{"id":28146,"date":"2021-12-10T00:26:51","date_gmt":"2021-12-10T03:26:51","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28146"},"modified":"2021-12-10T00:26:51","modified_gmt":"2021-12-10T03:26:51","slug":"memorias-da-luta-contra-as-ditaduras-no-cone-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28146","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias da luta contra as ditaduras no Cone Sul"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/adelantepymatic.files.wordpress.com\/2021\/12\/memorias-de-la-calle-adela-2.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Memoria del Futuro | Por Alberto Federico Ovejero<\/p>\n<p>ADELANTE &#8211; Partido Comunista Paraguaio<\/p>\n<p>Existem espa\u00e7os geogr\u00e1ficos que t\u00eam grande import\u00e2ncia simb\u00f3lica para determinadas pessoas, na\u00e7\u00f5es, para povos inteiros ou mesmo para a humanidade como um todo. Existem muitas amostras a esse respeito, como os centros hist\u00f3ricos e seus roteiros para turistas, estudantes e transeuntes ou s\u00edtios arqueol\u00f3gicos. Agora, para al\u00e9m dos espa\u00e7os oficialmente reconhecidos como s\u00edtios de relev\u00e2ncia, existem outros que passam despercebidos no nosso tr\u00e2nsito cotidiano, apesar de guardarem tamb\u00e9m na mem\u00f3ria a passagem de acontecimentos e pessoas que marcaram a hist\u00f3ria de muitos povos, dos continentes inteiros.<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras do Dia Mundial dos Direitos Humanos, \u00e9 este \u00faltimo caminho que temos que percorrer: o de uma rua que se concentra num raio de menos de 10 quarteir\u00f5es, tr\u00eas momentos ligados a tr\u00eas paraguaios que fizeram hist\u00f3ria, principalmente desde uma abordagem popular. Este particular caminho da mem\u00f3ria atravessa as fronteiras nacionais para nos levar quase 1000 quil\u00f4metros at\u00e9 a capital do irm\u00e3o argentino, Buenos Aires. \u00c9 sobre a rua Urquiza e tr\u00eas lutadores paraguaios ligados n\u00e3o apenas pelo ex\u00edlio e pela hist\u00f3ria; mas tamb\u00e9m por terem selado momentos de eternidade nesta mesma rua.<\/p>\n<p>Federico Tatter, Obdulio Barthe e Esther Ballestrino: os dois primeiros comunistas e o terceiro febrerista repousaram naqueles poucos quarteir\u00f5es, um vislumbre de suas vidas e de suas lutas, retratando, como parte de ambas e de forma indel\u00e9vel, a hist\u00f3ria macabra da coordena\u00e7\u00e3o repressiva ilegal paraguaio-argentina, e tamb\u00e9m de seu reverso dial\u00e9tico, a hist\u00f3ria de coragem e dignidade que sempre uniu nossos povos. Aproveitamos para convid\u00e1-los a este exerc\u00edcio de mem\u00f3ria para homenagear aqueles que amaram e defenderam nosso povo, lutando a seu lado em tempos de terrorismo de Estado e do Plano Condor, no per\u00edodo do maior genoc\u00eddio continental da nossa hist\u00f3ria recente.<\/p>\n<p>Um pouco sobre a rua &#8230;<\/p>\n<p>Urquiza, dentro do eixo urbano de Buenos Aires, \u00e9 uma rua de tr\u00e2nsito m\u00e9dio, que come\u00e7a no bairro popularmente conhecido como Once, um ponto comercial por excel\u00eancia e uma conflu\u00eancia de classes populares com v\u00e1rias migra\u00e7\u00f5es &#8211; entre elas do nosso pa\u00eds; como continua\u00e7\u00e3o da rua Jean Jaur\u00e8s e perto da esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria que d\u00e1 o nome a estes quarteir\u00f5es. Em dire\u00e7\u00e3o ao sul da cidade, levando ao Parque de los Patricios &#8211; outro bairro popular de Buenos Aires, esta rua cruza institui\u00e7\u00f5es como o Hospital Ramos Mej\u00eda ou a escola Mariano Acosta ou a Pra\u00e7a Mart\u00edn Fierro, al\u00e9m de f\u00e1bricas e outros locais de aflu\u00eancia Social; sendo percorrido por algumas linhas de \u00f4nibus. Ou seja, \u00e9 uma rua com certa import\u00e2ncia, principalmente para o tr\u00e2nsito ao sul e por ser paralela a avenidas de maior tr\u00e2nsito.