{"id":28448,"date":"2022-02-18T13:15:25","date_gmt":"2022-02-18T16:15:25","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28448"},"modified":"2022-02-18T13:15:25","modified_gmt":"2022-02-18T16:15:25","slug":"nao-e-hora-de-conciliacao-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28448","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 hora de concilia\u00e7\u00e3o de classes!"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/pcb-2.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><em>A agudiza\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es internacionais abre espa\u00e7o para o avan\u00e7o da mobiliza\u00e7\u00e3o popular.<\/em><\/p>\n<p><strong>Paulo Henrique A. Rodrigues, militante do PCB de Petr\u00f3polis\/ RJ<\/strong><\/p>\n<p>Estamos assistindo a uma enorme intensifica\u00e7\u00e3o das tens\u00f5es internacionais desde 2021, fruto da disputa de poder entre o imperialismo ianque, com o apoio da Inglaterra, de um lado, e a alian\u00e7a entre a China e a R\u00fassia, de outro. Essa disputa internacional de poder est\u00e1 encerrando um longo per\u00edodo em que os EUA exerceram o poder mundial de forma unipolar, brutal e arrogante. Este cen\u00e1rio ocorre ao mesmo tempo em que no Brasil se agudiza a luta pol\u00edtica contra o governo Bolsonaro, que ter\u00e1 nas elei\u00e7\u00f5es de outubro um momento decisivo. Que elementos vem minando o poder unipolar dos EUA e est\u00e3o trazendo o retorno do multilateralismo? Que reflexo essas disputas podem ter para os trabalhadores e o movimento popular? Que influ\u00eancia essas disputas podem ter sobre o processo pol\u00edtico brasileiro? Este artigo procura responder de forma resumida a essas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Desde dezembro de 1991, quando ocorreu o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a dissolu\u00e7\u00e3o do bloco socialista na Europa oriental, o imperialismo ianque assumiu a condi\u00e7\u00e3o de principal pot\u00eancia mundial, impondo ao mundo sua vontade de forma unilateral e praticamente sem impedimentos. A antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi dividida em 15 pa\u00edses independentes, os EUA impuseram \u00e0 R\u00fassia a Opera\u00e7\u00e3o Hammer (Opera\u00e7\u00e3o martelo), que pretendeu aniquilar o poder econ\u00f4mico e militar da antiga URSS, privatizou as grandes empresas estatais sovi\u00e9ticas, saqueou as reservas em ouro do pa\u00eds e introduziu reformas neoliberais que jogaram o povo russo no desemprego e na mis\u00e9ria. Pa\u00edses do Leste europeu que faziam parte do bloco socialista foram atra\u00eddos como parceiros menores da Uni\u00e3o Europeia e da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN), uma alian\u00e7a militar erguida para enfrentar o socialismo. At\u00e9 a antiga Iugosl\u00e1via, que flertara com o imperialismo e se afastara dos demais pa\u00edses socialistas nos tempos de Josip Broz Tito, foi submetida a uma guerra civil que durou 10 anos, matou dezenas de milhares de cidad\u00e3os, dividiu o pa\u00eds em oito pequenos pa\u00edses, al\u00e9m ser submetida a um brutal bombardeio pela OTAN, em maio 1999. Apesar das promessas e compromissos que os EUA fizeram \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica de que a reunifica\u00e7\u00e3o da Alemanha n\u00e3o seria seguida pela expans\u00e3o da OTAN para o Leste, a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o cessou de se expandir para o Leste, engolfando dezoito novos pa\u00edses desde 1991 aos doze pa\u00edses que a fundaram em 1949. At\u00e9 mesmo ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas como a Est\u00f4nia, a Litu\u00e2nia e a Est\u00f4nia ingressaram na OTAN, em 2004.