{"id":28202,"date":"2021-12-20T12:30:59","date_gmt":"2021-12-20T15:30:59","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28202"},"modified":"2021-12-20T11:35:48","modified_gmt":"2021-12-20T14:35:48","slug":"a-esquerda-chilena-tem-que-organizar-uma-guerra-de-classes-que-nem-a-direita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28202","title":{"rendered":"A esquerda chilena tem que organizar uma guerra de classes que nem a direita"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jacobin.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/GettyImages-631136302.jpeg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Entrevista com Camila Vallejo, tradu\u00e7\u00e3o por Gercyane Oliveira, via <a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2021\/12\/a-esquerda-chilena-tem-que-organizar-uma-guerra-de-classes-que-nem-a-direita\/\">Jacobin Brasil<\/a><\/p>\n<p>A vit\u00f3ria da esquerda na elei\u00e7\u00e3o e na constituinte prometem enterrar o neoliberalismo no Chile. A deputada Camila Vallejo, que lidera a ala comunista da coaliz\u00e3o que apoia Gabriel Boric, falou \u00e0 Jacobin sobre a atual luta de classes no pa\u00eds e sua esperan\u00e7a no poder da juventude.<\/p>\n<p>Quando Camilla Vallejo anunciou em 2012 que pretendia concorrer ao Congresso chileno, muitos da esquerda a acusaram de ser uma \u201cvendida\u201d. No ano anterior, ela havia se tornado uma das faces mais vis\u00edveis dos protestos estudantis exigindo educa\u00e7\u00e3o gratuita e de qualidade, como porta-voz da Confedera\u00e7\u00e3o de Estudantes Chilenos (CONFECH). De fato, havia tanta aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia internacional ao seu redor que, em outubro de 2011, os leitores do The Guardian a escolheram como a pessoa do ano.<\/p>\n<p>Mas, para muitos no Chile, sua candidatura ao Congresso foi uma trai\u00e7\u00e3o ao sentimento anti-establishment dos protestos. Vinte anos ap\u00f3s o retorno \u00e0 democracia, a mis\u00e9ria neoliberal imposta pela ditadura de Augusto Pinochet persistiu \u2013 e muitos viram a pol\u00edtica parlamentar como o lugar onde as promessas foram morrer, inclusive as de esquerda.<\/p>\n<p>Hoje, Camila Vallejo est\u00e1 se aproximando do final de seu segundo mandato como congressista, e em agosto ela anunciou que n\u00e3o buscar\u00e1 um terceiro mandato. As rea\u00e7\u00f5es a esta not\u00edcia foram bem diferentes da resposta \u00e0 sua primeira candidatura nove anos atr\u00e1s, pois uma onda de apoio nas redes sociais lamentou a sa\u00edda da deputada comunista do Congresso. Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o trabalho parlamentar de Vallejo tem sido uma luta dif\u00edcil \u2013 n\u00e3o apenas por causa da firme defesa da direita do sistema neoliberal, mas tamb\u00e9m por causa de uma centro-esquerda teimosa, encalhada na fracassada pol\u00edtica de \u201cterceira via\u201d.<\/p>\n<p>Vallejo e seus camaradas parlamentares do Partido Comunista certamente usaram sua plataforma para pressionar por grandes mudan\u00e7as no Chile. Eles lutaram para reduzir a semana m\u00e1xima de trabalho de 45 para 40 horas e reivindicaram medidas de al\u00edvio pand\u00eamico como um imposto sobre os super ricos e uma renda b\u00e1sica universal. Quando uma conven\u00e7\u00e3o foi convocada para reescrever a Constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds herdada do per\u00edodo Pinochet, ap\u00f3s os protestos populares massivos de outono de 2019, Vallejo estava entre aqueles que resistiram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um qu\u00f3rum de dois ter\u00e7os para suas decis\u00f5es \u2013 uma barreira formid\u00e1vel \u00e0 mudan\u00e7a, imposta pelos partidos mais antigos.