{"id":28098,"date":"2021-11-26T01:42:29","date_gmt":"2021-11-26T04:42:29","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28098"},"modified":"2021-11-26T01:42:29","modified_gmt":"2021-11-26T04:42:29","slug":"sobre-a-irresponsabilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28098","title":{"rendered":"Sobre a irresponsabilidade"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2021\/11\/imagem_artigomauroiasi.png?w=750\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Qual o risco de manter o miliciano no governo at\u00e9 o fim de seu mandato? Parece-me que h\u00e1 um exagerado otimismo no fato de que a ofensiva midi\u00e1tica e jur\u00eddica contra o bolsonarismo o inviabilize eleitoralmente, abrindo espa\u00e7o para a terceira via. Os segmentos dominantes est\u00e3o presos em suas pr\u00f3prias op\u00e7\u00f5es. H\u00e1 um ponto de n\u00e3o retorno no andamento de uma estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>Por Mauro Iasi<br \/>\n\u201cO pr\u00edncipe s\u00f3 adia a pr\u00f3pria ru\u00edna<br \/>\nna medida em que adia o ataque.\u201d<br \/>\nMaquiavel<\/p>\n<p>Os setores das classes dominantes, que protagonizaram a conspira\u00e7\u00e3o que levou ao golpe de 2016, apostaram irresponsavelmente na possibilidade de desmontar as bases da democracia de coopta\u00e7\u00e3o acreditando que, com isso, teriam um maior controle sobre o governo e a estabilidade necess\u00e1ria para impor sua pauta reacion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Novamente, exerceram a irresponsabilidade ao imaginar que poderiam manter sob controle a extrema direita como instrumento de ataque irracional ao petismo, de forma a viabilizar uma alternativa de direita apresentada como meio termo e que evitasse aquilo que ideologicamente era apresentado como \u201cposi\u00e7\u00f5es radicais\u201d. Mais uma vez, em 2018, diante do naufr\u00e1gio da candidatura preferencial do grande capital, apostou irresponsavelmente na possibilidade de controlar um miliciano desqualificado, tosco e de uma incompet\u00eancia que beira imbecilidade, como pe\u00e7a de seu projeto de garantia das condi\u00e7\u00f5es da acumula\u00e7\u00e3o de capitais.<\/p>\n<p>Caracterizamos o golpe de 2016 como a combina\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o parlamentar, jur\u00eddica e midi\u00e1tica. No entanto, al\u00e9m desses vetores mais vis\u00edveis na trama conjuntural, n\u00e3o podemos deixar de considerar o grande capital monopolista e o imperialismo como verdadeiros sujeitos do golpe. Tanto um como o outro sempre operam em v\u00e1rios cen\u00e1rios, desgastando o governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes para mant\u00ea-lo sob controle ou substitu\u00ed-lo por algo mais confi\u00e1vel caso seja necess\u00e1rio. Temer, Cunha, Moro, Bolsonaro parecem ser protagonistas, mas s\u00e3o, de fato, pe\u00f5es movidos no tabuleiro da conjuntura.<\/p>\n<p>Ocorre que, ao se movimentarem, como por exemplo Cunha desatando o processo de impedimento de Dilma ou Temer e sua desastrada \u201cPonte para o Futuro\u201d, n\u00e3o passam de pe\u00f5es que esperam ocupar um espa\u00e7o que os fa\u00e7a \u00fatil para os planos de seus senhores. A extrema direita \u00e9 uma pe\u00e7a que, inicialmente, tinha um papel t\u00e1tico. Movida pela manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, alimentada pela frente jur\u00eddica, organizada e financiada pelo imperialismo, possu\u00eda uma fun\u00e7\u00e3o eminentemente de desgaste, e n\u00e3o como alternativa de governo. O descarte de Cunha, o fracasso de Temer e a inviabilidade eleitoral de uma direita tradicional abriram espa\u00e7o no tabuleiro para que a pe\u00e7a da extrema direita avan\u00e7asse.