{"id":28060,"date":"2021-11-19T07:38:57","date_gmt":"2021-11-19T10:38:57","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28060"},"modified":"2021-11-19T07:38:57","modified_gmt":"2021-11-19T10:38:57","slug":"licoes-da-derrota-imperialista-no-afeganistao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28060","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es da derrota imperialista no Afeganist\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/see.news\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/33666.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Jorge Cadima<\/p>\n<p>ODIARIO.INFO<\/p>\n<p>O fiasco afeg\u00e3o dos EUA em agosto de 2021 \u00e9 fruto de muitas d\u00e9cadas de inger\u00eancias imperialistas, incluindo vinte anos de invas\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o directa do Afeganist\u00e3o pelos EUA\/OTAN.<\/p>\n<p>O saldo da inger\u00eancia EUA\/OTAN no Afeganist\u00e3o \u00e9 um desastre completo. Muitas centenas de milhares de mortos; milh\u00f5es de refugiados e desalojados; um pa\u00eds destru\u00eddo, cuja economia gira \u00e0 volta da produ\u00e7\u00e3o do \u00f3pio (85% a 90% da produ\u00e7\u00e3o mundial) e que alimenta o tr\u00e1fico de drogas internacional, o sistema financeiro do capitalismo mundial e as opera\u00e7\u00f5es dos servi\u00e7os secretos do imperialismo. Mas o Afeganist\u00e3o nem sempre foi assim. Quem olhar hoje para fotografias do Afeganist\u00e3o nas d\u00e9cadas de 70 e 80 do s\u00e9culo passado ter\u00e1 dificuldade em acreditar que se trate do mesmo pa\u00eds que nos habituamos a ver nos anos mais recentes.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Afeg\u00e3 de 1978<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o de 27 de abril de 1978, encabe\u00e7ada pelo Partido Democr\u00e1tico Popular do Afeganist\u00e3o (PDPA) entroncou numa longa tradi\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia anti-imperialista do povo afeg\u00e3o, que enfrentou e infligiu derrotas ao poderoso Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico ao longo do S\u00e9culo XIX (1). Em 1919, sob a influ\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro na vizinha R\u00fassia, o governo brit\u00e2nico foi for\u00e7ado a reconhecer a independ\u00eancia do Afeganist\u00e3o. A URSS e o Afeganist\u00e3o estabeleceram ao longo do S\u00e9culo XX rela\u00e7\u00f5es de amizade e coopera\u00e7\u00e3o. Em 1973 a desacreditada monarquia afeg\u00e3 \u00e9 substitu\u00edda por uma Rep\u00fablica, mas cujo Presidente fora chefe do governo, e era primo do Rei. Cinco anos mais tarde o Afeganist\u00e3o juntar-se-ia a uma longa lista de pa\u00edses que conheceram avan\u00e7os revolucion\u00e1rios importantes no s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Miguel Urbano Rodrigues, num livro (2) relatando as suas viagens ao Afeganist\u00e3o revolucion\u00e1rio, conta como \u00abDias antes da revolu\u00e7\u00e3o, mais de 100 000 pessoas concentraram-se diante da Embaixada dos EUA em gigantesca manifesta\u00e7\u00e3o de protesto contra as inger\u00eancias imperialistas na vida nacional. [\u2026] Em Kabul, Herat e Kandahar vivia-se em atmosfera pr\u00e9-revolucion\u00e1ria. Nesses dias, uma cerim\u00f4nia religiosa n\u00e3o atrairia uma centena de pessoas. O rio da revolu\u00e7\u00e3o corria como uma torrente de montanha\u00bb.