{"id":27885,"date":"2021-09-29T23:38:29","date_gmt":"2021-09-30T02:38:29","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27885"},"modified":"2021-09-29T23:38:29","modified_gmt":"2021-09-30T02:38:29","slug":"como-os-eua-ajudaram-a-criar-osama-bin-laden","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27885","title":{"rendered":"Como os EUA ajudaram a criar Osama bin Laden"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/pera-18.jpeg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->(Foto: Ben Sutherland)<\/p>\n<p>Antes de fundar a Al-Qaeda, bin Laden foi uma pe\u00e7a chave no financiamento norte-americano, saudita e paquistan\u00eas de guerrilheiros afeg\u00e3os.<\/p>\n<p>Por Ben Hillier | Redflag<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o de Vin\u00edcius S. Morais Provazzi, com revis\u00e3o de Rebeca \u00c1vila para a Revista Opera<\/p>\n<p>A segunda metade da d\u00e9cada de 1970 foi calamitosa para o imperialismo dos EUA. As \u00faltimas tropas norte-americanas retiraram-se do Vietn\u00e3 do Sul em 1975, quando Saigon (agora Cidade de Ho Chi Minh) caiu nas m\u00e3os das for\u00e7as comunistas do Norte; o regime aliado dos EUA no Ir\u00e3 entrou em colapso em fevereiro de 1979, depois que uma revolu\u00e7\u00e3o derrubou o X\u00e1 Mohammad Reza Pahlavi, que havia sido previamente instalado por um golpe orquestrado pelos norte-americanos.<\/p>\n<p>Na ilha caribenha de Granada, no m\u00eas seguinte, os comunistas do Movimento New Jewel assumiram o poder, reacendendo mem\u00f3rias da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana; e a ditadura apoiada pelos EUA na Nicar\u00e1gua, Am\u00e9rica Central, tamb\u00e9m estava prestes a cair nas m\u00e3os de for\u00e7as guerrilheiras de esquerda. Os norte-americanos pareciam estar perdendo em todos os lugares.<\/p>\n<p>Para o presidente Jimmy Carter e o establishment da seguran\u00e7a nacional dos EUA, o rev\u00e9s iraniano em particular n\u00e3o poderia ter vindo em pior hora. Os comunistas \u2013 apoiados pelo principal inimigo estrat\u00e9gico dos Estados Unidos, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u2013 recentemente haviam assumido o poder no pa\u00eds vizinho, o Afeganist\u00e3o. Embora o pa\u00eds n\u00e3o estivesse no topo da lista de prioridades dos EUA, os estrategistas norte-americanos, no entanto, perceberam uma oportunidade dentro dessa situa\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel. Em julho, seguindo as diretivas do conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional, Zbigniew Brzezinski, Carter assinou uma diretriz permitindo que um pacote de apoio secreto fosse dado ao que, naquela \u00e9poca, era uma oposi\u00e7\u00e3o em vias de radicaliza\u00e7\u00e3o, contra o governo pr\u00f3-sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Isso marcou o in\u00edcio de uma infame converg\u00eancia de interesses, por meio da qual a Ag\u00eancia Central de Intelig\u00eancia (CIA), o Departamento de Intelig\u00eancia Geral da Ar\u00e1bia Saudita (GID) e a Diretoria de Intelig\u00eancia Interservi\u00e7os do Paquist\u00e3o (ISI) treinaram e equiparam os mujahideen afeg\u00e3os (guerrilheiros isl\u00e2micos). Cada membro dessa alian\u00e7a tinha sua pr\u00f3pria agenda.<\/p>\n<p>\u201cO presidente Zia visava cimentar a unidade isl\u00e2mica, transformar o Paquist\u00e3o no l\u00edder do mundo mu\u00e7ulmano e fomentar uma oposi\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica na \u00c1sia Central\u201d, escreveu Ahmed Rashid no Centro de Integridade P\u00fablica dos Estados Unidos em 2001. \u201cWashington queria demonstrar que todo o mundo mu\u00e7ulmano estava lutando contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, ao lado dos afeg\u00e3os e de seus benfeitores norte-americanos. E os sauditas viram uma oportunidade para promover o wahhabismo [uma linha puritana do islamismo] e tamb\u00e9m para se livrar de seus radicais descontentes. Nenhum dos poderes acreditava que esses volunt\u00e1rios tivessem suas pr\u00f3prias agendas, e que um dia voltariam seu \u00f3dio dos sovi\u00e9ticos contra os seus pr\u00f3prios regimes e contra os americanos\u201d.<\/p>\n<p>Tropas russas invadiram o pa\u00eds em dezembro, temendo a derrubada iminente do governo pelos mujahideen e preocupadas com potenciais rebeli\u00f5es em cadeia nas suas pr\u00f3prias rep\u00fablicas centro-asi\u00e1ticas, predominantemente mu\u00e7ulmanas. Os sovi\u00e9ticos agora estavam presos em uma guerra intrat\u00e1vel. Ao longo da d\u00e9cada seguinte, a CIA, o GID e a ISI recrutaram mais de 30.000 combatentes do mundo mu\u00e7ulmano e destinaram bilh\u00f5es de d\u00f3lares em ajuda para trein\u00e1-los e equip\u00e1-los.