{"id":28612,"date":"2022-03-26T09:00:53","date_gmt":"2022-03-26T12:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28612"},"modified":"2022-03-25T15:40:44","modified_gmt":"2022-03-25T18:40:44","slug":"a-globalizacao-e-a-relocalizacao-do-capital-e-do-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28612","title":{"rendered":"A globaliza\u00e7\u00e3o e a relocaliza\u00e7\u00e3o do capital e do trabalho"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/mronline.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/download.jpeg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>\u2013 &#8220;A ironia do capitalismo contempor\u00e2neo \u00e9 que a busca fan\u00e1tica de custos laborais mais baixos levou o sistema ao impasse de uma crise prolongada&#8221;.<\/p>\n<p>Prabhat Patnaik [*]<\/p>\n<p>A relocaliza\u00e7\u00e3o de capital dos pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados do Norte para pa\u00edses do Sul, na era actual da globaliza\u00e7\u00e3o, tem recebido muita aten\u00e7\u00e3o; mas h\u00e1 um outro tipo de relocaliza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem despertado tanta aten\u00e7\u00e3o e que \u00e9 a do trabalho dos pa\u00edses da Europa de Leste com sal\u00e1rios comparativamente mais baixos para os pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados. De facto, uma vez que dentro da Uni\u00e3o Europeia existe geralmente livre mobilidade da m\u00e3o-de-obra, isto tornou-se um poderoso incentivo para estes pa\u00edses da Europa de Leste aderirem \u00e0 Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Alguns destes pa\u00edses come\u00e7aram a apresentar certos sintomas cl\u00e1ssicos das economias exportadoras de m\u00e3o-de-obra: decl\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o absoluta; uma mudan\u00e7a na composi\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de homens capazes em idade activa, para mulheres, crian\u00e7as e pessoas mais velhas; e uma mudan\u00e7a no car\u00e1ter da economia que passa de produtiva a receptora de remessas. O colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi seguido por uma tend\u00eancia para o despovoamento dos pa\u00edses que constitu\u00edam o seu segmento ocidental.<\/p>\n<p>Na Bulg\u00e1ria, a popula\u00e7\u00e3o diminuiu 11,5% na \u00faltima d\u00e9cada, de 7,3 milh\u00f5es para 6,5 milh\u00f5es. Na Rom\u00e9nia, a popula\u00e7\u00e3o era de 23,2 milh\u00f5es em 1990, mas diminuiu para 19,4 milh\u00f5es, ou seja, 3,8 milh\u00f5es ou 16,4%, at\u00e9 2019. A Let\u00f3nia tinha uma popula\u00e7\u00e3o de 2,38 milh\u00f5es em 2000 que havia diminu\u00eddo 18,2%, para 1,95 milh\u00f5es no in\u00edcio de 2022. O decl\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o na Litu\u00e2nia e na Ge\u00f3rgia \u00e9 da mesma ordem de grandeza durante um per\u00edodo compar\u00e1vel. Estima-se que a Ucr\u00e2nia perca um quinto da sua popula\u00e7\u00e3o entre agora e 2050.<\/p>\n<p>Este decl\u00ednio n\u00e3o se limita apenas \u00e0s antigas rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas; aflige tamb\u00e9m pa\u00edses que constitu\u00edam a antiga Jugosl\u00e1via. Desde o colapso da Iugosl\u00e1via, a B\u00f3snia e Herzegovina perdeu 24% da sua popula\u00e7\u00e3o, a S\u00e9rvia 9% e a Cro\u00e1cia 15%. Tais decl\u00ednios caracterizam tamb\u00e9m a Alb\u00e2nia e a Mold\u00e1via. De facto, os 10 principais pa\u00edses em termos de decl\u00ednio populacional s\u00e3o todos da Europa Central e Oriental; e sete destes 10 pa\u00edses foram admitidos na Uni\u00e3o Europeia. A raz\u00e3o mais importante para o decl\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 obviamente a migra\u00e7\u00e3o para o Ocidente.