<\/p>\n<p>As agress\u00f5es dos EUA a pa\u00edses que n\u00e3o se submetiam \u00e0 sua domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o se restringiram \u00e0 Europa. O Iraque foi invadido duas vezes, em 1991 e 2003, resultando no assassinato do seu presidente Saddam Hussein e na destrui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, al\u00e9m de ser submetido a um longo embargo comercial que privou sua popula\u00e7\u00e3o at\u00e9 mesmo do acesso a bens essenciais, como alimentos e medicamentos. Em 2001, os EUA invadiram e ocuparam o Afeganist\u00e3o por 20 anos, mantendo uma guerra de agress\u00e3o \u00e0 sua popula\u00e7\u00e3o que custou centenas de milhares de vidas. Em novembro de 2003, os EUA promoveram a \u2018Revolu\u00e7\u00e3o Rosa\u2019 na Ge\u00f3rgia, derrubando o presidente Eduard Shevardnadze e colocando o pa\u00eds sob sua \u00f3rbita. Em 2004, foi a vez da Ucr\u00e2nia sofrer a \u2018Revolu\u00e7\u00e3o Laranja\u2019, tamb\u00e9m promovida pelos EUA, que colocou no poder Viktor Yushchenko, aliado do Ocidente. Em 2014, os EUA voltaram a intervir na Ucr\u00e2nia promovendo o golpe de Estado de fevereiro de 2014 que p\u00f4s no governo uma alian\u00e7a de elementos pr\u00f3-ocidentais e grupos nazifascistas que idolatram o criminoso nazista da II Guerra Mundial Stepan Bandera. Em 2004, os EUA impuseram san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas contra o governo s\u00edrio e, em 2005, o Departamento de Estado dos EUA come\u00e7ou a financiar e armar radicais isl\u00e2micos na S\u00edria. Em 2011, os EUA promoveram a chamada \u2018Primavera \u00c1rabe\u2019 que resultou na desestabiliza\u00e7\u00e3o do Egito, na destrui\u00e7\u00e3o do Estado e da infraestrutura da L\u00edbia, no assassinato do l\u00edder do governo popular socialista do pa\u00eds, Muammar al-Gaddafi, e numa guerra civil ainda inacabada, al\u00e9m de promover uma guerra civil na S\u00edria, que continua em curso e destruiu grande parte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina sofreram interven\u00e7\u00f5es abertas ou encobertas por parte do imperialismo estadunidense. O Haiti foi invadido em 1994 por militares estadunidenses para colocar no poder um governo t\u00edtere e teve seu governo novamente derrubado em 2003. Cuba teve de resistir ao bloqueio econ\u00f4mico dos EUA, sem o apoio da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a partir de 1991. Honduras sofreu um golpe de Estado organizado pelos EUA em 2009, que derrubou o presidente Manuel Zelaya. O governo popular bolivariano da Venezuela, que j\u00e1 enfrentava o bloqueio econ\u00f4mico estadunidense desde 2014, sofreu uma tentativa de golpe em 2019, ap\u00f3s a dura vit\u00f3ria eleitoral de Nicol\u00e1s Maduro, que teve de enfrentar enormes press\u00f5es internacionais contr\u00e1rias. Os EUA chegaram a estimular a auto nomea\u00e7\u00e3o do impostor Juan Guaid\u00f3 como falso presidente do pa\u00eds, que contou com o apoio de v\u00e1rios pa\u00edses europeus. No Brasil, o golpe de 2016 e a elei\u00e7\u00e3o do governo direitista de Bolsonaro tamb\u00e9m teve a interven\u00e7\u00e3o indireta do imperialismo ianque, que promoveu a espionagem da Petrobras e da presidente Dilma Rousseff e municiou a farsa da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato e uma enorme campanha de fake news que manipulou o eleitorado brasileiro a votar na extrema direita. O governo popular de Evo Morales na Bol\u00edvia tamb\u00e9m foi derrubado em 2019 por um golpe orquestrado pelos EUA com apoio de l\u00edderes direitistas bolivianos.