{"id":28296,"date":"2022-01-17T10:00:16","date_gmt":"2022-01-17T13:00:16","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28296"},"modified":"2022-01-16T20:09:08","modified_gmt":"2022-01-16T23:09:08","slug":"pressionar-lula-a-pequena-burguesia-e-a-questao-do-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28296","title":{"rendered":"Pressionar Lula? A pequena burguesia e a quest\u00e3o do poder"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/veja.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/LULA-GERALDO-ALCKMIN-PREMIO-PERSEVERANCA-2021-0234.jpg.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por R\u00f4mulo Caires para o jornal <a href=\"https:\/\/omomento.org\/pressionar-lula-a-pequena-burguesia-e-a-questao-do-poder-no-brasil\/\">O Momento<\/a><\/strong><\/p>\n<p>A palavra de ordem \u201cpressionar Lula\u201d tem circulado em muitos setores progressistas, especialmente aqueles com alguma posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hegemonia petista, mas que ainda enxergam no ex-presidente e prov\u00e1vel candidato em 2022 um importante elo na acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as contra o bolsonarismo. Al\u00e9m de entenderem o bolsonarismo como um fen\u00f4meno eminentemente eleitoral e, portanto, pass\u00edvel de ser vencido nas urnas, tais setores constantemente ignoram os efeitos da continuidade da concilia\u00e7\u00e3o como combust\u00edvel da contrarrevolu\u00e7\u00e3o no Brasil. Neste breve escrito, pretendemos elucidar o conte\u00fado de classe presente na palavra de ordem \u201cpressionar Lula\u201d e a partir do resgate de alguns processos hist\u00f3ricos latino-americanos e brasileiros demonstrar os limites desta orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica como norteador da reorganiza\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 60, a realidade brasileira foi marcada pela ascens\u00e3o das lutas de massa a partir do movimento oper\u00e1rio e popular. A principal refer\u00eancia pol\u00edtica da classe trabalhadora naquele momento era o PCB, que tinha constru\u00eddo, a partir do conjunto de formula\u00e7\u00f5es que desaguaram em seu V Congresso (1960), uma estrat\u00e9gia que visava como objetivo fundamental a edifica\u00e7\u00e3o de um capitalismo aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o ao sistema do imperialismo e o avan\u00e7o do processo de democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira. Os males decorrentes dos restos pr\u00e9-capitalistas impediam a consolida\u00e7\u00e3o de um Estado moderno, com capacidade de acolher a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de grandes massas, como tamb\u00e9m condicionava uma estrutura econ\u00f4mica incapaz de responder \u00e0s demandas de carestia da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Naquele momento, o PCB e todo o conjunto de for\u00e7as ao seu redor apostou alto na unidade nacional em torno de um programa de reformas que catapultasse a mobiliza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Surge assim a palavra de ordem \u201cpressionar Jango\u201d como uma tentativa de neutralizar as oscila\u00e7\u00f5es do governo e encaminhar sua orienta\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s prometidas reformas de base. No centro de tal palavra de ordem estava a cren\u00e7a de um caminho gradual em dire\u00e7\u00e3o ao projeto democr\u00e1tico-nacional, desestimulando agita\u00e7\u00f5es mais confrontativas \u00e0 ordem, combatidas sistematicamente sob a rubrica do \u201csectarismo\u201d, como tamb\u00e9m estimulando um grande pacto nacional a partir da uni\u00e3o das for\u00e7as ditas patri\u00f3ticas. A press\u00e3o, ainda que advinda de movimentos de massas, terminava se limitando a influenciar as institui\u00e7\u00f5es da ordem, sem um horizonte claro de ruptura com o capitalismo brasileiro e seu sistema de domina\u00e7\u00e3o. Mesmo se propondo um partido revolucion\u00e1rio, o PCB n\u00e3o conseguiu se diferenciar dos operadores pol\u00edticos da ordem burguesa e o seu legalismo cobrou muito caro na derrota de 1964.<\/p>\n<p>Sabemos que o p\u00f3s-64 abriu brecha para que o diagn\u00f3stico do capitalismo brasileiro pudesse se enriquecer, como tamb\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o de grande viol\u00eancia estatal impediu que a \u201cvia democr\u00e1tica ao socialismo\u201d pudesse estar na ordem do dia. Apesar de dissid\u00eancias do partido e outras organiza\u00e7\u00f5es terem rompido com os meios da oposi\u00e7\u00e3o institucional e enveredado pela luta armada, com influ\u00eancia grande da revolu\u00e7\u00e3o chinesa e cubana, o diagn\u00f3stico do \u201ccapitalismo incompleto\u201d continuou hegem\u00f4nico na esquerda brasileira. Esse tipo de an\u00e1lise, mesmo apoiada por setores da luta armada, tem como necessidade imanente algum tipo de expectativa na capacidade progressista de setores da burguesia. Mais ainda, tem como perspectiva central uma etapa pr\u00e9via a ser realizada de ac\u00famulo de for\u00e7as para poder suplantar a ordem estabelecida.