{"id":28205,"date":"2021-12-21T16:17:42","date_gmt":"2021-12-21T19:17:42","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28205"},"modified":"2021-12-21T16:17:42","modified_gmt":"2021-12-21T19:17:42","slug":"2007-2008-a-crise-que-nao-terminou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28205","title":{"rendered":"2007\/2008: a crise que n\u00e3o terminou"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.papertyari.com\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/global-financial-crisis.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Carlos Arthur Newlands Junior<\/p>\n<p>[Artigo 1]<\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Esse trabalho divide-se em dois artigos. Neste inicial, fazemos um resgate hist\u00f3rico-anal\u00edtico da crise econ\u00f4mica mundial deflagrada em 2007\/2008 e demonstramos que ela n\u00e3o foi solucionada at\u00e9 hoje. No artigo subsequente, estudamos a teoria marxista das crises \u2013 melhor dizendo, apresentamos alguns apontamentos para tal teoria \u2013 e verificamos como a teoria marxista com base na categoria do capital fict\u00edcio compreendeu esta crise.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, \u00e9 fundamental fazer o seguinte registro: a crise de 2007\/2008 n\u00e3o foi apenas mais uma crise do capitalismo mundial \u2013 foi a maior, mais profunda e mais duradoura crise da economia capitalista mundial desde 1929. Esta crise provocou quebra de grandes empresas, d\u00e9ficit fiscal dram\u00e1tico na maioria dos pa\u00edses da Europa, a maior recess\u00e3o nos Estados Unidos desde a \u201ccrise do petr\u00f3leo\u201d dos anos 70, uma enorme recess\u00e3o em todo o mundo e at\u00e9 uma substancial redu\u00e7\u00e3o no ritmo de crescimento da economia da China.<\/p>\n<p>Gr\u00e1fico 1 \u2013 taxa de crescimento real do PIB \u2013 Estados Unidos em: https:\/\/www.poderpopularmg.org\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Design-sem-nome-2021-12-19T192932.108.png<\/p>\n<p>V\u00e1rios dados atestam tal afirma\u00e7\u00e3o. No Gr\u00e1fico 1, vemos a evolu\u00e7\u00e3o do PIB real dos Estados Unidos de 1982 a 2010; desde a queda do PIB por ocasi\u00e3o da crise do \u201c2\u00ba choque do petr\u00f3leo\u201d no final dos anos 70 que a economia estadunidense n\u00e3o experimentava um baque desta magnitude. No mesmo gr\u00e1fico, podemos notar tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a de padr\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crises anteriores: enquanto que nas crises das d\u00e9cadas anteriores (80, 90 e 2000) as recess\u00f5es eram mais breves e seguidas de uma recupera\u00e7\u00e3o que ultrapassava em m\u00e9dia um crescimento anual de 5% do PIB estadunidense, desta vez, al\u00e9m da queda mais profunda, a recupera\u00e7\u00e3o tem sido mais lenta e mais d\u00e9bil \u2013 e as perspectivas e proje\u00e7\u00f5es para o futuro (desde a deflagra\u00e7\u00e3o da crise at\u00e9 os dias de hoje) tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o nada otimistas. \u00b9<\/p>\n<p>A viol\u00eancia da crise n\u00e3o se limitou aos EUA \u2013 o que, ali\u00e1s, seria praticamente imposs\u00edvel, tanto pelo peso da economia estadunidense nos fluxos de com\u00e9rcio e investimento internacionais, quanto (e veremos que principalmente) pelo grau de globaliza\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es do sistema financeiro estadunidense. No Gr\u00e1fico 2, vemos o desempenho da economia dos pa\u00edses membros da Uni\u00e3o Europeia de 1996 a 2018: fica claro o debacle econ\u00f4mico de 2008\/2009 e o \u201csegundo mergulho\u201d de 2011 para 2012 \u00b2.<\/p>\n<p>Gr\u00e1fico 2 \u2013 Taxa de crescimento real do PIB \u2013 Uni\u00e3o Europeia, em: https:\/\/www.poderpopularmg.org\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Design-sem-nome-2021-12-19T192622.092.png<\/p>\n<p>N\u00e3o foi menos grave o impacto da crise na economia brasileira. Ao contr\u00e1rio dos discursos governamentais otimistas \u00e0 \u00e9poca3, a economia brasileira sofreu fort\u00edssimo impacto da crise \u2013 at\u00e9 porque, como veremos mais \u00e0 frente, esta crise n\u00e3o foi superada at\u00e9 hoje. No Gr\u00e1fico 3, constatamos que o desempenho da economia brasileira ap\u00f3s 2008 (com exce\u00e7\u00e3o do \u201cPIB\u00e3o\u201d \u00b3 de 2010) segue tend\u00eancia claramente descendente, tendo vivenciado inclusive a profunda recess\u00e3o de 2015-2017.<\/p>\n<p>Gr\u00e1fico 3 \u2013 PIB brasileiro a pre\u00e7os de mercado \u2013 taxa percentual acumulada anual, 1\u00ba trim 1996 a 2\u00ba trim 2019, em: https:\/\/www.poderpopularmg.org\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Design-sem-nome-2021-12-19T193200.369.png<\/p>\n<p>Como e por que isso aconteceu? LAPAVITSAS inicia a resposta:<\/p>\n<p>\u201cO catalisador da crise em 2007 foi o cr\u00e9dito hipotec\u00e1rio especulativo aos trabalhadores mais pobres dos EUA durante os anos 2000, sendo os empr\u00e9stimos posteriormente negociados na forma de \u2018securitiza\u00e7\u00e3o\u2019 nos mercados financeiros globais. \u00c9 dif\u00edcil exagerar que fato extraordin\u00e1rio \u00e9 esse. Sob condi\u00e7\u00f5es do capitalismo cl\u00e1ssico do s\u00e9culo XIX, seria impens\u00e1vel que uma ruptura global da acumula\u00e7\u00e3o se materializasse devido \u00e0s d\u00edvidas contra\u00eddas pelos trabalhadores, incluindo os mais pobres. No entanto, foi exatamente isso que aconteceu\u201d (\u2026)<\/p>\n<p>Para o entendimento deste fen\u00f4meno, dividimos este artigo em quatro t\u00f3picos. No t\u00f3pico 1, historiamos o boom das hipotecas subprime at\u00e9 seu colapso; no segundo, descrevemos os principais instrumentos derivativos envolvidos na deflagra\u00e7\u00e3o da crise; a seguir, analisamos o papel da desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira na cria\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es para o crescimento explosivo das hipotecas subprime e das inova\u00e7\u00f5es financeiras; conclu\u00edmos com o relato factual da eclos\u00e3o da crise e suas consequ\u00eancias para a economia mundial.