<\/p>\n<p>Desde 2001, entretanto, come\u00e7aram a ocorrer mudan\u00e7as, pouco percebidas inicialmente, que foram corroendo o poder unipolar dos EUA, tais mudan\u00e7as tiveram como origem a reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na R\u00fassia e a continuidade e aprofundamento do desenvolvimento econ\u00f4mico da China. Naquele ano, Vladmir Putin assumiu o comando da Federa\u00e7\u00e3o Russa e come\u00e7ou a reestatizar grandes conglomerados de energia, avia\u00e7\u00e3o e de constru\u00e7\u00e3o naval, al\u00e9m de dar in\u00edcio \u00e0 reorganiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas russas. Foi tamb\u00e9m em 2001 a assinatura do Tratado de Amizade e Coopera\u00e7\u00e3o com a China, uma alian\u00e7a que vem se tornando cada vez mais estreita e influente no mundo. No mesmo ano se formou a Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai (OCX, ou SCO em ingl\u00eas), que re\u00fane atualmente, al\u00e9m da China e da R\u00fassia, a \u00cdndia, Ir\u00e3, Mong\u00f3lia, Paquist\u00e3o, Cazaquist\u00e3o, Quirquist\u00e3o, Tadjiquist\u00e3o e Uzbequist\u00e3o. A OCX abarca a maior parte da economia, da popula\u00e7\u00e3o e do territ\u00f3rio da Eur\u00e1sia. Na China, o governo promoveu uma ampla reforma econ\u00f4mica em 2002 e 2004 que ampliou a capacidade de interven\u00e7\u00e3o e de dire\u00e7\u00e3o do Estado na economia do pa\u00eds, atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de uma Comiss\u00e3o de Supervis\u00e3o e Administra\u00e7\u00e3o do Patrim\u00f4nio Estatal (SASAC) e da Comiss\u00e3o de Regula\u00e7\u00e3o dos Bancos (CBRC).<\/p>\n<p>Fatos significativos ocorreram em 2008, al\u00e9m da crise financeira de Wall Street que abalou de forma significativa o poder econ\u00f4mico dos EUA, ocorreu um evento pol\u00edtico pouco notado, mas de grande significado. Diante da tentativa dos EUA de fazer com que a Ge\u00f3rgia ingressasse na OTAN, a R\u00fassia enviou avi\u00f5es militares para sobrevoar a Oss\u00e9tia do Sul, ent\u00e3o prov\u00edncia da Ge\u00f3rgia no dia 15 de julho, horas antes da visita da secret\u00e1ria de Estado dos EUA, Condolezza Rice e do in\u00edcio de exerc\u00edcio militar conjunto das for\u00e7as armadas estadunidenses e georgianas. Em 8 de agosto, for\u00e7as russas entraram na Ge\u00f3rgia em apoio \u00e0s for\u00e7as separatistas da Oss\u00e9tia do Sul e da Abc\u00e1ssia, a r\u00e1pida vit\u00f3ria russa acabou impedindo a entrada da Ge\u00f3rgia na OTAN e, ainda mais importante, n\u00e3o teve resposta militar pelos EUA. Pela primeira vez, desde 1991, o poderio do imperialismo ianque foi desafiado de forma contundente e sem resposta. Sete anos depois, a R\u00fassia voltou a enfrentar o poder estadunidense, quando o Conselho da Federa\u00e7\u00e3o Russa apoiou, em setembro de 2015, o envio de for\u00e7as militares em apoio ao governo de Bashar al Assad, que pedira apoio da R\u00fassia para enfrentar a guerra de agress\u00e3o promovida pelos EUA, desde 2011. Desde ent\u00e3o as for\u00e7as russas est\u00e3o em territ\u00f3rio s\u00edrio, tendo ajudado a praticamente p\u00f4r fim \u00e0 guerra civil que vinha destruindo o pa\u00eds. Foi o segundo desafio russo ao poderio militar estadunidense e novamente n\u00e3o teve resposta efetiva.<\/p>\n<p>Pela primeira vez na hist\u00f3ria, a atual disputa de poder internacional envolve um contendor que n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds europeu, nem um herdeiro das tradi\u00e7\u00f5es europeias, como os EUA. A China, cuja economia medida pela paridade do poder de compra da moeda (PPC) superou a dos EUA em 2014, \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o asi\u00e1tica, que sofreu um \u2018s\u00e9culo de humilha\u00e7\u00f5es\u2019 impostas pelas pot\u00eancias europeias, desde as Guerras do \u00d3pio que a Inglaterra moveu contra a China entre 1939 e 1860. O pa\u00eds foi esquartejado em \u00e1reas de influ\u00eancia de diferentes pot\u00eancias