<\/p>\n<p>Os anos seguintes ao golpe burgo-militar no Brasil foram ainda de grandes acontecimentos na Am\u00e9rica Latina. A experi\u00eancia da Unidade Popular no Chile trouxe novidades nas formas de luta e mobiliza\u00e7\u00e3o popular, sendo capaz tensionar o sistema de domina\u00e7\u00e3o capitalista chileno, por\u00e9m ainda apostando fortemente numa via institucional ao socialismo. A contrarrevolu\u00e7\u00e3o neste pa\u00eds demonstrou que o apego \u00e0 legalidade por um dos lados em luta n\u00e3o impediu que as for\u00e7as mais reacion\u00e1rias pudessem se utilizar da viol\u00eancia bruta para impor a rearticula\u00e7\u00e3o radical da ordem econ\u00f4mico-pol\u00edtica. Apesar das diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao processo brasileiro do pr\u00e9-64, a experi\u00eancia chilena do pr\u00e9-73 possui uma similitude que pode ser generalizada aos pa\u00edses dependentes: a aus\u00eancia de um amplo processo de consolida\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e de nacionaliza\u00e7\u00e3o da sociedade n\u00e3o pode ser resolvido a partir da recusa dos mecanismos de ruptura institucional, ou seja, da perspectiva revolucion\u00e1ria. Ruy Mauro Marini corretamente aponta como esse tipo de vis\u00e3o tem como conte\u00fado o horizonte de classe da pequena burguesia, aferrada \u00e0 legalidade e quase sempre amedrontada diante dos setores mais radicais do proletariado. Tal pol\u00edtica pequeno-burguesa n\u00e3o s\u00f3 foi ineficaz no avan\u00e7o das conquistas populares como tamb\u00e9m deu origem aos pr\u00f3prios movimentos reacion\u00e1rios que subverteram a ordem no Brasil e no Chile.<\/p>\n<p>Tais experi\u00eancias aparentemente n\u00e3o foram suficientes para que as organiza\u00e7\u00f5es advindas da rearticula\u00e7\u00e3o das lutas oper\u00e1rias e populares no fim dos anos 70 no Brasil recuassem diante de mais uma tentativa de propor uma estrat\u00e9gia gradualista. Mesmo partindo de uma cr\u00edtica \u00e0 estrat\u00e9gia nacional-democr\u00e1tica do PCB, o movimento que deu origem ao PT e \u00e0 CUT e que hegemonizou a esquerda brasileiro nas d\u00e9cadas seguintes novamente insistiu em uma etapa \u201cdemocr\u00e1tica\u201d como via de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e supera\u00e7\u00e3o dos resqu\u00edcios \u201cautorit\u00e1rios\u201d da sociedade brasileira. A chegada ao governo somente ampliou o apego \u00e0 ordem institucional em prol da secundariza\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o do poder popular. Qualquer horizonte cr\u00edtico ao capitalismo foi suprimido em prol da \u201cconstru\u00e7\u00e3o do Estado Democr\u00e1tico de Direito\u201d e socializa\u00e7\u00e3o de alguma participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sem qualquer perspectiva real de socializa\u00e7\u00e3o do poder. Como uma esp\u00e9cie de reencena\u00e7\u00e3o dos erros do pr\u00e9-64, a centralidade da pol\u00edtica pequeno-burguesa de unidade nacional desarmou o movimento oper\u00e1rio e insuflou a contrarrevolu\u00e7\u00e3o preventiva em nosso pa\u00eds. De alguma forma amplos setores sempre objetivaram \u201cpressionar Lula\u201d durante o seu governo e a guinada \u00e0 esquerda constitu\u00eda esperan\u00e7a sempre reatualizada.<\/p>\n<p>Como foi desenvolvido em outro texto, a origem do bolsonarismo n\u00e3o pode ser tomada como uma mera \u201cregress\u00e3o\u201d na conjuntura brasileira ou uma \u201canomalia\u201d, como tem sido constantemente afirmado por Lula. A progress\u00e3o do desenvolvimento capitalista no pa\u00eds e a impossibilidade de manuten\u00e7\u00e3o da concilia\u00e7\u00e3o de amplos setores da realidade nacional deu sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0s perspectivas de agudiza\u00e7\u00e3o dos conflitos sociais propostos pela extrema-direita. Nessa dire\u00e7\u00e3o, enquanto as for\u00e7as conservadoras n\u00e3o se importam com a legalidade e operacionalizam a estrutura de viol\u00eancia do Estado burgu\u00eas em prol de seus interesses, a esquerda hegem\u00f4nica insiste, como se nota por seus diagn\u00f3sticos, em se referenciarem na ordem institucional como via de sa\u00edda da crise.