{"id":28166,"date":"2021-12-14T08:00:06","date_gmt":"2021-12-14T11:00:06","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28166"},"modified":"2023-02-26T00:56:40","modified_gmt":"2023-02-26T03:56:40","slug":"a-reconstrucao-revolucionaria-do-pcb-balanco-da-resistencia-ate-a-conferencia-de-reorganizacao-de-1992","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28166","title":{"rendered":"A reconstru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do PCB"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/omomento.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/IMG_0062.png\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>A reconstru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do PCB: balan\u00e7o da resist\u00eancia at\u00e9 a Confer\u00eancia de Reorganiza\u00e7\u00e3o de 1992<\/strong><\/p>\n<p><em>Escrito por Edmilson Costa em 2012, para a Revista Novos Temas<\/em><\/p>\n<p>1. Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O processo de reconstru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do Partido Comunista Brasileiro (PCB) pode ser considerado um dos marcos mais significativos da hist\u00f3ria dos comunistas do Pa\u00eds, al\u00e9m de um exemplo importante para o movimento comunista internacional. Isso porque o PCB, a exemplo da F\u00eanix mitol\u00f3gica, teve a capacidade de renascer das cinzas ap\u00f3s os duros golpes sofridos pela organiza\u00e7\u00e3o no in\u00edcio da d\u00e9cada de 90, como a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a ofensiva do n\u00facleo dirigente do partido para extingu\u00ed-lo. Essa jornada foi realizada a partir da resist\u00eancia da milit\u00e2ncia e dos dirigentes intermedi\u00e1rios que, nas mais adversas condi\u00e7\u00f5es do in\u00edcio da d\u00e9cada de 90, optaram por continuar comunistas e reconstruir o hist\u00f3rico partido dos comunistas brasileiros.<\/p>\n<p>No entanto, o legado mais surpreendente desse processo foram os resultados pol\u00edticos e org\u00e2nicos alcan\u00e7ados pelo PCB nestes \u00faltimos 20 anos. Em duas d\u00e9cadas de reconstru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, o PCB se transformou novamente numa organiza\u00e7\u00e3o nacional, de Rond\u00f4nia, no extremo Norte do Pa\u00eds, ao Rio Grande do Sul, com larga autoridade pol\u00edtica junto \u00e0s for\u00e7as de esquerda e revolucion\u00e1rias, resgatou as tradi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias do PCB, e ainda foi capaz de elaborar uma formula\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e t\u00e1tica da revolu\u00e7\u00e3o brasileira reconhecida por todos, a partir do estudo aprofundado da realidade contempor\u00e2nea do capitalismo no Brasil e no mundo, da estrutura das classes sociais, bem como do papel do Estado brasileiro e seu aparato de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto v\u00e1rios partidos comunistas no mundo se auto-extinguiam, outros mudavam de nome, submergiam diante da realidade, se adaptavam ao reformismo social-democrata no Leste Europeu e em v\u00e1rias partes do mundo, ao mesmo tempo em que o grande capital revelava sua verdadeira face, mediante uma ofensiva predat\u00f3ria contra diretos, sal\u00e1rios e garantias dos trabalhadores, os comunistas brasileiros iniciavam um longo, dif\u00edcil, paciente e determinado processo de reorganiza\u00e7\u00e3o, com as peculiaridades de um pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais como o Brasil.<\/p>\n<p>Em outras palavras, a reorganiza\u00e7\u00e3o do PCB pode ser considerada uma grande jornada de lutas tanto do ponto de vista pol\u00edtico, org\u00e2nico e jur\u00eddico, cheia de hero\u00edsmo de militantes an\u00f4nimos nas v\u00e1rias regi\u00f5es do Pa\u00eds. De Norte a Sul do Brasil, centenas de militantes, viajando de carro, de \u00f4nibus, de avi\u00e3o, de barco, percorreram o Pa\u00eds, batendo de porte em porta, de forma a reorganizar o Partido e atender as exig\u00eancias da Justi\u00e7a Eleitoral para resgatar a legalidade do Partido.<\/p>\n<p>Muita gente duvidava da viabilidade do PCB, afinal os golpes sofridos pelo Partido foram duros. Primeiro a queda da URSS e dos pa\u00edses do Leste, o que viria atingir em cheio o PCB por ser este partido ligado historicamente \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica; depois, a sa\u00edda dos liquidacionistas para fundar outra organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica [1]; Vale lembrar que sa\u00edram do partido a maioria dos integrantes do Comit\u00ea Central, com toda a estrutura material, os deputados, parte dos sindicalistas e muitos dirigentes regionais que ingenuamente acreditavam que o novo partido seguiria sendo socialista.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a conjuntura nacional e internacional era muito adversa: os capitalistas de todo o mundo e, especialmente do Brasil, comemoravam excitados a enorme derrota das primeiras experi\u00eancias socialistas, bem como os seus meios de comunica\u00e7\u00e3o realizavam campanha anticomunista permanente; quem ousava qualquer resist\u00eancia era tratado como dinossauro. Os principais jornais do Pa\u00eds e emissoras de televis\u00e3o procuravam desqualificar os camaradas que decidiram ficar no partido, chamando-os de ortodoxos, jur\u00e1ssicos, atrasados, avessos \u00e0 modernidade.<\/p>\n<p>Muito companheiros, desanimados, decidiram militar em outras organiza\u00e7\u00f5es, outros simplesmente foram para a casa, cabisbaixos, porque imaginavam ser imposs\u00edvel a reconstru\u00e7\u00e3o do PCB naquela conjuntura t\u00e3o adversa. Al\u00e9m disso, tinha ainda as exig\u00eancias draconianas da Lei Eleitoral, cuja norma estabelecia que, para o partido retomar sua legalidade, era necess\u00e1rio estar organizado em no m\u00ednimo nove Estados e, em cada Estado, em 20% das cidades e, em cada cidade, deveria filiar um determinado percentual dos eleitores. Portanto, foi nesse ambiente que a milit\u00e2ncia comunista realizou a tarefa de reconstruir o partido hist\u00f3rico dos comunistas brasileiros.<\/p>\n<p>2. Os antecedentes da crise<\/p>\n<p>A crise que envolveu o PCB no in\u00edcio da d\u00e9cada de 90 foi apenas o desfecho de um processo que vinha se arrastando desde a segunda metade dos anos 70, quanto o Comit\u00ea Central ainda estava no ex\u00edlio. Isolados entre v\u00e1rias regi\u00f5es do planeta, sem um trabalho efetivo de dire\u00e7\u00e3o coletiva, sem v\u00ednculos com a milit\u00e2ncia interna e com uma parcela expressiva bastante influenciada pelo eurocomunismo, as diverg\u00eancias no Comit\u00ea Central eram grandes e s\u00f3 n\u00e3o chegavam aos militantes no Brasil em fun\u00e7\u00e3o da censura e das dificuldades naturais de comunica\u00e7\u00e3o entre uma dire\u00e7\u00e3o no ex\u00edlio a milit\u00e2ncia no interior do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Praticamente existiam tr\u00eas blocos no interior do Comit\u00ea Central: os eurocomunistas, que formulavam a pol\u00edtica geral; o centro pragm\u00e1tico, formalmente em maioria, mas influenciados pelos eurocomunistas e que buscavam uma transi\u00e7\u00e3o moderada da ditadura no Brasil; e aqueles que seguiam a orienta\u00e7\u00e3o de Prestes, em minoria na dire\u00e7\u00e3o nacional. O longo ex\u00edlio n\u00e3o s\u00f3 os afastou da realidade brasileira, como permitiu um liberalismo org\u00e2nico, que possibilitou infiltra\u00e7\u00f5es e levou \u00e0s quedas e ao assassinato de um ter\u00e7o do Comit\u00ea Central, entre os quais os que voltaram ao Pa\u00eds na clandestinidade em 1974-75. Al\u00e9m disso, tratava-se de um Comit\u00ea Central em que a grande maioria, apesar de lideran\u00e7as pol\u00edticas e oper\u00e1rias antes do golpe, estava teoricamente despreparada para a nova conjuntura brasileira e as tarefas da luta de classe daquele per\u00edodo [2].<\/p>\n<p>Com a anistia e a volta do Comit\u00ea Central e do secret\u00e1rio geral, Luis Carlos Prestes ao Brasil, a milit\u00e2ncia come\u00e7ou a tomar conhecimento n\u00e3o s\u00f3 das diverg\u00eancias que se cristalizara no exterior, como assistia estarrecida a uma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica inteiramente dissociada da realidade. Enquanto no Pa\u00eds ocorria um ascenso da luta de massas, liderada pela classe oper\u00e1ria, a partir das greves dos metal\u00fargicos do ABC, a dire\u00e7\u00e3o do PCB operava como bombeiro da luta de classe, orientando a milit\u00e2ncia no sentido de n\u00e3o acirrar as contra\u00e7\u00f5es de classe, porque ainda estava aferrada \u00e0 pol\u00edtica de Frente Democr\u00e1tica[3] (correta para o per\u00edodo anterior \u00e0s greves, mas inteiramente conservadora para aquele momento da luta de classes), e temia que a luta social pudesse acarretar um retrocesso institucional alcan\u00e7ado at\u00e9 aquele momento.<\/p>\n<p>Tratava-se de uma leitura da realidade at\u00edpica para um partido revolucion\u00e1rio, pois os comunistas sempre acreditaram que \u00e9 a luta de classes o elemento central para o processo de mudan\u00e7as. Ora, num momento em que a classe oper\u00e1ria se levantava em todo o Pa\u00eds contra o modelo econ\u00f4mico, clamando por liberdades democr\u00e1ticas, o Comit\u00ea Central do PCB estava na contram\u00e3o dos acontecimentos, insistindo numa frente democr\u00e1tica que a pr\u00f3pria luta oper\u00e1ria tinha colocado num outro patamar.<\/p>\n<p>Essa leitura n\u00e3o era fruto da ignor\u00e2ncia dos dirigentes, mas estava influenciada pelo eurocomunismo, que privilegiava a luta parlamentar e institucional como forma de obter as transforma\u00e7\u00f5es. O PCB pagou um alto pre\u00e7o por essa orienta\u00e7\u00e3o desastrosa, pois ficou afastado das lutas sociais e abriu espa\u00e7o para o surgimento de outras organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores, como o PT (Partido dos Trabalhadores) e a CUT (Central \u00danica dos Trabalhadores) e isolou o PCB da classe oper\u00e1ria e dos trabalhadores por cerca de duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade, como j\u00e1 foi notado, que nem toda a dire\u00e7\u00e3o nacional do PCB compartilhava com essa orienta\u00e7\u00e3o: o pr\u00f3prio secret\u00e1rio-geral, Luis Carlos Prestes tinha uma posi\u00e7\u00e3o diferente, mas estava em minoria no Comit\u00ea Central. Alguns meses ap\u00f3s voltar ao Brasil, Prestes lan\u00e7a a Carta aos Comunistas, um documento em que faz duras cr\u00edticas aos membros do Comit\u00ea Central, ao afirmar que a maioria dos seus membros n\u00e3o tinha mais condi\u00e7\u00f5es de conduzir a luta de classes no Pa\u00eds, estavam dissociados da realidade brasileira e buscavam transformar o partido num instrumento d\u00f3cil para legitimar o regime:<\/p>\n<p>\u201cUm partido comunista n\u00e3o pode, em nome de uma suposta democracia abstrata e acima das classes, abdicar do seu papel revolucion\u00e1rio e assumir a posi\u00e7\u00e3o de freio dos movimentos populares, de fiador de um pacto com a burguesia, em que sejam sacrificados os interesses e as aspira\u00e7\u00f5es dos trabalhadores &#8230; N\u00e3o podemos, pois, compactuar com aqueles que defendem &#8220;evitar tens\u00f5es&#8221;, freando a luta dos trabalhadores em nome de salvaguardar supostas alian\u00e7as com setores da burguesia. Ao contr\u00e1rio, sem cair em aventuras, \u00e9 hoje, mais do que nunca, necess\u00e1rio contribuir para transformar as lutas de diferentes setores de nosso povo em um poderoso movimento popular, bem como \u00e9 dever dos comunistas tomar a iniciativa da luta pelas reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas dos trabalhadores, visando sempre alcan\u00e7ar a derrota da ditadura e a conquista de uma democracia em que os trabalhadores comecem a impor sua vontade\u201d.