<\/p>\n<p>O conhecido jornalista australiano John Pilger escreve um merecido elogio \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Afeg\u00e3 de 1978, num artigo com o t\u00edtulo \u00abO Grande Jogo de esmagar na\u00e7\u00f5es\u00bb (rt.com, 25.8.2021): \u00abFoi uma revolu\u00e7\u00e3o imensamente popular que apanhou de surpresa ingleses e norte-americanos. Jornalistas estrangeiros em Cabul, relatou o The New York Times, ficaram surpreendidos ao descobrir que \u2018quase todos os afeg\u00e3os que entrevistaram diziam estarem encantados com o golpe\u2019. [\u2026] Secular, modernista e, em grau consider\u00e1vel, socialista, o governo declarou um programa de reformas vision\u00e1rias que inclu\u00eda direitos iguais para mulheres e minorias. Os presos pol\u00edticos foram libertados e os arquivos da pol\u00edcia pol\u00edtica queimados publicamente. Sob a monarquia a esperan\u00e7a de vida era de 35 anos; 1 em cada 3 crian\u00e7as morria na inf\u00e2ncia. Noventa por cento da popula\u00e7\u00e3o era analfabeta. O novo governo introduziu cuidados m\u00e9dicos gratuitos. Foi lan\u00e7ada uma campanha de alfabetiza\u00e7\u00e3o em massa. Para as mulheres, os ganhos n\u00e3o tinham precedentes: no final da d\u00e9cada de 1980, metade dos estudantes universit\u00e1rios eram mulheres, e as mulheres representavam 40% dos m\u00e9dicos do Afeganist\u00e3o, 70% dos professores e 30% dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos\u00bb. Era assim a revolu\u00e7\u00e3o popular conduzida pelos comunistas afeg\u00e3os.<\/p>\n<p>Refletindo a contradit\u00f3ria realidade do pa\u00eds foi decretada uma Reforma Agr\u00e1ria \u00abem nome de Al\u00e1\u00bb. Quase esquecido \u00e9 o fato de que o Afeganist\u00e3o chegou a ter um cosmonauta, Abdul Ahad Momand, que viajou para o espa\u00e7o em 1988, tendo passado seis dias na esta\u00e7\u00e3o espacial sovi\u00e9tica Mir. Ao falar com a sua fam\u00edlia, tornou o pashtun na quinta l\u00edngua falada a partir do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Foi para derrotar esta realidade de progresso e liberta\u00e7\u00e3o nacional e social revolucion\u00e1ria (com inevit\u00e1veis erros e evit\u00e1veis divis\u00f5es internas) que os EUA, em nome do anticomunismo e do anti-sovietismo, desencadearam uma gigantesca e brutal opera\u00e7\u00e3o de inger\u00eancia e subvers\u00e3o. Retiraram do caixote de lixo da Hist\u00f3ria as mais retr\u00f3gradas e reacion\u00e1rias for\u00e7as feudais e do fundamentalismo religioso, a quem entregaram milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares, armamento sofisticado e legitimidade pol\u00edtica para cometer os seus crimes \u2013 simbolizada pela recep\u00e7\u00e3o na Casa Branca dos dirigentes dos mujahedins.<\/p>\n<p>Em resposta a esta agress\u00e3o externa, o governo afeg\u00e3o apelou \u00e0 ajuda militar sovi\u00e9tica, no final de 1979. Uma opera\u00e7\u00e3o que foi rapidamente convertida pela propaganda ao servi\u00e7o do imperialismo em \u00abinvas\u00e3o do Afeganist\u00e3o\u00bb. Seria como classificar a atual presen\u00e7a russa na S\u00edria, a pedido do governo leg\u00edtimo desse pa\u00eds, como uma \u2018invas\u00e3o\u2019. A propaganda do imperialismo \u00e9 ex\u00edmia em converter as v\u00edtimas em agressores e vice-versa.<\/p>\n<p>Esta verdade dos fatos foi abertamente confessada pelo ex-Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a Nacional dos EUA, Zbigniew Brzezinski, em entrevista \u00e0 revista francesa Nouvel Observateur (n.