{"id":28291,"date":"2022-01-14T15:41:34","date_gmt":"2022-01-14T18:41:34","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28291"},"modified":"2022-01-14T15:43:52","modified_gmt":"2022-01-14T18:43:52","slug":"natocracia-ou-a-cupula-contra-a-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28291","title":{"rendered":"Natocracia, ou a c\u00fapula contra a democracia"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrilabril.pt\/sites\/default\/files\/styles\/node_aberto_vp768\/public\/assets\/img\/5630.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Jos\u00e9 Goul\u00e3o, via <a href=\"https:\/\/www.abrilabril.pt\/internacional\/natocracia-ou-cimeira-contra-democracia\">ABRIL ABRIL<\/a><\/strong><\/p>\n<p>A \u00abc\u00fapula para a democracia\u00bb foi um ato de guerra. Nada teve a ver com democracia, mas com interesses imperiais, coloniais, globalistas e unilaterais.<\/p>\n<p>Mais de cem pa\u00edses juntaram-se virtualmente na \u00abc\u00fapula da democracia\u00bb sob a batuta do excelent\u00edssimo democrata Joseph Biden, o atual chefe de um regime que tem por h\u00e1bito deixar um rastro de mortos, desalojados, refugiados e de destrui\u00e7\u00e3o sempre que decide \u00abexportar a democracia\u00bb.<\/p>\n<p>A assim chamada \u00abc\u00fapula da democracia\u00bb foi uma esp\u00e9cie de pontap\u00e9 inicial num ano \u00abde a\u00e7\u00e3o para tornar as democracias mais reativas e resilientes\u00bb, de modo a \u00abimpor \u00e0 R\u00fassia os custos reais das suas viola\u00e7\u00f5es das normas internacionais\u00bb e para formar \u00abuma frente unida contra as a\u00e7\u00f5es agressivas e as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos por parte da China\u00bb. Ficou ent\u00e3o combinado que dentro de um ano haver\u00e1 uma nova c\u00fapula para \u00abconstruir uma comunidade de parceiros empenhados na renova\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica mundial\u00bb.<\/p>\n<p>Entretanto, como determinou o pr\u00f3prio Joseph Biden, e certamente todos os s\u00faditos aceitaram, \u00abos Estados Unidos v\u00e3o desempenhar o papel de guia para escrever as regras\u00bb. Consumar-se-\u00e1 assim, presume-se, a estrat\u00e9gia do regime norte-americano de substituir o direito internacional tal como o conhecemos por uma \u00abordem internacional baseada em regras\u00bb emanadas de Washington. O diktat do imp\u00e9rio, por assim dizer. Tal como em 1989 aconteceu com o chamado \u00abConsenso de Washington\u00bb para impor a selvageria neoliberal como regime econ\u00f4mico \u00fanico em escala global.<\/p>\n<p>Agora vivemos, por consequ\u00eancia, a era da materializa\u00e7\u00e3o do bloco que institucionalizar\u00e1 o regime pol\u00edtico \u00fanico, a opini\u00e3o \u00fanica e a ideologia \u00fanica como armas da economia \u00fanica para impor no todo planet\u00e1rio. Ao contr\u00e1rio da democracia, que \u00e9 plural por defini\u00e7\u00e3o, esta \u00abdemocracia renovada\u00bb funcionar\u00e1 no quadro do monolitismo. E ai daqueles que n\u00e3o estiverem de acordo: a democracia tornada \u00abativa e resiliente\u00bb unir\u00e1 a \u00abcomunidade de parceiros\u00bb sob o abra\u00e7o f\u00e9rreo da OTAN [em ingl\u00eas, NATO] e n\u00e3o tolerar\u00e1 dissid\u00eancias. A democracia assim reformatada vai emergir \u2013 como ordem natural das coisas sentenciadas em Washington \u2013 em figurino de OTANcracia.<\/p>\n<p><strong>Escolhas reveladoras<\/strong><\/p>\n<p>Quem mais poderia ser o maestro deste concerto democr\u00e1tico do que o pr\u00f3prio Joseph Biden \u2013 tal como teriam sido a preceito, por exemplo, Reagan, a dinastia Bush, Clinton, Obama ou Trump? Os \u00abvalores democr\u00e1ticos\u00bb e a \u00abdefesa dos direitos humanos\u00bb est\u00e3o \u00abno DNA dos Estados Unidos\u00bb, proclamou o presidente em exerc\u00edcio para invocar \u2013 como se fosse necess\u00e1rio \u2013 o direito de escolher os participantes na \u00abc\u00fapula da democracia\u00bb.