{"id":27957,"date":"2021-10-20T01:09:44","date_gmt":"2021-10-20T04:09:44","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27957"},"modified":"2021-10-20T01:09:44","modified_gmt":"2021-10-20T04:09:44","slug":"como-fez-a-china-para-acabar-com-a-pobreza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27957","title":{"rendered":"Como fez a China para acabar com a pobreza?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn-japantimes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/np_file_99668.jpeg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--> Imagem: AFP<\/p>\n<p>Esteban Magnani<\/p>\n<p>ODIARIO.INFO<\/p>\n<p>Em menos de uma d\u00e9cada, cerca de 100 milh\u00f5es de pessoas sa\u00edram da condi\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade na China. Um processo de uma magnitude certamente invi\u00e1vel em qualquer outro lugar, mesmo que para tal existisse vontade. Porque a sua concretiza\u00e7\u00e3o requereu n\u00e3o s\u00f3 a conjuga\u00e7\u00e3o de amplas medidas de car\u00e1ter econ\u00f3mico e social como uma gigantesca mobiliza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, apenas poss\u00edvel na base de duas realidades singulares: uma mentalidade hist\u00f3rica e culturalmente mais centrada na comunidade, e a interven\u00e7\u00e3o militante de centenas de milhares de membros do PCC.<\/p>\n<p>Entre 2013 e 2020, quase 100 milh\u00f5es de pessoas sa\u00edram da sua condi\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade. A melhoria econ\u00f4mica geral, a distribui\u00e7\u00e3o da renda, a educa\u00e7\u00e3o e o acesso \u00e0 sa\u00fade s\u00e3o ingredientes importantes para explicar esta impressionante realiza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o garantem nada se operarem isoladamente. S\u00e3o tamb\u00e9m necess\u00e1rios consensos pol\u00edticos e sociais de magnitude desconhecida no Ocidente e uma mentalidade mais centrada na comunidade.<\/p>\n<p>No final de 2020, em pleno contexto pand\u00eamico, a China anunciou ao mundo a erradica\u00e7\u00e3o da pobreza extrema. Isto n\u00e3o foi apenas produto do impressionante crescimento econ\u00f4mico desse pa\u00eds nas \u00faltimas d\u00e9cadas, mas tamb\u00e9m da mobiliza\u00e7\u00e3o de mais de dez milh\u00f5es de militantes para as \u00e1reas rurais mais empobrecidas do oeste do gigante asi\u00e1tico. Equipes de funcion\u00e1rios, professores, empres\u00e1rios, estudantes, m\u00e9dicos e assistentes sociais instalaram-se entre um e tr\u00eas anos em localidades rurais para acompanhar o profundo processo de mudan\u00e7a econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>O plano excedeu em muito o econ\u00f4mico ou o assistencialista. S\u00f3 foi poss\u00edvel gra\u00e7as a uma sociedade com uma mentalidade muito diferente da ocidental, mais voltada para a comunidade do que para o indiv\u00edduo, e tamb\u00e9m a partir da m\u00e3o vis\u00edvel do Estado. O extenso relat\u00f3rio \u201cServir o povo: a erradica\u00e7\u00e3o da extrema pobreza na China\u201d do Instituto Tricontinental de Investiga\u00e7\u00e3o Social, com escrit\u00f3rios na Argentina, Brasil, \u00cdndia e \u00c1frica do Sul, re\u00fane informa\u00e7\u00e3o oficial, entrevistas e visitas ao territ\u00f3rio para dar conta das m\u00faltiplas estrat\u00e9gias empregadas durante o ambicioso projeto.<\/p>\n<p>S\u00f3 o crescimento n\u00e3o seria suficiente<\/p>\n<p>A economia chinesa representava cerca de um ter\u00e7o da economia global no in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII e apenas 5 por cento em 1949, quando foi proclamada a Rep\u00fablica Popular da China. Naquela altura, o pa\u00eds tinha um dos menores rendimentos per capita do mundo. At\u00e9 1978, apesar de anos muito dif\u00edceis, incluindo fome, houve alguns sinais de melhoria, pois a expectativa de vida havia aumentado 32 anos em compara\u00e7\u00e3o com o per\u00edodo pr\u00e9-revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A essa altura, come\u00e7ava a ficar claro que, para continuar a crescer num pa\u00eds de quase 1 bilh\u00e3o de habitantes, seriam necess\u00e1rios investimentos e tecnologia estrangeiros. Foi decidido, pela m\u00e3o do ent\u00e3o presidente, Deng Xiaoping, abrir as portas ao investimento estrangeiro. O resultado \u00e9 conhecido: entre 1978 e 2017, a economia chinesa cresceu 9,5% ao ano gra\u00e7as \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de empresas que aproveitaram a m\u00e3o de obra barata, mas se viram obrigadas a transferir tecnologia, com resultados que se tornam cada vez mais evidentes. Gra\u00e7as ao r\u00e1pido crescimento da economia, a pobreza extrema caiu de 770 milh\u00f5es