{"id":28670,"date":"2022-04-12T11:44:23","date_gmt":"2022-04-12T14:44:23","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28670"},"modified":"2022-04-12T11:44:23","modified_gmt":"2022-04-12T14:44:23","slug":"mes-da-mulher-e-a-luta-contra-a-violencia-de-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28670","title":{"rendered":"M\u00eas da Mulher e a luta contra a viol\u00eancia de g\u00eanero"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 40px;\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"374\" width=\"747\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/omomento.org\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/capamulher-750x375.jpg?resize=747%2C374&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Ariana Rocha e Tasila Possidonio &#8211; militantes do CFCAM \u2013 n\u00facleo Feira de Santana, via Jornal O MOMENTO &#8211; PCB da Bahia<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria das sociedades, a mulher enquanto ser social foi fundamental para a consolida\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia avan\u00e7adas. Foram elas as protagonistas de processos de luta e resist\u00eancia, seja ind\u00edgena, quilombola ou LGBTQIAP+, al\u00e9m de estarem presentes em movimentos de liberta\u00e7\u00e3o de seus povos e movimentos revolucion\u00e1rios em momentos nos quais a nossa exist\u00eancia pol\u00edtica e civil fora questionada e at\u00e9 mesmo negada. As conquistas alcan\u00e7adas at\u00e9 hoje s\u00f3 foram poss\u00edveis devido \u00e0 luta organizada de trabalhadoras e trabalhadores pela supera\u00e7\u00e3o desse modelo de sociedade, na resist\u00eancia \u00e0 retirada de direitos b\u00e1sicos e na busca por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida para a nossa classe.<\/p>\n<p>O modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, alicer\u00e7ado no patriarcado e em estruturas racistas, vem alimentando, ao longo da hist\u00f3ria, um contexto sexista, explorador e dominador. Sobre seu firmamento, o poder burgu\u00eas, branco, heterocisnormativo e mis\u00f3gino determina uma teia sistem\u00e1tica de rela\u00e7\u00f5es sociais fundamentadas nos princ\u00edpios dominantes, refor\u00e7ando um aparato ideol\u00f3gico pautado em processos de naturaliza\u00e7\u00e3o desta discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o distintas e n\u00e3o generalizadas as formas de viol\u00eancia que recaem sobre essa parcela da classe trabalhadora, variando entre viol\u00eancia de g\u00eanero, viol\u00eancia contra mulheres, viol\u00eancia dom\u00e9stica e viol\u00eancia intrafamiliar. Entendemos ser mais amplo o conceito de viol\u00eancia de g\u00eanero, que abrange \u201c[\u2026] v\u00edtimas como mulheres, crian\u00e7as e adolescentes de ambos os sexos (e sexualidades). No exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o patriarcal, os homens det\u00eam o poder de determinar a conduta das categorias sociais nomeadas, recebendo autoriza\u00e7\u00e3o ou, pelo menos, toler\u00e2ncia da sociedade para punir o que se lhes apresenta como desvio.\u201d (SAFFIOTI, 2001, p. 116; grifos nossos). Como apenas a ideia do g\u00eanero patriarcal dominante n\u00e3o \u00e9 suficiente para assegurar a obedi\u00eancia das potenciais v\u00edtimas, o homem, especialmente aquele que \u00e9 cis, branco e heterossexual, sente a necessidade de fazer uso da viol\u00eancia para manter seu projeto.