\u00ba 1372, 15.1.1998). Afirmou: \u00absegundo a vers\u00e3o oficial da Hist\u00f3ria [sic] a ajuda da CIA aos mujahedins come\u00e7ou em 1980, ou seja ap\u00f3s a invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o pelo ex\u00e9rcito sovi\u00e9tico, a 24 de dezembro de 1979. Mas a realidade, mantida secreta at\u00e9 agora [sic] \u00e9 bem diferente: foi na realidade a 3 de julho de 1979 que o Presidente Carter assinou a primeira diretiva sobre a ajuda clandestina aos opositores do regime pr\u00f3-sovi\u00e9tico de Cabul. E nesse dia eu escrevi uma nota ao Presidente na qual explicava que, em minha opini\u00e3o, esta ajuda iria desembocar numa interven\u00e7\u00e3o militar dos sovi\u00e9ticos\u00bb. O jornalista da Nouvel Observateur insistiu que \u00abquando os sovi\u00e9ticos justificaram a sua interven\u00e7\u00e3o afirmando que visavam lutar contra uma inger\u00eancia secreta dos EUA no Afeganist\u00e3o, ningu\u00e9m acreditou neles. E no entanto, tinham um fundo de raz\u00e3o\u2026 Voc\u00ea n\u00e3o lamenta nada hoje?\u00bb. Brzezinski responde: \u00abLamentar o qu\u00ea? Esta opera\u00e7\u00e3o secreta foi uma excelente ideia. Teve por efeito atrair os russos para a ratoeira afeg\u00e3 e voc\u00ea quer que eu me lamente?\u00bb. Perante a insist\u00eancia do jornalista que perguntava se n\u00e3o lamentava \u00abter dado armas e conselhos a futuros terroristas\u00bb, o Conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional dos EUA respondia: \u00abO que \u00e9 mais importante para a Hist\u00f3ria do mundo? Os talib\u00e3s ou a queda do imp\u00e9rio sovi\u00e9tico?\u00bb. Palavras carregadas de amarga ironia, no ver\u00e3o de 2021, face \u00e0 d\u00e9b\u00e2cle norte-americana no Afeganist\u00e3o e aos sinais cada vez mais evidentes da decad\u00eancia dos EUA.<\/p>\n<p>Os fatos falam por si: a liberta\u00e7\u00e3o nacional e social dos povos conquista-se pela luta e gera inevitavelmente a resist\u00eancia violenta das classes dominantes, internas e externas. A hipocrisia da comunica\u00e7\u00e3o social pr\u00f3-imperialista sobre \u2018direitos humanos\u2019 ou \u2018direitos das mulheres\u2019 \u00e9 revoltante. Mas raia o inconceb\u00edvel quando aborda o Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o imperialista do Afeganist\u00e3o<\/p>\n<p>Importa relembrar o que significou, no concreto, o apoio do imperialismo aos seus \u2018combatentes pela liberdade\u2019 terroristas. Pode-se faz\u00ea-lo citando fontes apoiantes do imperialismo. Em 27 de Fevereiro de 1980 o Di\u00e1rio de Not\u00edcias republicou uma reportagem do New York Times onde se afirma: \u00abOs &#8216;mujahedin&#8217; n\u00e3o fazem prisioneiros [\u2026] \u2018Queriam mandar toda a gente \u00e0s aulas deles, mesmo os velhos e as mulheres com mais de 10 filhos. Portanto matamos o professor que era comunista e fugimos\u2019 diz-nos um guerrilheiro, explicando o que acontecera na sua aldeia. [\u2026] Dois dos jovens mujahedin conduziram um dos visitantes a uma ravina por tr\u00e1s da aldeia, onde diziam ter executado 16 comunistas. Havia ossos humanos espalhados entre as rochas\u00bb.<\/p>\n<p>Mas a maioria dos crimes \u2018democr\u00e1ticos\u2019 n\u00e3o chega ao grande p\u00fablico. O famoso jornalista Robert Fisk escreveu (Independent, 23.9.2001): \u00abEm 1980 eu trabalhava para o The Times, e mesmo a sul de Cabul ouvi uma hist\u00f3ria muito perturbadora. Um grupo de combatentes religiosos mujahedin tinha atacado uma escola porque o regime comunista for\u00e7ara as raparigas a serem educadas ao lado dos rapazes. E tinham bombardeado a escola, assassinado a mulher do diretor e cortado a cabe\u00e7a ao seu marido. Era tudo verdade. Mas quando o The Times publicou a hist\u00f3ria o Foreign Office [Ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros ingl\u00eas] protestou junto dos servi\u00e7os internacionais [do jornal] porque o meu relato apoiava os russos. Claro. Porque os combatentes afeg\u00e3os eram os gajos bons. Porque Osama bin Laden era um bom mo\u00e7o. Charles Douglas-Hume, ent\u00e3o editor do The Times insistia sempre que os guerrilheiros afeg\u00e3os fossem designados \u2018combatentes pela liberdade\u2019 nas manchetes\u00bb.