{"id":27935,"date":"2021-10-11T23:32:03","date_gmt":"2021-10-12T02:32:03","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27935"},"modified":"2021-10-11T23:32:03","modified_gmt":"2021-10-12T02:32:03","slug":"sofrimento-psiquico-e-sociedade-capitalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27935","title":{"rendered":"Sofrimento ps\u00edquico e sociedade capitalista"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/omomento.org\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/sofrimento-750x375.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por R\u00f4mulo Caires<\/p>\n<p>Jornal O MOMENTO &#8211; PCB da Bahia<\/p>\n<p>Em 2011, Marcia Angell, uma das editoras do New England Journal of Medicine, publicou um artigo sobre a chamada epidemia de doen\u00e7a mental, fato rotineiramente anunciado na m\u00eddia dos EUA. Ela questionava o aumento indiscriminado de diagn\u00f3sticos nas sucessivas vers\u00f5es do Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico de Transtornos Mentais (da sigla em ingl\u00eas DSM) e relacionava esse aumento com a pouca transpar\u00eancia cient\u00edfica das entidades que regulam a venda de medica\u00e7\u00f5es, os interesses internos da psiquiatria e da ind\u00fastria farmac\u00eautica.<\/p>\n<p>Encontrando determina\u00e7\u00f5es que sinalizavam para o aumento das malhas do poder psiqui\u00e1trico em sua associa\u00e7\u00e3o com a venda indiscriminada de medica\u00e7\u00f5es, Angell por outro lado deixou de demarcar o fato not\u00f3rio: apesar dos usos e abusos da \u201craz\u00e3o diagn\u00f3stica\u201d, h\u00e1 de fato um aumento do sofrimento ps\u00edquico na sociedade contempor\u00e2nea. N\u00e3o s\u00f3 a psiquiatria, como diversas vertentes da psicologia produzem mecanismos ideol\u00f3gicos que tendem a individualizar e naturalizar o sofrimento ps\u00edquico, muitas vezes n\u00e3o correlacionando o aumento, por exemplo, do suic\u00eddio, com o desenvolvimento das m\u00faltiplas contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo, que vai potencializando sua capacidade destrutiva. Enfrentar o adoecimento ps\u00edquico contempor\u00e2neo passa n\u00e3o s\u00f3 por construir instrumentos de escuta e trabalho da subjetividade, como tamb\u00e9m encontrar sa\u00eddas coletivas para tais quest\u00f5es.<\/p>\n<p>O grande desenvolvimento tecnol\u00f3gico e cient\u00edfico das \u00faltimas d\u00e9cadas ressoou, em muitos, a expectativa de um dom\u00ednio cada vez maior da natureza e o desvelamento das motiva\u00e7\u00f5es envolvidas na subjetividade. A partir de Francis Crick, um dos c\u00e9lebres descobridores da estrutura molecular do DNA, chegou-se a afirmar que o mapeamento gen\u00f4mico entregaria as chaves para entender todas as a\u00e7\u00f5es humanas. \u00c9 do bi\u00f3logo molecular brit\u00e2nico a express\u00e3o \u201cvoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 nada mais do que um pacote de neur\u00f4nios\u201d. Os anos de 1990, a chamada d\u00e9cada do c\u00e9rebro, trouxeram doses ainda maiores desse reducionismo naturalista. Os neurocientistas prometeram explicar tudo a partir de canais celulares e estudos de neuroimagem. Sonharam com um mundo de pessoas mec\u00e2nicas e pr\u00e9-fabricadas, que viveriam perseguindo maneiras de incrementar ainda mais o desempenho e se adequar aos par\u00e2metros impostos.<\/p>\n<p>Diante do desafio de universalizar as caracter\u00edsticas t\u00e3o singulares dos seres humanos, a psiquiatria ganhou enorme f\u00f4lego com a descoberta do primeiro psicof\u00e1rmaco. O Prozac\u00ae surgiu e logo se transformou na panaceia dos psiquiatras: qualquer sofrimento poderia, agora, ser dirimido com a a\u00e7\u00e3o de tal p\u00edlula m\u00e1gica. M\u00e1rcia Angell denuncia que a partir da\u00ed se firmou, entre a psiquiatria e as ind\u00fastrias farmac\u00eauticas, uma rela\u00e7\u00e3o estreita onde o diagn\u00f3stico de um logo se direcionava para o uso de um medicamento vendido pela outra. Num t\u00edpico caso de invers\u00e3o ideol\u00f3gica, os efeitos de um psicof\u00e1rmaco qualquer eram elevados a mecanismos causais do transtorno mental. Assim, a teoria do transtorno mental enquanto uma desregula\u00e7\u00e3o dos circuitos de neurotransmissores permitiu \u00e0 psiquiatria estender-se para territ\u00f3rios ainda n\u00e3o alcan\u00e7ados pelo seu campo de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a ajuda do DSM, houve uma verdadeira explos\u00e3o de diagn\u00f3sticos, chamada por muitos de \u201cepidemia de transtornos mentais\u201d. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que, precisamente em nossa \u00e9poca, vemos as cifras relacionadas \u00e0 venda de drogas como Ritalina\u00ae e Rivotril\u00ae baterem recordes, implicando diretamente a racionalidade diagn\u00f3stica psiqui\u00e1trica com o processo desenfreado de produ\u00e7\u00e3o de lucros das grandes ind\u00fastrias farmac\u00eauticas. Se a necessidade de se adequar \u00e0 doxa m\u00e9dica sempre fez a psiquiatria flertar com o naturalismo, as ci\u00eancias psicol\u00f3gicas tamb\u00e9m n\u00e3o se viram longe de tal flerte e de suas consequ\u00eancias. A partir da hegemonia das formula\u00e7\u00f5es positivistas no modo de produzir conhecimento, a psicologia se amparava no seu dito estatuto cient\u00edfico e neutro para promover a reifica\u00e7\u00e3o dos seres humanos, sua coisifica\u00e7\u00e3o enquanto identificados como objeto das Ci\u00eancias Naturais. Assim, a psicologia assumiu, muitas vezes, o objetivo de estudar as diferen\u00e7as \u2013 n\u00e3o para solucionar os problemas elencados na vida societ\u00e1ria, mas para justificar as desigualdades, traduzindo-as como inaptid\u00e3o e incapacidade.