{"id":28498,"date":"2022-02-27T15:00:08","date_gmt":"2022-02-27T18:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28498"},"modified":"2022-02-28T15:19:40","modified_gmt":"2022-02-28T18:19:40","slug":"feminismo-classista-futuro-socialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28498","title":{"rendered":"Declara\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica da I Confer\u00eancia Nacional do CFCAM"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/IMG-20220227-WA0020.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Feminismo Classista! Futuro Socialista!<br \/>\nDeclara\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica da I Confer\u00eancia Nacional de Organiza\u00e7\u00e3o do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro (CFCAM)<\/strong><\/p>\n<p>O Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro realizou, entre 21 e 23 de janeiro de 2022, a sua I Confer\u00eancia Nacional de Organiza\u00e7\u00e3o. Foi um momento de importantes debates sobre a organiza\u00e7\u00e3o do nosso Coletivo, bem como sobre o feminismo classista e a constru\u00e7\u00e3o das media\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas para a Revolu\u00e7\u00e3o Socialista. Tivemos a participa\u00e7\u00e3o de militantes das cinco regi\u00f5es do pa\u00eds, que constroem o Coletivo, que tem se ampliado e se inserido cada dia mais na vida das mulheres trabalhadoras.<\/p>\n<p>Concretizamos essa confer\u00eancia em um marco muito importante para as lutas comunistas no Brasil. Neste ano comemoramos o Centen\u00e1rio do Partido Comunista Brasileiro e sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica nas lutas e na organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora brasileira. O CFCAM \u00e9 fruto das batalhas de mulheres comunistas que foram protagonistas nacional e internacionalmente no partido, em greves, paralisa\u00e7\u00f5es, ocupa\u00e7\u00f5es urbanas, ligas camponesas, sindicatos, jornais, organiza\u00e7\u00f5es art\u00edsticas\/culturais e nas organiza\u00e7\u00f5es espec\u00edficas das mulheres. Ana Montenegro, Maria Arag\u00e3o, Laudelina Campos, Patr\u00edcia Galv\u00e3o, Arcelina Mochel, Iracema Ribeiro, Zuleika Alambert, Maria Brand\u00e3o dos Reis, Jacinta Passos, Zuleide Melo s\u00e3o alguns nomes que permeiam nossa mem\u00f3ria e que nos deixam importantes experi\u00eancias e produ\u00e7\u00f5es intelectuais a serem colhidas e usadas para a reflex\u00e3o sobre o nosso presente e o devir. Em nossa confer\u00eancia, recebemos sauda\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00f5es comunistas internacionais e homenageamos a grande camarada e dirigente Mercedes Lima, que prop\u00f4s a funda\u00e7\u00e3o do Coletivo.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, a quest\u00e3o central, aquela que guia nossas an\u00e1lises e nossa a\u00e7\u00e3o, \u00e9 a luta pelo fim da explora\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, contra a domina\u00e7\u00e3o e opress\u00f5es perpetuadas pelo modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. O feminismo classista parte do entendimento de que as rela\u00e7\u00f5es sociais de classe, sexo\/g\u00eanero e ra\u00e7a\/etnia, est\u00e3o historicamente interligadas ao desenvolvimento do capitalismo, portanto, n\u00e3o podem ser analisadas e compreendidas separadamente. A vida das mulheres trabalhadoras, cis e trans, LBTs, PcDs, do campo e da cidade, ind\u00edgenas, quilombolas, ribeirinhas, das periferias urbanas est\u00e3o no centro das lutas comunistas. A media\u00e7\u00e3o entre as pautas imediatas, que perpassam a manuten\u00e7\u00e3o da vida e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, alimenta\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia, transporte e a estrat\u00e9gia socialista, orientam nossa organiza\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o do poder popular.