{"id":27927,"date":"2021-10-08T23:52:25","date_gmt":"2021-10-09T02:52:25","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27927"},"modified":"2021-10-14T14:13:09","modified_gmt":"2021-10-14T17:13:09","slug":"brasil-um-pais-de-barriga-vazia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27927","title":{"rendered":"Brasil: um pa\u00eds de barriga vazia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.epsjv.fiocruz.br\/sites\/default\/files\/styles\/destaque_noticias\/public\/imagemmeteriasite_37.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Foto: Bruno Namorato\/Midia Ninja<\/p>\n<p>No campo e na cidade, a inseguran\u00e7a alimentar cresce no Brasil. Pesquisadores discutem o impacto da pandemia, mas tamb\u00e9m o cen\u00e1rio que j\u00e1 se desenhava antes da crise sanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>C\u00e1tia Guimar\u00e3es &#8211; EPSJV\/Fiocruz<\/p>\n<p>Existe a fome, a mem\u00f3ria da fome e o medo da fome. Primeiro o dinheiro \u2018diminui\u2019. E a percep\u00e7\u00e3o de que a pobreza est\u00e1 piorando acende o alerta de que, em breve, pode faltar comida no prato. Conforme a situa\u00e7\u00e3o piora, no malabarismo da economia dom\u00e9stica, as fam\u00edlias come\u00e7am a substituir os alimentos que costumavam consumir por outros mais baratos, ao mesmo tempo em que os adultos passam a se alimentar menos para garantir a necessidade das crian\u00e7as. At\u00e9 que chega o momento em que \u00e9 preciso cortar mais fortemente na quantidade: agora, todos, inclusive as crian\u00e7as da casa, j\u00e1 n\u00e3o conseguem fazer as refei\u00e7\u00f5es completas. Do primeiro ao \u00faltimo est\u00e1gio, esse \u00e9 o circuito que descreve os diferentes n\u00edveis de inseguran\u00e7a alimentar que atingem quase117 milh\u00f5es de brasileiros hoje, segundo o inqu\u00e9rito \u2018Inseguran\u00e7a Alimentar e Covid-19 no Brasil\u2019, produzido pela Rede de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Penssan). \u201cA situa\u00e7\u00e3o \u00e9 extremamente grave. E o pa\u00eds vai sofrer muito para se recuperar\u201d, alerta Elisabetta Recine, coordenadora do Observat\u00f3rio de Pol\u00edticas de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutri\u00e7\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia (UnB).<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que nem sempre se chega ao \u00faltimo n\u00edvel, mas tampouco \u00e9 preciso passar pelos outros dois para alcan\u00e7ar o momento da fome. \u201c\u00c0s vezes s\u00e3o processos muito r\u00e1pidos\u201d, diz o pesquisador Francisco Menezes, ex-presidente do Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Consea), extinto em 2019. Segundo dados da pesquisa da Rede Penssan, 73,4 milh\u00f5es de brasileiros est\u00e3o no primeiro est\u00e1gio, considerado leve, 24,2 milh\u00f5es no segundo, moderado, e nada menos do que 19 milh\u00f5es encontram-se em inseguran\u00e7a alimentar grave, o nome cient\u00edfico para fome. Se tomarmos os dados do estudo desenvolvido por um grupo de pesquisa da Universidade de Berlim em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a UnB, o cen\u00e1rio \u00e9 ainda mais devastador: 59,4% de inseguran\u00e7a alimentar total, sendo 15% em situa\u00e7\u00e3o de fome. Proporcionalmente, esse cen\u00e1rio atinge mais fortemente a popula\u00e7\u00e3o das \u00e1reas rurais: 12%, contra 8,5% dos moradores de zonas urbanas. Mas, em termos absolutos, o maior n\u00famero de famintos hoje \u2013 15,4 milh\u00f5es de pessoas \u2013 vive nas cidades. E, apesar das determina\u00e7\u00f5es estruturais comuns, em cada um desses cen\u00e1rios a fome pode ter uma \u2018cara\u2019 diferente.<\/p>\n<p>A renda caiu<br \/>\n\u201cNo limite, o que determina a inseguran\u00e7a alimentar \u00e9 a renda\u201d. A frase \u00e9 da pesquisadora Ana Maria Segall, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que participou do inqu\u00e9rito da Rede Penssan. A raz\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia: embora, no campo, as fam\u00edlias muitas vezes produzam seu pr\u00f3prio alimento, \u201cno limite\u201d, se isso n\u00e3o for poss\u00edvel, elas precisam de dinheiro para comprar comida. A principal fonte de renda \u00e9 o sal\u00e1rio, ou seja, aquela que vem do trabalho de cada um. E, n\u00e3o por acaso, a pesquisa mostrou que a inseguran\u00e7a alimentar grave foi seis vezes mais alta nos domic\u00edlios em que a pessoa de refer\u00eancia da fam\u00edlia estava desempregada. \u201cEmprego e renda s\u00e3o indicadores comuns, tanto para o rural quanto para o urbano\u201d, diz Segall.<\/p>\n<p>Entre as 2.180 pessoas ouvidas no Inqu\u00e9rito, 49,7% declararam que houve redu\u00e7\u00e3o da renda familiar em fun\u00e7\u00e3o da pandemia e 19% relataram perda de emprego de algum dos membros. De fato, os dados da Pesquisa<\/p>\n<p>Nacional por Amostra de Domic\u00edlio (Pnad) Cont\u00ednua, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), apontam uma taxa de desocupa\u00e7\u00e3o de 13,5% em 2020, um recorde em toda a s\u00e9rie hist\u00f3rica, que come\u00e7ou em 2012. Essa foi a m\u00e9dia anual, mas houve momentos espec\u00edficos em que a situa\u00e7\u00e3o ficou ainda pior: no terceiro trimestre do ano passado, chegou a 14,6%.<br \/>\nO estrago, de fato, foi grande. No entanto, quando pensam as determina\u00e7\u00f5es do aumento da fome e da inseguran\u00e7a alimentar em geral no Brasil, os pesquisadores ouvidos pela Poli chamam aten\u00e7\u00e3o para um processo que se agravou em 2020 mas come\u00e7ou muito antes de o novo coronav\u00edrus pousar por aqui. \u201cN\u00e3o gostamos simplesmente da manchete \u2018A pandemia levou \u00e0 fome\u2019, porque ela \u00e9 uma meia verdade\u201d, afirma Francisco Menezes. Para nos determos, por ora, nos dados sobre o emprego, vale reconhecer que, no trimestre que envolve os meses de janeiro, fevereiro e mar\u00e7o de 2020, portanto imediatamente antes da chegada da pandemia ao Brasil, 12,2% da popula\u00e7\u00e3o estava desocupada. E, no intervalo de um ano, em meio \u00e0 crise sanit\u00e1ria, ainda de acordo com o IBGE, outras 7,3 milh\u00f5es de pessoas perderam a ocupa\u00e7\u00e3o que tinham \u2013 uma diferen\u00e7a nada irrelevante.