{"id":2804,"date":"2012-05-06T12:21:45","date_gmt":"2012-05-06T12:21:45","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2804"},"modified":"2012-05-06T12:21:45","modified_gmt":"2012-05-06T12:21:45","slug":"hoje-os-bravos-venceram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2804","title":{"rendered":"Hoje, os bravos venceram"},"content":{"rendered":"\n<p>Os \u00faltimos dias foram marcados pelo horror que vazou dos por\u00f5es da ditadura, que se encontra em polvorosa diante da possibilidade da comiss\u00e3o da verdade se estabelecer. S\u00e3o informa\u00e7\u00f5es colhidas pelos jornalistas que entrevistaram o verme Cl\u00e1udio Ant\u00f4nio Guerra, delegado do DOPS do Esp\u00edrito Santo, refugiado na aposentadoria que o Estado conivente lhe premiou, sobre o desaparecimento de presos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou preocupado se a confraria do crime matou o comparsa, S\u00e9rgio Fleury. Estou indignado pelo conjunto das informa\u00e7\u00f5es que esse celerado, Cl\u00e1udio Guerra, passou. S\u00e3o crimes contra a humanidade, s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es de bestialidade organizada pela classe dominante para manter os seus privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>Hoje, 03 de maio, acordei com o compromisso de encontrar camaradas: homens e mulheres, na frente do ex-pr\u00e9dio do DOI-CODI na Rua Tut\u00f3ia, para fazermos uma manifesta\u00e7\u00e3o cobrando puni\u00e7\u00e3o para os criminosos da ditadura burgo-militar de 1964.<\/p>\n<p>Marchei para o ponto marcado, fazia frio nas cercanias do Ibirapuera e o dia estava cinzento. L\u00e1 estavam jovens indignados, ex-presos pol\u00edticos que sobreviveram ao massacre da ditadura, e militantes. Ouvimos depoimentos dos sobreviventes do \u201cpor\u00e3o do inferno\u201d, visitamos o fundo do pr\u00e9dio onde muitos foram martirizados e foram assassinados, mais de 50 her\u00f3is do povo brasileiro, entre eles, os comunistas Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho.<\/p>\n<p>A manifesta\u00e7\u00e3o prosseguiu, os nomes dos bravos lutadores assassinados foram levantados, e tal qual a lan\u00e7a do guerreiro, o brado forte dos presentes cortou o vento gelado e fez surgir o sol entre n\u00f3s. Um-a-um, o nome dos m\u00e1rtires foi saudado pelo grito forte de \u201cpresente, agora e sempre\u201d.<\/p>\n<p>Entre tantos nomes saudados pela mem\u00f3ria dos presentes, bravos homens e mulheres, um, ecoou pelo p\u00e1tio da delegacia e adentrou o meu pensar, \u201cNestor Veras: presente, agora e sempre\u201d. Mas em tempos de combate, onde a terra ainda \u00e9 tingida de sangue no Brasil, quem \u00e9 esse homem que lutou ao lado dos trabalhadores e pelo futuro, entregou a sua vida?<\/p>\n<p>Nestor Veras, l\u00edder campon\u00eas, nasceu em 19 de julho de 1915, em Ribeir\u00e3o Preto, S\u00e3o Paulo. Era dirigente do CC do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e encarregado do trabalho no campo. Foi dirigente da ULTAB e da CONTAG, fundador e editor do jornal\u00a0<em>Terra Livre<\/em>. Ao lado de Francisco Juli\u00e3o e Alberto Passos Guimar\u00e3es, organizou o Congresso Campon\u00eas que ocorreu em Belo Horizonte, em 1961. Cassado pelo AI-I foi condenado a cinco anos de c\u00e1rcere pela LSN \u2013 lei de seguran\u00e7a nacional, passou a viver na clandestinidade, mesmo tendo uma companheira e cinco filhos.<\/p>\n<p>Esse bravo comunista foi preso em abril de 1975, quando passava na frente de uma drogaria, em Belo Horizonte. Estava desaparecido at\u00e9 ontem, quando ficamos sabendo, via um representante da esc\u00f3ria da ditadura, que Nestor Veras<strong>\u201ctinha sido muito torturado e estava agonizando. Eu lhe dei o tiro de miseric\u00f3rdia, na verdade dois, um no peito e outro na cabe\u00e7a. Estava preso na Delegacia de Furtos em Belo Horizonte. Ap\u00f3s tir\u00e1-lo de l\u00e1, o levamos para uma mata e demos os tiros. Foi enterrado por n\u00f3s.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s ter participado da manifesta\u00e7\u00e3o, pela tarde fui para meu rotineiro trabalho de pesquisa no arquivo do Centro de Documenta\u00e7\u00e3o e Mem\u00f3ria da UNESP, o CEDEM. L\u00e1 encontrei um jovem estudante da UNIFESP que trabalhava com um conjunto de caixas do arquivo que continham informa\u00e7\u00f5es da luta camponesa e da reforma agr\u00e1ria no Brasil, todas com o nome de Nestor Veras. Examinei as caixas com os documentos e encontrei a presen\u00e7a do dirigente campon\u00eas em tudo: textos, recortes de jornais, artigos na\u00a0<em>Voz Oper\u00e1ria<\/em>, congressos, assembl\u00e9ias, confer\u00eancias, resolu\u00e7\u00f5es, informes, an\u00e1lise sobre as lutas dos trabalhadores do campo e da cidade. Esse foi o campon\u00eas que pensou o Brasil e lutou pela revolu\u00e7\u00e3o socialista. Nestor Veras, homem simples da classe trabalhadora que teve um texto seu, colocado em um livro da Brasiliense por Caio Prado J\u00fanior. Homem de combate, mas que encontrava tempo para tocar clarineta para os filhos.<\/p>\n<p>Comovido diante daquela cena, pude ent\u00e3o compreender que os bravos que tombaram, de forma desassombrada, pelos interesses dos trabalhadores brasileiros, venceram.\u00a0\u00a0Eles venceram o sil\u00eancio da repress\u00e3o e a coniv\u00eancia do Estado, venceram o luto c\u00ednico das institui\u00e7\u00f5es e o papel asqueroso da imprensa burguesa. Eles venceram, porque est\u00e3o presentes na vontade de saber da juventude, venceram porque marcham ao nosso lado na luta sem tr\u00e9gua pela revolu\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Hoje, mais do que nunca, os bravos venceram!<\/p>\n<p>E n\u00f3s, militantes em defesa da humanidade saberemos, quando chegar o momento, honrar o compromisso feito por Carlos Danielli (momentos antes de ser assassinado) ao escrever com o l\u00edquido vermelho das suas veias nas paredes do DOI-CODI: \u201co meu sangue ser\u00e1 vingado\u201d. Afinal, \u201cpor nossos mortos nem um minuto de sil\u00eancio, toda uma vida de combate\u201d.<\/p>\n<p><strong>*Milton Pinheiro \u00e9 professor e membro da Comiss\u00e3o Pol\u00edtica do PCB. <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nMilton Pinheiro*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2804\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-2804","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Je","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2804","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2804"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2804\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2804"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2804"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2804"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}