<\/p>\n<p>Embora todos estes movimentos tivessem o apoio popular majorit\u00e1rio nas ruas, eles encontraram grande oposi\u00e7\u00e3o no Congresso. A maioria deles n\u00e3o prosperou, ou pelo menos ainda n\u00e3o. Mas outros encontraram um caminho. Recentemente, a Conven\u00e7\u00e3o Constitucional concordou que as decis\u00f5es que n\u00e3o alcan\u00e7assem os dois ter\u00e7os do quorum, mas desfrutarem de pelo menos 60% de apoio, seriam resolvidas atrav\u00e9s de referendos. Al\u00e9m disso, o projeto de lei de descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto promovido por Vallejo e outras congressistas foi recentemente aprovado no Congresso e est\u00e1 agora pronto para ser debatido no Senado.<\/p>\n<p>Atualmente, Vallejo lidera a ala comunista da coaliz\u00e3o de esquerda na corrida presidencial do congressista Gabriel Boric. A campanha tem um elemento de reuni\u00e3o universit\u00e1ria: seu colega na ala moderada da campanha, Giorgio Jackson, foi presidente da Federa\u00e7\u00e3o Estudantil da Universidade Cat\u00f3lica do Chile (FEUC) no mesmo ano que ela, e Boric foi seu sucessor como presidente da Federa\u00e7\u00e3o Estudantil da Universidade do Chile (FECH). Mas tamb\u00e9m \u00e9 marcado pelas diferen\u00e7as dentro da esquerda sobre a natureza da mudan\u00e7a que agora \u00e9 poss\u00edvel, com o processo constitucional e as elei\u00e7\u00f5es presidenciais colocando o Chile em um ponto de virada.<\/p>\n<p>Vallejo falou com Octavio Garc\u00eda Soto da Jacobin sobre sua decis\u00e3o de n\u00e3o buscar a reelei\u00e7\u00e3o, sua combina\u00e7\u00e3o de marxismo e feminismo, e suas esperan\u00e7as na juventude chilena.<\/p>\n<p>OG<br \/>\nDeputada, voc\u00ea j\u00e1 disse antes que \u00e9 necess\u00e1rio ter um p\u00e9 no governo e um p\u00e9 nas ruas. O que significa estar nas ruas?<\/p>\n<p>CV<br \/>\nIsso significa que nossa organiza\u00e7\u00e3o \u2013 seja o Partido Comunista ou uma alian\u00e7a mais ampla com outras for\u00e7as pol\u00edticas e sociais \u2013 precisa ter presen\u00e7a nas organiza\u00e7\u00f5es sociais, em todas as diferentes partes da sociedade que hoje vivem com as consequ\u00eancias de um modelo opressor, discriminat\u00f3rio e injusto.<\/p>\n<p>Quando falamos em manter um p\u00e9 no Congresso, ou no governo, e um p\u00e9 nas ruas, o que estamos dizendo \u00e9 que nosso coletivo precisa de camaradas que estejam presentes na realidade das pessoas e que nosso trabalho, assim como o meu trabalho no Congresso, n\u00e3o pode ser enclausurado dentro de quatro paredes 24 horas por dia, 7 dias por semana. Nosso coletivo precisa de um foco real na comunica\u00e7\u00e3o com as organiza\u00e7\u00f5es sociais, no trabalho conjunto, na escuta constante das preocupa\u00e7\u00f5es e opini\u00f5es de nosso povo e na capacidade de canalizar essas preocupa\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio, quando se perde esse p\u00e9 nas ruas, quando se deixa de ouvir e trabalhar com as organiza\u00e7\u00f5es, voc\u00ea se torna um mero reprodutor da pol\u00edtica neoliberal e de um Estado que representa os interesses de uma classe minorit\u00e1ria e n\u00e3o os interesses da grande maioria.