{"id":28480,"date":"2022-02-25T16:15:47","date_gmt":"2022-02-25T19:15:47","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28480"},"modified":"2022-03-07T20:48:42","modified_gmt":"2022-03-07T23:48:42","slug":"solidariedade-e-lutas-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28480","title":{"rendered":"Solidariedade e lutas de classes"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/melo.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><em>O papel da Brigada Solid\u00e1ria Laudelina de Campos Melo [1]<\/em><\/p>\n<p><strong>Por Jeferson Garcia [2]<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>De que serve a bondade<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Quando os bondosos s\u00e3o logo abatidos, ou s\u00e3o abatidos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Aqueles para quem foram bondosos?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>De que serve a liberdade<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Quando os livres t\u00eam que viver entre os n\u00e3o-livres?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>De que serve a raz\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Quando s\u00f3 a sem-raz\u00e3o arranja a comida de que cada um precisa?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Em vez de serdes s\u00f3 bondosos, esfor\u00e7ai-vos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Por criar uma situa\u00e7\u00e3o que torne poss\u00edvel a bondade, e melhor;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>A fa\u00e7a sup\u00e9rflua!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Em vez de serdes s\u00f3 livres, esfor\u00e7ai-vos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Por criar uma situa\u00e7\u00e3o que a todos liberte<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>E tamb\u00e9m o amor da liberdade<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Fa\u00e7a sup\u00e9rfluo!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Em vez de serdes s\u00f3 razo\u00e1veis, esfor\u00e7ai-vos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Por criar uma situa\u00e7\u00e3o que fa\u00e7a da sem-raz\u00e3o dos indiv\u00edduos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Um mau neg\u00f3cio!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>De que Serve a Bondade &#8211; Bertold Brecht<\/em><\/p>\n<p><strong>O ponto de partida<\/strong><\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da pandemia da Covid-19 (Corona v\u00edrus disease) em 2020, surgiram no Paran\u00e1 as \u201cbrigadas de solidariedade\u201d populares, ligadas ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e seus coletivos partid\u00e1rios \u2013 Uni\u00e3o da Juventude Comunista (UJC), Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro (CFCAM), Unidade Classista (UC) e Coletivo Negro Minervino de Oliveira (CNMO). Maring\u00e1, Foz do Igua\u00e7u, Londrina e Curitiba constru\u00edram suas Brigadas a partir da sua milit\u00e2ncia e com parcerias com outros camaradas3 e organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O objetivo das brigadas foi (e ainda \u00e9) minimizar os efeitos da crise pol\u00edtico-econ\u00f4mica da covid sobre a nossa classe, de acordo com as possibilidades de cada regi\u00e3o do Estado. Em Maring\u00e1 foi criada em maio de 2020 a \u201cBrigada Solid\u00e1ria Laudelina de Campos Melo4\u201d, cujo nome traz uma homenagem a essa importante militante negra e comunista que liderou batalhas das trabalhadoras dom\u00e9sticas nesse pa\u00eds.<\/p>\n<p>Com o intuito de realizar esse objetivo, uma das palavras de ordem mais utilizadas \u00e9 a de \u201cSolidariedade de classe\u201d. Mas o que isso significa e qual a rela\u00e7\u00e3o dessas atividades com a estrat\u00e9gia e t\u00e1tica dos comunistas?<\/p>\n<p>\u00c9 nessa seara que esse texto se encaixa, na tentativa herc\u00falea de fazer nosso trabalho de solidariedade sem cair perante os monstros ou as d\u00favidas que nos atacam pelo caminho. O capital, assim como a Hidra de Lerna5, possui muitas cabe\u00e7as \u2013 precisamos cortar todas e queim\u00e1-las.<\/p>\n<p>Longe de querer fazer uma an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora nessa pandemia, ou da fra\u00e7\u00e3o da classe com a qual a brigada faz seu trabalho hoje, o objetivo deste ensaio \u00e9 incitar a discuss\u00e3o sobre o que querem os comunistas quando falam em solidariedade de classe, seu significado hist\u00f3rico e sua rela\u00e7\u00e3o com a luta pela emancipa\u00e7\u00e3o humana. A brigada \u00e9, nesse sentido, um espa\u00e7o para todos aqueles que querem contribuir com os problemas imediatos de nossa classe ao mesmo tempo que lutam por uma outra forma de sociedade. Lutas que se combinam, n\u00e3o se excluem.<\/p>\n<p><strong>1. O que \u00e9 solidariedade?<\/strong><\/p>\n<p>Solidariedade \u00e9 uma categoria hist\u00f3rica. Ser solid\u00e1rio implica ser solid\u00e1rio a algu\u00e9m que carece pelo resultado de certas causas que se manifestam em um per\u00edodo, segundo as necessidades particulares de um indiv\u00edduo, grupo, ou classe social, de acordo com as condi\u00e7\u00f5es de cada \u00e9poca.<\/p>\n<p>A categoria6 de solidariedade geralmente \u00e9 tratada de forma atemporal, a partir de um modelo judaico-crist\u00e3o de tratar os efeitos da aliena\u00e7\u00e3o7, transferindo problemas s\u00f3cio-hist\u00f3ricos para o campo da moral religiosa8. O maior exemplo \u00e9, provavelmente, a pobreza. A mis\u00e9ria \u00e9 justificada, em regra, pelo ego\u00edsmo, m\u00e9rito, ou o individualismo, que s\u00e3o responsabilizados como culpados \u00faltimos, n\u00e3o como produtos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Na vida cotidiana, os indiv\u00edduos s\u00e3o culpabilizados (particularmente) pelas suas atitudes mesquinhas e s\u00e3o convidados a resolver esse problema de forma tamb\u00e9m singular. A ess\u00eancia da mis\u00e9ria \u00e9 buscada nos sujeitos, em suas a\u00e7\u00f5es particulares, sem pensar a sociedade que produz tais humanos e seus valores sociais. Aquilo que o liberalismo fez bem, foi construir a imagem da sociedade a partir da imagem do indiv\u00edduo. Tudo \u00e9 ele, s\u00f3 existe ele e s\u00f3 ele interessa. N\u00e3o h\u00e1 sociedade, como dizia Margaret Thatcher (1925-2013).<\/p>\n<p>Quando a categoria de solidariedade \u00e9 abstra\u00edda do processo socioecon\u00f4mico concreto, uma apar\u00eancia de realidade9 pode esconder o real e dificultar a compreens\u00e3o genu\u00edna dos complexos envolvidos. \u00c9 por isso que a solidariedade liberal \u2013 realizada por grupos filantr\u00f3picos ligados a empresas e a sociedade civil \u2013 e a solidariedade religiosa s\u00f3 se interessam por paliativos, principalmente porque eles respondem do ponto de vista da moral, n\u00e3o entrando em conflito com o ponto de vista da economia-pol\u00edtica10 \u2013 por mais bem intencionadas que possam ser.<br \/>\nA solidariedade se relaciona, portanto, com a aliena\u00e7\u00e3o e com a ideia de ess\u00eancia humana11. Se os homens s\u00e3o mesquinhos e ego\u00edstas por natureza, \u00e9 preciso uma moral que contrabalanceie, que os fa\u00e7am \u201cmais humanos12\u201d e crie uma sociedade de \u201cface mais humana\u201d.<\/p>\n<p>O problema, assim, \u00e9 resolvido na \u00e9tica \u2013 tratada na verdade como moral. A solidariedade torna-se um ant\u00eddoto contra as manifesta\u00e7\u00f5es da natureza ego\u00edsta, como mostram as tentativas p\u00edfias que as organiza\u00e7\u00f5es mundiais passaram a ter durante grande parte dos anos 1990, formulando documentos e a\u00e7\u00f5es para desenvolver uma sociedade civil ativa e solid\u00e1ria. Se as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o opostas ao princ\u00edpio de igualdade ou demonstram seus limites, esse problema \u00e9 convertido em postulado moral e os indiv\u00edduos passam a ser o foco da mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Estas afirma\u00e7\u00f5es apresentam aquilo que Marx dizia a respeito do intelecto pol\u00edtico burgu\u00eas, que n\u00e3o quer identificar as origens dos males sociais \u2013 fato de ra\u00edzes hist\u00f3ricas ligadas a chamada decad\u00eancia ideol\u00f3gica da burguesia13. O capital assenta a raz\u00e3o da mis\u00e9ria mundana em todos os lugares, exceto onde ele verdadeiramente est\u00e1, isto \u00e9, em sua l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o social, justamente porque n\u00e3o interessa a burguesia revelar a natureza dos problemas da sociedade. Coloc\u00e1-los \u00e0 mostra deixaria vis\u00edvel que a resolu\u00e7\u00e3o dos problemas est\u00e1 na sociedade que a beneficia por ser a sua imagem e semelhan\u00e7a.<\/p>\n<p>O exemplo sobre essa caracter\u00edstica do intelecto pol\u00edtico, segundo Marx (2010b, p.50) \u00e9 o da compreens\u00e3o de um te\u00f3rico chamado por ele de Dr. Kay, que v\u00ea a falta de educa\u00e7\u00e3o como motivo do pauperismo crescente na Inglaterra do s\u00e9culo XIX. Dizia Marx14:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Assim, por exemplo, o doutor Kay, no seu op\u00fasculo \u2018recente measures for he promotion of education in England\u2019, reduz tudo a uma educa\u00e7\u00e3o descuidada. Adivinhe-se por que motivo! Com efeito, por falta de educa\u00e7\u00e3o o oper\u00e1rio n\u00e3o entende \u2018as leis naturais do com\u00e9rcio\u2019, leis que o reduzem necessariamente ao pauperismo. Da\u00ed sua rebeli\u00e3o (MARX, 2010b, p.50, grifo do autor).<\/p>\n<p>De tal modo, cabe corrigir esse problema de educa\u00e7\u00e3o e forjar novos sujeitos mais humanos, solid\u00e1rios, participativos. Pelos liberais e neoliberais15, visa-se a forma\u00e7\u00e3o para a cidadania que entenda a import\u00e2ncia de se contribuir com os mais necessitados, uma vez que o Estado \u00e9 ineficiente para tanto. Pelos religiosos, objetiva-se a forma\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os que devem ajudar aqueles que s\u00e3o igualmente filhos de Deus. Em ambos os casos, \u00e9 imprescind\u00edvel, por tanto, o reconhecimento de pertencimento dos sujeitos que ser\u00e3o vistos como aqueles que carecem de caridade e, al\u00e9m disso, o Estado16 se distancia de seu papel na resolu\u00e7\u00e3o dos problemas sociais.