<\/p>\n<p>1. Hipotecas subprime: o \u201cn\u00facleo celular\u201d da crise de 2008<\/p>\n<p>Iniciamos com uma sucinta an\u00e1lise das caracter\u00edsticas do mercado hipotec\u00e1rio norteamericano. GONTIJO e OLIVEIRA (2009, p. 25) assinalam que \u201cconforme registra o Residential Finance Survey de 2001, cerca de 97% das resid\u00eancias nos EUA haviam sido<br \/>\nadquiridos atrav\u00e9s de empr\u00e9stimos hipotec\u00e1rios e somente 1,6% \u00e0 vista, em dinheiro\u201d e portanto, nos EUA \u201ca constru\u00e7\u00e3o residencial e, portanto, os seus ciclos, s\u00e3o altamente dependentes das condi\u00e7\u00f5es do cr\u00e9dito habitacional (prazos e custos)\u201d.<\/p>\n<p>Para melhor entendimento da quest\u00e3o, precisamos ainda aclarar o que s\u00e3o \u201chipotecas subprime\u201d. Os cr\u00e9ditos hipotec\u00e1rios no mercado norte-americano normalmente s\u00e3o classificados como prime (ou A-paper), Alt-A (Alternative-A paper) e subprime, em ordem crescente de n\u00edvel de risco. Clientes prime s\u00e3o aqueles com hist\u00f3rico de cr\u00e9dito anterior considerado bom ou \u00f3timo, portanto conseguem empr\u00e9stimos em condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis: taxas de juros mais baixas, constantes, e prazos mais longos. Mutu\u00e1rios que t\u00eam bom hist\u00f3rico de cr\u00e9dito, mas t\u00eam dificuldades em apresentar a documenta\u00e7\u00e3o exigida, como comprovantes de renda, s\u00e3o classificados como Alt-A, e possuem avalia\u00e7\u00e3o similar ao prime. Finalmente, subprime \u00e9 o mercado de cr\u00e9dito para clientes com hist\u00f3rico financeiro ruim.<\/p>\n<p>BORTOTTO registra:<\/p>\n<p>A maioria dos empr\u00e9stimos de hipotecas subprime tinham taxas flutuantes, as Adjustable-Rate Mortgages (ARM); assim, as taxas de juros que iniciavam baixas podiam aumentar drasticamente, a qualquer momento. H\u00e1 um ascenso das hipotecas subprime, com o ingresso de classes mais baixas nos empr\u00e9stimos de habita\u00e7\u00e3o norte-americanos. Por tr\u00e1s destas hipotecas se desenvolveu um refinado mercado financeiro, atrav\u00e9s principalmente da securitiza\u00e7\u00e3o das hipotecas subprime. A securitiza\u00e7\u00e3o destas hipotecas \u2013 conhecidas como mortgage-backed securities, ou MBS \u2013 foi feita atrav\u00e9s da adi\u00e7\u00e3o destas a grupos maiores de hipotecas consideradas mais confi\u00e1veis, e, pouco a pouco, as subprime passam a compor securities de institui\u00e7\u00f5es financeiras distintas. (\u2026)<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da coleta de informa\u00e7\u00f5es sobre os consumidores, como idade, renda, ativos, etc., se formulavam estat\u00edsticas (pontua\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito) que eram utilizadas para projetar riscos e aprovar empr\u00e9stimos. No caso das hipotecas subprime, estas consistiam em hipotecas cuja pontua\u00e7\u00e3o de aprova\u00e7\u00e3o estava muito abaixo da hipoteca tradicional: havia casos de hipotecas \u201cNINJA\u201d, um acr\u00f4nimo para \u201cno income, no job and no assets\u201d \u2012 tomadores de empr\u00e9stimo sem renda, sem emprego e sem<br \/>\nativos. As hipotecas eram aceitas pois se baseavam na l\u00f3gica da securitiza\u00e7\u00e3o: mesmo no caso das subprime, com pontua\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito baixa, os ativos \u201cperderiam\u201d seu risco atrav\u00e9s da \u201cdilui\u00e7\u00e3o\u201d do mesmo.<\/p>\n<p>Com o processo de securitiza\u00e7\u00e3o, as hipotecas subprime passaram a ser empacotadas com os investimentos categorizados como de baixo risco pelas ag\u00eancias de rating. LIMA (2009) ressalva que \u201co processo de expans\u00e3o dos empr\u00e9stimos imobili\u00e1rios no setor subprime e das finan\u00e7as estruturadas estava calcado em duas cren\u00e7as fundamentais: (i) n\u00e3o haveria uma onda de inadimpl\u00eancia nesse setor e, (ii) o pre\u00e7o das resid\u00eancias continuaria com tend\u00eancia ascendente\u201d.<\/p>\n<p>A eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o dos im\u00f3veis inicia-se nos primeiros anos do s\u00e9culo XXI, como uma esp\u00e9cie de \u201cefeito colateral imprevisto\u201d da grande redu\u00e7\u00e3o da taxa de juros b\u00e1sica nos EUA promovida pelo FED. GONTIJO E OLIVEIRA assinalam:<\/p>\n<p>(\u2026)\u201da taxa de fundos federais chegou a apenas 1% em 2003, fazendo com que os custos do cr\u00e9dito hipotec\u00e1rio atingissem o seu menor n\u00edvel em quarenta anos. Essa redu\u00e7\u00e3o das taxas de juros, combinada com o desenvolvimento do processo de securitiza\u00e7\u00e3o e com as inova\u00e7\u00f5es financeiras introduzidas no per\u00edodo transformaram o boom do mercado residencial em verdadeiro frenesi, de modo que a taxa m\u00e9dia de eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos im\u00f3veis foi de 6,4% ao ano no per\u00edodo 2000-2005, com o pico sendo atingido em 2005, ano em que os pre\u00e7os das resid\u00eancias sofreram uma eleva\u00e7\u00e3o da ordem de 14%\u201d .