{"id":28201,"date":"2021-12-22T10:58:02","date_gmt":"2021-12-22T13:58:02","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28201"},"modified":"2021-12-20T11:57:19","modified_gmt":"2021-12-20T14:57:19","slug":"sem-21-nao-tem-22-a-hora-e-essa-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28201","title":{"rendered":"Sem 21 n\u00e3o tem 22: a hora \u00e9 essa! (parte 2)"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/image-1.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Dmitry Galv\u00e3o<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o desde o \u00faltimo golpe de Estado<\/p>\n<p>Crise e golpismo em alta intensidade<\/p>\n<p>A crise mundial de 2008 do sistema capitalista foi a mais grave observada desde a de 1929. No Brasil, assim como em outros pa\u00edses latino-americanos, seus impactos foram sentidos atrav\u00e9s da press\u00e3o das fra\u00e7\u00f5es capitalistas dos pa\u00edses imperialistas, prontamente adotada tamb\u00e9m pelos capitalistas locais, por uma ofensiva contra mercados potenciais e ativos econ\u00f4micos que n\u00e3o estavam acess\u00edveis, em pa\u00edses dependentes. Alguns exemplos s\u00e3o: as empresas estatais, as aposentadorias, os direitos trabalhistas, fatores m\u00ednios para a dignidade do povo, conquistados \u00e0 partir de press\u00e3o organizada da classe trabalhadora. Desde 2008, in\u00fameros golpes de Estado ocorreram na Am\u00e9rica Latina, na \u00c1frica e no Oriente M\u00e9dio, fomentados pelos EUA, por seus aliados na OTAN e por entidades como a Organiza\u00e7\u00e3o de Estados Americanos.<\/p>\n<p>Apenas na Am\u00e9rica Latina, entre os pa\u00edses nos quais foram registrados golpes e intentos de desestabiliza\u00e7\u00e3o estavam: Honduras, no Paraguai, no Brasil, na Venezuela, em Cuba, e na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>2016 \u2013 Golpe e palavras de ordem sem consequ\u00eancia<\/p>\n<p>Desde a contesta\u00e7\u00e3o do resultado das elei\u00e7\u00f5es de 2014 por parte do PSDB, a oposi\u00e7\u00e3o de direita ao governo da presidenta Dilma Roussef assumiu uma postura abertamente golpista.<\/p>\n<p>O governo foi reeleito sob a consigna de uma \u201cguinada \u00e0 esquerda\u201d e contr\u00e1ria \u00e0 austeridade, no entanto, adotou uma pol\u00edtica de ajuste fiscal, muito pr\u00f3xima da proposta por A\u00e9cio Neves (PSDB).<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o criou grande instabilidade para o governo, que abriu espa\u00e7os em minist\u00e9rios para partidos como o PRB, ligado \u00e0 Igreja Universal. O bispo Marcelo Crivella foi escolhido ministro da pesca.<\/p>\n<p>A burguesia no Brasil, no entanto, vislumbrou a possibilidade de um governo neoliberal puro sangue, encabe\u00e7ado pelo ent\u00e3o vice-presidente Michel Temer (PMDB), disposto a realizar as ofensivas contra os direitos do povo que a burguesia transnacional impunha como forma de reduzir as perdas da crise.<\/p>\n<p>J\u00e1 no come\u00e7o de 2016 ficou evidente que Temer conspirava ativamente pela derrubada da presidenta Dilma.<\/p>\n<p>O PT ent\u00e3o adotou a palavra de ordem \u201cn\u00e3o vai ter golpe, vai ter luta\u201d. Mas a aposta de defesa da presidenta acusada injustamente se deu praticamente toda voltada para o \u00e2mbito institucional e para a articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de bastidores, como forma de tentar diminuir o n\u00famero de parlamentares dispostos a votar pelo impeachment.<\/p>\n<p>\u00c0 exce\u00e7\u00e3o de alguns atos de rua, n\u00e3o houve mobiliza\u00e7\u00e3o ativa da classe trabalhadora proporcional a uma conjuntura de um golpe de Estado, como a convocat\u00f3ria de uma greve geral. Isso, mesmo com o PT dirigindo a CUT, principal central sindical do Brasil at\u00e9 a atualidade.<\/p>\n<p>2016 e 2017: Consolida\u00e7\u00e3o do golpe e ofensiva contra os direitos do povo<\/p>\n<p>Com o golpe consumado, o novo governo, de extrema-direita, apresentou um conjunto de reformas antipopulares demandas pela burguesia no Brasil e a transnacional. Eram elas: a contrarreforma do ensino m\u00e9dio, a contrarreforma da previd\u00eancia, a contrarreforma trabalhista e o que viria a converter-se na Emenda Constitucional 95, chamada \u00e0 \u00e9poca de PEC da Morte. Essa emenda inscreveu, ainda em 2016 na Constitui\u00e7\u00e3o, que os gastos p\u00fablicos em \u00e1reas como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia social, n\u00e3o poderiam ser aumentados pelos 20 anos seguintes, ou seja, at\u00e9 2036.<\/p>\n<p>Todas essas ofensivas encontraram firme oposi\u00e7\u00e3o na sociedade, na forma de paralisa\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es de massas que exigiam tamb\u00e9m o fim do governo ileg\u00edtimo e golpista de Temer. Em 24 de maio de 2017, Temer autorizou o uso das for\u00e7as armadas contra manifestantes que tomaram Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>A aposta feita por setores do campo democr\u00e1tico-popular, de que nas elei\u00e7\u00f5es de outubro de 2018 seria obtida uma vit\u00f3ria que reverteria os retrocessos, foi um obst\u00e1culo para a derrubada do governo Temer, apesar da rejei\u00e7\u00e3o de 97% da popula\u00e7\u00e3o ao seu governo.<\/p>\n<p>Dessas ofensivas, a \u00fanica que foi derrotada naquele momento foi a contrarreforma da previd\u00eancia, por meio de uma Greve Geral, que deixou um saldo positivo e vitorioso para a classe trabalhadora, mas que \u00e9 pouco lembrada.