europeias, al\u00e9m dos EUA e do Jap\u00e3o, submetida aos chamados \u2018tratados injustos\u2019, que espoliou o pa\u00eds e humilhou seu povo ao ponto de haver placas que proibiam a entrada de chineses e cachorros em parques e edif\u00edcios p\u00fablicos controlados pelos estrangeiros. A vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o socialista chinesa em outubro de 1949, liderada pelo Partido Comunista da China (PCC), p\u00f4s fim \u00e0 explora\u00e7\u00e3o imperialista e come\u00e7ou a erguer o pa\u00eds, depois de quase 30 anos da maior e mais acirrada luta de classes da hist\u00f3ria do mundo, que envolveu uma guerra-civil somada \u00e0 luta contra os invasores japoneses durante a II Guerra Mundial. A principal aliada da China \u00e9 a R\u00fassia, que vem se reerguendo depois da derrota da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1991, depois de ter passado por um per\u00edodo de dez anos de destrui\u00e7\u00e3o, apesar das crescentes san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas impostas pelos EUA e pa\u00edses europeus.<\/p>\n<p>Tanto a China, quanto a R\u00fassia vem sofrendo n\u00e3o s\u00f3 embargos e san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, mas tamb\u00e9m provoca\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e militares por parte dos EUA, desde o governo de Barack Obama (2009-2016). Durante o governo de Donald Trump (2017-2019), os EUA desfecharam uma guerra comercial \u00e0 China, promoveram uma tentativa de \u2018revolu\u00e7\u00e3o colorida\u2019 em Hong Kong, em 2019, acusaram o pa\u00eds de ter criado e difundido o coronav\u00edrus e at\u00e9 de roubar a tecnologia estadunidense. Nos EUA, o Partido Democrata atribuiu a vit\u00f3ria de Trump nas elei\u00e7\u00f5es de 2016 a uma suposta interfer\u00eancia russa no processo eleitoral, o que chegou a motivar a expuls\u00e3o de diplomatas russos. As crescentes san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas contra os dois pa\u00edses n\u00e3o s\u00f3 os obrigaram a intensificar o desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico e a substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es, que resultaram no fortalecimento de suas economias, como os empurraram para uma aproxima\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica ainda maior. Depois da posse de Joe Biden, em 20 de janeiro de 2021, os EUA v\u00eam intensificando as tens\u00f5es internacionais na tentativa de deter o crescimento chin\u00eas, o reerguimento russo e a alian\u00e7a entre ambos. Mas os EUA n\u00e3o v\u00eam obtendo frutos importantes com suas iniciativas.<\/p>\n<p>Logo no in\u00edcio do governo Biden, em mar\u00e7o de 2021, numa reuni\u00e3o de c\u00fapula em Anchorage, Alaska, entre as equipes de rela\u00e7\u00f5es exteriores dos dois pa\u00edses o secret\u00e1rio de Estado Antony Blinken e o assessor de Seguran\u00e7a Nacional Jake Sullivan, tentaram intimidar o governo chin\u00eas com diversas acusa\u00e7\u00f5es de supostas viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos. Blinken e Sullivan tiveram de engolir em seco as duras respostas que receberam de Yang Jiechi, do Bir\u00f4 Pol\u00edtico do Comit\u00ea Central do PPC e de Wang Yi, ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da China, que questionaram a autoridade moral de dos EUA que mant\u00eam o racismo contra sua popula\u00e7\u00e3o negra, persegue imigrantes, promove bloqueios econ\u00f4micos e interfere nos assuntos internos de dezenas de pa\u00edses. Em pouco mais de uma semana de julho do mesmo ano, depois de mais de 20 anos de ocupa\u00e7\u00e3o militar no Afeganist\u00e3o, os Talib\u00e3s retomaram o poder, protagonizando umas das mais duras derrotas militares para o imperialismo ianque. N\u00e3o