<\/p>\n<p>O homenageado, general Justo Jos\u00e9 de Urquiza, presidente da Confedera\u00e7\u00e3o Argentina entre 1854 e 1860, cujo nome tamb\u00e9m coroa uma ferrovia e um bairro em Buenos Aires, possui la\u00e7os com o Paraguai na \u00e9poca da Guerra da Tr\u00edplice Alian\u00e7a. Por ser o presidente argentino que reconheceu a independ\u00eancia do Paraguai e conciliador no conflito entre os Estados Unidos e nosso pa\u00eds, tamb\u00e9m reconheceu os esfor\u00e7os do Marechal L\u00f3pez nos confrontos internos da na\u00e7\u00e3o irm\u00e3 e cuja obedi\u00eancia a Mitre na Guerra contra o Paraguai foi uma dos motivos de seu assassinato, praticamente um m\u00eas depois de seu t\u00e9rmino.<\/p>\n<p>Urquiza 133: Federico Tatter<\/p>\n<p>Come\u00e7amos com o primeiro lugar neste caminho da mem\u00f3ria que nos leva a transitar pela \u00abcidade da f\u00faria\u00bb. A uma quadra e meia do in\u00edcio da rua, paramos no terreno da rua Urquiza 133, hoje um pr\u00e9dio em constru\u00e7\u00e3o abandonado h\u00e1 muitos anos. Neste local, h\u00e1 pouco mais de 45 anos e um m\u00eas, uma for\u00e7a-tarefa da \u00faltima ditadura militar genocida argentina sequestrou, em sua casa, Federico Jorge Tatter Mor\u00ednigo, membro do Partido Comunista Paraguaio (PCP), exilado na Argentina. Em 15 de outubro de 1976, \u00e0 tarde, entre seis e sete homens, alguns uniformizados, com a aprova\u00e7\u00e3o das autoridades militares da regi\u00e3o, chegaram em duas viaturas e entraram na casa da fam\u00edlia Tatter, em busca de Federico e de seu filho de Ali.<\/p>\n<p>Segundo o que mais tarde p\u00f4de testemunhar Idalina Radice, sua esposa, ele foi violentamente interrogado por suas atividades pol\u00edticas no ex\u00edlio e supostos fatos e v\u00ednculos em territ\u00f3rio paraguaio. Enquanto isso, esperavam tamb\u00e9m seu filho por sua milit\u00e2ncia na Argentina. Federico Tatter Jr., testemunha casual dos acontecimentos, p\u00f4de ser avisado por sua m\u00e3e, fingindo ser apenas mais um cliente da loja de eletricidade, raz\u00e3o pela qual conseguiu sobreviver, j\u00e1 que durante todo aquele dia, bem como nos dias posteriores, a Sra. Radice foi intimidada pelos agentes da repress\u00e3o, sendo interceptada at\u00e9 mesmo em suas reivindica\u00e7\u00f5es perante a embaixada da Alemanha Ocidental, por pessoal da intelig\u00eancia infiltrado naquele lugar.<\/p>\n<p>O sequestro e posterior desaparecimento de Tatter pai foi enquadrado como uma jornada repressiva ilegal tanto da ditadura argentina quanto da coordena\u00e7\u00e3o entre esta e as restantes tiranias militares fascistas na regi\u00e3o, patrocinadas pelos Estados Unidos, na opera\u00e7\u00e3o conhecida como Plano Condor.<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia, no bairro de Liniers, em Buenos Aires, Ricardo Barreto D\u00e1valos, irm\u00e3o de Emilio e filho de Ger\u00f3nimo, tamb\u00e9m foi sequestrado e desapareceu. Todos eram membros do PCP e v\u00edtimas da repress\u00e3o daqueles anos. Ger\u00f3nimo desapareceu quando deixou a capital de Buenos Aires com destino a Assun\u00e7\u00e3o, onde nunca chegou.