{"id":28048,"date":"2021-11-14T23:51:43","date_gmt":"2021-11-15T02:51:43","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28048"},"modified":"2021-11-14T23:51:43","modified_gmt":"2021-11-15T02:51:43","slug":"contra-o-vanguardismo-e-o-obreirismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28048","title":{"rendered":"Contra o vanguardismo e o obreirismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/media.list.ly\/production\/132402\/994672\/item994672_600px.jpeg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->LavraPalavra<\/p>\n<p>Em defesa das vanguardas \u2013 contra o vanguardismo e o obreirismo<\/p>\n<p>Por Leandro Modolo e Rodolfo Sanchez<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito mais dif\u00edcil pescar uma dezena de s\u00e1bios que uma centena de tolos. E continuarei a defender essa posi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o importa quanto voc\u00eas incitem a multid\u00e3o contra o meu \u201cesp\u00edrito antidemocr\u00e1tico\u201d etc. Por \u201cs\u00e1bios\u201d, em mat\u00e9ria de organiza\u00e7\u00e3o, deve-se compreender, como o indiquei em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, apenas os revolucion\u00e1rios profissionais, tanto faz se foram forjados de estudantes ou oper\u00e1rios.\u201d V. I. Lenin<\/p>\n<p>Historicamente as lutas dos trabalhadores, em especial a sindicalista, enfrenta uma delicada (\u00e0s vezes infantil) contradi\u00e7\u00e3o que se expressa no obreirismo e no vanguardismo. Neste espa\u00e7o consideraremos as duas como posi\u00e7\u00f5es extremas e opostas nos desvios das vanguardas em geral. O primeiro \u00e9 resultado da busca por uma identifica\u00e7\u00e3o absoluta com aqueles que as vanguardas buscam sintetizar e representar, algo que decorre em posicionamentos acr\u00edticos e demag\u00f3gicos. E a segunda, trata-se das vanguardas que se autoproclamam superiores a tudo que as cercam, levando a desidentifica\u00e7\u00e3o com as pr\u00f3prias classes e movimentos dos quais buscam estarem vanguardas, consequentemente, reproduzem rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o que em tese deveriam ser atrofiadas e abolidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o cabe aqui remontarmos as hist\u00f3rias destas pr\u00e1ticas e de todo debate que atravessa as nossas trincheiras. Mas, considerando a cultura liberal que recorta a esquerda contempor\u00e2nea, consideramos importante fazer um esfor\u00e7o ensa\u00edstico para trazermos para o debate uma velha contradi\u00e7\u00e3o que atravessa a defesa das vanguardas e, com isso, fazer uma alerta para n\u00e3o cairmos em hist\u00f3ricos erros e em demagogias.<\/p>\n<p>Primeiro cabe deixar claro de qual contradi\u00e7\u00e3o estamos falando? Desde Marx e Engels e do chamado \u201csocialismo cient\u00edfico\u201d, as lutas entre burguesia e proletariado jogam um papel fundamental na luta anticapitalista. Com Lenin e seus seguidores tal luta ganhou contornos ainda mais acentuados, tornando-se o eixo fundamental da linha pol\u00edtica das organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. Se a ontologia e a epistemologia materialista de Marx e Engels pautaram as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o como categorias estruturantes da vida social e, vis a vis, a luta de classes como a sua din\u00e2mica pol\u00edtica. Lenin, por sua vez, compreendeu o papel decisivo da luta sindical como componente t\u00e1tico imprescind\u00edvel para o processo revolucion\u00e1rio, ao mesmo tempo em que fez da forma partido a principal ferramenta de organiza\u00e7\u00e3o das classes subalternas para levar a cabo a estrat\u00e9gia central dos bolcheviques: a revolu\u00e7\u00e3o socialista \u2013 lembrando sempre que a estrat\u00e9gia deve prevalecer sobre as t\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Para levar a cabo a revolu\u00e7\u00e3o socialista no s\u00e9culo XX, contudo, um desafio se colocou para os militantes revolucion\u00e1rios: como organizarmos te\u00f3rica e politicamente os trabalhadores que, embora tenham o capital inscrito na pele e no cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o produzem automaticamente a consci\u00eancia de classe e, t\u00e3o pouco, a consci\u00eancia socialista? O leninismo respondeu a esse problema de modo claro: atrav\u00e9s das vanguardas, ou seja, atrav\u00e9s do destacamento mais avan\u00e7ado dos revolucion\u00e1rios, os denominados por L\u00eanin de \u201crevolucion\u00e1rios profissionais\u201d.