancias agressivas do chauvinismo imperialista. Podemos bem lembrar como esta fetichiza\u00e7\u00e3o teve os seus efeitos imediatos na demagogia nacional de Hitler. Ainda hoje esta \u00e9 operante em sua forma direta, mas esta fetichiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 explorada de modo indireto e n\u00e3o menos perigoso, especialmente nos EUA: \u00e9 a ideologia do chamado supranacionalismo, de um governo mundial supranacional. Como a forma direta hitleriana visava uma pax germ\u00e2nica para o mundo, tamb\u00e9m a forma indireta tende a uma pax americana. Ambas as formas, se postas em a\u00e7\u00e3o, implicariam na destrui\u00e7\u00e3o de toda autodetermina\u00e7\u00e3o nacional, de todo progresso social.<\/p>\n<p>H\u00e1, finalmente, a fetichiza\u00e7\u00e3o da cultura. A partir de Gobineau, Nietzsche e Spengler, tem estado na moda negar a unidade da cultura do g\u00eanero humano. Quando, depois da liberta\u00e7\u00e3o do nazismo, participei pela primeira vez de uma confer\u00eancia internacional no Recontres internationales de Genebra de 1946, na ocasi\u00e3o Denis de Rougemont e outros falaram sobre a defesa da cultura europeia sustentando ideias fundadas em uma clara separa\u00e7\u00e3o entre a cultura europeia ocidental e aquela russa. Defender a cultura europeia ocidental significava, portanto, rejeitar a russa (como pensa tamb\u00e9m Toynbee). Que objetivamente esta teoria \u00e9 de fato privada de valor, que a atual cultura europeia ocidental \u00e9 profundamente impregnada de influ\u00eancias ideol\u00f3gicas russas, e em sua maioria precisamente em suas cria\u00e7\u00f5es mais altas, \u00e9 revelada pelo olhar mais superficial ao estado atual da cultura. Sem Lev Tolstoi, como se poderia imaginar, para citar apenas alguns nomes, a literatura de Shaw a Roger Martin du Gard, de Romain Rolland a Thomas Mann? Estas teorias exploram demagogicamente a circunst\u00e2ncia de que no contato imediato, na primeira impress\u00e3o, a cultura russa (e em maior raz\u00e3o a sovi\u00e9tica) parece estranha aos intelectuais da Europa ocidental. Mas todo conhecedor da literatura deve confirmar que na Fran\u00e7a foi muito mais dif\u00edcil acolher Shakespeare que Tolstoi. No entanto, o senhor de Rougemont e os seus amigos n\u00e3o erguem uma muralha da China entre a cultura da Fran\u00e7a e a da Inglaterra.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 ainda mais importante ver com clareza o significado social destas teorias. O desenvolvimento cultural russo \u2013 culminando na cultura sovi\u00e9tica \u2013 encarna hoje o futuro derivante de nossa cultura, assim como o fez a cultura inglesa do s\u00e9culo XVIII para a Fran\u00e7a e o ano de 1793 para todos os progressistas europeus. A fetichiza\u00e7\u00e3o da cultura serve aqui para mascarar o protesto do que est\u00e1 em decl\u00ednio contra o que antecipa o futuro, e precisamente na pr\u00f3pria cultura. Os Rougemont e os Toynbee, com as suas teorias, querem estender um cordon sanitaire ao redor da R\u00fassia, ao redor da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e prestam assim \u2013 deliberadamente ou n\u00e3o, n\u00e3o importa \u2013 um servi\u00e7o \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da guerra.<\/p>\n<p>Parece que me afastei do argumento da economia. Na realidade, falei sempre exclusivamente de economia. O que significa, de fato, a fetichiza\u00e7\u00e3o? Significa que algum fen\u00f4meno hist\u00f3rico se desprende de seu real terreno social e hist\u00f3rico, que o seu conceito abstrato (e geralmente apenas algum elemento deste conceito abstrato) \u00e9 transformado em fetiche, adquire uma exist\u00eancia supostamente aut\u00f4noma, se torna uma entidade em si mesma. A grande conquista da verdadeira economia reside precisamente em dissolver esta fetichiza\u00e7\u00e3o, em mostrar concretamente o que significa este ou aquele fen\u00f4meno hist\u00f3rico no processo total do desenvolvimento, qual \u00e9 o seu passado e qual \u00e9 o seu futuro.