{"id":28090,"date":"2021-11-25T02:08:22","date_gmt":"2021-11-25T05:08:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28090"},"modified":"2021-11-25T02:08:22","modified_gmt":"2021-11-25T05:08:22","slug":"a-mao-oculta-da-gra-bretanha-no-golpe-de-1964","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28090","title":{"rendered":"A m\u00e3o oculta da Gr\u00e3-Bretanha no golpe de 1964"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/brasil\/imagens\/goulart_uthant.png\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->\u2013 O Reino Unido atuou para a instaura\u00e7\u00e3o da ditadura empresarial-militar que perdurou por 21 anos<\/p>\n<p>John McEvoy [*]<\/p>\n<p>Em 31 de Mar\u00e7o de 1964, foi perpetrado o golpe militar contra o Presidente brasileiro Jo\u00e3o Goulart. A democracia do Brasil j\u00e1 era fr\u00e1gil e Goulart tentava lan\u00e7ar um ambicioso programa de Reforma Agr\u00e1ria ao mesmo tempo em que estendia o voto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o analfabeta do Brasil, incendiando a elite pol\u00edtica, militar e empresarial do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O golpe culminou em 1\u00ba de abril de 1964, e deu in\u00edcio a uma ditadura militar de 21 anos. Durante este per\u00edodo, mais de 400 indiv\u00edduos foram mortos pelos militares brasileiros e muitos mais foram &#8220;desaparecidos&#8221;, torturados ou presos.<\/p>\n<p>A m\u00e3o de Washington no golpe \u00e9 bem conhecida. Logo ap\u00f3s a posse Goulart na presid\u00eancia, em 1961, a CIA come\u00e7ou a despejar dinheiro no pa\u00eds, apoiando secretamente manifesta\u00e7\u00f5es de rua e incitando sentimentos anticomunistas. Uma vez em curso o golpe, o Presidente Lyndon Johnson deu instru\u00e7\u00f5es aos seus assessores para &#8220;fazer tudo o que fosse necess\u00e1rio&#8221; para o apoiar.<\/p>\n<p>O Information Research Department (IRD), uma unidade do Minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios Estrangeiros brit\u00e2nico que atuou como bra\u00e7o de propaganda secreto durante a Guerra Fria, tamb\u00e9m esteve ativo no Brasil. Embora os EUA tenham desempenhado claramente um papel mais destacado, documentos recentemente desclassificados revelam a m\u00e3o oculta da Gr\u00e3-Bretanha no golpe atrav\u00e9s do seu apoio a agitadores chave.<\/p>\n<p>Vasta utiliza\u00e7\u00e3o de material IRD<\/p>\n<p>Em 1962, um engenheiro brasileiro chamado Glycon de Paiva ajudou a fundar o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES). Apesar de o IPES se apresentar como um instituto educacional, o seu verdadeiro objetivo era &#8220;organizar a oposi\u00e7\u00e3o a Goulart e manter dossi\u00eas sobre qualquer pessoa que Paiva considerasse inimiga&#8221;.<\/p>\n<p>O IPES estava intimamente ligado \u00e0 elite militar, pol\u00edtica e empresarial do Brasil. Com o general Golbery do Couto e Silva como seu chefe de gabinete, a organiza\u00e7\u00e3o compilou 400 mil dossi\u00eas sobre &#8220;inimigos&#8221; de esquerda do Brasil, cultivou um ex\u00e9rcito de informadores e propagandeou contra o governo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o golpe, o IPES contribuiu para a forma\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI) do Brasil, o qual &#8220;atuou como espinha dorsal do sistema de controle e repress\u00e3o do regime militar&#8221;.<\/p>\n<p>Documentos recentemente desclassificados detalham o apoio brit\u00e2nico ao IPES. Em 6 de fevereiro de 1962, o oficial de campo da IRD Robert Evans descreveu como &#8220;um dos desenvolvimentos mais significativos que afetou as minhas atividades foi a forma\u00e7\u00e3o do IPES&#8221;.<\/p>\n<p>Uma semana mais tarde, Geoffrey McWilliam, oficial do IRD, recebeu uma carta acerca de &#8220;Organiza\u00e7\u00f5es Anticomunistas de Empres\u00e1rios&#8221; no Brasil. O remetente permanece classificado e parece ser o servi\u00e7o de seguran\u00e7a brit\u00e2nico.<\/p>\n<p>A carta observava que &#8220;uma vez que a principal tarefa do IPES durante os pr\u00f3ximos meses ser\u00e1 assegurar que o Congresso n\u00e3o caia em m\u00e3os comunistas nas elei\u00e7\u00f5es de outubro, presumivelmente ter\u00e3o muita utiliza\u00e7\u00e3o para material IRD&#8221;.