<\/p>\n<p>A aprova\u00e7\u00e3o da contrarreforma da previd\u00eancia s\u00f3 viria a ocorrer em 2019, sob o impulso de governo rec\u00e9m-eleito com o qual contava Bolsonaro.<\/p>\n<p>2018 \u2013 Estreitamento das liberdades democr\u00e1ticas<\/p>\n<p>O ano de 2018 ficou marcado pela interven\u00e7\u00e3o militar no Rio de Janeiro. Foi mais um passo dado por Temer e seu ministro da seguran\u00e7a p\u00fablica, Raul Jungmann, para o aumento da militariza\u00e7\u00e3o da vida social. No dia 14 de mar\u00e7o, a vereadora Marielle Franco do PSOL, tamb\u00e9m do Rio de Janeiro, foi assassinada em um atentado pol\u00edtico, cujos mandantes ainda n\u00e3o foram punidos.<\/p>\n<p>Em 7 de abril de 2018, o ex-presidente Lula teve sua ordem de pris\u00e3o expedida com base nos infundados casos do tr\u00edplex e do s\u00edtio, fustigados pelo ent\u00e3o juiz Moro. O ex-presidente foi para o sindicato dos metal\u00fargicos do ABC, em volta do qual se reuniu uma grande multid\u00e3o em defesa do petista. Ap\u00f3s reuni\u00e3o, na qual muitos se posicionaram de que, perante a injusti\u00e7a \u00e0 qual era submetido, Lula deveria esperar que viessem prend\u00ea-lo tendo que passar pela crescente multid\u00e3o e n\u00e3o se entregar, o ex-presidente seguiu a opini\u00e3o dos advogados e optou por se apresentar voluntariamente, sem que houvesse maiores mobiliza\u00e7\u00f5es populares posteriormente, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o da campanha Lula livre.<\/p>\n<p>Durante todo o per\u00edodo de pr\u00e9 campanha, o PT agitou a correta palavra de ordem de que elei\u00e7\u00f5es sem Lula seriam uma fraude. E de fato seriam, pelo simples fato de ele ser um cidad\u00e3o brasileiro que desejava candidatar-se e que cumpria os requisitos para tanto e estava sendo impedido. Era agravante ainda o fato de este cidad\u00e3o ser o candidato l\u00edder das inten\u00e7\u00f5es de votos em todas as pesquisas.<\/p>\n<p>No entanto, as elei\u00e7\u00f5es ocorreram sem Lula, sendo portanto manipuladas. Mas o PT n\u00e3o levou sua pr\u00f3pria palavra de ordem a termo e n\u00e3o suspendeu a participa\u00e7\u00e3o no pleito, como seria natural em um processo notadamente fraudulento.<\/p>\n<p>Em vez disso, apresentou faltando, menos de 1 m\u00eas para as elei\u00e7\u00f5es, a candidatura de Fernando Haddad, ex-prefeito de S\u00e3o Paulo cuja \u00faltima experi\u00eancia eleitoral havia sido a derrota em sua tentativa de reelei\u00e7\u00e3o para a prefeitura em 2016. Nessa disputa, Haddad havia sido derrotado em todas as urnas da cidade, no 1\u00b0 turno, por Jo\u00e3o Doria (PSDB).<\/p>\n<p>O resultado foi uma candidatura com pouca express\u00e3o pol\u00edtica, que no 1\u00b0 turno recebeu os votos de eleitores, simpatizantes e militantes do PT e no 2\u00b0 turno agregou os setores democr\u00e1ticos, socialistas e antifascistas, mas que foi incapaz de reverter a onda bolsonarista.<\/p>\n<p>2019 Retomada estudantil das ruas<\/p>\n<p>O ano de 2019, que come\u00e7ou ainda com grande influ\u00eancia da campanha eleitoral, teve a brutalidade fascista ainda mais escancarada. Exemplo foi pol\u00edtica de \u201catirar na cabecinha\u201d do ent\u00e3o governador fascista do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, eleito na onda do bolsonarismo.<\/p>\n<p>Apesar de ser de amplo conhecimento o car\u00e1ter fascistizante do governo Bolsonaro, havia grande incerteza entre setores da esquerda sobre como se comportar diante do governo rec\u00e9m-eleito.<\/p>\n<p>A grande m\u00eddia se esfor\u00e7ou para difundir a ideia de que o governo Bolsonaro adquirira modera\u00e7\u00e3o e de que as posi\u00e7\u00f5es expressadas por ele eram de um personagem.<\/p>\n<p>Classificaram o governo como de direita. Quando pa\u00edses de todo o mundo destacavam o \u00f3bvio, que o Brasil passara a ser governado pela extrema-direita, tentaram dividir o governo em alas: ala ideol\u00f3gica, ala militar, ala econ\u00f4mica. Segundo essa l\u00f3gica, algumas seriam melhores ou mais racionais do que outras.<\/p>\n<p>Elogiaram o \u201cperfil t\u00e9cnico dos ministros\u201d. Ressaltaram que na pior das hip\u00f3teses, a pol\u00edtica econ\u00f4mica estaria em boas m\u00e3os com Paulo Guedes.<\/p>\n<p>Entre setores da centro-esquerda, tornaram-se comuns falas no sentido de que eleito bolsonaro, era aguardar a pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o, e que o povo teria de lidar com a sua escolha. Outro argumento que desembocava em consequ\u00eancia parecida era o de que seria bom o t\u00e9rmino do mandato de bolsonaro para evitar \u201cuma tradi\u00e7\u00e3o de impeachments\u201d que poderia vir a prejudicar um eventual futuro governo de esquerda. A consequ\u00eancia: a oposi\u00e7\u00e3o em baixa intensidade.<\/p>\n<p>2019, no entanto, foi um ano de profundos retrocessos, que exigia grandes mobiliza\u00e7\u00f5es. O avan\u00e7o de grileiros, madeireiros e garimpeiros contra as terras ind\u00edgenas com o apoio do governo federal. Aumento das mortes no campo. Aumento dos n\u00fameros de mortos em opera\u00e7\u00f5es policiais nas favelas e periferias. Flexibiliza\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o e controle de armas, interven\u00e7\u00f5es nas universidades federais, cortes de verbas de \u00e1reas como a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o. Entrega do patrim\u00f4nio nacional. Foram apenas alguns dos retrocessos de 2019.