<\/p>\n<p>Uma vis\u00e3o de mais longo prazo, no entanto, permite perceber uma clara coincid\u00eancia entre o cen\u00e1rio de desemprego, tra\u00e7ado na s\u00e9rie hist\u00f3rica do IBGE, e a mudan\u00e7a na curva de melhoria da seguran\u00e7a alimentar da popula\u00e7\u00e3o brasileira. De 2012 at\u00e9 hoje, de acordo com os gr\u00e1ficos sistematizados a partir da Pnad, a menor taxa de desocupa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds se deu no per\u00edodo de outubro a dezembro de 2013, quando esse problema atingia 6,2% da popula\u00e7\u00e3o. Com pequenas oscila\u00e7\u00f5es, ela chegou a 6,5% no \u00faltimo trimestre de 2014, momento a partir do qual passou a subir vertiginosamente, at\u00e9 mais que dobrar, chegando a 13,7% no in\u00edcio de 2017. Esse foi o topo. Da\u00ed em diante, houve altos e baixos at\u00e9 se alcan\u00e7ar o novo recorde trazido pela pandemia, mas o fato \u00e9 que, em todo esse per\u00edodo, essa taxa nunca foi inferior a 11%.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre renda, emprego e barriga cheia fica bem clara quando se observa que, n\u00e3o por acaso, a qualidade e a quantidade de alimentos acess\u00edveis \u00e0 popula\u00e7\u00e3o brasileira come\u00e7aram a cair no mesmo per\u00edodo em que os indicadores do mercado de trabalho degringolaram. O primeiro grande diagn\u00f3stico nacional sobre a situa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a alimentar foi feito pela Pnad em 2004 e repetido em 2008 e 2013. A compara\u00e7\u00e3o do resultado das tr\u00eas pesquisas mostra um cen\u00e1rio de melhora. O total da popula\u00e7\u00e3o em contexto de seguran\u00e7a alimentar cresceu de 64,8% em 2004 para 77,1% em 2013. J\u00e1 a propor\u00e7\u00e3o dos brasileiros que passavam fome, identificada como inseguran\u00e7a alimentar grave, caiu a menos da metade: de 9,5% para 4,2%, no mesmo per\u00edodo. Logo no ano seguinte, 2014, o Brasil foi retirado do Mapa da Fome da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), um mapeamento que identifica os pa\u00edses em que a inseguran\u00e7a alimentar grave atinge mais de 5% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;A gente j\u00e1 entrou na pandemia numa situa\u00e7\u00e3o muito cr\u00edtica por conta do desemprego, da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e da redu\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento de pol\u00edticas p\u00fablicas que foram fundamentais para diminuir o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de fome no Brasil&#8221;<br \/>\nElisabetta Recine<\/p>\n<p>O levantamento seguinte tamb\u00e9m foi feito pelo IBGE. A Pesquisa de Or\u00e7amento Familiar (POF) 2017-2018 \u2013 quando o desemprego bateu recordes no pa\u00eds \u2013 indicou uma invers\u00e3o da curva: a seguran\u00e7a alimentar voltou a n\u00edveis piores do que os de 2004 (63,3%) e, consequentemente, a inseguran\u00e7a alimentar aumentou em todos os graus: a quantidade de brasileiros em situa\u00e7\u00e3o de fome subiu para 5,8%. \u201cEm cinco anos, n\u00f3s regredimos 15\u201d, lamenta Recine. E isso foi antes da crise sanit\u00e1ria. Agora, no Inqu\u00e9rito feito no final do ano passado, o volume de pessoas em seguran\u00e7a alimentar sofreu nova queda (para 44,7%), muito pressionado pelo aumento da inseguran\u00e7a leve, que foi a que mais subiu, mas tamb\u00e9m tragicamente acompanhado pela amplia\u00e7\u00e3o da fome, que hoje alcan\u00e7a 9% da popula\u00e7\u00e3o. \u201cA pandemia aprofunda esse processo que a gente j\u00e1 estava vivendo\u201d, diz Recine. \u201cMas a gente j\u00e1 entrou na pandemia numa situa\u00e7\u00e3o muito cr\u00edtica por conta do desemprego, da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e da redu\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento de pol\u00edticas p\u00fablicas que foram fundamentais para diminuir o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de fome no Brasil\u201d, completa.<\/p>\n<p>O impacto da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho na inseguran\u00e7a alimentar tamb\u00e9m foi demonstrado pelo Inqu\u00e9rito. Por um lado, de acordo com Ana Maria Segall, a possibilidade de fazer \u2018bicos\u2019, como \u201cvender cafezinho no ponto de \u00f4nibus ou bala no sinal\u201d, \u00e9 uma \u201cestrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia\u201d e de fuga da fome \u2013 muito mais presente, inclusive, para as popula\u00e7\u00f5es urbanas do que para quem vive na \u00e1rea rural. Por outro, os dados levantados em 2020 mostraram que, de forma geral, a fome foi quatro vezes maior nos domic\u00edlios em que a pessoa de refer\u00eancia estava na informalidade. E, tamb\u00e9m aqui, o cen\u00e1rio prec\u00e1rio vem de antes: o pa\u00eds fechou 2019, de acordo com o IBGE, com 39,3 milh\u00f5es de trabalhadores informais, 41,6% da popula\u00e7\u00e3o ativa. Um m\u00eas antes de a Covid-19 chegar ao Brasil, esse n\u00famero caiu para 38 milh\u00f5es, formando o contingente mais fortemente atingido pela dificuldade de cumprir o isolamento requerido pela pandemia, exatamente por n\u00e3o ter renda garantida. Em 2020, ao longo do primeiro ano da crise sanit\u00e1ria, chegou a 39,9 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>A aposentadoria como fonte de renda tamb\u00e9m apareceu com destaque \u2013 nesse caso, positivo \u2013 na pesquisa desenvolvida pelo cons\u00f3rcio da Universidade de Berlim, UFMG e UnB. De acordo com o estudo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 faixa et\u00e1ria, os melhores \u00edndices de seguran\u00e7a alimentar (42,6%) foram encontrados nos domic\u00edlios com moradores de 60 anos ou mais. \u201cA maioria desses lares contam com aposentadoria\u201d, explica Eryka Galindo, da Universidade de Berlim e integrante do grupo de pesquisa, lembrando que, diferentemente de benef\u00edcios assistenciais como o Bolsa Fam\u00edlia e o aux\u00edlio emergencial, essa renda n\u00e3o pode ser inferior a um sal\u00e1rio m\u00ednimo por m\u00eas. \u201c\u00c9 algo mais robusto, embora o sal\u00e1rio m\u00ednimo care\u00e7a de retomar sua valoriza\u00e7\u00e3o\u201d, resume.