<\/p>\n<p>Vejam. Para L\u00eanin as lutas \u201ceconomistas\u201d dos trabalhadores s\u00f3 alcan\u00e7am uma consci\u00eancia e prop\u00f3sito revolucion\u00e1rio e socialista se houver a atua\u00e7\u00e3o de um(s) destacamento(s) que as orientem com um conjunto de t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias pautadas por teorias tamb\u00e9m revolucion\u00e1rias. Isto \u00e9, se houver \u201crevolucion\u00e1rios profissionais\u201d capazes de dirigirem conscientemente as atividades e insurrei\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas das massas para al\u00e9m das suas demandas e necessidades imediatas e individualistas, orientando-as para consolida\u00e7\u00e3o de uma \u201chegemonia socialista\u201d e, ao fim e a cabo, a constru\u00e7\u00e3o de um duplo poder capaz de fazer frente ao Estado burgu\u00eas. Por essa raz\u00e3o, ainda segundo Lenin, a organiza\u00e7\u00e3o de um partido revolucion\u00e1rio deve ser de um \u201cg\u00eanero diferente\u201d da organiza\u00e7\u00e3o de luta econ\u00f4mica. Se a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores contra o patr\u00e3o se d\u00e1 nos sindicatos por \u201ccategorias\u201d rumo a uma unidade solid\u00e1ria entre tais; a organiza\u00e7\u00e3o (partid\u00e1ria) socialista rumo ao comunismo deve englobar, antes de tudo, pessoas cuja profiss\u00e3o seja, justamente, a atividade revolucion\u00e1ria \u2013 por isso falamos de uma organiza\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios. A luta de classes, portanto, n\u00e3o se reduz esquematicamente ao antagonismo entre o trabalhador e o patr\u00e3o; ela faz confrontar a classe do proletariado \u00e0 classe dos capitalistas, al\u00e7a a consci\u00eancia e a luta ao n\u00edvel da reprodu\u00e7\u00e3o do conjunto dos capitais e do Estado burgu\u00eas enquanto for\u00e7a pol\u00edtica organizada, da\u00ed a fun\u00e7\u00e3o do partido.<\/p>\n<p>Aqui vale um destaque antes de avan\u00e7armos. Os m\u00e9todos de organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem ser considerados abstratamente, eles s\u00e3o ferramentas que devem se adequar de modo mais qualificado \u00e0 realidade concreta que pretendem operar. A realidade russa, segundo o bolchevique, impunha necessidades de um partido clandestino e centralizado, o que em certa medida dificultava a realiza\u00e7\u00e3o de um amplo debate interno. Cabe a n\u00f3s, contudo, cada qual no seu territ\u00f3rio, realidade nacional, etc. analisar e responder \u00e0 dial\u00e9tica entre a forma organizacional do partido e as necessidades das lutas concretas \u2013 algo que, infelizmente, tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1 debatido aqui. O que devemos reter disto \u00e9 que a luta pol\u00edtica do socialismo \u00e9 muito mais ampla e mais complexa do que a luta econ\u00f4mica dos oper\u00e1rios contra os patr\u00f5es \u2013 por sal\u00e1rios, horas de trabalho e demais direitos \u2013, isto \u00e9, a luta \u201ceconomista\u201d dos sindicatos.<\/p>\n<p>S\u00e3o dessas avalia\u00e7\u00f5es ent\u00e3o que surge a famosa (e longamente debatida) passagem de leniniana em o \u201cQue fazer?\u201d sobre as vanguardas: \u201cA consci\u00eancia pol\u00edtica de classe pode ser levada ao oper\u00e1rio somente a partir de fora, ou seja, de fora da luta econ\u00f4mica, de fora da esfera das rela\u00e7\u00f5es entre oper\u00e1rios e patr\u00f5es.