<\/p>\n<p>Compreendermos que a l\u00f3gica liberal do empreendedorismo e empoderamento agem na contram\u00e3o da emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres da classe trabalhadora ao deslocarem a supera\u00e7\u00e3o das opress\u00f5es, fundadas na estrutura social de classes, para a cria\u00e7\u00e3o de alternativas individuais atrelada aos interesses do capital. O liberalismo busca cooptar as lutas hist\u00f3ricas das mulheres vendendo a ideia do empreendedorismo como solu\u00e7\u00e3o para um problema coletivo, criando ilus\u00f5es de que \u00e9 poss\u00edvel reverter a ordem social pela via do mercado. Sabemos que essa \u00e9 mais uma estrat\u00e9gia do capital para manter a domina\u00e7\u00e3o de classes e que as reais transforma\u00e7\u00f5es das nossas vidas s\u00f3 ser\u00e3o efetivas a partir da organiza\u00e7\u00e3o coletiva e da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A m\u00e1xima \u201cSocialismo ou Barb\u00e1rie\u201d, expressa por Rosa Luxemburgo, mostra-se cada vez mais verdadeira com a expans\u00e3o do capital por todas as partes do planeta e com a amplia\u00e7\u00e3o de seu ritmo de explora\u00e7\u00e3o e de expropria\u00e7\u00f5es. A pandemia de Covid-19 n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma das dr\u00e1sticas consequ\u00eancias da forma predat\u00f3ria do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Em nossa confer\u00eancia, reafirmamos o car\u00e1ter anticapitalista e anti-imperialista de nossas lutas e nossa irrestrita solidariedade internacional com a classe trabalhadora em todo o mundo. Assim, apontamos a import\u00e2ncia da constru\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o das for\u00e7as socialistas e comunistas na Federa\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Internacional de Mulheres (FDIM), organiza\u00e7\u00e3o internacional que somos filiadas.<\/p>\n<p>No Brasil, estamos vivenciando um combo mortal para classe trabalhadora: uma crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e sanit\u00e1ria que j\u00e1 levou \u00e0 morte cerca de 650 mil brasileiras e brasileiros. A crise brasileira \u00e9 parte da crise capitalista global, com as particularidades de um pa\u00eds perif\u00e9rico e com economia subordinada aos grandes centros do capitalismo internacional.<\/p>\n<p>O acirramento das contradi\u00e7\u00f5es capitalistas no Brasil teve como resposta a elei\u00e7\u00e3o de um governo que pudesse promover de forma ainda mais acelerada as reformas e medidas a favor da burguesia, intensificando a explora\u00e7\u00e3o sobre os\/as trabalhadores\/as. Ou seja, o governo reacion\u00e1rio de Bolsonaro, Mour\u00e3o e Guedes, com suas medidas ultraliberais e protofascistas, \u00e9 a express\u00e3o das formas que podem ganhar o Estado Burgu\u00eas em momentos de crise. A desvincula\u00e7\u00e3o desse governo com os projetos da burguesia e\/ou sua apresenta\u00e7\u00e3o como um total rompimento com as medidas liberais dos governos de concilia\u00e7\u00e3o de classes anteriores, representados principalmente pelo Partido dos Trabalhadores, refor\u00e7a o v\u00e9u ideol\u00f3gico que mant\u00e9m a domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Este governo se elegeu sobre as bases de um discurso crist\u00e3o fundamentalista, reacion\u00e1rio e anticomunista, que encontrou terreno f\u00e9rtil no interior de uma classe trabalhadora apaziguada e afastada das lutas. Os governos petistas de coaliz\u00e3o t\u00eam responsabilidade nesta crise, pois desenvolveram uma pol\u00edtica