{"id":28281,"date":"2022-01-11T16:59:25","date_gmt":"2022-01-11T19:59:25","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28281"},"modified":"2022-01-18T16:46:00","modified_gmt":"2022-01-18T19:46:00","slug":"black-face-racismo-violencia-e-suas-formas-de-ser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28281","title":{"rendered":"BLACK FACE: racismo, viol\u00eancia e suas formas de ser"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/cdn.br.catarse\/uploads\/reward\/uploaded_image\/261240\/thumb_reward_ca49542a-eb4d-4299-9340-b2fe001c74bb.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>No dia 13 de setembro de 2021, ocorreu um epis\u00f3dio de pr\u00e1tica de \u2018black face\u2019 numa aula do curso de pedagogia do Centro Universit\u00e1rio Cidade Verde (UniFCV) em Maring\u00e1-PR que foi repudiado em ato na porta da institui\u00e7\u00e3o no dia 27 do mesmo m\u00eas. O texto que segue foi elaborado como contribui\u00e7\u00e3o ao debate sobre as formas de viol\u00eancia racista e os tipos de rea\u00e7\u00e3o e combate a elas.<\/p>\n<p><strong>Por <a href=\"https:\/\/www.catarse.me\/emancipacao\">Jeferson Garcia<\/a>, militante do Partido Comunista Brasileiro e do Coletivo Negro Minervino de Oliveira, e autor do livro <em>Racismo, capital e emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Noite e dia v\u00eam de longe<\/em><br \/>\n<em>Branco e preto a trabalhar<\/em><br \/>\n<em>E o dono, senhor de tudo<\/em><br \/>\n<em>Sentado, mandando dar<\/em><\/p>\n<p><em>E a gente fazendo conta<\/em><br \/>\n<em>Pro dia que vai chegar (ei, vai chegar)<\/em><br \/>\n<em>E a gente fazendo conta<\/em><br \/>\n<em>Pro dia que vai chegar (ei, vai chegar)<\/em><\/p>\n<p><em>Marinheiro, marinheiro (marinheiro)<\/em><br \/>\n<em>Quero ver voc\u00ea no mar (mar)<\/em><br \/>\n<em>Eu tamb\u00e9m sou marinheiro (marinheiro)<\/em><br \/>\n<em>Eu tamb\u00e9m sei governar<\/em><\/p>\n<p><em>Madeira de dar em doido<\/em><br \/>\n<em>Vai descer at\u00e9 quebrar<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 a volta do cip\u00f3 de arueira<\/em><br \/>\n<em>No lombo de quem mandou dar<\/em><\/p>\n<p><em>Trecho de \u201cAroeira\u201d, de Geraldo Vandr\u00e9<\/em><\/p>\n<p><strong>Black face \u00e9 racismo, mas por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>O racismo se manifesta de diferentes formas, algumas mais vis\u00edveis e outras menos. Todas s\u00e3o formas de viol\u00eancia \u2013 diretas ou simb\u00f3licas. A grande quest\u00e3o \u00e9 que algumas delas s\u00e3o consideradas pass\u00edveis de empatia, outras nem tanto.<\/p>\n<p>Costuma-se entender o racismo como a cren\u00e7a na superioridade de uma ra\u00e7a sobre outra. Normalmente, as pessoas que n\u00e3o acreditam que biologicamente os brancos sejam superiores aos negros \u2013 ou fingem n\u00e3o acreditar \u2013 apontam que o racismo n\u00e3o existe, uma vez que somos biologicamente iguais. Por isso, enxergam que se h\u00e1 racismo, ele \u00e9 fruto de um problema cultural e moral, uma m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o. Um problema pontual.<\/p>\n<p>O racismo aparece, portanto, como uma quest\u00e3o de ordem individual e subjetiva. Uma patologia. Assim, quando se pensa no racismo, logo se pensa em uma <em>viol\u00eancia direta<\/em> conjuntural \u2013 uma ofensa, uma discrimina\u00e7\u00e3o &#8211; quando se impede algu\u00e9m de frequentar um local ou quando se paga um sal\u00e1rio menor a uma pessoa negra, ind\u00edgena, cigana, judia, etc.