\u201d Podemos dizer que essa passagem de algum modo resume sintomaticamente a contradi\u00e7\u00e3o que atravessa a luta de classes desde pelo menos 1848, quando o proletariado entrou na cena pol\u00edtica e sendo ela para o pensamento leniniano e leninista totalmente decisiva. Podemos analis\u00e1-la dizendo: se estamos certos de que para destruirmos o capitalismo e as classes dominantes que o sustentam \u00e9 central que os diretamente explorados pelo capital, o proletariado, assumam conscientemente a sua tarefa pol\u00edtica rumo ao socialismo; como ent\u00e3o levar isso a cabo se esta mesma classe se encontra subsumida em rela\u00e7\u00f5es de aliena\u00e7\u00e3o, fetichistas e s\u00e3o interpeladas diuturnamente pela ideologia dominante?<\/p>\n<p>A pergunta ret\u00f3rica, contudo, como sabemos, n\u00e3o se resume ao que est\u00e1 expl\u00edcito. H\u00e1 mais contido nela e algo decisivo. Ao afirmar que Marx, ou melhor, que toda Ci\u00eancia e Filosofia de Hegel, Marx, Engels, Rosa, Luk\u00e1cs, Gramsci, Mariategui, Davis, Beauvoir, Fanon e cia s\u00f3 poderiam ter nascido pelo acaso do \u201ctrabalho intelectual\u201d tamb\u00e9m seria afirmar uma hierarquia moral e cognitiva, uma superioridade de individualidades \u201ciluminadas\u201d? A resposta \u00e9 um materialista \u201cN\u00e3o!\u201d. Ao contr\u00e1rio, o destacamento desses \u201cintelectuais\u201d \u00e9 fruto de uma realidade da divis\u00e3o hier\u00e1rquica do trabalho imposta pelo capital \u2013 algo que n\u00e3o d\u00e1 para ser abolido por decreto \u2013 e \u00e9 dela que partimos materialmente para sermos capazes de dialeticamente operar na realidade concreta \u2013 aquela que \u00e9 aqui e agora, e n\u00e3o como gostar\u00edamos que fosse \u2013 rumo a aboli\u00e7\u00e3o efetiva dessa mesma hierarquia.<\/p>\n<p>Nesse sentido, L\u00eanin continua atual e certeiro: \u00e9 necess\u00e1rio profissionalizarmos os quadros militantes para que os membros das classes subalternas tenham condi\u00e7\u00f5es materiais de se formarem, n\u00e3o apenas nas lutas economistas dos sindicatos, mas sobretudo na e para as Ci\u00eancias e Filosofias revolucion\u00e1rias \u2013 por essa raz\u00e3o o partido deve plasmar hoje a possibilidade material que s\u00f3 ser\u00e1 universalizada com o fim da propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cabe destacar, ademais, que as vanguardas n\u00e3o devem ser encaradas de modo estanque e est\u00e1tico, ou seja, n\u00e3o devem ser vistas de modo essencialista. Se se entende que a luta de classes se processa por rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7as din\u00e2micas, constitu\u00edda em circunst\u00e2ncias concretas e atravessadas por in\u00fameras conting\u00eancias, as vanguardas devem ser encaradas como um devir, jamais como algo ou algu\u00e9m que se apresenta a priori e se julga permanentemente como tal. A diversidade das lutas em um extenso campo de for\u00e7as desiguais envolve demandas e habilidades que n\u00e3o se determinam a partir de suas pr\u00f3prias equival\u00eancias e pressupostos \u201cessenciais\u201d. Dito de outro modo, vanguarda \u00e9 um atributo, um predicado, n\u00e3o um substantivo ou um verbo. De modo que o mais acertado \u00e9 dizer que um destacamento em uma dada situa\u00e7\u00e3o concreta est\u00e1 vanguarda e n\u00e3o \u00e9 vanguarda, logo, muitos destacamentos estar\u00e3o vanguardas numa ocasi\u00e3o de lutas e em outras n\u00e3o. Retendo li\u00e7\u00f5es antigas podemos dizer: devemos operar numa din\u00e2mica dial\u00e9tica que caminha do \u201cpara\u201d as classes subalternas, \u201ccom\u201d as classes subalternas e, no esfor\u00e7o e objetivo maior do horizonte revolucion\u00e1ria, \u201cdas\u201d classes subalternas \u2014 quando o conjunto dos saberes revolucion\u00e1rios se condensam e tornam-se efetivamente a Filosofia dos sujeitos e sujeitas empenhados em transformarem o atual estado de coisas.