<br \/>\nOriundo da Col\u00f4nia Nueva Germania do Departamento de San Pedro, Jorge Federico Tatter nasceu em 8 de dezembro de 1922. Conhecido por seus entes queridos como Chopeli. A mem\u00f3ria de sua vida \u00e9 atravessada por sua condi\u00e7\u00e3o de militante popular contra a ditadura e por sua vis\u00e3o em prol de uma revolu\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria em nosso pa\u00eds. Foi militar at\u00e9 os 20 anos, depois estudou Direito e Engenharia. Durante a Revolu\u00e7\u00e3o de 1947, ele foi o tenente da fragata na flotilha de guerra revolucion\u00e1ria e atuou como Segundo Comandante da Canhoneira Humait\u00e1. Tendo sido exonerado por ades\u00e3o a dita causa democr\u00e1tica, foi para o ex\u00edlio na Argentina onde se juntou ao PCP. Pouco depois, em 1951, foi deportado pelo governo argentino para o Uruguai, com base na chamada &#8220;Lei de Seguran\u00e7a do Estado&#8221; e, passando pelo Brasil, em 1954 voltou ao Paraguai, de onde foi novamente exilado em 1963 para a cidade de Resistencia, Prov\u00edncia de Chaco, Argentina.<\/p>\n<p>No pa\u00eds vizinho, foi detido duas vezes, de forma preventiva, tanto na prov\u00edncia do Chaco em 1967 quanto em Buenos Aires em 1972, para onde se mudou posteriormente, em virtude da visita de Stroessner \u00e0 Argentina e da a\u00e7\u00e3o dos pyrague (informantes da repress\u00e3o).<\/p>\n<p>Encarregado, dentre outras coisas, das filia\u00e7\u00f5es ao PCP, sua milit\u00e2ncia e vis\u00e3o revolucion\u00e1ria foram a raz\u00e3o pela qual a luta continuou, apesar da forte repress\u00e3o da tirania, exemplo seguido por sua fam\u00edlia, mesmo ap\u00f3s seu desaparecimento. \u201cChopeli se destacou pelo car\u00e1ter alegre, pelo riso franco e contagiante. Muito sens\u00edvel ao sofrimento dos seus semelhantes, sempre demonstrou uma imensa solidariedade para com todos os perseguidos e humilhados, principalmente os camponeses e oper\u00e1rios \u201d, recorda a sua mulher Idalina Radice, que n\u00e3o parava de o procurar.<\/p>\n<p>Urquiza 556: Obdulio Barthe<\/p>\n<p>Seguindo mais alguns quarteir\u00f5es, cruzando a avenida Belgrano e em frente ao Hospital P\u00fablico Ramos Mej\u00eda, administrado pela rede p\u00fablica de Buenos Aires, est\u00e1 a Delegacia de Pol\u00edcia de Bairro 3 \u00b0 &#8220;A&#8221; da Pol\u00edcia Municipal, em cujo local, anos antes, funcionava a Delegacia 8 da Pol\u00edcia Federal Argentina. A porta de entrada da delegacia fica sobre o lote do n\u00famero 550 da rua e no de n\u00famero 556 h\u00e1 uma porta cinza fechada. Naquele local, at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1950, funcionou a Se\u00e7\u00e3o Especial de Repress\u00e3o ao Comunismo, institui\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal Argentina com vincula\u00e7\u00e3o direta de altos funcion\u00e1rios do governo, criado para reprimir o movimento pol\u00edtico e social qualificado como comunista e tristemente famoso por instituir mecanismos repressivos que seriam aperfei\u00e7oados nos anos seguintes na Argentina, como o bast\u00e3o el\u00e9trico ou o sequestro e entrega a outro governo em coordena\u00e7\u00e3o repressiva ilegal.