{"id":28016,"date":"2021-11-04T21:40:36","date_gmt":"2021-11-05T00:40:36","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28016"},"modified":"2021-11-04T21:40:36","modified_gmt":"2021-11-05T00:40:36","slug":"mapas-guerra-e-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28016","title":{"rendered":"Mapas, guerra e poder"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/interactive.wired.com\/www-wired-com__2015__07__secret-cold-war-maps\/ff_sovietmaps_1_newyorkdetail2.jpg.14\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Mapa sovi\u00e9tico de Nova York (EUA), de 1982. (Cr\u00e9ditos: KENT LEE\/EAST VIEW GEOSPATIAL)<\/p>\n<p>A Geografia e os mapas s\u00e3o ferramentas estrat\u00e9gicas, voltadas para a guerra e a pol\u00edtica, e ao mesmo tempo mistificadas como neutras.<\/p>\n<p>Por Pedro Marin | Revista Opera<\/p>\n<p>Em 1972, o ge\u00f3grafo franc\u00eas de origem marroquina Yves Lacoste fez uma visita ao Vietn\u00e3 do Norte, em um momento em que a crescente oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Guerra do Vietn\u00e3 entre o p\u00fablico norte-americano era compensada por uma ofensiva cruenta do ex\u00e9rcito dos Estados Unidos a mando do ent\u00e3o presidente Richard Nixon e de seu fiel conselheiro Henry Kissinger. A partir da visita, feita a convite do governo da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Vietn\u00e3, Lacoste, um ex-membro do Partido Comunista Franc\u00eas (PCF), escreveu e publicou um artigo no jornal Le Monde, onde descrevia como a estrat\u00e9gia norte-americana naquela altura da guerra se baseava em ressuscitar os bombardeios contra os diques do Rio Vermelho, com o objetivo de prejudicar a estrutura de barragens para causar inunda\u00e7\u00f5es e enchentes futuras que pareceriam desastres naturais, afogando centenas de milhares de vietnamitas.<\/p>\n<p>O artigo teve um impacto estrondoso entre o p\u00fablico norte-americano e na chamada comunidade internacional. A esconjura\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica de abrir mares com bombas, repetida inclusive pelo Papa Paulo VI e pelo secret\u00e1rio-geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, n\u00e3o deixava de ter algo de curioso, como o pr\u00f3prio Lacoste notaria em um artigo posterior: \u201cse tentarmos um racioc\u00ednio c\u00ednico, n\u00e3o veremos com precis\u00e3o o motivo dessa opini\u00e3o que aceitava que os homens, as mulheres, as crian\u00e7as fossem queimadas vivas com napalm ou fuziladas com centenas de balas (de borracha para que um cirurgi\u00e3o n\u00e3o pudesse arranc\u00e1-las com ajuda do raio-x) e se ressentia com o afogamento que amea\u00e7ava essas mesmas pessoas. Morrer afogado \u00e9, apesar de tudo, um fim menos agressivo do que agonizar corro\u00eddo pelo napalm ou pelo f\u00f3sforo. Certamente, antes mesmo de ter uma ideia dos dados geogr\u00e1ficos do problema \u2013 antes de compreender que os diques t\u00eam uma import\u00e2ncia essencial, pois os rios, que naturalmente produzem inunda\u00e7\u00f5es terr\u00edveis, correm exatamente numa plan\u00edcie formada sobre dep\u00f3sitos aluviais \u2013, a opini\u00e3o p\u00fablica sabia que se tratava do destino de centenas de milhares de homens e que, pela sua magnitude, essa hecatombe seria um problema\u201d. Mas, para al\u00e9m da rea\u00e7\u00e3o, o caso do bombardeio dos diques vietnamitas revelava, com clareza, algo ainda mais importante: que a geografia serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra.<\/p>\n<p>Seria sob esse t\u00edtulo que Yves Lacoste publicaria, quatro anos depois de seu artigo, um livro que se tornou um cl\u00e1ssico da Geografia. Na obra, que coroa algumas discuss\u00f5es trazidas por Lacoste na sua revista H\u00e9rodote, o ge\u00f3grafo faz uma cr\u00edtica vigorosa \u00e0 geografia como ideologia, desvelando-a como um saber ao mesmo tempo intrinsecamente estrat\u00e9gico, voltado para a guerra e a pol\u00edtica, e ao mesmo tempo mistificado, nas escolas e universidades, como uma ci\u00eancia neutra. \u201cNa realidade, a fun\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do discurso da geografia escolar e universit\u00e1ria tem sido sobretudo mascarar, mediante alguns procedimentos que n\u00e3o s\u00e3o evidentes, a utilidade pr\u00e1tica da an\u00e1lise do espa\u00e7o, tanto fundamentalmente para a dire\u00e7\u00e3o da guerra como para a organiza\u00e7\u00e3o do estado e a pr\u00e1tica do poder\u201d, escreve. \u201cDe certo modo, a geografia dos professores funciona como uma cortina de fuma\u00e7a que permite dissimular dos olhos de todos a efic\u00e1cia das estrat\u00e9gias pol\u00edticas e militares, assim como as estrat\u00e9gias econ\u00f4micas e sociais que uma outra geografia permite que alguns ponham em pr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>A geografia, servindo para a guerra, \u00e9 ensinada como um conjunto de observa\u00e7\u00f5es desinteressadas do espa\u00e7o ou como um campo de estudos in\u00fatil para as maiorias. O objetivo dessa opera\u00e7\u00e3o \u00e9 impossibilitar que o povo conhe\u00e7a a import\u00e2ncia da geografia como ferramenta estrat\u00e9gica dos poderosos, n\u00e3o podendo, portanto, fazer sua pr\u00f3pria leitura estrat\u00e9gica do espa\u00e7o, seja para a cr\u00edtica, seja para a a\u00e7\u00e3o. Mas se esta era, na vis\u00e3o de Lacoste, a fun\u00e7\u00e3o do ensino da geografia, que papel tinha a produ\u00e7\u00e3o especializada dos pesquisadores e acad\u00eamicos? Se a geografia serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra, e o ensino dela serve, em primeiro lugar, para dissimular seus objetivos e pr\u00e1ticas, para que serve a produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, conceitual e t\u00e9cnica sobre a pr\u00f3pria geografia?<\/p>\n<p>Lacoste discute amplamente dois problemas dessa produ\u00e7\u00e3o: um de ordem epistemol\u00f3gico, outro de ordem \u201ct\u00e9cnica\u201d, isto \u00e9, de escala. O primeiro diz respeito \u00e0s premissas b\u00e1sicas sobre as quais a \u201cci\u00eancia geogr\u00e1fica\u201d se assenta. Ali, Lacoste desvela a geografia como um instrumento do poder n\u00e3o pelas respostas que os acad\u00eamicos e pesquisadores podem dar sobre determinado problema geogr\u00e1fico, mas no pr\u00f3prio enquadramento desses problemas; nas perguntas que fazem. O mal-estar que os ge\u00f3grafos franceses sentiam ao tratar da geopol\u00edtica de Friedrich Ratzel, por verem nela um instrumento expansionista do imp\u00e9rio alem\u00e3o \u2013 depois levada \u00e0 frente pelo Reich, na \u201cvers\u00e3o mais exacerbada da fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica que pode ter a geografia\u201d \u2013 bem poderia voltar-se contra os pr\u00f3prios ge\u00f3grafos ocidentais que imaginavam fazer uma geografia \u201cverdadeiramente cient\u00edfica\u201d ou desinteressada que, ao fim, seria aproveitada pelo poder \u2013 sen\u00e3o o dos ex\u00e9rcitos, certamente o das multinacionais. A geografia, como saber humano sobre o espa\u00e7o, n\u00e3o poderia desconsiderar as pr\u00f3prias disputas, usos, concep\u00e7\u00f5es e ci\u00eancias do humano, tamb\u00e9m em disputa neste espa\u00e7o. \u201cVejamos, os \u2018dados\u2019 geogr\u00e1ficos n\u00e3o s\u00e3o oferecidos por Deus, mas sim por um ge\u00f3grafo que, n\u00e3o contente em apreend\u00ea-los em uma certa escala, os escolheu e classificou em uma determinada ordem; outro ge\u00f3grafo, que estudou a mesma regi\u00e3o ou abordou o mesmo problema em outra escala, ofereceria provavelmente alguns \u2018dados\u2019 bastante diferentes. Quanto aos famosos \u2018imperativos\u2019 geogr\u00e1ficos, aos que t\u00e3o aficionados s\u00e3o a eles \u2013 por exemplo, os economistas \u2013, os ge\u00f3grafos sabem perfeitamente (especialmente a partir de Vidal de la Blache, pois foi um de seus aportes mais positivos) que os homens se acomodam a eles de maneiras muito diferentes, e que n\u00e3o existe um \u2018determinismo\u2019 estrito, sen\u00e3o, melhor dito, um \u2018possibilismo\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Por um lado, a geografia n\u00e3o pode existir simplesmente como mera descri\u00e7\u00e3o desinteressada do espa\u00e7o \u2013 precisamente porque