{"id":28191,"date":"2021-12-19T15:48:42","date_gmt":"2021-12-19T18:48:42","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28191"},"modified":"2021-12-19T15:48:42","modified_gmt":"2021-12-19T18:48:42","slug":"o-sequestro-judicial-de-julian-assange","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28191","title":{"rendered":"O sequestro judicial de Julian Assange"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.counterpunch.org\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/7574476536_0924bbe5e3_c.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por John Pilger, via ODIARIO.INFO<\/p>\n<p>Julian Assange, na condi\u00e7\u00e3o de jornalista, prestou um incomensur\u00e1vel servi\u00e7o p\u00fablico ao revelar e documentar os crimes e a falsidade e mentira sist\u00eamica dos EUA e outras pot\u00eancias imperialistas. O seu processo judicial \u00e9 igualmente revelador: um homem implacavelmente perseguido h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada sem que tenha cometido qualquer crime; o sequestro e deten\u00e7\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es desumanas que visam destru\u00ed-lo f\u00edsica e psicologicamente; a caricatura de processos judiciais de que \u00e9 alvo, culminando com a farsa da recente decis\u00e3o do Supremo Tribunal brit\u00e2nico de o extraditar para os EUA (pa\u00eds do qual nem sequer \u00e9 cidad\u00e3o). Um processo revelador do que significa realmente o \u201cEstado de direito\u201d para o povo e para um sistema que se julga em condi\u00e7\u00f5es de dar li\u00e7\u00f5es ao mundo.<\/p>\n<p>\u201cOlhemos para n\u00f3s mesmos, se tivermos coragem, para ver o que est\u00e1 nos acontecendo\u201d<br \/>\n&#8211; Jean-Paul Sartre<\/p>\n<p>As palavras de Sartre deveriam ecoar em todas as nossas mentes no seguimento da grotesca decis\u00e3o do Supremo Tribunal da Gr\u00e3-Bretanha de extraditar Julian Assange para os Estados Unidos, onde ele enfrenta \u201cuma morte em vida\u201d. Esta \u00e9 a sua puni\u00e7\u00e3o pelo crime de aut\u00eantico, preciso, corajoso e vital jornalismo.<\/p>\n<p>Erro judici\u00e1rio \u00e9 um termo inadequado nestas circunst\u00e2ncias. Bastaram apenas nove minutos na \u00faltima sexta-feira aos cortes\u00e3os de peruca do ancien regime brit\u00e2nico para apoiar um recurso norte-americano contra a aceita\u00e7\u00e3o em janeiro por um juiz do Tribunal Distrital de uma catarata de evid\u00eancias de que o que esperava Assange do outro lado do Atl\u00e2ntico era o inferno na terra: um inferno no qual fora previsto por peritos que ele iria encontrar maneira de tirar a sua pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Volumes de testemunhos de gente destacada, que examinaram e estudaram Julian e diagnosticaram o seu autismo e a sua S\u00edndrome de Asperger, revelando que ele j\u00e1 estivera prestes a se matar na pris\u00e3o de Belmarsh, o pr\u00f3prio inferno da Gr\u00e3-Bretanha, foram ignorados.<\/p>\n<p>Foi ignorada a recente confiss\u00e3o de um informante crucial do FBI e fantoche da acusa\u00e7\u00e3o, um defraudador e mentiroso contumaz, de que havia fabricado as suas provas contra Julian. A revela\u00e7\u00e3o de que a empresa de seguran\u00e7a administrada por espanh\u00f3is na embaixada de Equador em Londres, onde Julian obtivera ref\u00fagio pol\u00edtico, era uma fachada da CIA que espionava os advogados, m\u00e9dicos e confidentes de Julian (incluindo eu mesmo) \u2013 tamb\u00e9m isso foi ignorado.<\/p>\n<p>A recente revela\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, graficamente repetida pelo advogado de defesa perante o Supremo Tribunal em outubro, de que a CIA tinha planejado assassinar Julian em Londres &#8211; at\u00e9 isso foi ignorado.