<\/p>\n<p>OG<br \/>\nPor que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 concorrendo \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>CV<br \/>\nN\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o puramente pessoal. Somos uma for\u00e7a pol\u00edtica com grandes militantes sociais em diferentes trincheiras. Acredito na import\u00e2ncia de abrir espa\u00e7os no Congresso para mais camaradas. Tamb\u00e9m \u00e9 importante para mim continuar aprendendo e me desenvolvendo em outros espa\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, por isso s\u00f3 n\u00e3o me vi no Congresso Nacional por mais quatro anos. H\u00e1 sem d\u00favida muitas possibilidades de mudan\u00e7a, quando h\u00e1 uma boa correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, mas este n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico espa\u00e7o para lutar por isso.<\/p>\n<p>Somos uma for\u00e7a viva, e o partido n\u00e3o \u00e9 apenas seus quadros mais conhecidos. H\u00e1 muitos outros camaradas que tamb\u00e9m deveriam estar l\u00e1 e aprender o que significa a luta naquele espa\u00e7o, porque se veem ali grandes contradi\u00e7\u00f5es de classe. Em meu lugar estar\u00e1 outra camarada da Juventude Comunista, Daniela Serrano, que tem uma hist\u00f3ria particular de luta, que tamb\u00e9m \u00e9 do movimento estudantil.<\/p>\n<p>OG<br \/>\nAo contr\u00e1rio de outros dirigentes estudantis, como Gabriel Boric e Giorgio Jackson, que rejeitaram os partidos tradicionais desde o in\u00edcio, voc\u00ea sempre foi membro do Partido Comunista. Qual \u00e9 a sua hist\u00f3ria com o partido?<\/p>\n<p>CV<br \/>\nEu me tornei membro em 2007, antes do movimento estudantil de 2011. Para mim, a Juventude Comunista era uma escola. L\u00e1, eu forjei minhas principais convic\u00e7\u00f5es. Foi com as convic\u00e7\u00f5es que me foram dadas por minha milit\u00e2ncia pol\u00edtica que entrei no movimento estudantil e tentei represent\u00e1-lo, em grande parte como porta-voz. Eu n\u00e3o ia abandonar essas convic\u00e7\u00f5es apenas para entrar no Congresso.<\/p>\n<p>OG<br \/>\nSua fam\u00edlia tinha alguma hist\u00f3ria com o partido?<\/p>\n<p>CV<br \/>\nMinha fam\u00edlia mais pr\u00f3xima era comunista, mas eles me formaram mais em valores de solidariedade do que em milit\u00e2ncia pol\u00edtica como tal. Decidi aderir por causa da experi\u00eancia que tive na Universidade do Chile. Procurei ativamente um espa\u00e7o, porque tinha certeza de que n\u00e3o queria entrar na faculdade apenas para estudar, queria contribuir para a mudan\u00e7a, em termos de democracia, justi\u00e7a e maior igualdade. A Juventude Comunista foi a organiza\u00e7\u00e3o que achei mais s\u00e9ria e respons\u00e1vel, o produto de sua hist\u00f3ria e de suas propostas.<\/p>\n<p>OG<br \/>\nSer de esquerda implica em aceitar verdades duras: Desigualdade econ\u00f4mica, mudan\u00e7a clim\u00e1tica, patriarcado\u2026 Como algu\u00e9m que vai ser pai dentro de alguns meses, pergunto a voc\u00eas: Como voc\u00ea consegue responder \u00e0s duras perguntas de sua filha de sete anos?<\/p>\n<p>CV<br \/>\n\u00c9 incr\u00edvel como as crian\u00e7as de hoje est\u00e3o despertas. A intelig\u00eancia delas \u00e9 comovente e surpreendente. Minha filha sabe o que eu fa\u00e7o. N\u00e3o sei se ela idealiza, poderei falar com ela sobre isso mais tarde, sobre como ela me via quando era crian\u00e7a. Mas no momento, ela entende que h\u00e1 coisas que precisam ser mudadas, que h\u00e1 pessoas que sofrem de fome. As crian\u00e7as hoje em dia s\u00e3o muito cuidadosas com os animais, mesmo com os insetos, elas questionam muito os adultos sobre a prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<\/p>\n<p>Portanto, o