<\/p>\n<p>A s\u00f3rdida alian\u00e7a do imperialismo com o terrorismo contrarrevolucion\u00e1rio \u00e9 uma constante da Hist\u00f3ria. Lembremos a L\u00edbia, a S\u00edria e o ISIS, como antes a Nicar\u00e1gua, Angola ou Mo\u00e7ambique. A barb\u00e1rie da domina\u00e7\u00e3o imperialista, seja pelas guerras de agress\u00e3o directa, seja por interpostos bandos terroristas ao seu servi\u00e7o, \u00e9 uma realidade que nenhuma propaganda poder\u00e1 jamais apagar.<\/p>\n<p>A altera\u00e7\u00e3o na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as mundial, resultante da vit\u00f3ria da contrarrevolu\u00e7\u00e3o na URSS e outros pa\u00edses do Leste europeu, acabaria por representar tamb\u00e9m o dobre de finados para a Revolu\u00e7\u00e3o Saur [de Abril] afeg\u00e3. Mas importa assinalar, at\u00e9 pelo que confirma de base de apoio popular a essa revolu\u00e7\u00e3o e pelo contraste evidente com os acontecimentos recentes, que o governo progressista afeg\u00e3o sobreviveu mais de tr\u00eas anos ap\u00f3s a sa\u00edda do \u00faltimo soldado sovi\u00e9tico (15.2.1989) e sobreviveu mesmo quase meio ano \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (26.12.1991). Foi apenas em Abril de 1992 que o \u00faltimo Presidente do Afeganist\u00e3o progressista, Mohammad Najibullah, cercado pelo imperialismo triunfante e abandonado pela camarilha colaboracionista de Ieltsin, se demitiu e refugiou nas instala\u00e7\u00f5es da ONU em Cabul. Quatro anos mais tarde, quando os talib\u00e3s tomaram pela primeira vez Cabul (26.9.1996, Najibullah foi o seu primeiro alvo. O jornalista Jason Burke (escrevendo na London Review of Books em 22.3.2001) descreve assim o que se passou ap\u00f3s o rapto do ex-Presidente das instala\u00e7\u00f5es da ONU: \u00abfoi espancado, castrado, arrastado para detr\u00e1s de um jipe e depois fuzilado. Tamb\u00e9m o seu irm\u00e3o foi morto e os seus corpos maltratados foram pendurados numa trave [\u2026] no centro da cidade\u00bb. \u00c9 evidente o paralelismo com o assassinato do Presidente l\u00edbio Kadafi no final da guerra da OTAN de 2011. O imperialismo gosta de castigos p\u00fablicos exemplares de quem se atreve a fazer-lhe frente.<\/p>\n<p>O imperialismo n\u00e3o \u00e9 invenc\u00edvel<\/p>\n<p>Os pa\u00edses alvo das campanhas imperialistas s\u00e3o rapidamente esquecidos nas manchetes da comunica\u00e7\u00e3o social de regime quando o \u2018perigo\u2019 do progresso social \u00e9 afastado e \u2018a ordem\u2019 \u00e9 restabelecida. Mesmo que esses pa\u00edses caiam no desastre total. Foi o que aconteceu com o Afeganist\u00e3o, que conheceu alguns dos anos mais terr\u00edveis de combates e destrui\u00e7\u00e3o entre 1992 e 1996, no sil\u00eancio medi\u00e1tico. A capital, ocupada pelos mujahedins da Alian\u00e7a do Norte ap\u00f3s a demiss\u00e3o de Najibullah em 1992, esteve cercada pelos talib\u00e3s durante tr\u00eas anos. Alvo de bombardeios constantes por parte dos sitiantes, Cabul conheceu mais de 20 mil mortos e 100 mil feridos (Time, 27.2.1995). Quando os talib\u00e3s tomaram a cidade instalaram um regime de terror, com execu\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e rigoros\u00edssimas medidas de cariz religioso.