de fortalecimento do capitalismo e n\u00e3o realizaram as medidas necess\u00e1rias para promover mudan\u00e7as estruturais no pa\u00eds em favor da classe trabalhadora, limitando-se a implementar pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social para os setores mais pobres da popula\u00e7\u00e3o, como no caso do programa Bolsa Fam\u00edlia, e a ampliar o consumo atrav\u00e9s do aumento da oferta do cr\u00e9dito e endividamento das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, chegamos a 2022 com a situa\u00e7\u00e3o brasileira ca\u00f3tica. O pa\u00eds est\u00e1 devastado pela pandemia e pela pol\u00edtica assassina do governo federal no combate \u00e0 Covid-19, sobretudo, dentro do campo econ\u00f4mico e sanit\u00e1rio. O Produto Interno Bruto (PIB) acumulou dois trimestres de queda: o terceiro trimestre de 2021 variou -0,1% em rela\u00e7\u00e3o ao segundo, que j\u00e1 havia ca\u00eddo -0,4% em rela\u00e7\u00e3o aos tr\u00eas primeiros meses do ano, o que mostra um momento de recess\u00e3o. Apesar de o PIB n\u00e3o refletir diretamente as condi\u00e7\u00f5es de vida da classe trabalhadora, \u00e9 importante observar que estamos em um momento de recess\u00e3o. Em geral esses impactos s\u00e3o repassados para os\/as trabalhadores\/as, com redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios, demiss\u00f5es e infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No \u00faltimo trimestre de 2020, 8,5 milh\u00f5es de mulheres perderam seus postos de trabalho e, mesmo com uma melhora do quadro da pandemia, esses empregos n\u00e3o t\u00eam sido recuperados. A redu\u00e7\u00e3o recente na taxa de desemprego geral foi devido, principalmente, ao aumento de empregos informais. O Brasil retornou para o mapa da fome, tem hoje metade de sua popula\u00e7\u00e3o em inseguran\u00e7a alimentar e cerca de 19 milh\u00f5es em situa\u00e7\u00e3o de fome. Pessoas na fila para conseguir carca\u00e7as de ossos, homens negros mortos por roubar carne em mercado para comer, mulheres alimentando seus filhos com restos encontrados em lix\u00f5es tornaram-se cenas cotidianas da vida de milh\u00f5es de pessoas. Por outro lado, a restri\u00e7\u00e3o alimentar causa o aumento da ingest\u00e3o de alimentos ultraprocessados, com baixo teor nutricional e o aumento da obesidade. Estudo da UNICEF mostrou que 72% das crian\u00e7as de fam\u00edlias vulner\u00e1veis deixaram de comer por falta de dinheiro, e a obesidade infantil afeta 3,1 milh\u00f5es de crian\u00e7as no Brasil.<\/p>\n<p>Os aumentos dos pre\u00e7os dos \u00edtens b\u00e1sicos t\u00eam se mantido em 17 capitais do pa\u00eds. Em algumas capitais, como Florian\u00f3polis, a cesta b\u00e1sica estava custando em novembro de 2021 o equivalente a 69,8% do valor do sal\u00e1rio m\u00ednimo l\u00edquido! Os cont\u00ednuos aumentos nos valores da energia el\u00e9trica e do botij\u00e3o de g\u00e1s est\u00e3o diretamente relacionados com o quadro de fome e com as privatiza\u00e7\u00f5es em curso no pa\u00eds, especialmente de setores estrat\u00e9gicos, como a Petrobr\u00e1s e Eletrobr\u00e1s.<\/p>\n<p>Com a morte de in\u00fameros idosos, milhares de fam\u00edlias no pa\u00eds perderam sua renda m\u00ednima que era a aposentadoria de av\u00f3s e cerca de 12.000 crian\u00e7as ficaram \u00f3rf\u00e3s, tendo perdido pais e m\u00e3es devido \u00e0 Covid-19. O sistema de sa\u00fade hoje precisa lidar com tr\u00eas epidemias: a H3N2 e as variantes delta e \u00f4micron. Somando-se a isso, tamb\u00e9m tem prestado cuidado aos pacientes com sequelas de Covid-19, que atingem em torno da metade dos infectados e pessoas em condi\u00e7\u00f5es carentes, com piores condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade. A