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que esta n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que o capitalismo testemunha uma deslocaliza\u00e7\u00e3o de capital e trabalho dentro do dom\u00ednio que controla; pelo contr\u00e1rio, tem havido tal deslocaliza\u00e7\u00e3o em todas as fases do capitalismo, excepto que os padr\u00f5es de deslocaliza\u00e7\u00e3o nas diferentes fases t\u00eam sido diferentes. No per\u00edodo anterior a meados do s\u00e9culo XIX, a deslocaliza\u00e7\u00e3o do trabalho assumiu a forma coerciva e cruel do tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico de escravos. A partir de meados do s\u00e9culo XIX, at\u00e9 \u00e0 primeira guerra mundial, a deslocaliza\u00e7\u00e3o do capital tomou a forma de investimento europeu no &#8220;novo mundo&#8221; que contribuiu para uma difus\u00e3o maci\u00e7a do capitalismo (foi financiado em grande parte pela &#8220;fuga de riqueza&#8221; das col\u00f3nias); a deslocaliza\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra durante este per\u00edodo assumiu duas formas diferentes, uma era a migra\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra europeia para o &#8220;novo mundo&#8221; (as regi\u00f5es temperadas da coloniza\u00e7\u00e3o branca) que era complementar \u00e0 migra\u00e7\u00e3o de capital, a outra era a migra\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra indiana e chinesa para as regi\u00f5es tropicais e semi-tropicais do mundo (embora tal migra\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra tropical ou semitropical fosse estritamente proibida para as regi\u00f5es temperadas). No per\u00edodo do p\u00f3s-guerra estavam em vigor controlos de capital rigorosos e, por conseguinte, a deslocaliza\u00e7\u00e3o de capital era para fins espec\u00edficos, tais como &#8220;salto de tarifas&#8221; [NT] para entrar nos mercados protegidos do terceiro mundo (ou investimentos m\u00fatuos dentro do mundo capitalista avan\u00e7ado); mas a deslocaliza\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra tomou a forma de migra\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra (em n\u00fameros controlados) de ex-col\u00f3nias ou depend\u00eancias e sat\u00e9lites para a metr\u00f3pole, tais como da \u00cdndia, Paquist\u00e3o e Antilhas para Inglaterra, da Arg\u00e9lia e Marrocos para Fran\u00e7a, e da Turquia para a Alemanha. O per\u00edodo atual, pelo contr\u00e1rio, assistiu a uma not\u00e1vel desloca\u00e7\u00e3o de capital da metr\u00f3pole para o terceiro mundo e \u00e0 migra\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra da Europa de Leste para os pa\u00edses avan\u00e7ados. A principal motiva\u00e7\u00e3o para ambas as desloca\u00e7\u00f5es do ponto de vista do capital tem sido a procura de m\u00e3o-de-obra barata.<\/p>\n<p>Ironicamente, a an\u00e1lise econ\u00f3mica burguesa convencional (&#8220;mainstream&#8221;) nem sequer reconhece a deslocaliza\u00e7\u00e3o do capital e da m\u00e3o-de-obra. Na realidade, v\u00ea a raz\u00e3o do com\u00e9rcio de bens e servi\u00e7os nesta aus\u00eancia de deslocaliza\u00e7\u00e3o de capital e de m\u00e3o-de-obra. Um pa\u00eds onde h\u00e1 mais capital por unidade de trabalho, uma vez que n\u00e3o pode exportar capital para outro pa\u00eds com menos capital por unidade de trabalho, \u00e9 suposto fazer a &#8220;pr\u00f3xima melhor coisa&#8221;, que \u00e9 exportar produtos de capital intensivo para este \u00faltimo e importar em troca produtos de m\u00e3o-de-obra intensiva. De facto, esta explica\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es comerciais, atrav\u00e9s da aus\u00eancia de deslocaliza\u00e7\u00e3o de capital e m\u00e3o-de-obra, desempenha um papel apolog\u00e9tico.<\/p>\n<p>Se a an\u00e1lise econ\u00f3mica burguesa &#8220;dominante&#8221; reconhecesse que a deslocaliza\u00e7\u00e3o de capital e trabalho ocorria sob o capitalismo, ent\u00e3o seria obrigada a explicar o com\u00e9rcio de produtos de outra forma (n\u00e3o como um substituto para a deslocaliza\u00e7\u00e3o de capital e trabalho); e esta outra forma, inter alia, seria o com\u00e9rcio com base no que era geograficamente poss\u00edvel de crescer em determinadas regi\u00f5es. Isto significaria que as regi\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o dispostas a comerciar, embora cultivem produtos de que a outra regi\u00e3o muito necessita, teriam de ser &#8220;abertas&#8221; ao com\u00e9rcio. Em suma, isso implicaria enfrentar o fen\u00f4meno do imperialismo. \u00c9 isto que \u00e9 impedido pela teoria apolog\u00e9tica do com\u00e9rcio da economia burguesa &#8220;mainstream&#8221;.