<\/p>\n<p>Mas a invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o pelos EUA em dezembro de 2001 n\u00e3o teve por objetivo central p\u00f4r fim ao regime dos talib\u00e3s, a quem a guerra suja financiada pelo imperialismo abriu as portas do poder. O que realmente determinou a invas\u00e3o foi a viragem na pol\u00edtica dos EUA ap\u00f3s o desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. O imperialismo norte-americano, sentindo-se liberto duma realidade que o condicionara e limitara durante tr\u00eas quartos de s\u00e9culo, passou \u00e0 ofensiva. Os sinais da decad\u00eancia da hegemonia planet\u00e1ria dos EUA, hoje por demais evidentes, j\u00e1 eram vis\u00edveis no final do mil\u00eanio (3), embora a vit\u00f3ria pol\u00edtica sobre o campo socialista ajudasse a camuflar essa realidade. Numa tentativa de contrariar o seu decl\u00ednio, o imperialismo norte-americano decidiu aproveitar a conjuntura e passar \u00e0 ofensiva, com a ocupa\u00e7\u00e3o directa de numerosos pa\u00edses, nomeadamente do M\u00e9dio Oriente rico em recursos energ\u00e9ticos cruciais para uma domina\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Seja qual for a verdade dos factos dos ataques de 11 de setembro de 2001 (a \u00fanica coisa segura \u00e9 que a vers\u00e3o oficial n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade), o que \u00e9 evidente \u00e9 que estes serviram de pretexto para a grande viragem do imperialismo EUA em direc\u00e7\u00e3o a uma estrat\u00e9gia de ocupa\u00e7\u00f5es diretas. Eram os anos em que, como confessou o General Wesley Clarke, ex-chefe das for\u00e7as armadas da OTAN na guerra contra a Iugosl\u00e1via, nos corredores do Pent\u00e1gono se proclamava abertamente que nos cinco anos seguintes sete pa\u00edses seriam invadidos e ocupados (4). Eram os anos em que um neocon, de nome Jonah Goldberg, escrevia tranquilamente um artigo com o t\u00edtulo \u00abBaghdad Delenda Est\u00bb (5) descrevendo o que designava por \u2018Doutrina Ledeen\u2019: \u00abA cada dez anos, os Estados Unidos precisam de pegar num pequeno pa\u00eds de merda e atir\u00e1-lo contra a parede, s\u00f3 para mostrarmos ao mundo que falamos a s\u00e9rio\u00bb (www.nationalreview.com, 23.4.2002) (6). A arrog\u00e2ncia n\u00e3o conhecia limites.<\/p>\n<p>Mas a Hist\u00f3ria veio mostrar os limites do imperialismo. Vinte anos transcorridos ap\u00f3s a invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o, e face \u00e0 resist\u00eancia que nunca deixou de se manifestar, mesmo por parte dos seus antigos aliados, os EUA acabam por se retirar de forma humilhante do Afeganist\u00e3o. Duas d\u00e9cadas de massacres, que prosseguiram literalmente at\u00e9 ao \u00faltimo dia (7), tiveram como saldo uma desprestigiante retirada. O espect\u00e1culo do \u2018Presidente\u2019 Ghani a fugir do pa\u00eds com 169 milh\u00f5es de d\u00f3lares no avi\u00e3o (news.yahoo.com, 18.8.2021) \u00e9 elucidativo da natureza do regime fantoche de ocupa\u00e7\u00e3o criado pelos EUA. Tal como o \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o do ex-Vice-Presidente Saleh feita por Scott Ritter, ex-fuzileiro e inspector de armamentos da ONU antes da invas\u00e3o do Iraque de 2003, e que entrou em rota de colis\u00e3o com a pol\u00edtica externa do seu pa\u00eds ao constatar as mentiras sobre as \u2018armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa de Saddam Hussein\u2019. Ritter afirma (8) que \u00abSaleh \u00e9 um tipo importante na CIA\u00bb, que \u00abgeria esquadr\u00f5es da morte\u00bb cujo objetivo era \u00abassassinar dirigentes talib\u00e3s\u00bb e \u00abas suas fam\u00edlias\u00bb. E acrescenta que os membros destes esquadr\u00f5es da morte \u00abs\u00e3o as pessoas que transportamos para fora do Afeganist\u00e3o nos nossos avi\u00f5es [durante a retirada]. S\u00e3o eles que est\u00e3o vindo para os Estados Unidos\u00bb.