{"id":28691,"date":"2022-04-19T10:00:38","date_gmt":"2022-04-19T13:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28691"},"modified":"2022-04-19T08:16:42","modified_gmt":"2022-04-19T11:16:42","slug":"oscar-niemeyer-e-o-pcb-arquiteto-centenario-partido-centenario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28691","title":{"rendered":"Oscar Niemeyer e o PCB: arquiteto centen\u00e1rio, partido centen\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 40px;\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/revistaoipe.files.wordpress.com\/2022\/04\/niemeyer-100-pcb-100-oipe.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Danilo Matoso para a Revista O Ip\u00ea<\/strong><\/p>\n<p><em>Quando o Partid\u00e3o chega a um s\u00e9culo de vida, quinze anos ap\u00f3s centen\u00e1rio do arquiteto, vale a pena lembrar alguns momentos de sua not\u00e1vel atua\u00e7\u00e3o militante<\/em><\/p>\n<p><em>Este artigo \u00e9 parte da s\u00e9rie Comunistas de Bras\u00edlia iniciada por ocasi\u00e3o do centen\u00e1rio do Partido Comunista Brasileiro.<\/em><\/p>\n<p>Meados da d\u00e9cada de 1980, restaurante Nino, Copacabana. Tavares, um lobista ligado ao ministro do Ex\u00e9rcito, comenta em voz alta com os amigos, para ser bem ouvido pelos circunstantes: \u201cTem uma esquerda que vai para o governo fazer Samb\u00f3dromo\u2026\u201d Ao lado um senhor de seus 80 anos, charuto na m\u00e3o, diz a sua interlocutora: \u201c\u00e9 comigo\u201d. Levanta-se, troca o charuto de punho e desfere um soco no rosto do fanfarr\u00e3o \u2013 que n\u00e3o se furta a reagir com outro golpe.<\/p>\n<p>O pugilista tardio dessa anedota, contada em biografia de Marcos S\u00e1 Corr\u00eaa, era Oscar Niemeyer Ribeiro de Almeida Soares Filho (1907-2012), o maior arquiteto brasileiro de todos os tempos, militante do Partido Comunista Brasileiro desde 1945. Naqueles anos, prestando servi\u00e7os para o governo de Leonel Brizola e de Darcy Ribeiro no estado do Rio de Janeiro, concebera a avenida do samba como um conjunto de escolas sob a arquibancada.<\/p>\n<p>Niemeyer n\u00e3o levava desaforo pol\u00edtico para casa e, com a mesma firmeza, manteria suas convic\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias ao longo de seus 104 anos bem vividos. Como dizia em suas mem\u00f3rias, As curvas do tempo (Revan, 1998), \u201cnunca me calei. Nunca escondi minha posi\u00e7\u00e3o de comunista. Os governantes compreensivos que me convocam como arquiteto sabem da minha posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Pensam que sou um equivocado e eu deles penso a mesma coisa\u201d. Se, no \u00faltimo dia 25 de mar\u00e7o, o Partid\u00e3o chegou a um s\u00e9culo de vida, quinze anos ap\u00f3s o centen\u00e1rio do arquiteto, vale a pena lembrar alguns outros momentos dessa not\u00e1vel atua\u00e7\u00e3o militante.<\/p>\n<p>Arquiteto reconhecido, militante engajado<br \/>\nCarioca nascido em 1907 nas Laranjeiras, Niemeyer conclu\u00edra o curso de arquitetura na Escola Nacional de Belas-Artes em 1935. Trabalhou pr\u00f3ximo ao gabinete de Rodrigo Mello Franco Andrade e Lucio Costa quando da cria\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o de Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Sphan, atual Iphan) desde 1938, bem como no projeto da pr\u00f3pria sede do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade P\u00fablica, que tinha \u00e0 frente o conservador mineiro Gustavo Capanema. Talvez por isso o arquiteto s\u00f3 se sentiria \u00e0 vontade para ingressar no PCB dez anos depois, ap\u00f3s o fim da Guerra, o fim da era Vargas e o retorno do Partido \u00e0 legalidade em 1945.