<\/p>\n<p>A necessidade hist\u00f3rica da solidariedade, n\u00e3o pode ser apreendida em suas ra\u00edzes, mas somente em algumas de suas manifesta\u00e7\u00f5es. Em regra, em manifesta\u00e7\u00f5es individuais, morais e religiosas. O problema est\u00e1 naquele que n\u00e3o \u00e9 solid\u00e1rio (cidad\u00e3o17 ou crist\u00e3o). A ideologia atua com a solidariedade, deslocando a contradi\u00e7\u00e3o de onde ela realmente tem origem, como uma m\u00e1gico que tenta esconder o verdadeiro pote onde se encontra o objeto. A mis\u00e9ria deixa de ter uma ordem s\u00f3cio-hist\u00f3rica, para ter um fundamento de origem moral. Assim, desloca a contradi\u00e7\u00e3o, jamais a supera.<\/p>\n<p><strong>2. Valores e a luta de classes<\/strong><\/p>\n<p><em>[&#8230;] para Bernstein,\u00a0<\/em><em>a pr\u00f3pria palavra \u2018burgu\u00eas\u2019 n\u00e3o \u00e9 express\u00e3o de classe, e sim no\u00e7\u00e3o social geral. <\/em><em>Isso significa apenas que, l\u00f3gico at\u00e9 o fim,\u00a0<\/em><em>ele trocou tamb\u00e9m \u2013 com a ci\u00eancia, a pol\u00edtica, a moral e o modo de pensar \u2013\u00a0<\/em><em>a linguagem hist\u00f3rica do proletariado pela da burguesia. <\/em><em>Classificando-se de \u2018cidad\u00e3o\u2019, indistintamente, burgu\u00eas e o prolet\u00e1rio,\u00a0<\/em><em>e, por conseguinte, o homem em geral, este se lhe afigura, na realidade, <\/em><em>id\u00eantico ao pr\u00f3prio burgu\u00eas, <\/em><em>e a sociedade humana id\u00eantica \u00e0 burguesa.&#8221;\u00a0<\/em><em>Rosa Luxemburgo \u2013 Reforma ou Revolu\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Por que uma pessoa defende pautas como reforma agr\u00e1ria, legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, legaliza\u00e7\u00e3o das drogas, desmilitariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia e reforma urbana se ela n\u00e3o faz parte de um dos grupos \u201cbeneficiados\u201d nesse processo?<\/p>\n<p>Ora, n\u00e3o s\u00e3o os interesses, s\u00e3o os valores18. Em regra, o grupamento social que mais sofre nestes casos \u2013 ou com latif\u00fandio, por parte dos trabalhadores rurais sem-terra, ou que mais convive com mortes em cl\u00ednicas de aborto clandestino, al\u00e9m da vida cotidiana ser ligada com a brutalidade policial e, por isso, fazerem parte dos que morrem na \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d e que sofrem as desocupa\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es do Estado em \u00e1reas de interesse comercial com a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria \u2013 \u00e9 a popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<p>Mas pessoas brancas, que talvez n\u00e3o tenham interesses diretos com essas pol\u00edticas as defendem. Este fato ocorre porque seus valores19 as fazem agir para al\u00e9m do particular, em dire\u00e7\u00e3o ao universal. Definir se algo \u00e9 bom, ou ruim, se possui valor de igualdade, emancipa\u00e7\u00e3o, democracia ou solidariedade, \u00e9 o campo dos processos valorativos.<\/p>\n<p>Todas essas categorias fazem parte dos valores que nos ajudam a definir como agir em cada a\u00e7\u00e3o cotidiana. Numa sociedade sem classes sociais, os valores t\u00eam como fun\u00e7\u00e3o ajudar na escolha entre alternativas que contribuam com o desenvolvimento das necessidades e interesses do g\u00eanero humano. Numa organiza\u00e7\u00e3o social pautada em classes, os valores t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com os interesses em disputa, com a \u201cluta de classes\u201d, que \u00e9 uma luta justamente por se tratar de grupos distintos, com interesses antag\u00f4nicos, que lutam \u2013 como diria Leminski20 \u2013 com todas as suas armas para colocar seus valores e interesses na ordem do dia. Por isso, nesta forma de sociedade \u2013 como em toda l\u00f3gica societal baseada na divis\u00e3o de classes sociais \u2013 n\u00e3o h\u00e1 compatibilidade entre solidariedade e capitalismo. Ou seja, \u00e9 imposs\u00edvel uma genu\u00edna solidariedade sobre a ordem do capital.<\/p>\n<p>S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ter uma rela\u00e7\u00e3o de completude entre os interesses dos indiv\u00edduos e os interesses do g\u00eanero em uma l\u00f3gica sem classes sociais. Ocorre da mesma forma como os demais valores em disputa, os j\u00e1 citados liberdade e igualdade, por possu\u00edrem os seus significados demarcados historicamente pelas rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o de cada per\u00edodo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>A liberdade (e as demais categorias) \u00e9 tida a partir dos interesses e da vis\u00e3o de mundo da classe dominante. Por isso que n\u00e3o podemos tomar como nossos os valores21 criados por esta classe, como bem exemplifica Mauro Iasi:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Enquanto o proletariado tomar como sua a consci\u00eancia do outro ser\u00e1 incapaz de completa e verdadeira autonomia hist\u00f3rica. Estar\u00e1 condenado a ser o adjetivador secund\u00e1rio dos valores centrais do seu advers\u00e1rio: Democracia \u2018Popular\u2019, Igualdade \u2018de fato\u2019, Liberdade \u2018mesmo\u2019, propriedade \u2018para todos\u2019, Estado \u2018do povo\u2019! Isto equivaleria a vermos nos pais do liberalismo termos como: Monarquia \u2018Burguesa\u2019, feudalismo \u2018igualit\u00e1rio\u2019, Estatamentos \u2018flex\u00edveis\u2019, privil\u00e9gios de nascimento \u2018para todos\u2019 e outras quimeras (IASI, 2002, p.34)<\/p>\n<p>O limite da solidariedade da classe dominante \u2013 e tamb\u00e9m dos grupos dominados que reproduzem a ideologia hegem\u00f4nica \u2013 vai at\u00e9 o ponto em que ser solid\u00e1rio n\u00e3o esbarre com os seus interesses e com a produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o social do seu mundo. Ser livre \u00e9 ser propriet\u00e1rio privado e, assim, por mais que a mis\u00e9ria do mundo tenha sua raz\u00e3o de existir na propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, esta n\u00e3o deve ser tocada.<\/p>\n<p>Solidariedade, do ponto de vista da burguesia, \u00e9 essa ajuda dentro dos limites da ordem capitalista, ou seja, n\u00e3o pega as coisas pela raiz. Se \u00e9 ou n\u00e3o a ordem capitalista que cria e d\u00e1 origem a toda a mis\u00e9ria que da fun\u00e7\u00e3o social a solidariedade, n\u00e3o importa. \u00c9 at\u00e9 importante que se esconda esse processo, camufle, mascare, ofusque. Esse \u00e9 o papel da ideologia burguesa.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">N\u00e3o se trata apenas de um conjunto de ideias que se imp\u00f5em como dominantes. Elas s\u00e3o dominantes, j\u00e1 que s\u00e3o da classe dominante, mas a classe s\u00f3 \u00e9 dominante porque se insere em rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o historicamente determinadas que as colocam no papel de domina\u00e7\u00e3o. Ora, a tarefa ficou mais dif\u00edcil, pois se as ideias que constituem uma ideologia s\u00e3o express\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o a supera\u00e7\u00e3o delas pressup\u00f5e a supera\u00e7\u00e3o destas rela\u00e7\u00f5es e, como Marx e Engels (2007, p. 42) conclu\u00edram na mesma obra, isso pressup\u00f5e um \u201cmovimento pr\u00e1tico, uma revolu\u00e7\u00e3o\u201d (IASI, 2013, p.70-71).<\/p>\n<p><strong>3. O canto da sereia: a solidariedade neoliberal<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>&#8220;Justi\u00e7a social, liberdade e igualdade de oportunidades, solidariedade e responsabilidade para com os outros: estes valores s\u00e3o eternos. A socialdemocracia nunca os sacrificar\u00e1. Tornar estes valores relevantes no mundo de hoje requer pol\u00edticas realistas e com vis\u00e3o de futuro, capazes de enfrentar os desafios do s\u00e9culo XXI [&#8230;] A pobreza continua uma preocupa\u00e7\u00e3o central, especialmente entre fam\u00edlias com crian\u00e7as. Precisamos de medidas espec\u00edficas para os mais amea\u00e7ados de marginaliza\u00e7\u00e3o e de exclus\u00e3o social. Isto tamb\u00e9m requer uma abordagem moderna por parte do governo: O Estado n\u00e3o deve remar, mas pilotar: n\u00e3o deve ter tanto controle, mas enfrentar desafios. As solu\u00e7\u00f5es para os problemas devem ser obtidas com a participa\u00e7\u00e3o.&#8221; Tony Blair e Schroeder22<\/em><\/p>\n<p>Solidariedade \u00e9 uma categoria em disputa. No Brasil contempor\u00e2neo, a ideia da solidariedade se estabeleceu com muita for\u00e7a no in\u00edcio dos anos 1990 a partir de uma pol\u00edtica deliberada de maior afastamento do Estado no que se refere as pol\u00edticas sociais, com o slogan da participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil na resolu\u00e7\u00e3o dos problemas brasileiros. Aquilo que o movimento oper\u00e1rio pedia ap\u00f3s o fim da ditadura civil-militar, ou seja, participa\u00e7\u00e3o e democracia, foi ressignificado pela classe dominante.<\/p>\n<p>Bresser-Pereira, o grande nome da reforma do Estado Brasileiro, tinha como leitura de cabeceira as obras de Anthony Giddens23. Bresser, defendia \u2013 assim como ainda o faz \u2013 uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica estatal intermedi\u00e1ria, nem muito estado, nem muito mercado. Ele fazia parte do seleto grupo que havia criticado os efeitos do neoliberalismo, como fundamentado por Hayek e Friedman. Bresser-Pereira, assim como alguns nomes ligados a organiza\u00e7\u00f5es multilaterais, Banco Mundial e FMI, como Bernardo Klikisberg, Joseph Stiglitz24 e Robert Putnam, fundamentaram uma pol\u00edtica \u201cmenos agressiva\u201d que o neoliberalismo25 para a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Este grupo de intelectuais, economistas, pol\u00edticos, analisavam que a ideologia do livre mercado n\u00e3o cumpriu sua promessa de benef\u00edcios globais, pois:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">[&#8230;] na vis\u00e3o convencional, supunha-se que, alcan\u00e7ando taxas significativas de crescimento econ\u00f4mico, o mesmo se \u2018derramaria\u2019 para os setores mais desfavorecidos e os tiraria da pobreza. O crescimento seria, ao mesmo tempo, desenvolvimento social (KLIKSBERG, 2001, p.113).