{"id":28113,"date":"2021-12-02T03:57:06","date_gmt":"2021-12-02T06:57:06","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28113"},"modified":"2021-12-02T03:57:06","modified_gmt":"2021-12-02T06:57:06","slug":"40-anos-de-uma-pandemia-que-nao-acabou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28113","title":{"rendered":"40 anos de uma pandemia que n\u00e3o acabou"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/atoms\/image\/1099884-rvrsa_abr_120120175944.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Bal\u00f5es em homenagem ao Dia Mundial da Luta contra a Aids, 1\u00ba de dezembro<\/p>\n<p>Foto: Rovena Rosa\/ABr<\/p>\n<p>Depois de quatro d\u00e9cadas do registro da doen\u00e7a, contamina\u00e7\u00e3o pelo HIV ainda \u00e9 um problema de sa\u00fade p\u00fablica, mas causa menos medo nas gera\u00e7\u00f5es mais jovens<\/p>\n<p>C\u00e1tia Guimar\u00e3es &#8211; EPSJV\/FIOCRUZ<\/p>\n<p>Valentina nunca viu uma pessoa morrer de Aids. N\u00e3o teve tempo de ser f\u00e3 do Cazuza, tampouco ouviu falar do Betinho e sua campanha contra a fome nem assistiu aos filmes do Rock Hudson. Quando ela nasceu, nos anos 2000, as propagandas na televis\u00e3o e nos pontos de \u00f4nibus j\u00e1 anunciavam que \u201ca vida podia ser positiva com ou sem Aids\u201d, mostrando como era poss\u00edvel viver bem com HIV. Quando fez seu primeiro \u2018exame de sangue\u2019, o uso de seringas descart\u00e1veis j\u00e1 era parte da rotina dos servi\u00e7os de sa\u00fade e, embora ela provavelmente nem saiba, caso tivesse precisado de transfus\u00e3o ou hemodi\u00e1lise, encontraria bancos de sangue com um controle sanit\u00e1rio muito mais r\u00edgido do que aqueles que levaram a tantas contamina\u00e7\u00f5es nos anos 1980. Com vida sexual ativa, Valentina nem sequer se lembra da \u00faltima campanha p\u00fablica que lhe fez pensar sobre o uso do preservativo. Como tem mais medo de uma gravidez precoce do que de contrair Aids, a p\u00edlula anticoncepcional faz mais parte da sua vida do que a camisinha.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da personagem que abre esta reportagem, Jefferson Campos \u00e9 uma pessoa real. Hoje com 30 anos, ele recebeu o diagn\u00f3stico de HIV positivo em 2018, quando tinha 27. Cientista social com atua\u00e7\u00e3o na \u00e1rea da sa\u00fade, ele considera que era muito bem informado sobre o assunto, tanto que fazia testes peri\u00f3dicos \u2013 o que permitiu que descobrisse a infec\u00e7\u00e3o logo no come\u00e7o \u2013 e, na maioria das vezes, usava preservativo nas rela\u00e7\u00f5es sexuais. Campos diz que sua gera\u00e7\u00e3o chegou a pegar algumas campanhas mais fortes de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 Aids, mas ele percebia que os parceiros mais jovens \u2013 na casa dos 20 anos \u2013 tinham uma atitude \u201cmais frouxa\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 preven\u00e7\u00e3o. \u201cQuando o parceiro era da minha faixa et\u00e1ria, n\u00e3o tinha discuss\u00e3o, [o preservativo] estava ali. Se eu n\u00e3o demandasse, ele iria demandar o uso da prote\u00e7\u00e3o. J\u00e1 com uma galera mais jovem, essa demanda n\u00e3o vinha\u201d, relata.<\/p>\n<p>A sobreposi\u00e7\u00e3o dessas duas hist\u00f3rias serve para mostrar que, na verdade, Valentina n\u00e3o \u00e9 apenas uma personagem fict\u00edcia: ela \u00e9 uma tentativa de concentrar em um \u00fanico nome caracter\u00edsticas que os entrevistados desta reportagem reconhecem em boa parte da gera\u00e7\u00e3o mais jovem, herdeira do sucesso que a ci\u00eancia mundial e a pol\u00edtica brasileira conquistaram no combate \u00e0 Aids. Trata-se de uma parcela da popula\u00e7\u00e3o que nunca teve contato com a senten\u00e7a de morte que a contamina\u00e7\u00e3o pelo HIV significou durante muito tempo. Adicionalmente, vive num contexto em que a \u2018perna\u2019 da preven\u00e7\u00e3o, que sempre foi parte fundamental da Pol\u00edtica Nacional de Aids, anda enfraquecida, com poucas campanhas e trabalhos de base, contribuindo para um cen\u00e1rio de profunda desinforma\u00e7\u00e3o. \u201cA gente trabalhava a quest\u00e3o de preven\u00e7\u00e3o e da promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade muito mais do que se faz hoje em dia. H\u00e1 uma deteriora\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de preven\u00e7\u00e3o do HIV e das doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis [DSTs]\u201d, lamenta a infectologista Nemora Barcellos, professora da Unisinos e integrante da Comiss\u00e3o de Pol\u00edtica, Planejamento e Gest\u00e3o da Sa\u00fade da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva (Abrasco).