{"id":28234,"date":"2021-12-29T14:23:00","date_gmt":"2021-12-29T17:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28234"},"modified":"2021-12-29T14:23:00","modified_gmt":"2021-12-29T17:23:00","slug":"o-crime-da-braskem-em-maceio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28234","title":{"rendered":"O crime da Braskem em Macei\u00f3"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/omomento.org\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/braskem-350x250.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Da institucionaliza\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie \u00e0 luta contra a m\u00e1quina de moer sonhos<\/p>\n<p>O MOMENTO &#8211; DI\u00c1RIO DO POVO<\/p>\n<p>Por: Wellington Santos, Pastor da Igreja Batista do Pinheiro e ativista social<\/p>\n<p>Macei\u00f3, o para\u00edso das \u00e1guas, vive o inferno de um imensur\u00e1vel crime socioambiental em curso h\u00e1 mais de tr\u00eas anos, numa \u00e1rea urbana densamente povoada, equivalente a 500 campos de futebol, incluindo a borda do mapa de riscos da Defesa Civil. S\u00e3o quase 15 mil im\u00f3veis destru\u00eddos, cerca de 60.000 moradores expulsos, adoecidos, enlutados e desterritorializados, al\u00e9m de 4.500 empresas quebradas, o que j\u00e1 retirou a renda, o trabalho e o sustento de aproximadamente 30.000 pessoas.<\/p>\n<p>Como um desastre dessa magnitude que, al\u00e9m do j\u00e1 mencionado, deixou milhares de animais abandonados e fez sumir 17 hectares de mangue, devido \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de sal-gema, permanece impune? O que explica a omiss\u00e3o de absolutamente todas as autoridades federais, estaduais e municipais diante dessa brutalidade que levou 11 pessoas ao suic\u00eddio, dezenas de moradores e empres\u00e1rios \u00e0 morte precoce por doen\u00e7as psicossom\u00e1ticas e milhares de cidad\u00e3os ao adoecimento, \u00e0 depress\u00e3o, ao desamparo e ao desalento?<\/p>\n<p>A resposta est\u00e1 na estrat\u00e9gia usada por diversas mineradoras em todo o mundo, inclusive pela Braskem em Macei\u00f3: o silenciamento das v\u00edtimas, atrav\u00e9s do apagamento institucionalizado das suas exist\u00eancias. Esse \u201cmodus operandi\u201d tem seu eixo central em acordos unilaterais com o sistema de justi\u00e7a (Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, do Trabalho e Estadual, assim como a Defensoria Federal e a Estadual, Justi\u00e7a Federal, CNJ e at\u00e9 o CNMP), sem a participa\u00e7\u00e3o de quem sofreu o dano.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 complexa demais para ser interpretada dentro dos gabinetes burocr\u00e1ticos, antiquados e insens\u00edveis das \u201cautoridades\u201d. N\u00e3o existe pacifica\u00e7\u00e3o social sem que os afetados tenham voz, expressem suas dores e construam solu\u00e7\u00f5es conjuntas, mediadas pelo poder p\u00fablico atrav\u00e9s dos \u00f3rg\u00e3os de controle. Milh\u00f5es de reais investidos em propaganda institucional, amparadas em tais acordos com a justi\u00e7a, consolidam a narrativa de aparente legalidade ao processo de silenciamento sistem\u00e1tico. Como em uma sociedade midi\u00e1tica \u201co que os olhos n\u00e3o v\u00eaem o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o sente\u201d, a opini\u00e3o p\u00fablica segue ignorando a cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>Outra forma de apagamento institucionalizado dos afetados s\u00e3o os termos de coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica firmados entre Braskem e as mais diversas institui\u00e7\u00f5es, que se configuram enquanto uma esp\u00e9cie de eufemismo para coopta\u00e7\u00e3o. O objetivo \u00e9 impedir o levantamento de dados por institui\u00e7\u00f5es de ensino e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e privados, dificultando a compreens\u00e3o dos problemas das v\u00edtimas da minera\u00e7\u00e3o desenfreada. Sem estat\u00edsticas confi\u00e1veis que possam nortear pol\u00edticas p\u00fablicas, a constru\u00e7\u00e3o de provas para a\u00e7\u00f5es civis ou o enfrentamento pol\u00edtico com argumentos convincentes, o grito vai dando lugar ao sil\u00eancio eloquente e sofrido.