<\/p>\n<p>Cada uma destas \u201cquest\u00f5es\u201d, como os advogados gostam de dizer, bastava por si s\u00f3 para um juiz respeitador da lei rejeitar o vergonhoso processo montado contra Assange por um corrupto Departamento de Justi\u00e7a dos Estados Unidos e os pistoleiros na Gr\u00e3-Bretanha a seu servi\u00e7o. O estado de esp\u00edrito de Julian, berrava no ano passado James Lewis, QC, o homem dos EUA em Old Bailey, n\u00e3o era mais do que \u201cfingimento\u201d (\u201dmalingering\u201d) &#8211; um arcaico termo vitoriano usado para negar a pr\u00f3pria exist\u00eancia de doen\u00e7a mental.<\/p>\n<p>Para Lewis, quase todas as testemunhas de defesa, incluindo aquelas que, com base na sua profunda experi\u00eancia e conhecimento, descreveram o b\u00e1rbaro sistema prisional norte-americano, seriam interrompidas, abusadas e desacreditadas. Sentado atr\u00e1s dele, passando-lhe notas, estava o seu maestro norte-americano: jovem, de cabelo curto, claramente um homem da Ivy League em ascens\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos seus nove minutos de desconsidera\u00e7\u00e3o sobre o destino do jornalista Assange, dois dos mais destacados ju\u00edzes da Gr\u00e3-Bretanha, incluindo o Lord Chief Justice, Lord Burnett (um cupincha de longa data de Sir Alan Duncan, ex-ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores de Boris Johnson que planejou o brutal sequestro policial de Assange da embaixada do Equador) n\u00e3o se referiram nem a uma de uma litania de verdades levantadas em audi\u00eancias anteriores no Tribunal Distrital &#8211; verdades que tinham lutado para ser ouvidas num tribunal inferior presidido por uma ju\u00edza estranhamente hostil, Vanessa Baraitser. O seu comportamento insultuoso para com um Assange claramente diminu\u00eddo, esfor\u00e7ando-se para recordar o seu nome por entre o nevoeiro de medicamentos ministrados na pris\u00e3o, \u00e9 inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>O que foi realmente chocante na \u00faltima sexta-feira foi que os ju\u00edzes do Supremo Tribunal &#8211; Lord Burnett e Lord Justice Timothy Holyrode, que leram as palavras da senten\u00e7a &#8211; n\u00e3o manifestaram qualquer hesita\u00e7\u00e3o em enviar Julian para a morte, em vida ou de outra forma. N\u00e3o disponibilizaram qualquer mitiga\u00e7\u00e3o, qualquer sugest\u00e3o de que se tinham preocupado com a legalidade ou mesmo com moralidade b\u00e1sica.<\/p>\n<p>A sua decis\u00e3o favor\u00e1vel, se n\u00e3o mesmo por encomenda dos Estados Unidos, \u00e9 claramente baseada em \u201cgarantias\u201d obviamente fraudulentas, executadas \u00e0s pressas pelo governo Biden, quando em janeiro parecia poder prevalecer a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Essas \u201cgarantias\u201d s\u00e3o de que, uma vez sob cust\u00f3dia norte-americana, Assange n\u00e3o estar\u00e1 sujeito ao orwelliano SAMS &#8211; Special Administrative Measures, Medidas Administrativas Especiais &#8211; que o converteriam numa n\u00e3o-pessoa; que n\u00e3o ser\u00e1 preso na ADX Florence, uma pris\u00e3o no Colorado h\u00e1 muito condenada por juristas e grupos de direitos humanos como ilegal: \u201cum po\u00e7o de puni\u00e7\u00e3o e desaparecimento\u201d; que pode ser transferido para uma pris\u00e3o australiana para ali concluir a sua senten\u00e7a.<\/p>\n<p>O absurdo reside no que os ju\u00edzes omitiram dizer. Ao oferecer as suas \u201cgarantias\u201d, os EUA reservam-se o direito de n\u00e3o garantir nada caso Assange fa\u00e7a algo que desagrade aos seus carcereiros. Por outras palavras, e tal como a Anistia apontou, reserva-se o direito de quebrar qualquer promessa.<\/p>\n<p>Existem muitos exemplos de os EUA fazerem exatamente isso. Conforme revelou no m\u00eas passado o jornalista de investiga\u00e7\u00e3o Richard Medhurst, David Mendoza Herrarte foi extraditado da Espanha para os Estados Unidos sob a \u201cpromessa\u201d de cumprir a sua pena em Espanha. Os tribunais espanh\u00f3is consideraram isso uma condi\u00e7\u00e3o vinculativa.