{"id":28046,"date":"2021-11-14T23:49:44","date_gmt":"2021-11-15T02:49:44","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28046"},"modified":"2021-11-14T23:49:44","modified_gmt":"2021-11-15T02:49:44","slug":"mudancas-climaticas-e-negocios-capitalistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28046","title":{"rendered":"Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e neg\u00f3cios capitalistas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrilabril.pt\/sites\/default\/files\/styles\/node_aberto_vp768\/public\/assets\/img\/15343.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Cr\u00e9ditosRobert Perry \/ EPA<\/p>\n<p>Se quer evitar o apocalipse jogue na bolsa do clima<\/p>\n<p>Por Jos\u00e9 Goul\u00e3o<\/p>\n<p>ABRIL ABRIL<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 novidade que os grandes senhores do capitalismo se apropriaram da suposta luta contra as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, vendo nela grandes oportunidades de neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Cumpriu-se o ritual. A Cimeira das Partes (COP) das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas reuniu-se este ano em Glasgow com o n\u00famero de s\u00e9rie 26. N\u00e3o faltaram as pompas e solenidades, nem os discursos dos grandes l\u00edderes da humanidade e do mundo repletos de promessas garantindo um clima paradis\u00edaco para l\u00e1 de 2050. Quanto aos resultados, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas asseguram um pouco mais do mesmo. Mas h\u00e1 quem n\u00e3o possa queixar-se: a grande finan\u00e7a internacional afia as garras para se deliciar e especular com aquilo a que convencionou chamar-se a \u00abtransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u00bb. E nisso a COP ajudou-a.<\/p>\n<p>J\u00e1 com os trabalhos da cimeira em fase final, o Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Ambiente (PNUA) afirmou que os compromissos assumidos na Esc\u00f3cia n\u00e3o servir\u00e3o para travar o aumento de temperatura do planeta \u2013 afinal, o grande objetivo que estaria supostamente em causa. Segundo as estimativas desta entidade, que desempenha um papel determinante na organiza\u00e7\u00e3o das COP, por este caminho a temperatura da Terra aumentar\u00e1 numa faixa entre 2,7 e 2,1 graus centesimais at\u00e9 2100, provocando a chamada \u00abcat\u00e1strofe clim\u00e1tica\u00bb inerente ao aquecimento global.<\/p>\n<p>Antes da reuni\u00e3o de Glasgow, sempre segundo o PNUA, as previs\u00f5es estavam entre 2,7 e 2,2. Tanto fausto, tantas promessas para um eventual ganho de um d\u00e9cimo de grau que, segundo os entendidos, n\u00e3o chegar\u00e1 para evitar o \u00abapocalipse\u00bb. Sendo que estes valores est\u00e3o bastante acima das metas estabelecidas na t\u00e3o incensada COP de Paris, em 2015: uma subida m\u00e1xima de dois graus, de prefer\u00eancia 1,5 graus.<\/p>\n<p>Entretanto, segundo o PNUA, a concentra\u00e7\u00e3o de gases de efeito de estufa, considerada a grande respons\u00e1vel pelo aquecimento global, atingiu um valor recorde em 2020. Em 2020, imagine-se \u2013 apesar de ser o ano em que a atividade econ\u00f4mica desacelerou brutalmente devido \u00e0 pandemia&#8230;<\/p>\n<p>O que parece ter acontecido para ditar o fracasso dos objetivos de Paris, apesar de j\u00e1 terem passados seis anos, \u00e9 que n\u00e3o se cumpriram os pressupostos tecnol\u00f3gicos em que as previs\u00f5es assentavam. Situa\u00e7\u00e3o que parece n\u00e3o ter-se alterado de l\u00e1 para c\u00e1.