<\/p>\n<p>Nesse sentido, cabe a seguinte pergunta: se o bolsonarismo \u00e9 efeito da crise do capitalismo e do sistema de domina\u00e7\u00e3o no Brasil, se as perspectivas de acumula\u00e7\u00e3o gradual de for\u00e7as t\u00eam impacto na g\u00eanese e fortalecimento da extrema-direita brasileira, como podem setores da esquerda conclamarem que a sa\u00edda para nossa grave situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 em um apoio acr\u00edtico no retorno de Lula a presid\u00eancia da rep\u00fablica? Mesmo que na palavra de ordem \u201cpressionar Lula\u201d possa ressoar um conte\u00fado cr\u00edtico, os setores que a movimentam se fundamentam quase sempre numa perspectiva de \u201cmal menor\u201d e de p\u00e2nico moral, que joga a responsabilidade pelo fortalecimento da extrema-direita justamente nas for\u00e7as que n\u00e3o aceitam a passividade legalista como arma de luta. S\u00e3o estes mesmos setores que se utilizaram amplamente da retomada das ruas em maio de 2021 como palanque eleitoral de um futuro pleito que se quer ter\u00e1 ocorr\u00eancia garantida, enfraquecendo assim as demandas de sa\u00edda imediata de Bolsonaro e seus asseclas.<\/p>\n<p>A ruptura com a estrat\u00e9gia democr\u00e1tico-popular de \u201cvia eleitoral contra o bolsonarismo\u201d n\u00e3o \u00e9 equivalente a recusar qualquer alian\u00e7a t\u00e1tica com tais setores dentro da esquerda. A ruptura aqui \u00e9 com o conte\u00fado de classe que tal estrat\u00e9gia insiste em materializar e que historicamente d\u00e1 combust\u00edvel para a rea\u00e7\u00e3o se rearticular em ofensiva contra a classe trabalhadora a partir das brechas geradas pelas crises cont\u00ednuas na sociabilidade capitalista. Uma esquerda combativa n\u00e3o pode esconder o seu programa e nem renunciar a rupturas para se afirmar enquanto alternativa de poder. A insist\u00eancia em pol\u00edticas focais, a pol\u00edtica de alian\u00e7as com setores golpistas, a incompreens\u00e3o radical da fun\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas, a incapacidade de diagnosticar o atual momento da sociedade capitalista mundial pode gerar vit\u00f3rias eleitorais, mas seguramente n\u00e3o ser\u00e3o suficientes para p\u00f4r freio \u00e0s reatualiza\u00e7\u00f5es da autocracia burguesa no Brasil.<\/p>\n<p>Se furtar at\u00e9 da apresenta\u00e7\u00e3o de um programa pol\u00edtico radical no primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es de 2022 levar\u00e1 apenas a confus\u00e3o ideol\u00f3gica e impossibilidade de se diferenciar dos setores anti-populares da direita brasileira. A tal comentada suposta alian\u00e7a entre Lula-Alckmin n\u00e3o pode ser vista apenas como um jogo pragm\u00e1tico de c\u00e1lculo eleitoral, mas indica o estreitamento da capacidade do capitalismo brasileiro de manter um sistema pol\u00edtico que n\u00e3o esteja rigorosamente limitado em seus anseios. Olhemos para o Peru: a aposta em um presidente referenciado pelos setores mais combativos da sociedade peruana garantiu a vit\u00f3ria contra a candidata de extrema-direita, mas a partir da pol\u00edtica conciliat\u00f3ria de Castilho e sua incapacidade de enfrentar a ordem econ\u00f4mica do capital sua popularidade tem despencado, abrindo flancos para a possibilidade de impeachment. No caso brasileiro, podemos at\u00e9 ter algum respiro a partir de uma vit\u00f3ria de Lula, mas o pacto social-liberal n\u00e3o ter\u00e1 a mesma condi\u00e7\u00e3o de se efetivar e pode rapidamente desmanchar a popularidade do governo. Nesse sentido, n\u00e3o cabe ilus\u00f5es com a pol\u00edtica pequeno-burguesa de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as dentro da ordem. A esquerda latino-americana n\u00e3o pode se furtar em questionar radicalmente a legalidade burguesa em dire\u00e7\u00e3o a constru\u00e7\u00e3o de aut\u00eanticos organismos de poder da classe trabalhadora. As elei\u00e7\u00f5es podem ter uma fun\u00e7\u00e3o t\u00e1tica neste processo, mas n\u00e3o pode ser jamais tomada como objetivo em si.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28296\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"A suposta alian\u00e7a entre Lula-Alckmin n\u00e3o \u00e9 apenas um jogo pragm\u00e1tico de c\u00e1lculo eleitoral, mas um indicativo do estreitamento da capacidade do capitalismo brasileiro de manter um sistema pol\u00edtico que n\u00e3o esteja rigorosamente limitado em seus anseios.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[66,10],"tags":[225],"class_list":["post-28296","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7mo","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28296","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28296"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28296\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28296"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28296"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28296"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}