<\/p>\n<p>A eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o dos im\u00f3veis tinha uma consequ\u00eancia positiva no curto prazo para os tomadores de cr\u00e9ditos subprime. Como vimos acima, grande parte desses cr\u00e9ditos era contratado com cl\u00e1usula ARM (Adjustable-Rate Mortgages, taxas de juros ajust\u00e1veis que iniciavam baixas, mas podiam aumentar a qualquer momento). Entretanto, com a valoriza\u00e7\u00e3o incessante dos pre\u00e7os das moradias, muitos tomadores de financiamentos hipotec\u00e1rios renovavam seu cr\u00e9dito hipotec\u00e1rio antes do prazo de reajuste das taxas de juros, refinanciando-os com taxas mais baixas e mesmo obtendo cr\u00e9ditos extras, que eram ent\u00e3o utilizados para impulsionar o consumo, conforme relatam GONTIJO e OLIVEIRA (2009). Outra expectativa difundida era que o mutu\u00e1rio tomador de cr\u00e9dito subprime com cl\u00e1usula ARM conseguisse, no per\u00edodo em que a taxa de juros ainda era baixa, melhorar sua classifica\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito (por exemplo, um tomador \u201cninja\u201d que conseguisse emprego) e migrar para categoria Alt-A ou at\u00e9 mesmo prime.<\/p>\n<p>Por outro lado, lembra o camarada Edmilson COSTA (2013) que a recupera\u00e7\u00e3o da economia estadunidense nos primeiros anos 2000 n\u00e3o foi acompanhada pelo aumento da renda dos trabalhadores, em especial os mais pobres: \u201centre 2000 e 2006 a economia norte-americana cresceu 18%, mas a renda mediana dos domic\u00edlios dos trabalhadores caiu 1,1% em termos reais\u201d. Assim, o endividamento das fam\u00edlias dos trabalhadores estadunidenses tamb\u00e9m explodiu no per\u00edodo.<\/p>\n<p>A possibilidade de refinanciamento hipotec\u00e1rio com cr\u00e9dito extra (opera\u00e7\u00e3o que no Brasil \u00e9 popularmente conhecida no sistema financeiro pelo jarg\u00e3o \u201ctroca com troco\u201d) criou uma montanha de \u201cefeito riqueza\u201d. COSTA (2013) retrata o clima do per\u00edodo:<\/p>\n<p>\u201cEsse mecanismo (ou essa corrente da felicidade) criou um enorme boom imobili\u00e1rio. Com um n\u00famero cada vez maior de pessoas com cr\u00e9ditos para adquirir casas, os pre\u00e7os dos im\u00f3veis aumentaram de maneira acentuada, pois a demanda por resid\u00eancias era maior que a capacidade de constru\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Surgia assim o \u201cefeito riqueza\u201d, as pessoas que adquiriam im\u00f3veis se tornavam mais ricas em fun\u00e7\u00e3o do aumento dos pre\u00e7os da habita\u00e7\u00e3o. Os bancos novamente utilizavam esta situa\u00e7\u00e3o para desenvolver ainda mais a especula\u00e7\u00e3o: chamavam os clientes com im\u00f3veis valorizados e os ofereciam cr\u00e9ditos correspondentes entre o valor original da hipoteca e o pre\u00e7o de mercado dos im\u00f3veis. (\u2026)<\/p>\n<p>Nessa orgia especulativa, as institui\u00e7\u00f5es financeiras ampliaram ainda mais a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, ao realizar uma verdadeira ca\u00e7a \u00e0s pessoas para aceitar cr\u00e9ditos imobili\u00e1rios, mesmo aqueles que n\u00e3o tinham a menor condi\u00e7\u00e3o para pagar os empr\u00e9stimos. Isso \u00e9 compreens\u00edvel porque, para os bancos, o que interessava mesmo era a posse da hipoteca em carteira, pois esta logo seria transformada em t\u00edtulos securitizados e vendida para outros agentes econ\u00f4micos no mundo inteiro. Ali\u00e1s, os bancos poderiam ganhar duplamente com esses neg\u00f3cios subprime. Ao vender os t\u00edtulos, livravam-se dos riscos do neg\u00f3cio. Caso o devedor n\u00e3o conseguisse pagar as presta\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o o banco arrestava a casa e vendia para outro cliente.\u201d<\/p>\n<p>A partir do segundo semestre de 2006 inicia-se um movimento de queda dos pre\u00e7os dos im\u00f3veis. Uma vez iniciado o movimento de baixa de pre\u00e7os, todo o mercado de cr\u00e9dito hipotec\u00e1rio subprime entrou em colapso, pois passou a tornarem-se invi\u00e1veis os refinanciamentos \u201ctroca com troco\u201d e a migra\u00e7\u00e3o de mutu\u00e1rios subprime para categorias de melhor classifica\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>Os dados da derrocada do mercado imobili\u00e1rio estadunidense s\u00e3o dram\u00e1ticos. GONTIJO e OLIVEIRA retratam que em janeiro de 2008, existiam quase quatro milh\u00f5es de resid\u00eancias n\u00e3o vendidas e quase tr\u00eas milh\u00f5es de moradias antigas desocupadas. Como em qualquer mercado, o excesso de oferta de im\u00f3veis pressionou os pre\u00e7os para baixo: \u201cem mar\u00e7o de 2008, cerca de 8,8 milh\u00f5es de hipotecas (10,8% do total) apresentavam saldo devedor maior do que o dos im\u00f3veis, induzindo muitos mutu\u00e1rios a simplesmente suspender o pagamento das presta\u00e7\u00f5es\u201d (GONTIJO e OLIVEIRA, 2009, p. 46).<\/p>\n<p>At\u00e9 esse momento de nosso relato hist\u00f3rico, a pergunta com que encerramos a introdu\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o foi respondida: como \u201cuma ruptura global da acumula\u00e7\u00e3o se materializou devido \u00e0s d\u00edvidas contra\u00eddas pelos trabalhadores, incluindo os mais pobres\u201d? A resposta come\u00e7a efetivamente no pr\u00f3ximo t\u00f3pico.<\/p>\n<p>2. Inova\u00e7\u00f5es financeiras: o papel crucial dos \u201cderivativos t\u00f3xicos\u201d<\/p>\n<p>Em uma jocosa observa\u00e7\u00e3o, EITEMAN, STONEHILL &amp; MOFFETT (2013, p\u00e1g. 104) fazem a seguinte analogia: \u201cSe a d\u00edvida subprime fosse mal\u00e1ria, a securitiza\u00e7\u00e3o seria o mosquito transmissor, o mecanismo de transmiss\u00e3o a\u00e9rea do parasita protozo\u00e1rio\u201d. A ironia expressa o fato de que, sem a transforma\u00e7\u00e3o dos cr\u00e9ditos hipotec\u00e1rios subprime em t\u00edtulos negoci\u00e1veis no mercado financeiro via securitiza\u00e7\u00e3o, a inadimpl\u00eancia em \u201cd\u00edvidas dos trabalhadores pobres\u201d n\u00e3o teria como se espraiar para o conjunto do sistema financeiro estadunidense e mundial.