<\/p>\n<p>Uma vez eleito, o imbecil miliciano passou a ser uma pe\u00e7a inc\u00f4moda. Um palha\u00e7o que distrai a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico para que o m\u00e1gico fa\u00e7a sua parte. Apostou-se que os militares e a \u00e1rea econ\u00f4mica poderiam manter o buf\u00e3o sob tutela, limitando seus devaneios a arroubos ideol\u00f3gicos inofensivos, mas n\u00e3o foi o que ocorreu. O bolsonarismo causou estragos na pol\u00edtica internacional, na educa\u00e7\u00e3o, na infraestrutura, no meio ambiente, em uma ofensiva reacion\u00e1ria que minava a legitimidade e seriedade com as quais queriam disfar\u00e7ar a ofensiva contra os trabalhadores em benef\u00edcio do grande capital.<\/p>\n<p>Neste ponto a irresponsabilidade se apresentou no seu \u00e1pice quando o miliciano empreendeu suas inten\u00e7\u00f5es rupturistas contra as pr\u00f3prias inst\u00e2ncias do Estado burgu\u00eas que ele deveria preservar. Os protagonistas do golpe, os reais e n\u00e3o seus pe\u00f5es, promoveram um pacto entre militares, Parlamento e STF protelando a necessidade de afastar a pe\u00e7a defeituosa. A irresponsabilidade aqui ganha uma dimens\u00e3o tr\u00e1gica. A prevarica\u00e7\u00e3o do Parlamento em encaminhar os v\u00e1rios pedidos de impeachment e tamb\u00e9m do Judici\u00e1rio, que poderia ter levado \u00e0 frente investiga\u00e7\u00f5es sobre os crimes eleitorais e v\u00e1rios crimes de responsabilidade, mas que n\u00e3o o fez em nome do pacto. A pandemia fez com que os elementos do golpismo, a incompet\u00eancia, o irracionalismo e o negacionismo dos empres\u00e1rios se fundissem em uma cat\u00e1strofe sem precedentes.<\/p>\n<p>Qualquer um, diante das tentativas de golpe, esquemas fraudulentos de produ\u00e7\u00e3o e massifica\u00e7\u00e3o de fake news, ind\u00edcios de envolvimento com o submundo do crime e esquemas comprovados de corrup\u00e7\u00e3o, j\u00e1 estaria afastado e provavelmente na cadeia. No entanto, o miliciano foi mantido no governo e foi chorar no banheiro.<\/p>\n<p>A Rede Globo, porta voz de um segmento das classes dominantes que optou por passar \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o ao bolsonarismo (que ela mesma ajudou a produzir, diga-se de passagem), operou o malabarismo de separar as lamban\u00e7as do miliciano das medidas econ\u00f4micas que consistem no fundamento da pauta do capital, defendendo o ministro Guedes e seus del\u00edrios ultraliberais.<\/p>\n<p>Agora a irresponsabilidade se apresenta na inten\u00e7\u00e3o de desgastar o miliciano para viabilizar uma m\u00edtica terceira via e derrot\u00e1-lo eleitoralmente. A hesita\u00e7\u00e3o diante da possibilidade de desfechar o golpe mortal, por exemplo diante das evid\u00eancias da CPI, se explicaria, ao meu ver, por dois motivos. O andamento de uma pauta (reforma administrativa, privatiza\u00e7\u00f5es, reforma fiscal e tribut\u00e1ria, etc.) que poderia ser atrapalhada pela instabilidade de um processo de impeachment e o risco de confronto diante de uma poss\u00edvel resist\u00eancia dos esquemas de for\u00e7a do bolsonarismo. Este segundo aspecto ficou enfraquecido depois do desastrado ensaio de sete de setembro, mas ningu\u00e9m parece estar disposto a pagar para ver.<\/p>\n<p>Qual o risco de manter o miliciano no governo at\u00e9 o fim de seu mandato? Parece-me que h\u00e1 um exagerado otimismo no fato de que a ofensiva midi\u00e1tica e jur\u00eddica contra o bolsonarismo o inviabilize eleitoralmente, abrindo espa\u00e7o para a terceira via. Na forma como se apresenta o quadro atual, diante das dificuldades eleitorais e do material humano dispon\u00edvel para edificar a desejada alternativa ao bolsonarismo e ao petismo, Bolsonaro pode sobreviver at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es e ir ao segundo turno, reaglutinando a partir de sua base social uma alian\u00e7a pol\u00edtica que repita a polariza\u00e7\u00e3o de 2018. Caso isso n\u00e3o d\u00ea certo, seja pela manuten\u00e7\u00e3o do favoritismo da candidatura do ex-presidente Lula ou pela desidrata\u00e7\u00e3o da candidatura de Bolsonaro, restaria ainda ao miliciano desfechar aquilo que vem preparando e desejando desde o in\u00edcio: uma