<\/p>\n<p>Assim, esses \u201ccr\u00edticos\u201d do neoliberalismo apresentaram uma proposta mais branda. A quest\u00e3o n\u00e3o era somente ente mais mercado e menos Estado, diziam eles. Havia um terceiro setor26 imprescind\u00edvel: a sociedade civil organizada. Seus postulados foram muito pr\u00f3ximos da leitura do novo trabalhismo brit\u00e2nico e, portanto, se encaixavam com o que queria Bresser Pereira para o Brasil, pois justificaram os problemas brasileiros no formato do Estado e no decl\u00ednio c\u00edvico \u2013 descritos pelo guru da Terceira Via.<\/p>\n<p>Anthony Giddens (o guru), fundador do que ficou conhecido como Terceira Via, argumentava que houve um decl\u00ednio c\u00edvico nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX causado, principalmente, pela atua\u00e7\u00e3o desproporcional do Welfare State. Segundo ele, nesse per\u00edodo, os direitos sociais ficaram acima das responsabilidades (deveres). Essa teria sido a principal causa do decl\u00ednio c\u00edvico que, segundo seus ide\u00f3logos, p\u00f4de ser constatado pelo aumento do vandalismo e da criminalidade, assim como pela perda do sentimento de responsabilidade. Conforme expressa Anthony Giddens:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">O decl\u00ednio c\u00edvico27 \u00e9 real e vis\u00edvel em muitos setores das sociedades contempor\u00e2neas, n\u00e3o uma mera inven\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos conservadores. Ele \u00e9 visto no enfraquecimento do senso de solidariedade em algumas comunidades locais e \u00e1reas urbanas, nos elevados n\u00edveis de criminalidade e na dissolu\u00e7\u00e3o de casamentos e fam\u00edlias. [&#8230;] N\u00e3o podemos lan\u00e7ar a culpa da eros\u00e3o da civilidade sobre o Welfare State, ou supor que \u00e9 poss\u00edvel revert\u00ea-la deixando a sociedade civil por sua pr\u00f3pria conta. O governo pode e deve desempenhar um importante papel na renova\u00e7\u00e3o da cultura c\u00edvica (GIDDENS, 2001, p.89, grifo nosso).<\/p>\n<p>Tendo em vista a nova exig\u00eancia de fortalecer os la\u00e7os de solidariedade e renovar a cultura c\u00edvica, o Estado precisaria formar ent\u00e3o um novo tipo de cidad\u00e3o, n\u00e3o tutelado e que fosse capaz de se responsabilizar por seus problemas sociais. As diversas teorias passam a enfatizar a necessidade de mudar o padr\u00e3o de sociabilidade, ou seja, o padr\u00e3o de comportamento dos cidad\u00e3os perante a nova realidade. Isto se deve \u00e0 necessidade de refor\u00e7ar a participa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os28, tendo em vista que a causa dos principais problemas foi delegada ao decl\u00ednio c\u00edvico, ou seja, \u00e0 falta de participa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">O equil\u00edbrio entre indiv\u00edduo e coletivo foi distorcido. Valores importantes para os cidad\u00e3os, como conquista pessoal e sucesso, espirito empreendedor, responsabilidade pessoal e esp\u00edrito comunit\u00e1rio foram muitas vezes subordinados a prote\u00e7\u00f5es sociais universais [&#8230;] Muitas vezes os direitos foram elevados acima das responsabilidades, mas a responsabilidade do indiv\u00edduo para com sua fam\u00edlia, bairro e sociedade n\u00e3o pode ser descarregada no Estado. Se o conceito de obriga\u00e7\u00e3o m\u00fatua \u00e9 esquecido, o resultado \u00e9 um decl\u00ednio no esp\u00edrito comunit\u00e1rio, falta de responsabilidade para com os bairros, crime e vandalismo crescente e um sistema legal incapaz (BLAIR; SCHROEDER, 1999, p.2).<\/p>\n<p>Com isto retira-se, portanto, a explica\u00e7\u00e3o da causa dos problemas sociais da pr\u00f3pria base social e a transfere aos pr\u00f3prios indiv\u00edduos, como se estes problemas ocorressem em consequ\u00eancia da aus\u00eancia dos valores humanos e do suposto decl\u00ednio c\u00edvico, fundado por um decl\u00ednio moral.<\/p>\n<p>Neste \u00ednterim, a classe trabalhadora foi convidada a ser mais solid\u00e1ria, a resolver os problemas na sua comunidade, no seu bairro, a partir das associa\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, religiosas, movimentos sociais (negros, mulheres, ecol\u00f3gicos, etc.) enquanto se orquestrava um afastamento e sucateamento das a\u00e7\u00f5es do estado em rela\u00e7\u00e3o a nossa quest\u00e3o social, isto \u00e9, ao pauperismo pr\u00f3prio do nosso capitalismo.<\/p>\n<p>Uma mis\u00e9ria que tem raz\u00e3o de ser n\u00e3o mais na falta de condi\u00e7\u00f5es e produ\u00e7\u00e3o de riqueza \u2013 que tiveram sociedades anteriores de baixo desenvolvimento das for\u00e7as produtivas \u2013 mas na acumula\u00e7\u00e3o privada dela29. A mis\u00e9ria do mundo \u00e9 tratada como um problema de car\u00e1ter moral, s\u00e3o as pessoas que n\u00e3o ajudam as demais. Assim, respostas f\u00e1ceis para a solu\u00e7\u00e3o do pauperismo foram constru\u00eddas:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">[&#8230;] programas convencionais de socorro \u00e0 pobreza devem ser substitu\u00eddos por abordagens centradas na comunidade, que permitam uma participa\u00e7\u00e3o mais democr\u00e1tica al\u00e9m de serem mais eficazes. A forma\u00e7\u00e3o de comunidades enfatiza as redes de apoio, o esp\u00edrito de iniciativa e o culto do capital social como meio de gerar renova\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em bairros de baixa renda (GIDDENS, 2001, p.120, grifo nosso).<\/p>\n<p>Termos como democracia, cidadania, participa\u00e7\u00e3o, igualdade, voluntariado, solidariedade passaram a ser cada vez mais utilizados pelos intelectuais, grupos, movimentos, identificados com a reprodu\u00e7\u00e3o do capital, mas que se colocam como representantes dos mais valiosos sentimentos de paz e combate \u00e0 pobreza. Os antigos significados dessas categorias, estabelecidos a partir das lutas da classe trabalhadora ao longo dos s\u00e9culos, s\u00e3o reconstru\u00eddos de acordo com os interesses pr\u00f3-sist\u00eamicos. N\u00e3o foi, neste caso, uma novidade na hist\u00f3ria. As palavras de ordem dos movimentos de contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem e seus intelectuais foram sendo paulatinamente adaptados e acomodados a reprodu\u00e7\u00e3o do capitalismo. Como diz Brecht, em um de seus poemas: \u201co inimigo distorceu muitas de nossas palavras, at\u00e9 ficarem irreconhec\u00edveis\u201d.<\/p>\n<p>A ades\u00e3o a essas formas de solidariedade, autonomia e liberdade implica necessariamente a incorpora\u00e7\u00e3o de todo o ide\u00e1rio pol\u00edtico afinado com as necessidades da l\u00f3gica capitalista contempor\u00e2nea. Em outras palavras, por detr\u00e1s do discurso que defende a liberdade individual, por meio da imagem do cidad\u00e3o respons\u00e1vel e solid\u00e1rio, \u00e9 evidente a defesa da liberdade plena para o capital, que muitas vezes, pode ser impedida pela a\u00e7\u00e3o do Estado. Trata-se de que, para a reprodu\u00e7\u00e3o do capital na atualidade, torna-se necess\u00e1rio, manter e, quando poss\u00edvel, ampliar a liberdade de mercado estabelecida pela teoria liberal cl\u00e1ssica, alcan\u00e7ando os setores que podem ser rent\u00e1veis e que est\u00e3o sob tutela do Estado. Construir, portanto, novas avenidas para o capital. Tanto que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">O objetivo de retirar o Estado (e o capital) da responsabilidade de interven\u00e7\u00e3o na \u2018quest\u00e3o social\u2019 e de transferi-los para a esfera do \u2018terceiro setor\u2019 n\u00e3o ocorre por motivos de efici\u00eancia (como se as ONGs fossem naturalmente mais eficientes que o Estado), nem apenas por raz\u00f5es financeiras: reduzir os custos necess\u00e1rios para sustentar esta fun\u00e7\u00e3o estatal. O motivo \u00e9 fundamentalmente pol\u00edtico-ideol\u00f3gico: retirar e esvaziar a dimens\u00e3o de direito universal do cidad\u00e3o quanto a pol\u00edticas sociais (estatais) de qualidade; criar uma cultura de auto-culpa pelas mazelas que afetam a popula\u00e7\u00e3o, e de auto-ajuda e ajuda m\u00fatua para seu enfrentamento (MONTA\u00d1O, 2010, p.23, grifo meu).<\/p>\n<p>Em vista disso, a quest\u00e3o da cidadania \u00e9 importante no projeto desta nova intelectualidade neoliberal, porque ela possibilita formar o cidad\u00e3o e a sociedade civil respons\u00e1vel, a partir da perspectiva da comunidade c\u00edvica, extremamente funcional ao capital contempor\u00e2neo. Nas palavras de Monta\u00f1o (2002, p.63):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Com o \u2018terceiro setor\u201930 tornado instrumento da estrat\u00e9gia neoliberal, este assume a fun\u00e7\u00e3o de transformar o padr\u00e3o de respostas \u00e0s sequelas da \u2018quest\u00e3o social\u2019, constitutivo de direito universal, sob responsabilidade priorit\u00e1ria do Estado, em atividades localizadas e de auto-responsabilidade dos sujeitos portadores das car\u00eancias; atividades desenvolvidas por volunt\u00e1rios ou implementadas em organiza\u00e7\u00f5es sem garantia de perman\u00eancia, sem direito. Transfere-se, como vimos, o sistema de solidariedade universal em solidariedade individual.<\/p>\n<p>Desenvolve-se juntamente com o novo padr\u00e3o de sociabilidade neoliberal da Terceira Via, enquanto forma de administrar o capitalismo, um novo padr\u00e3o de resposta \u00e0s express\u00f5es do pauperismo, no qual o pr\u00f3prio pauperizado deve dar conta de responder a tais express\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">O que era de responsabilidade do conjunto da sociedade passa a ser de (auto) responsabilidade dos pr\u00f3prios sujeitos afetados pela \u2018quest\u00e3o social\u2019; o que era sustentado pelo princ\u00edpio da solidariedade universal passa a ser sustentado pela solidariedade individual, micro; o que era desenvolvido pelo aparelho do Estado passa agora a ser implementado no espa\u00e7o local, o que era constitutivo de direito passa a ser atividade volunt\u00e1ria, fortuita, concess\u00e3o, filantropia (MONTA\u00d1O, 2002, p.63).