nega\u00e7\u00e3o das medidas cient\u00edficas de controle, assim como a manuten\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o de medidas restritivas aos gastos p\u00fablicos, como a EC 95, impede a expans\u00e3o do SUS, dos servi\u00e7os de assist\u00eancia social e piora ainda mais as condi\u00e7\u00f5es de trabalho. N\u00e3o podemos esquecer que mais de 70% dos trabalhadores do Sistema \u00danico de Sa\u00fade s\u00e3o mulheres, que n\u00e3o s\u00e3o super hero\u00ednas como apresentado pelas redes televisivas e t\u00eam enfrentado adoecimentos m\u00faltiplos devido a esse quadro.<\/p>\n<p>Toda a classe trabalhadora tem sofrido com o alto \u00edndice de desemprego, com a informalidade, com a perda de direitos trabalhistas, contudo, a situa\u00e7\u00e3o para as mulheres, principalmente para as negras, ind\u00edgenas e LGBT, \u00e9 ainda pior. Segundo os dados da PNAD cont\u00ednua, a taxa de desemprego foi de 17,1% para as mulheres no segundo trimestre de 2021 e de 11,7% para os homens, um dos piores resultados da pesquisa desde 2016. A diferen\u00e7a que j\u00e1 era historicamente grande na taxa de desocupa\u00e7\u00e3o foi ampliada durante a crise sanit\u00e1ria, pois setores ocupados majoritariamente por mulheres sofreram um impacto maior durante a pandemia, como servi\u00e7os pessoais (cabeleireiros e manicures, por exemplo), dom\u00e9sticos remunerados, com\u00e9rcio em geral, alimenta\u00e7\u00e3o e alojamento. Isso evidencia que o aumento das mulheres no mercado de trabalho no Brasil se deu principalmente nos trabalhos an\u00e1logos \u00e0s tarefas dom\u00e9sticas e em situa\u00e7\u00f5es mais prec\u00e1rias.<\/p>\n<p>Apesar das lutas constantes das mulheres, a divis\u00e3o sexual do trabalho, mesmo com novas caracter\u00edsticas, se mant\u00e9m como elemento central para a reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e para a manuten\u00e7\u00e3o do capital e do patriarcado. As mulheres continuam ganhando menos que os homens, apesar de acumularem mais tempo de estudos \u2013 sendo que as negras e ind\u00edgenas recebem sal\u00e1rios ainda menores, quando est\u00e3o empregadas. Por outro lado, o cuidado dom\u00e9stico e dos filhos ainda est\u00e1 nas costas das mulheres, que acumulam m\u00faltiplas jornadas. Quando estudam e se organizam politicamente, essa sobrecarga \u00e9 ainda mais ampliada. A seletividade excludente na admiss\u00e3o de empregos devido \u00e0 maternidade, o cuidado familiar exclusivo (a maioria das chefes de fam\u00edlia s\u00e3o mulheres) e a ocupa\u00e7\u00e3o dos postos de trabalho mais precarizados s\u00e3o outros problemas centrais para as mulheres.<\/p>\n<p>O trabalho dom\u00e9stico \u00e9 uma ocupa\u00e7\u00e3o majoritariamente feminina e tem as menores m\u00e9dias salariais do pa\u00eds. Dados mostram que 7,2 milh\u00f5es de trabalhadoras dom\u00e9sticas, em sua maioria negras, t\u00eam filhos e baixa escolaridade. \u00c9 a terceira maior categoria de trabalhadores do Brasil, e mais de 73% vivem na informalidade. N\u00e3o por acaso, a primeira pessoa a morrer nesta pandemia foi uma mulher negra, trabalhadora dom\u00e9stica, que foi contaminada pela Covid-19 devido \u00e0 transmiss\u00e3o da patroa, que havia chegado de f\u00e9rias na It\u00e1lia. Recentemente foram denunciados na Bahia mais de 12 casos de trabalhadoras dom\u00e9sticas que viviam em c\u00e1rcere privado, ap\u00f3s uma delas conseguir fugir da casa dos patr\u00f5es que a mantinham nessa condi\u00e7\u00e3o. Neste per\u00edodo, as den\u00fancias de abusos e falta de pagamentos na FENATRAD (Federa\u00e7\u00e3o Nacional das Trabalhadoras Dom\u00e9sticas) aumentaram 60% nos sindicatos estaduais.