{"id":28397,"date":"2022-02-08T10:00:46","date_gmt":"2022-02-08T13:00:46","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28397"},"modified":"2023-04-13T10:25:07","modified_gmt":"2023-04-13T13:25:07","slug":"a-atualidade-da-critica-anti-imperialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28397","title":{"rendered":"A atualidade da cr\u00edtica anti-imperialista"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jacobin.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/maoistpropagandaposter.jpeg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Lu\u00eds Eduardo Fernandes<\/strong><\/p>\n<p>Via Jacobin Brasil<\/p>\n<p>A cr\u00edtica ao imperialismo perdeu espa\u00e7o no debate da esquerda internacional a partir da d\u00e9cada de 90, a ponto de alguns intelectuais progressistas insinuarem que o conceito esteja ultrapassado. Eles est\u00e3o errados. O imperialismo continua vivo, e pens\u00e1-lo rigorosamente \u00e9 mais urgente que nunca.<\/p>\n<p>\u201cO imperialismo estadunidense deve ser derrotado\u201d, \u201co golpe de 2016 serviu aos interesses imperialistas\u201d ou \u201ca China est\u00e1 virando um pa\u00eds imperialista\u201d. S\u00e3o frases frequentemente ouvidas nos espa\u00e7os pol\u00edticos e nas redes sociais. De fato, nos \u00faltimos anos o interesse por denunciar e estudar as novas formas imperialistas ganhou maior espa\u00e7o no Brasil. Quem sabe, a conjuntura de ascens\u00e3o da extrema direita no mundo, golpes pol\u00edticos em pa\u00edses perif\u00e9ricos e radicaliza\u00e7\u00e3o do neoliberalismo tenha contribu\u00eddo para esse crescente interesse.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s a queda do muro de Berlim, o economista indiano Prabhat Patnaik realizou uma cr\u00edtica \u00e0 esquerda ocidental pelo abandono da categoria \u201cimperialismo\u201d. Patnaik perguntava-se se o fen\u00f4meno da chamada \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o seria, na verdade, a express\u00e3o mais pura e desenvolvida da domina\u00e7\u00e3o imperialista e qu\u00e3o grave era \u00e0 esquerda, em especial marxista, abandonar o imperialismo como categoria te\u00f3rica \u2013 com consequ\u00eancias desastrosas para a estrat\u00e9gia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O economista indiano estava certo. Pouco a pouco, principalmente ap\u00f3s as primeiras experi\u00eancias nesse s\u00e9culo de governos populares na Am\u00e9rica Latina, com graus diferentes de radicalidade no enfrentamento ao neoliberal e ao imperialismo, os movimentos sociais, partidos de esquerda, militantes sindicais e intelectuais progressistas buscam retomar a centralidade da reflex\u00e3o anti-imperialista. Apesar da contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica inestim\u00e1vel de l\u00edderes revolucion\u00e1rios do s\u00e9culo XX \u2013 como L\u00eanin, Hilferding, Bukharin, Rosa Luxemburgo, Trotsky e outros \u2013 assim como as profundas transforma\u00e7\u00f5es do capitalismo contempor\u00e2neo, o imperialismo tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 exatamente o mesmo.<\/p>\n<p><strong>Para al\u00e9m das vulgariza\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Essa saud\u00e1vel retomada, portanto, sem o devido aprofundamento te\u00f3rico e contato com as lutas populares em curso, precisa se precaver de dois erros comuns, que rondam o imagin\u00e1rio do \u201csenso comum\u201d progressista: 1) o imperialismo se reduziria a uma quest\u00e3o \u201cgeopol\u00edtica\u201d, e at\u00e9 mesmo a \u201cteorias da conspira\u00e7\u00e3o\u201d para explicar o poder concentrado de algumas na\u00e7\u00f5es em detrimento de outras; por outro lado, 2) o \u201ceconomicismo\u201d, que enxergaria no imperialismo apenas um fen\u00f4meno econ\u00f4mico vinculado a exporta\u00e7\u00e3o de capitais dos pa\u00edses mais ricos para os mais pobres e, consequentemente, a explora\u00e7\u00e3o dos primeiros sobre os \u00faltimos.