quem a descreve o faz do ponto de vista humano, imbu\u00eddo de objetivos, bases, \u00e9ticas e pol\u00edticas humanas, e quem nele habita, trabalha ou se locomove \u2013 ou seja, se confronta com o espa\u00e7o \u2013 tampouco o faz de forma neutra, mas inserido em um contexto social, pol\u00edtico e hist\u00f3rico, que \u00e9 t\u00e3o (ou mais) determinante para sua exist\u00eancia neste espa\u00e7o geogr\u00e1fico quanto \u00e9 a natureza geogr\u00e1fica do espa\u00e7o. Por outro lado, o problema t\u00e9cnico das escalas geogr\u00e1ficas (que inclui, por \u00f3bvio, a quest\u00e3o da escala nos mapas, mas tamb\u00e9m a profundidade e a diversidade de informa\u00e7\u00f5es que eles cont\u00eam ou o enquadramento espacial do ge\u00f3grafo em uma determinada regi\u00e3o) se desdobra tamb\u00e9m em um problema de ordem ideol\u00f3gica. \u201cA escolha de uma escala em um mapa se apresenta habitualmente como um problema de senso comum ou de comodidade e cada ge\u00f3grafo universit\u00e1rio escolhe a escala a que o conv\u00e9m, sem ser muito consciente das raz\u00f5es dessa escolha. Em troca, as exig\u00eancias pr\u00e1ticas fazem com que os militares saibam perfeitamente que n\u00e3o se pode decidir a estrat\u00e9gia de conjunto e das diferentes opera\u00e7\u00f5es com os mesmos mapas. A estrat\u00e9gia se elabora em uma escala menor que a da t\u00e1tica\u201d, escreve Lacoste. \u201cA mudan\u00e7a de escala corresponde a uma mudan\u00e7a do n\u00edvel de an\u00e1lise, e deveria corresponder a uma mudan\u00e7a do n\u00edvel de conceitualiza\u00e7\u00e3o. [\u2026] Assim, o problema das escalas \u00e9 primordial para a racionaliza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. Contrariamente a certos ge\u00f3grafos que manifestam que \u2018\u00e9 poss\u00edvel estudar um mesmo fen\u00f4meno em escalas diferentes\u2019, h\u00e1 que se ter consci\u00eancia de que s\u00e3o fen\u00f4menos diferentes porque s\u00e3o apreendidos a escalas diferentes. O mesmo problema se apresenta, de maneira compar\u00e1vel, no caso da Hist\u00f3ria [\u2026] a Hist\u00f3ria de curta dura\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria dos acontecimentos, aparece radicalmente diferente da hist\u00f3ria de longa dura\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Como prova da import\u00e2ncia estrat\u00e9gica do saber geogr\u00e1fico, Lacoste lembra que os mapas em grande escala, em muitos pa\u00edses do Terceiro Mundo, costumavam ter sua venda proibida em momentos de explos\u00e3o das tens\u00f5es sociais. Na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, os mapas dispon\u00edveis ao p\u00fablico costumavam ter distor\u00e7\u00f5es intencionais. Enquanto isso, \u201cna maioria dos pa\u00edses do regime chamado \u2018liberal\u2019, a difus\u00e3o dos mapas, em todas as escalas, \u00e9 totalmente livre, assim como os planos da cidade. De fato, as autoridades descobriram que podiam os p\u00f4r em circula\u00e7\u00e3o sem o menor inconveniente, pois os mapas, para quem n\u00e3o aprendeu a l\u00ea-los e utiliz\u00e1-los, n\u00e3o t\u00eam mais sentido que uma p\u00e1gina escrita para aqueles que n\u00e3o sabem ler. N\u00e3o \u00e9 que a aprendizagem da leitura dos mapas seja uma tarefa dif\u00edcil, mas n\u00e3o se percebe seus fundamentos para as pr\u00e1ticas pol\u00edticas e militares: a livre circula\u00e7\u00e3o dos mapas nos pa\u00edses de regime liberal \u00e9 o corol\u00e1rio da escassez do n\u00famero de pessoas que podem pretender utilizar, contra os poderes estabelecidos, outros tipos de a\u00e7\u00e3o que n\u00e3o os estipulados em um sistema democr\u00e1tico\u201d, escreve o ge\u00f3grafo.