<\/p>\n<p>Portanto, conhecer o funcionamento dos v\u00e1rios instrumentos derivativos que protagonizaram a crise de 2008 \u2013 com destaque para os CDOs 4 (\u201cCollaterized Debt Obligations\u201d) e os CDSs (\u201cCredit Default Swaps\u201d) \u2013 \u00e9 essencial para entender os mecanismos de deflagra\u00e7\u00e3o da crise e, principalmente, porque um enorme aumento da inadimpl\u00eancia nos empr\u00e9stimos hipotec\u00e1rios ligados ao mercado imobili\u00e1rio norteamericano se transformou num cataclisma financeiro de amplitude global.<\/p>\n<p>Acerca dos CDOs, EITEMAN, STONEHILL &amp; MOFFET assinalam que, com a securitiza\u00e7\u00e3o dos receb\u00edveis dos cr\u00e9ditos hipotec\u00e1rios, \u201cos bancos que originavam empr\u00e9stimos hipotec\u00e1rios, empr\u00e9stimos e t\u00edtulos de d\u00edvida corporativos, agora podiam criar uma carteira desses instrumentos de d\u00edvida e reuni-los como um t\u00edtulo com lastro em ativos\u201d.<\/p>\n<p>A \u201cgrande novidade\u201d era que os bancos originadores n\u00e3o mantinham mais os cr\u00e9ditos originados em seus balan\u00e7os. Os mesmos autores relatam que \u201cuma vez reunidos em um \u201cpacote\u201d, o banco passava o CDO adiante para um ve\u00edculo de prop\u00f3sitos espec\u00edficos geralmente localizado em um centro financeiro offshore como as Ilhas Cayman para obter vantagens jur\u00eddicas e tribut\u00e1rias\u201d.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s deste modus operandi era a denominada no jarg\u00e3o das finan\u00e7as \u201coriginar para distribuir\u201d (originate to distribute, OTD). BORD &amp; SANTOS registram que (\u2026) no sistema banc\u00e1rio tradicional, os bancos originam cr\u00e9ditos e os mant\u00eam no balan\u00e7o patrimonial at\u00e9 o vencimento. Com o tempo, no entanto, os bancos come\u00e7aram a substituir o modelo originar-a-manter pelo modelo originar-para-distribuir, pelo qual originam um cr\u00e9dito e vendem ou securitizam uma parte dele no momento da origem ou mais tarde.<\/p>\n<p>Os autores alertam que \u201co crescente uso pelos bancos do modelo originar para distribuir pode levar a um enfraquecimento dos padr\u00f5es de qualidade dos empr\u00e9stimos\u201d, pois \u201cse eles preferem manter apenas uma pequena parte de um empr\u00e9stimo, seu incentivo para analisar adequadamente os proponentes dos empr\u00e9stimos e definir corretamente os termos do contrato vai diminuir\u201d (BORD &amp; SANTOS, 2012).<\/p>\n<p>Fica agora mais claro porque os bancos originadores aceitaram de bom grado conceder cr\u00e9ditos hipotec\u00e1rios a clientes \u201cNINJA\u201d. EITEMAN, STONEHILL &amp; MOFFETT registram que:<\/p>\n<p>Uma das preocupa\u00e7\u00f5es sobre as CDOs desde o in\u00edcio, expressa por diversas pessoas, inclusive Warren Buffet, o famoso investidor norte-americano, era de que o originador da CDO n\u00e3o tinha nenhuma liga\u00e7\u00e3o ou responsabilidade quanto \u00e0 hipoteca. Uma vez que o empr\u00e9stimo hipotec\u00e1rio tivesse sido realizado e a CDO estruturada e vendida, o credor da hipoteca n\u00e3o tinha mais nenhuma responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o ao desempenho do empr\u00e9stimo. Isso (\u2026) fornecia um incentivo significativo para que os originadores da hipoteca concedessem mais e mais empr\u00e9stimos com qualidade de cr\u00e9dito duvidosa, recebendo seus fees5 e passando os t\u00edtulos adiante para o mercado.<\/p>\n<p>Encontr\u00e1vamo-nos ent\u00e3o diante de uma espiral de retroalimenta\u00e7\u00e3o. Como vimos no t\u00f3pico anterior, o crescimento da economia e a valoriza\u00e7\u00e3o acelerada dos im\u00f3veis impulsionava a concess\u00e3o de cr\u00e9ditos hipotec\u00e1rios subprime. Com a securitiza\u00e7\u00e3o, os CDOs eram vendidos para um mercado cada vez maior atrav\u00e9s de subscritores, especialmente bancos de investimento. Com a generaliza\u00e7\u00e3o do modelo originate to distribute, a 4 CDOs, \u201cCollaterized Debt Obligations\u201d (\u201cObriga\u00e7\u00f5es de D\u00edvida Colateralizadas\u201d, num portugu\u00eas praticamente literal) \u201cs\u00e3o um instrumento derivativo criado a partir de hipotecas e empr\u00e9stimos originados em bancos, combinados a obriga\u00e7\u00f5es de d\u00edvida similares em uma carteira, e ent\u00e3o revendidos para uma variedade de investidores\u201d (EITEMAN, STONEHILL &amp; MOFFET) securitiza\u00e7\u00e3o das hipotecas liberava recursos financeiros dos bancos para originar mais e mais empr\u00e9stimos \u2013 e o ciclo reiniciava.<\/p>\n<p>O trip\u00e9 da especula\u00e7\u00e3o financeira se completava com o crescimento exponencial da demanda destes derivativos de cr\u00e9dito como alternativa de aplica\u00e7\u00e3o. Para viabilizar a aceita\u00e7\u00e3o ampla desses t\u00edtulos, os CDOs eram enviados a uma empresa de classifica\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito, como a Moody\u2019s, S&amp;P e Fitch, para serem classificados quanto ao risco. EITEMAN, STONEHILL &amp; MOFFETT alertam:<\/p>\n<p>As empresas de classifica\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito eram pagas por sua classifica\u00e7\u00e3o e geralmente sofriam fortes press\u00f5es para concluir sua an\u00e1lise e classifica\u00e7\u00e3o da CDO com rapidez. Consequentemente, era uma pr\u00e1tica comum usar as informa\u00e7\u00f5es da classifica\u00e7\u00e3o fornecida pelo underwriter, em vez de fazer uma an\u00e1lise de cr\u00e9dito minuciosa pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Tradicionalmente, estas empresas de rating de cr\u00e9dito classificam os t\u00edtulos de d\u00edvida (tanto privada quanto soberana) em n\u00edveis: baixo risco (de AAA a AA), m\u00e9dio risco (A e BBB) e equity \u2013 alto a alt\u00edssimo risco (BB, B e CCC a C) 17. S\u00f3 que o \u201cempacotamento\u201d de diversos t\u00edtulos em um CDO era entendido como uma forma de \u201credu\u00e7\u00e3o do risco\u201d. Assim, tornava-se poss\u00edvel para uma cole\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos de d\u00edvida, digamos, de rating BB, ser classificada acima de BB quando combinados em um CDO.