<\/p>\n<p>Como assevera Monta\u00f1o, a resposta social \u00e0 supostamente nova quest\u00e3o social tende a ser transferida para o \u00e2mbito imediato e individual, cabendo ao indiv\u00edduo agir por si mesmo com vistas a responder aos problemas sociais. \u00c9 assim que, no que concerne ao novo trato desse pauperismo pr\u00f3prio do capitalismo, a orienta\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas sociais estatais \u00e9 alterada de forma significativa. Por um lado, elas continuam sendo retiradas paulatinamente da \u00f3rbita do Estado, sendo privatizadas, transferidas para o mercado. Por outro, elas passam tamb\u00e9m a ser alocadas na sociedade civil, que assume a responsabilidade pelas demandas sociais. Grosso modo, transfere-se para a sociedade civil a iniciativa de responder as express\u00f5es da quest\u00e3o social, mediante pr\u00e1ticas volunt\u00e1rias, filantr\u00f3picas e caritativas, de ajuda m\u00fatua ou autoajuda.<\/p>\n<p>Ter clareza disso \u00e9 importante, tendo em vista que para n\u00f3s a solidariedade n\u00e3o pode assumir um car\u00e1ter estritamente assistencialista, pois al\u00e9m da importante tarefa de ajudar na sobreviv\u00eancia imediata de nossa classe, \u00e9 preciso tamb\u00e9m contribuir com a cr\u00edtica da sociedade que cria e torna necess\u00e1rias tais a\u00e7\u00f5es de caridade, que escondem pol\u00edticas capitalistas que pioram a situa\u00e7\u00e3o de nossa classe. Como diz Luk\u00e1cs \u201cna vida cotidiana, os fen\u00f4menos frequentemente ocultam a ess\u00eancia do seu pr\u00f3prio ser em lugar de ilumin\u00e1-la\u201d (LUK\u00c1CS, 2012, p.294, grifo meu). Por isso, \u00e9 preciso atuar junto \u00e0s comunidades, contribuindo no processo de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e se contrapondo \u00e0 forma\u00e7\u00e3o humana posta pelo capital. N\u00e3o formamos cidad\u00e3os31, formamos camaradas. Para isso, \u00e9 inexor\u00e1vel a constru\u00e7\u00e3o da solidariedade de classe e a cr\u00edtica da solidariedade do capital.<\/p>\n<p>A solidariedade pode, portanto, ser cooptada e usada como slogan para piorar ainda mais a condi\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, como o canto da sereia. Aquilo que convencionalmente se entende por solidariedade (burguesa) \u00e9 a caridade, uma rela\u00e7\u00e3o vertical que como dizia Eduardo Galeano \u201cn\u00e3o perturba a injusti\u00e7a. S\u00f3 se prop\u00f5e a disfar\u00e7\u00e1-la\u201d. Seu significado \u00e9 transformado e disseminado por meio das escolas, documentos de organiza\u00e7\u00f5es mundiais, programas de televis\u00e3o, projetos sociais de solidariedade como amigos da escola, escola da cidadania, Igrejas, das universidades, etc. que tornaram-se a concep\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica de solidariedade. S\u00e3o esses aparelhos privados de hegemonia que difundem a concep\u00e7\u00e3o de solidariedade do capital.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esquecer que \u00e9 a solidariedade que \u00e9 aclamada nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, com o objetivo de se produzir rela\u00e7\u00f5es trabalhistas mais produtivas de capital32. Todo o processo de modifica\u00e7\u00f5es nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, daquilo que se convencionou chamar de acumula\u00e7\u00e3o flex\u00edvel, exigiu a forma\u00e7\u00e3o de um trabalhador de novo tipo, polivalente, que precisa tamb\u00e9m ser participativo, solid\u00e1rio no trabalho em equipe, respons\u00e1vel pelas resolu\u00e7\u00f5es dos problemas da empresa e, principalmente, conformado com a l\u00f3gica social capitalista.<\/p>\n<p>A solidariedade burguesa se d\u00e1 nesses limites intranspon\u00edveis. \u00c9 um valor que coexiste com princ\u00edpios contradit\u00f3rios, uma vez que o mesmo sujeito que faz caridade, defende pol\u00edticas de austeridade, participa ou financia partidos que defendem a reforma trabalhista, reforma da previd\u00eancia, a privatiza\u00e7\u00e3o do SUS e das Universidades. Nas guerras, a solidariedade \u00e9 slogan para mandar os jovens \u00e0 morte, nas lutas em defesa dos interesses das burguesias imperialistas.<\/p>\n<p>A solidariedade, portanto, n\u00e3o \u00e9 uma categoria abstrata, pelo contr\u00e1rio, ela possui concretude hist\u00f3rica e tem rela\u00e7\u00e3o direta com as lutas de classes. Ela nem sempre contribuir\u00e1 com o desenvolvimento da humanidade. Em alguns casos, ela colabora com a reprodu\u00e7\u00e3o das desumanidades criadas pelos seres humanos \u2013 as aliena\u00e7\u00f5es. A solidariedade, diz Erik Olin Wright em seu \u201cComo ser anticapitalista no s\u00e9culo XXI?\u201d, pode aumentar a capacidade de lutas coletivas tanto de uma Ku Klux Klan quanto de movimentos pelos direitos civis.<\/p>\n<p>N\u00f3s, comunistas, devemos tomar nossa posi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o aceitarmos para n\u00f3s a solidariedade burguesa. Para n\u00f3s \u2013 como ser\u00e1 discutido mais a frente \u2013 a solidariedade de classe tem esse significado: compromisso com a nossa classe hoje e com nosso projeto pol\u00edtico, de n\u00e3o s\u00f3 remediar, mas acusar o inimigo e as causas da nossa mis\u00e9ria. J\u00e1 dizia Brecht: n\u00e3o queremos s\u00f3 o remendo, queremos o casaco inteiro.<\/p>\n<p><strong>4. Solidariedade, para os comunistas<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\nEu n\u00e3o acredito em caridade, eu acredito em solidariedade. Caridade \u00e9 t\u00e3o vertical: vai de cima pra baixo. Solidariedade \u00e9 horizontal: respeita a outra pessoa e aprende com o outro. A maioria de n\u00f3s tem muito o que aprender com as outras pessoas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Eduardo Galeano<\/p>\n<p>Mas como n\u00f3s, comunistas, pensamos a solidariedade? O conceito de solidariedade para o movimento comunista se refere ao compromisso com os interesses e necessidades de todos aqueles que comp\u00f5em as fra\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora. Tratar dessa categoria se refere a pr\u00e1xis pol\u00edtica que carrega a m\u00e1xima de Marx \u201cde cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades\u201d e tamb\u00e9m do \u201cservir ao povo de todo cora\u00e7\u00e3o\u201d, usada por Mao Zedong (1893-1976) e pelos Panteras Negras (1966-1982).<\/p>\n<p>A luta dos socialistas tem como o objetivo construir uma sociedade onde os seres humanos tenham as condi\u00e7\u00f5es de vida dadas por uma rela\u00e7\u00e3o social n\u00e3o mais alienada e coisificada, na qual as necessidades atendidas s\u00e3o, na verdade, as necessidades da l\u00f3gica do capital, do mercado, ou da chamada \u201csociedade civil\u201d, etc.<\/p>\n<p>Os comunistas lutam por uma sociedade na qual a pr\u00f3pria ideia de solidariedade \u2013 caracterizada principalmente pela caridade \u2013 n\u00e3o precise existir, onde as rela\u00e7\u00f5es humanas n\u00e3o care\u00e7am de a\u00e7\u00f5es caridosas. As doa\u00e7\u00f5es de cestas b\u00e1sicas n\u00e3o podem ser romantizadas, pois n\u00e3o s\u00e3o express\u00e3o da nossa humanidade, pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o express\u00f5es da nossa desumaniza\u00e7\u00e3o. Uma sociedade onde seres humanos precisam viver de doa\u00e7\u00f5es para sobreviver precisa deixar de existir.<\/p>\n<p>Contudo, a luta pela emancipa\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o nos pode cegar perante as injusti\u00e7as e as necessidades que nossa classe sofre e sente em seu cotidiano. N\u00e3o podemos projetar o futuro, sacrificando o presente33.<\/p>\n<p>Por isso que a categoria de solidariedade \u00e9 t\u00e3o cara aos comunistas e reflete um amplo conjunto de contradi\u00e7\u00f5es da nossa sociedade. E, por tal motivo, colocamos a frente dela nossa trincheira, nossa barricada. Mesmo na ordem do capital, \u00e9 preciso contribuir com as necessidades de nossa classe, seja em sua luta por terra, p\u00e3o, casa, ou qualquer outro elemento da m\u00e1xima comunista: \u201csegundo suas necessidades\u201d.<\/p>\n<p><strong>5. Socialismo e solidariedade na hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">A principal virtude dos camaradas \u00e9 a solidariedade<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Camarada \u2013 Jodi Dean<\/p>\n<p>V\u00e1rios poderiam ser os exemplos da rela\u00e7\u00e3o entre solidariedade e o movimento comunista. Nomes como o de Apol\u00f4nio de Carvalho, que travou lutas hist\u00f3ricas contra o fascismo em v\u00e1rias partes do mundo; dos militantes da Alian\u00e7a Nacional Libertadora e outras organiza\u00e7\u00f5es que n\u00e3o mediram esfor\u00e7os para tirar seus camaradas da pris\u00e3o e tortura. Por\u00e9m, me deterei a apenas tr\u00eas casos devido aos limites desse texto e por terem uma hist\u00f3ria importante para a brigada Solid\u00e1ria em Maring\u00e1: o papel dos comunistas na luta antirracista durante o s\u00e9culo XX, a rela\u00e7\u00e3o dos Panteras Negras com a comunidade negra estadunidense e, por fim, a hist\u00f3ria de Osvald\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>5.1. Coisa de comunista<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Eu me lembro de que, quando eu escrevi esse ensaio, eu pensava no \u201ccriminosos\u201d como substituto de \u201ccomunista\u201d na era da \u201clei e ordem\u201d. Eu pensava nessa nova figura discursiva do criminoso, que absorveu muito do discurso do inimigo comunista [&#8230;] o racismo foi um ingrediente significativo nas campanhas anticomunistas. Considerando que Martin Luther King foi repetidamente descrito pelos advers\u00e1rios como comunista, e n\u00e3o por ser na verdade mesmo do partido comunista, mas porque se presume que a causa da Igualdade racial era uma cria\u00e7\u00e3o comunista. O anticomunismo possibilitou a resist\u00eancia ao direito civis uma mir\u00edade de formas e vice-versa; o racismo possibilitou o alastramento do anticomunismo. Em outras palavras, o racismo tem desempenhado um papel decisivo na produ\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do comunista, do criminoso, do terrorista<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Angela Davis34<\/p>\n<p>Um dos maiores exemplos de solidariedade de classe do movimento comunista foi o seu apoio as lutas antirracistas e as batalhas de liberta\u00e7\u00e3o nacional, mesmo quando isso era tido como algo negativo no seio do movimento oper\u00e1rio. O movimento sindical n\u00e3o aceitava nos EUA (e em outros pa\u00edses) trabalhadores negros. Estes precisavam construir seus pr\u00f3prios instrumentos de luta.