{"id":28652,"date":"2022-04-05T16:27:59","date_gmt":"2022-04-05T19:27:59","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28652"},"modified":"2023-02-26T00:52:21","modified_gmt":"2023-02-26T03:52:21","slug":"a-crise-na-ucrania-e-o-declinio-do-imperialismo-estadunidense","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28652","title":{"rendered":"A crise na Ucr\u00e2nia e o decl\u00ednio do imperialismo estadunidense"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/miro.medium.com\/max\/1400\/1%2ADM30JMpHOI0VfkImSiSzNQ.jpeg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Edmilson Costa<\/strong><\/p>\n<p>Os marxistas costumam avaliar a realidade pelos seus veios mais profundos porque compreendem que a apar\u00eancia dos fen\u00f4menos nem sempre corresponde \u00e0 ess\u00eancia dos acontecimentos. Buscar compreender a realidade a partir da superf\u00edcie dos eventos geralmente leva a erros crassos de avalia\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e9 fundamental sempre observar o que se esconde por tr\u00e1s dos fatos, mesmo aqueles mais complexos. Esse m\u00e9todo de compreens\u00e3o da conjuntura \u00e9 um instrumento f\u00e9rtil para clarear a percep\u00e7\u00e3o do teatro de opera\u00e7\u00f5es, dos atores em a\u00e7\u00e3o, dos rumos da conjuntura, bem como para identificar os inimigos e as principais contradi\u00e7\u00f5es em qualquer situa\u00e7\u00e3o nacional e internacional, al\u00e9m de evitar as an\u00e1lises superficiais que possam levar a resultados desastrosos. Essas considera\u00e7\u00f5es s\u00e3o importantes porque se encaixam como uma luva \u00e0 atual crise na Ucr\u00e2nia e suas repercuss\u00f5es na geopol\u00edtica mundial, pois a guerra naquela regi\u00e3o pode ser considerada a express\u00e3o concentrada de um conjunto de fen\u00f4menos que est\u00e3o ocorrendo nos subterr\u00e2neos da ordem politica e econ\u00f4mica internacional e cujos desdobramentos ter\u00e3o repercuss\u00e3o por largo per\u00edodo na conjuntura internacional.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o os fen\u00f4menos que efetivamente est\u00e3o por tr\u00e1s dessa crise? Primeiro, a crise \u00e9 a express\u00e3o do desespero do imperialismo estadunidense diante da crise sist\u00eamica global, cujos fundamentos demonstraram as fissuras sociais e econ\u00f4micas dos Estados Unidos e o decl\u00ednio de sua hegemonia; segundo, representa o assombro norte-americano diante da parceria entre a R\u00fassia e a China, cuja express\u00e3o mais recente foi o comunicado conjunto dos dois pa\u00edses buscando articular uma nova ordem multipolar global; terceiro, significa tamb\u00e9m a tentativa dos Estados Unidos de inviabilizar o gasoduto NordStream2, que ampliaria expressivamente o fornecimento de g\u00e1s da R\u00fassia para a Alemanha e v\u00e1rios pa\u00edses da Europa, propiciando aumento das rela\u00e7\u00f5es comerciais entre R\u00fassia e Europa e reduzindo a influ\u00eancia dos EUA na regi\u00e3o. Consequentemente, os Estados Unidos visam, com a crise, conquistar esse grande mercado energ\u00e9tico; quarto, essa crise tamb\u00e9m expressa uma disputa pela partilha do mundo, em novos termos, das burguesias dos diversos pa\u00edses imperialistas com a burguesia da R\u00fassia. Portanto, a opera\u00e7\u00e3o militar especial desencadeada pelos russos na Ucr\u00e2nia \u00e9 a express\u00e3o dessas contradi\u00e7\u00f5es na geopol\u00edtica internacional.<\/p>\n<p>Uma boa pista para entender os meandros da crise na Ucr\u00e2nia pode tamb\u00e9m ser expressa em tr\u00eas movimentos que se articulam e que podem resultar em desdobramentos at\u00e9 agora n\u00e3o percept\u00edveis na conjuntura: a) a guerra na Ucr\u00e2nia marca o come\u00e7o do fim da ordem estruturada em Bretton Woods e aprofundada a partir da queda do Muro de Berlim e da desintegra\u00e7\u00e3o da URSS e cujo resultado foi a hegemonia mundial solit\u00e1ria dos Estados Unidos; b) haver\u00e1 um descolamento cada vez mais progressivo da hegemonia mundial do Atl\u00e2ntico para a \u00c1sia-Pac\u00edfico, tendo a China e a R\u00fassia como eixos estrat\u00e9gicos da nova ordem, por unirem o poder militar e energ\u00e9tico russo e o poder econ\u00f4mico chin\u00eas; c) o decl\u00ednio da hegemonia dos Estados Unidos vai torn\u00e1-lo mais agressivo, o que pode levar ao acirramento das tens\u00f5es internacionais e possivelmente a guerras em v\u00e1rias partes do mundo, fen\u00f4menos pr\u00f3prios dos processos de mudan\u00e7a de hegemonia na ordem econ\u00f4mica internacional, conforme nos ensina a hist\u00f3ria; d) h\u00e1 a possibilidade de que nessa crise possa emergir janelas de oportunidades para os trabalhadores colocarem em quest\u00e3o o sistema capitalista e, caso sejam orientados de maneira correta, se apresentarem como alternativa \u00e0 velha ordem mundial.<\/p>\n<p>Portanto, a guerra na Ucr\u00e2nia \u00e9 resultado desse conjunto de fen\u00f4menos e seu resultado pode determinar os rumos de uma nova ordem internacional porque, de um lado, a derrota das pretens\u00f5es dos Estados Unidos de transformar a Ucr\u00e2nia numa plataforma para completar o cerco e colocar a R\u00fassia de joelhos fracassou completamente e demonstrou que a ret\u00f3rica e a a\u00e7\u00e3o guerreira do imperialismo \u00e9 brutal quando enfrenta na\u00e7\u00f5es militarmente fr\u00e1geis, mas se torna pouco eficaz quando encontra advers\u00e1rio \u00e0 altura em termos de poder militar. A fragilidade da velha ordem hegem\u00f4nica se expressa no fato de que a opera\u00e7\u00e3o militar da R\u00fassia na Ucr\u00e2nia encontrou pouca resist\u00eancia militar interna (1) e, externamente, apenas lamentos agressivos e san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas por parte do Ocidente. Como disse o pr\u00f3prio presidente da Ucr\u00e2nia, o Pa\u00eds foi abandonado pelos Estados Unidos, pela OTAN e pelas outras pot\u00eancias imperialistas da Europa. Zelensky fez o papel de bobo da corte: acreditou inicialmente nas promessas de Biden e da direita europeia e se transformou num provocador subserviente, ao enfatizar que a Ucr\u00e2nia iria se incorporar \u00e0 OTAN e que o Pa\u00eds tamb\u00e9m viria a construir armas nucleares, o que para os russos significara uma provoca\u00e7\u00e3o inaceit\u00e1vel. Terminou falando sozinho e aceitando as condi\u00e7\u00f5es impostas pela realidade da guerra.<\/p>\n<p><strong>A crise dentro da crise<\/strong><\/p>\n<p>Como enfatizamos anteriormente, os elementos mais de fundo da crise precisam ser observados atentamente para compreendermos melhor essa conjuntura. Primeiro, o sistema capitalista e, especialmente, a economia l\u00edder, sofreram uma das maiores crises econ\u00f4micas e sociais em 2008 e esse problema continua at\u00e9 hoje sem que nenhum Pa\u00eds ligado aos Estados Unidos tenha conseguido se recuperar plenamente e retomar o crescimento, tanto que at\u00e9 agora nenhuma dessas na\u00e7\u00f5es conseguiu sequer voltar ao patamar anterior a 2008. Mesmo que os Bancos Centrais tenham injetado trilh\u00f5es de d\u00f3lares nas economias para salvar bancos e empresas em crise, essas medidas apenas evitaram temporariamente o colapso do sistema, mas n\u00e3o resolveram os problemas colocados pela crise. No entanto, quando esses pa\u00edses come\u00e7avam a comemorar algum tipo de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica veio a pandemia, levando a recess\u00e3o ao mundo inteiro e agravando os problemas gerados pela crise anterior, especialmente nos Estados Unidos, cujos efeitos tornaram p\u00fablicos todas as mazelas do sistema capitalista, escondidas por d\u00e9cadas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o corporativos. Agora, a economia norte-americana volta a enfrentar novos problemas como a maior infla\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos 40 anos, a profunda desigualdade social, a quebra de empresas, a possibilidade da emerg\u00eancia de um novo crash e o enfraquecimento do d\u00f3lar como moeda internacional.<\/p>\n<p>O segundo elemento que explica a movimenta\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos e da OTAN na Ucr\u00e2nia, \u00e9 a crescente aproxima\u00e7\u00e3o entre a R\u00fassia com a China. Esse processo j\u00e1 vinha sendo verificado em per\u00edodo anterior \u00e0 crise, mas se tornou mais efetivo com a recente reuni\u00e3o de c\u00fapula em fevereiro deste ano entre Putin e Xi Jiping, que resultou numa declara\u00e7\u00e3o conjunta onde os dois l\u00edderes se comprometeram com a constru\u00e7\u00e3o de uma nova ordem econ\u00f4mica internacional. Trata-se de um documento hist\u00f3rico que pode ser considerado uma nova carta de princ\u00edpios para um mundo multipolar. Endere\u00e7ada a todos os pa\u00edses, os dois dirigentes defendem um projeto de desenvolvimento global, sustent\u00e1vel, baseado na coopera\u00e7\u00e3o entre todos os povos, o direito das na\u00e7\u00f5es decidirem sobre seus pr\u00f3prios destinos, al\u00e9m da firme proposta de que a ordem internacional seja baseada em leis e n\u00e3o na for\u00e7a. O documento assume tamb\u00e9m que as na\u00e7\u00f5es tenham o direito \u00e0 liberdade, a justi\u00e7a, a igualdade, aos direitos humanos e aos valores democr\u00e1ticos, enfatizando que n\u00e3o existe nenhum povo escolhido que possa impor seus modelos de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica aos outros (numa refer\u00eancia expl\u00edcita aos EUA) e que o sistema internacional n\u00e3o \u00e9 monop\u00f3lio de nenhum pa\u00eds, especialmente ap\u00f3s as mudan\u00e7as econ\u00f4micas que est\u00e3o ocorrendo na conjuntura internacional (2).<\/p>\n<p>A terceira quest\u00e3o que apavora os EUA se refere \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do gasoduto NordStrean2, que foi realizado numa parceria entre empresas russas e alem\u00e3s. Esse gasoduto viria proporcionar autonomia energ\u00e9tica \u00e0 Alemanha e aumentaria de maneira expressiva as rela\u00e7\u00f5es comerciais entre os dois pa\u00edses e o restante da Europa. N\u00e3o se pode esquecer que a Uni\u00e3o Europeia obt\u00e9m mais de 30% do g\u00e1s utilizado na regi\u00e3o atrav\u00e9s da R\u00fassia, um mercado cobi\u00e7ado pelas empresas norte-americanas. Para os Estados Unidos, que concebem o continente europeu como uma esp\u00e9cie de col\u00f4nia pol\u00edtica dos seus interesses, o NordStrean2 reduziria expressivamente a influ\u00eancia norte-americana na Alemanha e na regi\u00e3o e impediria as empresas de energia dos Estados Unidos de fornecerem g\u00e1s para esse grande mercado. Isso \u00e9 t\u00e3o verdade que, num de seus pronunciamentos desesperados, Biden chegou a aventar a possibilidade de destruir o gasoduto. Outro elemento a ser observado \u00e9 o fato de que o NordStrean2 faria com que a entrega de g\u00e1s para Europa n\u00e3o passasse mais pelo territ\u00f3rio da Ucr\u00e2nia, como ocorre atualmente, o que tamb\u00e9m daria \u00e0 R\u00fassia mais autonomia no que se refere \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es para a Europa. Num momento de crise econ\u00f4mica, observar a Europa estreitar os la\u00e7os econ\u00f4micos com a R\u00fassia \u00e9 inaceit\u00e1vel para os EUA, o que explica as tramas norte-americanas para fomentar a guerra na Ucr\u00e2nia, porque os jogos de guerra podem coesionar novamente o velho bloco europeu com os Estados Unidos e colocar as multinacionais do petr\u00f3leo ianques (Exxon, Mobil) na disputa do mercado europeu, muito embora com o g\u00e1s a um pre\u00e7o cerca de 40% mais caro que o russo (3).