<\/p>\n<p>Como muitos investidores institucionais (especialmente fundos m\u00fatuos e fundos de pens\u00e3o) tinham pol\u00edticas de investimento em vigor que exigiam o grau de investimento para aquisi\u00e7\u00e3o, as classifica\u00e7\u00f5es fornecidas pelas empresas de rating eram decisivas para que a institui\u00e7\u00e3o emissora conseguisse colocar os CDOs no mercado \u2013 e os emissores inundaram o mercado financeiro mundial com CDOs. EITEMAN, STONEHILL &amp; MOFFET assinalam:<\/p>\n<p>(\u2026) em 2007 a CDO tinha se tornado a base das atividades de investimento banc\u00e1rio globalmente. Quando surgiram as primeiras verdadeiras fraturas no mercado em 2007, a CDO tinha se espalhado para todos os cantos do mercado financeiro global. (\u2026) O come\u00e7o do fim foi o colapso de dois fundos de hedge do Bear Sterns em julho de 200719. Ambos os fundos eram formados quase que integralmente por CDOs. Em menos de um m\u00eas o mercado de CDOs tinha se tornado completamente il\u00edquido. Qualquer pessoa que tentasse liquidar uma CDO encontraria ofertas que se aproximavam de oito centavos por d\u00f3lar. O mercado de CDOs efetivamente entrou em colapso.<\/p>\n<p>Quanto aos Credit Defaul Swaps, (CDS), os mesmos autores assinalam:<\/p>\n<p>O CDS era um contrato, um derivativo que derivava seu valor da qualidade e do desempenho de cr\u00e9dito de qualquer ativo especificado. O CDS era novo, inventado por uma equipe do JP Morgan em 1997, e projetado para transferir o risco de inadimpl\u00eancia a terceiros. Em resumo, era uma maneira de apostar se uma hipoteca ou t\u00edtulo espec\u00edfico atrasaria o pagamento ou simplesmente deixaria de ser paga. Em alguns casos, para fazer hedge, ela oferecia seguro contra a possibilidade de um tomador n\u00e3o pagar. Em outros casos, era uma maneira de um especulador poder apostar que t\u00edtulos de risco cada vez mais alto (como o CDO) manteriam seu valor. E o que era singular \u00e9 que era poss\u00edvel fazer a aposta sem mesmo deter ou estar diretamente exposto ao instrumento de cr\u00e9dito propriamente dito. (grifo nosso). O CDS estava totalmente fora dos limites regulat\u00f3rios, tendo obtido uma prote\u00e7\u00e3o incompar\u00e1vel em decorr\u00eancia da Lei de Moderniza\u00e7\u00e3o dos Mercados Futuros de Commodities de 2000.<\/p>\n<p>A inusitada situa\u00e7\u00e3o que permitia que um adquirente de CDS n\u00e3o estivesse necessariamente exposto ao instrumento de cr\u00e9dito espec\u00edfico que o CDS protegia resultava que a eventual inadimpl\u00eancia de um devedor poderia beneficiar um n\u00famero teoricamente ilimitado de especuladores \u2013 o que tamb\u00e9m implicava que a seguradora emissora poderia ser acionada a honrar um volume financeiro astron\u00f4mico de titulares de CDS exercendo seu direito. No fim das contas, o mercado de CDS, estimado em quase U$60 trilh\u00f5es em 2007 cresceu at\u00e9 um tamanho muitas vezes maior do que os instrumentos de cr\u00e9dito subjacentes para cuja prote\u00e7\u00e3o ele foi criado.<\/p>\n<p>A Lei de Moderniza\u00e7\u00e3o dos Mercados Futuros de Commodities supramencionada \u00e9 um exemplo ilustrativo do outro elemento fundamental do \u201ctrip\u00e9 da crise\u201d de 2007\/2008: o processo de liberaliza\u00e7\u00e3o e desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira. Este \u00e9 o tema do nosso pr\u00f3ximo t\u00f3pico.<\/p>\n<p>3 \u2013 Desregulamenta\u00e7\u00e3o: a porteira aberta para a insanidade financeira<\/p>\n<p>O sistema financeiro norte-americano havia sido fortemente regulado em 1933, por meio da famosa \u201cLei Glass\u2013Steagall\u201d, que, entre outras disposi\u00e7\u00f5es, separava rigidamente as atividades dos bancos comerciais daquelas dos bancos de investimento. Foi promulgada pela administra\u00e7\u00e3o de Franklin D. Roosevelt para, basicamente, evitar um colapso financeiro sist\u00eamico (como aquele ocorrido em 1929). Os primeiros atos de desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira foram editados em 1980 (no final da administra\u00e7\u00e3o Jimmy Carter mas j\u00e1 sob a inspira\u00e7\u00e3o ultraliberal que viria ser a marca dos governos de Ronald Reagan), com a aprova\u00e7\u00e3o da Lei de Desregulamenta\u00e7\u00e3o e Controle Monet\u00e1rio das Institui\u00e7\u00f5es Deposit\u00e1rias (Depositary Institutions Deregulation and Monetary Control Act).<\/p>\n<p>Um dos mais marcantes atos de desregulamenta\u00e7\u00e3o foi a aprova\u00e7\u00e3o da \u201cLei de Moderniza\u00e7\u00e3o dos Servi\u00e7os Financeiros Gramm-Leach-Bliley\u201d em 1999, que revogou os derradeiros vest\u00edgios da antiga Lei Glass-Steagall de 1933 e derrubou as \u00faltimas barreiras entre as atividades financeiras.<\/p>\n<p>\u00c9 fato que a aprova\u00e7\u00e3o da Lei Gramm-Leach-Bliley \u201cserviu como uma luva\u201d para \u201clegalizar\u201d a fus\u00e3o entre o Citicorp (banco comercial) e o Travellers (grupo financeiro de corretora de valores, seguradora e banco de investimentos), fus\u00e3o esta ocorrida em abril de 1998 que criou o Citygroup (conglomerado financeiro), a maior empresa financeira do mundo \u00e0 \u00e9poca23. Tal fus\u00e3o era expressamente proibida pela Glass-Steagel Act; entretanto, o Fed concedeu \u201cper\u00edodo de exce\u00e7\u00e3o\u201d de um ano ap\u00f3s o an\u00fancio da fus\u00e3o, e em novembro de 1999 a Glass-Steagal foi enterrada.<\/p>\n<p>Outra legisla\u00e7\u00e3o desregulamentadora foi aprovada no ano seguinte. A Commodities Future Modernization Act (Lei de Moderniza\u00e7\u00e3o dos Mercados Futuros de Commodities, em tradu\u00e7\u00e3o livre) dispunha em um de seus artigos que os derivativos de balc\u00e3o (ou seja, que n\u00e3o s\u00e3o negociados em bolsas de mercadorias e futuros) estariam fora da regulamenta\u00e7\u00e3o da CFTC (Commodities Future Trading Comission, a autoridade reguladora estadunidense de derivativos).