<\/p>\n<p>Dito isso, outra quest\u00e3o se coloca: al\u00e7ar os saberes produzidos por \u201cintelectuais\u201d como Marx, Rosa e cia. \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de Verdade \u2013 que dirigir\u00e1 luta(s) situadas visando um projeto nacional e internacionalista \u2013 \u00e9 invisibilizar e subjugar outros saberes? N\u00e3o, ou pelo menos, n\u00e3o \u00e9 devido que assim seja. As vanguardas devem valorizar com todas as suas for\u00e7as os saberes de todas as classes subalternas. Bastaria dizer que n\u00e3o h\u00e1 \u201cdoutor engenheiro\u201d que saiba mais como funciona o ch\u00e3o da f\u00e1brica do que o saber comum criado entre os trabalhadores e trabalhadoras que diariamente, 10 horas por dia, se dedicam \u00e0s suas tarefas; n\u00e3o h\u00e1 \u201cdoutor advogado\u201d que saiba mais como agem as for\u00e7as repressoras do Estado burgu\u00eas nos territ\u00f3rios perif\u00e9ricos como os muitos negros e negras que vivem historicamente o genoc\u00eddio perpetrados contra eles; n\u00e3o h\u00e1 \u201cdoutora m\u00e9dica\u201d que saiba mais como funciona as experi\u00eancias abortivas do que as mulheres perif\u00e9ricas que n\u00e3o t\u00eam assist\u00eancia alguma para o acolhimento antes, durante e depois da interven\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Como diria Gramsci, todos somos intelectuais, mesmo que nem todos tenhamos como of\u00edcio a intelectualidade. Se colocar contr\u00e1rio a visibilidade, a voz, a legitimidade e a pot\u00eancia dos saberes subalternos, portanto, \u00e9 ir contra uma das principais tarefas dos socialistas: extinguir a divis\u00e3o hier\u00e1rquica do trabalho e seus corol\u00e1rios sobre a produ\u00e7\u00e3o dos saberes. Desse modo, \u00e9 um imperativo que as vanguardas se constituam tamb\u00e9m a partir e pelos saberes at\u00e9 ent\u00e3o subalternizados.<\/p>\n<p>Em verdade, o contr\u00e1rio a essa pr\u00e1xis deve ser compreendido como uma das caracter\u00edsticas centrais do que estamos chamando aqui de \u201cvanguardismo\u201d, um desvio do prop\u00f3sito \u00e9tico-pol\u00edtico das vanguardas revolucion\u00e1rias. Considerando que \u201cinforma\u00e7\u00f5es\u201d, \u201cconhecimentos\u201d, \u201csaberes\u201d e cia. s\u00e3o fontes importantes de poder e, consequentemente, podem ser meios de domina\u00e7\u00e3o; as vanguardas socialistas n\u00e3o devem se desviar de sua tarefa pol\u00edtica e \u00e9tica que \u00e9 justamente socializar o poder e abolir todas as formas de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. Logo, se ela se apresentar como \u201csuperior\u201d e \u201ciluminada\u201d em todas as dimens\u00f5es das lutas sociais, inclusive individualmente frente aos demais camaradas atrav\u00e9s de v\u00edcios como a arrog\u00e2ncia, o sarcasmo, a ironia, o autoritarismo etc, estaremos reproduzindo aquilo que dizemos lutar contra. Tal postura individual ou coletiva deve ser sempre repreendida pelos demais camaradas, fazendo valer a camaradagem como uma rela\u00e7\u00e3o respeitosa de cr\u00edtica e autocr\u00edtica permanente.<\/p>\n<p>Nos esfor\u00e7os de n\u00e3o cairmos no vanguardismo, todavia, pode aparecer outro desvio, agora em sentido de extremo oposto: o obreirismo. O debate sobre o obreirismo, n\u00e3o raro, \u00e9 encarado como ultrapassado, mas ao avaliarmos que atualmente ele pode estar presente com roupas novas e que tamb\u00e9m expressa um desvio das vanguardas em suas tarefas, devemos olh\u00e1-lo com um pouco de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O obreirismo afetou o \u201cmovimento comunista\u201d ao longo do mundo todo, incluindo o Brasil. De modo r\u00e1pido, o obreirismo \u00e9 aquele posicionamento moral e pol\u00edtico de que somente os diretamente explorados est\u00e3o habilitados a conduzir as suas lutas, de que somente tais t\u00eam lugar de fala para defenderem e deliberarem sobre as suas pr\u00f3prias lutas. Quase como um fetiche (aqui no sentido psicanal\u00edtico) pelo \u201coper\u00e1rio\u201d, chegou-se a considerar que o modo como os mais explorados vivem, se vestem, comem e pensam eram as formas mais elogi\u00e1veis moral e politicamente de se comportar. E qualquer postura cr\u00edtica \u201cde fora\u201d era tachada como elitista, intelectualista, arrogante e autorit\u00e1ria. Nesse sentido, estudantes, artistas e intelectuais (acad\u00eamicos) socialistas oriundos de classes mais abastadas eram estimulados a vestirem macac\u00e3o azul do velho oper\u00e1rio como um exerc\u00edcio de humildade moral e horizontalidade