[4]<\/p>\n<p>Em sua carta, Prestes faz ainda duras cr\u00edticas ao funcionamento do Comit\u00ea Central, \u00e0 indisciplina e \u00e0 confus\u00e3o reinante na dire\u00e7\u00e3o e constata a falta de sintonia entre o Comit\u00ea Central e a realidade brasileira: \u201cA orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do PCB est\u00e1 superada e n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade do movimento oper\u00e1rio e popular do momento que hoje atravessamos. Estamos atrasados no que diz respeito \u00e0 an\u00e1lise da realidade brasileira e n\u00e3o temos respostas para os novos e complexos problemas que nos s\u00e3o agora apresentados pela pr\u00f3pria vida, o que vem sendo refletido na passividade, falta de iniciativa e, inclusive, aus\u00eancia dos comunistas na vida pol\u00edtica nacional de hoje\u201d. Finalmente, Prestes alerta para o fato de que o Comit\u00ea Central, para defender sua pol\u00edtica conciliadora, costuma identificar qualquer posi\u00e7\u00e3o ou atua\u00e7\u00e3o combativa nas lutas dos trabalhadores como \u201cesquerdismo\u201d e \u201cgolpismo\u201d. E, num gesto dram\u00e1tico, Prestes abandona o Partido e apela aos comunistas para tomar o destino do PCB em suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>No entanto, no momento em que o agora ex-secret\u00e1rio geral abandona o partido e apela \u00e0s bases, abre espa\u00e7o para que a maioria do Comit\u00ea Central se afirmasse como defensora da unidade do Partido e acusasse Prestes de indisciplinado e de desrespeitar as inst\u00e2ncias partid\u00e1rias. Como se sabe, os comunistas operam tendo como norma org\u00e2nica o centralismo democr\u00e1tico. Romper com o partido e chamar \u00e0 rebeli\u00e3o das bases era o pretexto que os membros do Comit\u00ea Central queriam para isolar Prestes e o acusar de divisionista. Isso explica porque o apelo de Prestes n\u00e3o teve grande resson\u00e2ncia dentro do Partido. Possivelmente, se o secret\u00e1rio-geral, com a autoridade pol\u00edtica e moral que possu\u00eda junto \u00e0 milit\u00e2ncia, tivesse resistido no interior do pr\u00f3prio do partido e conclamasse as bases \u00e0 resist\u00eancia contra a orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Comit\u00ea Central, teria derrotado o velho Comit\u00ea Central e reconstru\u00eddo o partido em novas bases, como o fizeram uma d\u00e9cada depois os dirigentes intermedi\u00e1rios e a milit\u00e2ncia quando os liquidacionistas tentaram acabar com o Partido em 1992.<\/p>\n<p>A sa\u00edda de Prestes representou a consolida\u00e7\u00e3o de uma linha pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes por toda a d\u00e9cada de 80, fato que iria resultar enormes preju\u00edzos org\u00e2nicos, pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos ao partido. Com a legalidade, em 1986, o Partido aprofundou a linha de concilia\u00e7\u00e3o e se transformou numa organiza\u00e7\u00e3o institucionalista e eleitoreira. Para se ter uma id\u00e9ia, nas elei\u00e7\u00f5es para o governo de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro, a dire\u00e7\u00e3o do PCB apoiou em S\u00e3o Paulo o empres\u00e1rio Ant\u00f4nio Erm\u00edrio de Moraes e, no Rio de Janeiro, Wellington Moreira Franco[5], o que gerou enorme descontentamento entre as bases. No campo sindical, apesar de ter participado do Congresso Nacional das Classes Trabalhadores (Conclat) com grande peso, evento que marcou a reorganiza\u00e7\u00e3o do movimento sindical, n\u00e3o se incorporou \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT) e passou a realizar alian\u00e7as preferenciais com not\u00f3rios pelegos e, assim, foi perdendo a autoridade pol\u00edtica junto aos trabalhadores.<\/p>\n<p>3. As diverg\u00eancias no interior do Partido<\/p>\n<p>Ressalte-se que sempre houve resist\u00eancia a essa pol\u00edtica nas dire\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias, especialmente nos Comit\u00eas Municipais das principais capitais do Pa\u00eds e nas bases partid\u00e1rias. Um epis\u00f3dio significativo demonstra o desprest\u00edgio moral e pol\u00edtico do Comit\u00ea Central junto \u00e0 milit\u00e2ncia do Partido. Convocaram um encontro nacional sindical para debater o posicionamento partid\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s centrais sindicais. Nesse encontro, a maioria dos dirigentes e militantes sindicais n\u00e3o s\u00f3 decidiu filiar-se \u00e0 Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT), \u00e0 revelia do Comit\u00ea Central, como ainda infligiu uma derrota moral inesquec\u00edvel \u00e0 velha dire\u00e7\u00e3o. Um grupo de dirigentes do Comit\u00ea Central, sem consultar o plen\u00e1rio, comp\u00f4s a mesa do Encontro. No entanto, a plen\u00e1ria for\u00e7ou uma vota\u00e7\u00e3o sobre a composi\u00e7\u00e3o da mesa e esses membros do Comit\u00ea Central foram derrotados: tiveram que sair da mesa, cabisbaixos e humilhados pela pr\u00f3pria milit\u00e2ncia. Foi a primeira derrota pol\u00edtica aberta desta dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1989, o Comit\u00ea Central sofreria nova derrota, desta vez em S\u00e3o Paulo. O Comit\u00ea Municipal (CM-SP)) escolhera um candidato a vereador, Luis Carlos Moura, como o \u00fanico a disputar o cargo na cidade. No entanto, o Comit\u00ea Estadual resolveu indicar outro, Jarbas de Holanda, membro da Comiss\u00e3o Executiva Nacional, como forma de pressionar o CM-SP a retirar a candidatura. Nesse embate, os camaradas do munic\u00edpio se mantiveram firmes e o CC foi obrigado a aceitar a candidatura indicada pelo Comit\u00ea Municipal, mas tanto o Comit\u00ea Regional quanto o Comit\u00ea Central boicotaram a candidatura \u2013 n\u00e3o aportaram recursos nem apoio pol\u00edtico e torciam abertamente para que o CM n\u00e3o elegesse o vereador, candidatura que consideravam uma aventura. Para a surpresa geral, o candidato do Comit\u00ea Municipal foi eleito no bojo da virada que ocorreu com a elei\u00e7\u00e3o da prefeita Luiza Erundina. Essa vit\u00f3ria dos camaradas paulistanos ampliou o prest\u00edgio da organiza\u00e7\u00e3o municipal junto a milit\u00e2ncia em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>No entanto, uma s\u00e9rie de acontecimentos internacionais, como a queda do Muro de Berlim, a desagrega\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses socialistas do Leste Europeu e as perspectivas pol\u00edticas na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, repercutiram profundamente no PCB e vieram aprofundar as diverg\u00eancias no interior do Partido, agora entre as dire\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias e o Comit\u00ea Central.<\/p>\n<p>Essas diverg\u00eancias tomaram um corpo mais org\u00e2nico com a convoca\u00e7\u00e3o do IX Congresso do PCB para 1991. Fortalecidos pelos acontecimentos no Leste Europeu, a maioria do Comit\u00ea Central come\u00e7ou a colocar abertamente a necessidade de construir uma nova forma de partido, um partido laico sem refer\u00eancia no marxismo-leninismo, com a aboli\u00e7\u00e3o dos s\u00edmbolos tradicionais dos comunistas, a foice e o martelo. Como proposta de a\u00e7\u00e3o, e diante da na nova conjuntura mundial, o objetivo central era a luta pela radicalidade democr\u00e1tica, afinal diziam que grande parte das teses de Marx estavam ultrapassadas e que o Partido deveria se adaptar aos novos tempos. Em outras palavras, a maioria absoluta do Comit\u00ea Central queria mudar o nome do PCB, abandonar seus princ\u00edpios ideol\u00f3gicos e org\u00e2nicos e dar adeus ao proletariado.<\/p>\n<p>3.1 O documento de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p>Percebendo as verdadeiras inten\u00e7\u00f5es da dire\u00e7\u00e3o do PCB, come\u00e7a a se articular em S\u00e3o Paulo e no Rio de Janeiro uma resist\u00eancia organizada contra essa pol\u00edtica. Em S\u00e3o Paulo, \u00e9 lan\u00e7ada a Plataforma da Esquerda Socialista, um documento que refletia as posi\u00e7\u00f5es do Comit\u00ea Municipal de S\u00e3o Paulo e, al\u00e9m analisar da conjuntura mundial e da crise do socialismo real, fazia uma aprecia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da Dire\u00e7\u00e3o Nacional do Partido e explicitava os objetivos liquidacionistas desse grupo dirigente, al\u00e9m de propor um conjunto de a\u00e7\u00f5es visando reorganizar o partido em novas bases, bem como resgatar as tradi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias do PCB.<\/p>\n<p>O texto de S\u00e3o Paulo ressalta que, al\u00e9m da crise que vinha ocorrendo no Leste europeu, os comunistas de S\u00e3o Paulo ainda eram obrigados a conviver com companheiros que se renderam ao capital e querem transformar o partido numa organiza\u00e7\u00e3o domesticada. \u201cNosso partido vive hoje o momento mais dram\u00e1tico de sua hist\u00f3ria, n\u00e3o s\u00f3 em fun\u00e7\u00e3o da crise na Europa Oriental e sua repercuss\u00e3o no Brasil, mas em conseq\u00fc\u00eancia de sua pr\u00f3pria crise de identidade &#8230; N\u00e3o se trata de problemas vividos em per\u00edodo anteriores, como as dissid\u00eancias de 1962, 1967, a sa\u00edda de Prestes ou do Grupo dos 11: agora o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a pr\u00f3pria exist\u00eancia do Partido como organiza\u00e7\u00e3o marxista revolucion\u00e1ria &#8230; Enquanto isso, a milit\u00e2ncia assiste perplexa e desorientada a ofensiva desses setores (os eurocomunistas, EC) que, sob o manto de uma nebulosa modernidade, buscam a descaracteriza\u00e7\u00e3o do PCB, visando transform\u00e1-lo em mais uma organiza\u00e7\u00e3o social-democrata, que teria como meta apenas administrar de maneira mais competente o sistema capitalista\u201d[6].<\/p>\n<p>O documento critica ainda a pol\u00edtica desenvolvida pelo Comit\u00ea Central e afirma que a atual dire\u00e7\u00e3o perdeu a perspectiva da luta revolucion\u00e1ria. \u201cNa pr\u00e1tica, a nossa dire\u00e7\u00e3o perdeu a perspectiva da revolu\u00e7\u00e3o, o que desarmou o partido para as lutas cotidianas de nosso povo. A conseq\u00fc\u00eancia disso foi uma sucess\u00e3o de graves erros pol\u00edticos, pelos quais pagamos at\u00e9 hoje. A dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o compreendeu o princ\u00edpio da unidade e da luta, principalmente \u00e0 medida em que a ditadura come\u00e7ou a perder sua base de sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-social. Ao inv\u00e9s de priorizar a atividade partid\u00e1ria na organiza\u00e7\u00e3o das massas e vanguardeamento de suas lutas, a fim de que, com a press\u00e3o organizada dos trabalhadores, pud\u00e9ssemos abrir maiores espa\u00e7os para novas conquistas sociais, a dire\u00e7\u00e3o apostou tudo na pol\u00edtica institucional de unidade (esp\u00e9cie de voluntarismo evolucionista), o que terminou nos isolando dos movimentos sociais. Como na pol\u00edtica n\u00e3o existe v\u00e1cuo, outras for\u00e7as ocuparam o lugar dos comunistas e continuam at\u00e9 hoje liderando o processo de lutas social no Pa\u00eds\u201d[7].