que eu fa\u00e7o \u00e9 apenas falar com ela. N\u00e3o de um ponto de vista centrado nos adultos, mas como iguais, apenas usando palavras simples para explicar a ela por que temos problemas em nosso meio ambiente, por que h\u00e1 um esgotamento de nossos recursos naturais e nossa \u00e1gua. Falo de pessoas: h\u00e1 pessoas que exploram fortemente os recursos naturais, por exemplo as florestas, e depois vendem a madeira e o dinheiro que recebem dessa venda acaba nas m\u00e3os de poucos, e n\u00e3o de todos aqueles que trabalharam na referida explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Explico-lhe que temos uma forma de organizar a sociedade que infelizmente beneficia os poucos que cortam \u00e1rvores, extraem cobre e minerais de nosso pa\u00eds \u2013 e que n\u00e3o s\u00f3 a maioria das pessoas, mas tamb\u00e9m o meio ambiente \u00e9 afetado. E ela entende perfeitamente, e faz cada vez mais perguntas.<\/p>\n<p>OG<br \/>\nVoc\u00ea disse que est\u00e1 mais em sintonia com a Frente Amplio [a coaliz\u00e3o \u201cFrente Ampla\u201d formada por partidos progressistas] do que com a Concertaci\u00f3n [coaliz\u00e3o de centro-esquerda dos partidos pol\u00edticos tradicionais]. Qual \u00e9 a diferen\u00e7a nos m\u00e9todos de trabalho?<\/p>\n<p>CV<br \/>\nObviamente, temos mais programas em comum com a Frente Amplio. Nossa gera\u00e7\u00e3o foi forjada na luta social dos \u00faltimos anos \u2013 bem, da \u00faltima d\u00e9cada [risos].<\/p>\n<p>Mas o mais importante \u00e9 o projeto. A Frente Ampla \u00e9 uma coaliz\u00e3o bastante nova, mas tem conseguido consolidar um projeto cada vez mais claro para superar o neoliberalismo. Temos grandes coincid\u00eancias program\u00e1ticas e tamb\u00e9m uma verdadeira vontade de empurrar em dire\u00e7\u00e3o a essas transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Acredito que o que aconteceu com a Concertaci\u00f3n foi que muitos de seus representantes estiveram na pol\u00edtica institucional por mais de vinte, trinta, quarenta anos e suas a\u00e7\u00f5es demonstraram que seus interesses estavam mais pr\u00f3ximos do modelo atual do que da supera\u00e7\u00e3o do mesmo. Isto n\u00e3o acontece com a Frente Amplio. Podemos ter algumas diferen\u00e7as te\u00f3ricas ou circunstanciais, \u00e0s vezes, mas no final estamos unidos pela necessidade de impulsionar um projeto de transforma\u00e7\u00e3o a m\u00e9dio e longo prazo.<\/p>\n<p>OG<br \/>\nO processo que come\u00e7ou com os protestos de 18 de outubro de 2019 est\u00e1 agora mudando o pa\u00eds enquanto falamos, atrav\u00e9s da Conven\u00e7\u00e3o Constitucional. Ent\u00e3o por que dizemos \u201cexplos\u00e3o social\u201d e n\u00e3o \u201ca Revolu\u00e7\u00e3o Chilena\u201d ou \u201cnossa Revolu\u00e7\u00e3o de outubro\u201d?<\/p>\n<p>CV<br \/>\nPrimeiro de tudo, as palavras constroem a realidade e o que aconteceu em 18 de outubro foi, em minha opini\u00e3o, erroneamente chamado de \u201cexplos\u00e3o social\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi uma mera explos\u00e3o \u2013 foi uma revolta social e popular, que tentou agitar e romper com o status quo com um profundo questionamento da pol\u00edtica tradicional, com um forte questionamento de um modelo baseado em abusos. Al\u00e9m disso, n\u00e3o foi uma \u201cexplos\u00e3o\u201d, pois foi o resultado de um longo processo de acumula\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o e luta. N\u00e3o nasceu do nada \u2013 antes houve muitas mobiliza\u00e7\u00f5es e muitas pequenas revoltas. N\u00e3o estou falando apenas de 2011, onde j\u00e1 est\u00e1vamos propondo claramente a quebra do modelo neoliberal, questionando o lucro na educa\u00e7\u00e3o, propondo uma reforma fiscal\u2026 est\u00e1vamos at\u00e9 mesmo falando da necessidade de uma nova Constitui\u00e7\u00e3o desde 2006, 2005, 2001.