<\/p>\n<p>Contudo, a III Internacional Comunista (1919-1943) tinha como uma das 21 condi\u00e7\u00f5es de ingresso (para partidos comunistas interessados) que houvesse um combate ao racismo, ao colonialismo e que cada partido se preocupasse com o recrutamento de trabalhadores negros. \u00c9 da\u00ed, do conjunto dessa hist\u00f3ria aqui resumida, que o movimento supremacista dos EUA tirou o ataque ideol\u00f3gico aos militantes brancos antirracistas como sendo \u201cbolcheviques\u201d \u2013 comunistas.<\/p>\n<p>Em \u201cFilhos do \u00f3dio\u201d, filme de Barry Alexander Brown e que tem Spike Le como um dos produtores executivos, conta-se a hist\u00f3ria de Bob Zellner, um jovem branco que contribuiu com as lutas pelos direitos civis nos EUA na d\u00e9cada de 1960. Ele atuou no chamado \u201cVer\u00e3o da liberdade\u201d (Freedom Summer), uma campanha de viagem ao Mississipi com o objetivo de lutar, dentre outras coisas, pelo direito ao voto da popula\u00e7\u00e3o negra na era Jim Crow35.<\/p>\n<p>Apesar de ser um jovem branco, universit\u00e1rio, Bob foi atacado e quase assassinado como sendo \u201ccomunista\u201d, pois todo aquele que apoiava a luta antirracista era chamado de duas coisas: comunista ou \u201camante de negros\u201d (nigger lovers). Ainda no come\u00e7o do filme, quando um grupo de estudantes \u00e9 repudiado e expulso da faculdade por apenas assistirem a uma reuni\u00e3o de membros do Comit\u00ea Coordenador Estudantil N\u00e3o Violento (SNCC), do qual Rosa Parks era o principal nome, o problema aparece da seguinte forma: \u201cvoc\u00eas foram influenciados pelos comunistas\u201d.<\/p>\n<p>Em outra das cenas do filme, membros da Ku Klux Klan que levavam Bob para a forca descobrem que ele n\u00e3o falava como comunista (sic!) e que era do Alabama, sulista e filho de pastor. Seus algozes ficaram espantados, pois ele era somente algu\u00e9m como eles. Faz parte da Ideologia (\u00e9 seu papel) construir a imagem do mau a ser combatido e, nesse caso, o inimigo da igualdade e perturbador da paz s\u00f3 poderia ser comunista36, pois aqueles que falavam sobre \u201cmistura de ra\u00e7as\u201d eram os bolcheviques.<br \/>\nV\u00e1rios s\u00e3o os exemplos que d\u00e3o refer\u00eancia e respaldo, hist\u00f3rias que demonstram essa rela\u00e7\u00e3o de solidariedade do movimento comunistas com a luta \u201cdos negros\u201d \u2013 tornando-a uma luta dos comunistas. Poderia discutir aqui as hist\u00f3rias de John Reed e Sartre que por suas a\u00e7\u00f5es ajudaram a desenvolver a compreens\u00e3o de que a luta antirracista era \u201ccoisa de comunista\u201d \u2013 o primeiro sobre a luta antirracista nos EUA e o segundo sobre a revolu\u00e7\u00e3o Argelina. Cito estes camaradas, mas poderiam ser tantos outros (e, inclusive, organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas) como aqueles que fizeram no mundo todo campanha pelo Libertem Angela Davis (caso de Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs). Mas, apesar de tantos nomes, me deterei rapidamente apenas a um, pela magnitude de seu colete moral37: Fidel Castro.<\/p>\n<p>O comandante cubano teve um papel de solidariedade fundamental aos seus camaradas negros que lutavam na \u00c1frica pela sua liberta\u00e7\u00e3o. Exemplo disso \u00e9 a \u201cOpera\u00e7\u00e3o Carlota\u201d, que come\u00e7ou em 1975 e s\u00f3 teve fim em 1990. Ela fez parte de uma s\u00e9rie de apoios militares que Cuba desenvolveu em Angola38, a pedido de Agostinho Neto. V\u00e1rias batalhas, em que guerrilheiros cubanos deram a vida pela liberta\u00e7\u00e3o de seus camaradas negros, ficaram marcadas na hist\u00f3ria. Por exemplo, as batalhas de \u201cCuito Cuanavale\u201d, ocorrida entre 15 de novembro de 1987 a 23 de mar\u00e7o de 1988.<\/p>\n<p>Essa foi a batalha mais longa do continente africano ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. Ela aconteceu no sul de Angola, na regi\u00e3o do Cu\u00edto Cuanavale, uma prov\u00edncia do Cuando-Cubango. L\u00e1 se confrontaram os ex\u00e9rcitos de Angola (FAPLA\/MPLA) e Cuba (FAR) contra a UNITA (Uni\u00e3o Nacional para a Independ\u00eancia Total de Angola) e o ex\u00e9rcito da maior pot\u00eancia militar regional, a \u00c1frica do Sul. Essa, assim como outras lutas em territ\u00f3rio africano \u2013 realizadas com volunt\u00e1rios cubanos \u2013 ficaram marcadas na hist\u00f3ria, tanto por serem vitoriosas, quanto pelo aux\u00edlio do movimento comunista ter mudado os rumos da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o cubana se deu n\u00e3o s\u00f3 no que se refere a armamento e soldados. Financiamento e empr\u00e9stimos, ci\u00eancia e tecnologia, m\u00e9dicos, professores, t\u00e9cnicos, engenheiros, foram outras das contribui\u00e7\u00f5es realizadas n\u00e3o s\u00f3 com Angola, mas Burkina Faso. Thomas Sankara (1949-1987), l\u00edder de liberta\u00e7\u00e3o da antiga Alto Volta (hoje Burkina Faso \u2013 Terra dos Homens \u00edntegros) disse:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">A coopera\u00e7\u00e3o entre Cuba e Burkina Faso atingiu um n\u00edvel muito elevado e damos grande import\u00e2ncia a isso porque podemos, dessa maneira, estar em contato com uma revolu\u00e7\u00e3o irm\u00e3. Isso nos d\u00e1 confian\u00e7a; ningu\u00e9m gosta de se sentir isolado. E para n\u00f3s, poder contar com Cuba \u00e9 um recurso importante. Quanto \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, temos muitos programas em \u00e1reas como a cana-de-a\u00e7\u00facar, que \u00e9 uma especialidade de Cuba, cer\u00e2mica e assim por diante. Por outro lado, especialistas cubanos realizaram estudos de diferentes setores: transporte ferrovi\u00e1rio; a produ\u00e7\u00e3o de dormentes para as linhas ferrovi\u00e1rias e elementos pr\u00e9-fabricados para a constru\u00e7\u00e3o de casas. H\u00e1 tamb\u00e9m o setor social: sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Muitos colaboradores cubanos realizam tarefas relacionadas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de quadros aqui. N\u00f3s tamb\u00e9m temos muitos estudantes em Cuba. Cuba est\u00e1 muito perto de n\u00f3s hoje (SANKARA, 2019, p.426).<\/p>\n<p>Angola, Guin\u00e9 Bissau e Cabo Verde, Mo\u00e7ambique, Zimb\u00e1bue e em muitos outros pa\u00edses tiveram apoio e solidariedade dos comunistas em suas lutas por um mundo em que fizessem sentido as necessidades humanas. As palavras que diversos l\u00edderes africanos depositaram sobre os ombros de Fidel Castro comprovam como os comunistas foram internacionalistas e antirracistas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Desde os seus dias iniciais, a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana tem sido uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o para todos os povos amantes da liberdade. O povo cubano ocupa um lugar especial no cora\u00e7\u00e3o dos povos da \u00c1frica. Os internacionalistas cubanos fizeram uma contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 independ\u00eancia, \u00e0 liberdade e \u00e0 justi\u00e7a na \u00c1frica que n\u00e3o tem paralelo pelos princ\u00edpios e o desinteresse que a caracterizam. \u00c9 muito o que podemos aprender de sua experi\u00eancia. De modo particular nos comove a afirma\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo hist\u00f3rico com o continente africano e seus povos. Seu invari\u00e1vel compromisso com a erradica\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do racismo n\u00e3o tem paralelo. Somos conscientes da grande d\u00edvida que h\u00e1 com o povo de Cuba. Que outro pa\u00eds pode mostrar uma hist\u00f3ria de maior interesse do que a que Cuba demonstrou em suas rela\u00e7\u00f5es com a \u00c1frica [&#8230;]? Sem a derrota infligida em Cuito Cuanavale nossas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o teriam sido legalizadas! A derrota do ex\u00e9rcito racista em Cuito Cuanavale me deu a oportunidade de estar hoje aqui com voc\u00eas! Cuito Cuanavale \u00e9 um marco na hist\u00f3ria da luta pela liberta\u00e7\u00e3o da \u00c1frica austral!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Nelson Mandela39<\/p>\n<p><strong>5.2. Aprender com o Partido dos Panteras Negras<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Reconhecemos que, a fim de trazer as pessoas para o n\u00edvel de consci\u00eancia necess\u00e1rio para elas, seria necess\u00e1rio servir aos seus interesses de sobreviv\u00eancia desenvolvendo programas que ajudariam a atender suas necessidades di\u00e1rias<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Huey Newton<\/p>\n<p>Outro caso, no qual a solidariedade comunista foi materializada, s\u00e3o as a\u00e7\u00f5es de solidariedade com a comunidade negra realizadas pelo Black Panther Party (BPP), conhecido como Partido dos Panteras Negras (1966-1982). A organiza\u00e7\u00e3o foi fundada nos Estados Unidos em 15 de outubro de 1966 e tinha sua base central na luta contra o racismo e seus efeitos mais imediatos, como a viol\u00eancia policial, encarceramento, discrimina\u00e7\u00e3o, ass\u00e9dio e mis\u00e9ria da classe trabalhadora negra.<\/p>\n<p>A sua origem se d\u00e1 com Huey Newton e Bobby Seale, na cidade de Oakland, no estado da Calif\u00f3rnia (onde havia em torno de 135.000 negros), com o objetivo central de criar um mecanismo para a auto-defesa. Tal des\u00edgnio estava claro em seu nome: Black Panther Party for Self-Defense (Partido Pantera Negra para Auto-defesa). As pessoas recrutadas constitu\u00edam aquelas camadas que mais eram afetadas e violentadas pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p>No interior da organiza\u00e7\u00e3o eram debatidos os problemas de moradia, sa\u00fade, alimenta\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e v\u00e1rios outros, que representavam a car\u00eancia da comunidade negra e que eram determinados n\u00e3o s\u00f3 pela pobreza, mas pelo racismo. H\u00e1, segundo os Panteras, uma rela\u00e7\u00e3o inexor\u00e1vel entre pobreza e racismo. Com o tempo, foram criados programas de sobreviv\u00eancia, que buscavam alimentar a comunidade, com caf\u00e9s da manh\u00e3 para as crian\u00e7as, doa\u00e7\u00f5es de alimentos e roupas, servi\u00e7os de sa\u00fade b\u00e1sicos, como ortodontia, m\u00e9dicos, entrega de cestas b\u00e1sicas, dentre outras formas de ajuda. Huey Newton defendia a ideia de que para elevar o n\u00edvel de consci\u00eancia das pessoas \u2013 tarefa do partido de vanguarda \u2013 era preciso tamb\u00e9m ajudar na sobreviv\u00eancia delas, em suas necessidades di\u00e1rias. Dizia ele que este era um programa de \u201csobreviv\u00eancia pendente de revolu\u00e7\u00e3o\u201d. Ou seja, os programas de sobreviv\u00eancia ajudavam a comunidade negra, por\u00e9m, n\u00e3o eram a solu\u00e7\u00e3o para seus problemas.