{"id":2846,"date":"2012-05-14T11:03:25","date_gmt":"2012-05-14T11:03:25","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2846"},"modified":"2012-05-14T11:03:25","modified_gmt":"2012-05-14T11:03:25","slug":"terrorismo-de-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2846","title":{"rendered":"Terrorismo de Estado"},"content":{"rendered":"\n<p>As revela\u00e7\u00f5es s\u00e3o terr\u00edveis, pela total desumanidade e enorme barbarismo. Mas n\u00e3o s\u00e3o novidades. Ainda que parcialmente ignoradas, s\u00e3o larga e substancialmente conhecidas, desde sempre. Sabemos os nomes de quase todas as v\u00edtimas e de boa parte dos algozes. No geral, faltam apenas as circunst\u00e2ncias de crimes comumente inomin\u00e1veis. Dezenas de corpos de vitimados restam insepultos para seus familiares, companheiros, conhecidos e amigos.<\/p>\n<p>O paradoxo seria a impunidade absoluta dos respons\u00e1veis por tais atos abomin\u00e1veis. Eles foram promovidos profissionalmente; encontram-se ainda em elevados cargos; aposentaram-se e reformaram-se magnificamente; morreram na santidade da paz dos inocentes, jamais incomodados; alguns foram e seguem sendo homenageados com o nome de ruas, pra\u00e7as, avenidas e escolas.<\/p>\n<p>Compreende-se tal desprop\u00f3sito. N\u00e3o se trataram de crimes comuns. Foram a\u00e7\u00f5es criminosas realizadas ao abrigo e com o apoio das institui\u00e7\u00f5es estatais, contra cidad\u00e3os e cidad\u00e3s nacionais e estrangeiros inermes, para se obter ganhos sociais, econ\u00f4micos, pol\u00edticos, etc. Foram atos praticados com o apoio de enorme parte da m\u00eddia, da alta hierarquia da Igreja, da justi\u00e7a \u00a0e do legislativo nacionais. Os crimes e os criminosos foram defendidos direta ou tortamente por intelectuais abrigados \u00e0 sombra do poder e contaram com o apoio incondicional \u2013 e comumente material \u2013 de industrialistas, banqueiros, latifundi\u00e1rios.<\/p>\n<p>Nos milhares de martirizados, feriram-se profundamente as carnes da popula\u00e7\u00e3o brasileira, expropriada fortemente em seus direitos e conquistas, n\u00e3o raro para sempre. A lista \u00e9 longa: ap\u00f3s aqueles fatos, jamais o sal\u00e1rio m\u00ednimo recuperou seu valor; perdeu-se o pouco de estabilidade no trabalho que se possu\u00eda; passou a dominar o ensino, a sa\u00fade, a seguran\u00e7a, etc. privados e pagos. Tudo em proveito dos eternos donos das riquezas e do poder deste pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os crimes de Estado n\u00e3o s\u00e3o prescrit\u00edveis ou auto-anisti\u00e1veis. A anistia ditada pelos militares, para civis e militares criminosos, sancionada por parlamento subserviente, n\u00e3o possui valor legal e moral. \u00c9 farsa que segue vigente apenas por que encobre crimes de Estado, protegidos e referendados por Estado sempre sob o controle das mesmas classes e interesses que promoveram e sustentaram o regime ditatorial.<\/p>\n<p>A cumplicidade das institui\u00e7\u00f5es estatais constitui san\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e moral \u00e0queles crimes, atrav\u00e9s da qual se cultua a mem\u00f3ria da viol\u00eancia e do despotismo contra os trabalhadores e opositores e se mant\u00e9m sobre a popula\u00e7\u00e3o a eterna amea\u00e7a de que tudo pode voltar a ser como antes, se necess\u00e1rio. Em repouso na parede da casa-grande, o chicote do feitor lembra aos negros da senzala que est\u00e1 sempre pronto paracantar!<\/p>\n<p>Desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, em 1985, o culto e a defesa da impunidade e do crime d\u00e3o-se sob forma surda e expl\u00edcita. Na historiografia, proliferam leituras revisionistas desculpando e justificando a ditadura; desqualificando a resist\u00eancia; criminalizando as v\u00edtimas, etc., aqui e ali, promovidas por algum ex-resistente, regiamente recompensado por se aninhar sob a asa protetora do poder.<\/p>\n<p>A grande imprensa cala e confunde; defende o perd\u00e3o e o esquecimento e ataca o revanchismo; desqualifica os resistentes e a resist\u00eancia. O golpe militar deu-se contra o golpe civil em marcha, dizem. Tudo foi uma guerra, e a guerra \u00e9 sempre suja, afirmam. Sempre a servi\u00e7o dos poderosos, a Justi\u00e7a reitera imperturb\u00e1vel que a farsa da anistia n\u00e3o pode e n\u00e3o deve ser tocada, ferindo a jurisprud\u00eancia mundial e os direitos inarred\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>O poder legislativo, federal, estadual e municipal, mant\u00e9m-se majoritariamente em igual posi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 poucos meses, a c\u00e2mara municipal de Porto Alegre rejeitou repara\u00e7\u00e3o moral \u00e0 cidade, negando-se a rebatizar com o nome do governador Leonel Brizola, avenida porto-alegrense que segue homenageando o primeiro general-ditador. Votaram contra a proposta vereadores do PP, do PSDB, do PTB, do PDT, do PPS&#8230;<\/p>\n<p>O poder \u00e9 c\u00ednico. Desde 1985, o poder presidencial mant\u00e9m-se na f\u00e9rrea prote\u00e7\u00e3o da impunidade. Para governar o pa\u00eds em nome dos poderosos, \u00e9 necess\u00e1rio ajoelhar-se diante dos mesmos. N\u00e3o h\u00e1 paradoxo em que FHC e Lula da Silva seguiram na posi\u00e7\u00e3o vil, mesmo tendo sido o primeiro demitido do trabalho pela ditadura, e o segundo, preso brevemente durante as grandes greves oper\u00e1rias de 1979.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o que a senhora Dilma Rousseff, objeto de inomin\u00e1veis sev\u00edcias, abrace a defesa dos algozes, agora atrav\u00e9s de comiss\u00e3o de mentirinha, para esclarecer superficialmente os fatos, sem qualquer puni\u00e7\u00e3o dos mesmos. Tudo para diminuir a press\u00e3o \u00a0nacional e mundial pela inculpa\u00e7\u00e3o de criminosos de Estado, que avan\u00e7a na Argentina, Uruguai, Peru, etc. Eles pouco se importam que, ao proteger os criminosos, tornam-se c\u00famplices \u00a0morais dos crimes.<\/p>\n<p>Segue cabendo apenas ao povo brasileiro o dever incontorn\u00e1vel de enterrar, algum dia, os cad\u00e1veres insepultos de seus combatentes, atrav\u00e9s do castigo exemplar dos algozes, em homenagem \u00e0s mem\u00f3rias dos golpeados e em defesa de seus interesses sagrados \u2013 passados, presentes e futuros.<\/p>\n<p>M\u00e1rio Maestri, 63, \u00e9 historiador e professor do Curso e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da UPF. maestri@via-rs.net<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: O Nacional\n\n\n\n\n\n\n\n\nTer\u00e7a-Feira, 08\/05\/2012 por M\u00e1rio Maestri\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2846\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-2846","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-JU","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2846","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2846"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2846\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2846"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2846"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2846"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}