<\/p>\n<p>A criteriosa sele\u00e7\u00e3o abrangeu governos, representantes da \u00absociedade civil\u00bb e dos setores privados de 111 pa\u00edses. E n\u00e3o haver\u00e1 nada de mais democr\u00e1tico do que o funcionamento dos setores privados, como todos muito bem sabemos e reconhecemos.<\/p>\n<p>Naturalmente, o n\u00facleo dos privilegiados incluiu a esmagadora maioria dos membros da Uni\u00e3o Europeia e da OTAN, as democracias frescas e tuteladas dos B\u00e1lc\u00e3s nascidas da destrui\u00e7\u00e3o manu militari da Iugosl\u00e1via, governos ditatoriais africanos, asi\u00e1ticos e latino-americanos reconvertidos em \u00abdemocr\u00e1ticos\u00bb por elei\u00e7\u00f5es e golpes organizados em Washington e Bruxelas. Enfim, a fina flor dos democratas moldados ao jeito do regime norte-americano.<\/p>\n<p>N\u00e3o foram convidados, sem surpresa, pa\u00edses como a Venezuela, a Bol\u00edvia, o Peru e a Nicar\u00e1gua. Ningu\u00e9m, em seu ju\u00edzo perfeito, ir\u00e1 contestar a op\u00e7\u00e3o de Biden em excluir estas na\u00e7\u00f5es. \u00c9 verdade que fazem elei\u00e7\u00f5es segundo os mecanismos que Washington determina como inquestion\u00e1veis, mas os resultados nem sempre correspondem aos desejados pelos Estados Unidos e os aliados europeus, pelo que assim a democracia n\u00e3o vale.<\/p>\n<p>Um tanto surpreendentemente foram exclu\u00eddos da c\u00fapula governos como os da Hungria e da Turquia, nascidos de elei\u00e7\u00f5es realizadas segundo padr\u00f5es considerados \u00ableg\u00edtimos\u00bb, ao que parece por namorarem agora com formas autocr\u00e1ticas de poder. Isso n\u00e3o impede a Turquia do sult\u00e3o Erdogan de continuar um firme aliado da \u00abcomunidade democr\u00e1tica\u00bb dentro da OTAN e de ser um auxiliar imprescind\u00edvel no apoio militar e financeiro a grupos terroristas e mercen\u00e1rios que os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Europeia sustentam para conduzirem, entre outras frentes, a guerra e o golpe permanente contra a S\u00edria.<\/p>\n<p>E se a Hungria foi exclu\u00edda, por que n\u00e3o a Pol\u00f4nia, seguramente tanto ou mais autocr\u00e1tica do que o governo de Budapeste \u2013 estando ambos de pedra e cal na Uni\u00e3o Europeia, apesar de alguns sobressaltos e amea\u00e7as sem consequ\u00eancias? Porque a Pol\u00f4nia, h\u00e9las!, \u00e9 um pilar de sustenta\u00e7\u00e3o do regime terrorista da Ucr\u00e2nia, uma pe\u00e7a chave da press\u00e3o \u00abdemocr\u00e1tica\u00bb e \u00abcivilizadora\u00bb contra a R\u00fassia.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, na c\u00fapula estiveram presentes Israel do apartheid e da chacina do povo palestiniano, a Ucr\u00e2nia onde pontificam nazistas hitlerianos na consolida\u00e7\u00e3o do regime reconhecidamente \u00abdemocr\u00e1tico\u00bb, al\u00e9m do Brasil do fascista Bolsonaro e o narcoestado da Col\u00f4mbia rec\u00e9m-associado \u00e0 OTAN \u2013 demonstrando-se assim o qu\u00e3o flex\u00edvel \u00e9 a democracia ditada pelo complexo militar, industrial e tecnol\u00f3gico que governa os Estados Unidos como n\u00facleo das pr\u00e1ticas imperiais e globalistas. T\u00e3o flex\u00edvel que nela caberia, se estivesse em fun\u00e7\u00f5es, a ditadura de Pinochet no Chile, instalada pelo Nobel da Paz Henry Kissinger, conselheiro de Joseph Biden e da generalidade dos seus antecessores.<\/p>\n<p>Ter\u00e3o faltado ainda a Ar\u00e1bia Saudita, o Qatar, os Emirados \u00c1rabes Unidos e mais alguns, que certamente estar\u00e3o em esp\u00edrito fraterno com a \u201cdemocracia renovada\u201d, sobretudo quando se trata de financiar e participar, por exemplo, das destrui\u00e7\u00f5es da Iugosl\u00e1via, da S\u00edria, do Iraque, do Afeganist\u00e3o, da L\u00edbia, do L\u00edbano e, com evid\u00eancia especial, do I\u00eamen.<\/p>\n<p>S\u00e3o insond\u00e1veis os caminhos da democracia tida como leg\u00edtima e \u00fanica.<\/p>\n<p><strong>Os ju\u00edzes da democracia<\/strong><\/p>\n<p>A iniciativa da \u00abc\u00fapula da democracia\u00bb vale sobretudo pela pr\u00e1tica e o conte\u00fado da democracia praticada pelos seus organizadores e tamb\u00e9m pelos objetivos pretendidos com o evento.