<\/p>\n<p>A problem\u00e1tica de g\u00eanero destaca-se como um fen\u00f4meno cruel de estruturas opressivas que avan\u00e7a na modernidade enquanto crise aguda de car\u00e1ter mais violento e doloroso (KOLLONTAI, 2005). No Brasil especificamente, onde o conservadorismo restabelece fortemente os velhos costumes familiares, com a elei\u00e7\u00e3o da extrema direita em 2018, a gest\u00e3o bolsonarista tem na figura da Damares Alves (Minist\u00e9rio da Mulher, Fam\u00edlia e Direitos Humanos) o que h\u00e1 de mais reacion\u00e1rio e conservador. Contr\u00e1ria ao movimento feminista e LGBTQIAP+, e \u00e0s pautas hist\u00f3ricas de g\u00eanero, a ministra defende a fam\u00edlia tradicional sob a l\u00f3gica dos preceitos crist\u00e3os; indo na contram\u00e3o da laicidade do Estado, seu discurso veicula ideais patriarcais de domina\u00e7\u00e3o-explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, coadunando com a teoria da resigna\u00e7\u00e3o e passividade. Isto lhe imprime tamanho grau de distor\u00e7\u00e3o da realidade que a torna incapaz de imaginar a possibilidade de liberta\u00e7\u00e3o (MARCHEL, 1973) e de perceber que o lugar que ocupa hoje s\u00f3 lhe foi poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0s lutas feministas e anti opress\u00e3o.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 posto para n\u00f3s, mulheres brasileiras, \u00e9 a necessidade da organiza\u00e7\u00e3o de uma luta frente \u00e0s pol\u00edticas em curso. Diante da instaura\u00e7\u00e3o do conservadorismo no poder, muitos debates ser\u00e3o levantados, provocando como\u00e7\u00e3o pela apar\u00eancia, enquanto a sua real inten\u00e7\u00e3o fica escondida. Para esse momento \u00e9 fundamental a participa\u00e7\u00e3o das trabalhadoras a partir da organiza\u00e7\u00e3o em seus espa\u00e7os de trabalho, estudo e moradia. Dessa forma, n\u00f3s, mulheres do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, nos empenhamos na luta em defesa da classe trabalhadora, sendo fundamental a unidade de a\u00e7\u00e3o com as for\u00e7as combativas. \u00c9 importante lembrar das camaradas da Am\u00e9rica Latina que avan\u00e7am na reivindica\u00e7\u00e3o de direitos reprodutivos que minimizam a situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia e morte de mulheres.<\/p>\n<p>No m\u00eas de mar\u00e7o, convidamos todas as mulheres a marcharem em resist\u00eancia contra esses ataques. \u00c9 de fundamental import\u00e2ncia a participa\u00e7\u00e3o nas mobiliza\u00e7\u00f5es nas cidades: se organizem em seus bairros, trabalhos, escolas e universidades contra posicionamentos conservadores que ratificam a soberania da l\u00f3gica patriarcal e pretendem refrear as cr\u00edticas \u00e0 sua ideologia. Os ataques aos movimentos feministas (reduzindo-os e padronizado dentro de um modelo) tentam desarticular as lutas sociais das mulheres (consoante \u00e0s demais categorias sociais oprimidas).<\/p>\n<p>Indo na raiz da quest\u00e3o sobre as lutas contra a viol\u00eancia de g\u00eanero e contrariando a vis\u00e3o capitalista e liberal que se tornou hegem\u00f4nica, \u00e9 importante resgatar o fato de que o dia 08 de Mar\u00e7o n\u00e3o surgiu de um evento isolado, mas sim atrav\u00e9s de uma progress\u00e3o de eventos incentivados pelas mulheres do Partido Socialista Americano. Em busca pelo sufr\u00e1gio feminino e direitos pol\u00edticos, as trabalhadoras estadunidenses organizaram diversas manifesta\u00e7\u00f5es e encontros pelo pa\u00eds, originando em 28 de fevereiro de 1909, o Women\u2019s Day, iniciativa essa que culminou em um dia dedicado especialmente \u00e0 luta feminina em uma conjuntura nacional.