<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que esse retrato da juventude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Aids pode parecer confort\u00e1vel diante da real queda na taxa de mortalidade da doen\u00e7a, mas talvez essa seja uma an\u00e1lise superficial. Primeiro porque, como v\u00e1rios testemunhos nesta reportagem v\u00e3o mostrar, n\u00e3o \u00e9 indiferente viver com ou sem HIV. Segundo porque, dependendo da classe social e das condi\u00e7\u00f5es de vida das muitas Valentinas que existem por esse pa\u00eds afora, o risco de morte n\u00e3o deixou de existir.<\/p>\n<p>Viver com HIV<\/p>\n<p>\u201cNo in\u00edcio a gente s\u00f3 tinha o AZT e o DDI, que era uma bola redonda enorme. Eu tive muito problema com a ades\u00e3o, no princ\u00edpio, porque os tratamentos causavam muitos efeitos colaterais: diarreias, o AZT deixava a pele das pessoas escura&#8230; Eu cheguei, numa \u00e9poca, a tomar 21 comprimidos por dia! Tinha comprimido para impedir que o HIV entrasse na c\u00e9lula, outro para impedir que ele se reproduzisse, outro para impedir que circulasse no sangue&#8230; Era uma loucura\u201d. O relato \u00e9 de Silvia Almeida, soropositiva h\u00e1 quase 28 anos. Hoje sua prescri\u00e7\u00e3o \u00e9 de quatro comprimidos di\u00e1rios \u2013 uma exce\u00e7\u00e3o, que se deve ao fato de ela estar na chamada terapia de resgate. \u201cO organismo pode se acostumar com a medica\u00e7\u00e3o e o HIV, por ser um v\u00edrus mutante, vai burlando, achando formas de se defender daquele medicamento. Mas isso vai muito tamb\u00e9m da quest\u00e3o da ades\u00e3o: quanto mais voc\u00ea n\u00e3o tem ades\u00e3o [ao tratamento], mais vai tendo brechas para que o v\u00edrus se proteja daquele medicamento\u201d, explica.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o do v\u00edrus \u00e0 medica\u00e7\u00e3o, Marcelo Soares, pesquisador em Aids que trabalha no Instituto Nacional do C\u00e2ncer (Inca), ressalta que esse \u00e9 um problema t\u00edpico das pessoas que desenvolveram a doen\u00e7a h\u00e1 mais tempo, no come\u00e7o da pandemia de Aids. \u201cO HIV, de fato, muda muito. Como ele se replica rapidamente, da mesma forma que se torna resistente a uma resposta imunol\u00f3gica do pr\u00f3prio indiv\u00edduo ou a uma eventual vacina, ele tamb\u00e9m se torna resistente aos medicamentos\u201d, confirma. Mas pondera: \u201cCom as drogas que s\u00e3o utilizadas hoje, para o v\u00edrus se tornar resistente, ele precisa acumular oito, nove muta\u00e7\u00f5es diferentes juntas, o que \u00e9 dif\u00edcil\u201d. O pesquisador explica que a medica\u00e7\u00e3o continua \u201catacando o v\u00edrus em pontos diferentes das suas etapas de multiplica\u00e7\u00e3o\u201d, mas, diferente do tratamento que fez Silvia Almeida tomar mais de 20 comprimidos na d\u00e9cada de 1990, hoje esse coquetel normalmente \u00e9 concentrado em uma \u00fanica p\u00edlula.<\/p>\n<p>De fato, com o desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico que levou \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de medicamentos eficazes, sem efeitos colaterais imediatos e com uma administra\u00e7\u00e3o mais simples, a capacidade de viver com HIV se tornou realidade. E n\u00e3o parou por a\u00ed: na continuidade das pesquisas, descobriu-se que o uso de medicamentos desde o momento do diagn\u00f3stico, sem precisar esperar o desenvolvimento da doen\u00e7a, era capaz de reduzir a carga viral a ponto de ela se tornar indetect\u00e1vel. Da\u00ed surgiu a f\u00f3rmula que transformou (para melhor) a vida social e afetiva das pessoas soropositivas: I=I (i \u00e9 igual a i), o que significa que a carga viral indetect\u00e1vel \u00e9 tamb\u00e9m intransmiss\u00edvel, ou seja, quem est\u00e1 nessa condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o repassa o HIV para outras pessoas. Isso porque, como explica Soares, os antirretrovirais conseguem conter a reprodu\u00e7\u00e3o do v\u00edrus de modo que ele n\u00e3o possa chegar \u00e0s partes \u201cperif\u00e9ricas\u201d do corpo, como sangue e s\u00eamen. \u201c\u00c9 seguro. J\u00e1 existe muita evid\u00eancia cient\u00edfica. I \u00e9 igual a I com certeza, n\u00e3o h\u00e1 mais nenhuma sombra de d\u00favida\u201d, garante.<\/p>\n<p>O impacto dessa mudan\u00e7a na vida das pessoas soropositivas varia. Jefferson Campos relata que, embora n\u00e3o se sentisse na obriga\u00e7\u00e3o de informar sobre a sua soropositividade para os parceiros, j\u00e1 que, estando indetect\u00e1vel, ele n\u00e3o colocava ningu\u00e9m em risco, muitas vezes decidiu contar a sua hist\u00f3ria, sobretudo nas rela\u00e7\u00f5es com pessoas mais jovens, como forma de conscientizar sobre a import\u00e2ncia da prote\u00e7\u00e3o. E ele diz que nunca houve uma desist\u00eancia ou um afastamento em fun\u00e7\u00e3o dessa informa\u00e7\u00e3o. \u201cDepois que a pessoa entendia [o I=I], a coisa flu\u00eda, n\u00e3o se tornava um obst\u00e1culo\u201d, garante. Essa, no entanto, n\u00e3o \u00e9 propriamente a regra \u2013 e talvez aqui tamb\u00e9m