<\/p>\n<p>Os povos ind\u00edgenas foram um dos segmentos mais afetados pela crise sanit\u00e1ria. N\u00e3o bastasse isso, a agenda anti-ind\u00edgena do Congresso Nacional tentou aprovar o Marco Temporal (PL 490), que dificulta ainda mais a demarca\u00e7\u00e3o das terras dos povos origin\u00e1rios, facilitando a invas\u00e3o de garimpeiros e a explora\u00e7\u00e3o do meio ambiente. Recentemente, tamb\u00e9m nos deparamos com o crime b\u00e1rbaro cometido contra Daiana Gri\u00e1 Sales, 14 anos, ind\u00edgena Kaing\u00e1ng, moradora do Setor Bananeiras da Terra Ind\u00edgena do Guarita, que foi encontrada morta em uma lavoura com as suas partes \u00edntimas dilaceradas.<\/p>\n<p>As reformas trabalhistas e da previd\u00eancia, junto com a retirada de outros direitos durante a pandemia, facilitaram o ass\u00e9dio moral e as viol\u00eancias f\u00edsicas e sexuais no trabalho, nos lares e nos espa\u00e7os p\u00fablicos, ao diminuir ou retirar a autonomia financeira de milhares de mulheres. Durante a pandemia, os casos de feminic\u00eddio aumentaram, enquanto as notifica\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia dom\u00e9stica reduziram. Isso representa a desassist\u00eancia nos servi\u00e7os de den\u00fancia e acolhimento \u00e0s mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia. A popula\u00e7\u00e3o trans vive situa\u00e7\u00f5es extremamente alarmantes, com uma m\u00e9dia de vida de 35 anos devido \u00e0 transfobia. Somente no primeiro semestre de 2021, 89 pessoas trans foram mortas, sendo 80 assassinatos e nove suic\u00eddios, segundo a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).<\/p>\n<p>As mulheres da classe trabalhadora ainda precisam enfrentar elementos ultraconservadores, encabe\u00e7ados pela Ministra Damares. A falsa luta contra a viol\u00eancia \u00e0s mulheres est\u00e1 ligada a um grande retrocesso nas pol\u00edticas de sa\u00fade para as mesmas e com tentativas de avan\u00e7ar ainda mais na retirada dos direitos reprodutivos, a fim de criminalizar o aborto em todas as situa\u00e7\u00f5es, inclusive quando apresentam risco para a vida das mulheres e em situa\u00e7\u00f5es de estupro. Isso vai na contram\u00e3o dos avan\u00e7os que temos tido na Am\u00e9rica Latina, onde os movimentos de mulheres e feministas pela legaliza\u00e7\u00e3o do aborto t\u00eam se fortalecido e avan\u00e7ado, for\u00e7ando os mecanismos institucionais do Estado a revogar suas leis criminat\u00f3rias e a legalizar o aborto. A legaliza\u00e7\u00e3o na Argentina e mais recentemente na Col\u00f4mbia s\u00e3o grandes vit\u00f3rias de nossas hermanas e de todas as mulheres do mundo.<\/p>\n<p>O Brasil concentra o maior n\u00famero de mortes de gestantes e pu\u00e9rperas por Covid-19 no mundo, 77% das mulheres que morreram nesse perfil s\u00e3o brasileiras. O \u00edndice de mortalidade materna no Brasil \u00e9 alto e a pandemia agravou esse problema de sa\u00fade p\u00fablica em nosso pa\u00eds, principalmente devido \u00e0 restri\u00e7\u00e3o de acesso aos servi\u00e7os. Mulheres negras totalizam no geral 65% dos \u00f3bitos maternos, o que mostra a marca do racismo estrutural. A maioria das mortes maternas s\u00e3o evit\u00e1veis e s\u00e3o consequ\u00eancia de atendimento pr\u00e9-natal de baixa qualidade ou escasso, da falta de recursos para cuidados cr\u00edticos e de emerg\u00eancia, dificuldade de acesso aos servi\u00e7os pr\u00e9-natal e a salas de parto e devido \u00e0 viol\u00eancia obst\u00e9trica.<\/p>\n<p>Diante desse quadro, a organiza\u00e7\u00e3o das lutas das mulheres e de toda a classe trabalhadora em n\u00edvel nacional e internacional \u00e9 urgente. No \u00faltimo ano, houve um acirramento dos conflitos e das manifesta\u00e7\u00f5es de rua no Brasil. As mobiliza\u00e7\u00f5es for\u00e7aram o governo a acelerar a vacina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, que come\u00e7ou no pa\u00eds muito atrasada diante de outros pa\u00edses do mundo e do aparato p\u00fablico que o SUS j\u00e1 tem instalado.