<\/p>\n<p>Em 1910, na Segunda Confer\u00eancia Internacional das Mulheres Trabalhadoras, Clara Zetkin, l\u00edder do movimento internacional das mulheres socialistas, apresentou a import\u00e2ncia da organiza\u00e7\u00e3o de um dia destinado \u00e0 mulher trabalhadora. A confer\u00eancia decidiu que todos os anos, em todos os pa\u00edses, no mesmo dia, deveria ser celebrado o \u201cDia da Mulher\u201d sob o lema \u201cO voto para as mulheres unir\u00e1 a nossa for\u00e7a na luta pelo socialismo\u201d.<\/p>\n<p>A luta pelo voto n\u00e3o era somente uma reivindica\u00e7\u00e3o qualquer e de cunho meramente eleitoral: mostrando-se como um mecanismo de recrutamento para as mulheres socialistas, fortaleceu a educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a consci\u00eancia de classe. As oper\u00e1rias, assim como os trabalhadores da \u00e9poca, tamb\u00e9m eram respons\u00e1veis pela participa\u00e7\u00e3o na economia do pa\u00eds: trabalhavam em oficinas ou como empregadas dom\u00e9sticas, contribuindo com a acumula\u00e7\u00e3o de riquezas, mas sem direito \u00e0 participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Outra reivindica\u00e7\u00e3o se fazia pela carestia da vida, o aumento dos pre\u00e7os antes da guerra onde a explora\u00e7\u00e3o pela classe burguesa tornou-se t\u00e3o intensa que donas de casa decidiram sair do seu \u201cconforto\u201d e pacifismo rumo aos protestos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s intensas articula\u00e7\u00f5es, foi decidido em 19 de mar\u00e7o de 1911, no II Congresso Internacional da Mulher Socialista, um dia dedicado a elas, pelas camaradas alem\u00e3es. A data n\u00e3o foi escolhida aleatoriamente e tinha como significado o reconhecimento do rei da Pr\u00fassia quanto \u00e0 for\u00e7a do povo armado, cedendo \u00e0 amea\u00e7a de uma insurrei\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Entre suas promessas, estava o direito ao voto feminino, direito esse que n\u00e3o foi concedido.<\/p>\n<p>A comemora\u00e7\u00e3o foi um sucesso, sendo realizada na Dinamarca, Su\u00e9cia, \u00c1ustria e Alemanha. Revelou-se um grande m\u00e9todo de conscientiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, fortalecendo la\u00e7os entre trabalhadoras de todo o mundo. Foi o primeiro grande evento realizado por mulheres militantes, reunindo cerca de 30.000 pessoas na maior manifesta\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, com\u00edcios eram realizados em todas as partes, a exemplo das pequenas cidades e dos sal\u00f5es das aldeias.<\/p>\n<p>O Women\u2019s Day foi transferido para o dia oito de Mar\u00e7o permanecendo at\u00e9 os dias atuais. Apesar de ser comemorado desde 1914 pelas camaradas russas, a data ganhou impulso ap\u00f3s in\u00fameras manifesta\u00e7\u00f5es durante a Revolu\u00e7\u00e3o de 1917. O oito de Mar\u00e7o, muito mais que uma homenagem, representa a luta classista, contribui com a inser\u00e7\u00e3o das mulheres na luta pol\u00edtica e traz a esperan\u00e7a de vivenciar uma realidade mais justa, longe do patriarcado, do feminic\u00eddio, e de toda crueldade que envolve o capital.