pol\u00edtica \u2013 em alguns casos eles podiam ser banidos das inst\u00e2ncias de delibera\u00e7\u00e3o. No fim, para o obreirismo bastava o empoderamento \u201cde dentro\u201d dos \u201coper\u00e1rios propriamente ditos\u201d para alcan\u00e7armos a liberta\u00e7\u00e3o \u2013 podemos dizer que o obreirismo novecentista era algo tipo o \u201cidentitarismo liberal\u201d do nosso s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Para os que defendem a necessidade das vanguardas, ignorar a exist\u00eancia da aliena\u00e7\u00e3o e da domina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica sobre todos os explorados e dominados \u00e9 abandonar toda cr\u00edtica marxiana ao fetichismo da mercadoria e \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o que incide no proletariado \u2013 incid\u00eancia, vale registrar, que ocorre desigualmente pelas raz\u00f5es da divis\u00e3o social do trabalho. Seguindo Lenin, tomar as nossas ignor\u00e2ncias fruto da subsun\u00e7\u00e3o do trabalho ao capital como uma virtude, como a \u201cgenu\u00edna consci\u00eancia oper\u00e1ria\u201d \u00e9 cair na demagogia. E contra os demagogos ele dizia: \u201cnunca me cansarei de repetir que os demagogos s\u00e3o os piores inimigos da classe oper\u00e1ria\u201d, mesmo n\u00e3o tendo d\u00favidas \u201cquanto \u00e0 pureza de suas inten\u00e7\u00f5es; j\u00e1 disse que a ingenuidade pol\u00edtica por si s\u00f3 tamb\u00e9m pode converter uma pessoa em demagogo.\u201d<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o obreirista, nessa esteira, seria \u201co c\u00famulo da falta de l\u00f3gica\u201d, porque ela confunde o problema filos\u00f3fico e hist\u00f3rico-social das \u201cprofundas ra\u00edzes\u201d, do enraizamento nas bases dos trabalhadores, com uma quest\u00e3o t\u00e9cnica de organiza\u00e7\u00e3o para empreender a luta de modo mais eficaz poss\u00edvel contra os nossos inimigos. E, tamb\u00e9m, \u201co c\u00famulo da falta de tato pol\u00edtico\u201d, porque em vez de apelar para os bons dirigentes contra os maus dirigentes, apela demagogicamente para a \u201cmultid\u00e3o\u201d contra os dirigentes em geral \u2013 sobretudo se estes n\u00e3o estiverem com as m\u00e3os calejadas e de macac\u00e3o azul, isto \u00e9, se n\u00e3o forem eles oriundos de classes \u201cpuramente\u201d exploradas. Talvez Lenin estivesse, mais uma vez, implicitamente levantando uma pergunta ret\u00f3rica: Engels por ser de origem burguesa n\u00e3o foi um grande revolucion\u00e1rio? Ou, com a licen\u00e7a para um anacronismo: Guevara, Zetkin, Allende, Saffioti, Caio Prado Jr., Beauvoir etc n\u00e3o teriam \u201clugar de fala\u201d como revolucion\u00e1rios por n\u00e3o serem de origem prolet\u00e1ria \u201craiz\u201d?<\/p>\n<p>\u00c9 certo que passado o s\u00e9culo XX n\u00e3o seria um exerc\u00edcio dial\u00e9tico dos comunistas se n\u00f3s jog\u00e1ssemos no ralo as acertadas cr\u00edticas feitas \u00e0s Ci\u00eancias modernas pelas epistemologias subalternizadas (seja as feministas, as ind\u00edgenas, as negras etc.). Mas, t\u00e3o pouco, devemos jogar o beb\u00ea com a \u00e1gua do banho. As verdades decantadas na hist\u00f3rica luta te\u00f3rica e pr\u00e1tica das classes subalternizadas, isto \u00e9, na suas Ci\u00eancias revolucion\u00e1rias com enunciados que pretendem os lugares de Verdades, s\u00e3o ferramentas imprescind\u00edveis para a revolu\u00e7\u00e3o socialista rumo ao comunismo. E delas n\u00e3o podemos prescindir.<\/p>\n<p>Trocando em mi\u00fados: enunciarmos que a mais-valia \u00e9 uma verdade universal do modo produ\u00e7\u00e3o capitalista e a defendermos como tal \u00e9 uma ferramenta insubstitu\u00edvel na luta contra a explora\u00e7\u00e3o burguesa; enunciarmos e defendermos que o racismo estrutural \u00e9 uma verdade universal da forma de vida capitalista \u00e9 uma ferramenta insubstitu\u00edvel na luta contra a opress\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o branca; enunciar que o patriarcado \u00e9 uma uma verdade universal da forma de vida capitalista \u00e9 uma arma decisiva contra a