<\/p>\n<p>No in\u00edcio deste ano, o ex-secret\u00e1rio de Estado da administra\u00e7\u00e3o norte-americana de Obama, John Kerry, que veio a ser o principal operador da delega\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos em Glasgow, afirmou que \u00ab50% das redu\u00e7\u00f5es que temos de fazer para chegar \u00e0 neutralidade de carbono em 2050 vir\u00e3o de tecnologias que ainda n\u00e3o temos, mas veja-se o que fizemos para impulsionar a cria\u00e7\u00e3o de vacinas, veja-se o que fizemos para ir \u00e0 Lua, veja-se o que fizemos para inventar a internet\u00bb. Por isso, acrescentou o representante norte-americano j\u00e1 na Cimeira, \u00abn\u00e3o h\u00e1 necessidade de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u00bb para \u00abfechar a produ\u00e7\u00e3o\u00bb, por exemplo, de combust\u00edveis f\u00f3sseis \u2013 cuja utiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada incompat\u00edvel com um verdadeiro combate \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Os ambientalistas do PNUA parecem n\u00e3o partilhar da vis\u00e3o cor-de-rosa e voluntarista de Kerry. E consideram: \u00abDada a falta de transpar\u00eancia dos compromissos de neutralidade de carbono, a aus\u00eancia de um mecanismo de responsabiliza\u00e7\u00e3o e de um sistema de verifica\u00e7\u00e3o (\u2026) a realiza\u00e7\u00e3o destes objetivos de neutralidade de carbono permanece incerta\u00bb.<\/p>\n<p>Em suma, as COP mant\u00eam-se pouco convincentes em mat\u00e9ria de travagem da temperatura global porque esta depende de promessas n\u00e3o verific\u00e1veis e pouco consistentes dos principais dirigentes mundiais, flutuando ao sabor dos interesses que na realidade representam, entre eles o das poderosas ind\u00fastrias de combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>O petr\u00f3leo e a propaganda<\/p>\n<p>Os combust\u00edveis f\u00f3sseis s\u00e3o, naturalmente, o calcanhar de Aquiles das sucessivas COP e os maiores inimigos das empolgadas campanhas de propaganda montadas em torno delas por aquilo a que a pena sempre oportuna de Carlos Matos Gomes qualifica como os meios de manipula\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia, como vamos aprendendo, \u00e9 uma componente secund\u00e1ria do combate \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, muito mais organizado em fun\u00e7\u00e3o de interesses econ\u00d5micos, financeiros, geo-estrat\u00e9gicos e pol\u00edticos. Nas COP n\u00e3o se discute climatologia, as ci\u00eancias do clima \u2013 mas sim a pol\u00edtica clim\u00e1tica, coisa completamente diferente, interesseira e sem conte\u00fado coerente. E no GIEC, grupo intergovernamental de peritos clim\u00e1ticos que est\u00e1 na base da organiza\u00e7\u00e3o das COP, os cientistas s\u00e3o membros secund\u00e1rios, com o estatuto de funcion\u00e1rios, cabendo aos diplomatas os pap\u00e9is representativos.<\/p>\n<p>As COP s\u00e3o o espelho de toda esta realidade. Por\u00e9m, parece mais ou menos adquirido que um combate real contra o aquecimento planet\u00e1rio s\u00f3 pode ser travado com base na supress\u00e3o gradual da utiliza\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, considerados os principais respons\u00e1veis pelas emiss\u00f5es dos gases de efeito estufa.<\/p>\n<p>Criou-se e alimenta-se, entretanto, o mito segundo o qual os interesses e os lobistas desta ind\u00fastria foram suprimidos da COP de Glasgow pelos organizadores, o que n\u00e3o passou de uma pat\u00e9tica manobra de enganar tolos. O presidente da cimeira, nomeado pelo primeiro-ministro brit\u00e2nico Boris Johnson \u2013 que tem o seu governo repleto de personalidades vinculadas ao setor petrol\u00edfero \u2013 foi Alok Sharma (ex-ministro brit\u00e2nico da Economia e Ind\u00fastria) que, segundo a imprensa inglesa, est\u00e1 na lista de pagamentos de empresas petrol\u00edferas no n\u00edvel das dezenas de milhares de libras anuais.