<\/p>\n<p>Aqui, em 1950, Obdulio Barthe foi v\u00edtima de sequestro, tortura e entrega ilegal ao governo paraguaio. Obdulio Barthe, em um dos antecedentes mais evidentes do Plano Condor (pelo qual sequestraram, entre outros, Federico Tatter, tamb\u00e9m v\u00edtima do governo da \u00e9poca, sendo expulso do pa\u00eds em 1951, um ano depois, em condi\u00e7\u00f5es \u201clegalizadas\u201d). Em 22 de julho de 1950, Obdulio Barthe foi sequestrado pela pol\u00edcia argentina no bairro de Chacarita, em Buenos Aires, por causa de sua milit\u00e2ncia pela paz e contra a Guerra da Cor\u00e9ia, sendo levado \u00e0 Se\u00e7\u00e3o Especial, onde foi torturado. Ap\u00f3s breve tempo no c\u00e1rcere, foi entregue duas semanas depois \u00e0s autoridades paraguaias, que simularam uma pris\u00e3o no Paraguai, apesar de tudo o que foi indicado, que durou at\u00e9 1954.<\/p>\n<p>Natural de Encarnaci\u00f3n, Obdulio Barthe foi, em poucas palavras, a personifica\u00e7\u00e3o das lutas do nosso povo. Nasceu em 5 de setembro de 1903. Desde 1920 era membro da Federa\u00e7\u00e3o Paraguaia de Estudantes (FEP), participando da cria\u00e7\u00e3o da Universidade Popular de extens\u00e3o oper\u00e1ria-estudantil proposta pela Reforma Universit\u00e1ria de C\u00f3rdoba. Foi redator do &#8220;Novo Ide\u00e1rio Nacional&#8221;.<\/p>\n<p>Em 1928, foi um dos organizadores da hist\u00f3rica greve no Molinos Harineros San Antonio em Villarrica, onde foi preso. Em 1933, ele foi preso novamente com outros l\u00edderes comunistas, deportados para a Argentina. No Congresso de Lobos em 1934, ingressou no Comit\u00ea Central do Partido Comunista Paraguaio. Em 1936, foi um dos fundadores da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores. Algum tempo depois foi deportado novamente junto com outros companheiros, durante o mandato do Coronel Franco. Em 1940, ele foi novamente preso e logo solto, gra\u00e7as \u00e0 press\u00e3o de l\u00edderes pol\u00edticos conhecidos. Barthe lutou na revolu\u00e7\u00e3o de 1947 como primeiro tenente no pelot\u00e3o de Cavalaria comandado por Parra Insfr\u00e1n.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s os eventos mencionados, exilou-se na Guatemala, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a Argentina, entre outros lugares, sendo participante ativo nos debates pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos dos anos 60 e 70. Entre outras responsabilidades militantes, foi um dos comandantes pol\u00edticos e militares da Frente Unida para a Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (FULNA) que lutou contra a tirania fascista chefiada por Stroessner. Em 1965, Barthe chefiou o comit\u00ea de reorganiza\u00e7\u00e3o do partido, junto com Miguel \u00c1ngel Soler. Em junho de 1978, a sess\u00e3o plen\u00e1ria do PCP o nomeou Secret\u00e1rio-Geral, cargo que ocupou at\u00e9 sua morte em dezembro de 1981, no ex\u00edlio em Buenos Aires.<\/p>\n<p>Urquiza 925: Esther Ballestrino<\/p>\n<p>Terceiro lugar. No cruzamento com a Rua Estados Unidos, ergue-se a Igreja de Santa Cruz, que junto com a casa pastoral e o instituto, \u00e9 um quarteir\u00e3o inteiro, carregado n\u00e3o s\u00f3 de misticismo, nem \u00e9 preciso dizer, t\u00edpico de templos religiosos para seus paroquianos. Neste lugar se estabeleceu, durante a \u00faltima ditadura militar genocida argentina, um espa\u00e7o de resist\u00eancia e de direitos humanos que hoje re\u00fane as diversas express\u00f5es que no pa\u00eds irm\u00e3o contribuem para a causa da mem\u00f3ria e das lutas das classes populares.