<\/p>\n<p>O quarto elemento desse processo se refere ao decl\u00ednio da hegemonia dos Estados Unidos, tanto do ponto de vista econ\u00f4mico quanto pol\u00edtico e monet\u00e1rio, e \u00e0 tentativa de recuperar o seu dom\u00ednio tanto pelas san\u00e7\u00f5es contra concorrentes quanto pela fabrica\u00e7\u00e3o de guerras. Se observarmos hoje o poder dos Estados Unidos poderemos ver que, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o militar, h\u00e1 um decl\u00ednio em todas as \u00e1reas. Hoje, a din\u00e2mica industrial do planeta n\u00e3o \u00e9 mais da economia l\u00edder do Ocidente: a China se transformou pelo menos nas \u00faltimas d\u00e9cadas na oficina do mundo, sendo l\u00edder inconteste do com\u00e9rcio mundial e em breve deve superar, em termos de PIB, a economia dos Estados Unidos. J\u00e1 \u00e9 maior no que se refere \u00e0 paridade do poder de compra, uma medida alternativa \u00e0 taxa de c\u00e2mbio para aferir o poder de compra real de uma economia. Do ponto de vista pol\u00edtico, mesmo que a influ\u00eancia dos Estados Unidos ainda seja muito grande, especialmente junto aos europeus, os EUA j\u00e1 n\u00e3o mandam no mundo como mandavam no per\u00edodo imediatamente posterior \u00e0 queda da URSS. Do ponto de vista monet\u00e1rio, o d\u00f3lar tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o tem mais o dom\u00ednio que tinha no passado, n\u00e3o s\u00f3 pela emerg\u00eancia do euro, mas tamb\u00e9m pelo poder de outras moedas, como o yuan chin\u00eas. Essa crise atual pode levar a um decl\u00ednio ainda maior da moeda dos Estados Unidos, principalmente se as san\u00e7\u00f5es tiverem o efeito bumerangue, o que \u00e9 muito prov\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, esse conjunto de fen\u00f4menos tem impactado fortemente os l\u00edderes dos Estados Unidos e explica o desespero do imperialismo para retomar a hegemonia que lhe est\u00e1 fugindo entre os dedos, principalmente porque suas interven\u00e7\u00f5es militares e provoca\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios pa\u00edses t\u00eam sido um rotundo fracasso, como no Afeganist\u00e3o e na S\u00edria e agora na Ucr\u00e2nia. Mesmo levando em conta essas derrotas parciais, n\u00e3o se pode ter ilus\u00f5es: os Estados Unidos tendem a se tornar mais agressivos \u00e0 medida que vai perdendo a hegemonia e suas iniciativas n\u00e3o conseguem obter os resultados esperados. Nenhum imp\u00e9rio assistiu pacificamente seu decl\u00ednio. Portanto, teremos um per\u00edodo de grave tens\u00e3o internacional, com a possibilidade de novas guerras e invas\u00f5es de pa\u00edses que n\u00e3o se dobram \u00e0s exig\u00eancias imperialistas, provoca\u00e7\u00f5es com a China a partir de Taiwan e outras regi\u00f5es. No entanto, ha tamb\u00e9m a possibilidade de levantes sociais, especialmente nos pa\u00edses centrais e nos Estados Unidos, uma vez que a crise mundial do capitalismo agrava a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e abre janelas de oportunidade para que possam intervir de maneira independente na conjuntura social e pol\u00edtica, tanto em fun\u00e7\u00e3o do enfraquecimento do imp\u00e9rio quanto pelas dram\u00e1ticas condi\u00e7\u00f5es de vida que veem enfrentando nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas de destrui\u00e7\u00e3o neoliberal dos direitos, sal\u00e1rios e garantias, do saque ao fundo p\u00fablico e do assalto \u00e0s empresas estatais.<\/p>\n<p><strong>A dupla moral do imperialismo<\/strong><\/p>\n<p>Antes de entrarmos na an\u00e1lise factual da guerra na Ucr\u00e2nia, \u00e9 importante abordamos outro aspecto importante dessa crise, que \u00e9 a dupla moral do imperialismo. Estados Unidos e Uni\u00e3o Europeia nesse momento fazem enorme propaganda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 soberania nacional, aos direitos humanos, ao direito das na\u00e7\u00f5es se associarem a quem bem entendam e protestam contra a invas\u00e3o do territ\u00f3rio ucraniano. Falam em paz mas t\u00eam as m\u00e3os sujas de sangue. Esquecem esses agora paladinos da liberdade e dos direitos humanos que na d\u00e9cada de 90 a OTAN bombardeou por 78 dias, (sem permiss\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, a quem hoje eles recorrem hipocritamente), a Iugosl\u00e1via, um pa\u00eds da Europa, destruindo sua infraestrutura civil, bombardeando pr\u00e9dios civis e matando centenas de pessoas, inclusive dezenas de crian\u00e7as, at\u00e9 mesmo a embaixada da China foi bombardeada, onde morreram tr\u00eas pessoas. Nesses mais de dois meses de ataque brutal a OTAN lan\u00e7ou 2.300 m\u00edsseis e 14 mil bombas sobre o territ\u00f3rio iugoslavo, inclusive na capital Belgrado. Al\u00e9m disso, foram lan\u00e7adas ainda entre 10 e 15 toneladas de ur\u00e2nio empobrecido que envenenou a \u00e1gua e provocou um desastre ambiental e a multiplica\u00e7\u00e3o de casos de doen\u00e7as oncol\u00f3gicas (4). Depois, desmembraram a Iugosl\u00e1via em v\u00e1rios Estados fantoches, muitos incorporados \u00e0 OTAN e ponta de lan\u00e7a dos imperialistas na regi\u00e3o. Posteriormente, prenderam o presidente da S\u00e9rvia, Slobodan Milosevich, e o mataram envenenado numa cela da pris\u00e3o do Tribunal Penal Internacional.<\/p>\n<p>Essas almas bondosas da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental e crist\u00e3, que agora derramam l\u00e1grimas de crocodilo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Ucr\u00e2nia, n\u00e3o hesitaram em destruir o Iraque porque esse Pa\u00eds tinha petr\u00f3leo e n\u00e3o se dobrava aos interesses dos Estados Unidos. Organizaram uma invas\u00e3o ao Pa\u00eds sob o pretexto de que Saddam Hussein estava estocando armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa, o que depois se comprovou que era uma grande mentira e pura propaganda da CIA para justificar a invas\u00e3o. Num brutal ataque que eles mesmos denominaram de \u201cchoque e pavor\u201d destru\u00edram toda a infraestrutura militar e civil do Pa\u00eds, arrasaram a maioria das cidades e deixaram a popula\u00e7\u00e3o sem \u00e1gua e eletricidade. As for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o impuseram um governo dirigido pessoalmente pelos pr\u00f3prios norte-americanos, que reprimiu violentamente a popula\u00e7\u00e3o. Nessa guerra, mais de um milh\u00e3o de iraquianos foram mortos, seu ex\u00e9rcito foi dissolvido e o pr\u00f3prio presidente, Saddam Hussein, foi capturado e depois enforcado. Como em todas as guerras imperialistas, as empresas petroleiras norte-americanas passaram a controlar a prospec\u00e7\u00e3o e venda do petr\u00f3leo iraquiano, uma vez que esse Pa\u00eds era um dos maiores produtores do mundo.<\/p>\n<p>Os paladinos dos direitos humanos tamb\u00e9m se esquecem que os Estados Unidos e a OTAN, sob o pretexto de defender os direitos humanos e proteger popula\u00e7\u00f5es perseguidas pelo governo, invadiram a L\u00edbia, um Pa\u00eds que na \u00e9poca tinha o maior \u00cdndice de Desenvolvimento Humano da \u00c1frica. Tamb\u00e9m destru\u00edram as principais cidades do Pa\u00eds, mataram dezenas de milhares de pessoas e as mil\u00edcias armadas e treinadas pela CIA assassinaram com empala\u00e7\u00e3o o l\u00edder l\u00edbio, Muhamar Kadafi. Essa invas\u00e3o provocou uma cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria, com o \u00eaxodo milhares de refugiados buscando ref\u00fagio nos pa\u00edses da regi\u00e3o e da Europa. A destrui\u00e7\u00e3o e a desorganiza\u00e7\u00e3o da sociedade foram tamanhas que a L\u00edbia se tornou um mercado de escravos na regi\u00e3o e at\u00e9 hoje o Pa\u00eds vive uma guerra civil violenta. Como o Iraque, a L\u00edbia tamb\u00e9m era um dos grandes produtores de petr\u00f3leo da regi\u00e3o, sob o controle do Estado. Agora, com a mesma pr\u00e1tica de rapina anterior, as principais empresas petroleiras dos Estados Unidos e da Europa det\u00e9m o controle do petr\u00f3leo l\u00edbio.<\/p>\n<p>Os indignados defensores da soberania nacional n\u00e3o hesitaram em treinar e armar os fundamentalistas medievais do \u00cdsis (Estado Isl\u00e2mico) e articular essas gangues para invadir a S\u00edria e barbarizar a popula\u00e7\u00e3o civil, com cenas de assassinatos que ainda hoje chocam a opini\u00e3o p\u00fablica internacional, como queimar vivo um piloto s\u00edrio capturado por essa mil\u00edcia isl\u00e2mica. Com apoio da avia\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos e armados pela CIA, esses milicianos ocuparam v\u00e1rias \u00e1reas do pa\u00eds e cometeram as maiores atrocidades contra a popula\u00e7\u00e3o civil, inclusive com a destrui\u00e7\u00e3o de monumentos hist\u00f3ricos milenares na cidade de Palmira. Essa invas\u00e3o tamb\u00e9m resultou numa cat\u00e1strofe migrat\u00f3ria de milh\u00f5es de s\u00edrios ainda hoje sem solu\u00e7\u00e3o. A entrada em cena da avia\u00e7\u00e3o russa em apoio \u00e0s tropas do ex\u00e9rcito s\u00edrio mudou o curso da guerra e os terroristas do Isis foram derrotados nas principais cidades, mas ainda t\u00eam controle de algumas \u00e1reas, especialmente naquelas ocupadas pelos Estados Unidos onde ainda t\u00eam bases militares. Mais uma vez os EUA se apossaram de po\u00e7os de petr\u00f3leo da S\u00edria e financiam as agress\u00f5es com o roubo e a venda dessa mat\u00e9ria-prima do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>As almas piedosas norte-americanas e europeias fazem vista grossa quando rotineiramente Israel, que funciona como gendarme do imperialismo estadunidense na regi\u00e3o, lan\u00e7a m\u00edsseis contra a S\u00edria, muito deles matando civis e destruindo \u00e1reas residenciais. O pretexto \u00e9 que o Estado judeu est\u00e1 atuando preventivamente contra mil\u00edcias iranianas presentes em solo s\u00edrio em apoio ao governo. Esquecem que diariamente Israel massacra o povo palestino e recentemente, no \u00faltimo conflito, bombardeou v\u00e1rias \u00e1reas povoadas da regi\u00e3o de Gaza matando centenas de civis. Nenhuma dessas almas piedosas diz algo sobre isso, afinal as v\u00edtimas n\u00e3o s\u00e3o brancos de olhos azuis. Essas pessoas tamb\u00e9m colocam uma venda nos olhos para n\u00e3o verem o bombardeio que a Ar\u00e1bia Saudita faz diariamente contra a popula\u00e7\u00e3o do Y\u00eamen, destruindo bairros inteiros e matando a popula\u00e7\u00e3o civil. Tamb\u00e9m t\u00eam amnesia em rela\u00e7\u00e3o aos 20 anos de ocupa\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o, onde foram assassinados 120 mil pessoas pelos por bombardeios dos Estados Unidos, e esquecem ainda os constantes bombardeios da popula\u00e7\u00e3o da Som\u00e1lia. Todas essas a\u00e7\u00f5es criminosas s\u00e3o realizadas como se fossem um problema rotineiro de segunda ordem e n\u00e3o produzem manchetes nos jornais e na televis\u00e3o como a atual crise na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>A dupla moral do imperialismo se torna ainda mais clara se recuarmos um pouco mais no tempo e observarmos uma crise internacional semelhante a que est\u00e1 agora acontecendo na Ucr\u00e2nia. A maior parte das gera\u00e7\u00f5es atuais n\u00e3o tem conhecimento, mas na d\u00e9cada de 60 do s\u00e9culo passado a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica colocou uma s\u00e9rie de m\u00edsseis em Cuba como forma de se contrapor aos m\u00edsseis colocados pelos Estados Unidos Turquia, pr\u00f3ximo \u00e0 sua fronteira. Quando os Estados Unidos descobriram a instala\u00e7\u00e3o dos m\u00edsseis em Cuba criaram a maior crise mundial do p\u00f3s-guerra com amea\u00e7a de conflito nuclear. A crise s\u00f3 terminou quando a URSS decidiu retirar os m\u00edsseis de Cuba em troca da retirada dos m\u00edsseis da OTAN da Turquia e do compromisso de que os Estados Unidos n\u00e3o invadiriam Cuba como fizeram em Playa Gir\u00f3n. Deve-se relembrar que os Estados Unidos mant\u00eam um bloqueio criminoso h\u00e1 mais de 60 anos contra Cuba, sem que a ilha tenha invadido qualquer Pa\u00eds. Justificam esse crime porque Cuba \u00e9 socialista e n\u00e3o se dobra aos Estados Unidos. Agora, com muita sem cerim\u00f4nia, os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Europeia defendem que a Ucr\u00e2nia, que faz fronteira de 1.200 quil\u00f4metros com a R\u00fassia, possa fazer parte da OTAN e ainda instalar m\u00edsseis e produzir armas at\u00f4micas nas portas de Moscou. Qual a moral que tem os dirigentes ocidentais para se fantasiar de defensores da soberania nacional e dos direitos humanos dos povos depois de tudo que descrevemos?