<\/p>\n<p>Os promotores deste renascimento democr\u00e1tico \u00abmais reativo e resiliente\u00bb, qui\u00e7\u00e1 mais agressivo em rela\u00e7\u00e3o aos que n\u00e3o se enquadram nos padr\u00f5es definidos em Washington, s\u00e3o simultaneamente democratas por excel\u00eancia \u2013 e de ber\u00e7o &#8211; e ju\u00edzes das pr\u00e1ticas democr\u00e1ticas dos outros. O que lhes proporciona o direito, por vezes divino, \u00e0 maneira dos Estados Unidos, de brandirem um poderoso arsenal de armas corretivas, desde a guerra pura e simples, ao terrorismo e \u00e0s san\u00e7\u00f5es. Digamos que \u00e9 um direito democr\u00e1tico inerente o de recorrer a esses instrumentos violentos que sacrificam milh\u00f5es de pessoas em nome da democracia.<\/p>\n<p>N\u00e3o cabe aqui ser exaustivo na listagem das malfeitorias praticadas e incentivadas pelos Estados Unidos sob o pretexto da defesa dos direitos humanos e dos valores democr\u00e1ticos. Mais de 30 golpes de Estado organizados ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas em \u00c1frica, \u00c1sia, Europa e Am\u00e9rica Latina; milh\u00f5es de mortos, deficientes, desalojados e refugiados em consequ\u00eancia de dezenas de conflitos suscitados pelos interesses imperialistas; multiplica\u00e7\u00e3o de invas\u00f5es e guerras de agress\u00e3o baseadas em narrativas deturpadas e argumentos falsos; o recurso a grupos terroristas de todos os matizes, desde fundamentalistas isl\u00e2micos como a al-Qaida e o Isis ou Estado Isl\u00e2mico, a organiza\u00e7\u00f5es mercen\u00e1rias e grupos nazistas \u2013 veja-se o exemplo recente da Ucr\u00e2nia \u2013 passando por esquadr\u00f5es da morte; a utiliza\u00e7\u00e3o de redes e lucros do narcotr\u00e1fico para financiamento de atividades golpistas, terroristas e de subvers\u00e3o, como as chamadas \u00abrevolu\u00e7\u00f5es coloridas\u00bb, s\u00e3o exemplos das pr\u00e1ticas comuns dos Estados Unidos onde e quando acham que \u00e9 necess\u00e1rio, onde quer que seja no mundo, para salvaguardarem os seus direitos \u00abdemocr\u00e1ticos\u00bb.<\/p>\n<p>As invas\u00f5es do Afeganist\u00e3o e do Iraque, a destrui\u00e7\u00e3o da L\u00edbia numa alian\u00e7a assumida entre a OTAN e grupos terroristas ditos isl\u00e2micos, as guerras da Iugosl\u00e1via, da Som\u00e1lia, da S\u00edria e do I\u00eamen, a entrega de territ\u00f3rios a organiza\u00e7\u00f5es mafiosas e de terror, como no Kosovo, o golpe na Ucr\u00e2nia que levou ao poder organiza\u00e7\u00f5es paramilitares que se reclamam da heran\u00e7a de Hitler \u2013 treinadas por oficiais da OTAN \u2013 s\u00e3o exemplos recentes do que \u00e9 a democracia nas m\u00e3os das institui\u00e7\u00f5es militares, econ\u00f4mico-financeiras e pol\u00edticas dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o foi diretamente promotora da c\u00fapula mas funcionou, obviamente, como facilitadora, interveniente e apoiante entusiasta da iniciativa pois, quando se trata de \u00abvalores democr\u00e1ticos\u00bb e de \u00abdireitos humanos\u00bb, a comunidade dos 27 pede atrevidamente explica\u00e7\u00f5es aos mais democratas de todos, os aliados norte-americanos.<\/p>\n<p>Conhecemos bem, at\u00e9 na pele e na bolsa, as proezas de que a democracia da Uni\u00e3o Europeia \u00e9 capaz, como as tutelas da troika, a austeridade para quase todos e a abund\u00e2ncia limitada a uns quantos, as guerras e invas\u00f5es a reboque dos Estados Unidos e da OTAN, a gan\u00e2ncia colonial, a asfixia da soberania dos Estados-membros e das decis\u00f5es por eles tomadas de acordo com pr\u00e1ticas pelo menos formalmente democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, como poderia ser de outra forma? A Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. A institui\u00e7\u00e3o que gere o seu funcionamento regular, a Comiss\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 eleita; a maioria dos Estados-membros integraram a comunidade sem que os seus povos fossem