<\/p>\n<p>Naquele ano as entidades estudantis cumpriram papel fundamental nas lutas de ruas, retomando um protagonismo que havia muito estava apagado. A UNE foi respons\u00e1vel por importantes protestos que ficaram conhecidos como Tsunamis da Educa\u00e7\u00e3o. Esses protestos, al\u00e9m de mobilizar estudantes, funcion\u00e1rios e professores, serviram tamb\u00e9m como espa\u00e7o de canaliza\u00e7\u00e3o para a express\u00e3o do descontentamento e inconformidade com o governo fascista, contando com a participa\u00e7\u00e3o de amplos segmentos sociais em luta pelo FORA Bolsonaro.<br \/>\nContraditoriamente, no entanto, Bolsonaro teve apenas 5 pedidos de impeachment protocolados no seu primeiro ano de governo.<\/p>\n<p>Em 2020 foram 54 e em 2021 84.<\/p>\n<p>Se uma violenta pol\u00edtica de morte j\u00e1 estava se abatendo sobre a classe trabalhadora, e uma parte da esquerda tem como principal m\u00e9trica a institucionalidade, por que ent\u00e3o houve apenas 5 pedidos de impeachment em 2019? Se j\u00e1 vigorava a todo vapor a pol\u00edtica genocida, de destrui\u00e7\u00e3o e entrega do patrim\u00f4nio nacional, preparada e iniciada por Temer?<\/p>\n<p>2020: eclos\u00e3o da pandemia e ofensiva golpista da extrema-direita &#8211; manifesta\u00e7\u00f5es antifascistas e antirracistas obrigam recuo do governo<\/p>\n<p>O ano de 2020 come\u00e7ou com os tensionamentos em torno do or\u00e7amento federal. Era o fator de desgaste utilizado por Bolsonaro como agita\u00e7\u00e3o golpista de que os outros poderes estavam impedindo o seu governo. Quando os primeiros casos de corona v\u00edrus foram identificados no Brasil, j\u00e1 haviam manifesta\u00e7\u00f5es golpistas de extrema-direita marcadas, para o dia 15 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s os primeiros registros da doen\u00e7a e uma onda de incerteza geral, o pr\u00f3prio Bolsonaro, temendo um fiasco, cancelou a convoca\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es. Mas em um processo de idas e vindas elas acabaram ocorrendo, ainda que com ades\u00e3o bem menor do que a prevista.<br \/>\nA partir desse momento, a pol\u00edtica de sabotagem ao combate da pandemia tornou-se aberta e ininterrupta. As declara\u00e7\u00f5es golpistas tamb\u00e9m se intensificaram at\u00e9 que, em junho, chegaram \u00e0 temperatura m\u00e1xima, com a amea\u00e7a expl\u00edcita de bolsonaro quanto ao fechamento do regime com nova convocat\u00f3ria de manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O assassinato de Jo\u00e3o Pedro, de 14 anos, por policiais que entraram atirando na casa do jovem, em maio, foi mais um epis\u00f3dio da pol\u00edtica de genoc\u00eddio da juventude negra e do racismo enraizado no Brasil.<\/p>\n<p>As torcidas organizadas e o movimento negro reagiram de maneira vigorosa e convocaram manifesta\u00e7\u00f5es de rua de car\u00e1ter antifascista e antirracista.<\/p>\n<p>Essas manifesta\u00e7\u00f5es reuniram milhares de pessoas nas ruas, em todo o pa\u00eds, por dois finais de semana consecutivos, e demonstraram a disposi\u00e7\u00e3o de luta e resist\u00eancia da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Que a extrema-direita n\u00e3o tinha o campo todo para si.<\/p>\n<p>Muitos setores da centro-esquerda e esquerda, no entanto, deixaram de aderir a essas importantes manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O argumento usado foi sanit\u00e1rio, mas a realidade \u00e9 que as apostas desses setores estavam voltadas apenas para a luta dentro do parlamento e das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse argumento sanit\u00e1rio mostrou-se infundado, ou ao menos deslocado da realidade da classe trabalhadora, tendo em vista que, \u00e0quela altura, parte expressiva da classe trabalhadora j\u00e1 n\u00e3o tinha mais assegurada a possibilidade de quarentena, sendo obrigada a continuamente se arriscar em \u00f4nibus, trens e metr\u00f4s lotados todos os dias, enquanto as taxas de contamina\u00e7\u00e3o, ocupa\u00e7\u00e3o de leitos de UTI e mortes apenas aumentavam.<\/p>\n<p>Ademais, nas manifesta\u00e7\u00f5es da esquerda, ao contr\u00e1rio das da extrema-direita, prevaleceu o uso de m\u00e1scara e o distanciamento entre manifestantes.<\/p>\n<p>Depois dessa demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a por parte de movimentos, organiza\u00e7\u00f5es e partidos independentes da classe trabalhadora, Bolsonaro buscou uma acomoda\u00e7\u00e3o com o congresso nacional e o STF, no que foi prontamente atendido.<\/p>\n<p>Esse recuo diminuiu o senso de urg\u00eancia quanto \u00e0 luta pelo FORA Bolsonaro e a falta de ades\u00e3o de diversos setores fez com que o foco da luta fosse mais uma vez desviado das ruas, onde estavam e poderiam estar as maiorias sociais, para o parlamento, onde prevalece o fisiologismo de direita que, sempre que necess\u00e1rio pende convenientemente para a extrema-direita.<\/p>\n<p>O segundo semestre de 2020 foi um per\u00edodo com grande n\u00famero de mortos, em que prevaleceram as manifesta\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas. A oposi\u00e7\u00e3o no parlamento garantiu que o aux\u00edlio, que o governo fascista n\u00e3o queria dar, fosse implementado. Garantiu que em vez dos R$ 200 propostos, fossem R$ 600.