<\/p>\n<p>Apesar de uma maior liberalidade em geral no acesso aos mapas no centro capitalista, a omiss\u00e3o de pontos estrat\u00e9gicos era tamb\u00e9m \u2013 e continua sendo \u2013 uma pr\u00e1tica comum. De acordo com o professor Mark Monmonier, na sua obra \u201cHow to lie with maps\u201d (\u201cComo mentir com mapas\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o literal), a ag\u00eancia cartogr\u00e1fica do Reino Unido, a Ordnance Survey, mantinha uma lista de lugares sens\u00edveis que deveriam ser omitidos, escondidos ou camuflados nos mapas e fotos a\u00e9reas publicados no pa\u00eds no mesmo per\u00edodo abordado por Lacoste. Na Gr\u00e9cia, havia mapas com grandes \u00e1reas deixadas em branco. \u201cOs norte-americanos n\u00e3o precisam se aplaudir pela sua transpar\u00eancia comparativa. Afinal, os mapas brit\u00e2nicos tendem a mostrar mais detalhes em largas escalas do que os mapas norte-americanos. Al\u00e9m disso, mapas dos EUA muitas vezes omitem informa\u00e7\u00f5es possivelmente embara\u00e7osas para ind\u00fastrias poluentes ou autoridades locais. [\u2026] mapas b\u00e1sicos da maioria das cidades mostram ruas, estruturas importantes, eleva\u00e7\u00f5es, parques, igrejas e grandes museus \u2013 mas n\u00e3o interse\u00e7\u00f5es perigosas, bairros empobrecidos, \u00e1reas de alta criminalidade, e outras zonas perigosas ou miser\u00e1veis que poderiam ser acomodadas sem sacrificar a informa\u00e7\u00e3o sobre infraestrutura e terreno\u201d, escreveu o professor da Syracuse University.<\/p>\n<p>Quando a rep\u00fablica socialista caiu, no come\u00e7o dos anos 90, o secretismo sovi\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o aos mapas atraiu o interesse de muitos atores. Mineradoras, empresas de telecomunica\u00e7\u00e3o, agentes de intelig\u00eancia, colecionadores, universidades, ex\u00e9rcitos e pesquisadores empreenderam uma corrida para conseguir os mapas militares secretos produzidos por um Estado que, da noite pro dia, deixou de existir. Eles seriam um ativo estrat\u00e9gico para conhecer os terrenos dessas ex-rep\u00fablicas socialistas, considerando a inutilidade para fins militares e comerciais dos mapas at\u00e9 ent\u00e3o dispon\u00edveis ao p\u00fablico, e tamb\u00e9m uma oportunidade para conseguir mapas confi\u00e1veis de regi\u00f5es mal mapeadas, especialmente na \u00c1sia e \u00c1frica. No entanto, o que se revelou com os mapas, que come\u00e7aram a emergir em uma esp\u00e9cie de mercado paralelo, foi que a cartografia militar sovi\u00e9tica tinha ido muito al\u00e9m dessas regi\u00f5es: com uma precis\u00e3o not\u00e1vel, os sovi\u00e9ticos mapearam quase o mundo todo em tr\u00eas escalas. Alguns continentes, como Europa, \u00c1sia, e grande parte da Am\u00e9rica do Norte e o norte da \u00c1frica foram mapeados tamb\u00e9m em escalas 1:100,000 e 1:50,000. O leste europeu chegou a ser completamente mapeado em uma escala de 1:25,000, e toda a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi mapeada na escala de 1:10,000 \u2013 o que, segundo se estima, significaria algo em torno de 440 mil folhas de mapas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da diversidade das escalas, os mapas sovi\u00e9ticos do \u201cmundo ocidental\u201d eram extremamente detalhados, contendo detalhes que os mapas dom\u00e9sticos dos pa\u00edses n\u00e3o tinham: a largura precisa de estradas, a capacidade de carga de pontes, os tipos de materiais usados nas constru\u00e7\u00f5es e at\u00e9 os tipos das f\u00e1bricas presentes num determinado local. Havia tamb\u00e9m, em muitos mapas, detalhes escondidos nos mapas dom\u00e9sticos: em um mapa sovi\u00e9tico de 1984 da cidade inglesa de Chatham, por exemplo, as docas onde a Marinha inglesa constru\u00eda seus submarinos est\u00e3o mapeadas \u2013 nos mapas brit\u00e2nicos da \u00e9poca, h\u00e1 somente um espa\u00e7o vazio. \u201cEles conseguiram transformar muita informa\u00e7\u00e3o em algo muito claro e bem apresentado\u201d, declarou o professor de geografia e informa\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas da Universidade Canterbury Christ Church \u00e0 revista Wired. \u201cH\u00e1 camadas de hierarquia visual. O que \u00e9 importante se destaca. O que n\u00e3o \u00e9 retrocede. Os cart\u00f3grafos modernos podem aprender muito com a maneira com a qual esses mapas foram feitos\u201d. Os mapas eram t\u00e3o bem feitos que, at\u00e9 hoje, o Departamento de Estado dos EUA os usa para tra\u00e7ar linhas de fronteira em mapas oficiais do governo. Nos anos 2000, os mapas sovi\u00e9ticos foram usados