<\/p>\n<p>Outra vari\u00e1vel importante desse conflito internacional e da dupla moral do imperialismo \u00e9 o papel que a m\u00eddia corporativa cumpre em apoio aos interesses dos Estados Unidos. Quem l\u00ea os jornais ou assiste a televis\u00e3o e tem um m\u00ednimo de informa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crise na Ucr\u00e2nia pode constatar que existem duas guerras: uma paralela, na m\u00eddia, e outra no campo de batalha. Da mesma forma que a OTAN \u00e9 o bra\u00e7o armado do imperialismo, a m\u00eddia corporativa internacional \u00e9 a central de propaganda dos interesses dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europeia. O notici\u00e1rio \u00e9 todo manipulado e os comentaristas e entrevistados parecem uma confraria de miquinhos amestrados verbalizando fake news diariamente, como se as palavras e imagens forjadas na televis\u00e3o pudessem mudar o curso da guerra no teatro de opera\u00e7\u00f5es. Revelam um padr\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o onde n\u00e3o existe espa\u00e7o para o contradit\u00f3rio, ou melhor, s\u00f3 existe espa\u00e7o para os press releases da CIA e do Departamento de Estado. No entanto, essa cobertura demonstra uma certa impot\u00eancia e desespero diante da realidade da guerra. Essa m\u00eddia funciona mais como torcida organizada do que como \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1rio a constru\u00e7\u00e3o urgente de canais alternativos de car\u00e1ter mundial para se contrapor a esses terroristas da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Uma crise fabricada pelo imperialismo e a OTAN<\/strong><\/p>\n<p>A partir dessas considera\u00e7\u00f5es \u00e9 que podemos afirmar que a crise da Ucr\u00e2nia foi fabricada conscientemente pelos Estados Unidos para favorecer seus interesses estrat\u00e9gicos, com o objetivo de transformar, com sua pol\u00edtica guerreira, o espa\u00e7o ucraniano num instrumento para completar o cerco \u00e0 R\u00fassia, que j\u00e1 vinha sendo realizado desde a segunda metade da d\u00e9cada de 90 com a incorpora\u00e7\u00e3o de 14 Estados do antigo bloco socialista \u00e0 OTAN. O objetivo dos Estados Unidos com esses movimentos \u00e9 claro: recolocar a Europa na \u00e1rea de influ\u00eancia norte-americana, pois o in\u00edcio das opera\u00e7\u00f5es do NordStrean2 poderia enfraquecer sua atua\u00e7\u00e3o no continente; enfraquecer as rela\u00e7\u00f5es comerciais da R\u00fassia com a Europa; sabotar a parceria estrat\u00e9gica R\u00fassia-China e Eur\u00e1sia; e alimentar o complexo industrial militar norte-americano que precisa permanentemente de guerras para produzir e vender armas para o resto do mundo. Em outras palavras, os Estados Unidos utilizam a OTAN como bra\u00e7o armado para garantir pela for\u00e7a os interesses do imperialismo no mundo, como controlar as rotas de navega\u00e7\u00e3o, o com\u00e9rcio de petr\u00f3leo e g\u00e1s e os interesses financeiros de seus monop\u00f3lios; e subjugar pela for\u00e7a os pa\u00edses que busquem exercer a soberania nacional. Trata-se de uma organiza\u00e7\u00e3o anacr\u00f4nica que n\u00e3o tem mais sentido existir desde a desintegra\u00e7\u00e3o da URSS.<\/p>\n<p>Vale lembrar que no per\u00edodo da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica havia uma paridade militar entre EUA e URSS, cada bloco com seu bra\u00e7o armado \u2013 a URSS com o Pacto de Vars\u00f3via e os EUA com a OTAN. No entanto, com a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o imperialismo se aproveitou desse fracasso para agir mais abertamente no sentido de construir uma ordem internacional com sua hegemonia absoluta, na qual nenhum Pa\u00eds deveria ter espa\u00e7o para aspirar uma pol\u00edtica que contrariasse seus interesses. Quem ousasse manter qualquer tipo de independ\u00eancia deveria pagar um alto pre\u00e7o, mesmo aqueles que tenham restaurado recentemente o capitalismo, como a R\u00fassia e outros. Isso explica as provoca\u00e7\u00f5es, revolu\u00e7\u00f5es coloridas e v\u00e1rias tentativas de criar movimentos separatistas na R\u00fassia, como ocorreu na Chech\u00eania. O objetivo \u00e9 fazer na R\u00fassia o que conseguiram na Iugosl\u00e1via. Recentemente tamb\u00e9m patrocinaram levantes no Azerbaij\u00e3o, Bielor\u00fassia e articulam permanentemente setores independentistas em Taiwan e revoltas separatistas em v\u00e1rias regi\u00f5es da China. Em outras palavras querem transformar esses grandes Estados, que mant\u00e9m uma pol\u00edtica independente em rela\u00e7\u00e3o a Washington, num conjunto de republiquetas fantoches, integradas \u00e0 OTAN e subordinadas aos interesses imperialistas estadunidenses. Mesmo que os planos para a R\u00fassia e para a China at\u00e9 agora tenham fracassado, os imperialistas est\u00e3o aumentando suas apostas, com a intensifica\u00e7\u00e3o das provoca\u00e7\u00f5es e sabotagens, porque sabem que o \u00eaxito da China e da R\u00fassia \u00e9 perigoso para seu dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o mais espec\u00edfica \u00e0 quest\u00e3o da Ucr\u00e2nia \u00e9 importante enfatizar que, por ocasi\u00e3o da desintegra\u00e7\u00e3o da URSS, os Estados Unidos assumiram o compromisso de que a OTAN n\u00e3o seria expandida para os antigos pa\u00edses que formaram o campo socialista, compromisso que tamb\u00e9m assumido pela Alemanha, Fran\u00e7a e outros pa\u00edses. \u201cNem uma polegada para o Leste\u201d, prometeram. A R\u00fassia retirou suas tropas da Alemanha e dos pa\u00edses do Leste europeu, mas os norte-americanos n\u00e3o cumpriram nenhum dos acordos e, pelo contr\u00e1rio, estenderam a OTAN para o antigo campo socialista. At\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o existiam condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para a incorpora\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia \u00e0 OTAN, porque o governo de Victor Yanukovitch buscava implementar um equil\u00edbrio entre o Ocidente e Moscou. Mas em 2013, na esteira das revolu\u00e7\u00f5es coloridas, uma decis\u00e3o do governo de desistir de se unir \u00e0 Uni\u00e3o Europeia levou \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de movimentos de protestos pela derrubada de Yanukovitch. Esses movimentos, estimulados e financiados pelas ONGs ocidentais e orientados por assessores da intelig\u00eancia dos Estados Unidos, rapidamente foram hegemonizados pelos grupos mais organizados da extrema-direita e por paramilitares nazistas, treinados e armados pelos Estados Unidos. Ap\u00f3s violentos conflitos a partir da pra\u00e7a Maidan, onde esses esquadr\u00f5es fascistas tiveram um papel determinante, o governo Yanukovith, legitimamente eleito, foi derrubado e em seu lugar assumiu um governo abertamente neofascista.<\/p>\n<p>Parta entendermos o golpe que derrubou Yanukovith, \u00e9 importante avaliarmos o papel dos Estados Unidos. Uma conversa entre a subsecret\u00e1ria de Estado dos EUA, Victoria Nuland, e o embaixador norte-americano na Ucr\u00e2nia, Geoffrey Pyatt, que vazou para a imprensa, reflete bem a trama para derrubar o governo de Yanokovith e as articula\u00e7\u00f5es para colocar os fantoches de Washington no governo ap\u00f3s o golpe. A secret\u00e1ria Nuland diz claramente ao embaixador que Arseniy Yatsenyuk (um banqueiro de direita) era a pessoa que deveria assumir o governo \u201cporque \u00e9 o cara que tem mais experi\u00eancia econ\u00f4mica\u201d. Adivinhem quem assumiu como primeiro-ministro ap\u00f3s o golpe: o pr\u00f3prio Yatsenyuk. A ministra das finan\u00e7as ap\u00f3s o golpe era uma diplomata dos Estados Unidos, que foi obrigada a se naturalizar ucraniana para assumir o cargo. Quando o embaixador informou a Nuland que os europeus tinham preocupa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 acontecendo na Ucr\u00e2nia, principalmente a derrubada de um governo legitimamente eleito, a secret\u00e1ria n\u00e3o se faz de rogada: \u201cN\u00f3s gastamos U$ 5 bilh\u00f5es na Ucr\u00e2nia nesses 20 anos. Foda-se a Europa\u201d. Os gastos a que se refere a secret\u00e1ria Nuland foi o treinamento dos grupos nazistas pelos instrutores dos Estados Unidos e da CIA e que depois seriam as gangues que na pr\u00e1tica assumiram o controle das manifesta\u00e7\u00f5es, espancaram e mataram v\u00e1rios manifestantes da oposi\u00e7\u00e3o, se tornaram a ponta de lan\u00e7a nos ataques selvagens \u00e0s rep\u00fablicas de Lugansk e Donesk, nos quais morreram cerca de 14 mil pessoas. Como recompensa, esses esquadr\u00f5es fascistas foram incorporados \u00e0s for\u00e7as militares ucranianas e, agora, cercados pelo ex\u00e9rcito russo, barbarizaram a popula\u00e7\u00e3o do Leste e a utilizaram como escudo para tentar em v\u00e3o escapar ao cerco militar russo.<\/p>\n<p>As primeiras medidas desse novo governo foram colocar na ilegalidade o Partido Comunista da Ucr\u00e2nia, um dos mais influentes do Pa\u00eds (5), e prender centenas de militantes, tanto comunistas como de todas as outras organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, perseguir sindicalistas e opositores em geral. A partir da\u00ed, os paramilitares nazistas passaram a se comportar como verdadeiros esquadr\u00f5es da morte, matando comunistas, judeus, ciganos e barbarizando a popula\u00e7\u00e3o que tinha origem e falava russo. V\u00e1rios v\u00eddeos na internet, postado pelos pr\u00f3prios nazistas, mostram a a\u00e7\u00e3o dessas gangues amarrando as pessoas nos postes e surrando; outros v\u00eddeos mostram seus l\u00edderes amea\u00e7ando parlamentares e ju\u00edzes que se contrapunham a suas a\u00e7\u00f5es. Que fez o governo ucraniano diante dessas atrocidades? Incorporou esses nazistas \u00e0 estrutura militar do Pa\u00eds. Diante dessa conjuntura, povos ligados por la\u00e7os culturais \u00e0 R\u00fassia se rebelaram: na Crim\u00e9ia a popula\u00e7\u00e3o tomou a regi\u00e3o e fez um plebiscito para apoiar sua incorpora\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia. S\u00f3 para esclarecimento, a Crim\u00e9ia era da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica at\u00e9 1956, mas na \u00e9poca, Kruschov, que era ucraniano, resolveu dar de presente a Crim\u00e9ia para a Ucr\u00e2nia. Como todos viviam na casa comum da URSS esse n\u00e3o foi um problema, mas isso n\u00e3o apagou os la\u00e7os sangu\u00edneos e culturais do povo da Crim\u00e9ia com o povo da R\u00fassia, o que se revelou ap\u00f3s o golpe de 2014. Ap\u00f3s o referendo, a R\u00fassia anexou a Crim\u00e9ia, trazendo-a de volta \u00e0 antiga regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas \u00e1reas do Leste, os povos de origem russa tamb\u00e9m se levantavam contra o governo neofascista numa luta armada a partir da qual, ap\u00f3s as vit\u00f3rias no campo de batalha, declararam a independ\u00eancia das rep\u00fablicas de Donetsk e Lugansk, na regi\u00e3o do Dombas. A guerra civil s\u00f3 terminou com os Acordos de Minsk, onde a Ucr\u00e2nia prometia autonomia \u00e0s duas regi\u00f5es. Mas o governo, orientado pelos assessores da CIA, que tinham inclusive assento no pal\u00e1cio governamental, nunca respeitou os acordos. Pelo contr\u00e1rio, transformou os batalh\u00f5es nazistas como vanguarda dos ataques contra as duas regi\u00f5es. Nesse processo, os Estados Unidos, para continuar fomentando a guerra, enviou para a Ucr\u00e2nia e, especialmente, para as regi\u00f5es em conflito, os armamentos mais modernos com os quais esses batalh\u00f5es atacavam permanentemente as duas rep\u00fablicas. Para se ter uma ideia, enquanto o Ocidente silenciava diante da viola\u00e7\u00e3o dos Acordos de Minsk, as for\u00e7as militares ucranianas e os batalh\u00f5es nazistas mataram, ao longo dos \u00faltimos oito anos, 14 mil habitantes das duas regi\u00f5es, inclusive dezenas de crian\u00e7as. A morte de crian\u00e7as foi t\u00e3o brutal que em Donetsk existe um monumento com os nomes de todas as crian\u00e7as assassinadas numa rua chamada Alameda dos Anjos. Para essas milhares de mortes de homens, mulheres e crian\u00e7as nunca se ouviu uma palavra de protesto desses l\u00edderes que hoje esbravejam hipocritamente em nome dos direitos humanos.