<\/p>\n<p>H\u00e1, certamente, um elemento de verdade nas duas interpreta\u00e7\u00f5es, por mais unilaterais e simplistas que sejam. No caso da primeira, trata-se da constata\u00e7\u00e3o correta no sistema interestatal global: a aguda desigualdade no exerc\u00edcio do poder e das soberanias nacionais entre os pa\u00edses. Por sua vez, a segunda remete a uma leitura limitada da cr\u00edtica de Lenin ao imperialismo. Um dos principais objetos da cr\u00edtica madura do revolucion\u00e1rio russo, que procurou captar as m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es do fen\u00f4meno, relacionando-o com a nova fase da hist\u00f3ria econ\u00f4mica do capitalismo: a era monop\u00f3lica.<\/p>\n<p>Em Imperialismo, fase superior do capitalismo encontramos uma an\u00e1lise materialista rigorosa das mudan\u00e7as, ent\u00e3o recentes, no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista (a consolida\u00e7\u00e3o do capitalismo monopolista e o desenvolvimento do capital financeiro) e suas consequ\u00eancias no comportamento e orienta\u00e7\u00e3o dos Estados capitalistas centrais, nas disputas interestatais (a pol\u00edtica imperialista, a partilha do mundo em \u00e1reas de influ\u00eancia, divis\u00e3o centro-periferia etc.) e na din\u00e2mica das classes sociais (oligarquia financeira e aristocracia oper\u00e1ria). Ou seja, o imperialismo \u00e9 um fen\u00f4meno mundial que articula tend\u00eancias no campo econ\u00f4mico, pol\u00edtico e militar.<\/p>\n<p>Esse pre\u00e2mbulo \u00e9 fundamental para compreendermos o imperialismo como um dos principais elementos da economia pol\u00edtica do capitalismo monopolista. O capitalismo, ao contr\u00e1rio de outros modos de produ\u00e7\u00e3o, depende cada vez mais de sua expans\u00e3o atrav\u00e9s do mercado mundial. O desenvolvimento extremamente desigual n\u00e3o \u00e9 apenas sentido no n\u00edvel local e nacional, mas tamb\u00e9m internacionalmente. Essa desigualdade econ\u00f4mica e pol\u00edtica se expressa por meio de diversos mecanismos que drenam ou transferem riquezas dos chamados pa\u00edses perif\u00e9ricos para os pa\u00edses centrais.<\/p>\n<p><strong>A reinven\u00e7\u00e3o do sistema imperialista<\/strong><\/p>\n<p>Em sua \u00e9poca cl\u00e1ssica, o imperialismo se materializou na pol\u00edtica neocolonialista e na partilha do mundo, de acordo com os interesses das pot\u00eancias industriais. A exporta\u00e7\u00e3o de capitais sobre-acumulados e a apropria\u00e7\u00e3o de riquezas e lucros, originados na periferia, eram legitimadas por mecanismos institucionais extra econ\u00f4micos do sistema neocolonial. As revolu\u00e7\u00f5es na R\u00fassia, China e os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional no sul global, principalmente no p\u00f3s-1945, impuseram uma derrota parcial ao imperialismo em sua faceta neocolonial.<\/p>\n<p>Essa derrota n\u00e3o foi definitiva. O Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico deu lugar aos EUA na lideran\u00e7a do sistema imperialista. A lideran\u00e7a estadunidense, como bem sintetizou Ellen Wood, moldou o \u201cImp\u00e9rio do Capital\u201d. Assim, as desigualdades entre pa\u00edses, no p\u00f3s-1945, passaram a se legitimar quase exclusivamente atrav\u00e9s das rela\u00e7\u00f5es de mercado. O imperialismo, como nos ensinou Harry Magdoff, n\u00e3o \u00e9 uma mat\u00e9ria de escolha para a sociedade capitalista: \u00e9 o meio de vida dessa sociedade. A ascens\u00e3o dos EUA representou a maturidade do desenvolvimento do capitalismo monopolista. No final dos anos de 1970, diante do avan\u00e7o de diversos movimentos contestat\u00f3rios internos e da concorr\u00eancia entre transnacionais estadunidenses, alem\u00e3s e japonesas, as l\u00f3gicas imperialista e capitalista aprofundaram mudan\u00e7as em suas estrat\u00e9gias e padr\u00f5es de acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da expans\u00e3o do complexo industrial-militar e suas centenas de bases em todos os continentes, como uma forma de incorporar parte do excedente econ\u00f4mico sobreacumulado nos EUA e em outras pot\u00eancias, a atrofia dos sistemas democr\u00e1ticos e a hierarquiza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria mediante \u00e0 hegemonia do d\u00f3lar foram parte desse remodelamento. Os sistemas financeiros, centralizados no eixo anglo-sax\u00e3o (Wall Street e London City), passaram a ser os grandes detentores e financiadores de t\u00edtulos e outros pap\u00e9is \u201cfict\u00edcios\u201d, gerando lucros r\u00e1pidos e especulativos para a fra\u00e7\u00e3o dominante da classe capitalista, a oligarquia financeira.