{"id":28212,"date":"2021-12-24T14:08:28","date_gmt":"2021-12-24T17:08:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28212"},"modified":"2021-12-24T14:08:28","modified_gmt":"2021-12-24T17:08:28","slug":"brigas-na-ceia-de-natal-e-o-trabalho-dos-comunistas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28212","title":{"rendered":"Brigas na ceia de Natal e o trabalho dos comunistas"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"420\" width=\"747\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/1v1d1e1lmiki1lgcvx32p49h8fe-wpengine.netdna-ssl.com\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/GettyImages-897550474-960x540.jpg?resize=747%2C420&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Germano Rama Molardi*<\/p>\n<p>\u00c9 engra\u00e7ada a resposta que d\u00e1 Engels em um texto seu pouco conhecido, \u201c<em>Princ\u00edpios b\u00e1sicos do Comunismo<\/em>\u201d, \u00e0 vig\u00e9sima terceira pergunta, que trata a respeito do que ser\u00e1 feito com as religi\u00f5es quando reinar a sociedade comunista, a que ele responde com um simples \u2018<em>Fica<\/em>\u2019. Por mais simplista que possa parecer, a resposta tem uma base muito complexa de reflex\u00f5es que se fundamentam na situa\u00e7\u00e3o concreta da classe trabalhadora e que n\u00e3o podem ser ignoradas; reflex\u00f5es que permanecem atuais e latentes, uma vez que a religi\u00e3o ainda exerce papel fundamental na vida das trabalhadoras e dos trabalhadores. No livro em que polemiza com Eugen D\u00fchring, Engels oferece uma reflex\u00e3o muito mais aprofundada da quest\u00e3o, que aqui trago a partir dessa longa cita\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cOra, toda religi\u00e3o nada mais \u00e9 que o reflexo fant\u00e1stico, na mente dos seres humanos, daquelas pot\u00eancias exteriores que dominam sua exist\u00eancia cotidiana, um reflexo no qual as pot\u00eancias terrenas assumem a forma de pot\u00eancias sobrenaturais. Nos prim\u00f3rdios da hist\u00f3ria, quem primeiro experimente esse reflexo s\u00e3o as pot\u00eancias da natureza e, no desenvolvimento ulterior, elas passam, entre os diferentes povos, pelas mais multifacetadas e variegadas personifica\u00e7\u00f5es. Esse primeiro processo foi retra\u00e7ado, ao menos no tocante aos povos indo-europeus, pela mitologia comparativa, at\u00e9 sua origem nos Vedas indianos, sendo que sua evolu\u00e7\u00e3o foi comprovada detalhadamente entre os hindus, persas, gregos, romanos, germanos e, na medida em que h\u00e1 material suficiente, tamb\u00e9m entre os celtas, lituanos e eslavos. Por\u00e9m, logo passam a atuar, ao lado das pot\u00eancias naturais, pot\u00eancias sociais \u2013 pot\u00eancias t\u00e3o estranhas e de come\u00e7o t\u00e3o inexplic\u00e1veis para os seres humanos que os dominavam com a mesma aparente necessidade natural das pr\u00f3prias pot\u00eancias da natureza. Os vultos fant\u00e1sticos, nos quais se refletiam de come\u00e7o apenas as for\u00e7as misteriosas da natureza, adquirem desse modo atributos sociais, tornando-se representantes de pot\u00eancias hist\u00f3ricas. Num est\u00e1gio ainda posterior do desenvolvimento, todos os atributos naturais e sociais dos muitos deuses s\u00e3o transferidos para um s\u00f3 Deus onipotente, que, por sua vez, \u00e9 apenas o reflexo do ser humano abstrato. Desse modo, surgiu o monote\u00edsmo, que historicamente foi o \u00faltimo produto da posterior filosofia grega vulgar e j\u00e1 encontrou sua corporifica\u00e7\u00e3o pronta e acaba no Deus nacional judeu exclusivo, Jav\u00e9. Nesse formato c\u00f4modo, pr\u00e1tico e adapt\u00e1vel a tudo, a religi\u00e3o pode seguir existindo como forma imediata, isto \u00e9, afetiva de rela\u00e7\u00e3o entre os seres humanos e as pot\u00eancias naturais e sociais que os dominam enquanto estiverem sob o dom\u00ednio de tais pot\u00eancias. Por\u00e9m, vimos v\u00e1rias vezes que, na sociedade burguesa atual, as pessoas s\u00e3o dominadas pelas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas criadas por elas mesmas, pelos meios de produ\u00e7\u00e3o produzidos por elas mesmas, como se fossem uma pot\u00eancia estranha. Portanto, o fundamento factual do ato religioso perdura e, junto com ele, o pr\u00f3prio reflexo religioso. E, mesmo que a economia