satisfeitos, os EUA logo depois passaram a provocar a China, estimulando a independ\u00eancia de Taiwan, que contraria o acordo que firmaram com os chineses nos anos 1970 que reconhece a exist\u00eancia de uma s\u00f3 China. Durante meses, a m\u00eddia e os meios diplom\u00e1ticos estadunidenses bombardearam o mundo com an\u00fancios de uma iminente invas\u00e3o militar chinesa em Taiwan e promoveram diversos deslocamentos navais no estreito de Taiwan e no Mar do Sul da China. Esbarraram, no entanto, na firme a\u00e7\u00e3o do governo chin\u00eas que respondeu principalmente por meios diplom\u00e1ticos, mas tamb\u00e9m com o aumento da mobiliza\u00e7\u00e3o militar chinesa na regi\u00e3o. A resposta chinesa resultou no reconhecimento pelo Pent\u00e1gono que n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de vit\u00f3ria estadunidense num hipot\u00e9tico enfrentamento militar no estreito de Taiwan e numa tempor\u00e1ria suspens\u00e3o das provoca\u00e7\u00f5es. Quase que imediatamente, os EUA e a Inglaterra passaram a provocar a R\u00fassia pol\u00edtica e militarmente, esgrimindo uma suposta iminente invas\u00e3o russa \u00e0 Ucr\u00e2nia, que tomou conta dos notici\u00e1rios internacionais.<\/p>\n<p>As provoca\u00e7\u00f5es estadunidenses e inglesas em torno da quest\u00e3o ucraniana envolvem interesses que v\u00e3o muito al\u00e9m da suposta e improv\u00e1vel invas\u00e3o russa. O crescente interc\u00e2mbio comercial entre a R\u00fassia e a China e a Europa, particularmente a necessidade que os pa\u00edses europeus t\u00eam de contar com o g\u00e1s russo para assegurar seu abastecimento energ\u00e9tico, al\u00e9m da crescente ades\u00e3o de pa\u00edses europeus ao projeto de infraestrutura chinesa Cintur\u00e3o e Rota, v\u00eam tirando os EUA do s\u00e9rio. As provoca\u00e7\u00f5es recentes t\u00eam a clara inten\u00e7\u00e3o de tentar afastar a Europa da China e da R\u00fassia e abrir espa\u00e7o para a venda do g\u00e1s liquefeito estadunidense. Em 15 de dezembro de 2021, a R\u00fassia respondeu com um ultimato \u00e0 cont\u00ednua expans\u00e3o da OTAN em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s suas fronteiras, \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de armas nucleares de alcance intermedi\u00e1rio na Europa, \u00e0 crescente implanta\u00e7\u00e3o de infraestrutura militar da OTAN no Leste europeu, \u00e0 tentativa de tornar a Ge\u00f3rgia e a Ucr\u00e2nia membros dessa organiza\u00e7\u00e3o militar. A R\u00fassia exigiu a aceita\u00e7\u00e3o dessas exig\u00eancias por meio da assinatura de garantias legais por escrito por parte do Ocidente. Desde ent\u00e3o, cada vez mais pa\u00edses europeus v\u00eam manifestando sua discord\u00e2ncia com a t\u00e1tica dos EUA e da Inglaterra em torno da quest\u00e3o ucraniana e se negando a contribuir com tropas e armamentos para um eventual apoio da OTAN \u00e0 Ucr\u00e2nia. Numa clara demonstra\u00e7\u00e3o de insatisfa\u00e7\u00e3o europeia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica estadunidense, representantes do governo alem\u00e3o e o presidente da Fran\u00e7a Emmanuel Macron, al\u00e9m do primeiro-ministro da Hungria Viktor Orb\u00e1n visitaram a R\u00fassia, Macron e Orb\u00e1n manifestaram explicitamente seu apoio \u00e0s exig\u00eancias de garantias legais escritas no sentido da interrup\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o da OTAN e da retirada de armas nucleares intermedi\u00e1rias e instala\u00e7\u00f5es militares da OTAN pr\u00f3ximas ao territ\u00f3rio russo.