<\/p>\n<p>Apesar de a psiquiatria e a psicologia terem papel t\u00e3o preponderante na produ\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do \u201cdoente mental\u201d, n\u00e3o h\u00e1 como ignorar que h\u00e1 um gr\u00e3o de verdade no aumento da demanda pelo trabalho de tais profissionais. A OMS estima, por exemplo, a exist\u00eancia de mais de 350 milh\u00f5es de pessoas com depress\u00e3o pelo mundo, sendo a principal causa de incapacita\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos para o trabalho, como tamb\u00e9m h\u00e1 crescimento de 40% nas taxas de suic\u00eddio pelo mundo, sendo o Brasil o pa\u00eds com o maior n\u00famero de suic\u00eddios anuais da Am\u00e9rica Latina. A \u201camplifica\u00e7\u00e3o\u201d da raz\u00e3o diagn\u00f3stica pode explicar parte dos dados, mas n\u00e3o explica totalmente a preval\u00eancia e incremento do n\u00famero de pessoas em sofrimento ps\u00edquico e o aumento dos suic\u00eddios. Devemos ent\u00e3o procurar as causas reais nas pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es sociais que constituem a realidade contempor\u00e2nea, e como tais realidades interagem com as diversas subjetividades.<\/p>\n<p>\u00c9 comum, por exemplo, que pessoas com depress\u00e3o sofram com uma \u201cvoz interna\u201d que denunciaria sentimentos de inferioridade, como tamb\u00e9m perda de sentido diante da vida. Muito mais do que procurar desregula\u00e7\u00f5es nos neurotransmissores ou investigar as \u201ccausas profundas\u201d, caberia analisar os processos sociais que constituem estes mecanismos de inferioriza\u00e7\u00e3o. O principal deles diz respeito ao poder social ou, no caso, \u00e0 aus\u00eancia dele. Pessoas advindas da classe trabalhadora, especialmente seus setores mais oprimidos, s\u00e3o muitas vezes ensinadas a se pensarem enquanto inferiores, e mesmo a aquisi\u00e7\u00e3o de qualifica\u00e7\u00f5es ou riquezas podem n\u00e3o ser capazes de apagar tais tra\u00e7os.<\/p>\n<p>As classes dominantes potencializam esse processo ao enunciar o mito da responsabiliza\u00e7\u00e3o individual: cada trabalhador \u00e9 estimulado a sentir que a sua pobreza, desemprego e mis\u00e9ria social s\u00e3o frutos apenas de suas a\u00e7\u00f5es, da cor de sua pele, do seu g\u00eanero, e n\u00e3o resultado de escolhas pol\u00edticas e da estrutura organizativa da sociedade. Quando doentes, muitas vezes n\u00e3o possuem acesso a servi\u00e7os de sa\u00fade que promovam o cuidado adequado, n\u00e3o possuem direitos trabalhistas que os protejam da sede de lucro dos capitalistas, n\u00e3o possuem moradia adequada para o seu descanso. Mesmo os rem\u00e9dios e a psicoterapia n\u00e3o ser\u00e3o capazes de sanar o desemprego e a fome.<\/p>\n<p>Nesse sentido, n\u00e3o cabe a n\u00f3s trabalhadores resumir nossas demandas por cuidado em sa\u00fade mental apenas a mais rem\u00e9dios e tratamentos psicol\u00f3gicos. Mesmo que fossem universalizadas, tais propostas n\u00e3o dariam conta de resolver a grave situa\u00e7\u00e3o de crise humanit\u00e1ria que vivenciamos no capitalismo, a superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho nas periferias, o racismo que desencadeia o genoc\u00eddio do povo preto, a viol\u00eancia dom\u00e9stica e o desemprego estrutural. A oferta de uma escuta qualificada, que singularize o sofrimento ps\u00edquico de algu\u00e9m, pode ser pe\u00e7a fundamental desse cuidado, mas \u00e9 insuficiente enquanto proposta global.<\/p>\n<p>Cabe ao povo trabalhador construir instrumentos coletivos que auxiliem na recomposi\u00e7\u00e3o de sentidos humanos, que possam tanto enriquecer suas vidas como tamb\u00e9m insistir na necessidade imperiosa da auto-organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e constitui\u00e7\u00e3o de um contra-poder que fa\u00e7a frente ao capitalismo em crise. O poder da classe trabalhadora pode desencadear a reorganiza\u00e7\u00e3o social em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 melhoria geral da sa\u00fade da classe trabalhadora, al\u00e9m do corte radical com modelo societal que, ao benef\u00edcio de poucos, destr\u00f3i a vida e os sonhos da grande maioria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27935\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[224],"class_list":["post-27935","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7gz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27935","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27935"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27935\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27935"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27935"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27935"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}