<\/p>\n<p>A burguesia reacion\u00e1ria sabe muito bem porque tenta difamar a verdadeira economia por meio de seus ide\u00f3logos, assim como a rea\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica dos s\u00e9culos XVI-XVIII sabia muito bem porque lutava contra a nova f\u00edsica. Hoje, um interesse vital da burguesia imperialista \u00e9 destruir a capacidade de orienta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-social dos intelectuais. Se hoje numerosos intelectuais n\u00e3o podem j\u00e1 ser transformados em absolutos apoiadores da rea\u00e7\u00e3o imperialista, devem ao menos vagar impotentes, sem capacidade de orienta\u00e7\u00e3o, em um mundo incompreendido.<\/p>\n<p>Confessamos com vergonha: esta manobra da burguesia reacion\u00e1ria \u00e9 largamente bem sucedida; ela desviou um bom n\u00famero dos melhores intelectuais. Muitos bons representantes da cultura atual \u2013 colaboradores inconscientes nesta inten\u00e7\u00e3o da rea\u00e7\u00e3o imperialista \u2013 criaram inclusive uma filosofia que tende a mostrar que seria filosoficamente imposs\u00edvel ter uma orienta\u00e7\u00e3o social. Esta linha varia do agnosticismo social de Max Weber ao existencialismo.<\/p>\n<p>Mas esta n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o indigna dos intelectuais? Talvez eles tenham adquirido as suas capacidades, o seu saber, a sua cultura espiritual e moral apenas para que, em um ponto de viragem hist\u00f3rico, quando se est\u00e1 decidindo o destino do g\u00eanero humano, quando a liberdade e a opress\u00e3o barb\u00e1rica est\u00e3o engajadas na batalha decisiva, eles tenham que se perguntar como Pilatos: o que \u00e9 a verdade? E n\u00e3o \u00e9 indigno deles apresentar como uma particular profundidade filos\u00f3fica esse n\u00e3o saber, este n\u00e3o querer saber?<\/p>\n<p>N\u00f3s adquirimos o nosso saber, desenvolvemos a nossa cultura espiritual para entender o mundo melhor do que o entende o homem m\u00e9dio. Mas na realidade, vemos o oposto. Arnold Zweig descreve muito bem um intelectual honesto que por anos se deixa enganar pela demagogia do imperialismo alem\u00e3o para ao fim confessar que os simples trabalhadores tinham compreendido exatamente e claramente a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 anos antes.<\/p>\n<p>Muitos intelectuais sentem j\u00e1 hoje por quem est\u00e3o realmente amea\u00e7adas a liberdade e a cultura. Muitos deles se voltam, mesmo com um forte pathos moral, contra o imperialismo, contra a prepara\u00e7\u00e3o da guerra. Mas a nossa dignidade como representantes da cultura exige precisamente que deste sentimento n\u00f3s fa\u00e7amos um saber. E isto s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ado atrav\u00e9s da ci\u00eancia da economia pol\u00edtica, mediante a economia do marxismo.<\/p>\n<p>Os intelectuais est\u00e3o em uma encruzilhada. Devemos preparar um ponto de viragem hist\u00f3rico em dire\u00e7\u00e3o ao progresso e lutar por ele na linha de frente, como os intelectuais franceses do s\u00e9culo XVIII e os russos do s\u00e9culo XIX, ou devemos ser v\u00edtimas impotentes, colaboradores ab\u00falicos de uma rea\u00e7\u00e3o barb\u00e1rica, como os intelectuais alem\u00e3es da primeira metade do s\u00e9culo XX? N\u00e3o se pode hesitar em decidir qual atitude \u00e9 digna, e qual \u00e9 indigna, da ess\u00eancia, do saber, e da cultura intelectual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27878\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[225],"class_list":["post-27878","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7fE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27878","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27878"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27878\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27878"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27878"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27878"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}