<\/p>\n<p>Ele mesmo relataria qual a medida de seu envolvimento num n\u00famero especial de 1985 da M\u00f3dulo: \u201cat\u00e9 aquela data, a minha posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se resumia em apoiar os movimentos progressistas, assinar protestos, contribuir para o Socorro vermelho etc. Mas, da\u00ed por diante, a pol\u00edtica come\u00e7ou a comandar todas as minhas decis\u00f5es. J\u00e1 n\u00e3o era apenas a mis\u00e9ria brasileira que me revoltava, mas essa pobreza imensa que pesa sobre o mundo\u201d. Tendo recebido de heran\u00e7a de sua tia a casa em que tivera escrit\u00f3rio, \u00e0 rua Conde Lages 25, na Gl\u00f3ria, n\u00e3o hesitou em ced\u00ea-la ao PCB dizendo: \u201cPrestes, fica com a casa. Sua tarefa \u00e9 muito mais importante que a minha\u201d.<\/p>\n<p>O arquiteto j\u00e1 conhecera Nova York em 1938, quando da elabora\u00e7\u00e3o do projeto do pavilh\u00e3o do Brasil na feira mundial de 1939, em conjunto com Lucio Costa. Voltaria em 1946 \u00e0 metr\u00f3pole com Le Corbusier e outros profissionais de v\u00e1rios pa\u00edses para participar da comiss\u00e3o liderada por Wallace Harrison encarregada do projeto da sede da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). Venceria o concurso interno para a concep\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio, com fei\u00e7\u00e3o geral hoje constru\u00edda.<\/p>\n<p>O americano, em todo caso, um dia apareceria com o exemplar de 5 de maio de 1947 da revista Time em m\u00e3os. Numa mat\u00e9ria intitulada \u201cSobre pilotis\u201d, o brasileiro era qualificado como comunista e \u201cextremista\u201d pois estivera vendendo o jornal do PCB, Tribuna Popular, pelas ruas do Rio no ano anterior. V\u00e1rios colegas gostaram. O russo da equipe, Nikolai Bassov, o repreendeu: \u201cest\u00e1 errado. O PC deve preocupar-se apenas em t\u00ea-lo influente na sua profiss\u00e3o e n\u00e3o vendendo jornais na rua\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, Niemeyer j\u00e1 era profissional conhecido e influente, afinal, fazia parte daquela seleta equipe. Al\u00e9m disso, n\u00e3o apenas vendia o Tribuna Popular como tamb\u00e9m projetara a sede do jornal, que inclu\u00eda a gr\u00e1fica no t\u00e9rreo, um audit\u00f3rio no mezanino, e quatro pavimentos de reda\u00e7\u00e3o acima. O autor da obra faz quest\u00e3o de ressaltar que: \u201csob o ponto de vista arquitet\u00f4nico essa constru\u00e7\u00e3o dever\u00e1, atendendo \u00e0s necessidades do programa, exprimir a t\u00e9cnica moderna. Assim, a fachada que \u00e9 ensolarada \u00e0 tarde est\u00e1 provida de brise-soleils m\u00f3veis, verticais, que evitar\u00e3o a incid\u00eancia do sol nas salas al\u00e9m de permitir o controle de ilumina\u00e7\u00e3o interna\u201d.<\/p>\n<p>Talvez por conta do reencontro com Le Corbusier em Nova York, e seguindo a orienta\u00e7\u00e3o do camarada russo, publicaria no quarto tomo da \u0152uvre Compl\u00e8te do mestre su\u00ed\u00e7o um texto, intitulado O que falta a nossa arquitetura, em que conclui otimista: \u201cAs diferen\u00e7as de classe diminuem e os homens come\u00e7am a se entender e a se aproximar tendo em vista os problemas relativos ao bem-estar coletivo. As obras sociais s\u00e3o prioridade nos programas de governo, e enfim, a evolu\u00e7\u00e3o social, livre da rea\u00e7\u00e3o fascista, progride de modo mais c\u00e9lere e consciente. Os arquitetos devem ser os elementos ativos no momento que atravessamos\u201d.