<br \/>\nEsse, ali\u00e1s, \u00e9 um dos problemas que os pesquisadores apontam como uma das determina\u00e7\u00f5es do aumento da pobreza e da inseguran\u00e7a alimentar no pa\u00eds. Como a valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo afeta diretamente o poder de compra, principalmente nas cidades, a estagna\u00e7\u00e3o dessa pol\u00edtica, ou o reajuste abaixo da infla\u00e7\u00e3o, tem um importante impacto na capacidade maior ou menor de adquirir alimentos. E isso \u00e9 particularmente relevante porque, como explica Segall, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a alimenta\u00e7\u00e3o muitas vezes n\u00e3o pode ser a primeira prioridade de gasto das fam\u00edlias. \u201cSe eu tenho recursos muito limitados, com o que tenho que gastar primeiro? Com aluguel, porque se n\u00e3o pagar eu vou para a rua. Tenho que pagar luz e \u00e1gua, porque sen\u00e3o, n\u00e3o tenho nem como cozinhar. Ainda mais agora, com o pre\u00e7o do g\u00e1s do jeito que est\u00e1!\u201d, explica a pesquisadora, ressaltando que, nas solu\u00e7\u00f5es improvisadas, \u00e9 mais f\u00e1cil conseguir ajuda \u2013 doa\u00e7\u00f5es e empr\u00e9stimos \u2013 para comida do que para outras contas. Ela exemplifica: \u201cAgora, com a pandemia, os medicamentos e as quest\u00f5es de sa\u00fade jogam a alimenta\u00e7\u00e3o para uma prioridade ainda mais baixa\u201d.<\/p>\n<p>Se o desemprego e a informalidade s\u00e3o fatores que ampliam a inseguran\u00e7a alimentar, como demonstraram os estudos recentes, o acompanhamento feito pela pesquisa sobre Cesta B\u00e1sica de Alimentos, desenvolvida pelo Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese), tem mostrado que, mesmo entre boa parte dos empregados, o sal\u00e1rio tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 suficiente para botar comida na mesa.<\/p>\n<p>A pesquisa acompanha mensalmente o pre\u00e7o de 13 produtos que comp\u00f5em a cesta b\u00e1sica e calcula o tempo de trabalho necess\u00e1rio para se conseguir adquiri-los. De acordo com o \u00faltimo relat\u00f3rio dispon\u00edvel at\u00e9 o fechamento desta reportagem, em maio deste ano o brasileiro que recebe um sal\u00e1rio m\u00ednimo comprometeu, em m\u00e9dia, quase 55% do que ganhou para comprar os alimentos b\u00e1sicos para uma pessoa adulta. Por isso, Galindo faz quest\u00e3o de ressaltar que, ainda que estejam em situa\u00e7\u00e3o melhor do que os domic\u00edlios com jovens e crian\u00e7as, nas casas com pessoas idosas \u201ctamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o de alegrar\u201dos n\u00edveis de seguran\u00e7a alimentar. \u201cComo boa parte dos aposentados, al\u00e9m de boa parte das pessoas que est\u00e3o empregadas, recebem sal\u00e1rio m\u00ednimo, esse referencial \u00e9 muito importante no contexto da distribui\u00e7\u00e3o de renda no pa\u00eds\u201d, diz Silvio Porto, ex-diretor de Pol\u00edtica Agr\u00edcola e Informa\u00e7\u00f5es da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).<\/p>\n<p>Outra fonte de renda que, segundo pesquisadores ouvidos por esta reportagem, tamb\u00e9m n\u00e3o estava no seu pleno funcionamento quando a pandemia chegou \u00e9 o benef\u00edcio do Bolsa Fam\u00edlia. E aqui o foco \u00e9 exatamente a parcela mais pobre da popula\u00e7\u00e3o, mais vulner\u00e1vel \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar. Em mar\u00e7o de 2020, quando come\u00e7aram os primeiros casos de Covid-19 no pa\u00eds, not\u00edcias na imprensa denunciavam um corte superior a 158 mil benef\u00edcios, mais de 60% deles no Nordeste. Na \u00e9poca, a explica\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Cidadania foi que 300 mil fam\u00edlias tinham se \u201cemancipado\u201d, ou seja, ultrapassado o corte de renda que daria direito ao Bolsa Fam\u00edlia. Ainda segundo declara\u00e7\u00f5es da Pasta aos jornais, outras 185 mil teriam ingressado no Programa \u2013 mas a diferen\u00e7a entre o n\u00famero que saiu e o que entrou n\u00e3o foi reposta. Pouco antes, em janeiro do ano passado, o jornal O Globo conseguiu, via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o, dados que mostravam uma fila de 500 mil pessoas que demandavam o benef\u00edcio, mas ainda n\u00e3o tinham sido inclu\u00eddas. Segundo a reportagem, enquanto, de janeiro a maio de 2019, mais de 260 mil novas \u2018bolsas\u2019 eram concedidas por m\u00eas, naquele momento esse n\u00famero tinha ca\u00eddo para pouco mais de 5 mil novos benef\u00edcios mensais.<\/p>\n<p>\u201cA pandemia chega num pa\u00eds em que as pol\u00edticas sociais est\u00e3o fr\u00e1geis. Tudo que tinha se constitu\u00eddo como uma rede de apoio social em termos de pol\u00edticas p\u00fablicas estava extremamente fr\u00e1gil\u201d, resume Elisabetta Recine. Em dezembro de 2020, dados obtidos pelo jornal Folha de S. Paulo mostravam que, em setembro, j\u00e1 em meio \u00e0 crise sanit\u00e1ria, quase um milh\u00e3o de pessoas tinham requerido o Bolsa Fam\u00edlia e, embora tenham atendido a todos os pr\u00e9-requisitos, n\u00e3o haviam sido inclu\u00eddas no Programa. A pesquisadora completa: \u201cA alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a ponta do iceberg de um processo de desestrutura\u00e7\u00e3o da capacidade de sobreviv\u00eancia das fam\u00edlias, dos domic\u00edlios, das pessoas. Se algu\u00e9m dedica a maior parte do seu or\u00e7amento para comprar comida, que \u00e9 uma necessidade b\u00e1sica, e isso n\u00e3o est\u00e1 sendo suficiente nem para se alimentar, imagina o que est\u00e1 acontecendo com o resto\u201d.