{"id":28689,"date":"2022-04-19T09:00:48","date_gmt":"2022-04-19T12:00:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28689"},"modified":"2022-04-19T07:48:36","modified_gmt":"2022-04-19T10:48:36","slug":"empreendedorismo-exploracao-e-ideologia-burguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28689","title":{"rendered":"Empreendedorismo: explora\u00e7\u00e3o e ideologia burguesa"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 40px;\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/revistaoipe.files.wordpress.com\/2022\/04\/horastrabalho1.jpeg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Mateus Cavalcante, publicado originalmente na Revista O Ip\u00ea.<\/strong><\/p>\n<p><em>Novas rela\u00e7\u00f5es de trabalho: troque seus direitos por hor\u00e1rios flex\u00edveis<\/em><br \/>\n<em>As novas rela\u00e7\u00f5es de trabalho por meio de plataformas, cada vez mais flex\u00edveis, trazem em sua pr\u00f3pria estrutura uma ideologia liberal e individualista, em que o empregado se enxerga como empreendedor<\/em><\/p>\n<p>O aumento do n\u00famero de trabalhadores na Economia de Bicos \u00e9 preocupante. Milhares de homens e mulheres s\u00e3o envolvidos em uma ideologia liberal de flexibilidade, modernidade e liberdade que tenta os convencer de que a perda de direitos \u00e9 um avan\u00e7o, que seria, na verdade, autonomia, escondendo o car\u00e1ter explorat\u00f3rio dos \u201cbicos\u201d, se aproveitando, para extrair mais-valia, da situa\u00e7\u00e3o dos que necessitam vender sua for\u00e7a de trabalho, mantendo as estruturas sociais intactas e garantindo a reprodu\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3o de obra barata, sem os custos da devida prote\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>O crescimento de pessoas trabalhando no setor de transportes e entrega de mercadorias apresentou um crescimento expressivo nos \u00faltimos anos. O segmento de transportes contava com 840 mil profissionais em 2016, segundo dados apurados em estudo do IPEA, e atualmente somam 1,4 milh\u00f5es de pessoas. No setor de entregas de mercadorias eram 30 mil em 2016 e 278 mil no primeiro semestre de 2021, uma expans\u00e3o de 978,8% no per\u00edodo. A maioria s\u00e3o homens negros entre 40 e 59 anos, com carga de hor\u00e1rio superior e sal\u00e1rios inferiores aos do restante da popula\u00e7\u00e3o ocupada.<\/p>\n<p>Precariza\u00e7\u00e3o romantizada<br \/>\nEsses trabalhadores t\u00eam maiores riscos de sofrer acidentes de tr\u00e2nsito e, no caso dos motoristas e entregadores de aplicativos, ainda ficam expostos \u00e0s viol\u00eancias de clientes, como racismo e ass\u00e9dio moral. Por n\u00e3o possu\u00edrem v\u00ednculo empregat\u00edcio, n\u00e3o recebem qualquer apoio das empresas donas dos aplicativos e sequer t\u00eam seus direitos garantidos.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de um contrato de trabalho, os trabalhadores assinam um termo de uso. Equipamentos de seguran\u00e7a, aux\u00edlio com a manuten\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo? Nem pensar. Com o desemprego galopante e o aumento do pre\u00e7o dos itens indispens\u00e1veis \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da vida, os trabalhadores ficam cada vez mais vulner\u00e1veis perante os patr\u00f5es, sem possibilidade de recusar oportunidades que n\u00e3o lhe garantam direitos.<\/p>\n<p>Por outro lado as empresas donas dos aplicativos v\u00eam fazendo um pesado investimento em publicidade para difundir ideias positivas acerca das plataformas, construindo um discurso romantizado das novas rela\u00e7\u00f5es de trabalho prec\u00e1rias, associando elas a um ideal de modernidade, com um discurso sens\u00edvel a quest\u00f5es ambientais e sociais. Algumas empresas, como a iFood e o Uber por exemplo, chegaram a criar fundos para amortizar o pre\u00e7o dos combust\u00edveis aos entregadores, assim como parcerias com postos de gasolina e oferta de seguros para acidentes, entre outros aparentes benef\u00edcios.