<\/p>\n<p>Entre os patrocinadores diretos da cimeira de Glasgow esteve o banco Nat West, inscrito na lista Banking Climate Chaos dos 50 maiores poluidores. E tamb\u00e9m o Bank of Scotland, que em 2019\/20 investiu mais de um bilh\u00e3o de libras nos setores petrol\u00edfero e do g\u00e1s natural.<\/p>\n<p>Patrocinador da COP26 foi igualmente o Boston Consoulting Group (BCG), o maior fornecedor de servi\u00e7os de consultadoria da ind\u00fastria petrol\u00edfera, com o objetivo de procurar \u00abnovas oportunidades\u00bb para o setor. Lema do BCG: \u00abapoiar as ind\u00fastrias do petr\u00f3leo e do g\u00e1s para manterem-se competitivas, ajudando-as a desenvolver a efici\u00eancia operacional e a reduzir custos\u00bb.<\/p>\n<p>Por outro lado, desde a Cimeira da Terra no Rio de Janeiro que os maiores potentados petrol\u00edferos e outras multinacionais de \u00e2mbito global formaram organiza\u00e7\u00f5es de lobby defendendo a harmonia entre os combust\u00edveis f\u00f3sseis e o meio ambiente. \u00c9 o caso da Coliga\u00e7\u00e3o para o Clima Global (CCG) e do Conselho do Clima, sempre com influ\u00eancia garantida nas COP.<\/p>\n<p>A CCG diz de si pr\u00f3pria que \u00abvem liderando a voz dos neg\u00f3cios na mudan\u00e7a do clima\u00bb. Entre os seus membros est\u00e3o o American Petroleum Institute, a DuPont, Dow, Ford, GM, Texaco, Chevron, Exxon Mobil e a Shell. Gigantes de atividades consideradas nocivas para o ambiente.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, onde \u00abneg\u00f3cios\u00bb parece ser a palavra m\u00e1gica, h\u00e1 uma quest\u00e3o de fundo e de senso comum que invalida quaisquer exerc\u00edcios de linguagem sobre o fim da utiliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo e de outros combust\u00edveis f\u00f3sseis no \u00e2mbito da \u00abtransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u00bb: passa pela cabe\u00e7a de algu\u00e9m que as continuadas e agressivas procura e explora\u00e7\u00e3o de novas fontes de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural continuem a se desenvolver para que estes produtos n\u00e3o sejam aproveitados enquanto n\u00e3o se esgotarem \u2013 se isso chegar a acontecer?<\/p>\n<p>Faz sentido que se travem guerras e outros conflitos geo-estrat\u00e9gicos de alto grau em torno da instala\u00e7\u00e3o e dos percursos de oleodutos e gasodutos se o fim da utiliza\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural estiver previsto a curto\/m\u00e9dio prazo? N\u00e3o \u00e9 certamente para suspender a utiliza\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis que numerosos pa\u00edses no mundo, entre eles os Estados Unidos e o Reino Unido, desenvolvem o fracking ou fratura hidr\u00e1ulica, m\u00e9todo de extra\u00e7\u00e3o altamente poluidor de terras e \u00e1guas subterr\u00e2neas.<\/p>\n<p>N\u00e3o esque\u00e7amos, entretanto, que o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Albert Gore, agora um verdadeiro \u00abpapa\u00bb da ecologia e dos neg\u00f3cios \u00abverdes\u00bb, acarinhou entusiasticamente a guerra do Kosovo, conflito que teve como um dos objetivos a constru\u00e7\u00e3o de um oleoduto transbalc\u00e2nico. Foi ainda na administra\u00e7\u00e3o Clinton\/Gore que os Estados Unidos negociaram com os Talib\u00e3 a passagem de um oleoduto atrav\u00e9s do Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>E que dizer do desesperado jogo de amea\u00e7as e san\u00e7\u00f5es conduzido pelos Estados Unidos contra o gasoduto Nord Stream II entre a R\u00fassia e a Alemanha?