<\/p>\n<p>O primeiro impulso veio a partir das manifesta\u00e7\u00f5es das torcidas antifascistas e da luta antirracista contra o genoc\u00eddio do povo negro. A esquerda mais radical foi fundamental para ampliar os atos e for\u00e7ar parte da social-democracia, que estava recuada, a ir \u00e0s ruas. Mesmo com o crescimento dos atos Fora Bolsonaro nas capitais, nos interiores e no exterior e das fracassadas tentativas de demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a do espantalho fascista, n\u00e3o foi dado andamento a centenas de pedidos de impedimento do presidente. Os setores burgueses representados na C\u00e2mara dos Deputados optaram por manter a coaliz\u00e3o das classes dominantes e evitar poss\u00edveis instabilidades que poderiam ser causadas pelo enfrentamento ao presidente miliciano. Dessa forma, a tentativa de impeachment foi negada reiteradamente por Rodrigo Maia (DEM) e pelo atual presidente da C\u00e2mara Arthur Lira (Progressistas), aliado do governo.<\/p>\n<p>Isso refor\u00e7a a leitura de que esse governo n\u00e3o contrasta em nada com os principais setores e representantes da burguesia, que, neste momento pr\u00e9 eleitoral, tentam se diferenciar do presidente diante do aumento da insatisfa\u00e7\u00e3o popular. Ainda que em alguns momentos a gest\u00e3o da crise sanit\u00e1ria e econ\u00f4mica n\u00e3o tenha sido t\u00e3o satisfat\u00f3ria para manter as taxas de lucro de alguns setores, al\u00e9m das declara\u00e7\u00f5es de Bolsonaro terem acirrado as diverg\u00eancias pol\u00edticas em torno do governo, no geral, houve a manuten\u00e7\u00e3o da lucratividade do patronato e o arrocho na vida dos\/as trabalhadores\/as.<\/p>\n<p>Nesse momento eleitoral, o campo protofascista, ultraliberal e do partido fardado representado por Bolsonaro, Paulo Guedes e Mour\u00e3o se articula em um suposto \u201cgiro ao centro\u201d, em paralelo ao avan\u00e7o da militariza\u00e7\u00e3o do Estado em suas diversas esferas, \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o da esquerda, em especial do comunismo, e tamb\u00e9m \u00e0 retirada de direitos e precariza\u00e7\u00e3o ainda maior da vida da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>O campo democr\u00e1tico e popular tem apostado suas fichas na reelei\u00e7\u00e3o de Lula com Alckmin na vice, acenando com o apelo ao retorno do pacto de concilia\u00e7\u00e3o de classes de matiz ainda mais liberal, representado na figura do vice. Isso significa que o arrocho sobre as pol\u00edticas sociais, a retirada de direitos da classe trabalhadora, as privatiza\u00e7\u00f5es e o genoc\u00eddio sobre a popula\u00e7\u00e3o negra e pobre das periferias n\u00e3o cessar\u00e3o.<\/p>\n<p>De nossa parte, refor\u00e7amos que nossas alian\u00e7as n\u00e3o ser\u00e3o com parte dos representantes da burguesia, que nesse momento oscilam entre uma terceira via sem grandes for\u00e7as e a alian\u00e7a com o campo petista. Pelo contr\u00e1rio, apontamos que o campo pol\u00edtico que precisa ser conformado deve girar em torno de uma frente anticapitalista e anti-imperialista, com os diferentes setores da classe trabalhadora em n\u00edvel nacional e internacional.