<\/p>\n<p>Diante dessa conjuntura, o texto prop\u00f5e a reconstru\u00e7\u00e3o do PCB em bases revolucion\u00e1rias, com a oxigena\u00e7\u00e3o do partido, novos m\u00e9todos de dire\u00e7\u00e3o, um partido com voca\u00e7\u00e3o de poder e conclamam as bases a desenvolver uma a\u00e7\u00e3o organizada, de forma a conquistar a hegemonia no interior do Partido. \u201cQueremos transformar o PCB num instrumento novo e qualificado para dirigir a revolu\u00e7\u00e3o brasileira. Um partido combativo, renovado nos m\u00e9todos, na maneira de agir, no relacionamento entre os camaradas e que busque a organiza\u00e7\u00e3o de nosso povo, o vanguardeamento de suas lutas \u2013 nas f\u00e1bricas, nos campos, nos bancos, nos escrit\u00f3rios, no com\u00e9rcio, nas escolas secundaristas, nas universidades, nos movimentos comunit\u00e1rios, no Parlamento. Um partido que ser\u00e1 educado na perspectiva da revolu\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica e na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira e, por isso, profundamente vinculado ao socialismo &#8230; Antes de tudo temos uma tarefa muito grande, sem a qual poderemos sequer sonhar com esse partido novo: organizar em cada n\u00facleo, em cada zona, em cada cidade, em cada Estado a ESQUERDA SOCIALISTA, e forjar uma nova hegemonia no Partido, de forma a sairmos vitoriosos no Congresso\u201d.[8]<\/p>\n<p>3.2 O documento do Rio de Janeiro<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, tamb\u00e9m foi lan\u00e7ado outro documento, Pela Renova\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria do PCB, com mais de 500 assinaturas de militantes de todo o Estado. O texto faz severas cr\u00edticas \u00e0 Dire\u00e7\u00e3o Nacional por sua incapacidade de transformar o partido em instrumento de formula\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o das massas, critica os social-democratas no interior do partido que advogam a parceria conflitiva entre capital e trabalho e denuncia a alian\u00e7a entre o centro pragm\u00e1tico e os eurocomunistas.<\/p>\n<p>\u201cA superposi\u00e7\u00e3o desses fatores (crise do Partido e do Lesto Europeu, EC) criou as condi\u00e7\u00f5es para o surgimento no interior do PCB de uma estranha alian\u00e7a entre burocratas de conhecida forma\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria e correntes adeptas do \u201cnovo discurso\u201d, que prop\u00f5e o abandono do marxismo e da perspectiva revolucion\u00e1ria e de classe, a ado\u00e7\u00e3o de uma linha explicitamente reformista e, at\u00e9 a pura e simples liquida\u00e7\u00e3o do Partido\u201d.[9]<\/p>\n<p>O documento do Rio acusa a dire\u00e7\u00e3o de colocar o partido a reboque das for\u00e7as conservadoras, critica as formula\u00e7\u00f5es que buscam uma concilia\u00e7\u00e3o com o capital e insinuam uma alian\u00e7a entre esses dirigentes e a grande imprensa: \u201cPara justificar tais posi\u00e7\u00f5es defendem a tese de que desapareceu a diferen\u00e7a entre reforma e revolu\u00e7\u00e3o &#8230; substituem o conceito de luta de classes pelo de parceria conflitiva entre capital e trabalho &#8230; ao mesmo tempo em que procuram (atrav\u00e9s de facilidade nada surpreendente no acesso \u00e0 m\u00eddia) fugir ao debate das id\u00e9ias, rotulando os que lhes op\u00f5em como \u201cretr\u00f3grados\u201d, \u201cdogm\u00e1ticos\u201d, \u201cortodoxos\u201d.[10]<\/p>\n<p>O documento tamb\u00e9m reafirma a identidade hist\u00f3rica do partido, seu nome e s\u00edmbolos e denuncia o fato de que renegar esse legado n\u00e3o passa de oportunismo e covardia. \u201cA manuten\u00e7\u00e3o e revaloriza\u00e7\u00e3o e nossos s\u00edmbolos s\u00e3o fundamentais, n\u00e3o s\u00f3 pelo que representam em termos de lutas nas quais nos orgulhamos, mas tamb\u00e9m porque ainda est\u00e3o carregados da m\u00edstica e da esperan\u00e7a no homem novo e na nova sociedade. Eles nos identificam com os erros e acertos que comp\u00f5em, em seu conjunto, nossa imagem p\u00fablica e nosso patrim\u00f4nio hist\u00f3rico. Reneg\u00e1-los diante da crise passaria por oportunismo ou covardia; afirm\u00e1-los \u00e9 a prova de coer\u00eancia e vis\u00e3o hist\u00f3rica apurada\u201d.[11]<\/p>\n<p>Diante de uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o grave para o partido, o texto conclama a renova\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do Partido a partir das bases. \u201cOs que assinam esse manifesto consideram que \u00e9 inadi\u00e1vel uma profunda renova\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do PCB, que o torne apto a conduzir, ao lado de outras for\u00e7as, a luta pela constru\u00e7\u00e3o, no Brasil, de uma sociedade socialista fundada na democracia participativa das massas e no exerc\u00edcio democr\u00e1tico do poder pelos trabalhadores, organizados sob a hegemonia da classe oper\u00e1ria\u201d[12]<\/p>\n<p>Esses dois documentos, elaborados de maneira independente, continham posi\u00e7\u00e3o semelhante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crise do Partido, ao mesmo tempo em que refletiam a busca de uma perspectiva para a reconstru\u00e7\u00e3o do Partido. Mesmo n\u00e3o sendo de conhecimento de toda a milit\u00e2ncia do Pa\u00eds, em fun\u00e7\u00e3o das dificuldades de divulga\u00e7\u00e3o, uma vez que o Comit\u00ea Central detinha o cadastro da milit\u00e2ncia, nas regi\u00f5es onde chegaram conseguiram provocar muita expectativa e esperan\u00e7a, pois demonstravam claramente que havia resist\u00eancia \u00e0 pol\u00edtica reformista do Comit\u00ea Central, muito embora do ponto de vista org\u00e2nico ficasse restrita a contatos esparsos entre camaradas do Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>4. A cristaliza\u00e7\u00e3o dos blocos no IX Congresso<\/p>\n<p>No entanto, a publica\u00e7\u00e3o das propostas de resolu\u00e7\u00f5es do IX congresso, onde a dire\u00e7\u00e3o propunha na pr\u00e1tica o rompimento com o centralismo democr\u00e1tico, iria mudar rapidamente o processo de resist\u00eancia e a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no interior do Partido. As teses refletiam os novos princ\u00edpios de organiza\u00e7\u00e3o que o n\u00facleo dirigente queria impor ao PCB e propunham sem meias palavras: \u201cA renova\u00e7\u00e3o do partido n\u00e3o pode ser feita sem a revis\u00e3o do princ\u00edpio diretor de sua estrutura de funcionamento: o centralismo democr\u00e1tico &#8230; as elei\u00e7\u00f5es no partido devem ser secretas, cabendo a cada organiza\u00e7\u00e3o o direito de regulament\u00e1-las como julgar melhor\u201d.[13]<\/p>\n<p>Aproveitando-se do pr\u00f3prio veneno que o n\u00facleo dirigente queria inocular no partido, a esquerda prop\u00f5e a forma\u00e7\u00e3o de chapas no IX Congresso. Numa decis\u00e3o at\u00edpica para um partido leninista, a dire\u00e7\u00e3o aceitou que as elei\u00e7\u00f5es para o Comit\u00ea Central fossem realizadas elei\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de chapas, uma medida que refletia bem o liberalismo que reinava naquela dire\u00e7\u00e3o, mas que estava consoante com a chamada \u201cradicalidade democr\u00e1tica\u201d que propunham. Na verdade, o n\u00facleo dirigente n\u00e3o imaginava o imenso descontentamento que se gestara no interior do Partido contra suas propostas de desmontar o PCB por dentro, por isso permitiram a forma\u00e7\u00e3o de chapas. Sofreram um rude golpe no Congresso.<\/p>\n<p>4.1 As teses do n\u00facleo dirigente<\/p>\n<p>Uma leitura atenta das teses oficiais do IX Congresso j\u00e1 permite avaliar que este documento continha, mesmo que subliminarmente, todos os fundamentos do desmonte por dentro que o n\u00facleo dirigente queria impor ao PCB. A tese primeira, logo na abertura do texto, deixa claro seus objetivos: \u201cPara levar \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias as op\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter renovador e democr\u00e1tico que se desenvolvem desde a Declara\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o de 1958, o PCB requer uma nova cultura, uma nova pol\u00edtica e uma nova organiza\u00e7\u00e3o, edificadas sob a cr\u00edtica dura e inflex\u00edvel \u00e0s causas essenciais da das deforma\u00e7\u00f5es e da crise do socialismo e do movimento comunista internacional, de sua continuada perda de prest\u00edgio e influ\u00eancia\u201d[14].<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a deveria ser realizada n\u00e3o s\u00f3 em fun\u00e7\u00e3o da crise do socialismo, mas especialmente em conseq\u00fc\u00eancia da necessidade de renova\u00e7\u00e3o, diante de uma conjuntura em que se formou uma nova mentalidade na luta de classes internacional, da universaliza\u00e7\u00e3o da democracia, do car\u00e1ter \u00edntegro da civiliza\u00e7\u00e3o e da interdepend\u00eancia de todos os pa\u00edses. \u201cO mundo ingressou numa nova etapa, dominada por uma revolu\u00e7\u00e3o que o est\u00e1 transformando em seu conjunto: os sujeitos sociais e pol\u00edticos, a luta de classes, a psicologia social, o comportamento e a individualidade&#8221;.[15] Para o n\u00facleo dirigente, essas transforma\u00e7\u00f5es t\u00eam como for\u00e7as motrizes a revolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-cient\u00edfica, a internacionaliza\u00e7\u00e3o do capital, a nova divis\u00e3o internacional do trabalho, a universaliza\u00e7\u00e3o da democracia.<\/p>\n<p>A nova concep\u00e7\u00e3o de mundo dos chamados \u201crenovadores\u201d modificava o conceito de luta de classes, buscava o consenso e coopera\u00e7\u00e3o entre capitalismo e socialismo e afirmava que a disputa agora deveria ser norteada pelo di\u00e1logo e n\u00e3o pela confronta\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cO desfecho da disputa entre o capitalismo e o socialismo n\u00e3o passa mais pelo poder de destrui\u00e7\u00e3o de cada um, mas pela capacidade de adotar iniciativas para a solu\u00e7\u00e3o dos problemas globais e garantir mais liberdade e progresso social para o homem &#8230; A nova \u00e9poca e o mundo que est\u00e3o surgindo determinam novas formas de luta de classes no \u00e2mbito internacional. Apesar de suas contradi\u00e7\u00f5es, um mundo mais \u00edntegro e interdependente imp\u00f5e uma nova combina\u00e7\u00e3o dos interesses de classe e universais no plano internacional. As amea\u00e7as \u00e0 sobreviv\u00eancia da humanidade t\u00eam, no mundo atual, mais peso que os objetivos ideol\u00f3gicos. Nas condi\u00e7\u00f5es atuais em que a humanidade corre o risco de desaparecer, a coexist\u00eancia pac\u00edfica s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada por uma pol\u00edtica de coopera\u00e7\u00e3o e uni\u00e3o, de consenso, dos esfor\u00e7os dos Estados socialistas e capitalistas e de luta e competi\u00e7\u00e3o nos quadros desse consenso, com seu centro de gravidade no di\u00e1logo e n\u00e3o na confronta\u00e7\u00e3o\u201d.