por analistas de intelig\u00eancia dos EUA na Guerra do Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos das \u00faltimas d\u00e9cadas, com a farta disponibilidade de fotografias por sat\u00e9lite ou at\u00e9 a apari\u00e7\u00e3o de ferramentas como o Google Maps ou Google Earth facilitando o acesso do p\u00fablico em geral aos mapas, a cartografia segue sendo uma arma no arsenal do poder relativamente restrita, por um lado porque a capacidade de ler um mapa sob uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica \u00e9 um saber pouco popular, como argumenta Lacoste, por outro porque a identifica\u00e7\u00e3o de determinados pontos estrat\u00e9gicos, a escala e o n\u00edvel de detalhamento contam \u2013 e por vezes s\u00e3o omitidos. A centen\u00e1ria pr\u00e1tica da censura cartogr\u00e1fica se mant\u00e9m n\u00e3o apesar da tecnologia, mas nela pr\u00f3pria. As imagens de sat\u00e9lite de Israel e da Palestina ocupada no Google Maps, por exemplo, s\u00e3o disponibilizadas somente em baixa qualidade, tornando a infraestrutura das cidades quase inidentific\u00e1vel em grande escala (a partir da escala 50m o fen\u00f4meno fica claro). Uma abundante quantidade de instala\u00e7\u00f5es militares pelo mundo \u2013 incluindo o quartel-general da OTAN \u2013 s\u00e3o intencionalmente borradas na plataforma. E h\u00e1 tamb\u00e9m uma quantidade imensa de instala\u00e7\u00f5es militares por todo o globo n\u00e3o identificadas pelo servi\u00e7o. Em 2017, uma s\u00e9rie dessas instala\u00e7\u00f5es \u2013 algumas delas sigilosas \u2013 foram acidentalmente reveladas por um site desenvolvido pelo aplicativo de exerc\u00edcios Strava. Esp\u00e9cie de rede social para corredores e ciclistas, o Strava se conecta a dispositivos para medir rotinas de exerc\u00edcio. O aplicativo, muito popular entre os soldados norte-americanos, lan\u00e7ou um \u201cmapa de calor\u201d com base nas rotas de corrida dos usu\u00e1rios, que acabou revelando o tra\u00e7ado de bases militares na S\u00edria, Mali, Afeganist\u00e3o, Djibouti, e at\u00e9 uma base de drones em constru\u00e7\u00e3o no N\u00edger.<\/p>\n<p>45 anos depois da publica\u00e7\u00e3o da obra de Lacoste, a geografia ainda serve, antes de tudo, para fazer a guerra. A 8,7 mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia daqueles diques bombardeados pelos Estados Unidos na d\u00e9cada de 70, avi\u00f5es da OTAN bombardearam em 2011 instala\u00e7\u00f5es de fabrica\u00e7\u00e3o de tubos para o Grande Rio Artificial da L\u00edbia, o maior projeto de irriga\u00e7\u00e3o do mundo, respons\u00e1vel pelo fornecimento de \u00e1gua de 70% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. A OTAN argumentou \u00e0 \u00e9poca que as instala\u00e7\u00f5es eram usadas como um armaz\u00e9m militar por for\u00e7as pr\u00f3-Gaddafi. Os administradores do Grande Rio Artificial declararam que a destrui\u00e7\u00e3o da instala\u00e7\u00e3o era um crime de guerra que punha em risco o suprimento de \u00e1gua para milh\u00f5es de l\u00edbios. Seja como for, na continuidade de caos e guerra que a L\u00edbia vive desde ent\u00e3o, o Grande Rio continua sendo um ativo estrat\u00e9gico. Em 2019, um grupo armado tomou uma esta\u00e7\u00e3o de bombeamento de \u00e1gua e for\u00e7ou os funcion\u00e1rios a fecharem as tubula\u00e7\u00f5es de \u00e1gua conectadas a po\u00e7os subterr\u00e2neos, deixando mais de 2 milh\u00f5es de pessoas em Tr\u00edpoli sem \u00e1gua durante dois dias. Os sat\u00e9lites n\u00e3o captaram a sede.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28016\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[233],"class_list":["post-28016","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7hS","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28016","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28016"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28016\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28016"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28016"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28016"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}