<\/p>\n<p>Angela Davis (2016) exp\u00f5e um cen\u00e1rio de expl\u00edcito racismo estadunidense, no qual a estrutura explorat\u00f3ria naturaliza a contrata\u00e7\u00e3o de pessoas negras para servi\u00e7os de limpeza, lavanderia e cozinha, pela justificativa que estavam destinadas \u00e0quilo. Esta conota\u00e7\u00e3o, segundo a an\u00e1lise, considera que a popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 considerada pelas pessoas brancas como artif\u00edcio essencial da ideologia racista, para que as pessoas negras sejam utilizadas, ent\u00e3o, enquanto \u201ccriados\u201d. Al\u00e9m disso, essa ideia converge com o sexismo, atrav\u00e9s do qual as mulheres negras eram ainda mais subordinadas ao jugo do padr\u00e3o e da opress\u00e3o da sociedade, recebendo, por exemplo, os menores sal\u00e1rios por qualquer atividade desempenhada, estando em piores condi\u00e7\u00f5es, inclusive, que as mulheres imigrantes.<\/p>\n<p>Segundo a militante, antes da Segunda Guerra Mundial, devido \u00e0 desesperadora situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica das mulheres negras (elas ocupavam os piores e mais ignorados postos de trabalhos), nas esquinas de Nova York e das grandes cidades dos Estados Unidos, formavam-se grandes \u201cmercados de escravas\u201d, os quais se assemelhavam aos leil\u00f5es. L\u00e1, as mulheres brancas iam para escolher uma mulher negra para realizarem os trabalhos dom\u00e9sticos, muitas vezes por pagamentos irris\u00f3rios, com acordos descumpridos, pagos, por exemplo, em roupas. Essas mulheres eram obrigadas a trabalhar por cerca de 72 horas semanais. Pela condi\u00e7\u00e3o de extrema domina\u00e7\u00e3o-explora\u00e7\u00e3o, e pelo modo de vida j\u00e1 muito submisso das mulheres, sobretudo das mulheres negras, o trabalho dom\u00e9stico era o mais atrasado em termos organiza\u00e7\u00e3o sindical.<\/p>\n<p>Tal fato, no entanto, n\u00e3o foi limitante para a funda\u00e7\u00e3o deste espa\u00e7o de luta, especialmente pela sua import\u00e2ncia. Davis destaca a relut\u00e2ncia das mulheres brancas, entre elas as feministas, no reconhecimento da luta das camaradas trabalhadoras dom\u00e9sticas. Assim, embora a viol\u00eancia de g\u00eanero brote numa situa\u00e7\u00e3o complexa, em que interv\u00eam v\u00e1rios fen\u00f4menos, estes n\u00e3o s\u00e3o da mesma natureza e nem apresentam a mesma capacidade de determina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cOutras bravas lutadoras tamb\u00e9m inspiram a combatividade do 8 de mar\u00e7o, como Dandara dos Palmares, Anast\u00e1cia, Acotirene, Zeferina, que lutaram junto a muitas outras mulheres e homens escravizados pela liberta\u00e7\u00e3o de toda sua classe. Ou de grandes artistas como Carolina Maria de Jesus e Elza Soares, que lutaram bravamente para dar voz \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de suas vidas enquanto mulheres negras e trabalhadoras e de milhares de outras que sofrem com a mis\u00e9ria, a fome, o desemprego, o feminic\u00eddio, viol\u00eancias diversas e com os trabalhos mais prec\u00e1rios, a exemplo do trabalho dom\u00e9stico\u201d<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o podemos partir de uma atribui\u00e7\u00e3o excepcional do g\u00eanero masculino como \u201cnaturalmente\u201d machista e dominador, pois o patriarcalismo \u00e9 um comportamento edificado dentro das estruturas hist\u00f3ricas da totalidade humana, nas quais n\u00e3o nos reconhecemos enquanto produto e produtores desta realidade objetiva, tornando-nos alienados dela e estranhados uns dos outros enquanto seres tamb\u00e9m humanos nas nossas rela\u00e7\u00f5es sociais. Tendo em vista que opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o est\u00e3o intimamente ligadas, sendo a primeira resultado do desenvolvimento da segunda (MARCHEL, 1973), a luta da mulher n\u00e3o \u00e9 contra o homem, mas contra a ordem social.