em 1978 para 122 milh\u00f5es em 2011, um n\u00famero que ainda representava 9,1% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como explica o mencionado relat\u00f3rio, o coeficiente de Gini que mede a desigualdade tinha piorado, de 29% em 1981 para 49% em 2007, para baixar apenas em 2012. Ou seja, o pre\u00e7o do crescimento fora um aumento acentuado da desigualdade. Em 2017, num congresso do Partido Comunista, o presidente Xi Jinping disse que \u201co principal problema \u00e9 que nosso crescimento \u00e9 desequilibrado e inadequado. Isto converteu-se no principal fator de restri\u00e7\u00e3o para satisfazer as crescentes necessidades da popula\u00e7\u00e3o a uma vida melhor\u201d.<\/p>\n<p>Passo a passo<\/p>\n<p>A China desenvolveu o Programa de Redu\u00e7\u00e3o Direcionada da Pobreza (RFP), que se resume a: \u201cUm rendimento, duas seguran\u00e7as e tr\u00eas garantias\u201d. Primeiramente, estabeleceu-se que o rendimento m\u00ednimo para considerar algu\u00e9m acima da pobreza era de 2,30 d\u00f3lares di\u00e1rios, acima dos 1,90 propostos pelo Banco Mundial.<\/p>\n<p>As duas seguran\u00e7as a alcan\u00e7ar seriam alimenta\u00e7\u00e3o e roupas. As tr\u00eas garantias: servi\u00e7os m\u00e9dicos b\u00e1sicos, habita\u00e7\u00e3o (com \u00e1gua e eletricidade) e educa\u00e7\u00e3o gratuita e obrigat\u00f3ria. Cada um desses objetivos requereu padr\u00f5es determinados de medi\u00e7\u00e3o. Por exemplo, o acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel n\u00e3o devia estar localizado a mais de vinte minutos de ida e volta e devia ser seguro.<\/p>\n<p>Uma vez definida a pobreza e o que era necess\u00e1rio para a debelar, era preciso saber quantos pobres havia e com que caracter\u00edsticas. Em 2014, 800.000 membros do partido foram ao campo e identificaram pessoas em extrema pobreza em 128.000 aldeias. Depois, dois milh\u00f5es de pessoas verificaram os dados e refinaram as listagens gra\u00e7as a um sistema de registro de dados informatizado. O n\u00famero final de indigentes com que devia se trabalhar era de 98,99 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>A longa marcha<\/p>\n<p>Com os dados e os objetivos claros, cerca de tr\u00eas milh\u00f5es de membros do partido organizados em 255 mil equipes partiram das suas casas para viver durante um a tr\u00eas anos nas aldeias selecionadas, onde iriam conviver e trabalhar ao lado dos camponeses, funcion\u00e1rios locais e volunt\u00e1rios.<\/p>\n<p>Milhares de empresas associaram-se com projetos pontuais para dar assist\u00eancia a algumas aldeias em particular. Foram criados parques industriais e agr\u00edcolas, bem como projetos voltados para o turismo local. Segundo o relat\u00f3rio, entre 2015 e 2019, os gabinetes para formar centros de produ\u00e7\u00e3o de pequena escala em terrenos baldios ou em domic\u00edlios ajudaram a triplicar o rendimento per capita.<\/p>\n<p>Quase dez milh\u00f5es de pessoas emigraram para novas comunidades urbanas que dispunham de creches, escolas, hospitais, centros comunit\u00e1rios, cuidados para idosos e centros culturais. A imensa maioria conseguiu trabalho e decidiu ficar, enquanto alguns, sobretudo os mais idosos, preferiram regressar ao seu local de origem.<\/p>\n<p>Assistentes sociais visitavam as pessoas para as ajudar em tarefas como aprender a usar o elevador ou atravessar a rua. Cerca de mil centros de sa\u00fade foram ligados a hospitais de primeira linha e milhares de trabalhadores desse setor viajaram para se qualificar. Outros projetos concentraram-se em tentar recuperar a sa\u00fade do meio ambiente com empregos no setor ecol\u00f3gico: 1,1 milh\u00f5es de pessoas come\u00e7aram a trabalhar como guardas florestais e quase cinco milh\u00f5es de hectares de terras agr\u00edcolas foram reconvertidos em florestas ou pastagens.<\/p>\n<p>Cerca de um milh\u00e3o de professores trabalharam junto a 17 milh\u00f5es de professores rurais para melhorar a sua qualifica\u00e7\u00e3o. Em algumas universidades, entre 2011 e 2018, 70 por cento dos alunos eram os primeiros das suas fam\u00edlias a ter acesso a estudos de gradua\u00e7\u00e3o. Quarenta e quatro universidades foram instaladas em diferentes zonas para realizar projetos no territ\u00f3rio com investigadores, docentes e alunos de diferentes \u00e1reas.<\/p>\n<p>Controles cruzados<\/p>\n<p>Para verificar os resultados registrados pelas equipes, foram realizados diversos tipos de avalia\u00e7\u00f5es. Por exemplo, as prov\u00edncias monitoraram-se mutuamente com trabalhadores que iam tomar conhecimento do que era feito em outra prov\u00edncia e, assim, verificar a informa\u00e7\u00e3o fornecida. O grupo coordenador do plano foi tamb\u00e9m ao terreno verificar em primeira m\u00e3o os resultados e foi feito um acompanhamento social com controles aleat\u00f3rios por parte do partido.