opress\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o do homem; enunciar que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 uma verdade universal da forma de vida capitalista e evoc\u00e1-la como tal \u00e9 insubstitu\u00edvel na luta contra ecoc\u00eddio\u2026 Agora, \u00e9 preciso ficar ratificado in\u00fameras vezes, n\u00e3o s\u00e3o somente os saberes produzidos nas academias, nos laborat\u00f3rios e nos livros que tem o que nos dizer e ensinar sobre tudo isso. Em verdade, decantar essa diversidade de saberes \u00e9 um dos nossos grandes desafios no s\u00e9culo XXI. Do mesmo modo que ter como imperativo que o valor da isonomia dos saberes n\u00e3o deve obscurecer ou anular a necess\u00e1ria decanta\u00e7\u00e3o coletiva dessa diversidade em Ci\u00eancias e Filosofias revolucion\u00e1rias, tamb\u00e9m \u00e9 uma tarefa hist\u00f3rica, epist\u00eamica, pol\u00edtica e \u00e9tica.<\/p>\n<p>Dito tudo isso, sem perder de vista que um pa\u00eds como o Brasil \u00e9 recortado por abissais desigualdades econ\u00f4micas, levando, portanto, em conta a brutal hierarquiza\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o do trabalho que atravessa todas as nossas classes subalternas, para nos despedir fiquemos com o velho L\u00eanin:<\/p>\n<p>\u201cUm comit\u00ea de estudantes n\u00e3o serve, \u00e9 inst\u00e1vel.\u201d Absolutamente correto! Mas aqui a conclus\u00e3o \u00e9 de que \u00e9 necess\u00e1rio um comit\u00ea de revolucion\u00e1rios profissionais, tanto fazendo se ser\u00e1 um estudante ou um oper\u00e1rio que se desenvolver\u00e1 como um revolucion\u00e1rio profissional. A conclus\u00e3o de voc\u00eas \u00e9 de que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio estimular do exterior o movimento oper\u00e1rio! Em sua ingenuidade pol\u00edtica, nem sequer se d\u00e3o conta de que est\u00e3o fazendo o jogo dos nossos \u201ceconomistas\u201d e do nosso car\u00e1ter artesanal. Como \u00e9 que nossos estudantes, permitam-me perguntar, \u201cestimularam\u201d nossos oper\u00e1rios? Unicamente com os estudantes levando aos oper\u00e1rios os fragmentos de conhecimentos pol\u00edticos que eles pr\u00f3prios tinham, os fragmentos de ideias socialistas que eles adquiriram (porque o principal alimento espiritual do estudante de nossos dias, o marxismo legal, n\u00e3o lhes pode oferecer mais do que as primeiras letras, mais do que fragmentos). E esse \u201cest\u00edmulo de fora\u201d n\u00e3o foi muito consider\u00e1vel, mas, pelo contr\u00e1rio, foi insignificante, escandalosamente insignificante em nosso movimento, pois n\u00f3s nos cozinhamos com demasiada dilig\u00eancia em nosso pr\u00f3prio molho, nos prostramos com demasiado servilismo diante da elementar \u201cluta econ\u00f4mica dos oper\u00e1rios contra os patr\u00f5es e contra o governo\u201d. N\u00f3s, revolucion\u00e1rios de profiss\u00e3o, devemos dedicar-nos cem vezes mais a esses \u201cest\u00edmulos\u201d, e nos dedicaremos. Mas justamente porque escolheram essa odiosa express\u00e3o \u201cest\u00edmulo de fora\u201d, que inevitavelmente provoca no oper\u00e1rio (pelo menos no oper\u00e1rio t\u00e3o pouco desenvolvido quanto voc\u00eas) a desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a todos os que lhe trazem de fora conhecimentos pol\u00edticos e experi\u00eancia revolucion\u00e1ria, e que desperta nele o desejo instintivo de repelir todas as pessoas assim; voc\u00eas agem como demagogos, e os demagogos s\u00e3o os piores inimigos da classe oper\u00e1ria.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28048\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[224],"class_list":["post-28048","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7io","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28048","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28048"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28048\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28048"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28048"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28048"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}