<\/p>\n<p>Dentro do campo feminista e dos movimentos de mulheres, a \u00faltima d\u00e9cada tem apresentado novos contornos em rela\u00e7\u00e3o ao final do s\u00e9culo XX e \u00e0 primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI. As manifesta\u00e7\u00f5es protagonizadas por mulheres no mundo e especialmente na Am\u00e9rica Latina t\u00eam ganhado mais f\u00f4lego nos \u00faltimos anos. A explos\u00e3o do movimento #NiUnaMenos na Argentina, Uruguai e Chile em 2015 e 2016, que possibilitou grandes paralisa\u00e7\u00f5es para denunciar os n\u00fameros alarmantes de feminic\u00eddios e transfeminic\u00eddios nesses pa\u00edses; a convoca\u00e7\u00e3o de uma Greve Internacional de Mulheres por feministas marxistas em 2018, a fim ampliar e dar visibilidade ao car\u00e1ter socialista e classista do 8 de mar\u00e7o e as m\u00faltiplas jornadas de trabalho das mulheres; o crescimento de manifesta\u00e7\u00f5es de mulheres contr\u00e1rias \u00e0s medidas neoliberais e as viol\u00eancias perpetradas no Chile e Col\u00f4mbia durante as massivas lutas de 2020 e 2021 e os massivos atos do #EleN\u00e3o, que reuniu milhares de manifestantes em 2018 contra o governo Bolsonaro no Brasil, s\u00e3o exemplos desses exitosos ensaios. Esses movimentos n\u00e3o t\u00eam car\u00e1ter homog\u00eaneo, por\u00e9m, mesmo na sua heterogeneidade, t\u00eam trazido no seu centro a luta contra as viol\u00eancias patriarcais e aquelas geradas pelo Estado capitalista.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o dos atos do Dia Internacional das Mulheres tamb\u00e9m tem sido um importante palco de lutas para as mulheres comunistas. Com o avan\u00e7o dos meios digitais e a comunica\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida, temos ampliado o car\u00e1ter nacional e as convoca\u00e7\u00f5es unit\u00e1rias do 8 de Mar\u00e7o no Brasil. Neste ano eleitoral, sabemos que as manifesta\u00e7\u00f5es ser\u00e3o disputadas para serem palco de campanhas de diversas for\u00e7as, principalmente do campo democr\u00e1tico e popular. Cabe a n\u00f3s feministas classistas e comunistas apontar a necessidade de aglutinar for\u00e7as em torno do combate \u00e0 fome, ao desemprego, \u00e0s privatiza\u00e7\u00f5es, \u00e0s reformas trabalhista e da previd\u00eancia, ao desmantelamento dos servi\u00e7os p\u00fablicos e ao combate \u00e0s diversas formas de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Essas lutas devem estar ligadas ao combate ao bolsonarismo, \u00e0 derrubada do governo Bolsonaro e \u00e0 necessidade urgente da reorganiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora em seus diferentes espa\u00e7os de luta, especialmente nos partidos e coletivos comunistas. Assim, entendemos que somente um feminismo que priorize o recrutamento, a organiza\u00e7\u00e3o e agita\u00e7\u00e3o das mulheres trabalhadoras, ombro a ombro com os homens de classe, pode contribuir para a supera\u00e7\u00e3o do capitalismo e de todas as viol\u00eancias patriarcais e machistas.<\/p>\n<p>Feminismo Classista! Futuro Socialista!<\/p>\n<p>Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28498\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"O feminismo classista parte do entendimento de que as rela\u00e7\u00f5es sociais de classe, sexo\/g\u00eanero e ra\u00e7a\/etnia est\u00e3o historicamente interligadas ao desenvolvimento do capitalismo - portanto, n\u00e3o podem ser analisadas e compreendidas separadamente.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[222],"class_list":["post-28498","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7pE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28498","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28498"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28498\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28498"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28498"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28498"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}