<\/p>\n<p><strong>Pensando o imperialismo desde o sul<\/strong><\/p>\n<p>Para o pensador franco-eg\u00edpcio Samir Amin, o imperialismo atual, ou tardo-imperialismo, encontra suas bases econ\u00f4micas na era do \u201ccapitalismo monopolista generalizado\u201d. Segundo Amin, essa fase se caracteriza pelo avan\u00e7o da integra\u00e7\u00e3o mundial dos mercados monet\u00e1rios e financeiros, assim como pela centraliza\u00e7\u00e3o do poder dos diretores dos monop\u00f3lios e seus servidores assalariados. O avan\u00e7o da mundializa\u00e7\u00e3o e liberaliza\u00e7\u00e3o do capital no advento do neoliberalismo se contrasta com os limites nacionais e locais para a mobilidade da for\u00e7a de trabalho, a fim de garantir maiores taxas de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A \u201carbitragem global do trabalho\u201d \u00e9 uma categoria utilizada pelo autor para compreender como a \u201cmundializa\u00e7\u00e3o da Lei do valor\u201d \u00e9 a base s\u00f3cio-econ\u00f4mica das transfer\u00eancias de riqueza na atual \u00e9poca. Nesse sentido, Amin prop\u00f5e que uma \u201ctr\u00edade\u201d, ou \u201cimperialismo coletivo\u201d, passou a liderar a l\u00f3gica das transfer\u00eancias de riqueza da periferia para o centro. Liderado pelos EUA, esse \u201cimperialismo coletivo\u201d tamb\u00e9m teria participa\u00e7\u00e3o central na Alemanha e no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>Amin destaca que o imperialismo contempor\u00e2neo se baseia na defesa de cinco monop\u00f3lios no mercado mundial: os fluxos financeiros e monet\u00e1rios, as fronteiras tecnol\u00f3gicas, o acesso aos recursos naturais do planeta, os meios de comunica\u00e7\u00e3o e as armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa.<\/p>\n<p>A formula\u00e7\u00e3o de Amin foi desenvolvida, ao longo de uma longa trajet\u00f3ria pol\u00edtica e intelectual, em di\u00e1logo com outras escolas que tamb\u00e9m tentaram realizar cr\u00edticas ao \u201cnovo\u201d imperialismo. A escola do \u201ccapitalismo monopolista\u201d ou da Monthly Review, referenciada entre os intelectuais estadunidenses \u2013 como Paul Baran, Paul Sweezy, Leo Huberman e Harry Magdoff -, desenvolveu a tese de que a sobreacumula\u00e7\u00e3o do excedente criava a necessidade de um departamento na economia dos EUA (gastos militares) e, consequentemente, uma pol\u00edtica belicista permanente para impulsionar esses investimentos. A escola das \u201ctrocas desiguais\u201d, de Arghiri Emmanuel e Charles Bettelheim, sustentava a natureza desigual do com\u00e9rcio internacional, por meio da transfer\u00eancia de valores dos pa\u00edses perif\u00e9ricos para os pa\u00edses centrais, e influenciou o movimento terceiro mundista, os desenvolvimentistas latino-americanos e at\u00e9 o mao\u00edsmo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da reflex\u00e3o te\u00f3rica, parte desses intelectuais anti-imperialistas participaram de governos progressistas ou revolucion\u00e1rios na \u00c1sia e na \u00c1frica. Na Am\u00e9rica Latina, as principais escolas de renova\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica ao imperialismo foram a \u201cTeoria Marxista da Depend\u00eancia\u201d (TMD) e o \u201cmarxismo endogenista\u201d. A TMD, desenvolvida por Ruy Mauro Marini, Theot\u00f4nio dos Santos e V\u00e2nia Bambirra, se prop\u00f5e a desvendar a \u201clegalidade espec\u00edfica\u201d do capitalismo latino-americano. Essa legalidade estaria permeada pela domina\u00e7\u00e3o imperialista, pela superioridade tecnol\u00f3gica e produtiva das empresas transnacionais, e pelo seu dreno dos lucros e das riquezas locais, obrigando as burguesias locais a superexplorarem para compensar a transfer\u00eancia de riquezas imposta pelos pa\u00edses imperialistas.