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o problema \u00e9 que o racismo \u00e9 bem mais do que a cren\u00e7a na superioridade das ra\u00e7as ou a viol\u00eancia direta em forma de discrimina\u00e7\u00e3o. Pois, acreditando ou n\u00e3o na superioridade de uma ra\u00e7a sobre a outra, o racismo continua existindo.<\/p>\n<p><strong>O <em>Black face<\/em> \u00e9 um caso de viol\u00eancia racista, uma <em>viol\u00eancia simb\u00f3lica<\/em> \u2013 e hist\u00f3rica.<\/strong> O <em>Black face<\/em> \u00e9 uma pr\u00e1tica racista porque ridiculariza pessoas negras com base em seus determinantes mais b\u00e1sicos, como a cor da pele.<\/p>\n<p><strong>Formas de ser do racismo<\/strong><\/p>\n<p>Quando pessoas brancas se pintam, usam vestimentas relacionadas \u00e0 cultura negra, utilizam perucas de Black Power, exaltam os l\u00e1bios ou gl\u00fateos para \u201czoa\u00e7\u00e3o\u201d, al\u00e9m de usar g\u00edrias para falar \u201ccomo negros falam\u201d, o resultado \u00e9 sempre a chacota, a ridiculariza\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia e da cultura das pessoas negras, a sua transforma\u00e7\u00e3o em pessoas animalizadas. Toda essa caracteriza\u00e7\u00e3o serve para alegrar e fazer nascer doces e ing\u00eanuas gargalhadas de pessoas brancas, como ocorreu na faculdade em Maring\u00e1.<\/p>\n<p>Essa manifesta\u00e7\u00e3o \u2013 forma de racismo &#8211; surge historicamente com essa fun\u00e7\u00e3o nos EUA e se generaliza pelo mundo, principalmente pelos pa\u00edses que tiveram sua forma\u00e7\u00e3o social pautada por uma per\u00edodo de escravid\u00e3o de pessoas negras.<\/p>\n<p>Os antigos menestr\u00e9is (shows parecidos com os atuais stand ups) tinham como \u201cespet\u00e1culo\u201d humoristas brancos que se vestiam de pessoas negras para fazer \u201cgra\u00e7a\u201d com a caricatura racista que fazem de pessoas negras. Al\u00e9m disso, como os negros eram proibidos de se apresentar em palcos, eram representados por brancos pintados, o que demonstra tamb\u00e9m a exclus\u00e3o racista dos negros em diversos espa\u00e7os naquela \u00e9poca e ainda hoje.<\/p>\n<p>Ou seja, uma pr\u00e1tica que se mant\u00e9m, ridicularizando o negro, uma vez que serve para rirem do suposto comportamento de pessoas negras, a partir de como o <em>racismo diz que n\u00f3s somos<\/em>. De represent\u00e1-las como algo ex\u00f3tico, estranho e rid\u00edculo. \u00c0s vezes, objeto de fetiches, mas sempre inferiores.<\/p>\n<p>Segunda forma de viol\u00eancia<\/p>\n<p>Quando nos opomos a essa forma de racismo, uma viol\u00eancia de segunda ordem opera. Aqui entramos em alguns casos recorrentes. Muitas pessoas que n\u00e3o se dizem racistas, atuam como se fossem m\u00e9dicos, cirurgi\u00f5es que portam um bisturi ideol\u00f3gico que disseca as manifesta\u00e7\u00f5es e separa as que s\u00e3o saud\u00e1veis das que n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o de dois tipos:<br \/>\na) as violentas (quando tacamos fogo em algum local ou quando vamos para cima dos racistas);<\/p>\n<p>b) e as exageradas (as vulgarmente conhecidas como mimizentas).<\/p>\n<p>Geralmente essas duas formas s\u00e3o provocadas por uma minoria \u2013 <em>racistas inversos<\/em> &#8211; considerados ora vagabundos, ora v\u00e2ndalos, ora arruaceiros, mas sempre ressentidos. Pessoas que n\u00e3o aceitam sua vida miser\u00e1vel e jogam a culpa nas pessoas felizes, realizadas e banhadas em m\u00e9rito.