haja um corte geracional. Para Eduardo Barbosa, por exemplo, as coisas ainda s\u00e3o mais conflituosas. Ele contraiu o HIV no final da d\u00e9cada de 1980 e teve a confirma\u00e7\u00e3o em 1994. \u201cQuando eu descobri [o diagn\u00f3stico], fiquei uns quatro a cinco anos sem me relacionar com ningu\u00e9m, sem ter rela\u00e7\u00e3o sexual, morrendo de medo de transmitir. No momento presente isso \u00e9 um misto, que vem e volta na cabe\u00e7a da gente o tempo inteiro\u201d, relata. E completa: \u201cContar ou n\u00e3o \u00e9 uma coisa ainda muito dif\u00edcil. Na comunidade LGBT, a rejei\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 muito forte. \u00c0 medida que voc\u00ea conta que tem HIV, mesmo que fale que \u00e9 indetect\u00e1vel, vem o bloqueio. As pessoas t\u00eam informa\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o mudou o comportamento\u201d.<\/p>\n<p>Para Paulo Giacomini, jornalista e militante do movimento de Aids, que vive com o v\u00edrus h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, essa transi\u00e7\u00e3o, depois de tantos anos com medo de contaminar as pessoas que se aproximavam, tamb\u00e9m n\u00e3o foi nada f\u00e1cil. Ele relata que, hoje, sente desejo sexual e tem ere\u00e7\u00f5es sem qualquer dificuldade do ponto de vista f\u00edsico, mas basta a rela\u00e7\u00e3o come\u00e7ar a se concretizar e vir o \u201ctoque\u201d para que n\u00e3o consiga ir adiante. \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 f\u00edsico, \u00e9 psicol\u00f3gico\u201d, analisa, associando diretamente \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de soropositivo.<\/p>\n<p>As exig\u00eancias do tratamento e a cura que ainda n\u00e3o veio<\/p>\n<p>Mesmo nos muitos casos em que a f\u00f3rmula I=I tem proporcionado situa\u00e7\u00f5es mais felizes, \u00e9 preciso n\u00e3o perder de vista que ela n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de cura nem de elimina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus do organismo: o HIV continua armazenado em c\u00e9lulas que funcionam como uma esp\u00e9cie de \u201creservat\u00f3rio\u201d, principalmente, no sistema nervoso central. \u201cO HIV infecta e insere o seu material gen\u00e9tico dentro desses reservat\u00f3rios anat\u00f4micos. E eles s\u00e3o refrat\u00e1rios, inclusive, \u00e0s drogas antirretrovirais, n\u00e3o s\u00e3o atingidos pela terapia. O v\u00edrus se insere no genoma das nossas c\u00e9lulas: essa \u00e9 a grande estrat\u00e9gia do HIV que faz com que a gente n\u00e3o consiga se livrar dele\u201d, explica Soares.<\/p>\n<p>Por isso, se o tratamento for interrompido, esses v\u00edrus \u2018escondidos\u2019 se multiplicam rapidamente e voltam a circular pela corrente sangu\u00ednea e outras partes do corpo, tornando-se novamente detect\u00e1vel e transmiss\u00edvel. Al\u00e9m disso, enquanto uma pessoa soropositiva em tratamento cont\u00ednuo n\u00e3o chega a desenvolver a doen\u00e7a, o aumento da carga viral \u00e9 um caminho aberto para o surgimento das infec\u00e7\u00f5es oportunistas que passam a atingir o corpo quando a Aids ataca o seu sistema imunol\u00f3gico. Mesmo com todo o progresso cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico nessa \u00e1rea, portanto, a Aids continua n\u00e3o tendo cura e a preven\u00e7\u00e3o e a vigil\u00e2ncia precisam ser constantes.<\/p>\n<p>E, por mais estranho que possa parecer, situa\u00e7\u00f5es que levam a \u2018baixar a guarda\u2019 s\u00e3o mais comuns do que se imagina. \u201cTomar rem\u00e9dio a vida inteira, todos os dias da vida, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil\u201d, testemunha Silvia Almeida. Eduardo Barbosa viveu essa experi\u00eancia recentemente, no contexto da pandemia de Covid-19. \u201cFoi bastante desgastante para mim. Foi um per\u00edodo em que eu fiquei pensando na minha pr\u00f3pria vida. E, mesmo com toda a consci\u00eancia que eu tenho, com todo o meu trabalho de ativista militante, com a experi\u00eancia de ter sido diretor de departamento de HIV\/Aids, membro de ONG, eu relaxei com o meu acompanhamento. Teve momentos em que me vi com depress\u00e3o: eu n\u00e3o queria tomar medica\u00e7\u00e3o nenhuma. Pela primeira vez na minha vida, desde que a gente instituiu [o tratamento como ant\u00eddoto], fiz um exame de carga viral e deu 790 c\u00f3pias\u201d, conta, relatando o espanto de, depois de 15 anos, deixar de ser indetect\u00e1vel. \u201cSe voc\u00ea tira o tratamento, esse pouquinho de c\u00e9lulas que est\u00e1 produzindo v\u00edrus come\u00e7a a se replicar em n\u00edveis astron\u00f4micos. S\u00e3o milh\u00f5es de part\u00edculas virais geradas por dia em um indiv\u00edduo infectado que n\u00e3o esteja sob tratamento. Rapidamente voc\u00ea atinge a carga viral de novo em poucas semanas\u201d, explica Soares. Com a retomada do tratamento, como ocorreu com Barbosa, a carga viral volta a diminuir, tamb\u00e9m de forma veloz. Para ser indetect\u00e1vel, a pessoa precisa ter menos de 40 c\u00f3pias de v\u00edrus por mililitro de sangue no corpo.