<\/p>\n<p>Ao bloquear os canais jur\u00eddicos, t\u00e9cnicos, institucionais e jornal\u00edsticos capazes de traduzir a dor e os preju\u00edzos, consequentemente a Braskem imp\u00f5e suas regras de modo arbitr\u00e1rio e impede a repara\u00e7\u00e3o integral do dano garantida pela constitui\u00e7\u00e3o. Expressando esse apagamento em n\u00fameros, \u00e9 not\u00e1vel que apenas em rela\u00e7\u00e3o aos danos morais, a mineradora est\u00e1 deixando de pagar pelo menos seis bilh\u00f5es de reais aos 60 mil moradores, quase 1,5 bilh\u00e3o de reais para 4.500 empresas e nove mil empreendedores, al\u00e9m de 300 milh\u00f5es de reais de danos morais para 30 mil trabalhadores formais e informais. O valor total do rombo social \u00e9 de 7,8 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Na borda do mapa de risco, diariamente milhares de moradores e empreendedores p\u00f5em suas vidas em perigo ao transitarem obrigatoriamente em \u00e1reas de desastre. H\u00e1 tr\u00eas mil casas e dez mil moradores ilhados nos Flexais, em Quebradas, Marques de Abrantes, Bebedouro, e outros tantos na Vila Saem, assim como entre a Rua Jos\u00e9 Silveira Camerino e a Avenida Fernandes Lima, no Pinheiro. Outras dezenas de ruas no trecho do Farol tamb\u00e9m enfrentam as consequ\u00eancias socioecon\u00f4micas do desastre. Qual o custo? Algo em torno de 2,2 bilh\u00f5es de reais em indeniza\u00e7\u00f5es n\u00e3o pagas, totalizando dez bilh\u00f5es roubados das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>O atraso e o subdimensionamento das indeniza\u00e7\u00f5es, o arquivamento das a\u00e7\u00f5es que buscavam responsabilizar a Braskem pelos crimes socioambientais, e, por fim, a certeza da impunidade, transformaram esses dez bilh\u00f5es de reais em lucro recorde para a mineradora no primeiro semestre de 2021. Mesmo diante desta b\u00e1rbara injusti\u00e7a, As mat\u00e9rias veiculadas acerca do ocorrido finalizam, vias de regra, com a cl\u00e1ssica afirma\u00e7\u00e3o de que \u201ca Braskem est\u00e1 agindo conforme acordos estabelecidos com todas as autoridades competentes\u201d.<\/p>\n<p>Se junta a toda essa narrativa horripilante, ca\u00f3tica e criminosa a destrui\u00e7\u00e3o produzida no campo simb\u00f3lico da f\u00e9, not\u00e1vel atrav\u00e9s das confiss\u00f5es religiosas das pessoas que viviam nos bairros destru\u00eddos pela Braskem. Igrejas crist\u00e3s hist\u00f3ricas (cat\u00f3licas e evang\u00e9licas), centros esp\u00edritas, terreiros de candombl\u00e9, igrejas messi\u00e2nicas e tantos outros lugares considerados sagrados pelos frequentadores e frequentadoras que foram desalojados e esvaziados.<\/p>\n<p>Gostaria de destacar, a t\u00edtulo de exemplo, a import\u00e2ncia hist\u00f3rica da Igreja Cat\u00f3lica Santo Ant\u00f4nio de P\u00e1dua, localizada no bairro igualmente hist\u00f3rico de Bebedouro, constru\u00edda em 1875, alcan\u00e7ando, em 2021, 146 anos de exist\u00eancia. \u00c9 fundamental mencionar, tamb\u00e9m, a Igreja Batista do Pinheiro, que fica no bairro do Pinheiro, fundada em 1936, declarada, no dia seis de outubro deste ano, patrim\u00f4nio material e imaterial do estado de Alagoas, atrav\u00e9s da lei 8.515, promulgada pela Assembleia Legislativa do Estado, mediante seu papel representativo, para al\u00e9m do envolvimento nas causas religiosas e da participa\u00e7\u00e3o ativa em discuss\u00f5es no campo das quest\u00f5es pol\u00edticas, raciais, agr\u00e1rias e de g\u00eanero.