[16]<\/p>\n<p>Para o n\u00facleo dirigente, a nova mentalidade atua para a constru\u00e7\u00e3o de um mundo seguro e pac\u00edfico, proposi\u00e7\u00f5es que correspondem n\u00e3o somente aos interesses do socialismo, mas do capitalismo e de toda a humanidade, sendo desnecess\u00e1rio observar o mundo pelas contradi\u00e7\u00f5es de classe: \u201cA nova mentalidade opera no sentido da transfer\u00eancia da contradi\u00e7\u00e3o radical entre o socialismo e o capitalismo para o campo da competi\u00e7\u00e3o pac\u00edfica, recusando a transposi\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica dos antagonismos de classe, da confronta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica para a esfera da pol\u00edtica externa e insiste na desideologiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es interestatais\u201d.[17]<\/p>\n<p>O texto, ao descrever o partido de novo tipo que o n\u00facleo dirigente almeja, ressalta que deve manter interc\u00e2mbio e colabora\u00e7\u00e3o com os partidos comunistas e dar aten\u00e7\u00e3o a Internacional Socialista, aos partidos oper\u00e1rios, socialistas e sociais-democratas. Afirma ainda que os valores humanos, nacionais, democr\u00e1ticos, patri\u00f3ticos s\u00e3o policlassistas e n\u00e3o \u00e9 exclusividade da classe oper\u00e1ria e nem esta \u00e9 a \u00fanica conseq\u00fcente na luta por eles, o marxismo n\u00e3o tem o monop\u00f3lio do conhecimento e o partido deve abandonar o marxismo-leninismo. \u201cO partido deve ser laico e de massas. N\u00e3o recolher\u00e1 em sua organiza\u00e7\u00e3o nem atrair\u00e1 para a sua pol\u00edtica massa de milh\u00f5es se insistir em manter uma doutrina oficial \u2013 o marxismo leninismo \u2013 sobretudo com o poder institu\u00eddo para julgar o que \u00e9 ou n\u00e3o, conforme a doutrina &#8230; O marxismo n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica concep\u00e7\u00e3o humanista, democr\u00e1tica, socialista e revolucion\u00e1ria; n\u00e3o tem o monop\u00f3lio do conhecimento e da atividade transformadora, do esfor\u00e7o te\u00f3rico-pr\u00e1tico para renovar o mundo, do mesmo modo que os comunistas n\u00e3o t\u00eam o monop\u00f3lio do marxismo\u201d.[18]<\/p>\n<p>A partir desse desmonte dos fundamentos de um partido revolucion\u00e1rio, as teses lan\u00e7am seus dados contra o princ\u00edpio organizador dos comunistas, o centralismo democr\u00e1tico, que hoje seria apenas uma categoria hist\u00f3rica e sobreviv\u00eancia do stalinismo: \u201cA renova\u00e7\u00e3o do partido n\u00e3o pode ser feita sem a revis\u00e3o do princ\u00edpio diretor de sua estrutura de funcionamento: o centralismo democr\u00e1tico &#8230; Em primeiro lugar devemos reconhecer o desgaste e a conota\u00e7\u00e3o que assumiu para todos, inclusive para n\u00f3s, o princ\u00edpio do centralismo democr\u00e1tico &#8230; Esta categoria \u2013 como todas as outras \u2013 \u00e9 hist\u00f3rica, decorre de uma situa\u00e7\u00e3o concreta, n\u00e3o s\u00f3 relacionada com a situa\u00e7\u00e3o d R\u00fassia, como tamb\u00e9m com aquelas em que atuou a maioria dos partidos comunistas\u201d.[19]<\/p>\n<p>Sob o pretexto de instituir a democracia interna, as teses prop\u00f5em a m\u00e1xima autonomia das organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, mesmo existindo ou n\u00e3o resolu\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00f5es dirigentes a respeito, elei\u00e7\u00f5es diretas e secretas no interior do partido e a extin\u00e7\u00e3o da secretaria geral. \u201cAs elei\u00e7\u00f5es do partido devem ser secretas, cabendo a cada organiza\u00e7\u00e3o o direito de regulament\u00e1-las como julgar melhor. A secretaria (atualmente presid\u00eancia) deve ser extinta, estabelecendo-se o rod\u00edzio na coordena\u00e7\u00e3o dos trabalhos da Executiva e do Secretariado. O rod\u00edzio deve ser estendido a todos os cargos dirigentes, n\u00e3o se admitindo a perman\u00eancia num \u00f3rg\u00e3o por mais de dois ou tr\u00eas mandatos\u201d.[20]<\/p>\n<p>A partir dessas considera\u00e7\u00f5es, o n\u00facleo dirigente explicita nas teses suas verdadeiras inten\u00e7\u00f5es: desfigurar o partido, mudar seu nome e s\u00edmbolos e descaracterizar seu princ\u00edpio de organiza\u00e7\u00e3o, num ensaio do que viria acontecer no X Congresso: \u201cCada organiza\u00e7\u00e3o do partido deve abrir suas reuni\u00f5es e atividades \u00e0 presen\u00e7a e colabora\u00e7\u00e3o de n\u00e3o filiados &#8230; A partir desse conjunto de reflex\u00f5es \u00e9 que precisamos enfrentar a quest\u00e3o do nome e dos s\u00edmbolos do Partido. Ambos obedeceram em sua cria\u00e7\u00e3o a uma decis\u00e3o pol\u00edtica mas, como era natural, adquiriram com o tempo uma forte carga emocional e simb\u00f3lica que n\u00e3o pode ser desprezada, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode nos levar \u00e0 irracionalidade e ao ritualismo religioso, que nem sequer admitem a discuss\u00e3o do problema. O importante \u00e9 que o conjunto dos filiados, amigos e eleitores seja ouvido, com o fim de encontrar o m\u00e1ximo de correspond\u00eancia entre nomes e s\u00edmbolos e o car\u00e1ter e exig\u00eancia de nossa organiza\u00e7\u00e3o\u201d.[21]<\/p>\n<p>4.2 O documento da esquerda<\/p>\n<p>Enquanto o Comit\u00ea Central, desconectado da realidade aceitava a forma\u00e7\u00e3o de chapas para o Congresso e imaginava que a milit\u00e2ncia estava apoiando as teses, a esquerda lan\u00e7ava um documento que se transformou num instrumento organizador de todos aqueles que estavam contra a descaracteriza\u00e7\u00e3o do partido e as manobras do n\u00facleo dirigente para extinguir o PCB. Intitulado \u201cFomos, Somos e Seremos Comunistas\u201d, com capa de um cartaz assinado por Oscar Niemeyer para angariar fundos \u00e0 resist\u00eancia partid\u00e1ria, o documento caiu como uma bomba no interior do Partido a se transformou rapidamente num instrumento de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de todos os descontentes com o n\u00facleo dirigente do PCB.<\/p>\n<p>O texto ressalta o dram\u00e1tico momento que o partido est\u00e1 vivendo e afirma que os delegados ter\u00e3o a responsabilidade de discutir os destinos do PCB, uma vez que este IX Congresso ser\u00e1 o mais importante na hist\u00f3ria do Partido. \u201cNestes dias de debates estar\u00e3o em jogo a nossa hist\u00f3ria, o nosso patrim\u00f4nio, o futuro do PCB, os princ\u00edpios marxistas que orientaram v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de comunistas, a real inser\u00e7\u00e3o do partido na vida pol\u00edtica do Pa\u00eds e a nossa op\u00e7\u00e3o por uma sociedade socialista na perspectiva do comunismo &#8230; O movimento que estamos construindo mobiliza militantes da maioria dos Estados brasileiros, que v\u00eam nos \u00faltimos anos resistindo \u00e0 pol\u00edtica conservadora encaminhada pelo n\u00facleo dirigente do Comit\u00ea Central \u2013 causa principal que tem levado o Partido a sucessivas derrotas e ao isolamento social e pol\u00edtico, bem como ao processo de desagrega\u00e7\u00e3o em que nos encontramos\u201d.[22]<\/p>\n<p>O documento da esquerda faz uma defesa veemente da continuidade do PCB, dos seus s\u00edmbolos e valores revolucion\u00e1rios, reafirma o marxismo como princ\u00edpio filos\u00f3fico e conclama a milit\u00e2ncia \u00e1 resist\u00eancia. \u201cEstamos nesse Congresso para defender o PCB, seu nome e seus s\u00edmbolos, buscar a renova\u00e7\u00e3o pelo rumo revolucion\u00e1rio, torn\u00e1-lo um partido combativo e um instrumento qualificado para dirigir as lutas sociais no Brasil &#8230; Aqui estamos em defesa do marxismo como princ\u00edpio filos\u00f3fico e metodol\u00f3gico dos comunistas e em defesa do socialismo. Por tudo isso, estamos em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s teses do n\u00facleo dirigente do Partido e, principalmente, a toda tentativa de transformar o PCB numa organiza\u00e7\u00e3o social-democrata, que tenha como perspectiva administrar o capitalismo e ser parceiro conflitivo da burguesia\u201d.[23]<\/p>\n<p>O texto critica ainda a trajet\u00f3ria de concilia\u00e7\u00e3o encaminhada pela dire\u00e7\u00e3o na \u00faltima d\u00e9cada (anos 80), tanto do ponto de vista pol\u00edtico quanto nos movimentos sociais, e afirma que este n\u00facleo dirigente est\u00e1 esgotado diante da realidade brasileira: \u201cPor que nos opomos a esse n\u00facleo dirigente? Porque a pol\u00edtica encaminhada nos \u00faltimos 10 anos nos levou a sucessivas derrotas. Os exemplos mais tr\u00e1gicos dessa pol\u00edtica foram o apoio ao governo Saney, quase at\u00e9 o final de seu mandato; a pol\u00edtica sindical de apoio \u00e0 CGT e acordos com not\u00f3rios pelegos, que teve conseq\u00fc\u00eancia derrotas e isolamento entre os trabalhadores, com perda de influ\u00eancia nas entidades e ativistas sindicais; a pol\u00edtica de alian\u00e7as \u00e0 direita, que nos fez perder vereadores, deputado e quadros e, tamb\u00e9m, nos reduziu \u00e0 insignific\u00e2ncia em termos eleitorais. Em nome da estabilidade democr\u00e1tica essa pol\u00edtica nos levou a atuar no movimento de massas como bombeiros da luta de classes &#8230; S\u00e3o erros demais para uma s\u00f3 dire\u00e7\u00e3o \u2013 uma d\u00e9cada de derrotas &#8230; Esse n\u00facleo dirigente sofreu um esgotamento de seu entendimento da realidade brasileira e, portanto, perdeu a credibilidade para encaminhar o processo de mudan\u00e7as que o nosso partido necessita \u201d.[24]<\/p>\n<p>O documento da esquerda, ao avaliar a crise do Leste Europeu, afirma que esse \u00e9 um evento passageiro e, por isso, mant\u00eam sua confian\u00e7a no socialismo e na luta pelo comunismo no Brasil. \u201cA crise nos pa\u00edses do Leste europeu n\u00e3o significa que a hist\u00f3ria chegou ao fim, ou que o capitalismo seja alternativa para a humanidade &#8230; Por isso mesmo estamos em defesa do socialismo e de sua constru\u00e7\u00e3o no Brasil. Entendemos que o socialismo continua sendo a aspira\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas de todo mundo que lutam por uma sociedade democr\u00e1tica, libert\u00e1ria e justa &#8230; pois entendemos ser esta a forma mais avan\u00e7ada de constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade baseada na solidariedade, no humanismo e na justa distribui\u00e7\u00e3o dos frutos do trabalho\u201d.[25]<\/p>\n<p>Ap\u00f3s denunciar que o n\u00facleo dirigente, antes autorit\u00e1rio e burocr\u00e1tico, agora busca se apresentar como \u201cmercadores da renova\u00e7\u00e3o\u201d, conclama o partido a reorientar sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no sentido da luta pela supera\u00e7\u00e3o do capitalismo e construir um partido renovado e inserido nas lutas sociais. \u201cContrariamente \u00e0queles que desejam liquidar o Partido, queremos enriquec\u00ea-lo em termos te\u00f3ricos, pol\u00edticos e, principalmente, renov\u00e1-lo na sua a\u00e7\u00e3o, nos ligando preferencialmente com as for\u00e7as democr\u00e1ticas e de esquerda. O eixo de nossa proposta \u00e9 atua\u00e7\u00e3o no movimento social, nas lutas populares, em especial, no movimento sindical e juvenil, o que significa que estamos contra as propostas que buscam a concilia\u00e7\u00e3o de classe e a administra\u00e7\u00e3o do capitalismo. A a\u00e7\u00e3o do nosso partido deve estar voltada para a supera\u00e7\u00e3o do sistema capitalista e a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista\u201d.