<\/p>\n<p>As lutas contra injusti\u00e7as e privil\u00e9gios sociais s\u00e3o tidas como coisa de ressentido, que tem rela\u00e7\u00e3o direta com a famosa \u201cvitimiza\u00e7\u00e3o\u201d, que seria se colocar numa posi\u00e7\u00e3o de inferioridade para &#8211; por meio da \u201cpena\u201d, \u201cd\u00f3\u201d ou empatia \u2013 legitimar uma reivindica\u00e7\u00e3o social e privil\u00e9gios raciais (sic!).<\/p>\n<p>O ressentido \u2013 diz o racista &#8211; acusa o outro (em geral o branco) pela sua condi\u00e7\u00e3o de inferioridade. O ressentimento, ainda na compreens\u00e3o dos racistas envergonhados &#8211; faz uma dobradinha com a vitimiza\u00e7\u00e3o, como estrat\u00e9gias de ocultar a incapacidade dos indiv\u00edduos. Essa opera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica permite com que se deslegitime as a\u00e7\u00f5es, justifique o n\u00e3o pertencimento e apoio nessa luta de exaltados e ingratos e, ainda, legitima a viol\u00eancia policial.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um tipo de opera\u00e7\u00e3o caracter\u00edstico de uma \u00e9poca em que predomina a patologiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais. Tal patologiza\u00e7\u00e3o aprofunda uma an\u00e1lise individualista e desdobra-se em possibilidades de solu\u00e7\u00e3o dos conflitos igualmente individualistas ou restritos \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais de tipo imediato e cotidiano. Perde-se, assim, a dimens\u00e3o hist\u00f3rica e socialmente abrangente da origem, desenvolvimentos e formas de manifesta\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais calcadas no racismo.<\/p>\n<p>Os baderneiros antirracistas n\u00e3o s\u00e3o \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d, portanto, merecem o que lhes \u00e9 dado quando encontram a brutalidade da seguran\u00e7a p\u00fablica \u2013 que mais defende vidra\u00e7a e busto de velhos racistas e estupradores do que humanos.<\/p>\n<p>Quando brancos ofendem de forma racista, considerando que os negros s\u00e3o ressentidos (mimizentos), est\u00e3o construindo uma justificativa ideol\u00f3gica para sua a\u00e7\u00e3o violenta e a dos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a da propriedade privada. O que transforma monstros em Deuses \u00e9 a ideologia!<\/p>\n<p>A consci\u00eancia c\u00ednica admite como normal a estereotipiza\u00e7\u00e3o de um grupo que, visto como minoria, \u00e9 estigmatizado e recha\u00e7ado por duas vezes. Primeiro quando se zomba-ridiculariza \u2013 como no caso de Black face &#8211; e depois quando se deslegitima a pr\u00f3pria possibilidade de protesto.<\/p>\n<p>Aliados ou camaradas? Como agem os antirracistas?<\/p>\n<p>A viol\u00eancia nesse caso de Black Face \u00e9 um efeito, um sintoma de algo mais subterr\u00e2neo. Por isso \u00e9 sempre importante ir ao fundo e descobrir o que h\u00e1 l\u00e1. Muitos que se colocam cr\u00edticos do \u201cracismo estrutural\u201d \u2013 esse termo que diz tudo e nada ao mesmo tempo &#8211; chamam a nossa aten\u00e7\u00e3o para esse fato, como quem acaba de descobrir a roda e quer ansiosamente emprestar seus \u00f3culos para que os cegos possam enxergar.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o <em>sintoma<\/em> \u00e9 o que h\u00e1 de mais real no cotidiano das pessoas, \u00e9 a apar\u00eancia que apresenta a ponta do iceberg. Mas a ponta faz parte do todo. Por mais que o racismo seja esse grande oceano, ele tamb\u00e9m se apresenta nas pequenas viol\u00eancias mais di\u00e1rias, pequenos blocos de gelo em forma de preconceito e estere\u00f3tipos &#8211; como o Black Face.