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do m\u00eas de janeiro, o mundo assistiu, ainda, a uma fracassada tentativa de mudan\u00e7a de regime por parte dos EUA e da Inglaterra no Cazaquist\u00e3o. Aproveitando-se de uma manifesta\u00e7\u00e3o dos trabalhadores cazaques contra um forte aumento dos pre\u00e7os dos combust\u00edveis, os servi\u00e7os de intelig\u00eancia dos EUA, da Inglaterra e da Turquia, al\u00e9m de diversas ONGs ocidentais envolvidas em anteriores \u2018revolu\u00e7\u00f5es coloridas\u2019, introduziram agitadores nas manifesta\u00e7\u00f5es que promoveram diversos atos de grande viol\u00eancia para tentar derrubar o governo do Cazaquist\u00e3o. Depois de um pedido de ajuda do presidente cazaque Kassym-Yomart Toka\u00efev, for\u00e7as de paz da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado de Seguran\u00e7a Coletiva (CSTO) chegaram ao Cazaquist\u00e3o e impediram a tentativa de for\u00e7as pr\u00f3-Ocidente tomarem o poder, como ocorreu na Ge\u00f3rgia e na Ucr\u00e2nia. Foi a primeira vez que a CSTO foi chamada e interveio numa crise pol\u00edtica em um estado membro, a rapidez da mobiliza\u00e7\u00e3o e das a\u00e7\u00f5es da for\u00e7a de paz v\u00eam sendo interpretadas por diversos analistas como um sinal de que as \u2018revolu\u00e7\u00f5es coloridas\u2019 promovidas pelos EUA podem estar terminando.<\/p>\n<p>O \u00faltimo e mais decisivo acontecimento ocorreu em 4 de fevereiro de 2022, com a divulga\u00e7\u00e3o do \u201cComunicado Conjunto da Federa\u00e7\u00e3o Russa e da Rep\u00fablica Popular da China sobre as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais no In\u00edcio de uma Nova Era e o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel Global\u201d. Neste comunicado, os governos da China e da R\u00fassia proclamaram o fim do unilateralismo e do hegemonismo dos EUA na pol\u00edtica internacional, anunciaram que a alian\u00e7a econ\u00f4mica e pol\u00edtica entre os dois pa\u00edses \u00e9 inquebrant\u00e1vel e que v\u00e3o agir de forma conjunta em favor da paz e do desenvolvimento, estando dispostos a enfrentar juntos toda e qualquer tentativa dos EUA e de outros pa\u00edses ocidentais de amea\u00e7ar a paz mundial. Este comunicado pode ser interpretado como uma tomada de posi\u00e7\u00e3o in\u00e9dita de duas pot\u00eancias que t\u00eam a possibilidade de barrar novas iniciativas do imperialismo estadunidense. Trata-se de uma virada na pol\u00edtica internacional, que altera completamente a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as mundial e deixa claro que est\u00e1 definitivamente aberta a disputa pelo poder mundial, enfeixado pelos EUA desde o fim da II Guerra Mundial.<\/p>\n<p>A intensifica\u00e7\u00e3o da disputa internacional de poder, al\u00e9m de colocar em xeque o imperialismo ianque, cria uma situa\u00e7\u00e3o inteiramente nova e mais promissora para as lutas dos trabalhadores e do movimento popular em todo o mundo. Desde o in\u00edcio da hist\u00f3ria do capitalismo, toda vez em que a disputa de poder mundial se intensificou, houve um avan\u00e7o da luta dos trabalhadores e do movimento popular. O primeiro exemplo foi a disputa pela hegemonia mundial entre a Holanda e a Inglaterra, que motivou duas guerras entre os dois pa\u00edses na segunda metade do S\u00e9culo XVII. A disputa pelo poder mundial, que tamb\u00e9m envolveu a Fran\u00e7a, s\u00f3 se resolveu com a vit\u00f3ria inglesa no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. Durante essa disputa, se deu a longa revolu\u00e7\u00e3o burguesa na Inglaterra, que marcou o in\u00edcio da separa\u00e7\u00e3o entre os Estados e a Igreja, da conquista dos direitos de liberdade individual e do protagonismo cada vez maior dos trabalhadores e do movimento popular no processo hist\u00f3rico. Logo em seguida, no come\u00e7o do s\u00e9culo XVIII come\u00e7ou a luta anticolonial nas Am\u00e9ricas, estourou a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa em 1789, que deu partida \u00e0 derrubada de diversas monarquias na Europa. Entre 1838 e 1850, os trabalhadores ingleses se levantaram no movimento cartista para conquistar seus direitos pol\u00edticos, em 1848 explodiu a \u2018Primavera dos Povos\u2019, uma s\u00e9rie de movimentos revolucion\u00e1rios na Europa, mesmo ano em que Karl Marx e Friedrich Engels publicaram o Manifesto Comunista. Em 1871, a Comuna de Paris inaugurou as primeiras formas de poder popular, apavorando as for\u00e7as conservadoras de todo o mundo.