<\/p>\n<p>Steve Coll, do Washington Post, considerou-a a opera\u00e7\u00e3o secreta mais significativa desde a Segunda Guerra Mundial. \u201cDurante toda a temporada de combates no Afeganist\u00e3o, at\u00e9 onze equipes da ISI treinadas e equipadas pela CIA acompanharam os mujahideen atrav\u00e9s da fronteira para supervisionar ataques\u201d, escreveu em 1992.<\/p>\n<p>Eles deram suporte a personagens retr\u00f3grados como Gulbuddin Hekmatyar. Seus seguidores, segundo o jornalista Tim Weiner, eram conhecidos por jogar \u00e1cido \u201cnos rostos das mulheres que se recusavam a usar o v\u00e9u\u201d. \u201cFuncion\u00e1rios da CIA e do Departamento de Estado com quem conversei o chamam de \u2018assustador\u2019, \u2018perverso\u2019, \u2018um fascista\u2019, \u2018material ditatorial\u2019\u201d, escreveu Weiner em Blank Check: The Pentagon\u2019s Black Budget.<\/p>\n<p>Hekmatyar, que em 1976 fundou o Hezb-e-Islami (Partido do Isl\u00e3), uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica paramilitar, teria recebido mais financiamento norte-americano do que qualquer outro senhor da guerra (ironicamente, ele foi posteriormente colocado na lista de terroristas mais procurados de Washington). O racioc\u00ednio da CIA era simples: quanto mais fan\u00e1ticos os soldados e mais brutais seus m\u00e9todos, mais eles machucariam os russos. E quanto mais dor eles causassem, mais apoio deveriam receber.<\/p>\n<p>Ronald Reagan, que substituiu Carter em 1981, descreveu os mujahideen como \u201clutadores pela liberdade\u201d e trouxe a Washington l\u00edderes rebeldes como Abdul Haq, que admitiu sua responsabilidade por ataques terroristas como a explos\u00e3o de uma bomba em 1984 no aeroporto de Cabul, que matou pelo menos 28 pessoas e deixou centenas de feridos. Seus admiradores americanos o apelidaram de \u201cHollywood Haq\u201d.<\/p>\n<p>Usando pessoal e ve\u00edculos fornecidos pela CIA, os mujahideen expandiram a produ\u00e7\u00e3o de \u00f3pio em \u00e1reas sob seu controle, transformando o Afeganist\u00e3o no que um oficial da Ag\u00eancia Antidrogas dos Estados Unidos descreveu mais tarde como a nova Col\u00f4mbia do mundo das drogas (esses tamb\u00e9m foram os anos em que a CIA forneceu financiamento secreto, levantado por meio da venda de coca\u00edna, a paramilitares contra o governo na Nicar\u00e1gua). O apoio dos EUA n\u00e3o estava dispon\u00edvel apenas para opera\u00e7\u00f5es militares. Tamb\u00e9m houve aux\u00edlio para a guerra ideol\u00f3gica, como Rashid observou: \u201cDezenas de milhares de radicais mu\u00e7ulmanos estrangeiros vieram estudar nas centenas de novas madrassas que o governo militar de Zia come\u00e7ou a financiar no Paquist\u00e3o e ao longo da fronteira afeg\u00e3. No fim, mais de 100.000 radicais mu\u00e7ulmanos teriam contato direto com o Paquist\u00e3o e o Afeganist\u00e3o e seriam influenciados pela jihad.<\/p>\n<p>\u201cEm campos na proximidade de Peshawar [perto da fronteira com o Afeganist\u00e3o] e no Afeganist\u00e3o, esses radicais se encontraram pela primeira vez e estudaram, treinaram e lutaram juntos. Foi a primeira oportunidade para a maioria deles aprender sobre os movimentos isl\u00e2micos em outros pa\u00edses, e eles forjaram la\u00e7os t\u00e1ticos e ideol\u00f3gicos que os serviriam bem no futuro. Os campos se tornaram virtuais universidades para o futuro radicalismo isl\u00e2mico. Nenhuma das ag\u00eancias de intelig\u00eancia envolvidas queria considerar as consequ\u00eancias de reunir milhares de radicais isl\u00e2micos de v\u00e1rias partes do mundo.\u201d<\/p>\n<p>Osama bin Laden, o d\u00e9cimo s\u00e9timo filho de um bilion\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o civil saudita, envolveu-se no in\u00edcio do conflito como recrutador e financiador. \u201cEncantado com suas credenciais impec\u00e1veis, a CIA deu r\u00e9dea solta a Osama no Afeganist\u00e3o, assim como os generais de intelig\u00eancia do Paquist\u00e3o\u201d, escreve o jornalista John Cooley em Unholy Wars: Afghanistan, America and International Terrorism. \u201cEles olharam com benevol\u00eancia para o aumento do poder sect\u00e1rio dos mu\u00e7ulmanos sunitas no sul da \u00c1sia para conter a influ\u00eancia do xiismo iraniano da variedade Khomeini.