<\/p>\n<p>\u00c0 porta da igreja, depois da missa na quinta-feira, 8 de dezembro de 1977, ap\u00f3s o sinal do desprez\u00edvel e covarde oficial do ex\u00e9rcito argentino, Alfredo Astiz, valente para se infiltrar, mas covarde no combate, Esther foi sequestrada, junto com um grupo de doze pessoas ligadas \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o M\u00e3es da Plaza de Mayo, entidade de direitos humanos criada em abril de 1977, que funcionava inicialmente no interior da Liga Argentina pelos Direitos do Homem e Parentes de Desaparecidos e Detidos por Motivos Pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Ballestrino foi uma das fundadoras da referida institui\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o sequestro de seus dois genros e sua filha Ana Mar\u00eda Careaga, que foi libertada em outubro de 1977 e foi para o ex\u00edlio. \u201cVou continuar at\u00e9 que apare\u00e7am todos\u201d, foi a resposta de Esther, depois de se recusar a ir para o ex\u00edlio, a fim de continuar a luta de seus companheiros, m\u00e3es e parentes de v\u00edtimas da repress\u00e3o fascista. Neste contexto, apesar da resist\u00eancia pac\u00edfica que realizaram, as M\u00e3es da Plaza de Mayo tornam-se uma pedra no sapato da ditadura genocida, que promoveu o sequestro e desaparecimento de mais de uma dezena de membros do referido movimento entre 8 e 10 de dezembro de 1977.<\/p>\n<p>Presume-se, segundo as investiga\u00e7\u00f5es, que entre 17 e 18 de dezembro de 1977, Esther e o restante do grupo foram levados ao aeroporto militar de Buenos Aires, embarcaram em um avi\u00e3o da Marinha e foram lan\u00e7ados vivos ao mar na costa de Santa Teresita, morrendo ao atingir a \u00e1gua. Ap\u00f3s 28 anos de desaparecimento, em julho de 2005, seus restos mortais foram identificados pela Equipe Argentina de Antropologia Forense e hoje repousam no cemit\u00e9rio do jardim da Igreja de Santa Cruz, em Buenos Aires, junto com Mar\u00eda Ponce de Bianco, uma das tr\u00eas m\u00e3es sequestradas com ela.<br \/>\nEsther Ballestrino nasceu no Uruguai em 20 de janeiro de 1918 e desde muito jovem viveu em nosso pa\u00eds, em Encarnaci\u00f3n. Al\u00e9m de lecionar e concluir doutorado em bioqu\u00edmica e farm\u00e1cia, desenvolveu tamb\u00e9m em nosso pa\u00eds uma milit\u00e2ncia pol\u00edtica e social que sustentou at\u00e9 o fim de seus dias. Aderente ao febrerismo, de ideias e leituras de te\u00f3ricos socialistas e marxistas, Esther teve um papel relevante durante a d\u00e9cada de 1940, sendo, al\u00e9m de militante anti ditadura, secret\u00e1ria da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica das Mulheres, movimento multipartid\u00e1rio que lutou pelos direitos das mulheres num contexto marcado pela tirania de Higinio Mor\u00ednigo.<\/p>\n<p>Por capricho do destino, nessa mesma organiza\u00e7\u00e3o militou com Dora Freis, esposa de Obdulio Barthe. Com o fim da guerra de 1947, como milhares de compatriotas, Ballestrino teve que se exilar na Argentina, onde, al\u00e9m de se casar com o febrerista Raimundo Careaga, exerceu sua profiss\u00e3o de bioqu\u00edmica, passando a trabalhar com ele por mais de meio s\u00e9culo. Posteriormente, o Papa Francisco destacaria os ideais e a milit\u00e2ncia de Ester. Embora n\u00e3o tenha abandonado a luta anti-ditatorial desde o ex\u00edlio, a homenagem a Jos\u00e9 Asunci\u00f3n Flores por sua morte em 1972 \u00e9 um exemplo disso. Seu maior m\u00e9rito foi o compromisso assumido no meio do terror e a solidariedade incondicional para com seus pares. Hoje seu nome \u00e9 bandeira e motivo de vida para quem luta, apesar das adversidades, pelos direitos mais b\u00e1sicos da humanidade. Nesse sentido, lembramos sua figura e sua luta como militante paraguaio-argentino. Em mem\u00f3ria de Esther e dos 30.000 detidos que desapareceram durante a ditadura do pa\u00eds vizinho e dos mais de 20.000 paraguaios v\u00edtimas diretas da repress\u00e3o stronista.