burguesa inaugure uma certa no\u00e7\u00e3o dos nexos causais dessa domina\u00e7\u00e3o estranha, isso n\u00e3o muda nada no fato em si. A economia burguesa n\u00e3o tem como impedir as crises em termos gerais nem proteger o capitalista individual de perdas, d\u00edvidas perdidas e bancarrota ou o trabalhador individual do desemprego e da mis\u00e9ria. Ainda vale o ad\u00e1gio: o homem p\u00f5e, Deus (isto \u00e9, a domina\u00e7\u00e3o estranha exercida pelo modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista) disp\u00f5e. O simples conhecimento, mesmo que ele fosse mais amplo e mais profundo do que o da economia burguesa, n\u00e3o basta para submeter as pot\u00eancias sociais \u00e0 domina\u00e7\u00e3o da sociedade. Para isso, faz-se necess\u00e1rio, antes de tudo, uma a\u00e7\u00e3o social. E, quando essa a\u00e7\u00e3o tiver sido efetuada, quando, mediante a tomada de posse e o manejo planejado da totalidade dos meios de produ\u00e7\u00e3o, a sociedade tiver libertado a si e a todos os seus membros da servid\u00e3o em que s\u00e3o mantidos no presente por esse meio de produ\u00e7\u00e3o produzido por eles mesmos, mas com que se defrontam como pot\u00eancia estranha superpoderosa, ou seja, quando o homem n\u00e3o apenas puser, mas tamb\u00e9m dispuser, s\u00f3 ent\u00e3o desaparecer\u00e1 a \u00faltima pot\u00eancia estranha que agora ainda tem como reflexo a religi\u00e3o, e desse modo desaparecer\u00e1 tamb\u00e9m o pr\u00f3prio reflexo religioso, pela simples raz\u00e3o de n\u00e3o haver mais o que refletir\u201d (ENGELS, 2015, p. 349-50-51).<\/p>\n<p>Engels (2015) reconhece que, na sociedade burguesa, n\u00e3o \u00e9 em si a religi\u00e3o que exerce papel central na aliena\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, como tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o a educa\u00e7\u00e3o ou mesmo a m\u00eddia as respons\u00e1veis por isso. Os seres humanos, sob a \u00e9gide do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, vivenciam o modo de vida burgu\u00eas de modo estranhado, uma vez que a din\u00e2mica do capital implica que quanto mais produzem, mais pobres os trabalhadores ficam e, portanto, mais se veem afastados dos produtos de seus pr\u00f3prios trabalhos.<\/p>\n<p>Uma vez incapazes de resolver as pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es, torna-se compreens\u00edvel que os trabalhadores abdiquem da pr\u00f3pria racionalidade \u2013 j\u00e1 que nela n\u00e3o encontram as resolu\u00e7\u00f5es para os pr\u00f3prios problemas \u2013 para buscar na espiritualidade um conforto, dadas todas as adversidades a que s\u00e3o submetidos em fun\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica trai\u00e7oeira do capital. Portanto, somente quando o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista for superado, as trabalhadoras e os trabalhadores intervirem direta e conscientemente na forma como produzem e reproduzem sua vida em sociedade \u00e9 que o abandono de um pensamento que transcenda a realidade concreta se tornar\u00e1 poss\u00edvel, porque ser\u00e1 ent\u00e3o desnecess\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Mas e a realidade concreta?<\/strong><\/p>\n<p>Dados do IBGE, do Datafolha e do Instituto PEW apontam que no Brasil existe uma grande queda de adeptos do catolicismo e o concomitante crescimento de adeptos das religi\u00f5es evang\u00e9licas \u2013 pentecostais ou n\u00e3o \u2013, de modo que boa parte dos adeptos da primeira vem migrando para essa \u00faltima. O estudo do Datafolha aponta ainda para um grande desconhecimento e preconceito a respeito da religi\u00e3o mu\u00e7ulmana, judaica, bem como em rela\u00e7\u00e3o ao budismo e outras religi\u00f5es ligadas ao oriente que sofrem com a influ\u00eancia da ideologia burguesa que desumaniza e desespecifica aquilo que \u00e9 externo ao ocidente, tornando-o sin\u00f4nimo da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Ainda que n\u00e3o me aprofunde em tais dados, trago-os para explicitar que a religi\u00e3o \u00e9 uma necessidade latente das trabalhadoras e dos trabalhadores; necessidade que evidentemente cresce com a intensifica\u00e7\u00e3o das crises que acometem o capitalismo, dada sua din\u00e2mica imanente. Seria um erro que neg\u00e1ssemos isso e que n\u00e3o