<\/p>\n<p>A m\u00e1quina de moer gente, animais, casas, bairros, ecossistemas, afetos e sonhos, chamada de Braskem, engrenagem diab\u00f3lica e bestial do capitalismo selvagem e predat\u00f3rio, brinca com a dor do povo, tripudia das nossas exig\u00eancias enquanto cidad\u00e3os e cidad\u00e3s e tenta calar a todo custo nossa voz, silenciando toda tentativa de grito que visa denunciar e cobrar o m\u00ednimo de justi\u00e7a e dignidade para todas as v\u00edtimas, al\u00e9m de fomentar o caos e o adoecimento da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Convocamos voc\u00eas, leitoras e leitores, para se juntarem a essa luta contra essa besta monstruosa, que conhecemos por Braskem. \u00c9 importante destacar, para que fique registrado, que a Braskem \u00e9 a maior petroqu\u00edmica das Am\u00e9ricas, controlada pelo grupo baiano Odebrecht, atual Novonor. Desta forma, quando pensarem nesse crime ambiental praticado pela empresa, lembrem-se da Odebrecht e mais ainda, n\u00e3o esque\u00e7am que esta \u201cbesta fera\u201d se instalou em solo alagoano e maceioense com a b\u00ean\u00e7\u00e3o do regime militar que imp\u00f4s uma ditadura ao nosso pa\u00eds na d\u00e9cada de 70. Isso significa dizer que iniciativas privadas, agregadas ao neoliberalismo econ\u00f4mico sem controle e fiscaliza\u00e7\u00e3o, com a b\u00ean\u00e7\u00e3o infernal do poder controlado pelo capital predat\u00f3rio e selvagem, geram, e podem continuar gerando, m\u00e1quinas de moer sonhos em cada esquina.<\/p>\n<p>Nos ajudem de forma solid\u00e1ria divulgando nas redes sociais, e de tantas outras formas criativas, a darmos visibilidade a mais este crime socioambiental que se soma aos crimes das empresas Samarco e Vale, que geraram caos e destrui\u00e7\u00e3o em Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais. O sil\u00eancio e a indiferen\u00e7a s\u00e3o elementos que alimentam esses monstros selvagens e famintos de poder e lucro, que todos os dias produzem a morte em todas as dire\u00e7\u00f5es, trucidando nossa possibilidade de dias mais plenos e seguros nessa terra.<\/p>\n<p>Moradoras e moradores dos bairros atingidos pelo maior crime socioambiental em andamento, praticado pela minera\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria em \u00e1rea urbana, al\u00e9m de tentarem sair vivos da pandemia da covid-19, que at\u00e9 aqui j\u00e1 nos ceifou, aliada \u00e0 ignor\u00e2ncia e ao negacionismo, quase 613 mil vidas, t\u00eam em frente a tarefa de buscar a uni\u00e3o em meio \u00e0s diverg\u00eancias para que se possa continuar lutando contra outros v\u00edrus letais como o fascismo, o falso moralismo religioso, a extrema direita, o patriarcado, o racismo, a lgbtfobia e todo tipo de concentra\u00e7\u00e3o financiados pelo capitalismo predat\u00f3rio e selvagem que diariamente geram uma nova Braskem disposta a produzir morte e destrui\u00e7\u00e3o por todos os lados.<\/p>\n<p>Por este motivo e tantos outros \u00e9 que precisamos continuar gritando e denunciando todos os crimes que s\u00e3o sistematicamente silenciados e levados ao esquecimento. Iniciativas como o document\u00e1rio produzido pelo cineasta Carlos Pronzato, intitulado A Braskem Passou por Aqui e outras manifesta\u00e7\u00f5es plurais, diversas e livres que j\u00e1 aconteceram e que precisam continuar acontecendo.<\/p>\n<p>Contribuam para a den\u00fancia da institucionaliza\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie que tem se instaurado em terras alagoanas e a fortalecer nossa luta contra a m\u00e1quina mort\u00edfera do capital.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28234\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[225],"class_list":["post-28234","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7lo","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28234","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28234"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28234\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28234"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28234"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28234"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}