[26]<\/p>\n<p>Essas duas concep\u00e7\u00f5es radicalmente divergentes sobre os destinos do PCB explodiram na plen\u00e1ria do Congresso e o transformaram no palco de uma luta ideol\u00f3gica acirrada entre as correntes que se formaram para disputar o Partido. Os debates foram francos, abertos e politizados, com os defensores de cada corrente buscando ganhar cora\u00e7\u00f5es e mentes dos delegados para suas posi\u00e7\u00f5es[27]. E, para a surpresa de todos, o Comit\u00ea Central sofreu grandes derrotas neste evento, mesmo que a resolu\u00e7\u00e3o final elaborada ap\u00f3s o Congresso contivesse uma s\u00e9rie de contrabandos subrept\u00edcios.<\/p>\n<p>Mas no aspecto central, que era a quest\u00e3o da exist\u00eancia, do nome e dos s\u00edmbolos do Partido, a derrota foi clara. Primeiro, porque diante das manifesta\u00e7\u00f5es dos delegados, especialmente da juventude, os representantes do Comit\u00ea Central sequer tiveram coragem de colocar em pauta sua proposta de acabar com o nome e os s\u00edmbolos do Partido. Seus l\u00edderes foram obrigados a vir \u00e0 plen\u00e1ria desmentir suas verdadeiras inten\u00e7\u00f5es. Segundo, perderam as vota\u00e7\u00f5es que buscavam descaracterizar o PCB como um partido marxista. Terceiro, porque a esquerda, surpreendentemente e possivelmente pela primeira vez na hist\u00f3ria do Congresso de um Partido Comunista (organizado e controlado pela pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o), conseguiu eleger 47% do Comit\u00ea Central, inst\u00e2ncia onde a oposi\u00e7\u00e3o possu\u00eda anteriormente apenas dois ou tr\u00eas dirigentes. Essa nova composi\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Central viria facilitar enormemente o trabalho de resist\u00eancia e organiza\u00e7\u00e3o, em todo o Pa\u00eds, da milit\u00e2ncia que se opunha \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o do PCB.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 elei\u00e7\u00e3o para a composi\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Central, formaram-se tr\u00eas chapas: Socialismo e Democracia, a chapa oficial do Comit\u00ea Central; Fomos, Somos e Seremos Comunistas, a da esquerda mais organizada; e uma terceira, Pol\u00edtica de Esquerda pelo Novo Socialismo, formada no pr\u00f3prio Congresso basicamente por companheiros do Rio Grande do Sul e que, apesar de possuir diverg\u00eancias com o n\u00facleo dirigente do Partido n\u00e3o compartilhava com todas as id\u00e9ias da esquerda com mais inser\u00e7\u00e3o entre a milit\u00e2ncia. Para a surpresa generalizada, inclusive do n\u00facleo dirigente e da pr\u00f3pria oposi\u00e7\u00e3o, a oposi\u00e7\u00e3o conquistou quase a metade das cadeiras do Comit\u00ea Central. O resultado da vota\u00e7\u00e3o foi o seguinte: chapa oficial, 53%; \u201cFomos, Somos e Seremos Comunistas\u201d, 36,5%; e a terceira chapa, 10,5%[28]. Mesmo obtendo a maioria, esse Congresso significou uma profunda derrota pol\u00edtica para o n\u00facleo dirigente, n\u00e3o s\u00f3 porque agora a esquerda estava agora fortemente representada na Dire\u00e7\u00e3o Nacional, mas porque as propostas pol\u00edticas centrais do n\u00facleo dirigente foram derrotadas no plen\u00e1rio.<\/p>\n<p>5 A queda da URSS e a tentativa aberta de liquidar o PCB<\/p>\n<p>Mas o desfecho da crise que vinha se desenvolvendo na URSS desde a d\u00e9cada de 80 viria provocar uma reviravolta dram\u00e1tica na luta interna do PCB. Em outras palavras, seis meses ap\u00f3s o IX Congresso, ocorre aquilo que parecia impens\u00e1vel: a desagrega\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Foi a oportunidade que os liquidacionistas encontraram para colocar abertamente suas propostas de extin\u00e7\u00e3o do Partido, que n\u00e3o tiveram coragem de apresentar no IX Congresso. A queda da URSS tamb\u00e9m impediu que a esquerda pudesse crescer, se organizar e conquistar a hegemonia no interior do PCB. Sem a queda da URSS, a velha dire\u00e7\u00e3o estaria com os dias contados.<\/p>\n<p>Um outro fato na pr\u00f3pria URSS ainda serviu para acirrar a ofensiva dos liquidacionistas. Em meio \u00e0 crise, um grupo de altos dirigentes pol\u00edticos e militares, organizados num Comit\u00ea de Emerg\u00eancia do Estado, articulam um golpe militar, colocam Gorbachev em pris\u00e3o domiciliar e passam a dirigir o Pa\u00eds por tr\u00eas dias. Nesse \u00ednterim, a Comiss\u00e3o Executiva Nacional do PCB convoca uma reuni\u00e3o extraordin\u00e1ria para analisar e se posicionar sobre este acontecimento. Nesta reuni\u00e3o, a condena\u00e7\u00e3o ao golpe foi amplamente majorit\u00e1ria, uma vez que a maioria da esquerda se absteve e apenas dois de seus integrantes votaram a favor do golpe. Na mesma reuni\u00e3o tamb\u00e9m decidiu-se convocar o Comit\u00ea Central para debater a realiza\u00e7\u00e3o de um Congresso Extraordin\u00e1rio.[29]<\/p>\n<p>A derrota do golpe de Estado e a desagrega\u00e7\u00e3o definitiva da URSS levaram o agora grupo abertamente liquidacionista a tirar de vez a m\u00e1scara e revelar suas verdadeiras inten\u00e7\u00f5es: liquidar o PCB e construir outro partido. Chamado \u00e0s pressas o Comit\u00ea Central para uma reuni\u00e3o em Bras\u00edlia, nos dias 31 de agosto e 1\u00ba. de setembro, esse coletivo decidiu convocar o Congresso Extraordin\u00e1rio para janeiro de 1992, com o objetivo de mudar o nome, os s\u00edmbolos e a linha pol\u00edtica do partido. Nessa reuni\u00e3o, a esquerda compareceu com apenas 17 membros, em fun\u00e7\u00e3o da urg\u00eancia da convoca\u00e7\u00e3o e das dificuldades financeiras para comparecer \u00e0 reuni\u00e3o, o que facilitou o trabalho do grupo liquidacionista. Foi tamb\u00e9m uma reuni\u00e3o pat\u00e9tica e tr\u00e1gica, onde v\u00e1rios dos membros do n\u00facleo dirigente se regozijavam pela possibilidade de acabar com o PCB. Um deles, o mais raivoso, Sergio Arouca, disse abertamente no Pleno do Comit\u00ea Central. \u201cO PCB \u00e9 um cad\u00e1ver podre que precisa ser sepultado\u201d.[30]<\/p>\n<p>Mas convocar o Congresso n\u00e3o significava que esse n\u00facleo poderia venc\u00ea-lo, afinal mesmo com a conjuntural internacional adversa havia uma resist\u00eancia muito grande no interior do Partido \u00e0 sua liquida\u00e7\u00e3o. Portanto, era necess\u00e1ria alguma manobra, algum casu\u00edsmo, alguma fraude para garantir a maioria no Congresso. Inseguros e desmoralizados politicamente junto \u00e0 milit\u00e2ncia, aprovaram as normas congressuais de maneira t\u00e3o fraudulenta que se transformou em motivo de piada entre a esquerda brasileira. Por estas normas qualquer um, filiado ou n\u00e3o ao PCB, poderia participar do Congresso, desde que reunisse uma fra\u00e7\u00e3o de 10 pessoas ou mais em sua casa, no local de trabalho, ou qualquer lugar \u2013 cada 10 daria direito a um delegado[31]. Essas normas tinham raz\u00e3o de ser: como o grupo liquidacionista suspeitava que entre os militantes a derrota seria certa, procurou assegurar antecipadamente uma falsa maioria no Congresso. Como se veria depois, foram ajudados nessa tarefa por v\u00e1rios setores conservadores, inclusive com a cess\u00e3o de \u00f4nibus e infra-estrutura material e financeira para a participa\u00e7\u00e3o de pessoas n\u00e3o militantes no Congresso.<\/p>\n<p>Mas na pr\u00f3pria reuni\u00e3o do Comit\u00ea Central, os membros da esquerda do Comit\u00ea Central decidem criar o Movimento Nacional em Defesa do PCB e elaboram um manifesto onde criticam as manobras do grupo liquidacionista para fraudar o Congresso, denunciam a capitula\u00e7\u00e3o desses dirigentes ante a histeria anticomunista, reafirmam a determina\u00e7\u00e3o de manter o PCB, convocam um Encontro Nacional em Defesa do PCB para outubro no Rio de Janeiro e conclamam a milit\u00e2ncia e, especialmente a juventude, \u00e0 resist\u00eancia contra o liquidacionismo. Os principais pontos do documento s\u00e3o os seguintes[32]:<\/p>\n<p>\u201cOs membros do Comit\u00ea Central do Partido Comunista Brasileiro, abaixo assinados, resolvem: Manifestar seu mais veemente rep\u00fadio \u00e0 postura liquidacionista da maioria do Comit\u00ea Central, que convocou um Congresso Extraordin\u00e1rio com a finalidade exclusiva de tentar extinguir o nosso partido &#8230; Denunciar que essa convoca\u00e7\u00e3o representa a capitula\u00e7\u00e3o ante a histeria anticomunista surgida ap\u00f3s os acontecimento na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e um golpe contra as delibera\u00e7\u00f5es do IX Congresso, rec\u00e9m realizado &#8230; Reiterar a inabal\u00e1vel determina\u00e7\u00e3o de manter o PCB, de fato e de direito, com seu nome e s\u00edmbolos, como herdeiro pol\u00edtico do Movimento Comunista Internacional, da rica tradi\u00e7\u00e3o de luta dos comunistas brasileiros e do legado do ide\u00e1rio de Marx, Engels, L\u00eanin e outros pensadores revolucion\u00e1rios<\/p>\n<p>\u201cCriar, a partir desta data o MOVIMENTO NACIONAL EM DEFESA DO PCB como instrumento para preservar e fortalecer o nosso partido, marxista, internacionalista, revolucion\u00e1rio, democr\u00e1tico e de massas &#8230; Convocar para os dias 12 e 13 de outubro de 1991, na cidade do Rio de Janeiro, o Encontro Nacional em Defesa do PCB, para que sejam discutidas, aprovadas e implementadas medidas necess\u00e1rias \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o, renova\u00e7\u00e3o e ao fortalecimento do PCB &#8230; Criar as condi\u00e7\u00f5es para que a juventude comunista se organize, destacando a import\u00e2ncia de seu papel na continuidade de nossa luta &#8230; Saudar os camaradas de diversos Partidos Comunistas que, em v\u00e1rias partes do mundo, permanecem fi\u00e9is \u00e0 perspectiva do socialismo e do comunismo, expressando nossa determina\u00e7\u00e3o de com eles estreitar la\u00e7os de fraternidade e coopera\u00e7\u00e3o \u201d.[33]<\/p>\n<p>Assinado por 30 membros do Comit\u00ea Central[34], os signat\u00e1rios elegeram uma Comiss\u00e3o Coordenadora do Movimento,[35] redigiram um plano de trabalho para elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, org\u00e2nica, financeira e de comunica\u00e7\u00e3o, conclamaram a milit\u00e2ncia a divulgar amplamente o manifesto e criar em cada c\u00e9lula, bairro, cidades e Estados os organismos de resist\u00eancia \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o do partido. \u201cConclamamos, finalmente, os companheiros a: Dar ampla divulga\u00e7\u00e3o do Manifesto ao conjunto dos militantes do PCB, aos nossos amigos e simpatizantes, \u00e0 imprensa e \u00e0 sociedade local. Criar, nos diversos n\u00edveis de organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, n\u00facleos do movimento, com vista a ampliar e organizar a resist\u00eancia ao liquidacionismo, garantindo a preserva\u00e7\u00e3o e o fortalecimento do nosso partido\u201d.