{"id":27980,"date":"2021-10-23T03:40:05","date_gmt":"2021-10-23T06:40:05","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27980"},"modified":"2021-10-29T23:39:45","modified_gmt":"2021-10-30T02:39:45","slug":"cientistas-comunistas-inspiracao-para-a-luta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27980","title":{"rendered":"Cientistas comunistas: inspira\u00e7\u00e3o para a luta!"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/AM-JKLVx3Nlq0i_4TLh9vqmcUCmd8aMqkeU1PJXqWtU6ZsBIlTJgUpfGbWEyC6j77toOwUZJ9l-IYAQa8cAPOWJkxHKm4cwD0JRHHGYkP6NoR9Iy8lcx_KpA24JXL-_mdyYG0oMzd8bfWTLvFb9VDw0pWNT3=s585-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Movimento por uma Universidade Popular \u2013 P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o (MUP-P\u00d3S)<\/p>\n<p>O conhecimento n\u00e3o transforma o mundo por si s\u00f3 e, portanto, n\u00e3o pode ser um fim em si mesmo. De uma forma ou de outra, \u00e9 preciso aliar o progresso cient\u00edfico \u00e0 luta por uma sociedade mais justa. Muitos cientistas das mais diversas \u00e1reas, alguns de grande renome, fizeram essa leitura e dedicaram-se simultaneamente \u00e0 pesquisa e \u00e0 milit\u00e2ncia pol\u00edtica revolucion\u00e1ria, com maior ou menor grau de interconex\u00e3o entre essas atividades.<\/p>\n<p>Nas ci\u00eancias humanas e sociais, certamente, os exemplos s\u00e3o mais numerosos. \u00c9 obrigat\u00f3rio mencionar Florestan Fernandes, reconhecido como pai da sociologia brasileira. Professor da USP desde 1945, Florestan deu importantes contribui\u00e7\u00f5es desde cedo, estudando criticamente a forma\u00e7\u00e3o social brasileira a partir, sobretudo, de referenciais mais ortodoxos, como Weber e Durkheim. Mais tarde, passou a se engajar politicamente cada vez mais, participando, em particular, da Campanha em Defesa da Escola P\u00fablica (1960-1962). Preso e depois solto pela ditadura empresarial -militar em 64, continuou sua produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica at\u00e9 ser \u201caposentado compulsoriamente\u201d em 1969, ap\u00f3s o AI-5. Exilado, aproximou-se do marxismo em seus estudos e escritos, cada vez mais pol\u00edticos e radicalizados. Na reabertura, foi constituinte e deputado federal pelo ent\u00e3o jovem Partido dos Trabalhadores. Morreu em 1995, poucos anos depois de declarar que, quando o PT deixasse de ser \u201cum partido de revolu\u00e7\u00e3o contra a ordem\u201d, deixaria tamb\u00e9m \u201cde ter import\u00e2ncia para a instaura\u00e7\u00e3o da democracia com igualdade social no Brasil\u201d \u2013 democracia que, para ele, teria de ser socialista.<\/p>\n<p>O estadunidense Richard Lewontin, bi\u00f3logo evolucionista e geneticista, foi pioneiro no campo da gen\u00e9tica molecular de popula\u00e7\u00f5es. Professor de Harvard, respeitado mundialmente por suas contribui\u00e7\u00f5es na \u00e1rea, Lewontin era declaradamente marxista e n\u00e3o s\u00f3 fazia uma leitura cr\u00edtica da ci\u00eancia \u2013 uma atividade social, atravessada pelas contradi\u00e7\u00f5es estruturais da sociedade \u2013 como fez de sua pesquisa um instrumento de combate ao uso da ci\u00eancia como justificativa para narrativas ideol\u00f3gicas reacion\u00e1rias. Devemos a ele a compreens\u00e3o \u2013 hoje consenso cient\u00edfico, mas na \u00e9poca disputada \u2013 de que o conceito de \u201cra\u00e7a\u201d na esp\u00e9cie humana n\u00e3o se sustenta do ponto de vista gen\u00e9tico e, portanto, \u00e9 \u00fanica e exclusivamente uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e social. Lewontin foi membro da organiza\u00e7\u00e3o socialista Science for the People (\u201cCi\u00eancia para o Povo\u201d), por meio da qual engajou-se na luta antirracista e contra a guerra do Vietn\u00e3, al\u00e9m de ter contribu\u00eddo no debate sobre a pesquisa financiada pelo agroneg\u00f3cio. Morreu em julho deste ano, aos 92 anos.