<\/p>\n<p>Mais elucidativo ainda foi o discurso do presidente norte-americano Joseph Biden na COP26, onde o seu pa\u00eds chegou com os mais nefastos recordes de sempre em termos de polui\u00e7\u00e3o e exist\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Dando vaz\u00e3o ao seu passatempo favorito &#8211; disparar acusa\u00e7\u00f5es contra a R\u00fassia e a China -, Biden culpou Moscou e a OPEP de serem respons\u00e1veis pela infla\u00e7\u00e3o e pelas subidas de pre\u00e7os dos combust\u00edveis e do petr\u00f3leo. Disse: os pre\u00e7os sobem \u00abpor causa da recusa da R\u00fassia e da OPEP em extrair maiores quantidades de petr\u00f3leo\u00bb.<\/p>\n<p>Ora, em plena cimeira alegadamente anti-combust\u00edveis f\u00f3sseis como base da luta contra o aquecimento global, o presidente dos Estados Unidos \u2013 que foi considerado uma esp\u00e9cie de patrono da magna reuni\u00e3o \u2013 defendeu a extra\u00e7\u00e3o de mais petr\u00f3leo. Pouco mais seria preciso dizer sobre a credibilidade deste sonante conclave e da solidez do conceito de \u00abtransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u00bb.<\/p>\n<p>As finan\u00e7as \u00abverdes\u00bb<\/p>\n<p>As altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas s\u00e3o para levar a s\u00e9rio, muito a s\u00e9rio; a chamada \u00abtransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u00bb tamb\u00e9m, mas n\u00e3o pelos mesmos motivos de quem a prega em redundantes discursos para prometer a neutralidade de carbono \u2013 alguns grandes poluidores garantem que j\u00e1 a atingiram, como publicita a BP.<\/p>\n<p>Os mesmos discursos prometem tamb\u00e9m a sustentabilidade, esse grande milagre tornado o maior lugar comum da atualidade, engodo sa\u00eddo das cabe\u00e7as pensantes do FMI e Banco Mundial, Goldman Sachs, Deutsche Bank, Funda\u00e7\u00e3o Rockfeller, F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial (Davos) e outras institui\u00e7\u00f5es de bem, para n\u00e3o deixar pedra sobre pedra nos processos atuais de produ\u00e7\u00e3o de riqueza.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 novidade que os grandes senhores do capitalismo apropriaram-se da suposta luta contra as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, vendo nela grandes oportunidades de neg\u00f3cio atrav\u00e9s da altera\u00e7\u00e3o das bases da economia e de uma ainda mais vantajosa reformula\u00e7\u00e3o das finan\u00e7as globais.<\/p>\n<p>Na COP de Glasgow um dos mais apregoados resultados \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as banc\u00e1rias de \u00e2mbito global com o objetivo de recolher pelo menos 130 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para ajudar a \u00abtransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u00bb, principalmente nos pa\u00edses mais pobres do mundo.<\/p>\n<p>Percebe-se assim que n\u00e3o s\u00e3o os bancos e as multinacionais que se comprometem a alcan\u00e7ar o zero de emiss\u00f5es; na verdade, financiam e endividam milh\u00f5es e milh\u00f5es de pessoas que dever\u00e3o ser respons\u00e1veis pela neutralidade de carbono, muitas delas em pa\u00edses e regi\u00f5es onde o principal combust\u00edvel \u00e9 ainda a madeira. Tornando esses pa\u00edses e regi\u00f5es mais dependentes, mais endividados, menos capazes de conduzir as suas pol\u00edticas respeitando os interesses dos seus povos, integrados assim num globalismo de rapina que beneficia n\u00e3o mais de 1% da popula\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>No site da COP proclama-se que \u00abas finan\u00e7as tornaram-se verdes e resilientes\u00bb, nascendo para isso a \u00abAlian\u00e7a Financeira para a Neutralidade de Carbono de Glasgow\u00bb.<\/p>\n<p>A nova \u00abalian\u00e7a\u00bb envolve bancos internacionais e regionais, al\u00e9m do Banco Mundial, e tamb\u00e9m grandes expoentes globais como os j\u00e1 citados bancos Goldman Sachs (que \u00abfaz o papel de Deus na Terra\u00bb, segundo o seu presidente) e o Deutsche Bank. \u00abTrata-se de investir nos pr\u00f3ximos tr\u00eas anos\u00bb, informa a COP, \u00abmais de 130 bilh\u00f5es de d\u00f3lares privados para transformar a economia at\u00e9 \u00e0s emiss\u00f5es zero em 2050\u00bb.