<\/p>\n<p>\u201cCertas de \u2018que a inferioridade feminina \u00e9 exclusivamente social\u2019 (SAFFIOTI, 1987, p. 16), assim como a subalternidade de qualquer ser humano frente a outro, entendemos que essa realidade deve ser mudada no \u00e2mbito das lutas sociais. Hooks (2018) refor\u00e7a o feminismo como o instrumento mais contundente na luta por uma nova forma de rela\u00e7\u00e3o social, principalmente pelo seu entendimento de que este movimento \u00e9 de car\u00e1ter anti- explora\u00e7\u00e3o sexista e a opress\u00e3o. Ele por si, n\u00e3o pode se afastar da dimens\u00e3o social, tornando-se ponto de partida e chegada, assim como, o movimento anticapitalista precisa superar os obst\u00e1culos do machismo, sexismo, racismo, LGBTfobia, xenofobia, sem reduzi-los a identitarismos vazios (HAIDER, 2019). O grande desafio dos setores organizados da classe trabalhadora \u00e9 aglutinar as massas, tornando revolucion\u00e1rias as pautas dos movimentos anti-opress\u00e3o, modificando as estruturas de classe e suas pautas ideol\u00f3gicas\u201d. (Bispo, 2020)<\/p>\n<p>Os setores mais precarizados da classe trabalhadora (negras e negros, ind\u00edgenas, moradoras e moradores de periferia, trabalhadoras e trabalhadores informais, mulheres, dentre outros) sofrem, h\u00e1 muito, com uma pol\u00edtica de genoc\u00eddio. Se n\u00e3o o genoc\u00eddio protagonizado pela viol\u00eancia armada da Pol\u00edcia Militar nas periferias deste pa\u00eds, que realiza um massacre dessa popula\u00e7\u00e3o, por um genoc\u00eddio outro que tamb\u00e9m mata, mas pela nega\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas da exist\u00eancia humana, como alimenta\u00e7\u00e3o, saneamento b\u00e1sico, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia, etc, ambos gerenciados pelo Estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Na sociedade capitalista, sob a din\u00e2mica da luta de classes, a condi\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o do trabalho e da viol\u00eancia de g\u00eanero se altera e se renova de acordo com as necessidades da realidade em contradi\u00e7\u00e3o. O trabalho dom\u00e9stico \u00e9 majoritariamente realizado por mulheres negras, racionalmente mal remuneradas e historicamente desprovidas de direitos. Embora a profiss\u00e3o tenha sido regulamentada em 2013, das 6,3 milh\u00f5es de trabalhadoras(es) que prestam servi\u00e7os dom\u00e9sticos, apenas 1,5 milh\u00e3o t\u00eam carteira assinada. As que atuam sem carteira assinada (2,3 milh\u00f5es) e como diaristas (2,5 milh\u00f5es) formam um grupo bastante vulner\u00e1vel, sobretudo em contexto de pandemia. Muitas das que t\u00eam carteira assinada n\u00e3o foram dispensadas do trabalho, as que est\u00e3o na informalidade continuaram trabalhando, se expondo cotidianamente ao v\u00edrus nos transportes p\u00fablicos, nos supermercados, com o medo de levar o v\u00edrus para casa e contaminar os familiares, pois reconhecem as condi\u00e7\u00f5es de moradia em que vivem.<\/p>\n<p>Cerca de 125 pa\u00edses possuem leis espec\u00edficas de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher, sendo que a legisla\u00e7\u00e3o brasileira, representada principalmente pela Lei Maria da Penha, \u00e9 considerada uma das tr\u00eas mais avan\u00e7adas do mundo. Mesmo assim, o Brasil \u00e9 o 7\u00ba pa\u00eds, em uma lista de 84, com o maior n\u00famero de homic\u00eddios de mulheres (Mapa da Viol\u00eancia 2012). \u201cNo ano de 2017, houve 12.112 registros de viol\u00eancia contra pessoas trans e 257.764 casos de viol\u00eancia contra homossexuais ou bissexuais no Brasil. Foram 11 agress\u00f5es contra pessoas