<\/p>\n<p>No seu discurso de 31 de agosto, o Presidente Biden explica a retirada, referindo-se aos incomport\u00e1veis custos econ\u00f4micos e pol\u00edticos da guerra. Biden queixou-se que 20 anos de ocupa\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o custaram aos EUA \u00ab2 trilh\u00f5es de d\u00f3lares\u00bb, ou seja \u00ab300 milh\u00f5es de d\u00f3lares por dia ao longo de duas d\u00e9cadas\u00bb, e deu a informa\u00e7\u00e3o \u00abchocante\u00bb de que \u00abem m\u00e9dia, 18 ex-combatentes se suicidam, por dia, na Am\u00e9rica\u00bb. Este colossal valor, sensivelmente igual a oito anos de Produto Interno Bruto de Portugal, alimentou os mega-lucros privados do complexo militar-industrial. Mas contribuiu para o insustent\u00e1vel endividamento do Estado norte-americano. As discuss\u00f5es em curso sobre a eleva\u00e7\u00e3o do patamar da d\u00edvida p\u00fablica dos EUA (quase 30 trilh\u00f5es de d\u00f3lares) mostram que a situa\u00e7\u00e3o a que conduziram d\u00e9cadas de pilhagem dos recursos p\u00fablicos pelo grande capital comprometem a viabilidade do seu Estado.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m uma li\u00e7\u00e3o importante a extrair dos acontecimentos afeg\u00e3os: apesar de uma esmagadora superioridade de recursos, o imperialismo, quando confrontado com resist\u00eancia, pode ser derrotado. Os processos hist\u00f3ricos, econ\u00f4micos, sociais e pol\u00edticos n\u00e3o ficam em suspenso. E, quando se acumulam as contradi\u00e7\u00f5es, d\u00e3o-se saltos qualitativos que evidenciam a realidade que a propaganda midi\u00e1tica tenta ocultar.<\/p>\n<p>Biden como Trump; a UE como os EUA<\/p>\n<p>A sa\u00edda das tropas dos EUA do Afeganist\u00e3o \u2013 independentemente dos distanciamentos e cr\u00edticas que se seguiram \u00e0 d\u00e9b\u00e2cle \u2013 foi uma op\u00e7\u00e3o partilhada pelas fac\u00e7\u00f5es da classe dirigente norte-americana que se degladiam com ferocidade. O acordo com os talib\u00e3s prevendo a retirada foi originalmente assinado em fevereiro de 2020 pelo ent\u00e3o Presidente Trump e deveria ter sido concretizada at\u00e9 Maio deste ano. O novo Presidente Biden adiou a retirada, mas concretizou-a.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da insustentabilidade financeira e pol\u00edtica duma guerra que se arrastava sem fim \u00e0 vista h\u00e1 20 anos, tamb\u00e9m existe outra realidade a sublinhar: o acentuado decl\u00ednio relativo dos EUA e a ascens\u00e3o impetuosa da Rep\u00fablica Popular da China e do seu papel na economia mundial. N\u00e3o se trata apenas de uma compara\u00e7\u00e3o de Produtos Internos Brutos, embora seja de sublinhar que a China j\u00e1 \u00e9 hoje a maior economia mundial em termos de Paridade de Poder de Compra (PIB PPP). \u00c9 tamb\u00e9m a entrada em for\u00e7a da China em setores tecnologicamente de ponta, entre os quais os voos espaciais, as telecomunica\u00e7\u00f5es 5G, a computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica, a robotiza\u00e7\u00e3o de inteiras instala\u00e7\u00f5es portu\u00e1rias. E \u00e9 sobretudo o desafio que a ascens\u00e3o chinesa representa para o imperialismo, para mais vinda de um pa\u00eds que \u00e9 herdeiro da segunda grande Revolu\u00e7\u00e3o Socialista da Hist\u00f3ria e \u00e9 dirigido por um Partido que se define como marxista-leninista. O problema n\u00e3o est\u00e1 numa fict\u00edcia \u2018agressividade\u2019 chinesa. O que \u00e9 bem real \u00e9 a agressividade do imperialismo, que encara como \u2018amea\u00e7a\u2019 qualquer desafio \u00e0 sua hegemonia mundial, nem que seja por permitir que o resto do planeta possa ter alternativas aos ditames do grande capital monopolista e das institui\u00e7\u00f5es a seu servi\u00e7o (como o FMI e o Banco Mundial). Uma \u2018amea\u00e7a\u2019 contra a qual o imperialismo reage por todas as formas que considera necess\u00e1rias e vi\u00e1veis, incluindo a guerra, como o General Loureiro dos Santos antecipou h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas (Di\u00e1rio de Not\u00edcias, 13.3.2000).