<\/p>\n<p>A elevada elabora\u00e7\u00e3o de prop\u00f3sitos, entretanto, n\u00e3o o impediria de, praticamente ao longo de toda a sua vida, participar de atividades de agita\u00e7\u00e3o e propaganda do Partido. Conta que, quando Vargas foi deposto, a Dire\u00e7\u00e3o do PCB deu o comando a suas c\u00e9lulas que resistissem: \u201cdurante toda a noite, transportei camaradas de um lado para o outro da cidade. Na \u00faltima, j\u00e1 \u00e0s quatro horas da manh\u00e3, levava um mulato alto, da c\u00e9lula, com um rev\u00f3lver embrulhado num jornal, para o centro da cidade. Deixei-o na Gl\u00f3ria, dei-lhe algum dinheiro e voltei para a minha c\u00e9lula\u201d. J\u00e1 em 1947, quando o Partido entrava novamente na ilegalidade, Di\u00f3genes Arruda encontrou-o por acaso na Avenida Beira-Mar, no centro: \u201cPega as faixas e vai ajudar a preparar o com\u00edcio\u201d. O arquiteto lan\u00e7ou-se \u00e0 tarefa com outros camaradas, instalando faixas no Castelo, apenas para ver as viaturas policiais recolhendo todas. N\u00e3o houve com\u00edcio algum, claro.<\/p>\n<p>Um arquiteto comunista a servi\u00e7o do nacionalismo democr\u00e1tico<br \/>\nA partir de 1948, ao ser convidado para palestrar em Yale, o arquiteto descobre que os Estados Unidos n\u00e3o mais concederiam visto de entrada ao comunista \u2013 uma restri\u00e7\u00e3o que persistiria pelas d\u00e9cadas em que aquele pa\u00eds viveria o auge do macartismo. Mais tarde, Niemeyer ironizaria: \u201cvoc\u00eas sabem que isso at\u00e9 me agrada? Se depois de 20 anos voc\u00eas recusam meu visto outra vez, \u00e9 sinal de que continuo o mesmo\u201d. Em 1971 quando algu\u00e9m mais gra\u00fado finalmente consegue faz\u00ea-lo retornar e conhecer a sede cujo projeto Harrison desenvolvera a partir do seu estudo, faz quest\u00e3o de assinalar \u00e0 imprensa estadunidense: \u201cestou contente de visitar este pr\u00e9dio para o qual colaborei como arquiteto e, mais ainda, sabendo que hoje entra para a ONU a China Comunista\u201d.<\/p>\n<p>Niemeyer s\u00f3 conheceria a Europa em 1954, quando aproveitaria tamb\u00e9m para uma visita \u00e0 capital da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Moscou n\u00e3o o decepciona: \u201ccom que prazer transitamos pela Pra\u00e7a Vermelha, surpresos com a monumentalidade do Kremlin e a gra\u00e7a desenvolta da catedral de S\u00e3o Bas\u00edlio com suas ab\u00f3badas douradas! Com satisfa\u00e7\u00e3o sent\u00edamos o povo se recuperando, a vida a caminhar dentro dos preceitos de Marx e L\u00eanin, fraternal e justa para todos\u201d. A admira\u00e7\u00e3o, claro, era rec\u00edproca. Em 1963, Niemeyer receberia o Pr\u00eamio L\u00eanin da Paz outorgado pelos sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p>No Brasil, por outro lado, o principal mecenas do arquiteto era um governante que, se n\u00e3o era conservador, estava longe de ser revolucion\u00e1rio. O mineiro Juscelino Kubitschek. O pol\u00edtico mineiro se valera do talento do arquiteto carioca desde sua passagem como prefeito bi\u00f4nico de Belo Horizonte, a partir de 1940, quando da realiza\u00e7\u00e3o da Pampulha. Ali Niemeyer se tornaria conhecido internacionalmente gra\u00e7as a sua participa\u00e7\u00e3o com aqueles edif\u00edcios na exposi\u00e7\u00e3o Brazil Builds do Museu de Arte Moderna de Nova York em 1943.