<\/p>\n<p>O aux\u00edlio tamb\u00e9m caiu<br \/>\n\u201cCom o agravamento do desemprego, sem esses programas mais permanentes e com a vinda da pandemia, passamos a ter um contingente da popula\u00e7\u00e3o com muita necessidade. O aux\u00edlio emergencial veio cobrir essa situa\u00e7\u00e3o\u201d. A constata\u00e7\u00e3o \u00e9 de Ana Maria Segall, referindo-se ao primeiro formato do benef\u00edcio oferecido, no valor de R$ 600, que chegou a R$ 1.200 em fam\u00edlias lideradas por m\u00e3es solteiras. Ela reconhece que, se os dados do Inqu\u00e9rito tivessem sido coletados nesse per\u00edodo, o resultado seria bem diferente. \u201cCertamente, a inseguran\u00e7a alimentar n\u00e3o teria aumentado tanto quanto aumentou\u201d, aposta. Muita gente n\u00e3o conseguiu acesso ao benef\u00edcio \u2013 o caminho era por um aplicativo que dependia de equipamento e internet \u2013, mas quase 68 milh\u00f5es de brasileiros, entre desempregados, trabalhadores informais e pessoas de baixa renda, receberam.<\/p>\n<p>&#8220;Houve uma eleva\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica no pa\u00eds como h\u00e1 muito tempo n\u00e3o se via. Isso mostra exatamente o quanto a popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 empobrecida. Porque R$ 600 fizeram uma brutal diferen\u00e7a na vida de muita gente&#8221;<br \/>\nSilvio Porto<\/p>\n<p>O impacto foi grande: na renda e, consequentemente, na garantia de comida na mesa. Dados da pesquisa \u2018Os efeitos da pandemia sobre os rendimentos do trabalho e o impacto do aux\u00edlio emergencial: os resultados dos microdados da PNAD Covid-19 de julho\u2019, desenvolvida pelo IBGE, mostraram que, nos domic\u00edlios mais pobres, o aux\u00edlio fez com que, mesmo em meio \u00e0 crise sanit\u00e1ria, a renda fosse quase um quarto maior do que a habitual. \u201cHouve uma eleva\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica no pa\u00eds como h\u00e1 muito tempo n\u00e3o se via. E com t\u00e3o pouco dinheiro! Isso mostra exatamente o quanto a popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 empobrecida. Porque R$ 600 fizeram uma brutal diferen\u00e7a na vida de muita gente\u201d, analisa Silvio Porto. Ao mesmo tempo, o estudo observou que, naquele m\u00eas de 2020, nada menos que 4,4 milh\u00f5es de casas sobreviveram apenas com o aux\u00edlio.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que foi bom, mas durou pouco. Em abril de 2020, o Congresso Nacional aprovou, em lei, o benef\u00edcio de R$ 600 por no m\u00ednimo tr\u00eas meses, como parte do enfrentamento \u00e0 emerg\u00eancia de sa\u00fade p\u00fablica. O governo federal prorrogou o benef\u00edcio por dois meses nesse valor e, depois, o reduziu \u00e0 metade. Foi exatamente o retrato desse momento que as duas pesquisas mostraram. \u201cElas tiveram o m\u00e9rito de captar o que j\u00e1 se sentia a partir da redu\u00e7\u00e3o do aux\u00edlio \u00e0 metade\u201d, diz Francisco Menezes.<\/p>\n<p>E se \u00e9 verdade que os resultados teriam sido melhores alguns meses antes, \u00e9 prov\u00e1vel tamb\u00e9m que tivessem piorado logo depois. Isso porque, na sequ\u00eancia, o benef\u00edcio ficou suspenso de janeiro a abril deste ano. \u201cForam tr\u00eas meses de muita mis\u00e9ria\u201d, lamenta Menezes, lembrando que organiza\u00e7\u00f5es que participaram de redes de solidariedade, principalmente na distribui\u00e7\u00e3o de alimentos, relatavam o aumento dos pedidos e das filas nesse per\u00edodo. Quando o aux\u00edlio voltou a ser pago, seu valor caiu novamente: hoje est\u00e1 em R$ 250 em m\u00e9dia, podendo chegar a no m\u00e1ximo R$ 375 para fam\u00edlias de mulheres com filhos.<\/p>\n<p>E o pre\u00e7o subiu<br \/>\nComo se n\u00e3o bastasse tudo isso, no meio da crise, o pre\u00e7o de alguns produtos da cesta b\u00e1sica n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o diminuiu para se adequar \u00e0 perda de renda da popula\u00e7\u00e3o como subiu mais do que o esperado. Embora n\u00e3o tenha sido o \u00fanico, o grande destaque do notici\u00e1rio foi o arroz, que aumentou 21,3% entre janeiro e agosto de 2020, fazendo com que o saco de cinco quilos chegasse a custar R$ 40 nos supermercados. O professor Silvio Porto, que foi diretor da Conab de 2003 a 2014, reconhece que uma parte da press\u00e3o nos pre\u00e7os pode ter se dado em fun\u00e7\u00e3o de uma maior procura pelos alimentos da cesta b\u00e1sica exatamente naquele momento em que o aux\u00edlio emergencial de R$ 600 aumentou a renda da popula\u00e7\u00e3o mais pobre. \u201cO fato de as pessoas terem acessado o aux\u00edlio emergencial num patamar de meio sal\u00e1rio m\u00ednimo gerou, sem d\u00favida, uma demanda por alimento. As pessoas realmente passaram a poder comer mais\u201d, diz.