[36]<\/p>\n<p>A partir dessa reuni\u00e3o do Comit\u00ea Central de Bras\u00edlia, na pr\u00e1tica passaram a existir dois partidos dentro do PCB, com dire\u00e7\u00f5es paralelas e posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas radicalmente divergentes. Portanto, o desfecho desse processo j\u00e1 estava anunciado. A partir da\u00ed cada agrupamento tomou seu rumo e come\u00e7ou a se preparar para a batalha pela heran\u00e7a pol\u00edtica, hist\u00f3rica e jur\u00eddica do PCB. O agrupamento revisionista buscou a todo custo apoio fora do partido, na grande imprensa, onde obtinham espa\u00e7o para caluniar e tentar desmoralizar os dirigentes que resistiam, chamando-os de ortodoxos, jur\u00e1ssicos, atrasados, e nos partidos conservadores, que lhes forneceram militantes para participar do Congresso e transporte para essas delega\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Dois epis\u00f3dios marcam bem a disposi\u00e7\u00e3o dos liquidacionistas de acabar com o PCB e com sua hist\u00f3ria. Para tentar inviabilizar juridicamente o Partido e impedir que a esquerda mantivesse a sigla hist\u00f3rica, foram ao INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) tentar registrar em seu nome a sigla PCB, seus s\u00edmbolos e ainda o nome Partid\u00e3o. Imediatamente, os camaradas protestaram contra a tentativa de privatizar o PCB, uma vez que esse \u00f3rg\u00e3o registra patentes industriais, e entraram com requerimento no \u00f3rg\u00e3o contestando o pedido. Essa primeira batalha os liquidacionistas perderam, pois o INPI indeferiu a solicita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O outro epis\u00f3dio \u00e9 ainda mais degradante: como recompensa \u00e0 cobertura jornal\u00edstica favor\u00e1vel que as Organiza\u00e7\u00f5es Globo, a maior cadeia de jornalismo do Pa\u00eds, proporcionava \u00e0s iniciativas liquidacionistas, Roberto Freire, ent\u00e3o presidente do PCB, entregou todo o acervo documental do partido \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho. O comando do Movimento, ap\u00f3s assembl\u00e9ia na Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa (ABI), divulgou nota em que condena a aliena\u00e7\u00e3o imperdo\u00e1vel de um patrim\u00f4nio que era de todos os comunistas \u201ca uma Funda\u00e7\u00e3o que fez, faz e far\u00e1 do anticomunismo a sua pol\u00edtica essencial e intr\u00ednseca\u201d.[37] Os camaradas do Rio de Janeiro se mobilizaram e, no dia da entrega dos documentos, realizaram manifesta\u00e7\u00e3o em frente \u00e0 Rede Globo. Na hora em que Freire e sua comitiva se dirigiam ao recinto receberam uma chuva de moedas dos manifestantes como protesto por esse ato de trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais um epis\u00f3dio que evidencia o car\u00e1ter dos liquidacionistas e a fal\u00e1cia da chamada \u201cradicalidade democr\u00e1tica\u201d, \u00e9 o seguinte: o PCB tem direito a dois programas anuais em cadeia de r\u00e1dio e televis\u00e3o do Pa\u00eds. Como haveria a divulga\u00e7\u00e3o de um dos programas semestrais, a esquerda reivindicou espa\u00e7o no Programa para expor suas posi\u00e7\u00f5es, afinal estava em jogo o destino do Partido e, portanto, a milit\u00e2ncia deveria ser informada das duas posi\u00e7\u00f5es no interior do Partido. Roberto Freire foi radicalmente contra, mas a maioria do CC resolver conceder um minuto do programa (pouca coisa, mais importante naquelas condi\u00e7\u00f5es) para a oposi\u00e7\u00e3o. Preparado material, foi enviado em confian\u00e7a para Bras\u00edlia, onde estava sendo editado o programa. Para surpresa, eles ainda censuraram parte dos m\u00edseros um minuto concedido.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a esquerda arrega\u00e7ava as mangas e dava curso ao o plano de trabalho tra\u00e7ado pela coordena\u00e7\u00e3o, cuja tarefa principal era a realiza\u00e7\u00e3o do Encontro Nacional em Defesa do PCB. Antes, por\u00e9m, os camaradas registraram em cart\u00f3rio o Partido Comunista, um artif\u00edcio legal para garantir a continuidade do PCB. Mas o fato mais emblem\u00e1tico da resist\u00eancia nesse per\u00edodo foi o \u00eaxito do Encontro Nacional em Defesa do PCB, no Rio de Janeiro. Com a presen\u00e7a de delega\u00e7\u00f5es de 10 Estados, o Encontro debateu a estrat\u00e9gia de resist\u00eancia e os rumos pol\u00edticos do movimento e lan\u00e7ou um manifesto \u00e0 milit\u00e2ncia e \u00e0 sociedade brasileira, onde esbo\u00e7a as primeiras caracter\u00edsticas do partido que quer\u00edamos construir.<\/p>\n<p>\u201cO Encontro Nacional se define n\u00e3o s\u00f3 pela reconstru\u00e7\u00e3o do PCB, mas por sua renova\u00e7\u00e3o radical, livre dos dogmas e estere\u00f3tipos que ao longo dos anos nos foi imposto pela velha concep\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica dominante no CC. A renova\u00e7\u00e3o que buscamos, por um lado, incorpora toda a tradi\u00e7\u00e3o de luta, hero\u00edsmo e combate dos comunistas, reverenciando aqueles que rubricaram com sangue e com a vida a luta por uma sociedade socialista. Por outro lado, marca uma ruptura definitiva com os m\u00e9todos burocr\u00e1ticos, antidemocr\u00e1ticos e deformadores da vida do Partido &#8230; Essa renova\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser realizada na perspectiva de uma capitula\u00e7\u00e3o \u00e0 social-democracia, mas na dire\u00e7\u00e3o de um partido marxista moderno, aberto aos novos tempos, combativo, renovado nos m\u00e9todos, na maneira de agir e no relacionamento entre os camaradas.<\/p>\n<p>\u201cQueremos a renova\u00e7\u00e3o pela esquerda, reafirmando que o partido continua uma organiza\u00e7\u00e3o comunista. Queremos um partido que seja um instrumento qualificado para contribuir na dire\u00e7\u00e3o das lutas sociais no Brasil, com inser\u00e7\u00e3o viva nas f\u00e1bricas, no campo, nos bancos, nos escrit\u00f3rios, no com\u00e9rcio, no movimento comunit\u00e1rio, nas escolas secund\u00e1rias, nas universidades. Um Partido educado na perspectiva da revolu\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica e na transforma\u00e7\u00e3o radical da sociedade brasileira, por isso profundamente vinculado ao socialismo\u201d.[38]<\/p>\n<p>O documento analisa a situa\u00e7\u00e3o nacional e internacional, critica o governo Collor, e prenuncia as imensas dificuldades que os comunistas enfrentar\u00e3o para reconstruir o PCB naquela conjuntura adversa. \u201cSabemos perfeitamente que travamos a luta em condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, em um quadro pol\u00edtico e ideol\u00f3gico a n\u00edvel nacional e internacional conjunturalmente favor\u00e1vel \u00e0s classes detentoras do capital &#8230; \u00c9 neste quadro que se organizam os comunistas do MOVIMENTO NACIONAL EM DEFESA DO PCB, entendendo que a crise desnorteadora, respons\u00e1vel pela confus\u00e3o e pelo refluxo forja, ao mesmo tempo, novos atores sociais, novos tipos de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e novas alternativas de poder. Com serenidade e confian\u00e7a no futuro, levantam bem firmes a bandeira d unidade estrat\u00e9gica de todos os comunistas, militantes ou n\u00e3o do PCB, e conclamam todos a somar for\u00e7a conosco para reconstruir o Partido dos Comunistas Brasileiros\u201d.[39]<\/p>\n<p>O encontro prometia aos comunistas o trabalho de reorganiza\u00e7\u00e3o dos comunistas em todo o Pa\u00eds, explicitava que o partido reconstru\u00eddo faria uma op\u00e7\u00e3o radical pela dire\u00e7\u00e3o coletiva e buscaria resgatar as tradi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias do PCB. \u201cDessa forma e com convic\u00e7\u00e3o, iremos trabalhar em todas as regi\u00f5es do Pa\u00eds para reconstruir o PCB, resgatar suas tradi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias &#8230; O partido que queremos e vamos construir faz neste momento uma op\u00e7\u00e3o radical pela dire\u00e7\u00e3o coletiva, atuando com transpar\u00eancia, de forma a elevar a uma nova qualidade a nossa vida org\u00e2nica. O nome e os s\u00edmbolos que sempre caracterizaram o PCB n\u00e3o ser\u00e3o apagados de nossa hist\u00f3ria, em fun\u00e7\u00e3o das vicissitudes da constru\u00e7\u00e3o do socialismo. Eles marcaram os sonhos dos combates de milhares e milhares de camaradas que no Brasil e no mundo estiveram presentes nas mais dif\u00edceis batalhas pela liberdade, pelo humanismo em todo esse s\u00e9culo. Eles lutaram generosamente por uma sociedade sem classes, sem explorados ou exploradores, pela felicidade humana e n\u00f3s iremos dar continuidade a esta luta, que \u00e9 a mais bela e generosa registrada at\u00e9 hoje. Isso os nossos inimigos sabem e por isso nos caluniam e buscam nos desmoralizar, mas no fundo nos temem &#8230; No exemplo dos camaradas que nos precederam e na vis\u00e3o de uma sociedade comunista do futuro, prosseguiremos a nossa tarefa, pois Fomos, Somos e Seremos Comunistas\u201d.[40]<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crise do socialismo e da perspectiva do marxismo, o documento enfatiza que a crise n\u00e3o significa o fim do sonho socialista, nem que o capitalismo seja a solu\u00e7\u00e3o para os problemas da humanidade. \u201cAcreditamos que a causa socialista continua com um vigor profundo e expressa a aspira\u00e7\u00f5es de milh\u00f5es de pessoas no mundo que lutam por uma sociedade democr\u00e1tica, libert\u00e1ria e justa. O fracasso das burocracias no Leste Europeu n\u00e3o significa que a hist\u00f3ria chegou ao fim ou que o capitalismo seja solu\u00e7\u00e3o para os problemas das humanidade &#8230; A crise da burocracia n\u00e3o significa que foi em v\u00e3o a luta de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade. Nos orgulhamos das conquistas sociais, econ\u00f4micas e culturais alcan\u00e7adas em tempo recorde pela primeira vez na URSS e nos outros pa\u00edses do Leste e do papel do socialismo nas lutas internacionalistas e progressistas contra o nazi-fascismo, o colonialismo e o imperialismo, pela independ\u00eancia nacional, pela democracia, pela paz mundial\u201d.[41]<\/p>\n<p>6. Os dois congressos, nos mesmos dias<\/p>\n<p>Como a dire\u00e7\u00e3o do Movimento Nacional em Defesa do PCB passou a tomar conhecimento das manipula\u00e7\u00f5es e das fraudes que estavam ocorrendo na elei\u00e7\u00e3o de delegados em todo o Brasil, nos chamados \u201cF\u00f3runs Socialistas\u201d, bem como da interfer\u00eancia de for\u00e7as conservadoras na montagem da infraestrutra para a vinda de delegados ao Congresso, foi tomada a decis\u00e3o de n\u00e3o mais participar do X Congresso, pois caso afirmativo estaria a esquerda legitimando uma farsa. Ficou decidido que seria realizada em S\u00e3o Paulo, ao mesmo tempo e nos mesmos dias (25 e 26 de janeiro de 1992), a Confer\u00eancia de Reorganiza\u00e7\u00e3o do PCB, no Col\u00e9gio Roosevelt, a mil e quinhentos metros do local onde os liquidacionistas realizariam seu Congresso, o Teatro Z\u00e1ccaro.