<br \/>\nMas as medidas do governo neofascista da Ucr\u00e2nia n\u00e3o visavam apenas a popula\u00e7\u00e3o rebelada daquelas regi\u00f5es. Sob a orienta\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos e tendo como operadores a extrema-direita e os nazistas, desenvolveu-se uma campanha anticomunista, xen\u00f3foba, de persegui\u00e7\u00e3o aos russos \u00e9tnicos e de proibi\u00e7\u00e3o do idioma russo. Os curr\u00edculos escolares passaram a ensinar que o Ex\u00e9rcito Vermelho, que perdeu centenas de milhares de homens para libertar a Ucr\u00e2nia, era na verdade um ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o. As autoridades passaram a glorificar as antigas brigadas de colaboracionistas das for\u00e7as invasoras de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial, que tinham Stepan Bandera como principal l\u00edder dessas gangues, respons\u00e1vel por centenas de milhares de assassinatos naquele per\u00edodo. Abertamente, fazia-se reenterros homenageando membros da SS local de Bandera e os ex-colaboracionistas do nazismo e seus parentes passaram a receber pens\u00f5es e b\u00f4nus do governo. Al\u00e9m disso, esses colaboracionistas de Hitler passaram tamb\u00e9m a ter o status de \u201ccombatentes pela independ\u00eancia da Ucr\u00e2nia\u201d. A ideologia nazista estava se tornando t\u00e3o forte que a escada de um dos shoppings de Kiev era decorada com a bandeira nazista. Tudo isso acontecia diante do nariz de Pin\u00f3quio dos protetores dos direitos humanos da Uni\u00e3o Europeia e dos Estados Unidos. Ali\u00e1s, passou despercebido que a R\u00fassia apresentou na ONU uma proposta de rep\u00fadio \u00e0 glorifica\u00e7\u00e3o nazista. 130 pa\u00edses votaram a favor e dois contra. Adivinhem quem &#8230; Ucr\u00e2nia e Estados Unidos!<\/p>\n<p>Em termos concretos, o governo neofascista que emergiu do golpe editou um conjunto de leis e decretos para construir uma nova hist\u00f3ria da Ucr\u00e2nia, criminalizar a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e glorificar os que colaboraram com os nazistas. A legisla\u00e7\u00e3o aprovada proibia o uso de s\u00edmbolos e meios de propaganda comunista, remo\u00e7\u00e3o de monumentos e locais p\u00fablicos com os nomes relacionados ao per\u00edodo da guerra contra o nazismo. Por exemplo, a Lei No. 2538-1, que dispunha \u201csobre a honra e a mem\u00f3ria dos combatentes pela independ\u00eancia da Ucr\u00e2nia no s\u00e9culo XX\u201d, elevava v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es e grupos pr\u00f3-nazistas que atuaram na segunda guerra mundial ao status de her\u00f3is e assegurava benef\u00edcios a seus membros sobreviventes ou seus parentes. Nessa cruzada para apagar a liberta\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia pelo Ex\u00e9rcito Vermelho, as novas autoridades neofascistas realizaram as seguintes medidas: \u201crenomearam a denomina\u00e7\u00e3o de 987 cidades\/aldeias e 51.493 nomes de ruas, bem como removeram 1.320 monumentos dedicados a L\u00eanin e 1.069 monumentos em homenagem a comunistas proeminentes, muitos dos quais foram vandalizados por grupos fascistas e pr\u00f3 nazistas\u201d (5). O objetivo dessas medidas \u00e9 apagar a hist\u00f3ria do Ex\u00e9rcito Vermelho e da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, de forma a que as novas gera\u00e7\u00f5es obtenham um conhecimento distorcido daquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao nazismo e o atual presidente da Ucr\u00e2nia existe ainda uma quest\u00e3o que precisa ser muito bem esclarecida. Meio cinicamente, os ocidentais argumentam que a Ucr\u00e2nia n\u00e3o pode ser considerada sob a influ\u00eancia da ideologia nazista porque o seu presidente \u00e9 judeu. Minha av\u00f3 dizia que a galinha, mesmo n\u00e3o tendo autonomia de voo que os outros p\u00e1ssaros, continua sendo uma ave. Mesmo que isso pare\u00e7a contradit\u00f3rio, Zelensky, mesmo sendo judeu, \u00e9 um apoiador dessas for\u00e7as nazistas. Em dezembro passado ele concedeu uma honraria governamental, como her\u00f3i nacional da Ucr\u00e2nia, ao neonazista Dmytro Kotsyubail, l\u00edder da organiza\u00e7\u00e3o Pravy Sektor (setor de direita), respons\u00e1vel pelo massacre na Casa dos Sindicatos. Para quem n\u00e3o lembra, a Casa dos Sindicatos, onde tamb\u00e9m funcionava a sede regional do Partido Comunista da Ucr\u00e2nia, na regi\u00e3o de Odessa, foi incendiada por membros desse esquadr\u00e3o da morte nazista quando esta estava cheia de militantes. Nesse b\u00e1rbaro massacre, 42 pessoas, entre sindicalistas, comunistas, mulheres e crian\u00e7as foram queimados vivos e muitos que tentavam sair do pr\u00e9dio em chamas foram abatidos \u00e0 bala por esses terroristas. Zelensky tamb\u00e9m nomeou um comandante de um batalh\u00e3o nazista, Maksim Marchenko, para o cargo de governador de Odessa. \u00c9 para esse tipo de gente que os paladinos da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental e crist\u00e3 agora est\u00e3o derramando l\u00e1grimas de crocodilo.<\/p>\n<p><strong>O xeque mate de Putin e a guerra<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo diante de tudo que estava acontecendo na Ucr\u00e2nia, o presidente russo buscou at\u00e9 o \u00faltimo momento um acordo com os Estados Unidos e Uni\u00e3o Europeia, tendo como refer\u00eancia a seguran\u00e7a m\u00fatua entre Ocidente e a R\u00fassia, os Acordos de Minsk e a neutralidade ucraniana, mas tanto os Estados Unidos quanto seu sat\u00e9lite pol\u00edtico, a Uni\u00e3o Europeia, fizeram ouvidos de mercador, porque a arrog\u00e2ncia de Washington, aliada \u00e0 mentalidade colonial da Uni\u00e3o Europeia, os tornaram politicamente cegos. Na verdade, depois de 30 anos de humilha\u00e7\u00f5es, EUA e UE n\u00e3o poderiam imaginar que a R\u00fassia fosse capaz de tomar nenhuma medida mais firme, a n\u00e3o ser as costumeiras reclama\u00e7\u00f5es que se perdiam com o tempo, como no passado. Por isso n\u00e3o levaram a s\u00e9rio o discurso de Putin. Fizeram avalia\u00e7\u00f5es equivocadas e c\u00e1lculos pol\u00edticos fora da realidade e foram surpreendidos com a a\u00e7\u00e3o militar da R\u00fassia. Sem condi\u00e7\u00f5es para uma resposta militar, restou observar os acontecimentos e fazer apenas a guerra de informa\u00e7\u00e3o, enquadrando todo o aparato mundial de comunica\u00e7\u00f5es para demonizar a R\u00fassia e aprovar um conjunto de san\u00e7\u00f5es que na pr\u00e1tica poder\u00e3o se transformar num bumerangue para os Estados Unidos e, principalmente, para a Uni\u00e3o Europeia, regi\u00e3o que pagar\u00e1 a maior parte da conta em raz\u00e3o das medidas tomadas por Biden.<\/p>\n<p>Se os dirigentes ocidentais fossem menos arrogantes teriam entendido perfeitamente as demandas de Putin e evitado a guerra. Que disse o l\u00edder russo ao lan\u00e7ar a ofensiva militar: \u201c\u00c9 sabido que durante 30 anos tentamos persistente e pacientemente negociar um acordo igual e indivis\u00edvel na Europa. Enfrentamos constantemente engamos e mentiras c\u00ednicas ou tentativas de press\u00e3o e chantagem em respostas \u00e0s nossas propostas &#8230; N\u00e3o se trata de nosso regime pol\u00edtico &#8230; eles simplesmente n\u00e3o querem um Pa\u00eds independente t\u00e3o grande como a R\u00fassia. Esta \u00e9 a resposta para todas as perguntas &#8230; A R\u00fassia n\u00e3o pode existir com uma amea\u00e7a constante emanando do territ\u00f3rio ucraniano &#8230; Os acontecimentos de hoje n\u00e3o est\u00e3o relacionados ao desejo de minar os interesses da Ucr\u00e2nia e do povo ucraniano, mas de proteger a pr\u00f3pria R\u00fassia daqueles que fizeram a Ucr\u00e2nia de ref\u00e9m e est\u00e3o tentando us\u00e1-la contra nosso Pa\u00eds e seu povo &#8230; Por isso mesmo vamos nos esfor\u00e7ar para desmilitarizar e desnazificar a Ucr\u00e2nia. Voc\u00ea n\u00e3o pode olhar o que est\u00e1 acontecendo em Donbass sem compaix\u00e3o &#8230; \u00e9 imposs\u00edvel tolerar esse pesadelo, esse genoc\u00eddio contra milh\u00f5es de pessoas &#8230; Esses foram os principais motivos para que tom\u00e1ssemos a decis\u00e3o de reconhecer as rep\u00fablicas populares de Donbass\u201d (7). E para quem ainda imaginasse que estava blefando ele alertou: \u201cQuem tentar interferir conosco e, mais ainda, criar amea\u00e7as o nosso Pa\u00eds deve saber que a resposta da R\u00fassia ser\u00e1 imediata e levar\u00e1 a consequ\u00eancias que nunca enfrentou em sua hist\u00f3ria &#8230; Estamos preparados para qualquer situa\u00e7\u00e3o. Espero que eles escutem\u201d (8). Quando os l\u00edderes da OTAN ampliaram as amea\u00e7as buscando verificar at\u00e9 que ponto Putin estava disposto nesse conflito, a resposta foi ainda mais incisiva: ele colocou em alerta as for\u00e7as nucleares, para desespero dos ocidentais, que estavam sempre acostumados a provocar guerras, destruir pa\u00edses e sabotar suas economias sem nenhuma resposta \u00e0 altura.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o militar russa na Ucr\u00e2nia marca um momento de inflex\u00e3o na geopol\u00edtica mundial, na qual o imperialismo estadunidense e seu bra\u00e7o armado, a OTAN, n\u00e3o t\u00eam mais o monop\u00f3lio da for\u00e7a para fazer o que querem no mundo. Para os ucranianos, \u00b4parece estar claro que foram usados como carne de canh\u00e3o nessa crise, pois todas as promessas de que a OTAN protegeria o atual governo de qualquer amea\u00e7a russa eram apenas palavras vazias: o que se viu na pr\u00e1tica foi a Ucr\u00e2nia abandonada ferida no meio do caminho. Ali\u00e1s, para sermos sinceros, os Estados Unidos est\u00e3o pouco preocupados com o destino do povo ucraniano nessa guerra. As mentiras sobre a resist\u00eancia, as encena\u00e7\u00f5es de civis preparando coquet\u00e9is Molotov contra carros de combate blindados, envio der armas e avi\u00f5es que nunca chegam para os ucranianos s\u00e3o apenas cortina de fuma\u00e7a para esconder sua impot\u00eancia. Qualquer pessoa minimamente inteligente que entenda razoavelmente de log\u00edstica e estrat\u00e9gia militar sabe que isso \u00e9 apenas propaganda para evitar a desmoraliza\u00e7\u00e3o completa dos fomentadores de guerra pelo mundo afora. O que eles querem mesmo &#8211; e para isso estimulam os esquadr\u00f5es nazistas a fazer milhares de civis de ref\u00e9ns nas \u00e1reas de conflito \u2013 \u00e9 provocar algum tipo de massacre para colocar na m\u00eddia como prova da maldade russa, construir encena\u00e7\u00e3o de morte de civis com falsa bandeira para justificar sua propaganda, que j\u00e1 est\u00e1 cansando os espectadores dada a imparcialidade com que a m\u00eddia vem noticiando a guerra. A CIA \u00e9 mestra nessas a\u00e7\u00f5es: \u00e9 s\u00f3 lembrarmos dos \u201cataques qu\u00edmicos\u201d realizados pelo ex\u00e9rcito s\u00edrio ou das \u201carmas de destrui\u00e7\u00e3o em massa\u201d no Iraque, tudo posteriormente comprovado como propaganda mentirosa.