<\/p>\n<p>Com JK governador (1950-1955), a parceria se intensificaria em obras t\u00e3o diversas quanto o gigantesco conjunto Governador Kubitschek (1951) ou uma pequena escola em Diamantina (1951). Por fim, com a epopeia da constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia entre 1957 e 1960 \u2013 e por todas as d\u00e9cadas seguintes \u2013 Niemeyer se firmaria n\u00e3o apenas como o maior arquiteto brasileiro de todos os tempos, mas tamb\u00e9m como um dos maiores do mundo no s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Seu envolvimento com a burguesia nacional tinha rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas com sua extra\u00e7\u00e3o social privilegiada \u2013 era neto de um ministro da Suprema Corte e descendente de militares teuto-portugueses imigrados no in\u00edcio do s\u00e9culo 19. N\u00e3o se pode desprezar ainda seu in\u00edcio de carreira junto ao j\u00e1 mencionado grupo pol\u00edtico conservador de Minas Gerais. Sua simbiose com JK por\u00e9m parece se encaixar bem numa certa pol\u00edtica etapista do PCB cuja express\u00e3o mais clara se encontra na declara\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o de 1958. Para os comunistas organizados no partido naquele momento, a burguesia nacional e o regime ent\u00e3o vigente poderiam ter um car\u00e1ter progressista anti-imperialista, ensejando a forma\u00e7\u00e3o de uma \u201cfrente \u00fanica\u201d para a \u201cluta por um governo nacionalista e democr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p>O risco universal do revolucion\u00e1rio<br \/>\nHavendo atingido o \u00e1pice de sua carreira na constru\u00e7\u00e3o da Capital Federal, era natural que Oscar Niemeyer como qualquer um de sua estatura profissional, se dedicasse preferentemente a encargos em outros pa\u00edses. A partir de 1961, iniciaria um ciclo de viagens e estadias prolongadas no exterior de aproximadamente duas d\u00e9cadas. Primeiro alternando per\u00edodos no Brasil e no L\u00edbano, Israel, Europa e Arg\u00e9lia. Em seguida, a partir do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, fixando resid\u00eancia em Paris.<\/p>\n<p>Se a burguesia europeia aproveitou a oportunidade de usufruir do talento de Niemeyer \u2013 caso das diversas sedes de empresas projetadas na Fran\u00e7a ou na It\u00e1lia naquele per\u00edodo \u2013 tamb\u00e9m o fizeram os camaradas Georges Marchais, Georges Gosnat ou Roland Leroy do Partido Comunista Franc\u00eas (PCF), bem como o governo cada vez mais socialista de Houari Boum\u00e9di\u00e8ne na Arg\u00e9lia. Muitos se valeram da simplicidade inventiva de seu tra\u00e7o para dar forma constru\u00edda a seus projetos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Assim, por exemplo, o brasileiro realizaria em 1962 a sede da Feira Permanente do L\u00edbano, em Tr\u00edpoli; em 1964 em Israel projetaria os conjuntos urbanos Nordia, Panorama e Negev, construindo a Universidade de Haifa; em 1965 construiria a sede do PCF em Paris e mais tarde a sede de seu jornal, o L\u2019Humanit\u00e9 em Saint Denis (1987). Em Constantine, na Arg\u00e9lia, realizaria em 1969 uma enorme universidade, al\u00e9m da Mesquita de Argel \u2013 n\u00e3o constru\u00edda. S\u00e3o dezenas de obras representativas da expans\u00e3o da genialidade do brasileiro pelo mundo.