<\/p>\n<p>Os capitais ser\u00e3o constitu\u00eddos atrav\u00e9s de \u00abobriga\u00e7\u00f5es verdes\u00bb (green bonds), os famosos \u00abt\u00edtulos verdes\u00bb em que os patronos do globalismo neoliberal assentam as transforma\u00e7\u00f5es na economia planet\u00e1ria para supostamente combater as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas; e tamb\u00e9m com investimentos de fundos comuns e fundos de pens\u00f5es, pelo que as poupan\u00e7as de milh\u00f5es e milh\u00f5es de pequenos aforradores v\u00e3o ser lan\u00e7adas em mais uma grande bolha especulativa.<\/p>\n<p>Voltemos a Albert Gore. Foi ele quem fundou, juntamente com o Goldman Sachs e o Blackrock, o maior fundo de investimento do mundo, a Bolsa do Clima de Chicago. \u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o vocacionada para especular com os \u00abt\u00edtulos verdes\u00bb e os \u00abcr\u00e9ditos de carbono\u00bb (inventados igualmente por Gore), que mais n\u00e3o s\u00e3o do que licen\u00e7as para emitir gases de efeito estufa compradas a pa\u00edses e regi\u00f5es que, pelo prec\u00e1rio desenvolvimento das suas economias, n\u00e3o atingem sequer os n\u00edveis de polui\u00e7\u00e3o considerados ainda aceit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Enfim, temos o sistema financeiro global a criar mais uma &#8211; e promissora &#8211; fonte de especula\u00e7\u00e3o, que se mover\u00e1 essencialmente por a\u00e7\u00e3o da propaganda apocal\u00edptica em torno das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas mais do que pela ess\u00eancia esclarecedora do fen\u00f3meno. O conhecimento e a informa\u00e7\u00e3o objetiva e sustentada s\u00e3o inimigos da alienante cultura de sound bite que alimenta a rela\u00e7\u00e3o das pessoas com o aquecimento global.<\/p>\n<p>Os estatutos da Bolsa do Clima de Chicago, fundada em 2003, foram redigidos ent\u00e3o por um jovem advogado chamado Barack Obama, que, enquanto presidente norte-americano, viria a criar condi\u00e7\u00f5es para alimentar a campanha obsessiva em torno das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas como via para reformar e revitalizar o sistema financeiro \u2013 a ess\u00eancia do neoliberalismo globalizante.<\/p>\n<p>Na COP de Glasgow estiveram presentes dirigentes pol\u00edticos que, enquanto proclamam a amea\u00e7a do \u00abapocalipse clim\u00e1tico\u00bb, investem trilh\u00f5es de d\u00f3lares em armas nucleares, engenhos capazes, numa \u00ednfima percentagem dos existentes, de destruir num \u00e1pice a vida no planeta. Uma possibilidade na verdade muito mais aterradora, a curto prazo, do que os efeitos das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Disso n\u00e3o se falou e n\u00e3o se fala nos meios de manipula\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Pelo que \u00e9 da ess\u00eancia das organiza\u00e7\u00f5es e dos militantes anticapitalistas tomar em m\u00e3os o combate contra todas as amea\u00e7as \u00e0 vida do ser humano na Terra, sejam a guerra, nuclear ou n\u00e3o, as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, as desigualdades, a rapina de mat\u00e9rias-primas, a agroind\u00fastria transnacional, as circunst\u00e2ncias que criam milh\u00f5es de refugiados e desalojados, a desfloresta\u00e7\u00e3o. Como diz a can\u00e7\u00e3o, isto anda tudo ligado \u2013 e o tra\u00e7o de uni\u00e3o \u00e9 o capitalismo.