{"id":27881,"date":"2021-09-28T23:32:42","date_gmt":"2021-09-29T02:32:42","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27881"},"modified":"2021-09-28T23:32:42","modified_gmt":"2021-09-29T02:32:42","slug":"carolina-maria-de-jesus-quarto-de-despejo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27881","title":{"rendered":"Carolina Maria de Jesus: Quarto de Despejo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/rascunho.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/carolina-maria-de-jesus-1-1024x604.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Gabriel Galego<\/p>\n<p>JORNAL O MOMENTO &#8211; PCB DA BAHIA<\/p>\n<p>Carolina Maria de Jesus (1914 \u2013 1977) foi uma escritora fundamental no desenlace da literatura moderna do s\u00e9culo XX. Vinda da Favela do Canind\u00e9, da Zona Norte de S\u00e3o Paulo, Carolina viveu boa parte da vida como catadora, passando por muitas dificuldades financeiras, lutando por sua sobreviv\u00eancia e contra a pobreza extrema.<\/p>\n<p>Seu primeiro livro, que fez sucesso imediato e causou grande espanto nos meios liter\u00e1rios, foi &#8220;Quarto de Despejo: di\u00e1rio de uma favelada&#8221;. Escrito no final de 1950 e editado em 1960, o romance narra as dificuldades de uma m\u00e3e, mulher negra, moradora da favela, que enfrenta diariamente os dem\u00f4nios da sociedade: a inveja dos outros, o racismo estrutural, a fome que ronda, os v\u00edcios \u2013 como a embriaguez \u2013, que constituem a realidade da classe trabalhadora brasileira.<\/p>\n<p>O romance \u00e9 estruturado em forma de di\u00e1rio, contando as labutas cotidianas de uma m\u00e3e solteira, negra e moradora da favela em S\u00e3o Paulo. Carolina de Jesus nos conta das muitas vezes que pedia ossos nos frigor\u00edficos, usados para cozinhar batatas ou fazer sopa para os filhos. Durante o livro, essa \u00e9 uma trajet\u00f3ria comum em sua condi\u00e7\u00e3o de falta de dinheiro at\u00e9 para se alimentar. Ora, essa era a condi\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora entre 1950 e 60: pobreza extrema, fome e total precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida. \u00c9ramos largados \u00e0s tra\u00e7as, explorados at\u00e9 a \u00faltima gota de suor e sangue \u2013 principalmente o povo negro e os ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Hoje, depois de setenta anos, pudemos novamente constatar a veracidade da sabedoria popular: o mundo d\u00e1 voltas. A hist\u00f3ria se repete, como diria Marx. Infelizmente, para a classe trabalhadora brasileira se repetiu como trag\u00e9dia outra vez. Agora, em outro contexto hist\u00f3rico, vivemos o \u00e1pice da pol\u00edtica econ\u00f4mica neoliberal, agenciado pelo fascismo bolsonarista e pelo Partido Fardado, em resposta \u00e0 crise econ\u00f4mica generalizada, aprofundada pela pandemia. A fome reaparece no cen\u00e1rio brasileiro como um problema social latente e alarmante.<\/p>\n<p>A not\u00edcia triste das fam\u00edlias nas filas em Frigor\u00edficos de Cuiab\u00e1, na busca por ossos para matar a fome, nos remetem diretamente \u00e0s narrativas de Carolina de Jesus. A escritora dizia que \u201cquem passa fome tende a pensar no pr\u00f3ximo, e nas crian\u00e7as\u201d. Ora, a burguesia brasileira nunca passou fome \u2013 s\u00e3o altamente individualistas e nem mesmo passam por suas cabe\u00e7as as condi\u00e7\u00f5es de nossas crian\u00e7as. No pa\u00eds que lucra bilh\u00f5es com o agroneg\u00f3cio, o povo passa fome. Essa \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds ainda carrega.<\/p>\n<p>No Brasil, o povo \u00e9 maltratado, superexplorado, extorquido de suas condi\u00e7\u00f5es de vida plena e bem-estar. A nossa classe passa fome e sede, morre aos montes na pandemia, mas continua produtiva para o capital. Em tempos de crise, os problemas latentes do Brasil reaparecem em cena: s\u00e3o dem\u00f4nios do subdesenvolvimento e da depend\u00eancia, \u00e0s vezes colocados para dormir, mas que despertam outra vez. Hoje, a fome e a inseguran\u00e7a alimentar continuam a ser a dura realidade \u2013 ela foi contada pela voz de Carolina de Jesus e \u00e9 vista hoje a olhos nus, para quem quiser ver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27881\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[226],"class_list":["post-27881","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7fH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27881","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27881"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27881\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}