\u201d<\/p>\n<p>Bin Laden recrutou milhares de volunt\u00e1rios da Ar\u00e1bia Saudita e desenvolveu rela\u00e7\u00f5es estreitas com os l\u00edderes mujahideen. Ele tamb\u00e9m supostamente trabalhou em estreita colabora\u00e7\u00e3o com a CIA, arrecadando dinheiro de civis sauditas. A partir de 1984, bin Laden, junto com Ayman al-Zawahiri e outros, dirigiu o Maktab al-Khidamat, que foi criado pela ISI para fornecer recursos aos mujahideen. Tamb\u00e9m conhecida como Ag\u00eancia de Servi\u00e7o Afeg\u00e3, a organiza\u00e7\u00e3o foi a precursora da Al-Qaeda (fundada em 1988), rede terrorista respons\u00e1vel pelos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u201cOperando inicialmente a partir de Karachi e mais tarde a partir de suas fortalezas no Afeganist\u00e3o, o imp\u00e9rio financeiro e imobili\u00e1rio de bin Laden come\u00e7ou a construir bases, campos de treinamento e pistas de pouso no Afeganist\u00e3o \u2013 que viriam a estar sob ataque no inverno de 2001-2002 pelos pr\u00f3prios Estados Unidos, que haviam originalmente encorajado sua constru\u00e7\u00e3o \u2013 para jatos particulares de senhores da guerra da jihad anti-sovi\u00e9tica, para dignit\u00e1rios mu\u00e7ulmanos e \u00e1rabes visitantes\u201d, escreve Cooley.<\/p>\n<p>\u201cBunkers e t\u00faneis profundos para postos de comando e centros de telecomunica\u00e7\u00f5es [\u2026] foram escavados nas montanhas afeg\u00e3s. O objetivo deles era tornar as telecomunica\u00e7\u00f5es dos combatentes mujahideen \u00e0 prova de analistas de tr\u00e1fego de r\u00e1dio e decifradores do Ex\u00e9rcito Vermelho, bem como proteger as muni\u00e7\u00f5es, armas e dep\u00f3sitos de combust\u00edvel contra ataques das for\u00e7as terrestres e a\u00e9reas sovi\u00e9ticas.<\/p>\n<p>\u201cMuito antes do fim da guerra, bin Laden e seus ac\u00f3litos estavam se preparando para que jihads maiores viessem contra os \u00edmpios governos \u00e1rabes que, pensava ele, estavam sob ordens dos corruptos e sat\u00e2nicos Estados Unidos, com os quais, como um aliado objetivo, ele tinha trabalhado para expulsar os sovi\u00e9ticos.\u201d<\/p>\n<p>Em 1989, os russos estavam exaustos. O Afeganist\u00e3o havia se tornado para eles o que o Vietn\u00e3 havia sido para os Estados Unidos. Quando eles finalmente se retiraram, a administra\u00e7\u00e3o de George H. W. Bush deu as costas ao Afeganist\u00e3o, deixando-o, nas palavras do The Economist, \u201cinundado de armas, senhores da guerra e fanatismo religioso extremista\u201d.<\/p>\n<p>Bin Laden tamb\u00e9m deixou o pa\u00eds e come\u00e7ou a reorientar a Al-Qaeda. Por\u00e9m, foi for\u00e7ado a retornar em 1996, tendo sido destitu\u00eddo de sua cidadania saudita e expulso do Sud\u00e3o porque os EUA finalmente se voltaram contra ele. \u201cEle trouxe consigo muitos extremistas \u00e1rabes radicalizados, motivados por vis\u00f5es de uma guerra isl\u00e2mica global\u201d, escreve Steve Coll em Ghost Wars: The Secret History of the CIA, Afghanistan, and Bin Laden. Diretamente de Indocuche [uma cordilheira no Afeganist\u00e3o], bin Laden clamou pela guerra, escrevendo um poema para o Secret\u00e1rio de Defesa dos EUA, William Perry:<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 William, amanh\u00e3 voc\u00ea ser\u00e1 informado<br \/>\nQuanto a qual jovem enfrentar\u00e1 seu irm\u00e3o arrogante<br \/>\nUm jovem entra no meio da batalha sorrindo, e<br \/>\nRetira-se com a ponta da lan\u00e7a manchada de sangue.\u201d<\/p>\n<p>Refletindo sobre seu papel no conflito afeg\u00e3o, Zbigniew Brzezinski perguntou em 1998: \u201cO que \u00e9 mais importante para a hist\u00f3ria do mundo [\u2026] alguns mu\u00e7ulmanos ati\u00e7ados ou a liberta\u00e7\u00e3o da Europa Central e o fim da Guerra Fria?\u201d Lida \u00e0 luz do que veio a seguir, a pergunta \u00e9 tr\u00e1gica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27885\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[374],"tags":[227],"class_list":["post-27885","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-afeganistao","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7fL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27885","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27885"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27885\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27885"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27885"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27885"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}