<\/p>\n<p>\u201cDocumentos confidenciais revelam as garantias diplom\u00e1ticas dadas pela Embaixada dos Estados Unidos em Madri e como os Estados Unidos violaram as condi\u00e7\u00f5es da extradi\u00e7\u00e3o\u201d, escreveu Medhurst, \u201cMendoza passou seis anos nos Estados Unidos tentando retornar \u00e0 Espanha. Documentos judiciais mostram que os Estados Unidos negaram numerosas vezes o seu pedido de transfer\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Os ju\u00edzes do Supremo Tribunal &#8211; que estavam cientes do caso Mendoza e da habitual duplicidade de Washington &#8211; descrevem as \u201cgarantias\u201d como n\u00e3o sendo brutais para Julian Assange e como um \u201ccompromisso solene oferecido por um governo a outro\u201d. Este artigo extender-se-ia infinitamente se fizesse a lista das vezes em que os gananciosos EUA quebraram \u201ccompromissos solenes\u201d com governos, tal como tratados que s\u00e3o sumariamente rasgados e guerras civis que s\u00e3o alimentadas. \u00c9 a forma como Washington tem governado o mundo e antes dele a Gr\u00e3-Bretanha: a maneira de agir do poder imperial, como nos ensina a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 esta mentira e duplicidade institucional que Julian Assange trouxe \u00e0 tona e, ao faz\u00ea-lo, realizou talvez o maior servi\u00e7o p\u00fablico de qualquer jornalista nos tempos modernos.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Julian tem sido prisioneiro de governos mentirosos h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. Durante estes longos anos, estive presente em muitos tribunais enquanto os EUA tentavam manipular a lei para o silenciar a ele e ao WikiLeaks.<\/p>\n<p>Isto atingiu um bizarro momento quando, na min\u00fascula embaixada do Equador, ele e eu fomos for\u00e7ados a comprimir-nos contra uma parede, cada qual com um bloco de notas por meio do qual convers\u00e1vamos, tomando o cuidado de proteger o que hav\u00edamos escrito um ao outro das onipresentes c\u00e2meras espi\u00e3s &#8211; instaladas, como sabemos agora, por gente a soldo da CIA, a mais duradoura organiza\u00e7\u00e3o criminosa do mundo.<\/p>\n<p>Isso traz-me \u00e0 cita\u00e7\u00e3o no in\u00edcio deste artigo: \u201cOlhemos para n\u00f3s mesmos, se tivermos coragem, para ver o que nos est\u00e1 acontecendo\u201d. Jean-Paul Sartre a escreveu no seu pref\u00e1cio a Les Damn\u00e9s de la Terre, de Franz Fanon, o cl\u00e1ssico estudo de como povos colonizados, seduzidos e coagidos obedecem aos poderosos.<\/p>\n<p>Quem de entre n\u00f3s est\u00e1 pronto para se levantar em vez de permanecer mero espectador de uma farsa \u00e9pica como o sequestro judicial de Julian Assange? O que est\u00e1 em jogo \u00e9 tanto a vida de um homem corajoso como, se permanecermos em sil\u00eancio, a derrota dos nossos intelectos e do nosso sentido do que \u00e9 justo e injusto: na verdade, da nossa pr\u00f3pria humanidade.<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/www.counterpunch.org\/2021\/12\/10\/the-judicial-kidnapping-of-julian-assange\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28191\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"Quem de entre n\u00f3s est\u00e1 pronto para se levantar em vez de permanecer mero espectador de uma farsa \u00e9pica como o sequestro judicial de Julian Assange?\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[245,38,9,146,10,104],"tags":[227],"class_list":["post-28191","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","category-c43-imperialismo","category-s10-internacional","category-internacionalismo","category-s19-opiniao","category-c117-outras-opinioes","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7kH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28191"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28191\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}