<\/p>\n<p>E quais foram as consequ\u00eancias efetivas desta desregulamenta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 a pr\u00f3pria fus\u00e3o Citicorp-Travellers. A entidade resultante da fus\u00e3o de um banco comercial com uma plataforma de investimentos financeiros podia oferecer de forma combinada transa\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias, seguros, servi\u00e7os de subscri\u00e7\u00e3o de valores mobili\u00e1rios e op\u00e7\u00f5es de investimento, sob uma variedade de marcas diferentes. Por outro lado, a nova Lei agora permitia tamb\u00e9m que os bancos comerciais adentrassem em mais \u00e1reas de risco, inclusive subscri\u00e7\u00f5es e transa\u00e7\u00f5es propriet\u00e1rias. Uma das principais consequ\u00eancias foi o enorme aumento da competi\u00e7\u00e3o agressiva no mundo das finan\u00e7as, com os bancos disputando clientes oferecendo op\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito hipotec\u00e1rio e de investimentos financeiros cada vez mais criativas e sofisticadas.<\/p>\n<p>Um resultado l\u00f3gico do aumento da competi\u00e7\u00e3o agressiva foi o crescimento da assun\u00e7\u00e3o de risco, e, em particular, do n\u00edvel de alavancagem, especialmente dos bancos de investimento. Os bancos comerciais, subordinados ao FED, estavam sujeitos aos limites de alavancagem estabelecidos pelo Acordo da Basileia6 , do qual o FED \u00e9 um dos signat\u00e1rios. Entretanto, bancos de investimento e corretoras de a\u00e7\u00f5es eram regulados pela Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios dos EUA (Securities and Exchange Comission, a SEC) e n\u00e3o estavam submetidos aos limites de alavancagem estabelecidos pelo Acordo da Basileia.<\/p>\n<p>Os cinco grandes bancos de investimento americanos hegemonizavam o sistema financeiro estadunidense, junto com dois conglomerados financeiros \u2013 Citigroup e J P Morgan \u2013 e tr\u00eas seguradoras: AIG (socorrida pelo governo na crise), MBIA e AMBAC. Estes bancos de investimento em 2007 ultrapassavam em muito o limite m\u00e1ximo de grau de alavancagem admitido pelo Acordo de Basil\u00e9ia: todos acima de 25.<\/p>\n<p>Isto simplesmente significa que para cada 100 d\u00f3lares de ativos, estes bancos possu\u00edam menos de 4 d\u00f3lares de capital pr\u00f3prio; ou, em outras palavras, se fossem obrigados a lan\u00e7ar a preju\u00edzo mais de 3% do valor de suas opera\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito, ficariam insolventes \u2013 e foi o que ocorreu.<\/p>\n<p>Vejamos agora como a combina\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas elementos \u2013 boom das hipotecas subprime, expans\u00e3o dos derivativos de cr\u00e9dito e excessiva alavancagem de grandes institui\u00e7\u00f5es financeiras permitida pela desregulamenta\u00e7\u00e3o \u2013 funcionou como detonador de uma crise financeira e econ\u00f4mica mundial.<\/p>\n<p>4 \u2013 A eclos\u00e3o da crise<\/p>\n<p>Os primeiros \u201csinais, fortes sinais\u201d de que algo de muito errado havia no sistema financeiro americano \u2013 e em outros pa\u00edses desenvolvidos \u2013 come\u00e7am em julho de 2007, quando dois fundos de hedge26 administrados pelo Bearn Sterns (um dos cinco maiores bancos de investimento estadunidenses) que tinham em sua carteira de investimentos uma grande quantidade de CDOs e outros ativos vinculados a hipotecas faliram.<\/p>\n<p>Por todo o segundo semestre de 2007 e primeiro trimestre de 2008 sucediam-se as m\u00e1s not\u00edcias no mercado financeiro, especialmente com aqueles agentes mais vinculados ao mercado de hipotecas. Ap\u00f3s uma forte atua\u00e7\u00e3o dos BCs em resposta a esses eventos, a rea\u00e7\u00e3o imediata do mercado foi a de retomar a uma certa normalidade, dando aparente raz\u00e3o ao diagn\u00f3stico majorit\u00e1rio \u00e0 \u00e9poca de que se tratava de problemas de liquidez em segmentos do sistema financeiro, e que o decl\u00ednio do mercado imobili\u00e1rio teria efeito circunscrito aos seus participantes diretos.<\/p>\n<p>Entretanto, a publica\u00e7\u00e3o dos balan\u00e7os das institui\u00e7\u00f5es financeiras americanas no in\u00edcio de 2008 demonstra que o envolvimento do sistema financeiro com o mercado hipotec\u00e1rio era muito maior do que se supunha: Citibank, Merryl Lynch e J P Morgan divulgam preju\u00edzos bilion\u00e1rios. A rea\u00e7\u00e3o dos mercados leva o FED a reduzir duas vezes em 10 dias a taxa b\u00e1sica de juros, de 4,25% para 3%, o que \u201cacalmaria\u201d os mercados financeiros at\u00e9 a pr\u00f3xima m\u00e1 not\u00edcia: a virtual quebra do Bear Sterns.<\/p>\n<p>O Bear Stearns era outro dos cinco maiores bancos de investimento dos EUA, tamb\u00e9m duramente atingido pelo colapso do mercado hipotec\u00e1rio americano. Foi socorrido em mar\u00e7o de 2008: ap\u00f3s falir devido a uma enorme crise de liquidez (praticamente nas mesmas condi\u00e7\u00f5es do Lehman Brothers) foi adquirido pelo J P Morgan Chase, assistido pelo governo dos EUA.<\/p>\n<p>Seguiram-se ainda as quebras da Indy Mac, socorrida por uma inje\u00e7\u00e3o bilion\u00e1ria de recursos do FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation, a ag\u00eancia garantidora de dep\u00f3sitos) e a virtual quebra das gigantes hipotec\u00e1rias Fannie Mae e Freddie Mac. O governo norte-americano anunciou no domingo sete de setembro a interven\u00e7\u00e3o na Fannie Mae (Federal National Mortgage Association) e na Freddie Mac (Federal Home Loan Mortgage Corporation), para salv\u00e1-las da insolv\u00eancia.