consegu\u00edssemos, como comunistas, intervir nessa realidade trazendo para nosso lado as trabalhadoras e trabalhadores que poderiam enxergar entre a sociedade socialista e a religi\u00e3o uma correspond\u00eancia, o que n\u00e3o apresentaria, sob qualquer perspectiva, uma contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sob outra perspectiva, faz-se ressaltar que a bancada evang\u00e9lica no Congresso, que apresenta cerca de 16% do total de nomes, demonstra-se demasiadamente conservadora, aprovando projetos que prejudicam negras e negros, as mulheres, bem como a comunidade LGBT. Ademais, n\u00e3o cabe esquecer, a bancada evang\u00e9lica no Congresso teve participa\u00e7\u00e3o na aprova\u00e7\u00e3o das reformas trabalhistas, bem como na PEC 55, de modo a prejudicarem concretamente os pr\u00f3prios fi\u00e9is, majoritariamente advindos dos setores mais pobres da sociedade e que sentir\u00e3o fortemente os efeitos causados pelos ataques da burguesia \u00e0 classe trabalhadora como um todo.<\/p>\n<p>Se n\u00f3s, comunistas, adeptos ou n\u00e3o de uma religi\u00e3o, n\u00e3o soubermos apontar essas contradi\u00e7\u00f5es com o devido tato que a realidade sens\u00edvel nos exige, evidentemente marcharemos rumo a mais derrotas no futuro, porque, ao n\u00e3o entendermos as demandas da classe \u2013 algo que s\u00f3 acontecer\u00e1 se construirmos um Partido Comunista efetivamente inserido nas massas e leg\u00edtimo do atendimento e ades\u00e3o de suas pautas ao nosso programa \u2013 jamais conseguiremos atingir o n\u00famero de adeptos de uma sociedade socialista concretamente emancipada que j\u00e1 tivemos outrora.<\/p>\n<p>Hoje tanto se fala em liberdade religiosa, mas conseguimos n\u00f3s mesmos esquecer que ela s\u00f3 existe \u2013 formalmente \u2013 em fun\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o dos comunistas no s\u00e9culo XX, quando t\u00ednhamos a inser\u00e7\u00e3o de militantes nossos no Parlamento Burgu\u00eas. Se em vez de ouvirmos as trabalhadoras e trabalhadores para percebermos que os motivos pelos quais eles aderem \u00e0s religi\u00f5es t\u00eam, direta ou indiretamente, rela\u00e7\u00e3o com uma sociedade em que reina a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o, ficarmos discutindo com as trabalhadoras e os trabalhadores sobre a superioridade do ate\u00edsmo, com o qual nos defrontamos em fun\u00e7\u00e3o de nossa pretensa capacidade de resolu\u00e7\u00e3o dos problemas concretos com base em an\u00e1lises concretas \u2013 perderemos n\u00e3o s\u00f3 a oportunidade de aprendermos sobre a classe mais do que podemos absorver dos livros que tratam dela, como tamb\u00e9m de formar socialistas que, por mais idealistas que sejam em suas cren\u00e7as particulares, sonham como n\u00f3s com a concreta emancipa\u00e7\u00e3o humana que s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada no socialismo.<\/p>\n<p>Enquanto acreditarmos que existe sentido em desfazermos a felicidade das nossas fam\u00edlias nas ceias de natal, por nos acreditarmos superiores e mais racionais por n\u00e3o acreditarmos em \u201calgo t\u00e3o besta\u201d como um ser ou energia superior, seguiremos sendo taxados de bestas e chatos que, em vez de sermos escutados e entendidos a respeito da justeza de nossa luta, semearemos com veneno uma outra cren\u00e7a justa que j\u00e1 \u00e9 suficientemente regada para os motivos errados. Escutemos mais a classe trabalhadora: ela tem muito mais a nos ensinar al\u00e9m dos salmos e rezas!<\/p>\n<p>*Militante do PCB em Santa Maria \u2013 RS. Publicado originalmente em janeiro de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28212\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[10],"tags":[222],"class_list":["post-28212","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s19-opiniao","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7l2","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28212","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28212"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28212\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28212"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28212"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28212"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}