<\/p>\n<p>A Gr\u00e3-Bretanha, por exemplo, foi o pa\u00eds pioneiro da revolu\u00e7\u00e3o industrial, a come\u00e7ar pela ind\u00fastria t\u00eaxtil do algod\u00e3o; mas a Gr\u00e3-Bretanha n\u00e3o pode cultivar nenhum algod\u00e3o em bruto, pelo que o pa\u00eds industrialmente pioneiro precisaria de controlo sobre terras tropicais e semi-tropicais distantes que podem produzir algod\u00e3o em bruto e lev\u00e1-los a fornecer as quantidades de que necessita. Assim, quando nos afastamos do conto de fadas do com\u00e9rcio a ocorrer de acordo com as &#8220;dota\u00e7\u00f5es de factores&#8221; numa situa\u00e7\u00e3o em que as pr\u00f3prias dota\u00e7\u00f5es de factores estavam supostamente congeladas e n\u00e3o podiam migrar atrav\u00e9s das fronteiras nacionais, ent\u00e3o o &#8220;imperialismo&#8221; torna-se imposs\u00edvel de ignorar. A economia burguesa &#8220;mainstream&#8221; faz precisamente isto: ignora o imperialismo e explica o com\u00e9rcio como o resultado de o capital e trabalho n\u00e3o serem comercializados ou relocalizados.<\/p>\n<p>Uma vez que a pr\u00f3pria Europa Ocidental tem sido atingida por elevadas taxas de desemprego, o fen\u00f3meno da imigra\u00e7\u00e3o dos seus vizinhos orientais com sal\u00e1rios mais baixos pode parecer intrigante \u00e0 primeira vista. Mas a migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre apenas para regi\u00f5es e pa\u00edses que est\u00e3o a sofrer de escassez de m\u00e3o-de-obra; num mundo caracterizado pelo desemprego em todo o lado, ainda haveria migra\u00e7\u00e3o de regi\u00f5es com sal\u00e1rios baixos para regi\u00f5es com sal\u00e1rios altos por duas raz\u00f5es: uma, o motivo da migra\u00e7\u00e3o \u00e9 dado pelo rendimento esperado que se pode ganhar em compara\u00e7\u00e3o com o rendimento actual, que j\u00e1 tem em conta a possibilidade de desemprego; e, duas, os migrantes est\u00e3o normalmente dispostos a trabalhar com sal\u00e1rios um pouco mais baixos (ou piores condi\u00e7\u00f5es de trabalho) do que a popula\u00e7\u00e3o local, de modo que as suas perspectivas de emprego tendem a ser melhores do que as da popula\u00e7\u00e3o local. Isto explica o paradoxo de que mesmo uma Europa Ocidental afectada pela crise pode atrair imigrantes da Europa Oriental que tem assistido a uma virtual estagna\u00e7\u00e3o desde o colapso do socialismo.<\/p>\n<p>Os fen\u00f3menos g\u00e9meos associados \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, de migra\u00e7\u00e3o de capitais da metr\u00f3pole para partes do terceiro mundo e de migra\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra do antigo segundo mundo para a metr\u00f3pole, t\u00eam o efeito de enfraquecer o movimento da classe trabalhadora em todo o lado. Estes fen\u00f3menos enfraquecem-na na metr\u00f3pole; enfraquecem-na tamb\u00e9m onde o capital migra (pois de outra forma escolheria um destino diferente). Enfraquecem tamb\u00e9m a posi\u00e7\u00e3o dos trabalhadores migrantes, cujas perspectivas de emprego dependem precisamente do facto de n\u00e3o estarem organizados. A n\u00edvel mundial h\u00e1 assim uma mudan\u00e7a no equil\u00edbrio do poder de classe, da classe trabalhadora para os capitalistas.<\/p>\n<p>Contudo, isto apenas acentua a crise enfrentada pelo capitalismo. O resultado l\u00edquido da relocaliza\u00e7\u00e3o do capital e do trabalho \u00e9 aumentar a parte do excedente na produ\u00e7\u00e3o mundial, o que reduz a procura agregada, uma vez que uma maior propor\u00e7\u00e3o do rendimento dos trabalhadores \u00e9 gasta no consumo do que do excedente econ\u00f4mico. A ironia do capitalismo contempor\u00e2neo \u00e9 que a busca fan\u00e1tica de custos laborais mais baixos levou o sistema ao impasse de uma crise prolongada.<\/p>\n<p>20\/Mar\u00e7o\/2022<br \/>\n[NT] Tariff-jumping: investimento numa instala\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o em outro pa\u00eds a fim de contornar barreiras tarif\u00e1rias elevadas.<\/p>\n<p>[*] Economista, indiano, ver Wikipedia<br \/>\nO original encontra-se em peoplesdemocracy.in\/2022\/0320_pd\/globalisation-and-relocation-capital-and-labour<br \/>\nEste artigo encontra-se em resistir.info<\/p>\n<p>Imagem: https:\/\/mronline.org\/2022\/03\/21\/globalisation-and-the-relocation-of-capital-and-labour\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28612\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"O resultado da relocaliza\u00e7\u00e3o do capital e do trabalho \u00e9 aumentar a parte do excedente na produ\u00e7\u00e3o mundial, o que reduz a procura agregada. 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