trans e 214 contra pessoas homo\/bi no pa\u00eds a cada dia. No mesmo ano, mulheres foram 67% das v\u00edtimas de agress\u00e3o f\u00edsica registradas no pa\u00eds\u201d(Mapa da viol\u00eancia de g\u00eanero 2017). \u201cO SIM, que mostra os dados de homic\u00eddio, aponta que os homens foram v\u00edtimas de 92% dos assassinatos no Brasil em 2016, mas os homens negros foram 68% de todas as v\u00edtimas. Entre as mulheres, o componente de ra\u00e7a tamb\u00e9m se destaca: negras s\u00e3o 64% das v\u00edtimas de assassinatos entre as mulheres. Naquele ano, a taxa de homic\u00eddios para cada 100 mil habitantes foi de 64 para mulheres negras e 63 para mulheres n\u00e3o negras (brancas, amarelas e ind\u00edgenas)\u201d.<\/p>\n<p>O Dados do Datafolha, divulgados em fevereiro de 2019, revelam que: (a) no Brasil, em um ano, 1,6 milh\u00e3o de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento; (b) 22 milh\u00f5es passaram por algum tipo de ass\u00e9dio; (c) nos casos de viol\u00eancia, 42% ocorreram no ambiente dom\u00e9stico e, o que \u00e9 ainda pior, mais da metade das mulheres (52%) que sofreram viol\u00eancia n\u00e3o denunciaram o agressor ou sequer procuraram ajuda. Ainda segundo esses dados, uma parcela grande das mulheres que sofreram viol\u00eancia (76,4%) conhece o agressor \u2013 maior parte dos casos acontece dentro da pr\u00f3pria casa da v\u00edtima, que muitas vezes \u00e9 tamb\u00e9m a do agressor. A grande parte das v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica \u00e9 negra, sendo estas 55,9%.<\/p>\n<p>A esse respeito, Davis (2016) atribui \u00e0 perpetua\u00e7\u00e3o do feminismo que reproduz a mesma opress\u00e3o contra a qual luta. Embora reconhe\u00e7a que o comportamento contradit\u00f3rio desta consci\u00eancia \u00e9 explicado pelo movimento dial\u00e9tico da sociedade racista, que em sua din\u00e2mica manteve relacionamentos de senhor e escravo, ou senhora e empregada, sobretudo com pessoas negras, e tamb\u00e9m devido ao fato de que as tarefas dom\u00e9sticas s\u00e3o vistas como menos humanas. Desta forma, para ela, corroborando com Hegel em seu texto, esta consci\u00eancia \u00e9 de escraviza\u00e7\u00e3o, o que faz a mulher branca entender a mulher negra como sua criada e, portanto, um objeto, mera extens\u00e3o de si. Este processo de reifica\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia enraizada nas estruturas racistas e de domina\u00e7\u00e3o-explora\u00e7\u00e3o da feminista, dificulta sua condi\u00e7\u00e3o em se entender enquanto opressora.<\/p>\n<p>Um movimento importante neste cen\u00e1rio aconteceu quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial e o trabalho feminino foi utilizado para manter a economia de guerra nas ind\u00fastrias, fazendo com que 400 mil mulheres negras deixassem de fazer trabalhos dom\u00e9sticos, mas mesmo assim, \u201cainda em 1960, pelo menos um ter\u00e7o da trabalhadoras negras ainda permanecia preso aos mesmos trabalhos dom\u00e9sticos\u201d, e um quinto fora deste ambiente (idem, p. 106), para finalizar o pensamento sobre a an\u00e1lise da submiss\u00e3o e inferioridade emplacada sobre as mulheres negras, colocando-as at\u00e9 os dias atuais enquanto as pessoas mais oprimidas e vulnerabilizadas na sociedade.