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o conseguiu por meio da disputa ativa de consci\u00eancia, que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel nas ruas, no trabalho de base, nas mobiliza\u00e7\u00f5es constantes, demonstrar que era uma conquista da oposi\u00e7\u00e3o. E permitiu que o governo fascista colhesse o cr\u00e9dito e a popularidade por essa pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Recuos e derrotas<\/p>\n<p>Em janeiro de 2021, o sistema de sa\u00fade de Manaus entrou em colapso. Os leitos de UTI ficaram totalmente ocupados. Muitas pessoas morreram sufocadas em hospitais, por falta de oxig\u00eanio. Outras tantas em casa, sem oxig\u00eanio e sem atendimento. Foi descoberto que o minist\u00e9rio da sa\u00fade tinha conhecimento sobre o colapso iminente do sistema de sa\u00fade de Manaus. Que o presente de Natal do governo para o povo brasileiro foi o aumento em 14% no imposto sobre a importa\u00e7\u00e3o de cilindros de oxig\u00eanio.<\/p>\n<p>Que o ent\u00e3o general-ministro esteve em Manaus poucos dias antes para promover rem\u00e9dio com perigosos efeitos colaterais e que comprovadamente n\u00e3o surte qualquer efeito positivo no tratamento da covid, podendo ter resultado na morte de muitas outras pessoas que foram vitimadas por essa criminosa desinforma\u00e7\u00e3o, propagada pelo governo genocida. Esse mesmo ministro, sendo especialista em log\u00edstica, confundiu o seu pr\u00f3prio estado, Amazonas, com o Amap\u00e1. E enviou insumos destinados a um para o outro.<\/p>\n<p>Vieram \u00e0 tona as recusas do governo quanto \u00e0 compra de vacinas, que j\u00e1 poderiam ter sido aplicadas ao fim de 2020 e poderiam ter salvado as vidas de dezenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras brasileiras. Quando do colapso de sa\u00fade em Manaus, Nicol\u00e1s Maduro, presidente da Rep\u00fablica Bolivariana da Venezuela doou cilindros de oxig\u00eanio que foram fundamentais para atenuar o mortic\u00ednio que se abateu sobre a capital amazonense. O transporte por via a\u00e9rea, no entanto, foi negado pelas autoridades no Brasil e o trajeto teve de ser feito por via terrestre, mais demorada, em caminh\u00f5es.<\/p>\n<p>Mais um exemplo das pr\u00e1ticas solid\u00e1rias dos governos populares e socialistas, como Venezuela e Cuba, que, demonizados pelo imperialismo e pelas burguesias, enviam m\u00e9dicos e rem\u00e9dios, enquanto imperialistas e seus vassalos enviam balas e bombas.<\/p>\n<p>No come\u00e7o do ano de 2021, a luta pelo direito \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o do povo brasileiro foi um importante tema de agita\u00e7\u00e3o e pauta da classe trabalhadora, tendo surtido efeito, apesar de todas as tentativas de impedir a compra de vacinas, superfatur\u00e1-las e atrasar ao m\u00e1ximo a log\u00edstica e p\u00f4r em d\u00favida a seguran\u00e7a e efic\u00e1cia delas. A disputa de consci\u00eancia acerca da import\u00e2ncia da vacina\u00e7\u00e3o cumpriu papel importante nessa luta.<\/p>\n<p>Com todo o esfriamento das lutas no segundo semestre de 2020. A aten\u00e7\u00e3o no come\u00e7o de 2021 esteve voltada para o colapso da sa\u00fade em Manaus e para os n\u00fameros recorde de mortes na pandemia. A m\u00eddia passou a pautar, tamb\u00e9m com grande expectativa, as elei\u00e7\u00f5es para a presid\u00eancia da c\u00e2mara, em disputa que decidira o sucessor de Rodrigo Maia (DEM).<\/p>\n<p>As duas candidaturas consideradas favoritas eram a de Arthur Lira (PP), representante hist\u00f3rico da direita fisiol\u00f3gica, e Baleia Rossi (MDB), apoiado por Maia e que articulou uma campanha para envolver a oposi\u00e7\u00e3o de centro-esquerda. Esses setores aderiram sem que fossem feitos, no entanto, quaisquer compromissos program\u00e1ticos al\u00e9m de estar aberto para ouvir e dialogar, assim como Maia. Diante desse cen\u00e1rio, o PSOL lan\u00e7ou a candidatura de Luiza Erundina, como uma candidatura de esquerda pelo FORA Bolsonaro e com o compromisso de, uma vez eleita, acatar imediatamente os pedidos de impeachment contra o genocida e fortalecer a mobiliza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Se observarmos o mapa da composi\u00e7\u00e3o da c\u00e2mara dos deputados, veremos que a oposi\u00e7\u00e3o, composta por partidos de esquerda e centro-esquerda tem 130 deputados. \u00c0 exce\u00e7\u00e3o do PSOL, que lan\u00e7ou a candidatura de Luiza Erundina \u00e0 presid\u00eancia da C\u00e2mara, todos os outros partidos opositores aderiram \u00e0 campanha de Baleia Rossi do MDB. Essa frente que em um primeiro momento chegou a envolver tamb\u00e9m o PSL, teve como vers\u00e3o final a seguinte composi\u00e7\u00e3o: MDB, DEM, PSDB, PT, PDT, PSB, PCdoB, Solidariedade, Cidadania, PV e Rede. O resultado final da vota\u00e7\u00e3o foi:<\/p>\n<p>Artur Lira (PP) &#8211; 302 votos<br \/>\nBaleia Rossi (MDB) &#8211; 145 votos<br \/>\nF\u00e1bio Ramalho (MDB) &#8211; 21 votos<br \/>\nLuiza Erundina (PSOL) &#8211; 16 votos<br \/>\nVan Hatten (NOVO) &#8211; 13 votos<br \/>\nAndr\u00e9 Janones (Avante) &#8211; 3 votos<br \/>\nKim Kataguiri (DEM) &#8211; 2 votos<br \/>\nPeternelli (PSL) &#8211; 1 voto<\/p>\n<p>Considerando que os partidos que formalmente apoiaram Rossi totalizavam 239 deputados, esse deveria ter sido o resultado do candidato. No entanto, nas elei\u00e7\u00f5es para a presid\u00eancia da C\u00e2mara, o voto dos representantes do povo \u00e9 depositado \u00e0s escondidas e a compra de votos \u00e9 regra. Isso faz com que as trai\u00e7\u00f5es e defec\u00e7\u00f5es sejam tamb\u00e9m uma realidade. Ao todo, foram 96 votos a menos para Rossi. Considerando que a bancada do PSOL tenha se mantido integralmente leal \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o do partido, ter\u00edamos ent\u00e3o 6 desses votos prometidos \u00e0 Rossi indo para a \u00fanica candidatura de esquerda da elei\u00e7\u00e3o, Luiza Erundina. O restante foi para Arthur Lira.