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m durante a disputa de poder mundial entre a Alemanha e a Inglaterra que levou \u00e0 I Guerra Mundial que se criaram as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para a vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, liderada por L\u00eanin e pelo Partido Bolchevique, que implantou o socialismo pela primeira vez na hist\u00f3ria mundial e espalhou ventos de liberta\u00e7\u00e3o e inspira\u00e7\u00e3o para os trabalhadores e os movimentos populares de todo o mundo. A continua\u00e7\u00e3o da disputa de poder entre a Alemanha e a Inglaterra novamente gerou a II Guerra Mundial, que teve nos territ\u00f3rios da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da China os principais palcos da guerra, matando 27 milh\u00f5es de cidad\u00e3os sovi\u00e9ticos e 35 milh\u00f5es de chineses. O gigantesco esfor\u00e7o do povo sovi\u00e9tico derrotou o nazismo em toda a Europa, ajudou a derrotar o militarismo fascista japon\u00eas na \u00c1sia e permitiu a expans\u00e3o do socialismo pelo Leste europeu, seguida pela Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa em 1949 e pela amplia\u00e7\u00e3o do movimento anticolonial por todo o mundo.<\/p>\n<p>H\u00e1 sinais de que o novo acirramento na luta pelo poder mundial est\u00e1 abrindo espa\u00e7os para a agudiza\u00e7\u00e3o da luta de classes. Nos \u00faltimos dois anos cresceu a luta popular na Am\u00e9rica Latina, com gigantescas mobiliza\u00e7\u00f5es no Chile, Bol\u00edvia, Peru, Equador e Col\u00f4mbia. Essas mobiliza\u00e7\u00f5es abriram espa\u00e7o para a vit\u00f3ria eleitoral de governos progressistas e populares na Bol\u00edvia, Chile e Peru, al\u00e9m da confirma\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria de Daniel Ortega da Frente Sandinista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional. Tais avan\u00e7os pol\u00edticos no nosso continente seriam muito mais dif\u00edceis se o poder imperial dos EUA estivesse no seu pleno vigor. A luta anti-imperialista tamb\u00e9m vem avan\u00e7ando em v\u00e1rios pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio e no Afeganist\u00e3o, ela n\u00e3o se desenvolveu ainda a ponto de assumir um rumo socialista, mas seu sentido e seu inimigo comum colaboram para o desenvolvimento da consci\u00eancia, da capacidade de organiza\u00e7\u00e3o popular e abrem espa\u00e7o para o surgimento de organiza\u00e7\u00f5es e partidos mais consequentes e de orienta\u00e7\u00e3o socialista. A China e a R\u00fassia v\u00eam promovendo acordos internacionais em nosso continente, com a Rep\u00fablica Socialista de Cuba, Nicar\u00e1gua, Venezuela e, mais recentemente, com o governo de Alberto Fernandez e Cristina Kirchner da Argentina. Tais acordos podem vir a fortalecer a capacidade de os governos e povos desses pa\u00edses resistirem ao imperialismo e reconstru\u00edrem suas economias, desde que adotem medidas concretas neste sentido, a exemplo do que faz Cuba.