<\/p>\n<p>\u00c9 sobre esta base que assentam outros elementos de unidade entre as fac\u00e7\u00f5es apoiantes de Trump e Biden no seio do grande capital dos EUA: a identifica\u00e7\u00e3o da China como inimigo principal; a recentragem de toda a pol\u00edtica externa e militar em fun\u00e7\u00e3o do grande objetivo de travar e domesticar a China; a necessidade imperiosa de inverter o curso de desindustrializa\u00e7\u00e3o e decad\u00eancia dos EUA para poder enfrentar esse \u2018desafio\u2019.<\/p>\n<p>O Estado norte-americano precisa desesperadamente de sanear a sua situa\u00e7\u00e3o financeira, para poder investir na reconstru\u00e7\u00e3o das decr\u00e9pitas infraestruturas do pa\u00eds e tentar retomar um poderio econ\u00f3mico e tecnol\u00f3gico que tem perdido (com \u00f3bvias implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e militares). Mas para isso ter\u00e1 de redirecionar aspectos fundamentais da sua pol\u00edtica do \u00faltimo meio s\u00e9culo, que conduziram ao empobrecimento acentuado de milh\u00f5es de trabalhadores norte-americanos e a um descontentamento crescente que alimenta a crise pol\u00edtica no pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 certo que essa reorienta\u00e7\u00e3o seja concretiz\u00e1vel, o que pode alimentar tend\u00eancias aventureiristas.<\/p>\n<p>Naturalmente que a retirada das tropas terrestres dos EUA do Afeganist\u00e3o n\u00e3o significa o fim da inger\u00eancia no Oriente M\u00e9dio, ou sequer no Afeganist\u00e3o. Como ter\u00e1 dito o atual diretor da CIA, William Burns (9), \u00abos militares norte-americanos podem ter sa\u00eddo do Afeganist\u00e3o, mas a CIA n\u00e3o\u00bb. O imperialismo j\u00e1 confiscou os dinheiros do Banco Central afeg\u00e3o no exterior. A inger\u00eancia e desestabiliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e da regi\u00e3o ir\u00e1 prosseguir tamb\u00e9m por meios a\u00e9reos ou espaciais (\u00absobre o horizonte\u00bb como diz Biden) e por interpostas (novas ou velhas) organiza\u00e7\u00f5es terroristas, como o misterioso ISIS-K. \u00c9 expect\u00e1vel que sejam redirecionadas em fun\u00e7\u00e3o do alvo chin\u00eas, mas tamb\u00e9m visando desestabilizar outras pot\u00eancias da regi\u00e3o, como a R\u00fassia e o Ir\u00e3o, que t\u00eam afirmado de forma crescente a sua autonomia e resist\u00eancia \u00e0s desesperadas tentativas de manter um mundo hegemonizado pelos EUA.<\/p>\n<p>Mas o fiasco afeg\u00e3o acabar\u00e1 por agravar em numerosos campos a crise da hegemonia planet\u00e1ria dos EUA. Mesmo entre classes dominantes tradicionalmente subordinadas ao imperialismo norte-americano, ser\u00e3o inevit\u00e1veis as discuss\u00f5es e avalia\u00e7\u00f5es sobre a melhor forma de defender os seus interesses neste inst\u00e1vel mundo em profunda mudan\u00e7a e quando se multiplicam os sinais da decad\u00eancia do poder do imperialismo norte-americano.