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o tenham efeitos colaterais imediatos, como os que tornavam o quadro de infec\u00e7\u00e3o por HIV muito mais doloroso no in\u00edcio da pandemia, os medicamentos administrados hoje tamb\u00e9m demandam cuidados de curto a longo prazo. Uma das consequ\u00eancias poss\u00edveis \u00e9 uma perda \u00f3ssea mais acelerada. \u201cEu tenho uma preocupa\u00e7\u00e3o maior de ter uma pr\u00e1tica di\u00e1ria de exerc\u00edcio f\u00edsico. Isso colocou para mim a necessidade de tomar mais consci\u00eancia sobre o cuidado com o meu corpo\u201d, descreve Campos. Para quem experimentou as vers\u00f5es mais antigas dos rem\u00e9dios e se mant\u00e9m em tratamento at\u00e9 hoje, as consequ\u00eancias s\u00e3o mais evidentes: numa cirurgia odontol\u00f3gica recente, Eduardo Barbosa perdeu os dentes superiores e tem dificuldade de fazer um implante dent\u00e1rio em fun\u00e7\u00e3o exatamente da perda \u00f3ssea. \u201cPor mais que a gente tenha hoje todo um arsenal de medicamentos e exames, que melhoram um pouco a qualidade de vida, a gente tem muitas sequelas\u201d, relata.<\/p>\n<p>E as eventuais dificuldades que podem surgir em rela\u00e7\u00e3o ao tratamento n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 individuais. Embora ainda n\u00e3o haja dados sistematizados, pesquisadores e militantes da \u00e1rea suspeitam que o efeito da crise sanit\u00e1ria atual sobre o tratamento de HIV\/Aids pode n\u00e3o ter se dado apenas em situa\u00e7\u00f5es isoladas, como a de Eduardo Barbosa. \u201cTemos fontes que relatam impactos complicados da pandemia de Covid-19 sobre a Aids\u201d, diz Veriano Terto J\u00fanior, vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), citando, como exemplos, casos de atrasos em consultas e resultados de diagn\u00f3stico, al\u00e9m da redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de testes. \u201cO atraso significa afastamento das pessoas do sistema de sa\u00fade. Ter perda de pessoas no sistema e abandono de tratamento pode ser um efeito que a [pandemia de] Covid-19 traga, gerando um aumento nos casos e mortalidade de Aids no Brasil\u201d, alerta.<\/p>\n<p>A clareza de que n\u00e3o apenas a qualidade de vida como a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia depende de pol\u00edticas p\u00fablicas sobre as quais n\u00e3o se tem total controle \u00e9 um fio condutor da experi\u00eancia de quem vive com HIV. Essa foi, de alguma forma, a motiva\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o de movimentos sociais de pessoas soropositivas que, desde o final da d\u00e9cada de 1980, passaram a pressionar, acompanhar e mesmo ajudar a executar a pol\u00edtica de Aids. E, ainda hoje, esse sentimento pauta as trajet\u00f3rias individuais. \u201cS\u00f3 o que me assusta \u00e9 n\u00e3o ter acesso ao meu medicamento. Porque \u00e9 isso que me d\u00e1 tranquilidade de seguir vivendo, de que n\u00e3o vou ter nenhuma complica\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o do HIV\u201d, diz Jefferson Campos. Ele conta que, pelo grau de informa\u00e7\u00e3o que sempre teve, desde que recebeu o diagn\u00f3stico do HIV, nunca sentiu medo de morrer. Sabia que tinha direito a um tratamento que \u00e9 cientificamente seguro e capaz de lhe permitir uma vida sem maiores riscos em fun\u00e7\u00e3o da Aids, mas sempre soube tamb\u00e9m que isso dependia da disponibilidade cont\u00ednua das medica\u00e7\u00f5es que, se n\u00e3o fossem garantidas pelo Estado, seriam impag\u00e1veis para ele e para a maior parte da popula\u00e7\u00e3o. Campos reconhece que um direito j\u00e1 consolidado e garantido em lei \u00e9 mais dif\u00edcil de ser retirado, mas o momento da conjuntura nacional n\u00e3o lhe inspira seguran\u00e7a. \u201cA gente passou a ter uma instabilidade pol\u00edtica no pa\u00eds, beirando o contexto do autoritarismo, e a vis\u00e3o hist\u00f3rica nos permite saber que determinados direitos, mesmo conquistados, podem ser desfeitos\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Com uma experi\u00eancia pouco traum\u00e1tica \u2013 tratamento sem efeitos colaterais, acolhimento da fam\u00edlia e amigos e nenhum caso de preconceito expl\u00edcito em fun\u00e7\u00e3o da sua condi\u00e7\u00e3o de soropositivo \u2013, Campos diz que, no geral, sua tend\u00eancia \u00e9 esquecer o HIV e \u201cseguir a vida\u201d. \u201cEu casei, somos sorodiscordantes [quando o parceiro n\u00e3o tem o v\u00edrus da Aids], queremos ter nossos filhos, temos projeto profissional e acad\u00eamico. Nesse sentido, a vida segue normal. Mas eu tenho o pavor de que, por alguma instabilidade pol\u00edtica, meu direito ao medicamento possa estar amea\u00e7ado\u201d, refor\u00e7a. Al\u00e9m disso, diz, os projetos de futuro tamb\u00e9m dependem de estrat\u00e9gias que n\u00e3o podem desconsiderar a exist\u00eancia do HIV. Ele se deparou com essa quest\u00e3o recentemente, quando come\u00e7ou a planejar um doutorado no exterior. \u201cTodos os lugares que eu pude pesquisar como possibilidade de vida acad\u00eamica fora do pa\u00eds n\u00e3o t\u00eam acesso gratuito ao medicamento [de HIV]\u201d, diz. E questiona: \u201cEu estou tranquilo porque tenho acesso ao meu tratamento. E se deixar de ter?