<\/p>\n<p>Os Black Panthers realizaram atividades de caf\u00e9s da manh\u00e3 para crian\u00e7as, baseados principalmente na m\u00e1xima de \u201camor as pessoas\u201d \u2013 dando comida no prato e as defendendo com fuzil nas m\u00e3os \u2013 e na afirma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de que tais a\u00e7\u00f5es eram imprescind\u00edveis, pois crian\u00e7as que n\u00e3o tinham a possibilidade de tomar um caf\u00e9 da manh\u00e3 nutritivo, tinham problemas de aten\u00e7\u00e3o nas aulas e, assim, apresentavam menor desempenho educacional que as crian\u00e7as brancas.<\/p>\n<p>Solidariedade \u00e9, portanto, compromisso com a nossa classe. Compromisso com suas necessidades hoje e com nosso projeto de emancipa\u00e7\u00e3o humana, que chamamos de comunismo.<\/p>\n<p><strong>5.3. Osvald\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Ele sempre me falou que eles era problema de pol\u00edtica n\u00e9, eles era comunista n\u00e9<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Mangul\u00e3o, campon\u00eas \u2013 filme Osvald\u00e3o<\/p>\n<p>L\u00edder da guerrilha do Araguaia, engenheiro e boxeador, Osvaldo costumava andar sem camisa e com uma 20mm nas m\u00e3os. Depois da chegada dos militares na regi\u00e3o do Araguaia (mais de cinco mil fardados) em 1972, foi ca\u00e7ado e assassinado, durante a ditadura, em 1974 \u2013 junto a outros camaradas que ali estavam. Ap\u00f3s ser morto, Osvaldo Orlando da Costa teve seu corpo pendurado por um helic\u00f3ptero, que sobrevoou o Araguaia para mostrar que o grande l\u00edder estava morto &#8211; depois foi decapitado. Seu corpo, at\u00e9 onde se sabe, ainda n\u00e3o foi encontrado.<br \/>\nMilitante comunista, Osvald\u00e3o viveu nove anos na regi\u00e3o do Araguaia (1966-1974). Antes de assumir as atividades de luta armada na regi\u00e3o, Osvald\u00e3o morou por l\u00e1 e contribuiu com os moradores da regi\u00e3o, tornando-se conhecido por ser um bra\u00e7o solid\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o, no garimpo de Itamirim, nos cuidados de sa\u00fade como aplica\u00e7\u00e3o de medicamentos, nas ca\u00e7as que fazia para os ind\u00edgenas (suru\u00ed) da regi\u00e3o ou nos demais aux\u00edlios no Araguaia, como relata uma moradora:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">[&#8230;] nois gostava dele porque quando ele chegava l\u00e1 em casa..o que nois tava precisando..assim..porque \u00e0s vezes a gente tava precisando dum arroz&#8230;tava precisando duma farinha..tava precisando assim duma carne..dum sab\u00e3o&#8230;tudo que&#8230;a\u00ed..o que ele tinha ele ajudava pra nois..se nois tivesse precisando de qualquer uma coisa ele tava pronto pra ajudar (fala descrita no filme Osvald\u00e3o)<\/p>\n<p>No fat\u00eddico 01 de abril de 1964 \u2013 dia do golpe civil-militar de durou 21 anos \u2013 Osvald\u00e3o estava em um avi\u00e3o a caminho do Oriente. Na China ele realizou uma prepara\u00e7\u00e3o de 6 meses aprendendo t\u00e9cnica de guerrilha. Na sua volta, teve como tarefa de seu partido \u2013 o PCdoB \u2013 escolher, junto a outros camaradas, um local onde as condi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas, sociais e pol\u00edticas possibilitariam a forma\u00e7\u00e3o guerrilheira. Foi ent\u00e3o que a regi\u00e3o do Araguaia, no Par\u00e1, foi escolhida.<\/p>\n<p>Osvaldo conhecia tudo, todos e era conhecido. Sabia das trilhas e das necessidades do povo por qual ele lutava. N\u00e3o por acaso, transformou-se em lenda, um ser mitol\u00f3gico. Como era muito dif\u00edcil pegar o hist\u00f3rico camarada, as explica\u00e7\u00f5es iam da sua habilidade t\u00e9cnica e f\u00edsica \u00e0s explica\u00e7\u00f5es mitol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Reza a lenda da regi\u00e3o, que ele tinha poder de se transformar em borboleta, pedra, dentre outros animais e objetos. N\u00e3o s\u00f3 os moradores, mas at\u00e9 alguns militares come\u00e7aram a acreditar nas lendas e a temer o negro de dois metros com armas nas m\u00e3os e que se transformava na natureza.<\/p>\n<p><strong>6. \u00c9 preciso transformar o mundo<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Qual deveria ser sua orienta\u00e7\u00e3o num mundo em que n\u00e3o h\u00e1 alternativas ao capitalismo?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Anthony Giddens<\/p>\n<p>Por solidariedade de classe compreendemos essa rela\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria com todos aqueles que pertencem40 \u00e0 nossa classe, independentemente de terem consci\u00eancia ou n\u00e3o desse fato. Esta rela\u00e7\u00e3o tem dois objetivos: primeiro, contribuir com a sobreviv\u00eancia da nossa classe e apontar os dilemas da classe trabalhadora s\u00f3 podem ter resolu\u00e7\u00e3o com o fim da sociedade capitalista, pois a pobreza n\u00e3o \u00e9 um defeito do funcionamento e sim resultado normal da sua l\u00f3gica; segundo, aproximar as rela\u00e7\u00f5es com a classe para contribuir com o desenvolvimento da consci\u00eancia e de organiza\u00e7\u00e3o da mesma.<\/p>\n<p>O trabalho dos Panteras fez com que a comunidade negra os enxergasse como seus representantes e aqueles que ajudavam com a sua sobreviv\u00eancia. Isso fez com que o partido crescesse muito em suas sedes no pa\u00eds todo. N\u00e3o s\u00f3 aqueles que eram assistidos pelos Panteras perceberam o papel do partido, mas tamb\u00e9m aqueles que acompanhavam a luta pol\u00edtica mesmo n\u00e3o organizados: m\u00fasicos, atores e cantoras. Diversos estudantes e celebridades se uniram aos Panteras, com doa\u00e7\u00f5es e contribui\u00e7\u00f5es na compra de livros vendidos pela organiza\u00e7\u00e3o \u2013 a fim de ajudar nos custos. Muitos, de tal forma, se aproximaram da luta antirracista e comunista.<br \/>\nNo caso de Osvald\u00e3o, moradores do Araguaia o apoiaram no combate aos militares, enquanto outros n\u00e3o41. Todavia, foi a proximidade dele no trabalho com moradores no garimpo ou na ca\u00e7a que fez com que ele ganhasse o prest\u00edgio de defensor da regi\u00e3o, mesmo que nem todos os moradores tivessem clareza do que representava ser um comunista.<\/p>\n<p>Esses exemplos hist\u00f3ricos d\u00e3o indicativos de qual \u00e9 (ou deve ser) o papel das brigadas solid\u00e1rias no Paran\u00e1. Sua fun\u00e7\u00e3o \u2013 enquanto uma brigada de solidariedade \u2013 \u00e9, portanto, desenvolver a solidariedade com a sua classe, articulada com as demais a\u00e7\u00f5es e lutas pol\u00edticas que v\u00e3o para al\u00e9m dos efeitos imediatos. Trata-se das lutas por direitos, greves, combate \u00e0s opress\u00f5es e outras tarefas (t\u00e1ticas) ligadas a estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o brasileira. As brigadas s\u00e3o, nesse sentido, um aspecto de um amplo conjunto de a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dos comunistas. Seus resultados, portanto, nem sempre ser\u00e3o vis\u00edveis, diretos ou quantitativos. Como no caso de Osvald\u00e3o, nem todos perceberam ou se aproximaram da causa.<\/p>\n<p>A solidariedade de classe tem como objetivo \u00faltimo, portanto, o fim dessa sociedade e, assim, seu pr\u00f3prio fenecimento, que s\u00f3 pode ocorrer em definitivo na esfera da produ\u00e7\u00e3o42 material da vida. Ela \u00e9 um germe que se ergue dentro do modo de vida que se busca negar. A solidariedade bem-sucedida implica um processo que leve a um estado de coisas qualitativamente diferente. Portanto, ela n\u00e3o termina em si mesma. Ela s\u00f3 acaba se negando.<\/p>\n<p>7. Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>BLAIR, Tony; SCHROEDER, Gerhard. Europa: A Terceira Via \/ O novo centro. 1999.<\/p>\n<p>CASTELO, Rodrigo. O Social-liberalismo: auge e crise da supremacia burguesa na era neoliberal. 1ed. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o popular, 2013.<\/p>\n<p>DAVIS, Angela. A democracia da aboli\u00e7\u00e3o: para al\u00e9m do imp\u00e9rio, das pris\u00f5es e da tortura. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009<\/p>\n<p>DEAN, Jean. Camarada: um ensaio sobre pertencimento pol\u00edtico. 1.ed. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2021.p.70.<\/p>\n<p>GIDDENS, Anthony. A Terceira Via: reflex\u00f5es sobre o impasse pol\u00edtico atual e o futuro da socialdemocracia. Rio de Janeiro: Record, 2001.<\/p>\n<p>GIDDENS, Anthony. 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A direita para o social: a educa\u00e7\u00e3o da sociabilidade no Brasil contempor\u00e2neo. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2009. p. 59-110.<\/p>\n<p>MARX, K; ENGELS, F. A ideologia alem\u00e3. Tradu\u00e7\u00e3o de \u00c1lvaro Pina. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2009.<\/p>\n<p>MARX, K; ENGELS, F. O Manifesto do Partido Comunista. 1. ed. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es Avante!, 1975.<\/p>\n<p>MARX, Karl. Cr\u00edticas marginais ao artigo \u201cO rei da Pr\u00fassia e a reforma social\u201d &#8211; De um prussiano. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2010.<\/p>\n<p>MARX, Karl. O Capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/p>\n<p>MAZRUI, A. A. Procurai primeiramente o reino pol\u00edtico&#8230;In: Hist\u00f3ria geral da \u00c1frica, VIII: \u00c1frica desde 1935 \/ editado por Ali A. Mazrui e Christophe Wondji. \u2013 Bras\u00edlia: UNESCO, 2010. p.125-150.<\/p>\n<p>MONTA\u00d1O, Carlos. O novo trato \u00e0 \u201cquest\u00e3o social\u201d no contexto da reestrutura\u00e7\u00e3o do capital. 2002. Disponivel em: http:\/\/blogs.al.ce.gov.br\/unipace\/files\/2011\/12\/04-O-novo-trato-a-questao-social.pdf. Acesso em: 04 de Mar., de 2014.