<\/p>\n<p>Um fato muito grave emergiu dos escombros da guerra: no decorrer do conflito, veio \u00e0 tona mais uma trama grav\u00edssima da OTAN-EUA na Ucr\u00e2nia. Os russos descobriram que as almas piedosas e defensoras dos direitos humanos constru\u00edram clandestinamente dezenas de laborat\u00f3rios de guerra biol\u00f3gica na Ucr\u00e2nia, financiados e controlados pelos servi\u00e7os de intelig\u00eancia dos Estados Unidos. \u00c9 bom lembrar que o pretexto para invadir o Iraque foi a acusa\u00e7\u00e3o de que aquele Pa\u00eds estava construindo armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa. Na verdade, agora todos ficaram sabendo que quem constr\u00f3i armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa s\u00e3o os Estados Unidos e a OTAN, conforme os russos descobriram e os funcion\u00e1rios dos Estados Unidos foram obrigados a confirmar. A pr\u00f3pria Victoria Nurland admitiu essa a\u00e7\u00e3o perante o Congresso dos Estados Unidos, mas disse que esses laborat\u00f3rios tinha objetivo de realizar pesquisa cient\u00edfica, mas espertamente acrescentou que n\u00e3o poderiam cair na m\u00e3o dos russos &#8230; Quais eram os planos dessa trama criminosa na Ucr\u00e2nia? Segundo os documentos apreendidos, os 26 laborat\u00f3rios ucranianos estavam realizando pesquisas avan\u00e7adas com armas qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas com pat\u00f3genos como c\u00f3lera, antraz e outras doen\u00e7as fatais como armas de guerra. Os russos tamb\u00e9m descobriram outras experi\u00eancias macabras como manipula\u00e7\u00e3o ectoparasitas de morcego, al\u00e9m de outros pat\u00f3genos para contaminar aves migrat\u00f3rias da Ucr\u00e2nia para a R\u00fassia (9). Ali\u00e1s, isso n\u00e3o \u00e9 novidade, pois essas armas biol\u00f3gicas j\u00e1 foram usadas pela CIA contra as planta\u00e7\u00f5es de Cuba, al\u00e9m de pat\u00f3genos que provocaram epidemia de diarreia naquele Pa\u00eds. N\u00e3o precisa de nenhuma teoria da conspira\u00e7\u00e3o para se imaginar o seguinte: se EUA-OTAN foram capazes de construir esses laborat\u00f3rios clandestinos na Ucr\u00e2nia, que n\u00e3o fazia parte da OTAN, imaginem as diab\u00f3licas experi\u00eancias que est\u00e3o sendo realizadas nas ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas. Essa descoberta pode ser apenas a ponta de um iceberg das atividades criminosas dos EUA-OTAN na regi\u00e3o. Merece uma urgente investiga\u00e7\u00e3o internacional. Uma a\u00e7\u00e3o criminosa dessa ordem deveria receber manchetes em toda a m\u00eddia internacional, mas parece que a amn\u00e9sia tomou conta dos bravos meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais.<\/p>\n<p><strong>As san\u00e7\u00f5es e seus efeitos pr\u00e1ticos<\/strong><\/p>\n<p>Sem condi\u00e7\u00f5es objetivas para responder militarmente \u00e0 R\u00fassia, restou aos Estados Unidos e \u00e0 Uni\u00e3o Europeia anunciar um conjunto de san\u00e7\u00f5es que essas lideran\u00e7as classificaram como uma verdadeira bomba at\u00f4mica financeira, que deveria colocar a economia russa de joelhos. Vejamos quais foram as principais san\u00e7\u00f5es at\u00e9 agora anunciadas. Desligamento das institui\u00e7\u00f5es financeiras russas do sistema SWIFT, um \u00f3rg\u00e3o formalmente independente mas que na pr\u00e1tica \u00e9 um instrumento do imperialismo destruir a economia dos pa\u00edses que n\u00e3o se dobram aos interesses dos Estados Unidos; a Alemanha suspendeu a certifica\u00e7\u00e3o para o in\u00edcio das opera\u00e7\u00f5es do NordStrean2, que levaria g\u00e1s direto da R\u00fassia para os alem\u00e3es; proibi\u00e7\u00e3o de investidores de adquirir t\u00edtulos do tesouro da R\u00fassia; bloqueio das reservas e ativos financeiros russos nas institui\u00e7\u00f5es financeiros ocidentais, bem como proibi\u00e7\u00e3o de empresas e pessoas f\u00edsicas russas de efetuar investimentos e pagamentos no exterior e negociar com produtos oriundos da R\u00fassia.; est\u00edmulo a que empresas do Ocidente se retirem do territ\u00f3rio russo; fechamento do espa\u00e7o a\u00e9reo dos Estados Unidos e da Europa para voos de empresas russas; proibi\u00e7\u00e3o de compra de petr\u00f3leo e g\u00e1s russo pelos Estados Unidos, entre outras.<\/p>\n<p>O grande objetivo dessas san\u00e7\u00f5es \u00e9 destruir a economia da R\u00fassia e, possivelmente, criar uma crise econ\u00f4mico-social e pol\u00edtica interna no territ\u00f3rio russo, que possa inclusive levar \u00e0 queda do governo. Realmente, as san\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito duras e podem mesmo ocorrer, num primeiro momento, uma s\u00e9rie de transtornos econ\u00f4micos na economia russa. Em contrapartida, as san\u00e7\u00f5es podem resultar em consequ\u00eancias inteiramente diferentes daquilo que est\u00e1 sendo sonhado pelos imperialistas dos Estados Unidos e da Europa. Da mesma forma como ocorreu no terreno militar, na \u00e1rea econ\u00f4mico-financeira os Estados Unidos e seus sat\u00e9lites pol\u00edticos europeus j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam tamb\u00e9m o monop\u00f3lio das transa\u00e7\u00f5es financeiras nem do com\u00e9rcio mundial. E essas san\u00e7\u00f5es podem resultar numa esp\u00e9cie de efeito bumerangue, com o feiti\u00e7o se voltando contra o feiticeiro, afinal num mundo globalizado, com as economias capitalistas interligadas, medidas com esse n\u00edvel de radicalidade n\u00e3o atingem apenas a parte para quem foram direcionadas, mas toda a economia mundial e, inclusive a pr\u00f3pria ordem econ\u00f4mica internacional tal como conhecemos. \u00c9 bom lembrar ainda que a R\u00fassia j\u00e1 vinha se adaptando \u00e0s san\u00e7\u00f5es do Ocidente e se preparando para novas san\u00e7\u00f5es desde quando anexou a Crim\u00e9ia. O resultado pr\u00e1tico da primeira onda de san\u00e7\u00f5es foi um fortalecimento interno da ind\u00fastria do Pa\u00eds, mediante uma esp\u00e9cie de \u201csubstitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es\u201d, processo que os brasileiros conhecem muito bem. Tamb\u00e9m se prepararam reorientando os fluxos comerciais, aumentando suas rela\u00e7\u00f5es com a China e a Eur\u00e1sia, bem como acumulando reservas cambiais, o que significa que n\u00e3o foram pegos de surpresa com essas medidas. Vejamos mais detalhadamente essas quest\u00f5es:<\/p>\n<p>O desligamento da economia russa do sistema Swift (Sociedade Mundial de Telecomunica\u00e7\u00f5es e Transa\u00e7\u00f5es Financeiras Interbanc\u00e1rias, em tradu\u00e7\u00e3o livre) \u00e9 realmente uma medida muito dura, pois praticamente afasta a R\u00fassia do com\u00e9rcio internacional com os pa\u00edses que adotaram essa medida. No entanto, as vendas de g\u00e1s para Europa est\u00e3o fora dessa san\u00e7\u00e3o, afinal os europeus sem o g\u00e1s russo seria o caos. J\u00e1 prevendo medidas desse tipo, em fun\u00e7\u00e3o do que foi feito com o Ir\u00e3 e Venezuela, v\u00e1rios pa\u00edses criaram sistemas alternativos ao Swift: a R\u00fassia criou seu pr\u00f3prio sistema de transa\u00e7\u00f5es financeiras, chamado SPFS, para liquida\u00e7\u00e3o com a moeda chinesa e de outros pa\u00edses que n\u00e3o se juntaram \u00e0s san\u00e7\u00f5es. Da mesma forma, a China tamb\u00e9m criou um sistema de pagamentos interbanc\u00e1rios transfronteiri\u00e7o denominado CIPS e, em 2017, um sistema espec\u00edfico de pagamentos para o com\u00e9rcio exterior entre o yuan e o rublo. O Ir\u00e3, que tamb\u00e9m foi expulso do Swift, criou o seu pr\u00f3prio sistema de transa\u00e7\u00f5es financeiras, conhecido como STFI, e passou a se integrar a um sistema regional chamado SUCRE, al\u00e9m do fato de que para suas transa\u00e7\u00f5es com Alemanha, Fran\u00e7a em Reino Unido, em raz\u00e3o dos acordos sobre a quest\u00e3o nuclear, foi criado tamb\u00e9m um mecanismo para lidar com o com\u00e9rcio com o Ir\u00e3, conhecido do INSTEX. Se levarmos em conta esses sistemas alternativos de pagamentos internacionais, o volume de com\u00e9rcio entre esses pa\u00edses, e a isso juntarmos os pa\u00edses que n\u00e3o aderiram a essas medidas, poderemos dizer que as san\u00e7\u00f5es n\u00e3o ter\u00e3o plenamente os efeitos desejados e ainda podem estimular a cria\u00e7\u00e3o de um sistema internacional alternativo ao do Ocidente, levando na pr\u00e1tica a um processo de desdolariza\u00e7\u00e3o da economia mundial, afinal todos agora est\u00e3o cientes de que seus recursos podem ser confiscados se contrariarem as ordens de Washington. As reservas dos pa\u00edses em d\u00f3lares e ouro nos bancos ocidentais j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais um porto seguro para os pa\u00edses superavit\u00e1rios.<\/p>\n<p>A R\u00fassia acumulou nos \u00faltimos anos U$ 640 bilh\u00f5es de reservas. Menos da metade desses recursos podem ser alcan\u00e7ados pelas san\u00e7\u00f5es. \u00c9 ainda um volume grande, mas ainda resta \u00e0 R\u00fassia muita gordura para se proteger diante do confisco. Ao contr\u00e1rio de pa\u00edses com economias mais fr\u00e1geis, a resposta da R\u00fassia tem sido tamb\u00e9m bastante forte, podendo mesmo compensar as a\u00e7\u00f5es dos EUA-UE. Por exemplo, o governo russo definiu que seus compromissos externos (d\u00edvida externa, remessa de lucro ou desinvestimento) ser\u00e3o pagos em rublos ao c\u00e2mbio do dia e depositados em um banco da R\u00fassia. \u201cO que isso significa na pr\u00e1tica \u00e9 que a maior parte dos U$ 478 bilh\u00f5es da d\u00edvida externa russa pode \u2018desaparecer\u2019 dos balan\u00e7os dos bancos ocidentais\u201d (10). Mais recentemente, a R\u00fassia tamb\u00e9m definiu que todos os pagamentos de suas exporta\u00e7\u00f5es com as chamadas na\u00e7\u00f5es hostis dever\u00e3o ser pagos em rublo. Outras respostas russas tamb\u00e9m s\u00e3o significativas: os cart\u00f5es de cr\u00e9dito Visa e Credicard decidiram sair do Pa\u00eds. O governo de Moscou criou seu pr\u00f3prio cart\u00e3o o MIR e o ligou ao UnionPay, da China, que tem uma rede internacional semelhante ou maior que os cart\u00f5es dos Estados Unidos. O temor central dos Estados Unidos, que \u00e9 o estreitamento de rela\u00e7\u00f5es entre a China e a R\u00fassia, est\u00e1 se tornando realidade, estimulado pelas pr\u00f3prias san\u00e7\u00f5es. \u201cNo per\u00edodo 2014-2020, em termos monet\u00e1rios, o volume de neg\u00f3cios da R\u00fassia com a China aumentou 17,8%, passando de U$ 88,4 bilh\u00f5es para 104,1 bilh\u00f5es &#8230; O principal resultado das san\u00e7\u00f5es (realizadas ap\u00f3s a anexa\u00e7\u00e3o da Crim\u00e9ia) EUA-Europa foi uma mudan\u00e7a na estrutura geogr\u00e1fica das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas externas russas em favor da China\u201d (11).