<\/p>\n<p>Notou-se com preocupa\u00e7\u00e3o, contudo, que o IPES estava sendo por demais descarado em rela\u00e7\u00e3o ao apoio estrangeiro. A carta prosseguia dizendo que:<\/p>\n<p>&#8220;O IPES, no seu desejo de mobilizar empresas estrangeiras, est\u00e1 atualmente sendo bastante arrojado (publica conjuntos do seu manifesto em ingl\u00eas, com cart\u00f5es de ades\u00e3o para assinar na linha pontilhada, etc). N\u00f3s (e os americanos) estamos tentando convenc\u00ea-los a ser mais discretos a este respeito e a desencorajar as empresas brit\u00e2nicas de tornar o seu apoio demasiado expl\u00edcito&#8221;.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois, empresas brit\u00e2nicas no Brasil criaram uma funda\u00e7\u00e3o para providenciar mais discretamente fundos ao IPES \u2013 um esquema que teve &#8220;a aprova\u00e7\u00e3o de departamentos do Embaixador de Sua Majestade e do Foreign Office&#8221;.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios Estrangeiros tamb\u00e9m concordou em prestar assist\u00eancia direta ao IPES. A funcion\u00e1ria s\u00eanior da IRD Rosemary Allott permitiu que o IPES recebesse &#8220;o nosso material&#8221;, mas o financiamento direto das suas opera\u00e7\u00f5es editoriais n\u00e3o foi aconselhado.<\/p>\n<p>Onze dias antes do golpe, Robert Evans observou: &#8220;mantenho um estreito contato com a filial carioca do IPES sobre as edi\u00e7\u00f5es em l\u00edngua portuguesa da literatura do IRD e para obter material para as for\u00e7as armadas&#8221;.<\/p>\n<p>Acrescentou que esperava encontrar um general do ex\u00e9rcito &#8220;que parece ter desenvolvido um m\u00e9todo singularmente bem sucedido para lidar com reuni\u00f5es de organiza\u00e7\u00f5es de frente comunistas&#8221;.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o golpe, a embaixada brit\u00e2nica reviu as opera\u00e7\u00f5es clandestinas da IRD no Brasil. &#8220;Antes da Revolu\u00e7\u00e3o, o nosso principal esfor\u00e7o de IRD n\u00e3o foi feito com o conhecimento e aprova\u00e7\u00e3o das autoridades&#8221;, escreveu o embaixador brit\u00e2nico Leslie Fry.<\/p>\n<p>Numa aparente refer\u00eancia ao IPES, Fry afirmou que:<\/p>\n<p>&#8220;alguns dos contatos do IRD revelaram-se ser os topos de icebergs bastante grandes, com lideran\u00e7a respons\u00e1vel. [&#8230;] Uma ou duas personalidades importantes t\u00eam andado por a\u00ed a falar da sua contribui\u00e7\u00e3o [oficial de campo da IRD Evans] para a derrota do comunismo no Brasil. \u00c9 bem verdade, mas n\u00e3o \u00e9 a esp\u00e9cie de coisa que queiramos dizer&#8221;.<\/p>\n<p>Produ\u00e7\u00e3o de documentos forjados<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 60, Evans tamb\u00e9m concordou em tomar &#8220;medidas limitadas como e quando a oportunidade se apresentar&#8221; para combater a atividade de esquerda no campo estudantil do Brasil.<\/p>\n<p>Uma dessas a\u00e7\u00f5es envolveu o acesso a &#8220;pontos estrat\u00e9gicos onde os estudantes se re\u00fanem&#8221; durante a noite e a afixa\u00e7\u00e3o de propaganda anticomunista &#8220;em salas de confer\u00eancia, salas de aula, lavabos, cantinas, etc&#8221;. Era uma opera\u00e7\u00e3o que &#8220;podia, naturalmente, ser aplicada igualmente bem por todo o continente&#8221;.<\/p>\n<p>De acordo com documentos obtidos ao abrigo da Lei da Liberdade de Informa\u00e7\u00e3o (Freedom of Information Act), o IRD tamb\u00e9m colaborou com os EUA produzindo documentos falsificados.<\/p>\n<p>Em 12 de mar\u00e7o de 1964, o secret\u00e1rio de Estado norte-americano Dean Rusk queixou-se a funcion\u00e1rios brasileiros sobre um Congresso de Solidariedade a Cuba &#8220;a se realizar no Rio com participantes de todo o mundo&#8221;.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois, o oficial do IRD J.L. Welser escreveu \u00e0 embaixada dos EUA em Londres sobre a produ\u00e7\u00e3o de &#8220;algum tipo de folheto subversivo&#8221; para perturbar o evento. A propaganda &#8220;subversiva&#8221; significava falsifica\u00e7\u00e3o de documentos \u2013 uma opera\u00e7\u00e3o arriscada em que os planejadores da IRD raramente se envolveram.<\/p>\n<p>&#8220;Tentamos fazer isto e n\u00e3o achamos muito f\u00e1cil&#8221;, escreveu Welser ao seu contato nos EUA.<\/p>\n<p>&#8220;Entretanto, fizemos um folheto que anexei a esta carta e que poder\u00e1 ter interesse em ver&#8221;. [&#8230;] Lamento ter sido t\u00e3o lento acerca disto, mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil escrever uma coisa desta esp\u00e9cie&#8221;.