<\/p>\n<p>A segunda coisa \u00e9 que este descontentamento foi canalizado institucionalmente atrav\u00e9s de um acordo pol\u00edtico, que resultou em um referendo para definir se uma nova Constitui\u00e7\u00e3o deveria ser criada ou n\u00e3o, e depois a cria\u00e7\u00e3o desta Conven\u00e7\u00e3o Constitucional. Acredito que para que seja uma revolu\u00e7\u00e3o temos que ver como termina a proposta de uma nova constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso falar de um processo revolucion\u00e1rio se n\u00e3o houver uma mudan\u00e7a real e concreta no car\u00e1ter do Estado chileno. Se continuarmos com algo semelhante a um Estado subsidi\u00e1rio [a \u00eanfase do atual modelo chileno de que os atores privados devem assumir as fun\u00e7\u00f5es estatais sempre que poss\u00edvel], que n\u00e3o garante os direitos sociais fundamentais, cria institui\u00e7\u00f5es com os interesses das fam\u00edlias trabalhadoras em mente, com um novo modelo de desenvolvimento que coloca no centro o valor do trabalho e coexiste em harmonia com o meio ambiente, ent\u00e3o n\u00e3o vai ser um processo muito radical.<\/p>\n<p>OG<br \/>\nA teoria revolucion\u00e1ria \u00e9 desenvolvida de forma viva, aprendendo com tentativas anteriores e o contexto hist\u00f3rico no qual elas s\u00e3o feitas. Qual foi a contribui\u00e7\u00e3o do movimento feminista chileno?<\/p>\n<p>CV<br \/>\nPenso que o movimento feminista tem desempenhado um papel extraordin\u00e1rio no debate pol\u00edtico, tanto nas ruas, dentro das casas, na Conven\u00e7\u00e3o Constitucional, como no Congresso. Julieta Kirkwood [soci\u00f3loga feminista chilena, 1936-85] foi muito sens\u00edvel \u00e0 import\u00e2ncia deste debate, que a revolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 em casa, na cama.<\/p>\n<p>N\u00e3o falamos mais apenas da supera\u00e7\u00e3o do neoliberalismo ou do questionamento do capitalismo, mas tamb\u00e9m falamos de um casamento que deve ser quebrado, o casamento do neoliberalismo com o patriarcado. O modelo neoliberal se baseia e utiliza esta forma de domina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero para gerar processos de acumula\u00e7\u00e3o de capital tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>OG<br \/>\nVoc\u00ea disse que o feminismo \u00e9 inerentemente anti-capitalista.<\/p>\n<p>CV<br \/>\nN\u00e3o sei se o disse com essas palavras, mas acredito que sim. Eu sou feminista marxista. Se o feminismo n\u00e3o tem uma perspectiva marxista, ou se o feminismo n\u00e3o se esfor\u00e7a para superar o neoliberalismo, ent\u00e3o est\u00e1 incompleto, acabar\u00e1 reduzido a um feminismo liberal que visa quase exclusivamente quest\u00f5es de paridade institucional, em vez de uma mudan\u00e7a no modelo.<\/p>\n<p>Sou uma defensora da paridade de g\u00eanero em todas as institui\u00e7\u00f5es estatais, mas se nos mantivermos fi\u00e9is a isso e n\u00e3o questionarmos o modelo de produ\u00e7\u00e3o, o modelo de acumula\u00e7\u00e3o, a gera\u00e7\u00e3o de riqueza, a distribui\u00e7\u00e3o da riqueza e o valor do trabalho que hoje n\u00e3o \u00e9 remunerado, ent\u00e3o continuaremos promovendo um modelo de injusti\u00e7a e desigualdade.