<\/p>\n<p>MONTA\u00d1O, Carlos. O novo trato \u00e0 \u201cquest\u00e3o social\u201d no contexto da reestrutura\u00e7\u00e3o do capital. 2002. Disponivel em: http:\/\/blogs.al.ce.gov.br\/unipace\/files\/2011\/12\/04-O-novo-trato-a-questao-social.pdf. Acesso em: 04 de Mar., de 2014.<\/p>\n<p>MONTA\u00d1O, Carlos. Terceiro Setor e quest\u00e3o social: cr\u00edtica ao padr\u00e3o emergente de interven\u00e7\u00e3o social. 6\u00ba edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Cortez, 2010.<\/p>\n<p>MONTA\u00d1O, Carlos. Terceiro Setor e quest\u00e3o social: cr\u00edtica ao padr\u00e3o emergente de interven\u00e7\u00e3o social. 6\u00ba edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Cortez, 2010.<\/p>\n<p>NEWTON, Huey. Capitalismo negro re-analisado. 2018. In: CI\u00caNCIAS REVOLUCION\u00c1RIAS. Todo Poder ao povo! Artigos, discursos e documentos do partido dos panteras negras. 3\u00ba edi\u00e7\u00e3o. 2018. 239-246.<\/p>\n<p>SANKARA, Thomas. Podemos contar com Cuba. Entrevista a Claude Hackin em 1987. In: MANOEL, Jones; FAZZIO, Gabriel Landi. Revolu\u00e7\u00e3o Africana: uma antologia do pensamento marxista. S\u00e3o Paulo, SP: autonomia liter\u00e1ria, 2019.p.425-429.<\/p>\n<p>TONET, I. A prop\u00f3sito de \u201cGlosas cr\u00edticas\u201d.. S\u00e3o Paulo, 2010. (Pref\u00e1cio). in: MARX, Karl. Cr\u00edticas marginais ao artigo \u201cO rei da Pr\u00fassia e a reforma social\u201d &#8211; De um prussiano. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2010.p.7-40.<\/p>\n<p>VISENTINI, Paulo Fagundes. As revolu\u00e7\u00f5es africanas: Angola, Mo\u00e7ambique e Eti\u00f3pia. S\u00e3o Paulo, Ed. Unesp, 2012.<\/p>\n<p>WRIGHT, Erik Olin. Como ser anticapitalista no s\u00e9culo XXI. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2012.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>1 Texto preparado para debate p\u00fablico e forma\u00e7\u00e3o da milit\u00e2ncia ligada a Brigada Solid\u00e1ria Laudelina de Campos Melo, realizado em 13 de fevereiro de 2020 no Parque Alfredo Werner Nyffeler (vulgo Burac\u00e3o) em Maring\u00e1\/Paran\u00e1.<\/p>\n<p>2 Militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira e do Partido Comunista Brasileiro, n\u00facleo de Maring\u00e1.<\/p>\n<p>3 Pelo menos no caso de Maring\u00e1, com apoio do MST (Escola Milton Santos de Agroecologia), Maring\u00e1 Vegano e a contribui\u00e7\u00e3o de outros camaradas e amigos do partido.<\/p>\n<p>4 A brigada em Maring\u00e1 atua principalmente com um grupo de imigrantes haitianos, mas tamb\u00e9m outras pessoas que procuraram ajuda, como algumas fam\u00edlias da cidade de Sarandi.<\/p>\n<p>5 A Hidra, segundo a mitologia grega, era um monstro com corpo de serpente e muitas cabe\u00e7as, que foi vencida por H\u00e9rcules. Ela vivia em um P\u00e2ntano na cidade de Lerna. A cada cabe\u00e7a que H\u00e9rcules arrancava, outras duas cresciam. O filho de Zeus s\u00f3 venceu o monstro colocando fogo e impedindo que as cabe\u00e7as cortadas crescessem novamente.<\/p>\n<p>6 Como diz Marx, as categorias exprimem, portanto, formas de modo de ser, determina\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>7 Trato aqui como aliena\u00e7\u00e3o o conjunto de objetiva\u00e7\u00f5es que tornam-se obst\u00e1culos ao desenvolvimento humano. \u00c9 a desumanidade criada pelo pr\u00f3prio ser social, como diz Luk\u00e1cs em a Ontologia do ser social. Para uma an\u00e1lise mais detalhada, no que se refere a essa categoria na rela\u00e7\u00e3o dos seres humanos com a natureza, com o g\u00eanero humano e com a sua atividade produtiva, ver o livro \u201cA teoria da aliena\u00e7\u00e3o em Marx\u201d, de Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros.<\/p>\n<p>8 Ver sobre isso o cap\u00edtulo \u00faltimo da Ontologia de Luk\u00e1cs sobre o problema da aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>9 Solidariedade n\u00e3o \u00e9, portanto, um simples conceito, mas uma categoria da realidade. A solidariedade n\u00e3o \u00e9 aquilo que penso, sinto ou imagino \u2013 n\u00e3o se trata aqui de como cada um v\u00ea, ou do \u00f3culos que se usa. Ela \u00e9 uma forma de rela\u00e7\u00e3o social demarcada e limitada pela momento hist\u00f3rico, ou seja, para compreend\u00ea-la \u201c[&#8230;] n\u00e3o se parte daquilo que os homens dizem, imaginam ou se representam e tamb\u00e9m n\u00e3o dos homens narrados, pensados, imaginados, representados, para da\u00ed chegar aos homens de carne e osso; parte-se dos homens realmente ativos\u201d (MARX; ENGELS, 2009, p.30). Ou seja, parte-se do que a solidariedade \u00e9, ou tem sido nos \u00faltimos 500 anos.<\/p>\n<p>10 Nas palavras de Marx e Engels: \u201cUma parte da burguesia deseja remediar os males sociais para assegurar a estabilidade da sociedade burguesa. Nela se contam economistas, filantropos, humanit\u00e1rios, melhoradores da situa\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras, organizadores de caridade, protectores dos animais, fundadores de ligas anti-alc\u00f3licas, reformadores ocasionais dos mais variados\u201d (MARX; ENGELS 1975, p.96, grifo meu). Assumindo uma postura remediadora de alguns males sociais, essa parcela da burguesia pretende despolitizar as lutas sociais de cunho revolucion\u00e1rio, colocando a ordem burguesa como natural e mitificando a exist\u00eancia das diferentes classes sociais. Essa quest\u00e3o ser\u00e1 mencionada melhor no item \u201cO canto da sereia: a solidariedade neoliberal\u201d.<\/p>\n<p>11 \u00c9 necess\u00e1rio responder a ideia de ess\u00eancia e natureza humana, uma vez que a propriedade privada \u2013 dos meios de produ\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 o elemento determinante da solidariedade na sociedade de classes, porque ela \u00e9 o fundamento ontol\u00f3gico da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>12 A express\u00e3o \u201cface mais humana\u201d tem origem no livro de Bernardo Kliksberg, \u201cPor uma economia de face mais humana\u201d, editado pela UNESCO em 2003. Este livro \u00e9 uma (suposta) cr\u00edtica ao neoliberalismo. Todavia, em regra, tal lema defende os mesmos objetivos, mas por vias mais moderadas. Por exemplo, a ampla atua\u00e7\u00e3o humana nas resolu\u00e7\u00f5es dos conflitos e problemas sociais a partir da ideia de capital social.<\/p>\n<p>13 Sobre isso, consultar: LUK\u00c1CS, Gyorgy. A decad\u00eancia ideol\u00f3gica e as condi\u00e7\u00f5es gerais da pesquisa.1992 In: Paulo NETTO; COUTINHO, Carlos Nelson (orgs.) Luk\u00e1cs. 2.ed. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1992. pb.109-131.<\/p>\n<p>14 Sobre essa caracter\u00edstica da ci\u00eancia burguesa, de atribuir os problemas da sociedade a outros motivos que n\u00e3o sua pr\u00f3pria l\u00f3gica, cabe ressaltar que a cr\u00edtica se refere: \u201c[&#8230;] \u00e0 ci\u00eancia social burguesa em seu conjunto. [&#8230;] Pois, afinal, o que faz essa ci\u00eancia sen\u00e3o atribuir os males sociais ora \u00e0 imperfei\u00e7\u00e3o humana, ora \u00e0 falta de recursos, a falha administrativas, \u00e0 falta de vontade pol\u00edtica, \u00e0 insensibilidade do governo e\/ou das classes dominantes, \u00e0 indol\u00eancia dos pr\u00f3prios pobres, \u00e0 falta de educa\u00e7\u00e3o, a pol\u00edticas sociais equivocadas, \u00e0 falta de assist\u00eancia. Enfim, nenhuma novidade decisiva em rela\u00e7\u00e3o a 400 anos atr\u00e1s\u201d (TONET, 2010, p.14).<\/p>\n<p>15 Os neoliberais, apesar de terem sua concep\u00e7\u00e3o sobre o papel do Estado bem definida quanto a n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es sociais, admitem algumas poucas a\u00e7\u00f5es em casos espec\u00edficos. Por exemplo, as pol\u00edticas \u201cfocalizadas\u201d como pol\u00edticas de cotas foram defendidas por v\u00e1rios deles. A\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em casos de cat\u00e1strofes naturais, dentre outras a\u00e7\u00f5es pontuais e fragmentadas.<\/p>\n<p>16 \u00c9 preciso ter claro uma rela\u00e7\u00e3o decisiva: ao mesmo tempo que \u00e9 necess\u00e1rio tencionar o Estado por pol\u00edticas sociais, aumento salarial, etc. em \u00faltima an\u00e1lise, s\u00f3 com a aboli\u00e7\u00e3o do Estado (como condi\u00e7\u00e3o essencial) ser\u00e1 poss\u00edvel p\u00f4r fim a sociedade (e solidariedade) burguesa.<\/p>\n<p>17 O cidad\u00e3o \u201csolid\u00e1rio\u201d opera do ponto de vista da base material (forma de sociedade) que d\u00e1 origem e reproduz as manifesta\u00e7\u00f5es que ele denuncia e diz combater. \u00c9 um personagem de Cervantes lutando em montes e vales contra moinhos de vento que ele acredita serem os monstros.<\/p>\n<p>18 Apesar das diversas discord\u00e2ncias com as posi\u00e7\u00f5es de Wright (2010) \u2013 Como ser anticapitalista no s\u00e9culo XXI? \u2013 seu texto tem uma contribui\u00e7\u00e3o importante a esse debate.<\/p>\n<p>19 S\u00e3o os valores que fazem as pessoas assumirem posturas pol\u00edticas em determinados assuntos. \u00c9 por acreditar na democracia, solidariedade, ou liberdade que elas entram em grupos, igrejas ou partidos para lutar por aquilo que acreditam. Por isso, a radicaliza\u00e7\u00e3o dos valores \u00e9 tarefa fundamental. \u00c9 preciso contribuir com a passagem da consci\u00eancia imediata da \u201cliberdade\u201d na perspectiva burguesa para a perspectiva revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>20 Como disse o poeta curitibano: \u201cna luta de classes, todas as armas s\u00e3o boas: pedras, noite e poemas\u201d.<\/p>\n<p>21 Sobre isso Mauro Iasi \u00e9 pontual: \u201choje, como antes, a luta de classes se expressa tamb\u00e9m como uma luta entre valores, entre concep\u00e7\u00f5es de mundo, entre ideias sobre uma base material em constante mudan\u00e7a. A burguesia construiu sobre sua autonomia de classe uma autonomia hist\u00f3rica atrav\u00e9s de um conjunto de valores que desempenham o duplo papel de a diferenciar da ordem feudal ao mesmo tempo em que apresentavam seus interesses particulares como universais. O proletariado hoje ao mesmo tempo em que luta por sua autonomia de classe deve saber constituir um conjunto de valores que edifiquem uma vis\u00e3o de mundo que desempenhe o mesmo papel duplo, ou seja, garanta sua autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia e apresente seus interesses de forma a conquistar o papel de \u201ccabe\u00e7a e cora\u00e7\u00e3o\u201d (IASI, 2002, p.32).