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o conservadora ao espa\u00e7o que as mulheres e todas as categorias oprimidas v\u00eam ganhando nos \u00faltimos anos fica evidente com as investidas da plataforma da extrema direita ultraliberal e anticomunista. No Brasil, a ofensiva aos direitos reprodutivos e as reformas trabalhistas, por exemplo, agravam a condi\u00e7\u00e3o de vida das mulheres trabalhadoras \u2013 sobretudo das pretas perif\u00e9ricas \u2013 sob este modo de produ\u00e7\u00e3o frente \u00e0 din\u00e2mica de superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, em duplas, triplas ou maiores jornadas di\u00e1rias, perpetuando as mesmas tarefas e viol\u00eancias a quais j\u00e1 eram incumbidas nossas ancestrais em modos de produ\u00e7\u00e3o j\u00e1 extintos.<\/p>\n<p>Para o feminismo classista, que se pretende antirracista e contra todas as formas de opress\u00e3o humana, \u00e9 preciso superar essa l\u00f3gica de domina\u00e7\u00e3o-explora\u00e7\u00e3o patriarcal naturalizada ao longo da hist\u00f3ria. O real desenvolvimento de uma vida em sociedade acontece mediada por m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es que extrapolam o plano do natural e constitui-se de dimens\u00f5es sociais, culturais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Reconhecemos como necessidade: (a) a cria\u00e7\u00e3o de canais de den\u00fancia online com f\u00e1cil acesso para as v\u00edtimas de viol\u00eancia de g\u00eanero; (b) a amplia\u00e7\u00e3o das concess\u00f5es de medidas protetivas; (c) a cria\u00e7\u00e3o e a manuten\u00e7\u00e3o de abrigos e lares \u00e0s pessoas em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia; (d) assist\u00eancia psicol\u00f3gica gratuita \u00e0s pessoas de grupos oprimidos da classe trabalhadora; (e) a cria\u00e7\u00e3o de creches, lavanderias e restaurantes p\u00fablicos, (f) renda fixa garantida pelo Estado \u00e0s m\u00e3es solo; (g) Educa\u00e7\u00e3o sexual para decidir. M\u00e9todos contraceptivos para n\u00e3o abortar. Aborto legal, seguro e garantido pelo o SUS para n\u00e3o morrer. IMEDIATAMENTE: (i) o fim do governo Bolsonaro\/Mour\u00e3o; (ii) a revoga\u00e7\u00e3o da EC 95, das MPs 927 e 936 e da reforma trabalhista; (iii) a garantia do fornecimento de \u00e1gua, energia, internet e g\u00e1s gratuita \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mais precarizada; (iv) moradia, alimenta\u00e7\u00e3o e insumos de higiene pessoal \u00e0s pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua OU VULNERABILIDADE SOCIAL; (v) pela demarca\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas; (vi) uma pol\u00edtica de assist\u00eancia ampla e acolhedora a quem historicamente foi abandonade \u00e0s margens da sociedade; (vii) Pelo fim da OTAN e de todas as guerras imperialistas; (viii) Pela constru\u00e7\u00e3o do poder popular! Rumo ao socialismo!<\/p>\n<p>Neste ano, os movimentos organizados de mulheres priorizam o combate \u00e0 viol\u00eancia, e levam como mote da campanha nacional o grito: Pela vida das mulheres, Bolsonaro nunca mais! Por um Brasil sem machismo, racismo e fome. Dito isto, \u00e9 imprescind\u00edvel observar que a luta contra a viol\u00eancia atravessa diversas formas e sujeites; a partir disso confrontar as estruturas que perpetuam casos ao passo de diminu\u00ed-los.<\/p>\n<p>1 \u201cMODELO ideal de Sociedade \u00e9 com mulheres apenas em casa\u201d, diz ministra inimiga das mulheres. ESQUERDA DI\u00c1RIO. Dispon\u00edvel em &lt;https:\/\/www.esquerdadiario.com.br\/Modelo-ideal-de-sociedade-e-com-mulheres-apenas-em-casa-diz-ministra-inimiga-das-mulheres&gt;. Acesso em 28.05.2020, 18h00min.