<\/p>\n<p>O chamado marxismo endogenista, por sua vez, sobretudo a partir da an\u00e1lise do intelectual equatoriano August\u00edn Cueva, negava a hip\u00f3tese de leis espec\u00edficas do capitalismo latino-americano propostas pela TMD. Mais pr\u00f3ximo dos partidos comunistas, Cueva sustentou as particularidades hist\u00f3ricas do desenvolvimento latino-americano, a rela\u00e7\u00e3o entre o capitalismo monopolista e o \u201cfascismo\u201d das ditaduras civis-militares e os limites da transi\u00e7\u00e3o destas ditaduras para as \u201cdemocracias restritas\u201d.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 apenas uma pequena amostra da densidade e polifonia da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica do imperialismo na segunda metade do s\u00e9culo XX. Essa cr\u00edtica \u00e9 refor\u00e7ada pelo advento de uma s\u00e9rie de movimentos, governos e experi\u00eancias populares, revolucion\u00e1rias e anti-imperialistas. Nessa tem\u00e1tica, muitas vezes os chamados \u201cmarxismo ocidental e oriental\u201d se entrela\u00e7am e dialogam.<\/p>\n<p>Esse resgate n\u00e3o serve como mera pe\u00e7a de museu para alguns curiosos. A quest\u00e3o crucial \u00e9: nesse s\u00e9culo, o imperialismo ainda vive? A resposta \u00e9: n\u00e3o somente vive, como se torna uma necessidade ainda mais impreter\u00edvel diante da crise do capitalismo. Uma crise de caracter\u00edsticas sist\u00eamicas, no que diz respeito \u00e0 supercapitaliza\u00e7\u00e3o, e que envolve tanto queda nas taxas de lucro dos monop\u00f3lios quanto dificuldade de realiza\u00e7\u00e3o dos capitais sobreacumulados.<\/p>\n<p>Principalmente ap\u00f3s 2008, os centros imperialistas, liderados pelo eixo anglo-sax\u00e3o, dependem cada vez mais de defender e ampliar a domin\u00e2ncia aos cinco monop\u00f3lios assinalados por Samir Amin. As principais caracter\u00edsticas do imperialismo maduro, ou tardio, se revelam como a hegemonia financista, o dom\u00ednio no interior das cadeias globais de valor-trabalho, a imposi\u00e7\u00e3o da austeridade e da ideologia fiscalista para a periferia e o fen\u00f4meno que chamamos de \u201cocidentaliza\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica\u201d.<\/p>\n<p>O predom\u00ednio da atividade financeira, por meio da proemin\u00eancia do capital monet\u00e1rio e, em especial, do chamado \u201ccapital fict\u00edcio\u201d, liberalizou mercados e mundializou os lucros. No entanto, apesar do car\u00e1ter transnacional de grande parte das empresas financeiras, os principais mercados est\u00e3o concentrados nos EUA e na Inglaterra. Tony Northfield, que chegou a trabalhar como executivo na London City, pesquisou, em sua tese de doutorado, a transforma\u00e7\u00e3o do imperialismo colonial brit\u00e2nico em um novo imperialismo baseado nas finan\u00e7as, atrav\u00e9s do dom\u00ednio de uma s\u00e9rie de t\u00edtulos e mecanismos financeiros concentrados em Londres. Esses t\u00edtulos e mecanismos, segundo Northfield, s\u00e3o formas mais agressivas de transfer\u00eancia de riquezas das periferias para os centros imperialistas, tendo em vista que, hoje, muitas empresas n\u00e3o financeiras, a partir dos seus departamentos de tesouraria, aplicam e se utilizam desses mecanismos para ampliar seus lucros. O Reino Unido \u00e9 a segunda pra\u00e7a financeira mais importante no mundo, perdendo apenas para os EUA.