<\/p>\n<p>A interrup\u00e7\u00e3o do NordStrean2 por parte da Alemanha causar\u00e1 problemas apenas para os alem\u00e3es, que deixar\u00e3o de ter o g\u00e1s mais barato da R\u00fassia. Em contrapartida, a R\u00fassia vai aumentar as exporta\u00e7\u00f5es de g\u00e1s para o Oriente. A Gazprom fechou contrato com a China para a constru\u00e7\u00e3o de um gasoduto que passar\u00e1 pela Mong\u00f3lia e se conectar\u00e1 com a China e consequentemente com toda a \u00c1sia, substituindo as remessas que iriam para a Alemanha. Al\u00e9m de petr\u00f3leo e g\u00e1s, a R\u00fassia tamb\u00e9m \u00e9 um dos maiores exportadores mundiais de outras mat\u00e9rias-primas como trigo e gr\u00e3os em geral, al\u00e9m de metais como cobalto, alum\u00ednio e pal\u00e1dio, este \u00faltimo imprescind\u00edvel para a ind\u00fastria de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o. Portanto, como j\u00e1 podemos verificar, somente nos primeiros dias ap\u00f3s as san\u00e7\u00f5es os pre\u00e7os dessas mat\u00e9rias-primas aumentaram de maneira acentuada. Se a infla\u00e7\u00e3o j\u00e1 era uma realidade nas economias ocidentais, imaginem o que acontecer\u00e1 com a escalada de pre\u00e7os que resultar\u00e1 das san\u00e7\u00f5es. Poderemos ter um processo hiperinflacion\u00e1rio tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Ali\u00e1s, a Europa vinha ensaiando construir alternativas aut\u00f4nomas em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos. Primeiro, com a cria\u00e7\u00e3o da zona do euro e tamb\u00e9m uma for\u00e7a militar europeia. Com essa capitula\u00e7\u00e3o, ser\u00e3o os principais prejudicados com as san\u00e7\u00f5es. \u201cO pre\u00e7o de sua obedi\u00eancia \u00e9 impor infla\u00e7\u00e3o aos custos de sua ind\u00fastria, enquanto subordinam sua pol\u00edtica eleitoral democr\u00e1tica aos pr\u00f3-c\u00f4nsules estadunidenses da OTAN\u201d (12).<\/p>\n<p>Avaliando em termos de curto e m\u00e9dio prazo, podemos dizer que o imperialismo j\u00e1 n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de se impor como no passado. A guerra na Ucr\u00e2nia pode ser considerada apenas o gatilho que acelerou o processo de transi\u00e7\u00e3o de hegemonia e colocou em marcha um conjunto de fen\u00f4menos que n\u00e3o estava nos c\u00e1lculos dos autores das san\u00e7\u00f5es e que podem se voltar contra suas pr\u00f3prias economias, tais como: a) uma recess\u00e3o mundial em consequ\u00eancia da redu\u00e7\u00e3o do fluxo de mat\u00e9rias primas e de suprimentos industriais, agravada pelos efeitos da recente crise sanit\u00e1ria; b) uma acelera\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o, estimulada pelos aumentos dos pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas, especialmente petr\u00f3leo e g\u00e1s, que \u00e9 a matriz energ\u00e9tica das principais economias do mundo; c) uma aproxima\u00e7\u00e3o cada vez mais estrat\u00e9gica entre China e R\u00fassia, para desespero dos velhos imperialistas em decl\u00ednio; d) como consequ\u00eancia, a Europa pagar\u00e1 o maior pre\u00e7o em termos econ\u00f4micos e sociais por sua vassalagem em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos, o que se refletir\u00e1 na queda do crescimento econ\u00f4mico e queda na produtividade da regi\u00e3o; e) a crise mundial resultante desse processo agravar\u00e1 ainda mais todos os problemas colocados pela crise sist\u00eamica global e intensificados pela pandemia, o que poder\u00e1 abrir janelas de oportunidades para os trabalhadores emergiram da conjuntura contestando a velha ordem e disputando uma nova ordem internacional de acordo com seus interesses.<\/p>\n<p>Alguns desdobramentos em curso na economia mundial podem acelerar mudan\u00e7as qualitativas tanto na esfera monet\u00e1ria quanto na geopol\u00edtica internacional. \u201cA China passou a investir pesadamente na internacionaliza\u00e7\u00e3o de sua moeda, gra\u00e7as ao aumento do com\u00e9rcio exterior \u2013 importa\u00e7\u00f5es e exporta\u00e7\u00f5es \u2013 investimentos na Rota da Seda, uma rede global permitindo swap do renminbi (o yuan \u00e9 a unidade de conta enquanto o renminbi \u00e9 o nome da moeda) com bancos oficiais de compensa\u00e7\u00e3o e, finalmente, adi\u00e7\u00e3o do renminbi \u00e0 cesta de Direitos Especiais de Saque, a moeda do FMI. O pr\u00f3ximo passo ser\u00e1 a emiss\u00e3o de e-CNY, a moeda digital chinesa\u201d (13). Essa transi\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser acelerada se grandes exportadores de petr\u00f3leo, como a Ar\u00e1bia Saudita (que est\u00e1 negociando com a china essa quest\u00e3o) come\u00e7arem a realizar suas transa\u00e7\u00f5es em yuan. A \u00cdndia j\u00e1 fez acordo com a R\u00fassia nesse sentido. Na verdade, se observarmos o conjunto da economia mundial poderemos dizer que \u201ccerca de 70% da humanidade se encontra fora da centralidade anglo-sax\u00e3, sionista ou euroc\u00eantrica\u201d (14). Em outras palavras, existem condi\u00e7\u00f5es objetivas para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova ordem econ\u00f4mica mundial, com o decl\u00ednio do d\u00f3lar e a emerg\u00eancia de novas estruturas que venham a substituir a velha ordem mundial constru\u00edda em Bretton Woods.<\/p>\n<p>Esse conjunto de problemas econ\u00f4micos que emergir\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o das san\u00e7\u00f5es se desdobrar\u00e3o em problemas sociais e pol\u00edticos, afinal o aprofundamento da crise sist\u00eamica mundial que se avizinha encontrar\u00e1 as economias dos pa\u00edses centrais ainda curando as feridas da crise de 2008 (da qual at\u00e9 hoje ainda n\u00e3o se recuperaram) e da crise sanit\u00e1ria. Um sistema hegem\u00f4nico em decl\u00ednio, com estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, desemprego e escalada inflacion\u00e1ria dificilmente ter\u00e1 o controle pleno do curso dos acontecimentos, especialmente porque estamos num processo de transi\u00e7\u00e3o de hegemonia. Isso nos leva a crer que viveremos uma conjuntura internacional muito dif\u00edcil porque o animal ferido \u00e9 muito mais perigoso e agressivo. N\u00e3o se pode descartar a intensifica\u00e7\u00e3o das guerras, sabotagens, golpes de Estado entre outras manobras do imperialismo em processo de senilidade. Por outro lado, como o inimigo est\u00e1 cheio de problemas e como suas pr\u00f3prias decis\u00f5es desencadearam for\u00e7as que eles podem n\u00e3o ter condi\u00e7\u00f5es de controlar, n\u00e3o est\u00e1 descartada a possibilidade de abertura de uma janela de oportunidades para o proletariado mundial entrar em cena e contestar a ordem estabelecida e se colocar como alternativa \u00e0 crise mundial do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m das apar\u00eancias: as disputas interburguesas<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 aqui procuramos entender a din\u00e2mica da conjuntura de maneira objetiva, sem aprofundarmos a an\u00e1lise do ponto de vista de classe, levando em conta que esse conflito, al\u00e9m dos elementos geopol\u00edticos que levaram a R\u00fassia a realizar essa opera\u00e7\u00e3o militar na Ucr\u00e2nia, das pretens\u00f5es imperialistas dos Estados Unidos e Uni\u00e3o Europeia, existe tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de fundo que explica a guerra: os interesses econ\u00f4micos da burguesia russa e das burguesias do velho imperialismo. Os marxistas n\u00e3o devem ter nenhuma ilus\u00e3o sobre essa quest\u00e3o: sabemos muito bem que a R\u00fassia atual n\u00e3o \u00e9 a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e que Putin n\u00e3o \u00e9 revolucion\u00e1rio. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 o representante da burguesia russa e do sistema capitalista no Pa\u00eds, e temos claro que essa burguesia s\u00f3 se constituiu enquanto classe porque roubou o patrim\u00f4nio constru\u00eddo pelos trabalhadores ao longo dos 74 anos do per\u00edodo sovi\u00e9tico. Os marxistas compreendem tamb\u00e9m muito bem o desespero do imperialismo para resolver pela guerra a crise sist\u00eamica que o castiga desde 2008 e sabem ainda que essas guerras, os golpes de Estado, sabotagens, san\u00e7\u00f5es, revolu\u00e7\u00f5es coloridas s\u00e3o resultantes do desespero das classes dominantes globais diante de um mundo em constante muta\u00e7\u00e3o, \u00e0s quais n\u00e3o conseguem mais hegemonizar como faziam h\u00e1 algumas d\u00e9cadas. Por isso, \u00e9 importante avaliarmos todos os interesses econ\u00f4micos em jogo.<\/p>\n<p>Primeiro, o NordSstrean 2 consolidaria a hegemonia russa no mercado de g\u00e1s da Europa e deixaria para tr\u00e1s as ambi\u00e7\u00f5es das petroleiras dos Estados Unidos de ocupar esse mercado. \u201cAtualmente, o g\u00e1s natural russo responde por mais de 30% de todas as importa\u00e7\u00f5es para a Uni\u00e3o Europeia. As principais pot\u00eancias da UE, Alemanha e Fran\u00e7a, obt\u00e9m 40% de seu g\u00e1s da R\u00fassia, enquanto outros pa\u00edses como a Rep\u00fablica Checa e a Rom\u00eania, usam apenas (o g\u00e1s) da na\u00e7\u00e3o euroasi\u00e1tica &#8230; Os produtores dos Estados Unidos querem participar e controlar essa bonan\u00e7a, especialmente na Europa, onde os pre\u00e7os do g\u00e1s aumentaram cinco vezes em 2021 e agora, com as a\u00e7\u00f5es militares na Ucr\u00e2nia, v\u00e3o explodir &#8230; Cheias de g\u00e1s, as corpora\u00e7\u00f5es americanas olham cada vez mais para a Europa como cliente &#8230; Gra\u00e7as a um acordo entre o governo Trump e a UE as vendas de g\u00e1s dos EUA para a Europa aumentaram de forma constante, de 16% em 2019 para 28% no final de 2021. No entanto, h\u00e1 um problema que pode limitar o crescimento: o g\u00e1s natural dos EUA \u00e9 caro, consideravelmente mais que o da R\u00fassia. O (g\u00e1s extra\u00eddo atrav\u00e9s do) fracking hidr\u00e1ulico aumenta substancialmente os custos de produ\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, para ser exportado para clientes internacionais, o g\u00e1s dos EUA deve ser liquefeito e carregado\/descarregado em navios-tanques e terminais especializados caros. A convers\u00e3o do g\u00e1s de xisto fraturado em g\u00e1s natural liquefeito (GNL) pode mais que dobrar os custos para empresas americanas, colocando-as em desvantagem em rela\u00e7\u00e3o ao g\u00e1s barato que viaja por dutos (da R\u00fassia)\u201d (15).<\/p>\n<p>A R\u00fassia \u00e9 uma superpot\u00eancia em energia e det\u00e9m as maiores reservas de g\u00e1s natural do mundo. Por\u00e9m passou despercebida a not\u00edcia de que a Ucr\u00e2nia descobriu grandes reservas de g\u00e1s natural capazes de torn\u00e1-la tamb\u00e9m uma pot\u00eancia exportadora desse produto. Os governos que assumiram ap\u00f3s o golpe de 2014 na Ucr\u00e2nia buscaram cada vez mais afastar a R\u00fassia dos neg\u00f3cios na Ucr\u00e2nia e estreitar os la\u00e7os com os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Europeia. Ap\u00f3s a descoberta, o governo ucraniano firmou um acordo com ExxonMobil e a Shell para explora\u00e7\u00e3o do g\u00e1s, o que amea\u00e7ou os interesses da gigante estatal russa, a Gazpron, que viu nesses acordos uma manobra para afastar os russos do mercado europeu. Ou seja, uma Ucr\u00e2nia em pleno processo de russofobia e com empresas ocidentais procurando retirar a R\u00fassia desse mercado era tamb\u00e9m inaceit\u00e1vel. N\u00e3o se pode esquecer ainda que o filho do presidente Biden, Hunter Biden, se tornou CEO da Burisma Holdings, em 2014, a maior exportadora de g\u00e1s da Ucr\u00e2nia, com um sal\u00e1rio de US$ 50 mil por m\u00eas, com a tarefa de fazer lobby ucraniano junto ao governo norte-americano. Em seu livro de mem\u00f3rias, ele confirma as alega\u00e7\u00f5es de que estava na Ucr\u00e2nia para facilitar as rela\u00e7\u00f5es com o governo oriundo do golpe. \u201cEles queriam criar um baluarte contra a agress\u00e3o russa &#8230; O nome de Biden \u00e9 sin\u00f4nimo de democracia e transpar\u00eancia, por isso disse que era ouro para eles\u201d (16).