<\/p>\n<p>2 Usa-se o conceito de domina\u00e7\u00e3o-explora\u00e7\u00e3o ou explora\u00e7\u00e3o-domina\u00e7\u00e3o porque se concebe o processo de sujei\u00e7\u00e3o de uma categoria social com duas dimens\u00f5es: a da domina\u00e7\u00e3o e a da explora\u00e7\u00e3o. No fen\u00f4meno do abuso sexual, por exemplo, pode haver explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, quando o abuso visa \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o de outrem, como pode haver exclusivamente a obten\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios pr\u00f3prios, como o prazer, sem vantagens financeiras. Assim, prefere-se entender explora\u00e7\u00e3o-domina\u00e7\u00e3o como um \u00fanico processo, com duas dimens\u00f5es complementares (SAFFIOTI, 2001. p. 117).<\/p>\n<p>3 http:\/\/anamontenegro.org\/cfcam\/2022\/02\/28\/por-um-8-de-marco-massivo-anticapitalista-e-anti-imperialista\/.<\/p>\n<p>4 \u201cPela vida de nossas m\u00e3es\u201d, dizem filhas e filhos de empregadas dom\u00e9sticas em manifesto. M\u00cdDIA NINJA. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/midianinja.org\/news\/pela-vida-de-nossas-maes-dizem-filhas-e-filhos-de-empregadas-domesticas-em-manifesto\/&gt;. Acesso em: 29.05.2020, 18h05min.<\/p>\n<p>5 https:\/\/www12.senado.leg.br\/institucional\/omv\/entenda-a-violencia\/pdfs\/mapa-da-violencia-2012-atualizacao.<\/p>\n<p>6 https:\/\/mapadaviolenciadegenero.com.br.<\/p>\n<p>7 Idem.<\/p>\n<p>8 FRANCO, LUIZA. Viol\u00eancia contra a mulher: novos dados mostram que \u2018n\u00e3o h\u00e1 lugar seguro no Brasil\u2019. BBC NEWS. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-47365503&gt;. Acesso em 29.05.2020, 20h51min.<\/p>\n<p>Fontes:<\/p>\n<p>Bispo, N. de M., &amp; Caldeira, A. R. (2021). As contradi\u00e7\u00f5es sociais evidenciadas pelo novo coronav\u00edrus e a vida das mulheres no contexto da pandemia. Germinal: Marxismo E educa\u00e7\u00e3o Em Debate, 12(3), 479\u2013502. https:\/\/doi.org\/10.9771\/gmed.v12i3.37149.<\/p>\n<p>DAVIS, Angela. Mulheres, ra\u00e7a e classe. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2016.<\/p>\n<p>GONZ\u00c1LEZ, Isabel Ana. As origens e a comemora\u00e7\u00e3o do dia internacional das mulheres. 1\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Editora express\u00e3o popular, 2010.<\/p>\n<p>KOLLONTAI, Alexandra. A Nova mulher e a moral sexual. Editora Express\u00e3o Popular. S\u00e3o Paulo. 2005.<\/p>\n<p>MARCHEL, Samora. A liberta\u00e7\u00e3o da mulher \u00e9 uma necessidade da revolu\u00e7\u00e3o, garantia da sua continuidade, condi\u00e7\u00e3o do seu triunfo. V. 1. Textos da Revolu\u00e7\u00e3o. Editora INOVA. 1973.<\/p>\n<p>SAFFIOTI, Heleieth I.B. Contribui\u00e7\u00f5es feministas para o estudo da viol\u00eancia de g\u00eanero. DOSSI\u00ca: FEMINISMO EM QUEST\u00c3O, QUEST\u00d5ES DO FEMINISMO. CADERNOS PAGU (16) 2001: pp.115-136.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28670\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Para o feminismo classista, que se pretende antirracista e contra todas as formas de opress\u00e3o humana, \u00e9 preciso superar essa l\u00f3gica de domina\u00e7\u00e3o-explora\u00e7\u00e3o patriarcal naturalizada ao longo da hist\u00f3ria.","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[221],"class_list":["post-28670","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7sq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28670","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28670"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28670\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28670"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28670"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}