<\/p>\n<p>Num primeiro momento, parecem atuar em favor dos entregadores, mas a verdade \u00e9 que buscam atenuar algumas dificuldades para seguir explorando a classe trabalhadora. Escondem o car\u00e1ter prec\u00e1rio da rela\u00e7\u00e3o trabalhista atr\u00e1s de benef\u00edcios, sem mudar o fato de que o trabalho \u00e9 utilizado para concentrar em poucas m\u00e3os a extra\u00e7\u00e3o de mais-valia, o resultado do esfor\u00e7o de milhares de trabalhadores exaustos, sem f\u00e9rias nem d\u00e9cimo terceiro, sem direito a tempo livre, lazer e a um conv\u00edvio social de qualidade.<\/p>\n<p>O ganho dos entregadores e motoristas com essas medidas \u00e9 apenas paliativo e quase insignificante, quando comparado ao imenso lucro das empresas, visto que nem mesmo se traduzem em uma jornada de trabalho menos exaustiva ou aumento real da renda, principalmente diante do aumento significativo do custo de vida nos anos recentes<\/p>\n<p>\u00c9 claro que o discurso das empresas de aplicativos n\u00e3o explicita nenhum dos problemas que os trabalhadores da Economia de Bicos enfrentam. Vendem a ilus\u00e3o de liberdade, flexibilidade, autonomia e independ\u00eancia financeira. Fetichizam o desenvolvimento das tecnologias, colocando-as unicamente como ferramentas que v\u00e3o melhorar a vida das pessoas. CLT? Direitos? S\u00e3o coisas do passado, velharias que merecem o esquecimento. Abrace os hor\u00e1rios flex\u00edveis, assim voc\u00ea pode trabalhar 12 horas do jeito que quiser. Outra novidade: al\u00e9m da sua energia vital, voc\u00ea deve possuir os meios de trabalho. N\u00e3o pode compr\u00e1-los? N\u00e3o se preocupe, \u00e9 poss\u00edvel alugar um ve\u00edculo de outro trabalhador um pouco menos precarizado que voc\u00ea. Como n\u00e3o ser feliz com tantas facilidades oferecidas pelas disruptivas empresas do Vale do Sil\u00edcio? Ou seria o Vale da Morte?<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s da m\u00e1scara de responsabilidade social, ambiental e modernidade est\u00e1 o fato de que os trabalhadores por aplicativos, como o restante da classe trabalhadora, precisam vender sua for\u00e7a de trabalho para garantir os meios de vida. Podem trabalhar \u201cquantas horas quiserem\u201d, mas n\u00e3o apenas o necess\u00e1rio a sua exist\u00eancia: \u00e9 preciso produzir mais-valia. A liberdade oferecida \u00e9 apenas a de ser explorado. Todas as supostas facilidades que as empresas oferecem s\u00e3o medidas necess\u00e1rias para sua reprodu\u00e7\u00e3o: para que possam realizar as entregas, \u00e9 necess\u00e1rio subsidiar a gasolina; para explorar mais horas de trabalho, s\u00e3o necess\u00e1rios pontos de descanso; para evitar greves, aumentam as taxas aos poucos e de vez em quando.<\/p>\n<p>Novas formas de explora\u00e7\u00e3o, novas formas de luta<br \/>\nEm 2020, a diminui\u00e7\u00e3o das taxas pagas aos trabalhadores de aplicativos culminou no movimento que ficou conhecido como Breque dos Apps. No primeiro dia de julho de 2020, trabalhadores de aplicativos realizaram, com ades\u00e3o popular, uma greve de \u00e2mbito nacional em luta por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m ganhou proje\u00e7\u00e3o nacional o movimento Entregadores Antifascistas. Tendo como um dos l\u00edderes o entregador Paulo Lima, mais conhecido como Galo, o movimento se caracterizou por um discurso pol\u00edtico \u00e0 esquerda, cr\u00edtico \u00e0 no\u00e7\u00e3o de empreendedorismo vendida por empresas como Uber, iFood e Rappi. Recentemente, houve nova mobiliza\u00e7\u00e3o da categoria, que no dia 1\u00ba de Abril promoveu outro breque nos apps, com manifesta\u00e7\u00f5es registradas em cinco cidades.<\/p>\n<p>A luta dos trabalhadores de aplicativo \u00e9 a luta de toda a classe trabalhadora. O processo de uberiza\u00e7\u00e3o tende a se expandir para outras \u00e1reas. Achar que os problemas enfrentados hoje por entregadores e motoristas s\u00e3o exclusivos a essas categorias \u00e9 perder de vista o crescimento desenfreado de novos tipos de rela\u00e7\u00f5es trabalhistas. A luta por direitos deve ser desempenhada por toda a classe trabalhadora, evitando a fragmenta\u00e7\u00e3o e o sectarismo entre as categorias. Sem que os trabalhadores alcancem posi\u00e7\u00f5es de poder na sociedade, atrav\u00e9s de sua organiza\u00e7\u00e3o e luta, ser\u00e1 dif\u00edcil enfrentar a sanha explorat\u00f3ria de empresas de trabalho por plataforma.