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois, Welser foi felicitado &#8220;por um excelente trabalho&#8221;.<\/p>\n<p>O IRD tamb\u00e9m ajudou a Uni\u00e3o C\u00edvica Feminina (UCF), um movimento de mulheres cat\u00f3licas que mobilizou manifesta\u00e7\u00f5es de rua antigovernamentais em massa nas semanas que antecederam o golpe.<\/p>\n<p>Em junho de 1964, Evans gabou-se de que a UCF havia sido &#8220;alimentada com uma dieta constante de material da IRD durante mais de um ano&#8221; e &#8220;desempenhou um papel de lideran\u00e7a em eventos recentes&#8221;. J. MacKinnon, funcion\u00e1rio da embaixada brit\u00e2nica, concordou, observando como &#8220;as mulheres desempenharam um papel vital na revolu\u00e7\u00e3o de 1\u00ba de abril&#8221;.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o golpe<\/p>\n<p>O golpe foi saudado pelos articuladores brit\u00e2nicos. Em julho de 1964, Fry observou que &#8220;o objetivo imediato do IRD est\u00e1 alcan\u00e7ado&#8221;.<\/p>\n<p>No ano seguinte, funcion\u00e1rios brit\u00e2nicos discutiram as cerim\u00f4nias de boas-vindas ao general Costa e Silva, instigador do golpe de estado, na visita \u00e0 Gr\u00e3-Bretanha. &#8220;As honras que mostrarmos ao general&#8221;, escreveu Fry em dezembro de 1965, &#8220;podem muito bem revelar-se uma contribui\u00e7\u00e3o t\u00e3o importante para a venda de equipamento brit\u00e2nico ao Brasil quanto os m\u00e9ritos do pr\u00f3prio equipamento&#8221;, referindo-se \u00e0 venda de armas.<\/p>\n<p>Depois de se ter tornado presidente do Brasil, em 1967, Costa e Silva assinou o Ato Institucional n\u00ba 5, que permitiu o fechamento do Congresso, removeu o habeas corpus, proibiu reuni\u00f5es pol\u00edticas e providenciou uma carta branca para a tortura. Estas medidas foram recebidas &#8220;com satisfa\u00e7\u00e3o por aqueles preocupados com a ind\u00fastria e o com\u00e9rcio&#8221;, observou o oficial de campo da IRD R. A. Wellington.<\/p>\n<p>Apesar das viola\u00e7\u00f5es maci\u00e7as dos direitos humanos, a IRD continuou &#8220;a ajudar o Brasil discretamente no dom\u00ednio da contra-subvers\u00e3o&#8221; durante a d\u00e9cada de 1970. O seu material cobria &#8220;temas anticomunistas [&#8230;], Black Power, a situa\u00e7\u00e3o estudantil e a posi\u00e7\u00e3o da Gr\u00e3-Bretanha a respeito de Gibraltar&#8221;.<\/p>\n<p>Por esta altura, Evans estava a produzir literatura que minimizava o impacto da interven\u00e7\u00e3o estrangeira no golpe de 1964.<\/p>\n<p>O jornalista brasileiro Geraldo Cantarino, que em 2011 publicou um livro pormenorizado sobre as opera\u00e7\u00f5es do IRD no Brasil, comentou as mais recentes revela\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8220;Este trabalho confirma que o IRD esteve secretamente ativo no Brasil durante muitos anos, unindo for\u00e7as com a cruzada anticomunista dos EUA e com a propaganda anticomunista engendrada por institui\u00e7\u00f5es brasileiras&#8221;.<\/p>\n<p>Ele acrescentou: &#8220;\u00c9 agora poss\u00edvel reafirmar que este esfor\u00e7o combinado contribuiu para a desestabiliza\u00e7\u00e3o do governo do Presidente Goulart, abrindo caminho para um regime militar que mudou o curso da hist\u00f3ria recente do Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>12\/Novembro\/2021<br \/>\n[*] Jornalista independente. Escreve para a International History Review, The Canary, Tribune Magazine, Jacobin e Brasil Wire.<br \/>\nO original encontra-se em Declassified UK e consortiumnews.com\/2021\/11\/12\/britains-hidden-hand-in-brazils-1964-coup\/<br \/>\nEste artigo encontra-se em resistir.info<\/p>\n<p>https:\/\/resistir.info\/brasil\/golpe_64_gb.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28090\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[234],"class_list":["post-28090","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7j4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28090","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28090"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28090\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28090"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28090"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28090"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}