<\/p>\n<p>Enquanto as autoridades ainda atuavam em pacotes de ajuda a grandes institui\u00e7\u00f5es em dificuldades, combinadas com redu\u00e7\u00f5es da taxa de juros e inje\u00e7\u00f5es de liquidez, os mercados ainda se alternavam entre momentos de sobressalto e calma. A fal\u00eancia do Lehman Brothers altera radicalmente este cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>O Lehman, um dos maiores geradores de derivativos baseados em empr\u00e9stimos hipotec\u00e1rios e, como tal, atingido duramente pelo crash do mercado imobili\u00e1rio, divulgara na ter\u00e7a-feira nove de setembro um preju\u00edzo recorde de U$3,2bi. As a\u00e7\u00f5es do banco na Bolsa de Nova York despencaram e os investidores acorreram em massa para resgatar seus t\u00edtulos junto ao Lehman.<\/p>\n<p>O fim de semana de 13 e 14 de setembro foi de tens\u00e3o para o FED (Federal Reserve, o Banco Central americano, presidido ent\u00e3o por Ben Bernanke), para a equipe do Secret\u00e1rio de Tesouro dos EUA Henry Paulson e muito mais para a administra\u00e7\u00e3o do Lehman Brothers. Em depoimento ao document\u00e1rio \u201cInside Job\u201d (\u201cTrabalho Interno\u201d, no t\u00edtulo em portugu\u00eas) o advogado falimentar do Lehman, Harvey Miller, relata que a equipe do FED e do Tesouro, ap\u00f3s ouvir suas pondera\u00e7\u00f5es de que a fal\u00eancia do Lehman teria \u201cefeitos catastr\u00f3ficos\u201d no sistema financeiro, respondeu aos representantes do banco dizendo que \u201cpara acalmar os mercados, consideramos que o Lehman deve falir\u201d.<\/p>\n<p>Esta posi\u00e7\u00e3o inflex\u00edvel do governo americano no caso Lehman Brothers tinha aparentemente uma \u201cjustificativa moral\u201d. Segundo v\u00e1rios comentaristas do mercado financeiro, a ideia era \u201cusar o Lehman de exemplo\u201d para \u201cmoralizar o sistema financeiro<br \/>\namericano\u201d, que \u201chavia se alavancado demais em opera\u00e7\u00f5es de alto risco\u201d.<\/p>\n<p>Era muito comentado nos bastidores do mercado financeiro norte-americano que, ap\u00f3s as controversas opera\u00e7\u00f5es de salvamento do Bear Sterns e das gigantes hipotec\u00e1rias, Paulson estava preocupado com a imagem de ser rotulado como \u201cMr. Bailout\u201d7 No mesmo fim de semana da fal\u00eancia do Lehman Brothers, outro grande banco de investimento, o Merril Lynch, tamb\u00e9m \u00e0 beira da fal\u00eancia, foi adquirido pelo BofA \u2013 Bank of America.<\/p>\n<p>Entretanto, ao contr\u00e1rio do que imaginavam Ben Bernanke, Henry Paulson e suas equipes, a fal\u00eancia do Lehman Brothers n\u00e3o \u201cacalmou o mercado\u201d: aconteceu exatamente o oposto. No dia 15 de setembro, a rea\u00e7\u00e3o negativa dos mercados financeiros \u00e0 quebra do Lehman Brothers foi avassaladora em todo o mundo. As bolsas de valores sofreram uma grande queda. As taxas do d\u00f3lar na LIBOR8 dispararam, em fun\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o internacional de que as institui\u00e7\u00f5es financeiras dos EUA entravam em colapso.<\/p>\n<p>No dia seguinte, a AIG (American International Group), o conglomerado de seguros norte-americano, recebeu uma inje\u00e7\u00e3o de U$85 bilh\u00f5es do FED americano em troca de uma participa\u00e7\u00e3o de 80% em suas a\u00e7\u00f5es9 . A AIG era uma das maiores emissoras de CDS vinculados a empr\u00e9stimos hipotec\u00e1rios e t\u00edtulos lastreados em hipotecas como os CDOs. Estima-se que a exposi\u00e7\u00e3o total da AIG aos CDS em setembro de 2008, quando sua quebra iminente levou o FED a socorr\u00ea-la, era da ordem de U$451 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Em 18 de setembro de 2008, apenas tr\u00eas dias ap\u00f3s o colapso do Lehman, Ben Bernanke e Henry Paulson v\u00e3o ao Congresso estadunidense e solicitam U$ 700 bilh\u00f5es de cr\u00e9dito extra para socorrer o sistema financeiro. A fala dos representantes do Executivo estadunidense ao Congresso dos EUA foi apocal\u00edptica: \u201ca alternativa seria um colapso financeiro catastr\u00f3fico\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo com essa multibilion\u00e1ria inje\u00e7\u00e3o de liquidez nos bancos estadunidenses, a crise continuava a se agravar. O padr\u00e3o seguido desde o ver\u00e3o de 2007 de altern\u00e2ncia de per\u00edodos de calmaria e p\u00e2nico se aprofundava, \u00e0 medida que eram anunciados mais e mais fal\u00eancias banc\u00e1rias, fus\u00f5es, aquisi\u00e7\u00f5es e pacotes de ajuda financeira a institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias nos EUA e na Europa.<\/p>\n<p>Com o travamento do cr\u00e9dito, a crise, que era essencialmente financeira, chega com for\u00e7a total \u00e0 economia real. Sem acesso aos empr\u00e9stimos de capital de giro, as empresas industriais, comerciais e de servi\u00e7os passam tamb\u00e9m a viver enormes dificuldades de liquidez. Com o cr\u00e9dito \u00e0s fam\u00edlias estancado, o consumo desaba. O aperto no cr\u00e9dito faz tamb\u00e9m desabar o volume do com\u00e9rcio internacional, intensificando a crise econ\u00f4mica que se encaminhou celeremente para uma recess\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>5. A economia mundial hoje<\/p>\n<p>Os efeitos da crise de 2007\/2008 se fazem sentir na economia global at\u00e9 os dias de hoje. Nenhuma economia de nenhuma regi\u00e3o do mundo retomou p\u00f3s 2008 os n\u00edveis de crescimento econ\u00f4mico anteriores \u00e0 deflagra\u00e7\u00e3o da crise. Passados onze anos da \u201csegunda-feira negra 15 de setembro de 2008\u201d, os progn\u00f3sticos do Banco Mundial e do FMI s\u00e3o sombrios.