<\/p>\n<p><strong><em>Black face<\/em> \u00e9 racismo porque \u00e9 a l\u00f3gica universal se expressando no particular e vice-versa,<\/strong> \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do todo e suas partes, que \u00e9 muito maior que a simples soma delas.<\/p>\n<p><em>Geralmente, os antirracistas mais moderados se equivocam mesmo quando acertam<\/em>: imposs\u00edvel acabar com as manifesta\u00e7\u00f5es do racismo sem acabar com ele, portanto, o foco deve ser mudar a forma de vida. G\u00eanio!<\/p>\n<p>Em muitos casos, tal afirma\u00e7\u00e3o reduz o campo de a\u00e7\u00e3o. Se perguntam: de que vale a manifesta\u00e7\u00e3o contra casos \u201cisolados\u201d de Black Face? &#8220;A\u00ed j\u00e1 \u00e9 demais, vamos para o fora Bolsonaro que t\u00e1 bom\u201d. Estes muitas vezes s\u00e3o os revolucion\u00e1rios que gostariam de assistir o assalto aos c\u00e9us pelas redes sociais ou aqueles que s\u00e3o antirracistas por conveni\u00eancia \u2013 palavras vazias de a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Outro equ\u00edvoco ao enfrentarmos o racismo \u00e9 esse de buscar apenas suas determina\u00e7\u00f5es mais profundas, no \u00e2mbito do discurso, descartando as formas como ele se expressa no cotidiano, nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, amorosas, nos ambientes e institui\u00e7\u00f5es \u2013 na vida e na milit\u00e2ncia.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil lidar com antirracistas racistas, mas tamb\u00e9m com antirracistas imobilistas. Aqueles que te perguntam o que se passa, sem interesse genu\u00edno pela resposta.<\/p>\n<p>Uma premissa certa para posi\u00e7\u00f5es equivocadas<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a origem social do racismo se encontra nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o do capitalismo. Todavia, o racismo tem autonomia relativa com essa sua origem e cria media\u00e7\u00f5es e formas de exist\u00eancia diversas. Conhecemos bem como que na vida cotidiana essas media\u00e7\u00f5es racializadas se expressam na fam\u00edlia, na cultura, na educa\u00e7\u00e3o, na viol\u00eancia mais direta, mas principalmente nessas mais camufladas. Quem nunca viu uma mulher negra ser usada como fantasia de carnaval? \u00c9 o racismo, n\u00e3o v\u00eas?<\/p>\n<p>N\u00e3o basta dizermos que s\u00f3 se acaba com o racismo pondo fim \u00e0 sociedade de classes. De certa maneira, conhecemos o caminho.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia, velha parteira<\/p>\n<p>A viol\u00eancia simb\u00f3lica, por meio da estereotipiza\u00e7\u00e3o das pessoas negras, de suas vestimentas, formato de rosto, l\u00e1bios, cabelo, cor da pele, n\u00e3o \u00e9 menos decisiva por ser simb\u00f3lica e nem pode esperar para ser combatida.<\/p>\n<p>At\u00e9 porque ela cumpre uma fun\u00e7\u00e3o importante: <em>disseminando a inferioridade dos negros, ela torna poss\u00edvel a viol\u00eancia cotidiana sobre os mesmos<\/em>. Essa fun\u00e7\u00e3o tem tamanho conte\u00fado, que torna essa viol\u00eancia quase que invis\u00edvel. Ningu\u00e9m v\u00ea viol\u00eancia em ridicularizar um grupo social pela forma como os racistas veem esse grupo. As determina\u00e7\u00f5es do racismo s\u00e3o naturalizadas.<\/p>\n<p>Perante tamanha viol\u00eancia, muitos dos que sofrem esses ataques acabam \u2013 por sobreviv\u00eancia \u2013 sabendo o que acontece, mas se recusam a assumir as consequ\u00eancias e agem como se n\u00e3o soubessem o que se passa: sofrem em sil\u00eancio tentando fingir-se bem. \u00c9 uma forma de defesa, justific\u00e1vel. H\u00e1 v\u00e1rias formas de ficar doente, uma delas \u00e9 negando os problemas. Outra \u00e9 enfrentando e perdendo emprego \u2013 o que causa outras doen\u00e7as em uma sociedade doente. <em>\u00c9 um beco sem sa\u00edda.