<\/p>\n<p>Entretanto, a oposi\u00e7\u00e3o oficial \u00e0 habitual falta de consist\u00eancia dos resultados das COP e \u00e0 via imposta para suposto combate \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas \u2013 mas s\u00f3 \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas \u2013 \u00e9 folcl\u00f3rica, imberbe, inconsequente, inconsistente. Mas nada disto \u00e9 inocente.<\/p>\n<p>O s\u00edmbolo do movimento, significativamente endeusado pela m\u00eddia, continua a ser a adolescente sueca Greta Thunberg, por sinal, segundo jornalistas independentes, de alguma maneira vinculada a empresas e projetos que t\u00eam \u00e0 cabe\u00e7a o v\u00e1rias vezes citado Albert Gore. Compreende-se assim que Thunberg seja frequentadora das reuni\u00f5es do F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial e dos ambientes da Comiss\u00e3o Europeia, onde discursa para puxar as orelhas dos principais dirigentes internacionais, que a escutam com sorridente bonomia.<\/p>\n<p>Desta feita, em Glasgow, Greta Thunberg ficou do lado de fora dos espa\u00e7os da reuni\u00e3o, distribuindo mensagens pela comunica\u00e7\u00e3o social. Talvez o conv\u00edvio directo e vis\u00edvel com os autores da estrat\u00e9gia oficial n\u00e3o seja muito favor\u00e1vel \u00e0 credibilidade da oposi\u00e7\u00e3o oficial.<\/p>\n<p>Na Esc\u00f3cia, depois de um imponente e amea\u00e7ador dinossauro ter aberto os trabalhos anunciando o fim da esp\u00e9cie humana na Terra \u2013 a extin\u00e7\u00e3o dos dinossauros n\u00e3o teve origem no aquecimento global provocado por gases de efeito de estufa e outros subprodutos dos processos industriais \u2013 o primeiro-ministro brit\u00e2nico iniciou a s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es na COP26.<\/p>\n<p>Com a particularidade de ser um crente de \u00faltima hora nas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, porque durante muito tempo foi conhecido como um negacionista. Enquanto colaborador do Daily Telegraph escreveu mesmo um impactante artigo sob o t\u00edtulo: \u00abEsque\u00e7am o aquecimento global, o problema \u00e9 a superpopula\u00e7\u00e3o global\u00bb.<\/p>\n<p>Agora, j\u00e1 convertido, Boris Johnson aterrorizou os presentes com uma interven\u00e7\u00e3o sobre a \u00abamea\u00e7a apocal\u00edptica das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas\u00bb, uma cat\u00e1strofe, segundo disse, \u00e0 qual o pr\u00f3prio James Bond poder\u00e1 nem chegar a tempo de evitar.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos se, por enquanto, James Bond vai jogando com green bonds ou cr\u00e9ditos de carbono na Bolsa de Chicago para ajudar a financiar o combate ao aquecimento global e evitar \u00abo apocalipse\u00bb.<\/p>\n<p>Mais f\u00e1cil \u00e9 perceber que as altera\u00e7\u00f5es globais s\u00e3o consequ\u00eancia direta e inevit\u00e1vel do capitalismo, pelo que n\u00e3o ser\u00e1 o capitalismo, ainda mais na sua vers\u00e3o neoliberal e globalista, que as ir\u00e1 combater. Para j\u00e1, vai diversificando as suas \u00e1reas de neg\u00f3cio; depois, por este caminho, o \u00faltimo sobrevivente que apague a luz do candeeiro a petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Por Jos\u00e9 Goul\u00e3o, exclusivo O Lado Oculto\/AbrilAbril<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28046\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[233],"class_list":["post-28046","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7im","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28046","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28046"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28046\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28046"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28046"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28046"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}