<\/p>\n<p>No Gr\u00e1fico 4 vemos as proje\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas do Banco Mundial para a economia do planeta at\u00e9 2022, com base nas estat\u00edsticas de 2010 a 2018. Nota-se claramente que o crescimento econ\u00f4mico mundial ap\u00f3s 2011 (tanto o efetivado quanto o previsto 10 ) fica em torno do patamar de 3%, basicamente sustentado pelo crescimento superior a 4% das economias emergentes, com destaque para a China; j\u00e1 as economias dos pa\u00edses desenvolvidos da OCDE patinam num crescimento m\u00e9dio do PIB inferior a 2%.<\/p>\n<p>Gr\u00e1fico 4 \u2013 crescimento econ\u00f4mico observado e projetado10 : economia mundial (barras), OCDE (linha vermelha) e<br \/>\nemergentes (linha laranja), em: https:\/\/www.poderpopularmg.org\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Design-sem-nome-2021-12-19T194247.011.png<\/p>\n<p>6. Conclus\u00e3o<\/p>\n<p>Ap\u00f3s este relato hist\u00f3rico-anal\u00edtico da crise \u2013 desde sua deflagra\u00e7\u00e3o at\u00e9 os dias de hoje \u2013 algumas respostas foram dadas, e novas perguntas surgem. Se sabemos que a combina\u00e7\u00e3o de desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira, inova\u00e7\u00f5es financeiras e o boom do cr\u00e9dito hipotec\u00e1rio voltado ao segmento subprime funcionaram como catalisadores e detonadores da crise, resta ainda uma pergunta: por que tal combina\u00e7\u00e3o perversa e explosiva p\u00f4de ocorrer?<\/p>\n<p>Esta n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o simples. V\u00e1rias explica\u00e7\u00f5es s\u00e3o dadas, a partir de diversas vertentes te\u00f3ricas. No pr\u00f3ximo artigo, exploraremos a explica\u00e7\u00e3o da vertente marxista com base na categoria do capital fict\u00edcio, que \u00e9 a tese que adotamos.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>1 Importante ressaltar que todas as considera\u00e7\u00f5es deste artigo desconsideram a crise pand\u00eamica da Covid19 de 2020 at\u00e9 agora, pois trabalhamos com dados at\u00e9 2019.<\/p>\n<p>2 A express\u00e3o \u201cduplo mergulho\u201d ou \u201ccrise em W\u201d refere-se \u00e0s expectativas mais realistas no 2\u00ba semestre de 2009 e in\u00edcio de 2010, segundo as quais a maior possibilidade era de que, ap\u00f3s ligeira recupera\u00e7\u00e3o, a economia mundial entraria novamente em recess\u00e3o, como realmente aconteceu. Pelas limita\u00e7\u00f5es de espa\u00e7o, n\u00e3o aprofundamos neste artigo a an\u00e1lise do \u201csegundo mergulho\u201d da crise em 2011, cujo epicentro situou-se na Europa.<\/p>\n<p>3 Frente ao crescimento de 7,5% a.a. do PIB em 2010, o discurso da \u00e9poca era que a economia brasileira naquele<br \/>\nano tinha tido um \u201cPIB\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>4 CDOs, \u201cCollaterized Debt Obligations\u201d (\u201cObriga\u00e7\u00f5es de D\u00edvida Colateralizadas\u201d, num portugu\u00eas praticamente literal) \u201cs\u00e3o um instrumento derivativo criado a partir de hipotecas e empr\u00e9stimos originados em bancos, combinados a obriga\u00e7\u00f5es de d\u00edvida similares em uma carteira, e ent\u00e3o revendidos para uma variedade de investidores\u201d (EITEMAN, STONEHILL &amp; MOFFET)<\/p>\n<p>5 Tarifas de remunera\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o de origina\u00e7\u00e3o de hipotecas.<\/p>\n<p>6 O Acordo de Capital de Basileia, oficialmente denominado International Convergence of Capital Measurement and Capital Standards, tamb\u00e9m designado por Acordo de Basileia ou Basileia I, foi um acordo firmado em 1988, na cidade de Basileia (Su\u00ed\u00e7a), por iniciativa do Comit\u00ea de Basileia e ratificado pelos Bancos Centrais de mais de 100 pa\u00edses. As regras do Acordo de Basil\u00e9ia estabelecem um grau m\u00e1ximo de alavancagem admitido de 12,5 vezes; no Brasil, as regras s\u00e3o mais r\u00edgidas, admitindo uma alavancagem m\u00e1xima de 9 vezes.<\/p>\n<p>7 \u201cSenhor Resgate\u201d, ou seja, o comandante de opera\u00e7\u00f5es de salvamento de bancos privados com dinheiro p\u00fablico.<\/p>\n<p>8 Taxa de refer\u00eancia do mercado interbanc\u00e1rio de Londres.<\/p>\n<p>9 Ou seja, na pr\u00e1tica a AIG foi estatizada (ainda que temporariamente) pelo governo conservador de George W Bush. A partir de outubro de 2008, a crise de cr\u00e9dito sobreveio em todo o mundo com for\u00e7a total. Entre o \u00faltimo trimestre de 2008 e o segundo trimestre de 2009, os mercados de cr\u00e9dito mundiais \u2013 empr\u00e9stimos de todo o tipo \u2013 quase pararam. Os empr\u00e9stimos banc\u00e1rios de capital de giro, compra de ve\u00edculos, financiamentos estudantis norte-americanos (lembrando que nos Estados Unidos o ensino universit\u00e1rio \u00e9 pago, mesmo o p\u00fablico) e para refinanciamento de d\u00edvidas de cart\u00e3o de cr\u00e9dito foram extremamente arrochados, sobretudo nos EUA, devido \u00e0sgrandes perdas nas atividades banc\u00e1rias de investimento.<\/p>\n<p>10 Ressalvamos mais uma vez que todos os dados e proje\u00e7\u00f5es deste artigo s\u00e3o anteriores \u00e0 eclos\u00e3o da pandemia mundial Covid 19, que agravou ainda mais o quadro de crise. Em resumo, a crise econ\u00f4mica de agora n\u00e3o foi \u201ccausada\u201d pela pandemia: foi agravada por ela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28205\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"2007\/2008: a crise que n\u00e3o terminou.","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9,65,66,10],"tags":[221],"class_list":["post-28205","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","category-c78-internacional","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7kV","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28205","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28205"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28205\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28205"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28205"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28205"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}