consultados; o Parlamento Europeu n\u00e3o tem poderes que lhe permitam influenciar de forma determinante as decis\u00f5es no n\u00edvel da Uni\u00e3o; o Banco Central Europeu, dotado de um poder absoluto, n\u00e3o \u00e9 eleito; os Parlamentos nacionais, eleitos segundo mecanismos democr\u00e1ticos, est\u00e3o submetidos em quest\u00f5es de fundo, como as or\u00e7ament\u00e1rias, aos poderes e decis\u00f5es das institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o eleitas de Bruxelas. Al\u00e9m disso, de maneira absolutamente clandestina, a Uni\u00e3o Europeia caminha para o federalismo \u00e0 revelia e na ignor\u00e2ncia dos povos dos Estados-membros.<\/p>\n<p>Das pr\u00e1ticas \u00abdemocr\u00e1ticas\u00bb da Uni\u00e3o Europeia fazem parte a guerra contra os refugiados resultantes de conflitos armados e do colonialismo pelos quais a comunidade \u00e9 respons\u00e1vel. Essa guerra contra os refugiados \u00e9 conivente com a constru\u00e7\u00e3o de muros, a exemplo dos Estados Unidos, a persegui\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia nos mares contra pessoas que procuram garantir a subsist\u00eancia, no m\u00ednimo a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. N\u00e3o hesitando a Uni\u00e3o Europeia, no quadro dessas a\u00e7\u00f5es desumanas, em financiar campos de concentra\u00e7\u00e3o, de tortura, extors\u00e3o e morte de refugiados, por exemplo na L\u00edbia.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da L\u00edbia, na qual os Estados Unidos incumbiram a Uni\u00e3o Europeia da parte operacional da guerra, poderosos Estados desta comunidade n\u00e3o hesitaram em aliar-se com terroristas ditos isl\u00e2micos, que a\u00ed ganharam alento e condi\u00e7\u00f5es para se expandir depois na dire\u00e7\u00e3o do Sahel e da \u00c1frica Central. Onde agora o aparelho militar colonial da Uni\u00e3o Europeia diz combat\u00ea-los enquanto assegura a rapina dos preciosos recursos naturais existentes nessas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>E que dizer da democracia formal praticada na generalidade dos Estados-membros da Uni\u00e3o, onde o espet\u00e1culo da pior qualidade substitui o esclarecimento dos eleitores, o marketing destr\u00f3i as mensagens pol\u00edticas, a mentira pesa mais na ca\u00e7a ao voto do que o debate de ideias sobre a vida das pessoas, a comunica\u00e7\u00e3o social dominante influencia e manipula a decis\u00e3o dos eleitores de acordo com os interesses dos setores econ\u00f4micos e financeiros que a det\u00eam? Sendo que, depois disso, a esmagadora maioria dos representantes eleitos atuam como portadores de um cheque em branco que usam como entendem e sem ter de prestar contas a quem os elegeu.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que tantas vezes se repete, n\u00e3o estamos perante as \u00abimperfei\u00e7\u00f5es\u00bb da democracia, mas sim ao sabor da deturpa\u00e7\u00e3o, do aviltamento e do sequestro dos valores democr\u00e1ticos pelas classes dominantes e propriet\u00e1rias. Para isso e para afastar deliberadamente os cidad\u00e3os da participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica \u00e9 que nasceu a \u00abclasse pol\u00edtica\u00bb, essencial para esvaziar e desacreditar a pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Guerra fria<\/strong><\/p>\n<p>A chamada \u00abc\u00fapula da democracia\u00bb foi tamb\u00e9m uma tentativa de dar mais um passo na implanta\u00e7\u00e3o de uma nova guerra fria, agora entre a \u00abcomunidade de parceiros\u00bb \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos e o conjunto dos pa\u00edses cercados e amea\u00e7ados pelo poder global da OTAN, alicer\u00e7ado em mais de 800 bases militares dispostas atrav\u00e9s do planeta. \u00c9 a guerra fria entre o globalismo neoliberal e pa\u00edses que t\u00eam vida pr\u00f3pria e independente mesmo que, em alguns casos, sejam eles pr\u00f3prios fi\u00e9is ao neoliberalismo; uma guerra fria entre o unilateralismo praticado pelos Estados Unidos e imposto aos seus aliados e parceiros e o multilateralismo que funciona como uma bandeira comum \u00e0 R\u00fassia, \u00e0 China e a muitas outras na\u00e7\u00f5es, especialmente do Sul planet\u00e1rio.