<\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um grande problema na China e sua erradica\u00e7\u00e3o faz parte de uma das principais promessas do atual presidente. No caso da luta contra a pobreza, foram detectados 161.500 casos de corrup\u00e7\u00e3o em 2020. Dezoito funcion\u00e1rios de alto n\u00edvel foram apontados. Segundo a nova pol\u00edtica anticorrup\u00e7\u00e3o, os respons\u00e1veis pelo controle do trabalho dos seus subordinados s\u00e3o apontados, mesmo que n\u00e3o tenham participado diretamente.<\/p>\n<p>Um outro estado<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil imaginar no Ocidente que milh\u00f5es de pessoas se mobilizem para trabalhar contra a pobreza, um problema que costuma ser visto como uma responsabilidade do Estado e que \u00e9 algo alheio ao cidad\u00e3o comum.<\/p>\n<p>Um professor da Universidade Agr\u00edcola da China explicou aos investigadores da Tricontinental: \u201cA sociedade chinesa \u00e9 muito diferente das sociedades ocidentais porque se baseia no coletivo e n\u00e3o no individual. Isso reflete-se na forma como a sociedade est\u00e1 organizada. O governo trabalha com organiza\u00e7\u00f5es sociais, as redes pol\u00edticas e sociais fundem-se num todo, numa for\u00e7a dirigente, organizada vertical e horizontalmente, o que permite a todos aderir a esta campanha social\u201d . Outra quest\u00e3o, nada menor, \u00e9 a simbiose entre o Estado chin\u00eas e o Partido Comunista Chin\u00eas (PCC), que tem mais de 95 milh\u00f5es de membros.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as aos valores fortemente comunit\u00e1rios da cultura chinesa, uma milit\u00e2ncia comprometida e uma gest\u00e3o capaz de apresentar resultados r\u00e1pidos, o Estado n\u00e3o \u00e9 visto pela maioria como algo estranho e perigoso, mas como uma ferramenta que permite resolver enormes problemas.<\/p>\n<p>Em 2020, a Universidade de Harvard publicou o estudo \u201cCompreender a resili\u00eancia do PCC: as sondagens de opini\u00e3o p\u00fablica chinesa ao longo do tempo\u201d. O trabalho foi realizado entre 2003 e 2016 e foram entrevistados 31 mil residentes urbanos e rurais. Entre esses anos, a satisfa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os chineses com seu governo aumentou de 86,1% para 93,1%. Nas \u00e1reas rurais, onde a aprova\u00e7\u00e3o era de apenas 43,6%, passou para 70,2%, especialmente entre os residentes de menores rendimentos.<\/p>\n<p>Li\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Tings Chak, coordenador do Departamento de Arte da Tricontinental, membro do Dongsheng News Collective, disse a Cash que para realizar o relat\u00f3rio observaram \u201ca literatura, falamos com especialistas chineses e de outros pa\u00edses\u201d. Esta mulher de Hong Kong partiu de Xangai, onde vive, para \u201cir ao campo falar com quadros, camponeses, mulheres e jovens que se mostraram bastante abertos a contar as suas experi\u00eancias de participa\u00e7\u00e3o no programa de redu\u00e7\u00e3o da pobreza\u201d.<\/p>\n<p>A impressionante conquista da sociedade chinesa mostra que a luta contra certos n\u00edveis de pobreza \u00e9 um desafio com m\u00faltiplas vertentes. A distribui\u00e7\u00e3o do rendimento, a educa\u00e7\u00e3o, o acesso \u00e0 sa\u00fade s\u00e3o todos ingredientes importantes, mas n\u00e3o garantem nada se operarem isoladamente. Uma decis\u00e3o pol\u00edtica deste tipo requer consensos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e sociais de tal magnitude que possivelmente n\u00e3o seriam transfer\u00edveis para o Ocidente. Ainda assim, \u00e0 dist\u00e2ncia, vale a pena analisar o fen\u00f4meno para ver que li\u00e7\u00f5es podem ser aprendidas.<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/www.pagina12.com.ar\/372961-como-hizo-china-para-terminar-con-la-indigencia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27957\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[350],"tags":[233],"class_list":["post-27957","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-china","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7gV","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27957","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27957"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27957\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27957"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27957"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27957"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}