<\/p>\n<p>A maior procura por alimentos, no entanto, \u00e9 um motivo conjuntural que, inclusive, durou pouco, j\u00e1 que logo o valor do benef\u00edcio foi reduzido. A raz\u00e3o estrutural, na avalia\u00e7\u00e3o do professor, \u00e9 o modelo da pol\u00edtica de exporta\u00e7\u00f5es do pa\u00eds e a falta de interven\u00e7\u00e3o do Estado para garantir melhores condi\u00e7\u00f5es de aquisi\u00e7\u00e3o de alimentos pela popula\u00e7\u00e3o. Por isso, para ele, a alta do pre\u00e7o do arroz era uma \u201ctrag\u00e9dia anunciada\u201d. Ele explica: \u201cO fato de que 80% da soja produzida pelo pa\u00eds v\u00e1 para fora, e de que o produto tem um pre\u00e7o muito melhor que o arroz e o feij\u00e3o, com muito mais facilidade na venda, fez com que, sobretudo nos \u00faltimos dez anos, o arroz e o feij\u00e3o perdessem relev\u00e2ncia [na produ\u00e7\u00e3o brasileira]\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto a renda ca\u00eda, os pre\u00e7os de v\u00e1rios alimentos da cesta b\u00e1sica subiram<br \/>\nA pedido da reportagem \u2013 e a partir de n\u00fameros do IBGE e da FAO, Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura \u2013, o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Paulo Alentejano produziu tabelas comparativas sobre produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de alimentos no Brasil nas tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas, visando entender melhor a alta dos pre\u00e7os. Os dados mostram que, enquanto a \u00e1rea de coleta de soja, que \u00e9 um forte produto de exporta\u00e7\u00e3o, cresceu de 11,4 milh\u00f5es de hectares em 1990 para 35,8 milh\u00f5es em 2019, a do arroz caiu de pouco menos de 4 milh\u00f5es para 1,7 milh\u00f5es de hectares. Essa redu\u00e7\u00e3o se deu principalmente em espa\u00e7os de lavoura sequeira, ao mesmo tempo em que, na regi\u00e3o Sul, crescia o plantio irrigado, que tem uma produtividade muito maior. Por isso, mesmo com a diminui\u00e7\u00e3o total de \u00e1rea, a quantidade de arroz produzido no Brasil cresceu de 7,4 milh\u00f5es para 12,3 milh\u00f5es de toneladas em 2015. De acordo com Silvio Porto, no entanto, a partir de 2009, a \u00e1rea de planta\u00e7\u00e3o de arroz do Rio Grande do Sul, principal estado produtor, tamb\u00e9m come\u00e7ou a cair, chegando a 2019 com o mesmo patamar de 2000. Nesse mesmo ano, a quantidade de arroz produzido caiu para 10,3 milh\u00f5es. \u201cN\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 o arroz e o feij\u00e3o que est\u00e3o diminuindo \u00e1rea [plantada]. \u00c9 mandioca, batata, banana, cebola: todos esses produtos reduziram \u00e1rea nos \u00faltimos dez anos\u201d, completa Porto. A rela\u00e7\u00e3o desses n\u00fameros com a alta dos pre\u00e7os e, consequentemente, com a inseguran\u00e7a alimentar fica mais clara quando se observam os dados sobre a disponibilidade de alimentos por habitante. Ainda segundo a tabula\u00e7\u00e3o produzida por Alentejano, o Brasil produzia 50,5 kg de arroz per capita em 1990. Essa quantidade chegou a 65,5 kg em 2000 e, em 2019, estava em 46,4 kg. Com menos oferta, argumentam os pesquisadores, diminui-se o abastecimento interno e a tend\u00eancia \u00e9 de aumento de pre\u00e7o.<br \/>\nNa avalia\u00e7\u00e3o de Silvio Porto, \u00e9 papel do Estado promover uma pol\u00edtica de regula\u00e7\u00e3o que garanta pre\u00e7os m\u00ednimos para os principais produtos que comp\u00f5em a mesa da popula\u00e7\u00e3o. Segundo ele, esse tipo de medida aumenta a seguran\u00e7a do produtor, induzindo a amplia\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que \u201cassegura pre\u00e7os mais justos aos consumidores\u201d. E ele defende que parte dessa pol\u00edtica passa pela manuten\u00e7\u00e3o de estoques p\u00fablicos de alimentos. \u201cO estoque \u00e9 um elemento de regula\u00e7\u00e3o da oferta, tanto no sentido de enxugar o excesso [de produ\u00e7\u00e3o] quanto para ser utilizado num momento em que h\u00e1 falta de produto. Esse deveria ter sido o caso no ano passado, se o governo tivesse estoque de arroz\u201d, diz.<\/p>\n<p>J\u00e1 o atual diretor de Pol\u00edtica Agr\u00edcola e Informa\u00e7\u00f5es da Conab, Sergio de Zen, afirma que \u201cn\u00e3o tem sentido nenhum\u201d manter estoques p\u00fablicos hoje. Segundo ele, essa era uma pol\u00edtica cab\u00edvel quando o Brasil s\u00f3 \u201ctinha uma safra por ano\u201d, situa\u00e7\u00e3o muito diferente da atual quando, em algumas regi\u00f5es, o pa\u00eds j\u00e1 ensaia uma terceira safra anual de milho, por exemplo. E isso, diz, vale para \u201ctodos os pa\u00edses do hemisf\u00e9rio sul\u201d. Por isso, explica, hoje vigora uma esp\u00e9cie de \u201cestoque internacional\u201d: faltou num pa\u00eds, basta comprar em outro. Ainda segundo o diretor da Conab, em fun\u00e7\u00e3o dessa nova l\u00f3gica mundial, \u201cdesde 2000\u201d, \u201cpraticamente\u201d n\u00e3o existem estoques p\u00fablicos no Brasil.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros sistematizados por Porto a partir de dados da pr\u00f3pria Conab, divulgados no artigo \u2018Arroz: uma crise anunciada\u2019, publicado no jornal \u2018Le Monde Diplomatique\u2019 em setembro do ano passado, no entanto, contradizem essa informa\u00e7\u00e3o. De acordo com o gr\u00e1fico produzido pelo professor, o pa\u00eds tinha altos estoques p\u00fablicos de arroz at\u00e9 2013, com uma queda em 2014 e outras maiores nos anos seguintes, at\u00e9 as reservas passarem a representar apenas 0,22% do consumo m\u00e9dio anual em 2019. Ainda segundo o texto, essa pol\u00edtica de estoques p\u00fablicos \u00e9 seguida pelos principais pa\u00edses produtores de arroz do mundo, como China, Estados Unidos e Tail\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Diante da crise do ano passado, a interven\u00e7\u00e3o do governo brasileiro se deu em outra dire\u00e7\u00e3o: reduziu o imposto para aumentar a importa\u00e7\u00e3o de arroz. \u201cEssa diferen\u00e7a entre o tempo de aumento de consumo causado pela pandemia, que elevou a demanda global, e o tempo de oferta castiga, logicamente, no pre\u00e7o. Mas se tiv\u00e9ssemos, no ano passado, entrado afoitamente no mercado, bloqueando a exporta\u00e7\u00e3o, hoje estar\u00edamos chorando. Porque estamos tendo uma super safra de arroz, que est\u00e1 despencando de pre\u00e7o, e, como temos canais de exporta\u00e7\u00e3o abertos, o produtor n\u00e3o vai desistir do plantio do arroz, vai se remunerar e se manter na atividade\u201d, explica. As an\u00e1lises econ\u00f4micas mais atuais confirmam queda em rela\u00e7\u00e3o ao pico do ano passado, mas preveem a manuten\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o elevado ao longo de 2021.