\u201d.<\/p>\n<p>Nessa busca, ele se deu conta ainda de outro problema: pa\u00edses que imp\u00f5em restri\u00e7\u00f5es \u00e0 entrada de pessoas soropositivas. De acordo com um relat\u00f3rio da Unaids, o Programa Conjunto das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre HIV\/Aids, em 2019, 11 \u201cpa\u00edses, territ\u00f3rios e \u00e1reas\u201d, entre eles Ucr\u00e2nia e Indon\u00e9sia, exigiam testes ou divulga\u00e7\u00e3o de estado sorol\u00f3gico de pessoas com HIV, baseando-se nesses resultados para proibir a perman\u00eancia de curta ou longa dura\u00e7\u00e3o. Outros 18, como Angola, Austr\u00e1lia, Cuba e Israel, impunham restri\u00e7\u00f5es de entrada, perman\u00eancia ou resid\u00eancia, seguindo os mesmos crit\u00e9rios. Um terceiro grupo, que englobava 19 na\u00e7\u00f5es, se permitia deportar estrangeiros em fun\u00e7\u00e3o do HIV \u2013 aqui, Egito, S\u00edria e R\u00fassia s\u00e3o alguns exemplos.<\/p>\n<p>E os entrevistados desta reportagem que vivem com HIV h\u00e1 muito tempo testemunham que essas barreiras n\u00e3o s\u00e3o apenas geogr\u00e1ficas. \u201cHoje, se cuidando, voc\u00ea n\u00e3o precisa adoecer, n\u00e3o precisa desenvolver Aids, se fizer o seu tratamento com ades\u00e3o normal. Tudo isso evoluiu. Mas a quest\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o e do estigma parece que ainda est\u00e1 paralisada l\u00e1 atr\u00e1s, h\u00e1 40 anos\u201d, resume Silvia Almeida. Giacomini concorda: \u201cEu vejo jovens de 23, 25 anos que n\u00e3o viveram os anos 1980, mas que, quando recebem o diagn\u00f3stico, se remetem diretamente \u00e0quela cara da Aids que as pessoas tinham quando o Cazuza foi exposto na capa da Veja. O discurso de que se pegar n\u00e3o tem nada \u00e9 diferente do impacto. E o impacto do diagn\u00f3stico ainda \u00e9 o mesmo porque o estigma, o preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o com as pessoas vivendo com HIV ainda s\u00e3o os mesmos\u201d. Exatamente por isso, segundo Eduardo Barbosa, a primeira bandeira de luta do movimento de Aids que sobrevive nos dias de hoje continua ser contra esse cen\u00e1rio. \u201cO estigma ainda \u00e9 muito forte\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>Nem todos t\u00eam tratamento<\/p>\n<p>Ao longo dessas quatro d\u00e9cadas, mais de 30 milh\u00f5es de pessoas morreram de Aids no mundo e, ainda hoje, de acordo com Marcelo Soares, n\u00e3o existe um \u00fanico pa\u00eds que n\u00e3o tenha casos da doen\u00e7a. De acordo com as Estimativas Globais de Sa\u00fade de 2019, produzidas pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), apesar do destaque para o crescimento dos problemas cr\u00f4nicos, como cardiopatias e diabetes, naquele ano a Aids ainda ocupava o 9\u00ba lugar no ranking das doen\u00e7as que mais matam no mundo. Segundo Terto J\u00fanior, calcula-se, \u201cnuma perspectiva conservadora\u201d, que cerca de 12 milh\u00f5es de pessoas contaminadas n\u00e3o t\u00eam acesso a medicamentos. \u201cIsso significa que elas v\u00e3o adoecer e morrer de Aids\u201d, lamenta \u2013 mesmo com todo o desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico pelo qual esse campo passou.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no Brasil, apesar de uma redu\u00e7\u00e3o muito significativa, ainda se morre de Aids. Em 2019, \u00faltimo ano de que se tem dados oficiais conclu\u00eddos, 10,5 mil \u00f3bitos foram registrados tendo a doen\u00e7a como causa b\u00e1sica. Se comparado \u00e0 mortalidade que seguiu uma curva crescente at\u00e9 o come\u00e7o do tratamento com antirretrovirais, em 1996, a queda \u00e9 substantiva. O trauma da trag\u00e9dia sanit\u00e1ria gerada pela pandemia atual \u2013 que, at\u00e9 o fechamento desta reportagem, tinha matado mais de 607 mil brasileiros \u2013 tamb\u00e9m pode fazer esse n\u00famero parecer pequeno. \u201cO HIV mata muito mais devagar, gera uma doen\u00e7a de a\u00e7\u00e3o e desenvolvimento prolongados\u201d, distingue Marcelo Soares, que compara: \u201cJ\u00e1 morreu quase dez vezes mais pessoas de HIV do que de Covid-19 no mundo at\u00e9 hoje e ainda vai continuar morrendo muita gente de HIV depois de a gente ter controlado a Covid\u201d. \u00c9 verdade que, especificamente no caso do Brasil, hoje essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 invertida: em 20 meses morreu pelo novo coronav\u00edrus quase o dobro da quantidade de pessoas que vieram a \u00f3bito de Aids em 40 anos (pouco menos de 350 mil), o que, al\u00e9m de expressar a diferen\u00e7a de velocidade de a\u00e7\u00e3o das duas doen\u00e7as, talvez reflita tamb\u00e9m a forma distinta como as duas pandemias foram enfrentadas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os par\u00e2metros, portanto, precisam ser outros, principalmente a an\u00e1lise do que justifica a perman\u00eancia da mortalidade por uma doen\u00e7a que, apesar de n\u00e3o ter cura, hoje \u00e9 perfeitamente trat\u00e1vel. \u201cTemos uma m\u00e9dia de 27 a 30 pessoas morrendo de Aids diariamente no Brasil\u201d, alerta Veriano Terto J\u00fanior, que completa: \u201cIsso d\u00e1 a dimens\u00e3o de que esse ainda \u00e9 um problema grave de sa\u00fade p\u00fablica\u201d. De acordo com o Sistema de Mortalidade do DataSUS, no bloco das doen\u00e7as infecciosas e parasit\u00e1rias, o HIV foi o respons\u00e1vel pela causa espec\u00edfica do maior n\u00famero de mortes em 2020, com mais do que o dobro de \u00f3bitos da segunda causa \u2013 os dados, claro, ainda n\u00e3o contabilizam a Covid-19.<\/p>\n<p>Uma das chaves para entender esse cen\u00e1rio talvez seja a mudan\u00e7a do perfil epidemiol\u00f3gico que a doen\u00e7a sofreu ao longo desses anos, n\u00e3o apenas aqui: diferente da imagem povoada por artistas e gente das classes altas da d\u00e9cada de 1980, hoje a Aids atinge principalmente grupos e popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis. Na verdade, segundo Terto J\u00fanior, mesmo naquela \u00e9poca essa era mais uma imagem midi\u00e1tica do que um retrato da realidade. Por isso, levar o tratamento a todos os soropositivos e interromper os \u00f3bitos pela doen\u00e7a ainda s\u00e3o desafios no mundo e no Brasil. \u201cAs preocupa\u00e7\u00f5es se deslocaram, mas persistem do ponto de vista do n\u00famero de infec\u00e7\u00f5es, da utiliza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de sa\u00fade e da emerg\u00eancia diagn\u00f3stica, que permanece em fun\u00e7\u00e3o da alta mortalidade sustentada por diagn\u00f3sticos tardios\u201d, resume Nemora Barcellos. Sobretudo depois do protocolo que determina o in\u00edcio do tratamento logo ap\u00f3s o diagn\u00f3stico \u2013 o que, no Brasil, aconteceu em 2013 \u2013, identificar a contamina\u00e7\u00e3o pelo HIV o mais r\u00e1pido poss\u00edvel \u00e9 fundamental para reduzir o risco e garantir uma vida melhor. Ali\u00e1s, tal como os medicamentos, os testes para detec\u00e7\u00e3o de HIV tamb\u00e9m evolu\u00edram muito e, al\u00e9m de estarem dispon\u00edveis nas unidades de sa\u00fade do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), alguns fornecem o resultado na hora.<\/p>\n<p>Hoje os n\u00fameros mais preocupantes dessa epidemia no Brasil recaem novamente sobre os homossexuais masculinos, classificados como HSH, homens que fazem sexo com homens. Mas nem de longe essa trajet\u00f3ria foi uma linha reta. Afinal, no Brasil e no mundo, o perfil epidemiol\u00f3gico da Aids sofreu muitas mudan\u00e7as, chegando, em alguns momentos, a escancarar os riscos que cercavam fam\u00edlias heterossexuais e eram escondidos pelo preconceito: houve per\u00edodos em que mulheres casadas, em relacionamentos monog\u00e2micos, foram focos principais de campanhas de informa\u00e7\u00e3o sobre a doen\u00e7a, porque os n\u00fameros mostravam que elas estavam crescentemente sendo contaminadas pelos maridos que contra\u00edam o v\u00edrus em relacionamentos extraconjugais. De acordo com o boletim epidemiol\u00f3gico da Secretaria de Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade publicado em dezembro do ano passado, em 2019 apenas nas regi\u00f5es Sudeste e Centro-Oeste as rela\u00e7\u00f5es homo e bissexuais foram respons\u00e1veis pela maioria das contamina\u00e7\u00f5es. Em todas as outras, ainda que com uma vantagem muito pequena, prevaleceram as transmiss\u00f5es pelas rela\u00e7\u00f5es hetero. No consolidado nacional, no entanto, o crescimento maior se d\u00e1 entre HSH: dados de 2018 mostravam que as infec\u00e7\u00f5es por HIV cresciam nesse segmento, atingindo 18,4%, uma propor\u00e7\u00e3o 46 vezes maior do que na popula\u00e7\u00e3o em geral.