<\/p>\n<p>Mesmo levando em conta todos os problemas resultantes da geopol\u00edtica, n\u00e3o existem santos nessa crise. Nenhum Pa\u00eds assiste sem rea\u00e7\u00e3o \u00e0 perda de um grande mercado de um dos seus principais produtos de exporta\u00e7\u00e3o. Para a burguesia russa a perda de influ\u00eancia no maior Pa\u00eds das ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas a deixaria muito fr\u00e1gil economicamente e os pr\u00f3ximos passos dos Estados Unidos e da OTAN seria tamb\u00e9m dominar o mercado de petr\u00f3leo e, politicamente, a transformar o Estado russo em dezenas de republiquetas a servi\u00e7o de Washington, como j\u00e1 acontece naqueles pa\u00edses do Leste incorporados \u00e0 OTAN. Portanto, at\u00e9 por instinto de sobreviv\u00eancia, Putin e a burguesia russa, ap\u00f3s tentarem, por v\u00e1rias d\u00e9cadas, resolver sem sucesso essas disputas interburguesas pela via diplom\u00e1tica, decidiram recorrer ao velho m\u00e9todo das armas como forma de atingir os objetivos pol\u00edticos e econ\u00f4micos. Os l\u00edderes do velho imperialismo, com sua arrog\u00e2ncia e ambi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o imaginavam uma resposta t\u00e3o dura de Moscou, acostumavam que estavam com os recuos constantes dos dirigentes russos. Calcularam mal a resposta russa e agora est\u00e3o diante de uma derrota militar, da perspectiva de uma crise econ\u00f4mica mundial, cujos resultados s\u00e3o ainda imponder\u00e1veis. N\u00e3o se pode descartar, inclusive, convuls\u00f5es sociais nos Estados Unidos e na Europa como consequ\u00eancia dos problemas oriundos da guerra e dos efeitos das san\u00e7\u00f5es. As guerras todos sabem como come\u00e7am, mas poucos podem prever como terminam, bem como suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Em outras palavras, al\u00e9m dos problemas geopol\u00edticos e das ambi\u00e7\u00f5es dos EUA-OTAN-UE a burguesia russa, apesar de jovem em termos hist\u00f3ricos, tinha claro que se cedesse na Ucr\u00e2nia seria esmagada diante das ambi\u00e7\u00f5es do velho imperialismo. Perderia n\u00e3o apenas uma das principais fontes de recursos (petr\u00f3leo e g\u00e1s) mas tamb\u00e9m veria seu Estado esquartejado como ocorreu com a antiga Iugosl\u00e1via e, em seguida, suas pr\u00f3prias propriedades seriam absorvidas pelas corpora\u00e7\u00f5es transnacionais dos Estados Unidos e da Europa como no Iraque e na L\u00edbia. Portanto, reagir militarmente era caso de vida ou morte, afinal esta n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que se iniciam guerras em fun\u00e7\u00e3o de disputas entre as v\u00e1rias fra\u00e7\u00f5es da burguesia. Al\u00e9m disso, para quem tem ilus\u00f5es sobre o presidente russo e sua op\u00e7\u00e3o pelo capitalismo, \u00e9 importante ler com cuidado recente entrevista de Putin sobre como a R\u00fassia vai enfrentar a crise. \u201cSem d\u00favida, na nova realidade, nossa economia precisar\u00e1 de profundas mudan\u00e7as estruturais &#8230; N\u00e3o ser\u00e3o f\u00e1ceis e causar\u00e3o aumento tempor\u00e1rio da infla\u00e7\u00e3o e do desemprego &#8230; \u00c9 preciso responder \u00e0s press\u00f5es externas com a m\u00e1xima liberdade empresarial &#8230; Sem d\u00favida, a economia russa vai se adaptar \u00e0 nova realidade &#8230; O papel fundamental na supera\u00e7\u00e3o dos problemas atuais deve ser desempenhado por empresas privadas que podem reconstruir a log\u00edstica em pouco tempo, encontrar novos fornecedores e aumentar a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias demandadas\u201d (17).<\/p>\n<p>No mesmo pronunciamento Putin promete eliminar barreiras administrativas e regulat\u00f3rias injustificadas, a fim de facilitar a resolu\u00e7\u00e3o de problemas por parte dos empres\u00e1rios e dos governos regionais. Nada mais cristalino para um representante da burguesia de seu Pa\u00eds. Vai ocorrer aumento da infla\u00e7\u00e3o e do desemprego, mas a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 facilitar a vida das empresas e consolidar o poder da burguesia nas novas condi\u00e7\u00f5es impostas pelo Ocidente. Em outras palavras, a crise resultante da guerra recair\u00e1 sobre o proletariado, mas poder\u00e1 tamb\u00e9m ter consequ\u00eancias internas para Putin e a burguesia da qual \u00e9 representante. Terminada a guerra, \u00e9 hoje de fazer o balan\u00e7o. Ainda existe no imagin\u00e1rio popular russo os bons tempos do per\u00edodo sovi\u00e9tico, onde n\u00e3o havia burguesia nem explora\u00e7\u00e3o. A guerra pode mudar o curso da luta de classes na R\u00fassia. Em algum momento os trabalhadores v\u00e3o perceber que todo o patrim\u00f4nio dessa burguesia n\u00e3o foi por ela criado: foi roubado dos trabalhadores pelos traidores da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Gorbachov, Yeltsin e v\u00e1rios membros da c\u00fapula corrompida do ex-PCUS, e apropriado pelos oligarcas que esbanjam luxo e riqueza enquanto regride cada vez mais o n\u00edvel de vida do povo. Portanto, a crise e os horrores da guerra poder\u00e3o influir na psicologia das massas e levar a um ajuste de contas entre o proletariado russo e essa burguesia, afinal esses oligarcas n\u00e3o t\u00eam nenhuma justificativa para o patrim\u00f4nio que possuem \u2013 n\u00e3o receberam de heran\u00e7a, n\u00e3o empreenderam para construir suas empresas, apenas roubaram dos trabalhadores na m\u00e3o grande. Tamb\u00e9m com o fim da guerra e a desnazifica\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia os trabalhadores tamb\u00e9m poder\u00e3o realizar o ajuste contas com o que sobrar do nazismo e da burguesia corrupta ucraniana. O p\u00f3s-guerra abrir\u00e1 tamb\u00e9m uma luta pol\u00edtica intensa no interior tanto da R\u00fassia quanto da Ucr\u00e2nia e, qui\u00e7\u00e1, em todo o sistema capitalista.<\/p>\n<p><strong>Algumas conclus\u00f5es provis\u00f3rias<\/strong><\/p>\n<p>1) Estamos diante de uma transi\u00e7\u00e3o de hegemonia em que o velho imperialismo est\u00e1 em decl\u00ednio em fun\u00e7\u00e3o de um conjunto de mudan\u00e7as qualitativas que ocorreram na divis\u00e3o internacional da produ\u00e7\u00e3o e do trabalho. Como a hist\u00f3ria tem provado, todo per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o de hegemonia \u00e9 marcado por perturba\u00e7\u00f5es de toda ordem na conjuntura internacional, porque o velho est\u00e1 morrendo e o novo ainda n\u00e3o se consolidou completamente. A guerra na Ucr\u00e2nia foi apenas o gatilho que veio acelerar o processo de transi\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vinha sendo constru\u00eddo nos subterr\u00e2neos da geopol\u00edtica internacional. A vit\u00f3ria militar da R\u00fassia quebrou o monop\u00f3lio da for\u00e7a do velho imperialismo e, se as san\u00e7\u00f5es n\u00e3o produzirem o efeito que a velha ordem imagina, tamb\u00e9m est\u00e1 quebrado o seu monop\u00f3lio econ\u00f4mico-financeiro, o que ter\u00e1 profundas consequ\u00eancias no curto, m\u00e9dio e longo prazos naquilo que poder\u00edamos nomear provisoriamente de uma nova ordem econ\u00f4mica e pol\u00edtica internacional.<\/p>\n<p>2) O decl\u00ednio imperialista nessas duas \u00e1reas chaves do dom\u00ednio econ\u00f4mico e pol\u00edtico torna mais clara a transi\u00e7\u00e3o da hegemonia do Ocidente para a \u00c1sia\u2013Pac\u00edfico, processo que ser\u00e1 estimulado pelo estreitamento das rela\u00e7\u00f5es entre a China e R\u00fassia, que continua \u201cfirme como uma rocha\u201d como dizem os chineses apesar das press\u00f5es do Ocidente. A integra\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica e econ\u00f4mica dessas duas pot\u00eancias representa uma esp\u00e9cie de xeque-mate para o velho imperialismo, uma vez que a R\u00fassia possui as mat\u00e9rias-primas de que a China necessita para sua pujante ind\u00fastria e tem ainda uma m\u00e1quina militar, herdada da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que garante a dissuas\u00e3o contra qualquer aventura imperial dos EUA. Por seu turno, a China se transformou na oficina do mundo, tanto em termos de produ\u00e7\u00e3o quanto nas \u00e1reas de tecnologia e no com\u00e9rcio mundial o que, numa linguagem militar, representa uma ofensiva em forma de pin\u00e7a na conjuntura internacional.<\/p>\n<p>3) A guerra na Ucr\u00e2nia representa tamb\u00e9m o momento de virada na conjuntura internacional, cujo resultado ser\u00e1 a emerg\u00eancia de uma s\u00e9rie de fen\u00f4menos novos que estavam amadurecendo no interior da conjuntura e que agora explodiram com a guerra como sempre ocorre em todos os grandes momentos de decl\u00ednio de hegemonia. Dito de outra forma: a guerra na Ucr\u00e2nia \u00e9 a express\u00e3o concentrada tanto das contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o resolvidas da crise sist\u00eamica global que emergiu em 2008 quanto da velha ordem econ\u00f4mica e pol\u00edtica internacional constru\u00edda em Bretton Woods e aprofundada com a desagrega\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. O mundo do p\u00f3s-guerra da Ucr\u00e2nia, passada a euforia da propaganda imperialista, ser\u00e1 bastante diferente do que conhecemos atualmente e as estruturas dominantes sofrer\u00e3o abalos consider\u00e1veis no pr\u00f3ximo per\u00edodo.<\/p>\n<p>4) Um dos principais fen\u00f4menos que podem emergir dessa crise \u00e9 um processo de desdolariza\u00e7\u00e3o da economia mundial e a constitui\u00e7\u00e3o de novos blocos monet\u00e1rios em contraposi\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar. Vale lembrar que ao longo das \u00faltimas sete d\u00e9cadas os Estados Unidos tiveram o privil\u00e9gio da senhoriagem da moeda mundial, baseada inicialmente em seu poder econ\u00f4mico e militar. Aos poucos foram aparecendo novos atores, entre os quais o surgimento da zona do euro e a emerg\u00eancia da China como pot\u00eancia econ\u00f4mica mundial. Pelo menos nas tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas os Estados Unidos driblaram as dificuldades de sua economia cobrindo seu d\u00e9ficit comercial com \u201capropria\u00e7\u00e3o\u201d do valor produzido pela economia mundial, atrav\u00e9s do com\u00e9rcio mundial, em troca de papel pintado, ou seja, de um d\u00f3lar sem lastro na produ\u00e7\u00e3o do valor. Agora, com a crise e as san\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00fassia, est\u00e1 se conformando de maneira acelerada um processo de desdolariza\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio internacional, a partir dos acordos China-R\u00fassia-Eur\u00e1sia, e a introdu\u00e7\u00e3o do yuan como moeda internacional.<\/p>\n<p>5) Ao longo da hist\u00f3ria o poder militar tem sido o elemento determinante para a hegemonia dos imp\u00e9rios. Desde 1945 os Estados Unidos se transformaram na na\u00e7\u00e3o com o maior or\u00e7amento e o maior poder militar do planeta. Mesmo que tenha sido derrotado no Vietn\u00e3, na S\u00edria e no Afeganist\u00e3o, essas foram derrotas parciais que n\u00e3o alteraram a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no cen\u00e1rio internacional, mas a guerra da Ucr\u00e2nia marca uma mudan\u00e7a de qualidade, pois os EUA-OTAN perderam o monop\u00f3lio da for\u00e7a e, mesmo sem lutar, sofreram uma derrota hist\u00f3rica, pois foram na pr\u00e1tica impedidos de intervir na guerra que provocaram diante do poderio militar russo e da possibilidade de uma terceira guerra mundial. Acostumados que estavam a disciplinar pelas armas os pa\u00edses que n\u00e3o se dobravam aos seus interesses, como ocorreu na Iugoslavia e na L\u00edbia, bombardeados sem que ocorresse a choradeira que se verifica agora, a crise na Ucr\u00e2nia representou um basta \u00e0 arrog\u00e2ncia militar do EUA-OTAN, marcando assim uma nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na geopol\u00edtica internacional, onde os caprichos expansionistas de Washington j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais a efetividade que tinha no passado.