<\/p>\n<p>No modelo de produ\u00e7\u00e3o, campo e a cidade se cruzam<br \/>\nE \u00e9 exatamente no debate sobre o modelo de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de alimentos que as trag\u00e9dias da fome no campo e na cidade se encontram. No rol das solu\u00e7\u00f5es, Elisabetta Recine cita, por exemplo, um estudo da FAO que mostrou como, durante a pandemia, sa\u00edram-se melhor em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a alimentar os munic\u00edpios em que a integra\u00e7\u00e3o campo-cidade favorecia a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos. Isso significa, principalmente, que essas localidades \u2013 mapeadas em v\u00e1rios pa\u00edses \u2013 foram abastecidas com alimentos produzidos em regi\u00f5es pr\u00f3ximas, sem necessidade de deslocamento por longas dist\u00e2ncias, como \u00e9 o padr\u00e3o de v\u00e1rios produtos da cesta b\u00e1sica brasileira. \u201cA pesquisa da FAO mostrou que aqueles munic\u00edpios nos quais o urbano e rural n\u00e3o eram t\u00e3o separados conseguiram tanto dar respostas mais \u00e1geis e apropriadas para a situa\u00e7\u00e3o do abastecimento como atender as comunidades mais vulner\u00e1veis e articular programas de apoio social\u201d, resume. E destrincha: \u201cEsses munic\u00edpios s\u00e3o aqueles que estabeleceram, na pr\u00e1tica, os circuitos locais, territoriais, que s\u00e3o mais curtos, em que n\u00e3o h\u00e1 uma dist\u00e2ncia quilom\u00e9trica entre o espa\u00e7o dos sujeitos que produzem e o espa\u00e7o dos sujeitos que consomem\u201d. E, nesses arranjos, ganha relevo a produ\u00e7\u00e3o de alimentos que v\u00eam da agricultura familiar e camponesa.<br \/>\nPara v\u00e1rios pesquisadores ouvidos pela Poli, o enfraquecimento de pol\u00edticas p\u00fablicas que incentivavam e garantiam a compra de produtos da agricultura familiar e camponesa est\u00e1 diretamente relacionado ao quadro de inseguran\u00e7a alimentar no campo brasileiro, com reflexos tamb\u00e9m nas \u00e1reas urbanas. Mas comecemos do in\u00edcio.<\/p>\n<p>Na pesquisa do cons\u00f3rcio entre a Universidade de Berlim, UFMG e UnB, a identifica\u00e7\u00e3o do local de moradia, se urbano ou rural, n\u00e3o foi feita previamente, a partir de algum georreferenciamento da amostra, mas sim por autodeclara\u00e7\u00e3o das pessoas que responderam ao question\u00e1rio. Por isso, Eryka Galindo faz quest\u00e3o de ressaltar que, metodologicamente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel garantir que os resultados sobre a inseguran\u00e7a alimentar nos domic\u00edlios do campo retratem necessariamente a realidade dos pequenos agricultores. J\u00e1 no inqu\u00e9rito da Rede Penssan, os domic\u00edlios foram sorteados depois do territ\u00f3rio geogr\u00e1fico, usando os mesmos padr\u00f5es do IBGE. Al\u00e9m disso, diferentemente do estudo do cons\u00f3rcio, aqui as perguntas foram feitas pessoalmente, o que significa que s\u00f3 respondeu quem foi encontrado no domic\u00edlio. \u201cA chance de cair um agricultor familiar, um pequeno ou m\u00e9dio agricultor, \u00e9 muito maior do que a chance de cair um representante do agroneg\u00f3cio\u201d, diz Segall, explicando que isso se deve a uma \u201cpeculiaridade\u201d do campo brasileiro: \u201cS\u00e3o grandes extens\u00f5es de terra com ningu\u00e9m dentro. Se voc\u00ea pegar as grandes planta\u00e7\u00f5es de gr\u00e3os ou de cana-de-a\u00e7\u00facar, \u00e9 terra com a planta em cima e praticamente sem gente. Tem pouqu\u00edssimos trabalhadores e o propriet\u00e1rio n\u00e3o mora l\u00e1\u201d, diz. E completa: \u201cA nossa pesquisa basicamente pegou agricultores familiares, pequenos e m\u00e9dios agricultores, uma representatividade muito grande desse rural que n\u00e3o \u00e9 o rural rico, e sim o rural de m\u00e9dio para baixo\u201d. E o retrato encontrado foi preocupante.<\/p>\n<p>Se \u00e9 verdade que, no campo, a renda para aquisi\u00e7\u00e3o direta de alimentos \u00e9 um fator menos determinante do que na cidade, j\u00e1 que existem a produ\u00e7\u00e3o para autoconsumo e as trocas entre pequenos agricultores, tamb\u00e9m \u00e9 fato que a planta\u00e7\u00e3o precisa ser minimante sustent\u00e1vel. Exatamente por isso \u00e9 importante garantir o escoamento da produ\u00e7\u00e3o, com foco nos circuitos locais. \u201cNa \u00e1rea rural, um indicador importante foi a dificuldade de comercializa\u00e7\u00e3o dos produtos. As feiras fecharam, as pessoas n\u00e3o tinham para quem vender seus produtos e, com isso, houve dois impactos: reduziu a renda dessas pessoas, que n\u00e3o puderam comercializar os seus produtos, mas tamb\u00e9m reduziu a produ\u00e7\u00e3o, porque como n\u00e3o tinham para quem vender, elas deixaram de produzir\u201d, resume Segall. Na combina\u00e7\u00e3o dessas duas trag\u00e9dias, teve (e provavelmente ainda tem) muita fome entre a popula\u00e7\u00e3o rural brasileira.<\/p>\n<p>Utilizando um conceito mais amplo do que o previsto na legisla\u00e7\u00e3o, o professor Mauro DelGrossi, da UnB, cruzou dados da Pnad Cont\u00ednua Covid-19, publicada em junho do ano passado, para calcular o efeito da crise sobre a agricultura familiar. E, segundo as tabula\u00e7\u00f5es, metade dessas fam\u00edlias perderam cerca de um ter\u00e7o de suas rendas. Naquele momento, os n\u00fameros mostravam ainda que quase dois ter\u00e7os dessa popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinham recebido o aux\u00edlio emergencial. Como efeito desse cen\u00e1rio, ainda de acordo com o texto em que DelGrossi publicou esses resultados, a capacidade produtiva ociosa reduziu a utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra, levando mais de 1,1 milh\u00e3o de agricultores familiares a procurarem emprego fora de casa. O texto conclui: \u201cA conjuntura atual \u00e9 paradoxal: do lado da oferta temos uma multid\u00e3o querendo trabalho e produzir alimentos. Do lado do consumidor, os \u00edndices de infla\u00e7\u00e3o j\u00e1 apontam para uma eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos alimentos b\u00e1sicos, agravando ainda mais a seguran\u00e7a alimentar das fam\u00edlias mais pobres do pa\u00eds. Para romper este ciclo vicioso \u00e9 necess\u00e1ria uma a\u00e7\u00e3o r\u00e1pida do Estado, estimulando agricultores familiares a produzirem alimentos b\u00e1sicos e gerarem empregos no campo\u201d.