<\/p>\n<p>22 BLAIR, Tony; SCHROEDER, Gerhard. Europa: A Terceira Via \/ O novo centro. 1999.<\/p>\n<p>23 Anthony Giddens, nascido em 1938, \u00e9 o principal organizador da teoria pol\u00edtica da Terceira Via. Ele foi assessor do ex-primeiro-Ministro ingl\u00eas Tony Blair e passou a ocupar em 1996 o cargo de reitor da London School of Economics. O construto te\u00f3rico da Terceira Via est\u00e1 organizado especialmente em tr\u00eas obras de Anthony Giddens: Para Al\u00e9m da Esquerda e da Direita: o futuro da pol\u00edtica radical (1996), A Terceira Via: reflex\u00f5es sobre o impasse pol\u00edtico atual e o futuro da social-democracia (2001) e A Terceira Via e seus cr\u00edticos (2001b).<\/p>\n<p>24 Stiglitz atuou como professor e pesquisador em Oxford e Cambridge, na Inglaterra, e Princeton, Stanford e Columbia, nos Estados Unidos. Entre os anos de 1993 e 1997 ocupou o posto de chefe do conselho de assessores econ\u00f4micos do governo Bill Clinton, na Presid\u00eancia dos Estados Unidos. A partir de 1997, assumiu a cadeira de economista-chefe do Banco Mundial, de onde saiu em 2000, depois de criticar publicamente as pol\u00edticas adotadas tanto pelo pr\u00f3prio banco quanto pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional. Ele discordava dos modelos neoliberais impostos aos pa\u00edses em desenvolvimento, que n\u00e3o consideravam priorit\u00e1rios os aspectos humanos. Al\u00e9m disso, foi pr\u00eamio Nobel de economia em 2001. Atuou no Banco mundial de 1997-2000. Escreveu um livro intitulado: A globaliza\u00e7\u00e3o e seus malef\u00edcios: a promessa n\u00e3o cumprida de benef\u00edcios globais.<\/p>\n<p>25 Apesar de se dizerem opositores do neoliberalismo, compreendo que eles se distanciam apenas em algumas posi\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas, mantendo o n\u00facleo duro do neoliberalismo intacto. Por isso, concordo com as an\u00e1lises de Martins (2009) que os enuncia como neoliberais de Terceira Via, ou social liberais como descreve Castelo (2013).<\/p>\n<p>26 Conforme Monta\u00f1o (2010, p.22) \u201c[&#8230;] o que \u00e9 chamado terceiro setor refere-se na verdade a um fen\u00f4meno real inserido na e produto da reestrutura\u00e7\u00e3o do capital, pautado nos (ou funcional aos) princ\u00edpios neoliberais: um novo padr\u00e3o (nova modalidade, fundamento e responsabilidades) para a fun\u00e7\u00e3o social de respostas \u00e0s sequelas da \u2018quest\u00e3o social\u2019, seguindo os valores da solidariedade volunt\u00e1ria e local, da auto-ajuda e da ajuda-m\u00fatua\u201d.<\/p>\n<p>27 Para Giddens, este decl\u00ednio c\u00edvico \u00e9, especialmente, um decl\u00ednio moral.<\/p>\n<p>28 Uma comunidade de indiv\u00edduos aut\u00f4nomos seria autossuficiente e, portanto, n\u00e3o precisaria de uma interven\u00e7\u00e3o estatal. A terceira Via buscou ent\u00e3o forjar um determinado tipo de pol\u00edtica para a cria\u00e7\u00e3o da subjetividade de um cidad\u00e3o deste tipo, por isso ela deixa que \u201cos indiv\u00edduos e os grupos fa\u00e7am as coisas acontecerem, em vez de receb\u00ea-las j\u00e1 prontas\u201d (GIDDENS, 2001b, p.321-322). Quando a classe trabalhadora falava em autonomia, os neoliberais destorceram e lhe deram precariza\u00e7\u00e3o em forma de autonomia.<\/p>\n<p>29 Ver sobre isso o item IV, da Lei geral da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, no livro primeiro do Capital em que Marx debate o car\u00e1ter antag\u00f4nico da acumula\u00e7\u00e3o capitalista: \u201cela ocasiona uma acumula\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria correspondente \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de capital. Portanto, a acumula\u00e7\u00e3o de riqueza num polo \u00e9, ao mesmo tempo, a acumula\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria, o supl\u00edcio do trabalho, a escravid\u00e3o, a ignor\u00e2ncia, a brutaliza\u00e7\u00e3o e a degrada\u00e7\u00e3o moral no polo oposto (MARX, 2013, p.721, grifo nosso).<\/p>\n<p>30 Conforme Monta\u00f1o (2010, p.22) \u201c[&#8230;] o que \u00e9 chamado terceiro setor refere-se na verdade a um fen\u00f4meno real inserido na e produto da reestrutura\u00e7\u00e3o do capital, pautado nos (ou funcional aos) princ\u00edpios neoliberais: um novo padr\u00e3o (nova modalidade, fundamento e responsabilidades) para a fun\u00e7\u00e3o social de respostas \u00e0s sequelas da \u2018quest\u00e3o social\u2019, seguindo os valores da solidariedade volunt\u00e1ria e local, da auto-ajuda e da ajuda-m\u00fatua\u201d.<\/p>\n<p>31 O cidad\u00e3o \u00e9 um volunt\u00e1rio da ordem burguesa, \u00e9 um sujeito altru\u00edsta e colaborador que, ao inv\u00e9s de reivindicar direitos, realiza a\u00e7\u00f5es em benef\u00edcios de terceiros, da comunidade e do pa\u00eds sem se envolver com pol\u00edtica. \u00c9 aquele que preza pelo bem comum de maneira ativa e criativa, sem esperar a interven\u00e7\u00e3o do aparelho de Estado para o enfrentamento dos problemas sociais. Este tipo de sujeito, solid\u00e1rio e voluntario, se constitui numa das mais importantes express\u00f5es da nova sociabilidade constitu\u00edda com o neoliberalismo no Brasil.<\/p>\n<p>32 A solidariedade nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho aumenta a produtividade e evitam problemas que influenciem na produ\u00e7\u00e3o das mercadorias. Em seu estudo \u201cracismo, machismo, capitalismo identit\u00e1rio: as estrat\u00e9gias das empresas para quest\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a e sexualidade\u201d Pablo Polese d\u00e1 indicativos de como tem sido lucrativo para as empresas prestar solidariedade as lutas anti-opress\u00f5es, inclusive as incorporando, como fatores de crescimento e maior produtividade.<\/p>\n<p>33<\/p>\n<p>Express\u00e3o usada por Val\u00e9rio Arcary em seu texto sobre cotas raciais: ARCARY, Val\u00e9rio. Por que as cotas s\u00e3o uma proposta mais igualitarista que a equidade meritocr\u00e1tica? Cr\u00edtica Marxista, S\u00e3o Paulo, Ed. Revan, v.1, n.24, 2007, p.106-109.<\/p>\n<p>34 Angela Davis comenta que, historicamente nos EUA, a luta pela igualdade racial era tida como \u201ccoisa de comunista\u201d e que diversos nomes importantes da luta contra o racismo eram tachados de comunistas, de forma pejorativa, como tentativa de desqualifica\u00e7\u00e3o ao melhor estilo do Macarthismo, tentando ligar antirracistas e comunistas a uma imagem de criminosos, subversivos e traidores da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>35 Assim como tratado no mais importante filme sobre essa hist\u00f3ria: \u201cMississipi em Chamas\u201d, de Alan Parker, com Willem Dafoe.<\/p>\n<p>36 O filme mostra como \u00e9 preciso construir o imagin\u00e1rio de quem \u00e9 o inimigo, como ele fala, se veste e \u2013 principalmente \u2013 com quem ele anda. Um branco que anda com negros s\u00f3 pode ser comunista. O que se comprova em outra cena, quando um representante do Estado fala sobre o aqueles que est\u00e3o \u201cdestruindo a ordem\u201d e a liberdade com manifesta\u00e7\u00f5es, marchas e protestos: &#8220;N\u00e3o s\u00e3o americanos brancos, e sim comunistas&#8221;.<\/p>\n<p>37 Sobre a express\u00e3o \u201ccolete moral\u201d, ver o document\u00e1rio \u201cCuba e o Cameraman\u201d, de Jon Alpert (2017). O document\u00e1rio, exibido pela primeira vez no 74\u00ba Festival Internacional de Cinema de Veneza, conta que, em 1959, Fidel estava a caminho dos EUA e foi questionado sobre estar ou n\u00e3o usando seu colete a prova de balas. Instantaneamente, o comandante respondeu, abrindo a camiseta e com o peitoral \u00e0 mostra sem prote\u00e7\u00e3o: \u201cvou desembarcar assim em Nova York. Tenho um colete moral!\u201d<\/p>\n<p>38 Guerrilheiros Cubanos (mais de 200 mil) combateram em Angola, contra for\u00e7as dos colonialistas da \u00c1frica do Sul. Em sua maioria volunt\u00e1rios (VISENTINI, 2012). Cuba ajudou Angola at\u00e9 mesmo ap\u00f3s a vit\u00f3ria do MPLA: \u201cSem a interven\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e dos seus aliados nas lutas da \u00c1frica Austral, a liberta\u00e7\u00e3o desta regi\u00e3o seria provavelmente ainda mais retardada, em ao menos uma gera\u00e7\u00e3o. As armas aperfei\u00e7oadas utilizadas pelos africanos na \u00c1frica Austral \u2013 especialmente os m\u00edsseis solo\u2011ar empregados nas guerras do Zimb\u00e1bue \u2013 provieram em geral de pa\u00edses socialistas. Quanto \u00e0 interven\u00e7\u00e3o das tropas cubanas na luta em defesa da soberania de Angola, tratou\u2011se aqui do maior apoio externo j\u00e1 prestado em uma guerra de liberta\u00e7\u00e3o africana (MAZRUI, 2010, p.143, grifo meu).<\/p>\n<p>39 Citado em: LAMRANI, Salim. Fidel Castro, internacionalista solid\u00e1rio. 2015. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.sintesecubana.com.br\/2015\/04\/fidel-castro-internacionalista-solidario.html?fbclid=IwAR1G3Rj5rPMpMzsTmpQhVjfD9ZRHQ0eKrJaTtZ06CYrxnaBVCfrY3BPwaxg&gt;. Acesso em: 26 fev. 2020.<\/p>\n<p>40 Solidariedade de classe pressup\u00f5e uma identidade ligada \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais e a uma consci\u00eancia \u2013 por parte dos militantes comunistas \u2013 de classe para si. \u00c9 a nossa identidade que solidifica a identifica\u00e7\u00e3o com a causa e d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0s a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>41 Mateiros, pessoas que sabiam os caminhos da mata, contribu\u00edram com os militares na ca\u00e7a de Osvald\u00e3o. Alguns foram for\u00e7ados, outros n\u00e3o.<\/p>\n<p>42 Como dizem Marx e Engels na obra a Ideologia Alem\u00e3: \u201caquilo que eles [indiv\u00edduos] s\u00e3o coincide, portanto, com a sua produ\u00e7\u00e3o, com o que produzem e tamb\u00e9m como produzem. Aquilo que os indiv\u00edduos s\u00e3o depende, portanto, das condi\u00e7\u00f5es materiais da sua produ\u00e7\u00e3o\u201d (MARX; ENGELS, 2009, p.25, grifo nosso).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28480\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"Uma das palavras de ordem mais utilizadas \u00e9 a de \u201cSolidariedade de classe\u201d. 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