[42]<\/p>\n<p>Agora cientes da impossibilidade conviv\u00eancia com os liquidacionistas no mesmo Partido, a esquerda tratou de preparar as condi\u00e7\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 mobilizando as delega\u00e7\u00f5es de todo o Brasil, mas construindo a infraestrutura para receber essas delega\u00e7\u00f5es em S\u00e3o Paulo. Ap\u00f3s um intenso trabalho de mobiliza\u00e7\u00e3o nos Estados, o Movimento conseguiu trazer cerca de 560 camaradas de todo o Pa\u00eds para a Confer\u00eancia. Todos deveriam estar \u00e0s seis da manh\u00e3 no Col\u00e9gio Roosevelt. Conforme a dire\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia encaminhado anteriormente, \u00e0s sete da manh\u00e3 come\u00e7ou uma assembl\u00e9ia dos delegados para definir uma ida coletiva ao local do Congresso dos liquidacionistas, onde dever\u00edamos expor as raz\u00f5es pelas quais n\u00e3o participar\u00edamos daquele congresso e, ao mesmo tempo, convidar os delegados para a Confer\u00eancia de Reorganiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Terminada a assembl\u00e9ia, \u00e0s nove horas os delegados se dirigiram em passeata ao Teatro Z\u00e1ccaro. Esta foi uma cena emocionante: mais de 500 delegados com bandeiras vermelhas, gritando palavras de ordem e cantando a Internacional pelas ruas de S\u00e3o Paulo, em pleno per\u00edodo de queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Os transeuntes olhavam curiosos e surpresos aquela cena, enquanto os delegados seguiam para o Z\u00e1ccaro. Ao chegar em frente ao teatro, todos foram surpreendidos com o aparato de seguran\u00e7a montado para o Congresso. Os liquidacionistas contrataram a Fonseca\u00b4s Gang, uma empresa de seguran\u00e7a privada, para fazer a seguran\u00e7a do Congresso. Elegeu-se ent\u00e3o uma delega\u00e7\u00e3o para negociar a nossa entrada no Congresso a fim de expor as raz\u00f5es pelas quais a esquerda n\u00e3o participaria do Congresso. Inicialmente, a dire\u00e7\u00e3o dos liquidacionistas n\u00e3o permitiu a entrada. No entanto, diante da press\u00e3o daquela milit\u00e2ncia indignada e disposta tudo e tamb\u00e9m pelo fato de que foi dito a eles que os delegados iriam entrar de qualquer maneira, por bem ou por mal, finalmente permitiram a entrada dos delegados da resist\u00eancia e concordaram que haveria duas interven\u00e7\u00f5es da esquerda e duas dos liquidacionistas.<\/p>\n<p>Dentro do Congresso, nossos companheiros denunciaram o golpe contra o Partido e explicaram as raz\u00f5es porque estavam se retirando para um recinto pr\u00f3ximo, onde realizariam uma Confer\u00eancia de Reorganiza\u00e7\u00e3o do PCB[43]. Era c\u00f4mico ver uma parcela muito expressiva daquelas pessoas, que nunca tinham sequer militado na esquerda, at\u00f4nitas e ap\u00e1ticas, sem entender o que estava acontecendo, enquanto a milit\u00e2ncia agitava bandeiras e entoava palavras-de-ordem para um plen\u00e1rio mudo e perplexo. Ap\u00f3s as duas interven\u00e7\u00f5es, os delegados da esquerda se retiraram ordenadamente do plen\u00e1rio e voltaram ao Col\u00e9gio Roosevelt, onde iniciaram a Confer\u00eancia de Reorganiza\u00e7\u00e3o do PCB.<\/p>\n<p>Durante os dias 25 e 26 de janeiro de 1992 os delegados discutiram intensamente a nova linha pol\u00edtica do Partido, nova estrat\u00e9gia e t\u00e1tica, comprometeram-se a dar continuidade ao partido hist\u00f3rico dos comunistas brasileiros, tra\u00e7aram a pol\u00edtica de reorganiza\u00e7\u00e3o e elaboraram uma resolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica onde avaliam que a queda do socialismo significou um rude golpe aos trabalhadores, mas reafirmam que o capitalismo mant\u00e9m a sua ess\u00eancia exploradora e, por isso, mesmo \u00e9 necess\u00e1ria a unidade de todas as for\u00e7as anticapitalistas para a constru\u00e7\u00e3o da nova sociedade. A Confer\u00eancia elegeu um novo Comit\u00ea Central e sua Comiss\u00e3o Executiva, que passou a se responsabilizar pela reorganiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do PCB[44].<\/p>\n<p>Em outras palavras, com a reorganiza\u00e7\u00e3o, o Partido n\u00e3o ficou um minuto sequer sem existir, n\u00e3o ficou um minuto sequer sem sua dire\u00e7\u00e3o. Enquanto mantinham o Partido com o Movimento Nacional em Defesa do PCB, a Confer\u00eancia decidiu reafirmar decis\u00e3o tomada anteriormente (28 de dezembro de 1991) de manter paralelamente o Partido Comunista (PC) \u201c instrumento jur\u00eddico para a retomada do PCB, que se assume como continuador e herdeiro das tradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de hero\u00edsmo e combate dos comunistas em nosso Pa\u00eds\u201d.[45]<\/p>\n<p>O documento constata que a queda da URSS e dos pa\u00edses do Leste Europeu significou um rude golpe e um grande retrocesso na luta pelo socialismo, analisa as dificuldades oriundas da perda de refer\u00eancia e reafirma as conquistas obtidas pelos pa\u00edses socialistas: \u201cO socialismo sofreu um rude golpe e grande retrocesso com o colapso e dissolu\u00e7\u00e3o do bloco socialista e da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Talvez ainda n\u00e3o se tenha perspectiva hist\u00f3rica para analisar em profundidade o que ocorreu &#8230; (Mas) foram numerosas as conquistas dos trabalhadores nos pa\u00edses do chamado socialismo real, materializada nos avan\u00e7os conseguidos na educa\u00e7\u00e3o, na sa\u00fade, na cultura, na habita\u00e7\u00e3o, no pleno emprego &#8230; As novas e dif\u00edceis circunst\u00e2ncias sociais, onde se movimentam as massas exploradas, exigem firme atitude pol\u00edtica e ideol\u00f3gica para se anteporem \u00e0 perda de refer\u00eancia internacional\u201d.[46]<\/p>\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica elaborou um programa de 13 pontos para a luta contra o governo Collor e afirma que o partido dever\u00e1 ter ativa participa\u00e7\u00e3o nos movimentos sociais, junto com as for\u00e7as democr\u00e1ticas e de esquerda. \u201cO Partido Comunista ter\u00e1 intensa e apaixonada inser\u00e7\u00e3o na vida pol\u00edtica brasileira e participar\u00e1 ativamente dos movimentos comunit\u00e1rios, da vida sindical, dos movimentos em defesa e pela emancipa\u00e7\u00e3o dos direitos dos cidad\u00e3os, em defesa do ecossistema e da paz, em defesa dos direitos das minorias, isoladamente ou em alian\u00e7a com outras for\u00e7as pol\u00edticas progressistas, democr\u00e1ticas e de esquerda, sempre em torno de um programa de a\u00e7\u00e3o e nunca em torno de acordos fisiol\u00f3gicos. Esse programa n\u00e3o visa resolver os problemas do capitalismo nem a resolver o problema dos trabalhadores na estrutura capitalista. \u00c9 um programa para a institui\u00e7\u00e3o de uma base material e social com tra\u00e7os socialistas que possa oferecer um patamar s\u00f3lido para a transforma\u00e7\u00e3o radical do sistema capitalista\u201d. [47]<\/p>\n<p>Ap\u00f3s manifestar sua solidariedade com os comunistas que prosseguem a constru\u00e7\u00e3o do socialismo em seus pa\u00edses, inclusive no Leste Europeu e na antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o documento faz um apelo a todos os comunistas brasileiros a unirem-se numa grande frente para conquistar o poder no Brasil. \u201cO Partido Comunista faz um apelo a todos os comunistas, sem partido ou com partido, para unirem-se em ampla frente, com outras for\u00e7as de esquerda, por cima de diverg\u00eancias, em torno de um programa m\u00ednimo, a fim de que a revolu\u00e7\u00e3o e a conquista da hegemonia na sociedade deixem de ser simb\u00f3licos e passem para o dom\u00ednio da realidade pol\u00edtica, com a conquista do poder em nosso pa\u00eds\u201d.[48]<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a Confer\u00eancia, todos os delegados retornaram a seus Estados no firme prop\u00f3sito de que evitaram a liquida\u00e7\u00e3o do PCB e iniciam um longo, paciente e dif\u00edcil trabalho de reorganiza\u00e7\u00e3o em todo o Pa\u00eds, agora sem os dogmas burocr\u00e1ticos que marcaram a trajet\u00f3ria do PCB nos \u00faltimos anos. Para tanto, comprometeram-se a realizar uma reconstru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do partido tanto do ponto de vista org\u00e2nico quanto te\u00f3rico, de forma a construir um partido renovado, com uma formula\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, inser\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores e o resgate das tradi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias do PCB.<\/p>\n<p>* Edmilson Costa \u00e9 Secret\u00e1rio Geral do PCB, doutor em economia pela Unicamp, com p\u00f3s-doutorado no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da mesma institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 autor de &#8220;Imperialismo&#8221; (Global Editora, 1987); &#8220;A Pol\u00edtica Salarial no Brasil&#8221; (Boitempo Editorial, 1987); &#8220;Um Projeto para o Brasil&#8221; (Tecno-Cient\u00edfica, 1998); &#8220;A Globaliza\u00e7\u00e3o e o Capitalismo Contempor\u00e2neo&#8221; (Express\u00e3o Popular, 2009) e &#8220;A Crise Econ\u00f4mica Mundial, Globaliza\u00e7\u00e3o e o Brasil&#8221; (no prelo). O autor integrou o comando do Movimento Nacional em Defesa do PCB.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>1 Liquidcionistas eram denominados os dirigentes e militantes do PCB que, ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim e da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, queriam acabar com o PCB e seus s\u00edmbolos, descaracteriz\u00e1-lo de sua refer\u00eancia com o marxismo e ofuscar suas tradi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. Esse grupo fundou outra organiza\u00e7\u00e3o, o Partido Popular Socialista, hoje um partido de direita.<\/p>\n<p>2 Estas informa\u00e7\u00f5es est\u00e3o baseadas em pesquisa de doutorado de Milton Pinheiro, que entrevistou v\u00e1rios membros do Comit\u00ea Central que estiveram ex\u00edlio.<\/p>\n<p>3 A pol\u00edtica de Frente Democr\u00e1tica foi correta at\u00e9 a segunda metade dos anos 70, uma vez que nesse per\u00edodo era necess\u00e1rio unir todas as for\u00e7as democr\u00e1ticas e de esquerda contra a ditadura. Mas com as greves do ABC a conjuntura mudou completamente, pois a classe oper\u00e1ria passou a ser protagonista na luta contra a ditadura. Portanto, era o momento do Partido mudar sua estrat\u00e9gia e se juntar ao movimento de massas para golpear a ditadura e buscar uma ruptura social e pol\u00edtica com os trabalhadores rebelados.<\/p>\n<p>4 Carta aos Comunistas. www.marxist.org. Acesso em 08\/09\/2012.<\/p>\n<p>5 Ant\u00f4nio Erm\u00edrio de Moraes \u00e9 o maior empres\u00e1rio do Pa\u00eds e Wellington Moreira Franco \u00e9 um pol\u00edtico conservador do Rio de Janeiro, ex-militante de esquerda.<\/p>\n<p>6 Carta de Princ\u00edpios da Plataforma da Esquerda Socialista. S\u00e3o Paulo, Nov. 1990. Arquivo do autor.<\/p>\n<p>7 Idem. Pg. 4<\/p>\n<p>8 Idem, pg. 5<\/p>\n<p>9 Manifesto Pela Renova\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria do PCB. Rio de Janeiro s\/d (provavelmente o documento \u00e9 de 1991). Arquivo do autor.<\/p>\n<p>10 Idem, pg. 1<\/p>\n<p>11 Idem, pg. 4<\/p>\n<p>12 Idem, pg. 1<\/p>\n<p>13 O Brasil dos Comunistas &#8211; A dire\u00e7\u00e3o nacional do PCB apresenta aos militantes do partido e \u00e0 sociedade brasileira as suas id\u00e9ias para um Pa\u00eds democr\u00e1tico e socialista. Teses para o IX Congresso do PCB. S\u00e3o Paulo: s\/d (provavelmente o documento \u00e9 de 1990), pg. 12. Arquivo do autor.