<\/p>\n<p>Duas pol\u00edticas p\u00fablicas t\u00eam sido fundamentais para manter funcionando a mola desses pequenos produtores desde muito antes da pandemia. Uma \u00e9 o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA), pelo qual o governo federal compra o que \u00e9 produzido pela agricultura familiar, com dispensa de licita\u00e7\u00e3o, e distribui para benefici\u00e1rios de redes de assist\u00eancia social que atendem pessoas em inseguran\u00e7a alimentar, al\u00e9m de escolas p\u00fablicas e filantr\u00f3picas. Criada por lei em 2003, a iniciativa, no entanto, vem sofrendo sucessivos cortes or\u00e7ament\u00e1rios. Os dados do Siop, o Sistema de Or\u00e7amento P\u00fablico, mostram essa involu\u00e7\u00e3o: de R$ 1,3 bilh\u00e3o em 2014, o or\u00e7amento do PAA caiu para R$ 287 milh\u00f5es em 2019 e R$ 151,6 milh\u00f5es em 2020. Em abril do ano passado, em meio \u00e0 pandemia e \u00e0 press\u00e3o social, o governo federal liberou um cr\u00e9dito extraordin\u00e1rio de R$ 500 milh\u00f5es para o Programa. \u201cMas \u00e9 muito insuficiente\u201d, insiste o ex-presidente do Consea Francisco Menezes.<\/p>\n<p>Um problema mais conjuntural, diretamente influenciado pela pandemia, comprometeu o apoio que a outra iniciativa, o Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (Pnae), representa para esses mesmos pequenos produtores. Isso porque, desde 2009, a lei 11.947 estabelece que 30% do valor repassado pelo Pnae aos munic\u00edpios e estados para alimenta\u00e7\u00e3o dos estudantes da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica deve ser usado na compra de produtos da agricultura familiar. De acordo com Menezes, isso representa um \u201cmercado\u201d de 43 milh\u00f5es de alunos consumindo durante 200 dias letivos. Mas, com o fechamento das escolas e a suspens\u00e3o das aulas presenciais, as redes p\u00fablicas de ensino resolveram, cada uma a seu jeito, o desafio de manter a alimenta\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e jovens. Em muitos casos, a solu\u00e7\u00e3o foi distribuir cestas b\u00e1sicas ou um cart\u00e3o alimenta\u00e7\u00e3o com o qual as fam\u00edlias pudessem comprar comida em redes de supermercado.<\/p>\n<p>O problema foi duplo. \u201cPrimeiro, voc\u00ea calcula uma cesta b\u00e1sica que, na escola, est\u00e1 alimentando uma crian\u00e7a, mas, quando chega na casa, n\u00e3o vai s\u00f3 para ela. Logicamente, voc\u00ea tamb\u00e9m tirou a qualidade da alimenta\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, porque vai oferecer uma cesta b\u00e1sica com farinha, macarr\u00e3o e a\u00e7\u00facar, quando ela estava recebendo na escola um card\u00e1pio muito mais diversificado\u201d, explica Elisabetta Recine. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3. \u201cDo outro lado, voc\u00ea quebra a agricultura familiar, porque esse trabalhador tinha contratos com o poder p\u00fablico, seja prefeitura ou estado. Ele organizou a sua produ\u00e7\u00e3o, esperava entregar esse produto e, consequentemente, receber por ele\u201d, completa. \u201cOs agricultores familiares ficaram completamente desassistidos\u201d.<br \/>\nNa opini\u00e3o de Francisco Menezes, era poss\u00edvel \u2013 e necess\u00e1ria \u2013 uma a\u00e7\u00e3o estatal para contornar essas dificuldades trazidas pela pandemia. \u201cO Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o, que faz o repasse desses recursos da alimenta\u00e7\u00e3o escolar, poderia ter sido exigente no sentido de criar formas para, com os devidos cuidados, manter o fornecimento dessa alimenta\u00e7\u00e3o a partir das escolas, recebendo da agricultura familiar e fornecendo de forma organizada \u00e0s fam\u00edlias. Mas n\u00e3o fez isso, deixou ao sabor dos munic\u00edpios\u201d, critica.<\/p>\n<p>Ainda que sem o volume \u2013 e o or\u00e7amento \u2013 de que o poder p\u00fablico disp\u00f5e, iniciativas de solidariedade desenvolvidas no \u00e2mbito da sociedade civil t\u00eam tentado contribuir tamb\u00e9m para o escoamento e o fortalecimento da agricultura familiar e camponesa. Um exemplo \u00e9 a campanha \u2018Se tem gente com fome, d\u00e1 de comer\u2019. Atrav\u00e9s de doa\u00e7\u00f5es, a iniciativa distribui o equivalente a R$ 200 para a alimenta\u00e7\u00e3o de cada fam\u00edlia cadastrada, oferecendo duas op\u00e7\u00f5es: cart\u00e3o alimenta\u00e7\u00e3o ou cesta de alimentos. Mas, nos dois casos, \u00e9 acrescida uma cesta de org\u00e2nicos. \u201c\u00c9 uma forma tamb\u00e9m de a gente fortalecer a economia dos pequenos agricultores nessas regi\u00f5es\u201d, explica Maria Jos\u00e9 Menezes, da Coaliz\u00e3o Negra por Direitos, que coordena a campanha junto a v\u00e1rias outras organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E o contr\u00e1rio tamb\u00e9m \u00e9 verdade: para abastecer as \u2018Cozinhas Solid\u00e1rias\u2019, projeto que cresceu a partir de 2020 exatamente em fun\u00e7\u00e3o do aumento da fome no pa\u00eds, al\u00e9m das contribui\u00e7\u00f5es pessoais, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) tem recebido doa\u00e7\u00f5es de alimentos do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). E, segundo Ana Paula Ribeiro, do Movimento, a proposta \u00e9 estreitar as parcerias para come\u00e7ar a comprar os produtos da agricultura familiar. \u201cA gente tamb\u00e9m est\u00e1 em busca de consolidar [a entrega] de um alimento saud\u00e1vel, agroecol\u00f3gico e sem veneno dentro das favelas\u201d, diz, ressaltando que, como parte desse objetivo, est\u00e3o sendo constru\u00eddas hortas dentro das pr\u00f3prias comunidades \u2013 nesse caso, urbanas.