<\/p>\n<p>Reflex\u00f5es finais<\/p>\n<p>Voc\u00eas j\u00e1 devem ter notado, leitores, que os oito blocos de viagem propostos s\u00e3o muito atormentados pela hist\u00f3ria do Paraguai em Buenos Aires: a guerra civil de 1947, ex\u00edlio, resist\u00eancia \u00e0s tiranias, o Pyragueato, a coordena\u00e7\u00e3o repressiva internacional, assim como o fato de n\u00e3o renunciar, mesmo no ex\u00edlio na Argentina, a luta por um Paraguai melhor, s\u00e3o pontos em comum que unem Federico, Obdulio e Ester. Este caminho \u00e9 um dos muitos que d\u00e3o conta da luta do nosso povo que n\u00e3o para, nem mesmo quando somos perseguidos ou exilados de forma for\u00e7ada, e a validade das reivindica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas dos trabalhadores do campo e da cidade.<\/p>\n<p>Com o intuito de que as novas gera\u00e7\u00f5es de paraguaios ou seus filhos em Buenos Aires os resgatem, para que o redefinam nos dias 2 e 3 de fevereiro de cada ano, junto com as lutas que continuam a ser feitas frente \u00e0s delega\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas na Argentina.<\/p>\n<p>*Alberto Federico Ovejero. Advogado, investigador, militante do Partido Comunista Paraguaio, miembro da Secretaria de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, para Adelante!<\/p>\n<p>**Edi\u00e7\u00e3o e ilustra\u00e7\u00e3o de Noelia Cuenca.<\/p>\n<p>Links recomendados:<\/p>\n<p>Den\u00fancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico Fiscal da Argentina na causa \u201cPlan C\u00f3ndor\u201d \u2013 https:\/\/www.mpf.gob.ar\/plan-condor\/victimas\/federico-jorge-tatter-morinigo\/#_ftnref1<\/p>\n<p>Entrevista a Federico Tatter Radice \u2013 https:\/\/www.nuestrasvoces.com.ar\/especial-plancondor\/federico-tatter-en-nombre-del-hijo\/<\/p>\n<p>O caso Obdulio Barthe, antecedente do Plano Condor \u2013 https:\/\/adelantenoticias.com\/2020\/07\/22\/el-caso-obdulio-barthe-antecedente-del-plan-condor\/<\/p>\n<p>Document\u00e1rio sobre a vida de Esther Ballestrino de Careaga \u2013 https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=g64L4SPjsvw<\/p>\n<p>Encontro entre Francisco e as filhas de Esther \u2013 https:\/\/www.pagina12.com.ar\/diario\/elpais\/1-276907-2015-07-12.html<\/p>\n<p>Testemunho de Ana Mar\u00eda Careaga \u2013 https:\/\/www.bn.gov.ar\/micrositios\/multimedia\/ddhh\/testimonio-de-ana-maria-careaga<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/adelantenoticias.com\/2021\/12\/09\/memorias-de-calle-urquiza\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28146\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[35],"tags":[227],"class_list":["post-28146","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c40-paraguai","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7jY","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28146","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28146"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28146\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28146"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28146"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28146"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}