<\/p>\n<p>A demanda por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho \u00e9 importante tanto a curto prazo, viabilizando a vida dos trabalhadores, quanto a m\u00e9dio e longo prazos, possibilitando o desenvolvimento da consci\u00eancia pol\u00edtica dos trabalhadores ao reconhecerem sua for\u00e7a na luta coletiva. Tais movimentos podem gerar ac\u00famulo para a classe sobre os desafios de se organizar e sobre as t\u00e1ticas que funcionam ou n\u00e3o na pr\u00e1tica. Para isso, \u00e9 necess\u00e1ria uma a\u00e7\u00e3o consciente nesse sentido.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da luta por emprego e sal\u00e1rio<br \/>\nA constru\u00e7\u00e3o do poder popular se faz necess\u00e1ria para garantir a qualidade de vida dos entregadores, motoristas e do restante da classe trabalhadora. Movimentos com baixo n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o possuam um debate cr\u00edtico sobre os resultados dos \u201cbreques\u201d, que n\u00e3o buscam uma atua\u00e7\u00e3o constante de politiza\u00e7\u00e3o, que lutam por ganhos pontuais e n\u00e3o por direitos, tendem a ser ineficazes no longo prazo.<\/p>\n<p>Pensar que a simples organiza\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es vai se traduzir em ganhos estruturais \u00e9 uma ilus\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1ria a forma\u00e7\u00e3o politica dos trabalhadores para que sua luta gere vit\u00f3rias significativas, que garantam direitos trabalhistas efetivos, como f\u00e9rias, d\u00e9cimo terceiro, seguro desemprego, entre outros. Para isso, a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se faz indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta apenas construir movimentos de greve, cooperativas de trabalhadores ou obter ganhos pontuais para algumas categorias. As empresas se apoiam no poder dos governos burgueses, excluindo os trabalhadores e condicionando suas vit\u00f3rias. Apenas a constru\u00e7\u00e3o do poder popular poder\u00e1 garantir aos trabalhadores a possibilidade de tomar o poder para si, garantindo que os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos sejam utilizados em seu benef\u00edcio, n\u00e3o como forma de precarizar e controlar suas vidas. Sem preju\u00edzo das necessidades imediatas, n\u00e3o podemos perder de vista o horizonte revolucion\u00e1rio da luta de classes.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise das novas rela\u00e7\u00f5es de trabalho nos leva al\u00e9m do discurso ideol\u00f3gico do marketing das empresas. Expor as contradi\u00e7\u00f5es que constituem a nova realidade do trabalho nos permite definir as t\u00e1ticas a serem adotadas para a constru\u00e7\u00e3o do poder popular, permitindo aos trabalhadores avan\u00e7ar na conquista de direitos e na constru\u00e7\u00e3o de um consci\u00eancia cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s promessas liberais de autonomia, flexibilidade e empreendedorismo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/revistaoipe.org\/2022\/04\/15\/novas-relacoes-de-trabalho-troque-seus-direitos-por-horarios-flexiveis\/\">Novas rela\u00e7\u00f5es de trabalho: troque seus direitos por hor\u00e1rios&nbsp;flex\u00edveis<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28689\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"As novas rela\u00e7\u00f5es de trabalho por meio de plataformas, cada vez mais flex\u00edveis, trazem em sua pr\u00f3pria estrutura uma ideologia liberal e individualista, em que o empregado se enxerga como empreendedor.","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[221],"class_list":["post-28689","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7sJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28689","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28689"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28689\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28689"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28689"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28689"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}