<\/em><\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo quando respondemos ao crime, somos n\u00f3s os suspeitos.<\/p>\n<p>Sofremos a viol\u00eancia racista de modo<em> self-service,<\/em> podemos escolher \u00e0 vontade: optando aceitar ser sutilmente animalizados e ridicularizados ou nos rebelar e sermos tratados como exagerados, irracionais, por n\u00e3o aceitar tamanha desumaniza\u00e7\u00e3o, quando gritamos nossas palavras de ordem. Neste \u00ednterim, estamos sempre sujeitos a uma terceira viol\u00eancia: a agress\u00e3o policial. Esta que certamente ser\u00e1 justificada pela culpa dos v\u00e2ndalos que s\u00e3o violentos.<\/p>\n<p>Chegamos ent\u00e3o ao ponto de sintetizar o problema da viol\u00eancia. Ela visa primeiro silenciar, esconder e ocultar a realidade. Quando n\u00e3o \u00e9 o suficiente, ela pode matar n\u00e3o s\u00f3 a cr\u00edtica, mas at\u00e9 esconder o corpo de quem a faz. O que importa \u00e9 manter a ordem.<\/p>\n<p>\u00c9 a volta do cip\u00f3 de aroeira, no lombo de quem mandou dar<\/p>\n<p>Devemos escancarar a viol\u00eancia racista. Mas sem deixar de mostrar que as manifesta\u00e7\u00f5es antirracistas tamb\u00e9m s\u00e3o violentas (e devem ser) \u2013 desde a capacidade de romper o sil\u00eancio, de tirar o v\u00e9u nebuloso que mascara a realidade, at\u00e9 mesmo quando queimamos monumentos racistas em pra\u00e7as p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Como se chama a pra\u00e7a no centro da cidade? Raposo Tavares n\u00e9?&#8230;Temos que aceitar um bairro com nome de ca\u00e7ador de ind\u00edgenas? Borga Gato?<\/p>\n<p>A viol\u00eancia deles \u00e9 justific\u00e1vel, a nossa viol\u00eancia \u00e9 inc\u00f4moda.<\/p>\n<p><strong>O<em> Black face<\/em> s\u00f3 deixa evidente a estrutura racista da cidade can\u00e7\u00e3o.<\/strong> N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que as determina\u00e7\u00f5es dessa viol\u00eancia est\u00e3o na pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o entre forma\u00e7\u00e3o da cidade, for\u00e7as pol\u00edticas, burguesia ruralista, que reproduzem por aqui um conservadorismo religioso \u2013 totalmente racista (mesmo que por vezes mascarado). O bolsonarismo maringaense tem peso nisso, mas esse bolsonarismo j\u00e1 existia antes de Bolsonaro sentir os ventos da presid\u00eancia. Mas nem sempre se chama o dem\u00f4nio pelo nome, ele tem v\u00e1rios. \u00c0s vezes \u00e9 parecido com Deus, usa sua casa, sua mem\u00f3ria, e diz falar em seu nome.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso como a viol\u00eancia existe onde aparentemente n\u00e3o h\u00e1 viol\u00eancia. A propaganda \u00e9 boa, n\u00e3o podemos negar. Boa para quem? \u00c9 poss\u00edvel sentir o sil\u00eancio da noite na boca dos ausentes.<\/p>\n<p>Ainda bem que Maring\u00e1, essa cidade encantada, n\u00e3o faz parte do mundo.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o contra o Black Face \u00e9 educativa e pol\u00edtica porque ela combate a viol\u00eancia racista subjetiva e no imagin\u00e1rio. Esta \u00faltima \u00e9 efetiva quando incorporada pelo oprimido \u2013 quando ele absorve a ideia de sua inferioridade ou quando se esconde do embate porque precisa demonstrar que \u00e9 comportado, para ser aceito, escondendo sua dor que lhe queima o rosto.