<\/p>\n<p>Esse cosmopolitismo o tornou pr\u00f3ximo n\u00e3o apenas de comunistas intelectuais como Jean-Paul Sartre, Pablo Neruda ou Andr\u00e9 Malraux, mas tamb\u00e9m de revolucion\u00e1rios como o j\u00e1 mencionado Boum\u00e9di\u00e8ne ou Fidel Castro \u2013 que em 1992 afirmaria ser Niemeyer \u201co \u00faltimo comunista do Brasil\u201d. Sua grande refer\u00eancia pol\u00edtica, em todo caso, seria sempre Lu\u00eds Carlos Prestes. Em seus escritos autobiogr\u00e1ficos, sempre menciona com proximidade figuras hist\u00f3ricas do Partid\u00e3o como Agildo Barata, Nelson Werneck Sodr\u00e9 e Astrojildo Pereira. No campo da milit\u00e2ncia, acompanharam-no nessa nova fase Marcos Jaimovich, Heron de Alencar, Renato Guimar\u00e3es (propriet\u00e1rio da editora Revan, pela qual Niemeyer publicaria todas as suas obras), Ubirajara Brito e muitos outros.<\/p>\n<p>Agruras da luta<br \/>\n\u00c9 claro, nem tudo eram gl\u00f3rias e afetos nessa trajet\u00f3ria pol\u00edtica revolucion\u00e1ria. Se por um lado Niemeyer nunca foi preso, por outro lado passou por diversos constrangimentos, repres\u00e1lias, boicotes e interrogat\u00f3rios devido a seu posicionamento abertamente comunista. J\u00e1 em 1948, tem seu projeto do Centro T\u00e9cnico da Aeron\u00e1utica \u2013 vencedor de concurso p\u00fablico \u2013 temporariamente anulado \u201cpor raz\u00f5es de Seguran\u00e7a Nacional\u201d; em 1953, o reitor Ernesto Leme interdita a doc\u00eancia do arquiteto como professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP; em 1965, seu projeto para o aeroporto de Bras\u00edlia \u00e9 engavetado como forma de repres\u00e1lia pol\u00edtica do brigadeiro Castro Neves, que declara que \u201clugar de arquiteto comunista \u00e9 em Moscou\u201d \u2013 isso para n\u00e3o falar da j\u00e1 citada recusa do visto de entrada nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Mesmo com a abertura do regime, em 1981, os militares tentam barrar a escultura em homenagem a Juscelino Kubitschek em frente ao Memorial JK projetado pelo arquiteto, pois pareceu-lhes uma foice e martelo em pleno eixo monumental \u2013 e talvez fosse mesmo. S\u00e3o muitas passagens tristes, sobretudo a pris\u00e3o e morte de amigos, como Mauro Vinhas, que se suicida ap\u00f3s uma batida policial na reda\u00e7\u00e3o da revista M\u00f3dulo, que Niemeyer dirigia. Uma conhecida anedota se d\u00e1 quando, no primeiro ano da constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, o general Amaury Kruel o convoca para depor no Departamento Federal de Seguran\u00e7a P\u00fablica. \u00c9 levado \u00e0 sala almofadada onde fazem as perguntas usuais sobre o PCB, concluindo: \u201cO que voc\u00eas pretendem?\u201d. Niemeyer n\u00e3o titubeia: \u201cmudar a sociedade\u201d. O policial dirige-se ao auxiliar: \u201cEscreva a\u00ed: mudar a sociedade\u201d. O rapaz se volta ao interrogado e comenta fazendo uma careta: \u201cvai ser dif\u00edcil\u2026\u201d.<\/p>\n<p>De volta ao Brasil na d\u00e9cada de 1980, depois de passar por tantas agruras, Niemeyer permanece no PCB, como sempre, mas parece desconfort\u00e1vel com os rumos que o Partido vinha tomando. Em 1987, participa do VIII Congresso, e se queixa de ver poucos de seu tempo, como Salom\u00e3o Malina, Geraldo Rodrigues dos Santos (o \u201cGerald\u00e3o\u201d) ou Nelson Werneck Sodr\u00e9. Relata que \u201ca reuni\u00e3o prosseguia e, de quando em quando, um mais exaltado levantava aos gritos uma palavra de ordem. E todos o seguiam de p\u00e9, com o punho fechado, numa atitude de luta