<\/p>\n<p>14 IX Congresso do PCB. O Brasil dos Comunistas \u2013 a dire\u00e7\u00e3o nacional do PCB apresenta aos militantes do partido e \u00e0 sociedade brasileira suas id\u00e9ias para um pa\u00eds democr\u00e1tico e socialista. S\u00e3o Paulo: s\/d (provavelmente publicadas em 1990), pg. 2. Arquivo do autor.<\/p>\n<p>15 Idem, pg. 3<\/p>\n<p>16 Idem, pg. 3<\/p>\n<p>17 Idem, pg. 3<\/p>\n<p>18 Idem, pg. 11<\/p>\n<p>19 Idem, pg. 12<\/p>\n<p>20 Idem, pg. 12-13<\/p>\n<p>21 Idem, pg. 13.<\/p>\n<p>22 Fomos, somos e Seremos Comunistas \u2013 Aos companheiros delegados do IX congresso do PCB. Rio de Janeiro, maio de 1991. Arquivo do autor.<\/p>\n<p>23 Idem, pg. 2<\/p>\n<p>24 Idem, pg. 2 e 3.<\/p>\n<p>25 Idem, pg. 3<\/p>\n<p>26 Idem, pg. 3<\/p>\n<p>27 O debate, o clima do Congresso e as interven\u00e7\u00f5es dos representantes das diversas posi\u00e7\u00f5es na plen\u00e1ria est\u00e3o registrados em Document\u00e1rio \u201cN\u00e3o \u00e9 mole n\u00e3o acabar com o Partid\u00e3o\u201d, com roteiro e dire\u00e7\u00e3o de Edmilson Costa.<\/p>\n<p>28 Os membros do Comit\u00ea Central eleitos no IX Congresso foram os seguintes: TITULARES: Roberto Freire; Salom\u00e3o Malinha; Sergio Arouca; Davi Zaia; Augusto Carvalho; Bete Wagner; Luis Carlos Moura; Paulo Elizi\u00e1rio; Lucia Souto; Carlos Alberto Torres; Givaldo Siqueira; Luis Ant\u00f4nio Martins (Gato); Moacyr Longo; Byron Sarinho; Rodrigo Campos; Marcos Del Roio; Ign\u00e1cio da Silva Mafra; Geraldo Rodrigues dos Santos; Francis Pereira (Chiquinho); Ciro Seccato; Fausto Matogrosso; Luiz Carlos Azedo; Arnaldo Jordy; Maria Jos\u00e9 Feres; Francisco Almeida; Anivaldo Miranda; Ulrich Hoffman; Osvaldo Russo; Fernando Santana; Raul Paix\u00e3o; Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Segatto; Jo\u00e3o Batista Aveline; Joel Teod\u00f3sio; Hermano Paiva; L\u00edcia Canin\u00e9 (Ru\u00e7a); Antonio Rezk; Jo\u00e3o da Cruz; Oscar Niemeyer; Francisco Milani; Hor\u00e1cio Macedo; Ana Montenegro; Oswaldo Pacheco; Jo\u00e3o Carlos Neg\u00e3o; Isnard Teixeira; Juliano Siqueira; Edmilson Costa; Jo\u00e3o de Deus Rocha; Trajano Jardim; Raimundo Jinkings; Moacir Dantas; Jos\u00e9 Milton Pinheiro; Ivan Pinheiro; Ant\u00f4nio Carlos Mazzeo; Jo\u00e3o Carlos Silveira de Souza; Oswando de Oliveira; Zuleide Faria de Melo; Paulo Gnecco; Roberto Gusm\u00e3o; Carlos Telles; Celso manco; Roberto Ponciano; Argemiro Lima Louren\u00e7o; Luis Carlos Gama; Lauro Hagemann; Edvaldo Gomes; Fernando Peixoto; Geraldo Majella; Maria de Lourdes Faria; Domingos T\u00f3dero; Hil\u00e1rio Pinha. SUPLENTES: Welington Mangueira; Severino Melo; Armando Sampaio; Lenilda de Assis; Maria do Socorro; Em\u00edlia Lima; Julio Vilas Boas; Eduardo Serra; Maria Creuza de Carvalho; Freitas Neto; Salim Carone; Acilino Ribeiro; Marc\u00edlio Domingues; Waldomiro Junior; Luis Fernando Mosquito; Regis Cavalcante; Elza Correa; Jos\u00e9 Augusto Guto; Guilherme de F\u00e1tima; Jos\u00e9 Fernandes Medeiros; Alberto Aggio; Amaro Valentin; Hemilton Bezerra.<\/p>\n<p>29 A Comiss\u00e3o Executiva Nacional divulgou um documento condenando o golpe, onde afirmam: \u201cA Comiss\u00e3o Executiva Nacional vem a p\u00fablico manifestar seu protesto contra a derrubada do presidente da URSS, Mikhail Gorbachev, atrav\u00e9s de um golpe de Estado, da viola\u00e7\u00e3o do Estado de Direito Democr\u00e1tico e \u00e0 legalidade constitucional &#8230; A solu\u00e7\u00e3o de for\u00e7a \u00e0 crise pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica experimentada pela R\u00fassia e demais rep\u00fablicas da URSS contribui para a volta do clima da guerra fria em todo o mundo. \u00c9, portanto, equivocada e merece o rep\u00fadio dos comunistas brasileiros. Os dois membros da Executiva, Ant\u00f4nio Carlos Mazzeo e Edmilson Costa, tamb\u00e9m divulgaram um documento, onde lamentam o desfecho da perestroika e da glasnost, mas ap\u00f3iam o Comit\u00ea de Defesa do Estado. \u201cA crise econ\u00f4mica pol\u00edtica, \u00e9tnica e social estava levando o Pa\u00eds ao caos, ao estado de desagrega\u00e7\u00e3o, ingovernabilidade e \u00e0 anarquia &#8230; Por tudo isso, entendemos que o novo Comit\u00ea de Emerg\u00eancia do Estado, ao restaurar a governabilidade, a integridade territorial e barrar a guerra civil que se avizinhava, deve merecer o apoio de todos os comunistas do mundo\u201d. Os documentos foram divulgados \u00e0 imprensa em Bras\u00edlia, dia 20 de agosto de 1991. Arquivo do autor.<\/p>\n<p>30 O autor foi um dos participantes desta dram\u00e1tica reuni\u00e3o e testemunha da declara\u00e7\u00e3o, junto com os outros membros do CC da esquerda.<\/p>\n<p>31 Jornal Partido Novo (Rumo ao X Congresso Extraordin\u00e1rio do PCB). Outubro de 1991. Em nota os editores dizem que a Voz da Unidade, antigo \u00f3rg\u00e3o oficial do PCB, s\u00f3 voltar\u00e1 a circular ap\u00f3s amplo debate com a sociedade sobre o tipo de jornal necess\u00e1rio para expressar a nova pol\u00edtica. O jornal Partido Novo publicou a resolu\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica da Comiss\u00e3o Executiva Nacional que convocou o Congresso e as normas do X Congresso, nas quais definem a elei\u00e7\u00e3o dos n\u00e3o filiados. \u201cO X Congresso est\u00e1 aberto \u00e0 participa\u00e7\u00e3o, com direito \u00e0 voz e voto, de todos os que lutam pelo socialismo com liberdade e democracia (Par\u00e1grafo 2)\u201d. No Par\u00e1grafo 4, Item dois, definem que os delegados podem ser eleitos: \u201cEm assembl\u00e9ias de filiados n\u00e3o estruturados nas atuais organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias ou n\u00e3o filiados, desde que reconhecidas essas assembl\u00e9ias pelo Diret\u00f3rio Regional ou Executiva Nacional e reunindo no m\u00ednimo 10 participantes, sem duplicidade de presen\u00e7a\u201d. Ou seja, n\u00e3o s\u00f3 poderiam participar n\u00e3o filiados como uma figura at\u00edpica nas reuni\u00f5es partid\u00e1rias, os chamados \u201cn\u00e3o estruturados\u201d, al\u00e9m do fato de que o controle desse processo ficava na m\u00e3o dos liquidacionistas. Se por acaso a oposi\u00e7\u00e3o elegesse delegados n\u00e3o filiados, estes poderiam ser impugnados pelas inst\u00e2ncias controladoras. Arquivo do autor.<\/p>\n<p>32 Nessa reuni\u00e3o do Comit\u00ea Central ocorreu um epis\u00f3dio interessante. A mesa diretora da reuni\u00e3o, ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o de todas as resolu\u00e7\u00f5es que previa a extin\u00e7\u00e3o do PCB apressadamente deu por encerrada a reuni\u00e3o. Neste momento, Ivan Pinheiro tomou o microfone da m\u00e3o do dirigente da mesa e declarou a continuidade dos trabalhos: \u201cA reuni\u00e3o acabou pra voc\u00eas, mas para n\u00f3s que queremos continuar o PCB continua. Em seguida leu o Manifesto em Defesa do PCB. Os membros da esquerda continuaram a reuni\u00e3o e tra\u00e7aram a estrat\u00e9gia de resist\u00eancia \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o do partido.<\/p>\n<p>33 Em Defesa do PCB. Manifesto dos integrantes da esquerda do Comit\u00ea Central lan\u00e7ado na reuni\u00e3o que decidiu pela realiza\u00e7\u00e3o do Congresso Extraordin\u00e1rio. Arquivo do autor.<\/p>\n<p>34 Mesmo n\u00e3o estando presentes, 13 membros do Comit\u00ea Central foram consultados e assinaram o manifesto. Os membros que assinaram o documento foram os seguintes: Anna Montenegro (BA); Ant\u00f4nio Carlos Mazzeo (SP); Argemiro Lima Louren\u00e7o (DF); Carlos Telles (RJ); Celso Manso (SP); Edmilson Costa (SP); Eduardo Serra (RJ); Guilherme de F\u00e1tima (MG); Hemilton Bezerra (PE); Hor\u00e1cio Macedo (RJ); Isnard Teixeira (RJ); Ivan Pinheiro (RJ); Jo\u00e3o Carlos Neg\u00e3o (RJ); Jo\u00e3o Carlos de Souza (SC); Jo\u00e3o de Deus Rocha (MG); Jos\u00e9 Fernando de Medeiros (AP); Jos\u00e9 Milton Pinheiro (BA); Lenilda Assis (PR); Luis Carlos da Gama (SC); Maria Creuza Carvalho (PI); Maria do Socorro (SP); Moacir Dantas (PE); Oswando de Oliveira (CE); Paulo Gnecco (SP); Raimundo Jinkings (PA); Roberto Ponciano (RJ); Trajano Jardim (DF); Valdomiro Junior. (BA); Zuleide Faria de Melo (RJ).<\/p>\n<p>35 A coordena\u00e7\u00e3o do Movimento era composta pelos seguintes camaradas: Ant\u00f4nio Carlos Mazzeo; Carlos Telles; Edmilson Costa; Ivan Pinheiro; Jos\u00e9 Milton Pinheiro; Luis Carlos Gama; Moacir Dantas; Raimundo Jinkings; Trajano Jardim e Zuleide Faria de Melo. Arquivo do autor.<\/p>\n<p>36 Idem, pg. 3. Arquivo do autor.<\/p>\n<p>37 Carta assinada por Hor\u00e1cio Macedo, em nome da Mesa diretora da assembl\u00e9ia da ABI, ao presidente do PCB, Roberto Freire. Arquivo do Autor.<\/p>\n<p>38 Resolu\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica do Encontro Nacional em Defesa do PCB. Rio de Janeiro, outubro de 1991. Pg. 1e 2. Arquivo do autor.<\/p>\n<p>39 Idem, pg. 1<\/p>\n<p>40 Idem, pg. 2<\/p>\n<p>41 Idem, pg. 2<\/p>\n<p>42 No in\u00edcio do processo o Movimento estava jogando todo o peso para a tirada de delegados ao X Congresso, inclusive j\u00e1 tinha ganho confer\u00eancias como Rio de Janeiro, Bras\u00edlia e Bahia, mas foi obrigado a mudar de posi\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da fraude generalizada que estava ocorrendo no Pa\u00eds, com a constitui\u00e7\u00e3o dos \u201cF\u00f3runs Socialistas\u201d, um artif\u00edcio para fraudar a delega\u00e7\u00e3o do Congresso.<\/p>\n<p>43 Os dois delegados que falaram pela esquerda foram Hor\u00e1cio Macedo e Ivan Pinheiro, da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional do Movimento em Defesa do PCB. Esse evento est\u00e1 registrado no filme \u201cN\u00e3o \u00e9 mole n\u00e3o, acabar com o Partid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>44 O novo Comit\u00ea Central era composto por 39 camaradas efetivos e 12 suplentes, com a seguinte Comiss\u00e3o Executiva Nacional. \u201cHor\u00e1cio Macedo, presidente (RJ); Ivan Pinheiro, vice-presidente (RJ); Zuleide Faria de Melo, secret\u00e1ria-geral (RJ); Ant\u00f4nio Carlos Mazzeo (SP); Edmilson Costa (SP); Jo\u00e3o de Deus Rocha (MG); Maria Elisabeth Pereira (SP); Paulo Gnecco (SP); Raimundo Jinkings (PA); Roberto Gusm\u00e3o (MG); e Trajano Jardim (DF).<\/p>\n<p>45 Resolu\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica da Confer\u00eancia Extraordin\u00e1ria de Reorganiza\u00e7\u00e3o do PCB. S\u00e3o Paulo, 26 de janeiro de 1992. Arquivo do autor.<\/p>\n<p>46 Idem, pg. 2<\/p>\n<p>47 Idem, pg. 3<\/p>\n<p>48 Idem, pg. 4<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28166\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[365,46,5,383],"tags":[222],"class_list":["post-28166","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-centenario-do-pcb","category-c56-memoria","category-s4-pcb","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7ki","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28166","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28166"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28166\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28166"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28166"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28166"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}