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia revolucion\u00e1ria tem que quebrar a marteladas as paredes que sustentam e escondem a viol\u00eancia racista. A <em>resposta<\/em> dos alunos, a <em>resposta<\/em> do reitor e a <em>resposta<\/em> da faculdade perante o caso de black face demonstrou apenas como as determina\u00e7\u00f5es racistas est\u00e3o enraizadas na subjetividade de tal forma que mesmo ap\u00f3s o ocorrido a postura desses envolvidos foi se defender do \u201cexagero\u201d dos militantes, do chamado <em>mimimi<\/em>. <em>N\u00e3o h\u00e1<\/em> racismo, <em>n\u00e3o h\u00e1<\/em> racistas,<em> n\u00e3o h\u00e1<\/em> nada.<\/p>\n<p>Essa viol\u00eancia \u00e9 t\u00e3o racista quanto a daqueles jovens que agrediram angolanos na porta do Bar Cacique no ano passado e em outros casos desta linda cidade, que espia os homens e mulheres de bem e os legitima com seu sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Aos negros cabe serem emp\u00e1ticos, calmos, controlados e resilientes. Uma grada\u00e7\u00e3o de apatia ensinada nos melhores centros educacionais.<\/p>\n<p>As contradi\u00e7\u00f5es foram abafadas, batidas e pisadas. Maring\u00e1 segue a melhor cidade para se morar.<\/p>\n<p>Mas n\u00f3s estamos aqui.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixemos que o discurso contra a viol\u00eancia desarme a viol\u00eancia necess\u00e1ria. Sejamos Fanonianos. N\u00e3o podemos aceitar que nos digam o que \u00e9 certo ou errado.<\/p>\n<p>O sintoma precisa ser contido, pois \u00e9 ele que nos fere mais diretamente. Mas sem isentar toda a ordem social, por mais aparente que possa parecer, esse n\u00e3o \u00e9 um problema de pessoas mau educadas, de desinforma\u00e7\u00e3o, de patologia. S\u00e3o rela\u00e7\u00f5es racistas forjando pessoas racistas e enquanto houver classes sociais que se beneficiam do racismo, as suas manifesta\u00e7\u00f5es continuar\u00e3o existindo.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do black face \u00e9 dolorosa para n\u00f3s e o desconhecimento n\u00e3o \u00e9 desculpa. A reavalia\u00e7\u00e3o \u00e9 no m\u00ednimo o que deveria ter sido feito e para al\u00e9m da cobran\u00e7a pontual do caso, precisamos educar nossa classe e, especialmente, a sua fra\u00e7\u00e3o negra de que s\u00f3 a luta muda a vida.<\/p>\n<p>Por isso, o lugar dos antirracistas \u00e9 nas ruas, \u00e0 esquerda camaradas!<\/p>\n<p>Pela constru\u00e7\u00e3o de uma barricada preta na frente de cada racista, para deixar claro que: n\u00f3s estamos aqui.<\/p>\n<p>Pretos e vermelhos, venceremos!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28281\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"S\u00e3o rela\u00e7\u00f5es racistas forjando pessoas racistas e enquanto houver classes sociais que se beneficiam do racismo, as suas manifesta\u00e7\u00f5es continuar\u00e3o existindo.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1,70,71],"tags":[224],"class_list":["post-28281","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","category-c83-solidariedade","category-c84-solidariedade","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7m9","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28281","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28281"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28281\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28281"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28281"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28281"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}