<\/p>\n<p>M\u00e1rio Schenberg foi, para alguns, o maior f\u00edsico te\u00f3rico brasileiro. Colaborou com f\u00edsicos como Fermi, Pauli, Gamow e Chandrasekhar. Com os dois \u00faltimos, no in\u00edcio dos anos 1940, deu contribui\u00e7\u00f5es important\u00edssimas para a astrof\u00edsica, estabelecendo o processo Urca e o limite de Sch\u00f6nberg-Chandrasekhar. Membro do PCB desde 1944, elegeu-se deputado estadual em 1946. Com os demais deputados comunistas, fez aprovar na Constitui\u00e7\u00e3o paulista a destina\u00e7\u00e3o de fundos para a pesquisa cient\u00edfica, o que mais tarde daria origem \u00e0 Fapesp. Participou da cria\u00e7\u00e3o da Campanha do Petr\u00f3leo no Estado. Cassado junto com a bancada do PCB em 1948, chegou a ficar preso por dois meses. Em 1962, foi novamente eleito para a Alesp e, dessa vez, impedido de assumir, pouco antes de ser preso, em 64, durante o golpe. Ingressou no Comit\u00ea Central do partido em 67 e, com o AI-5, foi tamb\u00e9m desligado da USP. Morreu em 1990.<\/p>\n<p>Albert Einstein foi um caso \u00e0 parte. Sempre preocupado com quest\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas, tomou parte em v\u00e1rios movimentos pol\u00edticos de menor ou maior escala. Na maior parte da vida, sustentava posi\u00e7\u00f5es social-reformistas, criticando os exageros do livre mercado e come\u00e7ando, lentamente, a notar algumas contradi\u00e7\u00f5es estruturais do capitalismo. Em 1949, j\u00e1 a poucos anos de sua morte, escreve um famoso ensaio em que defende abertamente o socialismo como \u00fanica alternativa poss\u00edvel para a humanidade, em linguagem simples e sob clara influ\u00eancia marxista. O que ficou para o senso comum foi o estere\u00f3tipo do g\u00eanio inating\u00edvel, sempre imerso no seu pr\u00f3prio mundo de pensamentos transcendentais. Uma farsa ideol\u00f3gica muito conveniente para a ordem burguesa, que jamais poderia conviver com o verdadeiro Einstein: brilhante f\u00edsico, defensor do socialismo.<\/p>\n<p>Mesmo entre os grandes nomes da ci\u00eancia brasileira e mundial, esses s\u00e3o apenas alguns exemplos.<\/p>\n<p>A soci\u00f3loga Heleieth Saffioti foi pioneira no estudo da domina\u00e7\u00e3o patriarcal como elemento essencial da forma\u00e7\u00e3o social brasileira, estudando as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe a partir de uma leitura feminista-marxista, mesmo no auge da repress\u00e3o militar. Richard Levins foi outro grande bi\u00f3logo marxista; foi membro do partido socialista de Porto Rico, lutou pela independ\u00eancia do pa\u00eds, e colaborou vastamente com Lewontin. O f\u00edsico David Bohm era pr\u00f3ximo de movimentos de esquerda e, perseguido pela \u201cdemocracia\u201d estadunidense nos anos 50, exilou-se no Brasil, onde trabalhou na USP. O matem\u00e1tico Carlos Gustavo Moreira (\u201cGugu\u201d), renomado pesquisador do IMPA, \u00e9 militante do PCB e aparece em seus semin\u00e1rios sempre com um ic\u00f4nico broche do partido.<\/p>\n<p>N\u00f3s, p\u00f3s-graduandos e p\u00f3s-graduandos, sabemos bem que a ci\u00eancia \u00e9 uma atividade coletiva, cujos avan\u00e7os s\u00e3o constru\u00eddos lentamente, por pessoas que permanecem individualmente an\u00f4nimas, exceto em seus pequenos c\u00edrculos. O MUP entende que, no Brasil de hoje, n\u00e3o faz sentido defender \u201ca ci\u00eancia\u201d como se ela fosse uma coisa \u00e0 parte, desconectada do mundo: \u00e9 preciso aliar-se \u00e0s lutas populares e dos trabalhadores e, no caminho de uma nova sociedade, ir construindo uma nova ci\u00eancia, a servi\u00e7o do povo, contra o academicismo e a apropria\u00e7\u00e3o privada do conhecimento. Sem d\u00favidas, isso implica em uma transforma\u00e7\u00e3o profunda da pr\u00f3pria Universidade: a constru\u00e7\u00e3o da Universidade Popular.<\/p>\n<p>Que os exemplos acima ajudem a nos inspirar nessa luta! Terminamos com o questionamento do f\u00edsico brasileiro Jos\u00e9 Leite Lopes: \u201cQue ci\u00eancia e que cultura, para qual projeto de sociedade e em qual mundo? O objetivo da ci\u00eancia e da tecnologia \u00e9 libertar o homem ou criar um mundo governado pela repress\u00e3o dos poucos ricos sobre os muitos pobres?\u201d<\/p>\n<p>EM DEFESA DA CI\u00caNCIA E TECNOLOGIA PARA A SOBERANIA POPULAR!<br \/>\n26 DE OUTUBRO: DIA NACIONAL DE PARALISA\u00c7\u00c3O DOS P\u00d3S GRADUANDOS!<br \/>\nPELO REAJUSTE IMEDIATO DAS BOLSAS DE P\u00d3S-GRADUA\u00c7\u00c3O!<br \/>\nP\u00d3S-GRADUA\u00c7\u00c3O TAMB\u00c9M \u00c9 TRABALHO!<br \/>\nRUMO \u00c0 GREVE GERAL!<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS:<\/p>\n<p>Barbara Freitag. Florestan Fernandes: revisitado. Estudos Avan\u00e7ados, 2005. Dispon\u00edvel em: https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0103- 40142005000300016<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Zanetic. Florestan Fernandes e a defesa da escola p\u00fablica. Revista Adusp, 2006. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.adusp.org.br\/files\/revistas\/36\/r 36a01.pdf<\/p>\n<p>Francisco Porf\u00edrio. Florestan Fernandes. Dispon\u00edvel em: https:\/\/brasilescola.uol.com.br\/biografia\/flo restan-fernandes.htm<\/p>\n<p>Michael Dietritch. Obituary: Richard C. Lewontin. Nature, 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/doi.org\/10.1038\/d41586-021- 01936-6<\/p>\n<p>Richard Lewontin. Agricultural research and the penetration of capital. Science for the People, 1982. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.science-for-the-people.org\/wp content\/uploads\/2015\/07\/SftPv14n1s.pdf<\/p>\n<p>Science for the People Editorial Collective. Richard Lewontin (1929\u20132021): A Scientist for the People. 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/magazine.scienceforthepeople.org\/l ewontin-special-issue\/richard-lewontin 1929-2021-a-scientist-for-the-people\/<\/p>\n<p>Nelson Marques e Luiz Menna-Barreto. Richard Lewontin e Richard Levins \u2013 dois bi\u00f3logos dial\u00e9ticos. Dispon\u00edvel em: https:\/\/aterraeredonda.com.br\/richard lewontin-e-richard-levins-dois-biologos dialeticos<\/p>\n<p>Am\u00e9lia Hamburger. Publica\u00e7\u00e3o da obra cient\u00edfica de M\u00e1rio Schenberg. Estudos Avan\u00e7ados, 2002. Dispon\u00edvel em: https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0103- 40142002000100012<\/p>\n<p>Alberto Luiz da Rocha Barros. Schenberg: nada que \u00e9 humano lhe era estranho. Estudos Avan\u00e7ados, 1991. Dispon\u00edvel em: https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0103- 40141991000100011<\/p>\n<p>P\u00f3s-graduandos do PCB de S\u00e3o Paulo. M\u00e1rio Schenberg: cientista e militante comunista. 2019. Dispon\u00edvel em: https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23563\/mario schenberg-cientista-e-militante-comunista\/<\/p>\n<p>Maria Carolina Vieira. F\u00edsicos do Brasil: Mario Schenberg. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/portalpion\/ind ex.php\/fisicos-do-brasil\/74-mario schenberg-2<\/p>\n<p>Albert Einstein. The world as I see it (Como vejo o mundo). 1935. Dispon\u00edvel em ingl\u00eas em: https:\/\/www.colonialtours.com\/ebook\/eboo ks\/Albert%20Einstein%20-%20The %20World%20as%20I%20See%20it.pdf<\/p>\n<p>Albert Einstein. Why socialism? (Por qu\u00ea o socialismo?). Monthly Review, 1949. Dispon\u00edvel em portugu\u00eas em: https:\/\/ujc.org.br\/por-que-socialismo-por albert-einstein\/<\/p>\n<p>Juliana Mendes e Simone Becker. Entrevista com Heleieth Saffioti. Revista Estudos Feministas, 2011. Dispon\u00edvel em: https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0104- 026X2011000100012<\/p>\n<p>Daniele Motta. A contribui\u00e7\u00e3o de Heleieth Saffioti para a an\u00e1lise do Brasil. Caderno CRH, 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/doi.org\/10.9771\/ccrh.v33i0.37969.<\/p>\n<p>O. Freire Jr., M. Paty e A. Barros. David Bohm, sua estada no Brasil e a teoria qu\u00e2ntica. Estudos Avan\u00e7ados, 1994. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.scielo.br\/j\/ea\/a\/7fxJG6GMN4cy 3Nq8ShrxbhK\/?lang=pt<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Leite Lopes. A ci\u00eancia e a constru\u00e7\u00e3o da sociedade na Am\u00e9rica Latina. Em Ci\u00eancia e liberdade: escritos sobre ci\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o no Brasil. Editora UFRJ; CBFP\/MCT, 1998. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.editora.ufrj.br\/DynamicItems\/liv rosabertos-1\/Cienciaeliberdade_JoseLeiteL opes_compressed.pdf<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27980\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[365,134],"tags":[221],"class_list":["post-27980","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-centenario-do-pcb","category-c139-mup","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7hi","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27980","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27980"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27980\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27980"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27980"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27980"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}