<\/p>\n<p>Luiza Erundina apresentou uma candidatura combativa e compromissada a p\u00f4r fim ao governo de Bolsonaro e Mour\u00e3o e ao projeto de destrui\u00e7\u00e3o nacional iniciado a partir do golpe de 2016. Golpe consumado em benef\u00edcio desse projeto que hoje devasta o Brasil. Orquestrado, executado e do qual se beneficiaram e hoje s\u00e3o s\u00f3cios minorit\u00e1rios PSDB, DEM, e MDB, Temer, Maia e o pr\u00f3prio Rossi. Os dois primeiros, inclusive, se engajaram fortemente na candidatura de Rossi.<\/p>\n<p>Temer fez uma ponte com Bolsonaro para garantir que uma vit\u00f3ria de Rossi n\u00e3o representaria oposi\u00e7\u00e3o ao seu governo. Rossi garantiu que continuaria a pol\u00edtica de destrui\u00e7\u00e3o do setor p\u00fablico e de entrega do patrim\u00f4nio nacional. Em 90% dos temas ele votou junto com o governo. Seria mais do mesmo, oposi\u00e7\u00e3o em banho-maria, com muitas notas de rep\u00fadio, ternos bem cortados e cumplicidade na pilhagem do Brasil e no genoc\u00eddio de brasileiros. Bastou Lira e Bolsonaro pressionarem e rodarem dinheiro para que os deputados da direita brasileira preservassem aquilo que lhes \u00e9 mais caro: a sua natureza absolutamente fisiol\u00f3gica, oportunista e corrupta.<\/p>\n<p>Abandonaram o acordo e a canoa da \u201cdemocracia viva\u201d de Rossi em troca de recursos para emendas parlamentares e sabe-se l\u00e1 quais outros acordos esp\u00farios. Na canoa furada, ficaram a centro-esquerda, Maia, Rossi, Frota e alguns outros direitistas que possuem problemas pessoais com Bolsonaro. A centro-esquerda ficou sozinha segurando o guarda-chuva da direita neoliberal.<\/p>\n<p>Em seu discurso, Erundina denunciou um congresso viciado, que atua para tirar direitos do povo e permite que aqueles que promovem o genoc\u00eddio do povo brasileiro continuem no poder. Denunciou a cumplicidade de Maia e foi categ\u00f3rica ao afirmar que a solu\u00e7\u00e3o sairia das ruas, da constru\u00e7\u00e3o do poder popular. Reafirmou suas posi\u00e7\u00f5es socialistas e apontou para a necessidade de constru\u00e7\u00e3o de uma frente ampla program\u00e1tica com independ\u00eancia de classe e sempre em defesa da classe trabalhadora. Denunciou que de casa do povo o congresso nacional nada tem, fechada que \u00e9 por pesadas grades de ferro para impedir o povo de acompanhar a coisa p\u00fablica. Infelizmente apenas 16 deputados sustentaram a real vontade das ruas. O apoio da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 candidatura de Erundina teria polarizado a elei\u00e7\u00e3o entre a chapa de Lira de direita\/extrema direita e a de Erundina, de esquerda.<\/p>\n<p>O neoliberalismo refinado, mas igualmente inimigo dos direitos do povo representado por Baleia Rossi teria sido fragorosamente derrotado e ficaria demonstrado que a tese de uma \u201cdireita program\u00e1tica\u201d no Brasil \u00e9 t\u00e3o ficcional quanto a ideia de que esse setor possui base social relevante. Para al\u00e9m da propaganda midi\u00e1tica gratuita que recebem dos oligop\u00f3lios de m\u00eddia e pelo abuso de poder econ\u00f4mico e despolitiza\u00e7\u00e3o do processo pol\u00edtico, da qual s\u00e3o promotores e resultado. Infelizmente, dentro do pr\u00f3prio PSOL houve setores que torpedearam a candidatura de Erundina na defesa de uma frente ampla com a direita golpista que em nada resultaria al\u00e9m, talvez, de algumas notas de rep\u00fadio.<\/p>\n<p>Uma vota\u00e7\u00e3o expressiva para a candidatura de Erundina seria uma afirma\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia de que a classe trabalhadora est\u00e1 subrepresentada no parlamento e nas institui\u00e7\u00f5es burguesas, mas que tem a consci\u00eancia de que mais importante do que a apar\u00eancia de um bloco grande mas sem qualquer coes\u00e3o program\u00e1tica \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de bases sociais nas ruas, para al\u00e9m dos calend\u00e1rios institucionais. De que n\u00e3o precisamos e n\u00e3o devemos envolver inimigos declarados da classe trabalhadora. Seria uma vit\u00f3ria e um impulso para a pauta do FORA Bolsonaro, dentro das possibilidades daquele espa\u00e7o de disputa.<\/p>\n<p>No entanto, mesmo com a pouca vota\u00e7\u00e3o que diz muito mais sobre a maioria da oposi\u00e7\u00e3o parlamentar do que sobre a qualidade program\u00e1tica que foi apresentada, o combate foi travado. E por 11 minutos ressoou na C\u00e2mara dos Deputados um discurso que foi \u00e0 raiz dos problemas do Brasil e apontou o caminho do Socialismo como necessidade. E isso foi uma vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>O caminho apontado pela jornada de manifesta\u00e7\u00f5es de massas iniciadas em maio<\/p>\n<p>De junho de 2020 a maio de 2021, prevaleceram no Brasil atos simb\u00f3licos, importantes, mas que j\u00e1 davam sinais de seu esgotamento. N\u00e3o houve no per\u00edodo iniciativa nacional que reunisse mais de 1000 pessoas.