<\/p>\n<p>OG<br \/>\nA luta entre a busca de justi\u00e7a e a busca de consenso com a direita \u00e9 claramente vis\u00edvel na Conven\u00e7\u00e3o Constitucional. A experi\u00eancia do golpe de Estado de 1973 mostra o que a direita chilena pode fazer se se sentir provocada. O que dizer \u00e0queles que dizem que a busca de consenso \u00e9 mais segura a longo prazo?<\/p>\n<p>CV<br \/>\nO consenso mais importante est\u00e1 entre as grandes maiorias do povo chileno: uma reuni\u00e3o de for\u00e7as das classes populares e de setores progressistas. \u00c9 muito f\u00e1cil para a esquerda chilena colocar suas divis\u00f5es em evid\u00eancia. Enquanto isso, a direita chilena luta at\u00e9 a morte entre si na m\u00eddia, mas quando se trata de defender seus interesses econ\u00f4micos, eles rapidamente se alinham. Eles t\u00eam muito mais consci\u00eancia de classe, infelizmente.<\/p>\n<p>Acredito que o di\u00e1logo \u00e9 sempre uma op\u00e7\u00e3o, estou no Congresso h\u00e1 oito anos e \u2013 acredite \u2013 j\u00e1 tentei. Mas h\u00e1 aqueles que simplesmente n\u00e3o v\u00e3o ceder e aqueles que n\u00e3o querem ceder para proteger seus bolsos at\u00e9 a morte. Imagine, o atual presidente da rep\u00fablica, um dos maiores bilion\u00e1rios do mundo, nunca sequer pensou em cobrar um imposto sobre os super ricos \u2013 algo simples, tempor\u00e1rio, m\u00ednimo. Ele privilegia seus interesses econ\u00f4micos e de classe diante do bem comum e antes de apoiar as fam\u00edlias trabalhadoras que estavam passando por um per\u00edodo muito ruim na pandemia.<\/p>\n<p>Portanto, quando este setor pol\u00edtico no Chile, que \u00e9 uma minoria mas tem muito poder, pede consenso, \u00e9 basicamente para branquear as diferen\u00e7as. No Chile, a \u00fanica coisa para a qual a pol\u00edtica de consenso tem sido boa \u00e9 fazer com que tudo permane\u00e7a igual, impor acordos e mudan\u00e7as falsas, mas em \u00faltima inst\u00e2ncia sem questionar ou mudar as bases estruturais de um modelo de profunda injusti\u00e7a social.<\/p>\n<p>OG<br \/>\nMuito obrigado, deputada. Boa sorte e desejo-lhe um bom descanso se \u00e9 isso que realmente deseja, e n\u00e3o um minist\u00e9rio sob um futuro Presidente Gabriel Boric.<\/p>\n<p>CV<br \/>\n[Risos]. Vai ser dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Sobre os autores<br \/>\nCAMILA VALLEJO<br \/>\n\u00e9 membro comunista do Congresso chileno.<\/p>\n<p>OCTAVIO GARC\u00cdA SOTO<br \/>\n\u00e9 jornalista freelance e escreveu para La Tercera (Chile), La Estrella (Panam\u00e1) e Taz (Alemanha).<\/p>\n<p>Foto: Camila Vallejo em Nueva Imperial, Chile, 2017. (Fernando Lavoz \/ NurPhoto via Getty Images)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28202\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"N\u00e3o posso falar de um processo revolucion\u00e1rio se n\u00e3o houver uma mudan\u00e7a real e concreta no car\u00e1ter do Estado chileno.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[87,65,10],"tags":[228],"class_list":["post-28202","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c100-chile","category-c78-internacional","category-s19-opiniao","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7kS","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28202","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28202"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28202\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28202"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28202"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}