<\/p>\n<p>A domin\u00e2ncia das fronteiras tecnol\u00f3gicas, patentes e propriedades intelectuais, ao lado do dom\u00ednio financeiro, forjaram uma nova divis\u00e3o geogr\u00e1fica econ\u00f4mica imperialista no capitalismo contempor\u00e2neo sediadas no norte global, onde est\u00e3o as empresas transnacionais, detentoras de t\u00edtulos e recursos financeiros, intelectuais e tecnol\u00f3gicos; a produ\u00e7\u00e3o industrial passa a se concentrar na \u00c1sia; populosos pa\u00edses exportadores de mat\u00e9rias-primas e commodities, na Am\u00e9rica Latina e em \u00c1frica; e os para\u00edsos fiscais, onde grande parte dos capitais transferidos encontram alto rendimento.<\/p>\n<p>O dom\u00ednio imperialista dessas cadeias internacionais de valor-trabalho foi estudado, principalmente, por dois pesquisadores: o brit\u00e2nico, John Smith, e a indon\u00e9sia, Intan Suwandi. Para eles, a base econ\u00f4mica do imperialismo tardio \u00e9 a superexplora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores do sul global. Nessa divis\u00e3o geoecon\u00f4mica, os pa\u00edses perif\u00e9ricos oferecem para o capital transnacional taxas mais altas de explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e um ex\u00e9rcito de desempregados que tamb\u00e9m influencia na maior explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores do norte global.<\/p>\n<p>No entanto, essa estrutura imperialista n\u00e3o \u201canda sozinha\u201d. As rela\u00e7\u00f5es de poder tamb\u00e9m s\u00e3o fundamentais para se compreender as \u201camarras imperialistas\u201d. O casal de economistas indianos, Utsa e Prabhat Patnaik (ambos comunistas), prop\u00f4s uma interpreta\u00e7\u00e3o \u201cconcreta\u201d do imperialismo no s\u00e9culo XXI, relacionando quest\u00f5es como a fome, alto desemprego e as pol\u00edticas de austeridade com as \u201camarras\u201d econ\u00f4micas e institucionais da l\u00f3gica imperialista.<\/p>\n<p>Para os \u00faltimos autores, a domin\u00e2ncia do \u201cvalor do dinheiro\u201d e da \u201cdefla\u00e7\u00e3o da renda\u201d seriam dois dos principais instrumentos de imposi\u00e7\u00e3o dos centros imperiais para os pa\u00edses perif\u00e9ricos. O valor do dinheiro, para os Patnaik, se relaciona com a ascens\u00e3o da hegemonia do d\u00f3lar, desvinculado do padr\u00e3o-ouro depois de 1971. O d\u00f3lar, para se tornar soberano no sistema monet\u00e1rio internacional, depende de uma s\u00e9rie de pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es, a fim de gozar de estabilidade e seguran\u00e7a junto \u00e0s classes capitalistas. Diante do crescimento da oferta por produtos tropicais e da necessidade de estabilidade no \u201cvalor dinheiro\u201d, o imperialismo contempor\u00e2neo opera uma s\u00e9rie de contratend\u00eancias, gerando defla\u00e7\u00e3o da renda na periferia. A defla\u00e7\u00e3o na renda garante os baixos pre\u00e7os dos produtos tropicais, a tend\u00eancia ao subconsumo nas ex-col\u00f4nias, o grande desemprego e a estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Esses instrumentos est\u00e3o longe de ser \u201cpuramente econ\u00f4micos\u201d, s\u00e3o pol\u00edticos, e dependem da articula\u00e7\u00e3o entre classes capitalistas e o amoldamento institucional dos Estados perif\u00e9ricos, com a ado\u00e7\u00e3o do fiscalismo e da austeridade como pol\u00edticas estruturais. A austeridade \u00e9 sempre uma janela de oportunidades para o capital transnacional: a cren\u00e7a em uma eterna \u201ccrise fiscal\u201d do Estado legitima uma s\u00e9rie de privatiza\u00e7\u00f5es e transfer\u00eancias de riquezas p\u00fablicas para o capital privado.<\/p>\n<p>No campo ideocultural, a intensifica\u00e7\u00e3o desigual da divis\u00e3o do trabalho entre o \u201cnorte\u201d e \u201csul global\u201d complexifica a influ\u00eancia imperialista na educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e moral das classes dominantes perif\u00e9ricas e na \u201cdomestica\u00e7\u00e3o\u201d de movimentos potencialmente contra-hegem\u00f4nicos. Al\u00e9m dos organismos multilaterais tradicionais (Banco Mundial, FMI, OEA, etc.), desde fins da d\u00e9cada de 1970 h\u00e1 uma complexa rede cosmopolita de financiamentos internacionais, ONG\u00b4s, entidades patronais, sindicais e movimentos sociais que atuam formando lideran\u00e7as e organiza\u00e7\u00f5es de diferentes espectros pol\u00edticos, mas que necessariamente assumem o desenvolvimento capitalista como o \u00fanico horizonte poss\u00edvel para a humanidade.