<br \/>\nEsse jejum foi quebrado no Distrito Federal no dia 16 de abril. Nessa data, a Frente Nacional de Lutas \u2013 Campo e Cidade, movimento social por Terra e Moradia, convocou uma marcha em mem\u00f3ria do massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s e em defesa de Terra, Trabalho e Moradia. Nessa manifesta\u00e7\u00e3o, cerca de 2000 pessoas marcharam da Pra\u00e7a do Buriti, onde fica a sede do GDF, at\u00e9 o Congresso Nacional, para exigir essas bandeiras e a Reforma Agr\u00e1ria. Foi um bom indicativo para a retomada das lutas.<\/p>\n<p>Posteriormente, veio a chacina do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, na qual 27 pessoas foram mortas. A resposta veio do movimento negro, que convocou manifesta\u00e7\u00f5es para o dia 13 de maio, data na qual em 1888 foi assinada a lei \u00e1urea e considerada uma falsa data de liberta\u00e7\u00e3o. Essas manifesta\u00e7\u00f5es reuniram centenas de pessoas em muitas cidades e mostraram mais uma vez a disposi\u00e7\u00e3o de luta e resist\u00eancia da classe trabalhadora. No mesmo m\u00eas, a campanha nacional Fora Bolsonaro convocou duas manifesta\u00e7\u00f5es. Uma marcada para o dia 26 de maio, de car\u00e1ter simb\u00f3lico contra a alta do pre\u00e7o dos alimentos; e uma segunda que de acordo com a proposta original teria como meta uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitas for\u00e7as do campo democr\u00e1tico-popular, como o PT, no entanto, recuaram sobre a realiza\u00e7\u00e3o de um ato massivo posteriormente \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de qualquer mobiliza\u00e7\u00e3o na data do dia 29. Setores sobretudo do campo socialista, como o PCB, o MES e a UP, mantiveram a data e constru\u00edram o ato, que contou com grande ades\u00e3o e colocou centenas de milhares de pessoas nas ruas em todo o pa\u00eds. A manifesta\u00e7\u00e3o convergiu com o profundo sentimento de indigna\u00e7\u00e3o e revolta da popula\u00e7\u00e3o perante o governo genocida de extrema-direita. Essas manifesta\u00e7\u00f5es sinalizaram a possibilidade n\u00e3o distante da constru\u00e7\u00e3o de uma altera\u00e7\u00e3o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em benef\u00edcio da classe trabalhadora atrav\u00e9s de jornadas de lutas nas ruas e da possibilidade de mudan\u00e7as qualitativas das lutas.<\/p>\n<p>A necessidade da retomada das ruas foi sentida tamb\u00e9m pelos setores como o PT, que boicotaram o primeiro ato e se apressaram em tentar pautar o calend\u00e1rio que j\u00e1 surgia. A postura desses setores, por\u00e9m, foi mais no sentido de esfriar o calor das lutas, propondo em mais de uma ocasi\u00e3o espa\u00e7amentos de mais de um m\u00eas entre uma manifesta\u00e7\u00e3o e outra, do que impulsionar a pauta do FORA Bolsonaro nas ruas. Prevalecia para esses setores, como central, o calend\u00e1rio eleitoral do ano que vem.<\/p>\n<p>A disposi\u00e7\u00e3o de luta era tanta, por\u00e9m, que entre maio e novembro foram realizados grandes atos nacionais. Invariavelmente, o espa\u00e7amento entre os atos unificados jogou um balde de \u00e1gua fria no impulso inicial.<\/p>\n<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es dos povos ind\u00edgenas, no tradicional Acampamento Terra Livre e tamb\u00e9m fazendo press\u00e3o contra o Marco Temporal, realizadas em Bras\u00edlia, foram outros exemplos de atos expressivos da luta contra o genoc\u00eddio dos povos ind\u00edgenas e do povo brasileiro.<\/p>\n<p>E 2022?<\/p>\n<p>Parece haver no ar tamb\u00e9m, uma pressa para o fim do ano de 2021. Analistas pol\u00edticos de diversas correntes te\u00f3ricas e pol\u00edticas se apressam em dizer que agora \u00e9 \u201caguardar as elei\u00e7\u00f5es\u201d. Que \u201cinfelizmente o tempo para o impeachment ou retirada de Bolsonaro j\u00e1 foi\u201d. Nos \u00faltimos dias, o ex-presidente Lula participou de grande manifesta\u00e7\u00e3o na Plaza de Mayo, na Argentina. Essa pra\u00e7a, que \u00e9 um tradicional espa\u00e7o de lutas pol\u00edticas e sociais do pa\u00eds vizinho, estava cheia em ato convocado pelo governo, em associa\u00e7\u00e3o ao Kirchnerismo, em defesa da democracia. Nessa ocasi\u00e3o, ela esteve ocupada como sempre esteve. Fosse pelas mulheres, em luta vitoriosa pelo direito ao aborto legal e seguro, em 2020. Fosse pelas m\u00e3es da Plaza de Mayo, que lutaram por justi\u00e7a, por seus filhos e filhas, netos e netas, desaparecidos e assassinados pelo \u00faltimo processo ditatorial ao qual os argentinos estiveram submetidos (1976-1983). Fosse como esteve h\u00e1 20 anos, em 2001, quando em 13 de dezembro foi deflagrada uma Greve Geral contra o modelo neoliberal de subordina\u00e7\u00e3o total ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional e aos interesses dos EUA. Greve essa que culminou uma semana depois, na revolta popular de 20 de dezembro conhecida como Argentinazo, na qual milhares de argentinos, incluindo as M\u00e3es da Pra\u00e7a de Maio, tomaram as ruas em grandes propor\u00e7\u00f5es: contra a fome e contra o modelo econ\u00f4mico vigente, que impunha a mis\u00e9ria e a morte ao povo.