<\/p>\n<p>6) O tsunami de san\u00e7\u00f5es acionadas contra a R\u00fassia tem dois objetivos: desestruturar a economia do Pa\u00eds e sabotar a nova rota da seda, de forma a enfraquecer o emergente poderio econ\u00f4mico chin\u00eas. No entanto, as san\u00e7\u00f5es podem n\u00e3o alcan\u00e7ar os resultados pretendidos. \u00c9 s\u00f3 observarmos que, mesmo sendo economias mais fr\u00e1geis, Venezuela e Ir\u00e3 continuam sobrevivendo apesar de sancionados. Al\u00e9m disso, a economia russa \u00e9 muito maior tanto pelo fato de que a R\u00fassia \u00e9 uma das maiores pot\u00eancias energ\u00e9ticas do mundo (a Europa depende em mais de 30% do g\u00e1s russo) e uma das maiores exportadoras de metais estrat\u00e9gicos para a economia mundial, quanto por ter um extraordin\u00e1rio poder militar. Vale lembrar que a R\u00fassia j\u00e1 tinha experi\u00eancia com san\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos desde que anexou a Crim\u00e9ia e que vinha preparando sua economia para a eventualidade de novas san\u00e7\u00f5es em virtude do contencioso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Ucr\u00e2nia desde o golpe de 2014. Evidentemente que as san\u00e7\u00f5es v\u00e3o produzir inicialmente certo grau de infla\u00e7\u00e3o, de desemprego e possivelmente queda no crescimento econ\u00f4mico, mas a R\u00fassia se adaptar\u00e1 em pouco tempo \u00e0 nova conjuntura, especialmente em fun\u00e7\u00e3o do estreitamento das rela\u00e7\u00f5es com a China e com a Eur\u00e1sia.<\/p>\n<p>7) Ao contr\u00e1rio dos desejos e da euforia inicial nos Estados Unidos e Uni\u00e3o Europeia, essas medidas podem ter um efeito bumerangue e resultar em problemas n\u00e3o imaginados pelo Ocidente, como a emerg\u00eancia de uma nova crise econ\u00f4mica e monet\u00e1ria mundial. Para os Estados Unidos, a crise da Ucr\u00e2nia visava afastar a Europa da R\u00fassia, enfraquecer as rela\u00e7\u00f5es China-R\u00fassia e ocupar o mercado de energia da Europa. No curto prazo esses objetivos est\u00e3o sendo alcan\u00e7ados na Europa, especialmente com o aumento da presen\u00e7a das petroleiras dos EUA nesse mercado e a venda de equipamentos militares para a regi\u00e3o, mas no m\u00e9dio e longo prazos esse pode ser o dobre de finados do velho imperialismo. Primeiro, porque as san\u00e7\u00f5es levar\u00e3o a um aumento dos pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas e dos suprimentos para as ind\u00fastrias dos pa\u00edses centrais, sendo que a Europa pagar\u00e1 o maior pre\u00e7o por sua vassalagem. Esse processo resultar\u00e1 no aumento da infla\u00e7\u00e3o, do desemprego e numa crise econ\u00f4mica no cora\u00e7\u00e3o do sistema imperialista, ap\u00f3s uma conjuntura que j\u00e1 vinha debilitada em raz\u00e3o dos problemas causados pela pandemia.<\/p>\n<p>8) Um dado pouco observado nas an\u00e1lises sobre a conjuntura internacional \u00e9 o fato de que a produ\u00e7\u00e3o mundial do valor n\u00e3o est\u00e1 mais centrada na economia l\u00edder. Pelo menos nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, a economia dos Estados Unidos tem se especializado na constru\u00e7\u00e3o de uma economia de servi\u00e7os, na financeiriza\u00e7\u00e3o especulativa, na exporta\u00e7\u00e3o de capitais e, principalmente, na cobertura de seus d\u00e9ficits comerciais mediante a \u201cexpropria\u00e7\u00e3o do valor\u201d das na\u00e7\u00f5es superavit\u00e1rias em troca de uma moeda que n\u00e3o tem mais lastro na produ\u00e7\u00e3o do valor. Enquanto isso, as na\u00e7\u00f5es que lideram efetivamente a produ\u00e7\u00e3o do valor est\u00e3o localizadas fora do eixo Atl\u00e2ntico, mais precisamente na Eur\u00e1sia, com destaque para China, R\u00fassia e \u00cdndia. Com os solavancos da crise atual, n\u00e3o levar\u00e1 muito tempo para que a Lei do Valor realize um ajuste de contas com o imp\u00e9rio estadunidense e a velha ordem por ele constru\u00edda.<\/p>\n<p>9) O decl\u00ednio econ\u00f4mico do velho imperialismo, como sempre ocorreu historicamente em v\u00e1rios momentos de transi\u00e7\u00e3o de hegemonia, vai produzir uma conjuntura internacional bastante tensa, pois nenhum imp\u00e9rio entregou seu poder de maneira pac\u00edfica. Mesmo debilitado econ\u00f4mica e militarmente, ainda tem condi\u00e7\u00f5es de realizar guerras, provoca\u00e7\u00f5es e toda sorte de sabotagens contra as na\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se dobrarem aos seus interesses. Como parte dessas provoca\u00e7\u00f5es, n\u00e3o est\u00e1 descartado os est\u00edmulos \u00e0 independ\u00eancia de Taiwan como forma de desestabilizar a China e lev\u00e1-la a uma guerra na regi\u00e3o e a interfer\u00eancia na Am\u00e9rica Latina contra qualquer possibilidade de alinhamento com a China. Tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 descartado os la\u00e7os cada vez mais estreitos entre o imperialismo em decl\u00ednio e as for\u00e7as fascistas em todas as regi\u00f5es do planeta, a luta aberta contra as liberdades democr\u00e1ticas em todos os pa\u00edses, revelando assim o car\u00e1ter cada vez mais reacion\u00e1rio do grande capital nesse momento de crise. O imperialismo senil poder\u00e1 morrer abra\u00e7ado ao nazismo como \u00faltimo testemunho de sua decad\u00eancia.<\/p>\n<p>10) Essa conjuntura de transi\u00e7\u00e3o de hegemonia poder\u00e1 abrir janelas de oportunidades para os trabalhadores dos pa\u00edses centrais e perif\u00e9ricos emergirem na nova conjuntura como protagonistas em busca de uma nova ordem econ\u00f4mica que atenda aos seus interesses. Acossados pela crise econ\u00f4mica, pelo desemprego, os trabalhadores poder\u00e3o retomar a iniciativa ap\u00f3s um longo per\u00edodo em que foram enganados pelas promessas de paz e bem-estar social dos partidos sociais-democratas e esmagados pela brutalidade das classes dominantes perif\u00e9ricas. Esse processo poder\u00e1 ser mais intenso nos Estados Unidos, tanto pelas contradi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais internas, quanto pela redu\u00e7\u00e3o da \u201cexpropria\u00e7\u00e3o do valor\u201d atrav\u00e9s do com\u00e9rcio mundial, al\u00e9m da crise do d\u00f3lar como moeda mundial. Um imp\u00e9rio com a economia em crise, com as gritantes desigualdades sociais internas n\u00e3o poder\u00e1 sustentar por muito tempo o d\u00f3lar como moeda mundial, fato que ter\u00e1 consequ\u00eancias imponder\u00e1veis para a ordem imperial montada ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p><strong>Edmilson Costa \u00e9 secret\u00e1rio-geral do PCB<\/strong><\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>1) O conto de fadas da resist\u00eancia ucraniana s\u00f3 existe nos fake news que diariamente s\u00e3o veiculados na televis\u00e3o, pois no primeiro dia da guerra a R\u00fassia colocou fora de combate a avia\u00e7\u00e3o Ucr\u00e2nia, seus aeroportos, os centros de comando e bases de lan\u00e7amento de m\u00edsseis. Restou \u00e0 Ucr\u00e2nia apenas a infantaria e o est\u00edmulo suicida \u00e0 popula\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o de prosaicos coquet\u00e9is Molotov para enfrentar os blindados russos, ou ao Ocidente o elogio dos os batalh\u00f5es nazistas, que utilizam a popula\u00e7\u00e3o como escudo humano para retardar sua destrui\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da busca de imagens de pr\u00e9dios destru\u00eddoss para a propaganda contra a R\u00fassia.<br \/>\n2) Fiori, J. L. Mudan\u00e7a \u00e0 vista na geopol\u00edtica global. S\u00e3o Paulo: Outras palavras. www.outraspalavras.net. Acesso em 15\/03\/2022.<br \/>\n3) Esteller, R. O grande neg\u00f3cio dos EUA: vende g\u00e1s 40% mais caro que a R\u00fassia. www. tudoparaminhacuba.wordpress.com. Acesso em 18\/03\/2022.<br \/>\n4) Acervo do conhecimento hist\u00f3rico. Acesso em 18 de mar\u00e7o de 2022.<br \/>\n5) Nas elei\u00e7\u00f5es de 2012 o Partido comunista da Ucr\u00e2nia (PCU) obteve 1,2% dos votos e 32 cadeiras no Parlamento. Nas elei\u00e7\u00f5es de 2014, no bojo dos movimentos do Euromaidan, a vota\u00e7\u00e3o do PCU regrediu para 3,88%, o que deixou a legenda fora do Parlamento. Em 2015 o Partido foi colocado na ilegalidade. https:\/\/omegawebhosting.net.<br \/>\n6) Mottas, N. A descomuniza\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia e a ascens\u00e3o do fascismo, In Defense of Communism. Acesso em 20\/03\/2022.<br \/>\n7) Discurso de Putin a anunciar a opera\u00e7\u00e3o militar especial na Ucr\u00e2nia. Acesso em 18\/03\/2022.<br \/>\n8) Idem, discurso de Putin.<br \/>\n9) R\u00fassia exige explica\u00e7\u00f5es dos EUA sobre laborat\u00f3rios biol\u00f3gicos na Ucr\u00e2nia e Ap\u00f3s acusa\u00e7\u00f5es da R\u00fassia, EUA se manifestam sobre laborat\u00f3rios na Ucr\u00e2nia. www.pt.fxempire.com. Acesso em 20\/032022.<br \/>\n10) Escobar. P. As san\u00e7\u00f5es de Washington destruir\u00e3o a Europa, n\u00e3o a R\u00fassia. www.resistir.info. Acesso em 21\/03\/2022.<br \/>\n11) Glaziev, S. San\u00e7\u00f5es e soberania. www.resistir.info. Acesso em 21\/03\/2022.<br \/>\n12) Hudson, M. San\u00e7\u00f5es \u00e0 Russia, a brincadeira com fogo dos Estados Unidos. www.outraspalavras.net. Acesso em 23\/03\/2022.<br \/>\n13) Nassif. L. A lenta eros\u00e3o do d\u00f3lar como moeda global, a partir de informa\u00e7\u00f5es de trabalho de Serkan Arslanalp, Barry Eichengreen e China Simpson-Beel, patrocinado pelo FMI. www.jornalggn.com.br. Acesso em 29\/03\/2022.<br \/>\n14) Beaklini, B. Crise e \u201cdesdolariza\u00e7\u00e3o\u201d da economia mundial superando a hegemonia dos petrod\u00f3lares. www.jornalggn.com.br. Acesso em 29\/03\/2022.<br \/>\n15) Oro, J. R. Quem se beneficia da crise na Ucr\u00e2nia. www.patrialatina.com.br. Acesso em 20\/03\/2022.<br \/>\n16) BBC. Hanter Biden admite que empresa ucraniana que o contratou via seu nome como ouro. www.sapobrasil.com.br. Acesso em 25\/03\/2022.<br \/>\n17) Klimentyev, M. Putin: Ocidente falhou em organizar a guerra econ\u00f4mica blitzkrieg contra a R\u00fassia. www.atualidad.rt.com. Acesso em 28\/03\/2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28652\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"O decl\u00ednio econ\u00f4mico do velho imperialismo, como sempre ocorreu historicamente em v\u00e1rios momentos de transi\u00e7\u00e3o de hegemonia, vai produzir uma conjuntura internacional bastante tensa, pois nenhum imp\u00e9rio entregou seu poder de maneira pac\u00edfica.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[18,1,38,9,383,254,125],"tags":[222],"class_list":["post-28652","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s22-europa","category-geral","category-c43-imperialismo","category-s10-internacional","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","category-russia","category-c138-ucrania","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7s8","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28652","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28652"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28652\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28652"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28652"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28652"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}