<\/p>\n<p>A vassalagem manifestada ao longo de d\u00e9cadas pela Uni\u00e3o Europeia e os seus governos \u2013 incluindo sucessivos governos portugueses \u2013 \u00e0s pol\u00edticas de guerra e agress\u00e3o do imperialismo norte-americano \u00e9 vergonhosa. S\u00e3o c\u00famplices dos crimes cometidos, nomeadamente no Afeganist\u00e3o, cuja ocupa\u00e7\u00e3o inicial pelos EUA foi convertida em \u00abmiss\u00e3o OTAN\u00bb. E nem sequer detinham real poder de decis\u00e3o, como ficou patente no momento da retirada. Esta vassalagem acr\u00edtica, que se manifesta igualmente em numerosos outros campos (participa\u00e7\u00e3o noutras guerras de agress\u00e3o e violadoras da Carta da ONU; empenhamento nas vergonhosas campanhas contra pa\u00edses soberanos, incluindo a confisca\u00e7\u00e3o dos seus bens, como acontece com as contas banc\u00e1rias em Portugal da Venezuela Bolivariana; confronta\u00e7\u00e3o e san\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00fassia) n\u00e3o impedem que os EUA se apropriem de forma mafiosa ou sancionem empresas europeias (veja-se o caso do assalto \u00e0 j\u00f3ia da coroa da engenharia francesa, a Alstom). No imperialismo, a concerta\u00e7\u00e3o sempre coexiste com as rivalidades.<\/p>\n<p>Mas a roda da Hist\u00f3ria n\u00e3o p\u00e1ra. E cabe aos povos determinar o seu sentido de marcha, aprendendo as li\u00e7\u00f5es que lhe permitam retomar os caminhos dos avan\u00e7os revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Notas<br \/>\n(1) Veja-se o texto de E\u00e7a de Queiroz sobre o Afeganist\u00e3o nas suas \u00abCartas de Inglaterra\u00bb.\u21b2<br \/>\n(2) \u00abPol\u00f4nia e Afeganist\u00e3o. O cerco imperialista \u00e0 contra-informa\u00e7\u00e3o\u00bb, Editorial Caminho, 1983.\u21b2<br \/>\n(3) Veja-se a clarividente caracteriza\u00e7\u00e3o da realidade internacional na Resolu\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica do XV Congresso do PCP, em 1996.\u21b2<br \/>\n(4) Os sete pa\u00edses eram o Iraque, S\u00edria, L\u00edbano, L\u00edbia, Som\u00e1lia, Sud\u00e3o e Ir\u00e3. Nenhum dos grandes patrocinadores do terrorismo fundamentalista estava nesta lista (www.democracynow.org, 2.3.2007).\u21b2<br \/>\n(5) \u2018Bagd\u00e1 deve ser destru\u00edda\u2019 em Latim, numa \u00f3bvia alus\u00e3o \u00e0 forma como o Senador Romano Cat\u00e3o terminava os seus discursos, pedindo a destrui\u00e7\u00e3o do grande rival mediterr\u00e2nico de Roma, a cidade de Cartago.\u21b2<br \/>\n(6) Michael Ledeen, alegado autor desta \u2018Doutrina\u2019, \u00e9 um homem do establishment e dos servi\u00e7os secretos dos EUA. Foi o inventor da falsa e provocat\u00f3ria \u2018pista b\u00falgara\u2019 na tentativa de assassinato do Papa Jo\u00e3o Paulo II.\u21b2<br \/>\n(7) O chefe do Comando Central dos EUA, General McKenzie, confessou que uma fam\u00edlia de 10 pessoas, incluindo sete crian\u00e7as, foi morta \u00abpor engano\u00bb num ataque por drones no dia 29 de Agosto de 2021 (NY Post, 17.9.21).\u21b2<br \/>\n(8) Ver o v\u00eddeo em www.consortiumnews.com, \u2018Watch CN Live! \u2013 Afghanistan: the 20-year disaster\u00bb, 31.8.2021 (perto da marca de 1h10m).\u21b2<br \/>\n(9) Citado nas j\u00e1 referidas declara\u00e7\u00f5es de Scott Ritter.\u21b2<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/www.omilitante.pcp.pt\/pt\/375\/Internacional\/1850\/Li%C3%A7%C3%B5es-da-derrota-imperialista-no-Afeganist%C3%A3o.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28060\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[374],"tags":[234],"class_list":["post-28060","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-afeganistao","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7iA","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28060","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28060"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28060\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28060"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28060"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28060"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}