<\/p>\n<p>Aqueles protestos fizeram com que o ent\u00e3o presidente argentino, Fernando de la R\u00faa, fugisse de helic\u00f3ptero da Casa Rosada depois de renunciar, no mesmo dia, 11 dias antes do fim do ano. Este presidente aplicava a mesma cartilha que Fernando Henrique Cardoso aplicava no Brasil no mesmo per\u00edodo, a mesma f\u00f3rmula econ\u00f4mica que viria a ser aplicada por Temer e que \u00e9 aplicada na atualidade por Bolsonaro. Mas tamb\u00e9m no Brasil n\u00e3o houve uma semana, principalmente nos momentos mais agudos da pandemia, em que n\u00e3o houvessem manifesta\u00e7\u00f5es contra o genoc\u00eddio do povo brasileiro. Fosse das M\u00e3es de Maio brasileiras, em sua luta por justi\u00e7a e contra a barbaridade da viol\u00eancia policial que promove o genoc\u00eddio da juventude negra. Fosse nas lutas de trabalhadoras e trabalhadores da sa\u00fade em luta por condi\u00e7\u00f5es dignas de trabalho e pela exig\u00eancia das medidas que poderiam ter salvado vidas. De trabalhadoras e trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o e estudantes, que n\u00e3o deixaram de se mobilizar e pressionar por condi\u00e7\u00f5es minimamente adequadas de estudo e de trabalho. Em todas as paralisa\u00e7\u00f5es de categorias essenciais como a dos rodovi\u00e1rios e metrovi\u00e1rios e lixeiros. Fosse nas revoltas das fam\u00edlias que haviam perdido entes para as balas da pol\u00edcia, para a fome causada pela pol\u00edtica fascista de morte, ou devido \u00e0 sabotagem do governo ao combate da Covid.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foram apenas manifesta\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas que tomaram o Brasil. Houve tamb\u00e9m manifesta\u00e7\u00f5es de massas. Que alteraram a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em benef\u00edcio da classe trabalhadora e obrigaram a extrema-direita a recuar. E o fator de unifica\u00e7\u00e3o de todas essas manifesta\u00e7\u00f5es era o Fora Bolsonaro, aqui e agora.<br \/>\nEsses atos colocaram o governo na defensiva e obrigaram-no a mais uma vez, assim como em 2020, buscar uma acomoda\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es. Essas acomoda\u00e7\u00f5es foram sempre prontamente aceitas pelo STF e pelas presid\u00eancias da c\u00e2mara e do senado assim como por uma parte da esquerda que coloca todas as suas fichas para as elei\u00e7\u00f5es de 2022. O genoc\u00eddio n\u00e3o come\u00e7ou e nem vai acabar com a vacina\u00e7\u00e3o e o fim da pandemia, ou mesmo com uma poss\u00edvel vit\u00f3ria nas elei\u00e7\u00f5es. Pois a pandemia amplificou os segmentos sociais atingidos pela ofensiva contra o povo trabalhador brasileiro, que a vacina\u00e7\u00e3o pode reduzir, mas o genoc\u00eddio do povo trabalhador brasileiro \u00e9 de longa dura\u00e7\u00e3o, voltado especialmente contra algumas popula\u00e7\u00f5es como as ind\u00edgenas, quilombolas e a popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<p>Desde 2016, o Brasil \u00e9 governado a partir das necessidades impostas pelo imperialismo, pela l\u00f3gica de ser um pa\u00eds totalmente voltado para a agro exporta\u00e7\u00e3o. Como o foi, ininterruptamente, dos tempos da col\u00f4nia at\u00e9 a Rep\u00fablica Velha. A diferen\u00e7a \u00e9 que, naquele per\u00edodo, grandes contingentes de m\u00e3o de obra eram requeridos. Hoje, com a mecaniza\u00e7\u00e3o do campo e da ind\u00fastria, cada vez menos trabalhadores s\u00e3o requeridos na l\u00f3gica capitalista, e maior vai se tornando o ex\u00e9rcito industrial de reserva e a taxa de desemprego. Para os defensores desse modelo, os brasileiros n\u00e3o precisam de comida, moradia, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, cultura, lazer, direito a uma aposentadoria digna. Para a classe capitalista no Brasil, se as suas condi\u00e7\u00f5es de lucro e para a especula\u00e7\u00e3o financeira estiverem favor\u00e1veis, se a estrutura de acumula\u00e7\u00e3o de capital estiver a salvo, o resto \u00e9 desprez\u00edvel.<\/p>\n<p>As contrarreformas feitas deixaram claro que havia quem estivesse sobrando na vis\u00e3o dos capitalistas: o povo.<\/p>\n<p>A pergunta que deve ficar \u00e9: se essa espera pelas elei\u00e7\u00f5es se confirmar, o que ocorrer\u00e1 com milh\u00f5es de pessoas que passam fome e est\u00e3o na fila do osso hoje no Brasil? Podem elas esperar at\u00e9 2023?<\/p>\n<p>O que ocorrer\u00e1 com os povos ind\u00edgenas, que est\u00e3o tendo suas terras invadidas e suas vidas atacadas todos os dias? Podem esperar at\u00e9 2023? O que ocorrer\u00e1 com os 13,5 milh\u00f5es de desempregados oficiais e os muitos mais extraoficiais e subempregados? Podem eles esperar at\u00e9 2023? Pode a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora, h\u00e1 522 anos v\u00edtima de genoc\u00eddio, reconfigurado ao longo da hist\u00f3ria, mas com conte\u00fado constante, se pautar por um calend\u00e1rio eleitoral, por uma candidatura? Algu\u00e9m se lembra que foi o Sr. Artur Bernardes o vencedor da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 1922? Que diferen\u00e7a fez Washington Lu\u00eds ter sido, com 99,7% dos votos, eleito presidente em 1926?