tentativa de golpe. J\u00e1 analisamos que a sustenta\u00e7\u00e3o real do golpismo como alternativa de poder nos parece pouco prov\u00e1vel, pela posi\u00e7\u00e3o dos militares e, principalmente, do grande capital e do imperialismo. No entanto, a mera tentativa pode ter consequ\u00eancias imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p>Os segmentos dominantes est\u00e3o presos em suas pr\u00f3prias op\u00e7\u00f5es. H\u00e1 um ponto de n\u00e3o retorno no andamento de uma estrat\u00e9gia. As for\u00e7as nazistas na Segunda Guerra poderiam ter reavaliado que o ataque simult\u00e2neo ao Leste, contra a poderosa URSS, e ao Ocidente foi um equ\u00edvoco, mas n\u00e3o podiam simplesmente recuar e pedir desculpas. As classes dominantes e seus pe\u00f5es empreenderam um caminho que n\u00e3o tem volta, est\u00e3o presas ao pacto que sustenta o bolsonarismo e com grandes dificuldades em efetivar um movimento que se livre dele sem desmontar o que j\u00e1 foi feito e colocar em risco a continuidade na dire\u00e7\u00e3o desejada.<\/p>\n<p>Tal fato n\u00e3o nos surpreende. O que poderia parecer estranho \u00e9 que este impasse contaminasse a alternativa que se apresenta na candidatura de Lula que, ao que tudo indica, comunga do desejo de evitar o desfecho do golpe final contra o bolsonarismo, agora na esperan\u00e7a de derrot\u00e1-lo eleitoralmente no pr\u00f3ximo ano. Entretanto, n\u00e3o h\u00e1 nada de inesperado ou surpreendente nisso.<\/p>\n<p>O que poderia causar estranheza em alguns analistas \u00e9 o fato de que o petismo, diante das contradi\u00e7\u00f5es no bloco advers\u00e1rio e com base em sua for\u00e7a eleitoral (em grande medida pelo carisma de sua lideran\u00e7a principal e pelo comportamento eleitoral que tende a operar por altern\u00e2ncias), poderia se apresentar mais forte para negociar em melhores termos a retomada do pacto e da democracia de coopta\u00e7\u00e3o. Mas isso n\u00e3o ocorre. O lulismo parece empenhado em outra dire\u00e7\u00e3o, qual seja, mostrar-se confi\u00e1vel aos segmentos dominantes e disposto a negociar os termos de sua volta ao governo, certo da inviabilidade da terceira via e do desgaste do bolsonarismo. Ocorre que procedendo dessa forma abre m\u00e3o de seu principal recurso de poder: suas pr\u00f3prias for\u00e7as.<\/p>\n<p>Por que isso n\u00e3o nos surpreende? Porque, assim como os setores dominantes, a estrat\u00e9gia petista j\u00e1 passou h\u00e1 muito tempo de seu ponto de n\u00e3o retorno. Dois aspectos me parecem preocupantes nesta dire\u00e7\u00e3o. Primeiro, \u00e9 ilus\u00e3o acreditar que possa se retomar ao pacto de onde parou, quando foi brutalmente interrompido pelo golpe de 2016. Segundo, porque \u00e9 irrespons\u00e1vel abdicar de enfrentar o bolsonarismo agora acreditando que ele est\u00e1 previamente derrotado em 2022. Como dizia o conhecido personagem de Brecht \u2013 o Sr. Keuner \u2013 \u201cn\u00e3o me atrapalhem, estou preparando meu pr\u00f3ximo erro\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 que come\u00e7amos com Maquiavel, deixemos ao final mais um dos s\u00e1bios conselhos do grande florentino: \u201cquod nihil sit tam infirmum aut instabile quam fama pontetiae non sua nixa\u201d, ou seja, \u201cnada \u00e9 t\u00e3o inst\u00e1vel quanto a fama de poderio de um pr\u00edncipe quando n\u00e3o apoiado na pr\u00f3pria for\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28098\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[223],"class_list":["post-28098","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7jc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28098","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28098"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28098\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28098"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28098"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28098"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}