<\/p>\n<p>\u00c1gua \u00e9 alimento<br \/>\nMenezes destaca ainda uma outra pol\u00edtica cujo enfraquecimento, na sua avalia\u00e7\u00e3o, teve influ\u00eancia direta sobre a situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar nas popula\u00e7\u00f5es rurais. Trata-se do programa de Acesso \u00e0 \u00c1gua para Consumo Humano e Produ\u00e7\u00e3o de Alimentos na Zona Rural, que, segundo ele, teve \u201cimpactos muito significativos\u201d instalando cisternas no semi\u00e1rido brasileiro. Tamb\u00e9m de acordo com dados do Siop, o or\u00e7amento do programa caiu de R$ 643 milh\u00f5es em 2014 para R$ 74,7 milh\u00f5es em 2020. \u201cN\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos chegado a 1,2 milh\u00e3o de cisternas. O pessoal sempre fala que se voc\u00ea entrar no Google Maps e tocar na \u00e1rea do semi\u00e1rido, vai ver diversos pontos branquinhos, que s\u00e3o as cisternas j\u00e1 instaladas nessa regi\u00e3o\u201d, conta, lembrando, no entanto, que havia ainda uma demanda grande, para uso dom\u00e9stico e, principalmente, para a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. \u201cE o programa foi praticamente paralisado\u201d, lamenta.<br \/>\nA import\u00e2ncia de medidas como essa ficou ainda mais evidente com os resultados do inqu\u00e9rito da Rede Penssan. Em primeiro lugar, o estudo mostrou que 22% da popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o tem acesso ou tem fornecimento irregular de \u00e1gua pot\u00e1vel, n\u00famero que sobe para 40,2% na regi\u00e3o Nordeste. A pesquisa n\u00e3o deixou d\u00favidas sobre essa rela\u00e7\u00e3o: olhando para a amostra como um todo, entre os domic\u00edlios que n\u00e3o tinham acesso ou fornecimento frequente de \u00e1gua pot\u00e1vel, 16,2% encontram-se em situa\u00e7\u00e3o de fome, n\u00famero que cai para 6,9% entre aqueles que t\u00eam fornecimento di\u00e1rio de \u00e1gua tratada. A pesquisa fez o recorte por \u00e1rea de moradia juntando os percentuais de inseguran\u00e7a alimentar moderada e grave. O resultado \u00e9 que, nas zonas rurais, 39% da popula\u00e7\u00e3o sem acesso \u00e0 \u00e1gua est\u00e1 nessa situa\u00e7\u00e3o, enquanto nas cidades o total \u00e9 de 31,7%.<\/p>\n<p>Nos domic\u00edlios em que n\u00e3o havia \u00e1gua suficiente para consumo dos animais, a inseguran\u00e7a alimentar grave e moderada atingiu 42,6% da popula\u00e7\u00e3o e nas resid\u00eancias em que a \u00e1gua n\u00e3o era suficiente para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, o n\u00famero foi ainda maior: 44,2%.\u201c\u00c1gua \u00e9 alimento. Se falta \u00e1gua na casa, independentemente de para que seja, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a\u201d, resume Segall.<\/p>\n<p>Superar a fome<br \/>\nEmbora, em meio \u00e0 pandemia, tenha havido uma explos\u00e3o de a\u00e7\u00f5es de solidariedade movidas pela sociedade civil, a maior parte dos pesquisadores ouvidos pela Poli defende que a mudan\u00e7a desse cen\u00e1rio depende de pol\u00edticas p\u00fablicas. \u201cO Estado tem que retomar sua responsabilidade sobre o direito da popula\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a alimentar\u201d, afirma Galindo, ressaltando que n\u00e3o se pode aceitar a ideia de que a solu\u00e7\u00e3o sejam a\u00e7\u00f5es assistenciais e pontuais, como a doa\u00e7\u00e3o de comida. Maria Jos\u00e9 Menezes concorda: \u201cA sociedade civil n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es, instrumentos e estrutura para cobrir os d\u00e9ficits do Estado. N\u00f3s estamos fazendo algo paliativo. O Estado brasileiro \u00e9 que tem todos os instrumentos, informa\u00e7\u00f5es e mecanismos, inclusive, o or\u00e7amento, para cuidar da sua popula\u00e7\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u201cA fome \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d<br \/>\nEryka Galindo<\/p>\n<p>O combate \u00e0 fome foi tema de discurso recente do ministro da economia, Paulo Guedes, durante o F\u00f3rum Cadeia Nacional de Abastecimento, organizado pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Supermercados. O ministro defendeu a necessidade de se \u201cfazer as pol\u00edticas sociais que permitam que os mais fr\u00e1geis e vulner\u00e1veis sejam incorporados \u00e0 cadeia produtiva ou amparados socialmente\u201d, ao mesmo tempo em que ressaltou o \u201cdesperd\u00edcio\u201d como marca brasileira, desde a produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 a mesa do consumidor. Uma das suas sugest\u00f5es foi que os restos desperdi\u00e7ados pelas classes mais altas nos restaurantes fossem distribu\u00eddos para \u201calimentar pessoas fragilizadas, mendigos, desamparados\u201d. \u201cA fome \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d, conclui Eryka Galindo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27927\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,20],"tags":[221],"class_list":["post-27927","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","category-c1-popular","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7gr","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27927","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27927"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27927\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27927"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27927"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27927"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}