<\/p>\n<p>Hoje o Brasil passa por uma reprimariza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que impacta tamb\u00e9m na pol\u00edtica e na ideologia. Existe forte press\u00e3o por parte dos pa\u00edses centrais pela manuten\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter agroexportador do Brasil e dos demais pa\u00edses de capitalismo dependente. Todas as vezes que esse sentido foi alterado e contraposto, foi atrav\u00e9s de rupturas. Fossem elas totais, como a Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique de 1917, na R\u00fassia. Ou parciais, como a realizada no Brasil em 1930. Em 1905, ocorreu uma tentativa revolucion\u00e1ria na R\u00fassia. Essa tentativa, apesar de derrotada, obrigou o czarismo a abrir m\u00ednimos espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o popular, como o parlamento, chamado de Duma, na R\u00fassia. N\u00e3o foi, no entanto, deste restrito parlamento nem das estruturas institucionais do Imp\u00e9rio Russo, que foram constru\u00eddas as condi\u00e7\u00f5es para a vitoriosa Revolu\u00e7\u00e3o de Socialista de Outubro de 1917, mas sim da organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o ativa da classe trabalhadora. Da mesma forma, n\u00e3o foi das estruturas institucionais da Rep\u00fablica Velha e olig\u00e1rquica, da qual o Brasil cada vez mais volta a se aproximar, na forma e no conte\u00fado, que sa\u00edram os movimentos que influenciariam de maneira relevante o Brasil ao longo do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>A tentativa de Bolsonaro de implantar o voto impresso, \u00e9 uma das express\u00f5es desse processo de reprimariza\u00e7\u00e3o do processo pol\u00edtico e da institui\u00e7\u00e3o das fraudes eleitorais. Enquanto Bolsonaro estiver na presid\u00eancia, haver\u00e1 tentativas de golpe e apenas a classe trabalhadora, organizada e em luta por seu futuro ser\u00e1 capaz de derrotar o fascismo no brasil e toda a besta fera que \u00e9 o capitalismo.<\/p>\n<p>Construir XXI para que haja XXII<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter claro que os problemas do Brasil n\u00e3o ser\u00e3o resolvidos em 2022 e, principalmente, que n\u00e3o ser\u00e3o resolvidos tendo como aposta central a via das elei\u00e7\u00f5es. As elei\u00e7\u00f5es, cumprem um papel importante e reconhecido pelos comunistas na agita\u00e7\u00e3o e propaganda e, a depender das condi\u00e7\u00f5es, podem resultar na elei\u00e7\u00e3o de representantes da classe trabalhadora. Que estejam alinhados exclusivamente aos interesses dessa mesma classe e que usem de seus mandatos como instrumentos de voz, organiza\u00e7\u00e3o e avan\u00e7os para a luta e a consci\u00eancia da classe trabalhadora. Mas, a continuar da forma como est\u00e3o se apresentando, essas elei\u00e7\u00f5es tendem a ocorrer em correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as francamente desfavor\u00e1veis para a classe trabalhadora e os seus interesses.<\/p>\n<p>A possibilidade de exclus\u00e3o de candidaturas, de fraudes, ou mesmo da n\u00e3o convoca\u00e7\u00e3o do pleito n\u00e3o podem ser descartadas. Al\u00e9m disso, a contrarreforma pol\u00edtica de 2015, de Eduardo Cunha, beneficiou os partidos fisiol\u00f3gicos da direita e prejudicou, sobretudo, os partidos program\u00e1ticos de esquerda. Assim como tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser dada como certa a vit\u00f3ria de uma candidatura, principalmente uma que n\u00e3o esteja organicamente vinculada aos interesses concretos da classe trabalhadora. Candidaturas que se disponham a fechar acordos com a direita e com a classe capitalista no Brasil, inimigos declarados do povo trabalhador brasileiro, n\u00e3o podem ser consideradas alternativas program\u00e1ticas de futuro para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Temos a tarefa de usar todos os dias, os restantes de 2021, os vindouros de 2022 e de todos os pr\u00f3ximos anos, para seguir fortalecendo a organiza\u00e7\u00e3o classista, para contribuir atrav\u00e9s das lutas concretas para o avan\u00e7o da consci\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o sobre o total esgotamento do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista no Brasil e sobre a necessidade hist\u00f3rica da constru\u00e7\u00e3o do socialismo brasileiro e internacional. Esta, \u00e9 a \u00fanica alternativa para o desenvolvimento e o futuro do Brasil e do mundo. N\u00e3o podemos mais delongar as tarefas hist\u00f3ricas necess\u00e1rias para a verdadeira liberdade, independ\u00eancia e dignidade do povo: a Revolu\u00e7\u00e3o Socialista.<\/p>\n<p>Transcorridos 200 anos da forma\u00e7\u00e3o do Estado Nacional e 100 anos do in\u00edcio de processos determinantes para compreender o presente, os desafios s\u00e3o grandes. Mas s\u00e3o muito maiores a convic\u00e7\u00e3o e a certeza na constru\u00e7\u00e3o de um novo mundo, compartilhada pela milit\u00e2ncia do, a poucos meses de ser, centen\u00e1rio Partido Comunista Brasileiro. E aos que dizem que \u201ca nossa bandeira jamais ser\u00e1 vermelha\u201d: Brasil \u00e9 vermelho feito brasa! O ano de 2021 pode estar acabando, mas o s\u00e9culo XXI est\u00e1 apenas come\u00e7ando. E sem XXI n\u00e3o tem XXII. A hora \u00e9 essa!<\/p>\n<p>Dmitry Galv\u00e3o: \u00e9 militante da UJC e do PCB no Distrito Federal, licenciado em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade de Bras\u00edlia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28201\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[66,10],"tags":[234],"class_list":["post-28201","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7kR","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28201"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28201\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}