<\/p>\n<p>Outros elementos ajudam a montar esse perfil: entre 2009 e 2019, tamb\u00e9m segundo o boletim do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, houve uma queda de 51% na propor\u00e7\u00e3o de casos entre pessoas brancas, enquanto, entre as negras, a diminui\u00e7\u00e3o foi de 36,4% e 17,6% entre as pardas. A faixa et\u00e1ria de 20 a 34 anos concentrou 52,7% dos casos entre 2007 e junho de 2020. Tanto o n\u00famero de infec\u00e7\u00f5es quanto o de \u00f3bitos continuam mais altos no Sudeste, mas as diferen\u00e7as regionais apontam uma maior mortalidade no Norte e Nordeste: enquanto a taxa de pessoas mortas por Aids no Brasil caiu de 5,8 para 4,1 por 100 mil habitantes entre 2009 e 2019, os estados do Acre, Par\u00e1, Amap\u00e1, Maranh\u00e3o, Rio Grande do Norte e Para\u00edba tiveram aumento desses coeficientes. O boletim do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade destaca os casos do Acre, que dobrou esse n\u00famero de 1,1 para 2,2 \u00f3bitos por 100 mil habitantes e, principalmente, o do Amap\u00e1, que subiu de 0,6 para 5,8. \u201cHoje em dia a Aids \u00e9 caracterizada por [atingir] pessoas mais pobres, popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis econ\u00f4mica e socialmente. Ela afeta mais negros do que brancos, como qualquer problema de sa\u00fade p\u00fablica. E tem o agravante das identidades e comunidades sexuais, como popula\u00e7\u00f5es de trans e prostitutas, que s\u00e3o muito impactadas pela Aids e t\u00eam um outro tipo de vulnerabilidade, pelos estigmas relacionados \u00e0 sexualidade\u201d, resume Terto Junior.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 desigualdade regional, uma exce\u00e7\u00e3o que persiste nesse cen\u00e1rio \u00e9 o Rio Grande do Sul. Numa tabela que lista a situa\u00e7\u00e3o do HIV\/Aids nas cidades com mais de 100 mil habitantes, a partir dos indicadores de taxa de detec\u00e7\u00e3o, mortalidade e primeira contagem de CD4 (c\u00e9lulas que v\u00e3o sendo eliminadas pelo HIV e que, quando muito reduzidas, indicam que o diagn\u00f3stico n\u00e3o foi precoce), o boletim de 2020 do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade mostra que seis dos 20 munic\u00edpios com pior situa\u00e7\u00e3o no ranking pertencem ao Rio Grande do Sul \u2013 de acordo com Nemora Barcellos, quase um quarto dos diagn\u00f3sticos no estado identificam pessoas com CD4 inferior a 200, o que significa um est\u00e1gio avan\u00e7ado da doen\u00e7a, que dificulta o tratamento. Tamb\u00e9m na hierarquia das capitais, Porto Alegre s\u00f3 est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o mais desfavor\u00e1vel do que Bel\u00e9m. \u201cNo Brasil voc\u00ea tem diferentes epidemias. Tem uma epidemia que cresce no Norte, uma epidemia que nunca se reduziu na regi\u00e3o Sul, duas regi\u00f5es onde se mant\u00e9m uma mortalidade persistente\u201d, resume.<\/p>\n<p>Desafios da assist\u00eancia<\/p>\n<p>Tudo isso apesar do sucesso da Pol\u00edtica brasileira de combate \u00e0 Aids. E as raz\u00f5es s\u00e3o v\u00e1rias. Por um lado, Barcellos analisa que os servi\u00e7os de sa\u00fade \u201cainda n\u00e3o s\u00e3o ideais\u201d para o acompanhamento das pessoas soropositivas. Sem negar a import\u00e2ncia da descentraliza\u00e7\u00e3o promovida pelo SUS, ela explica que a vantagem de se ter uma aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica territorializada, pr\u00f3xima da realidade do usu\u00e1rio, pode se tornar um obst\u00e1culo quando se trata de um diagn\u00f3stico de HIV. \u201cA assist\u00eancia se aproxima do indiv\u00edduo, mas isso tem alguns aspectos que n\u00e3o s\u00e3o totalmente favor\u00e1veis, principalmente pelo medo de ser reconhecido pela doen\u00e7a mais pr\u00f3ximo de sua casa\u201d, explica Barcellos.<\/p>\n<p>A prepara\u00e7\u00e3o do sistema para uma efetiva articula\u00e7\u00e3o entre a aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e as m\u00e9dia e alta complexidade, al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o indissoci\u00e1vel entre preven\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia, s\u00e3o outros desafios que o SUS enfrenta para garantir uma melhor qualidade de vida aos pacientes de HIV\/Aids \u2013 a soci\u00f3loga Cristina Camara lembra, inclusive, que esse deveria ter sido um aprendizado para a pandemia de Covid-19, que enfrentou problema semelhante com a falta de leitos de interna\u00e7\u00e3o, por exemplo. \u201cAs pessoas eram infectadas, adoeciam e morriam r\u00e1pido, ent\u00e3o voc\u00ea tinha que ter um cont\u00ednuo do acompanhamento disso\u201d, explica Camara, referindo-se \u00e0 pandemia de Aids. Eduardo Barbosa aponta um aspecto complementar: muitos que, como ele, sobreviveram \u00e0 infec\u00e7\u00e3o tendo vivido a pior fase da epidemia, hoje demandam maior aten\u00e7\u00e3o especializada. \u201cEu preciso de otorrino, de oftalmo, de nutricionista, de endocrinologista&#8230; O SUS \u00e9 o meu \u2018plano de sa\u00fade\u2019. E a falta de profissionais de sa\u00fade, a terceiriza\u00e7\u00e3o e precariza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os s\u00e3o dificultadores\u201d, diz.