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno, estudado por autores como James Petras, Ren\u00e9 Dreifuss e Virg\u00ednia Fontes, pode bem ser chamado de de \u201cocidentaliza\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica\u201d, termo utilizado por Carlos Nelson Coutinho, ao descrever como os pa\u00edses metropolitanos influenciam o processo de forma\u00e7\u00e3o e \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o restrita\u201d da sociedade civil na periferia, o que n\u00e3o deixa de ser uma express\u00e3o ideol\u00f3gica do imperialismo.<\/p>\n<p><strong>O imperialismo pode ser derrotado<\/strong><\/p>\n<p>O imperialismo, infelizmente, segue vivo. E , no entanto, como parte do capitalismo, o imperialismo n\u00e3o \u00e9 eterno. As diversas lutas anti-imperialistas no mundo, como as atuais revoltas de camponeses na \u00cdndia, as insurrei\u00e7\u00f5es populares nas ruas da Am\u00e9rica Latina, o eficiente combate \u00e0 pandemia na China e em outros pa\u00edses do \u201csocialismo asi\u00e1tico\u201d, as mobiliza\u00e7\u00f5es populares contra os crimes ambientais cometidos pelas transnacionais do norte global s\u00e3o alguns exemplos de lutas e conquistas diante o imperialismo tardio.<\/p>\n<p>Essas lutas e conquistas ficam como li\u00e7\u00e3o para a esquerda mundial. Qualquer experi\u00eancia de ascens\u00e3o popular ao poder tem o desafio de enfrentar as amarras imperiais e seus v\u00ednculos internos, para avan\u00e7ar em conquistas por um desenvolvimento social, econ\u00f4mico e ambiental alternativo, soberano e potencialmente socialista.<\/p>\n<p>No Brasil, em especial, cabe o desafio de reconstruir uma cultura pol\u00edtica ampla e aut\u00eantica de esquerda que tenha o anti-imperialismo e o socialismo como parte dos seus fundamentos. Se no s\u00e9culo XX, o anti-imperialismo foi uma das principais express\u00f5es nacionais de processos revolucion\u00e1rios de transi\u00e7\u00e3o socialista, no s\u00e9culo XXI a recupera\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica radical ao capitalismo e a defesa de uma outra sociedade s\u00e3o cruciais para renovarmos a cr\u00edtica e a luta contra o imperialismo.<\/p>\n<p><strong>Lu\u00eds Eduardo Fernandes<\/strong><br \/>\n\u00e9 professor de Hist\u00f3ria e doutorando no programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social da UFRJ. Organizador do livro \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o ao Imperialismo Tardio\u201d, lan\u00e7ado pela editora Ruptura. \u00c9 membro do Comit\u00ea Central do PCB (Partido Comunista Brasileiro)<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/jacobin.com.br\/2022\/02\/a-atualidade-da-critica-anti-imperialista\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28397\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"No Brasil, em especial, cabe o desafio de reconstruir uma cultura pol\u00edtica ampla e aut\u00eantica de esquerda que tenha o anti-imperialismo e o socialismo como parte dos seus fundamentos. \"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,1,33],"tags":[226],"class_list":["post-28397","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s7-formacao-politica","category-geral","category-c34-marxismo","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7o1","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28397","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28397"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28397\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30274,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28397\/revisions\/30274"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28397"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28397"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28397"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}