<\/p>\n<p>\u00c9 neste ambiente de extrema tens\u00e3o internacional que se dar\u00e1 a disputa pol\u00edtico-eleitoral no Brasil. Como nas \u00faltimas duas elei\u00e7\u00f5es de 2014 e 2018, a tend\u00eancia \u00e9 que o imperialismo ianque procure interceder de todos os modos, como inclusive j\u00e1 foi dito por Steve Bannon. As crescentes derrotas do imperialismo estadunidense far\u00e3o sua aten\u00e7\u00e3o se concentrar cada vez mais na disputa de poder no Brasil. A possibilidade de perder o Brasil, de longe o maior pa\u00eds em termos econ\u00f4micos, territoriais e populacionais da Am\u00e9rica Latina, hoje um aliado incondicional e servil dos EUA \u00e9 inaceit\u00e1vel para o imperialismo. H\u00e1 muita coisa em jogo na disputa pol\u00edtico-eleitoral brasileira, como a quest\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o efetiva do pa\u00eds nos BRICS, que pode alterar a balan\u00e7a internacional de poder, al\u00e9m do controle das imensas reservas de petr\u00f3leo e g\u00e1s do pr\u00e9-Sal, uma das \u00faltimas grandes reservas mundiais que os ianques podem almejar dominar. O controle da economia brasileira assegura, ainda, enormes transfer\u00eancias de valor do Brasil para os EUA e seus aliados europeus, na forma de remessa de lucros, pagamento de patentes e royalties, devido \u00e0 presen\u00e7a das multinacionais no nosso pa\u00eds. Os EUA tampouco est\u00e3o dispostos a ver amea\u00e7ada a constante e volumosa compra de t\u00edtulos da d\u00edvida estadunidense pelo Banco Central brasileiro, que constitui uma gigantesca sangria de recursos do Brasil e vem contribuindo para sustentar a cada vez mais endividada e combalida imperial.<\/p>\n<p>S\u00e3o enormes os desafios colocados na atual luta pol\u00edtica brasileira. O PT e a ampla alian\u00e7a que vem sendo formada com for\u00e7as de direita pretendem dar um tom de plebiscito anti Bolsonaro \u00e0s elei\u00e7\u00f5es, encobrindo os compromissos com a manuten\u00e7\u00e3o do neoliberalismo. Os acordos que est\u00e3o sendo firmados com elementos direitistas como Geraldo Alckmin tendem a amarrar ainda mais o programa e as a\u00e7\u00f5es de um eventual governo do PT, do que ocorreu com a \u201cCarta aos Brasileiros\u201d de 2003. Foram esses acordos que asseguraram a manuten\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas neoliberais, entravaram qualquer perspectiva de avan\u00e7o real e asseguraram espa\u00e7o para o golpe de 2016 e a vit\u00f3ria da extrema-direita em 2018. O PCB se contrap\u00f5e a essa pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes, ao lan\u00e7ar a pr\u00e9 candidatura de Sofia Manzano \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica, defendendo um programa de mudan\u00e7a radical da sociedade brasileira, voltado para mobilizar os trabalhadores pela revers\u00e3o das reformas da CLT, da Previd\u00eancia, das privatiza\u00e7\u00f5es lesa-p\u00e1tria e para abrir espa\u00e7o para a constru\u00e7\u00e3o de formas de poder popular. A conjuntura mundial \u00e9 favor\u00e1vel ao avan\u00e7o da luta popular, abre oportunidades que n\u00e3o podem ser desperdi\u00e7adas com propostas de concilia\u00e7\u00e3o de classe e com o imperialismo nem com a continuidade do neoliberalismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28448\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"A agudiza\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es internacionais abre espa\u00e7o para o avan\u00e7o da mobiliza\u00e7\u00e3o popular","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[226],"class_list":["post-28448","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7oQ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28448","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28448"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28448\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28448"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28448"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}