<\/p>\n<p>Desinforma\u00e7\u00e3o e conservadorismo<\/p>\n<p>Para al\u00e9m (e antes) da assist\u00eancia, outra \u201cbarreira\u201d que Barcellos identifica ao controle da Aids no Brasil hoje \u00e9 o conservadorismo. \u201cA inicia\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 muito mais precoce nas popula\u00e7\u00f5es menos favorecidas, onde ainda h\u00e1 a cultura de que ter um filho \u00e9 o que te faz adulta. Ent\u00e3o, voc\u00ea teria que come\u00e7ar a trabalhar quest\u00f5es de sexualidade com dez anos pelo menos\u201d, defende, apontando a import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o sexual nas escolas e outros espa\u00e7os. \u201cMas o conservadorismo trabalha num outro sentido, ele argumenta que se voc\u00ea n\u00e3o fala voc\u00ea n\u00e3o estimula [no caso, o sexo], o que \u00e9 uma inverdade absoluta\u201d, completa.<\/p>\n<p>Terto Junior concorda: \u201cO conservadorismo crescente \u00e9 um obst\u00e1culo principalmente para a preven\u00e7\u00e3o, mas em certa medida tamb\u00e9m para o tratamento porque afasta as pessoas de procurarem ajuda. Atualmente, a Aids \u00e9 uma doen\u00e7a basicamente de transmiss\u00e3o sexual. Num pa\u00eds onde a sexualidade tende a ser apagada das agendas institucionais e de governo, isso tem consequ\u00eancia para a transmiss\u00e3o. Sem poder falar sobre sexualidade a gente avan\u00e7a pouco\u201d, opina, refor\u00e7ando que esse \u00e9 um obst\u00e1culo tamb\u00e9m para o controle da s\u00edfilis e outras DSTs. \u201cTodo esse contexto conservador impede que se fale sobre sa\u00fade sexual e reprodutiva em escolas, na m\u00eddia, em v\u00e1rios locais\u201d, diz. E lamenta: \u201cIsso estimula a ignor\u00e2ncia e quem paga s\u00e3o as pessoas mais vulner\u00e1veis. Quem vai ter a gravidez indesejada muitas vezes s\u00e3o meninas que j\u00e1 v\u00eam de uma gera\u00e7\u00e3o de outras mulheres que tamb\u00e9m tiveram gravidez indesejada e precoce\u201d.<\/p>\n<p>Eduardo Barbosa tamb\u00e9m ressalta que esse cen\u00e1rio tem se agravado muito, mas ele alerta que a concess\u00e3o ao conservadorismo j\u00e1 tinha come\u00e7ado a atravessar a pol\u00edtica de Aids h\u00e1 mais tempo. E, nesse caso, seu testemunho \u00e9 como ex-diretor do departamento de HIV\/Aids do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade no per\u00edodo de 2005 a 2013, onde, \u201cem nome da governabilidade\u201d, ele diz ter vivenciado situa\u00e7\u00f5es de censura a materiais de campanha \u2013 voltados para prostitutas e p\u00fablico LGBT \u2013 ainda no governo Dilma Rousseff. Barbosa tamb\u00e9m relata que foi chamado a se explicar no Congresso Nacional sobre uma cartilha que tematizava a redu\u00e7\u00e3o de danos para usu\u00e1rios de drogas e apresentava ilustra\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o sexual. \u201cEu sempre acreditei no trip\u00e9 \u2018assist\u00eancia, preven\u00e7\u00e3o e direitos humanos\u2019 [para o combate \u00e0 Aids]. Mas faz um tempo j\u00e1 que a gente descaracterizou essa parte dos direitos humanos\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico da Aids, o vice-presidente da Abia destaca ainda o quanto esse contexto impede que as pessoas saibam que existem outras formas de preven\u00e7\u00e3o al\u00e9m do preservativo. Ele se refere principalmente \u00e0 Prep, sigla para Profilaxia Pr\u00e9-Exposi\u00e7\u00e3o, que consiste em pessoas que n\u00e3o t\u00eam o HIV tomarem, preventivamente, uma combina\u00e7\u00e3o de duas das drogas usadas no tratamento dos soropositivos. \u201c\u00c9 como se fosse uma barreira porque, como voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 com a droga no organismo, na hora em que o v\u00edrus tenta invadir, as chances de ele ser neutralizado s\u00e3o alt\u00edssimas\u201d, explica Soares. Como parte da pol\u00edtica brasileira de Aids, os medicamentos da Prep tamb\u00e9m s\u00e3o fornecidos pelo SUS. \u201cTem que discutir com esses jovens que existem outros m\u00e9todos [de preven\u00e7\u00e3o] para que eles sejam mais aut\u00f4nomos. Mas o ideal seria que essas escolhas fossem melhor informadas, fossem escolhas mais conscientes. E n\u00e3o \u00e9 o que a gente tem visto\u201d, resume.<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/www.epsjv.fiocruz.br\/noticias\/reportagem\/40-anos-de-uma-pandemia-que-nao-acabou<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28113\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[197],"tags":[225],"class_list":["post-28113","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-saude","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7jr","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28113","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28113"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28113\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28113"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28113"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28113"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}