<\/p>\n<p>Uma guerra fria que vai aquecendo \u00e0 medida que ganham intensidade os dispositivos militares, os jogos de guerra e as declara\u00e7\u00f5es provocat\u00f3rias no quadro do cerco e da persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia e \u00e0 China. \u00c9 um fato facilmente comprov\u00e1vel, apesar da press\u00e3o brutal dos meios de manipula\u00e7\u00e3o social, que Pequim e Moscou n\u00e3o t\u00eam inten\u00e7\u00e3o \u2013 pelo menos at\u00e9 agora \u2013 de atacar qualquer pa\u00eds. Mas Washington e Bruxelas n\u00e3o descansam nas suas barreiras de propaganda: a R\u00fassia prepara-se para atacar a Ucr\u00e2nia, garantem contra todas as evid\u00eancias. E a China espezinha os \u00abdireitos democr\u00e1ticos\u00bb em Hong Kong, Taiwan, no Tibete e persegue as minorias no Xinjiang.<\/p>\n<p>Acusa\u00e7\u00f5es proferidas, com arrog\u00e2ncia autorit\u00e1ria, por pa\u00edses que mudam regimes e governos de outros quando as circunst\u00e2ncias n\u00e3o se acomodam aos seus interesses transnacionais; que raptam e sequestram dirigentes pol\u00edticos de pa\u00edses terceiros; roubam ouro e outros bens soberanos de na\u00e7\u00f5es independentes, imp\u00f5em san\u00e7\u00f5es, fome e doen\u00e7as contra povos que escolhem governos \u00aberrados\u00bb; patrocinam e praticam a tortura, perseguem e deixam morrer refugiados, d\u00e3o largas \u00e0 xenofobia, ao racismo e ao fascismo; criam, financiam e chegam a utilizar pris\u00f5es e campos de concentra\u00e7\u00e3o montados al\u00e9m-fronteiras, quantas vezes clandestinamente.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 90 do s\u00e9culo passado, o presidente norte-americano William Clinton garantiu verbalmente a Moscou que a OTAN n\u00e3o iria expandir para Leste e deslocar-se em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia. Pouco tempo depois, a alian\u00e7a agressiva ocidental engolira praticamente todos os anteriores membros do Tratado de Vars\u00f3via. E agora pretende integrar a Ucr\u00e2nia, uma linha vermelha definida por Moscou sem deixar lugar a d\u00favidas. Clinton e todos os seus sucessores mentiram \u2013 nada mais natural uma vez que a mentira \u00e9 uma arma inerente \u00e0 maneira como praticam a democracia. A sua palavra vale tanto como o seu t\u00e3o proclamado respeito pelos direitos humanos.<\/p>\n<p>A \u00abc\u00fapula da democracia\u00bb foi um ato de guerra. Nada teve a ver com democracia, mas com interesses imperiais, coloniais, globalistas e unilaterais. Ficando assim provado que, ao jogarem abusivamente com o conceito de democracia, os promotores e principais apoiantes da c\u00fapula n\u00e3o est\u00e3o minimamente preocupados com a aplica\u00e7\u00e3o plena dos conceitos democr\u00e1ticos \u2013 para que se cumpra o poder do povo \u2013, mas sim com os interesses pr\u00f3prios das elites financeiras e econ\u00f4micas transnacionais.<\/p>\n<p>Usar a democracia como pretexto e cobertura para a\u00e7\u00f5es nocivas que afetam milh\u00f5es e milh\u00f5es de pessoas \u00e9 a viola\u00e7\u00e3o mais grave da pr\u00f3pria democracia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28291\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[73,38,146],"tags":[233],"class_list":["post-28291","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c86-anti-imperialismo","category-c43-imperialismo","category-internacionalismo","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7mj","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28291","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28291"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28291\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28291"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28291"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28291"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}