declarada. Constrangia-me acompanh\u00e1-los, sentia uma contradi\u00e7\u00e3o com a linha conciliat\u00f3ria que o Partido adotara\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto existir mis\u00e9ria e opress\u00e3o, ser comunista \u00e9 nossa decis\u00e3o\u201d<br \/>\nDiante da queda iminente da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em junho de 1991, os grupos ditos \u201crenovadores\u201d assumem o poder no PCB e preparam sua tentativa de liquid\u00e1-lo por meio de uma transforma\u00e7\u00e3o num partido social-democrata. Niemeyer se coloca frontalmente contra o movimento, mandando imprimir um cartaz com uma mensagem contundente \u201caos companheiros delegados do IX Congresso do PCB\u201d, com fundo amarelo e uma seta negra esmagando um corpo morto sobre uma po\u00e7a de sangue. Manuscrito, o recado: \u201cEnquanto existir mis\u00e9ria e opress\u00e3o, ser comunista \u00e9 nossa decis\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>De fato, com o golpe dado em 1992 e a transforma\u00e7\u00e3o da legenda em PPS, o arquiteto se junta a diversos outros militantes antigos no Movimento Nacional em Defesa do PCB, assumindo a Presid\u00eancia de Honra do Partid\u00e3o durante aquele dif\u00edcil momento, em que os comunistas s\u00f3 obteriam novo registro em 1995, ap\u00f3s senten\u00e7a favor\u00e1vel do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo direito ao uso da sigla hist\u00f3rica pelos militantes hist\u00f3ricos do Partid\u00e3o.<\/p>\n<p>Niemeyer ficou perplexo com o desmantelamento do mundo comunista. \u201cSentia que minha posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o correspondia ao que se passava no pa\u00eds e no mundo. Que muitos aceitavam a derrota como consequ\u00eancia de velhos e irrepar\u00e1veis erros e outros, tranquilamente, n\u00e3o raro como coisa desejada\u201d. Em todo caso manteve a combatividade e a f\u00e9 no processo dial\u00e9tico da hist\u00f3ria, segundo o qual as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo h\u00e3o de se expressar nos sujeitos e organiza\u00e7\u00f5es capazes de levar a seu fim, dizendo ter recusado tudo: \u201cpassei a considerar que a crise sovi\u00e9tica constitu\u00eda uma fase natural na luta pol\u00edtica, que o ser humano n\u00e3o atingira ainda o n\u00edvel que a sociedade comunista, solid\u00e1ria, exigia. E me refugiei na ideia de que o progresso promovido pela Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, que transformara a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, de um simples pa\u00eds de mujiques na segunda pot\u00eancia mundial, fora extraordin\u00e1rio. E isso me bastava\u201d. Aquela brutal desarticula\u00e7\u00e3o seria certamente \u201calgo que os velhos comunistas sovi\u00e9ticos saberiam eliminar\u201d.<\/p>\n<p>Naqueles tempos de infelizes mudan\u00e7as, falece Prestes em 1990 \u2013 desligado do PCB h\u00e1 dez anos por motivos parecidos aos que desanimaram Niemeyer. No mesmo ano, o arquiteto projeta em Porto Alegre, cidade natal do l\u00edder revolucion\u00e1rio, um Memorial em homenagem a ele. A obra n\u00e3o \u00e9 constru\u00edda. Niemeyer n\u00e3o esmorece. Em 1992, realiza um projeto para a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, que acabaria sendo constru\u00eddo em Palmas, no Tocantins, como Memorial da Coluna Prestes \u2013 o mesmo motivo de outro monumento do arquiteto na cidade missioneira de Santo \u00c2ngelo, realizado em 1995.<\/p>\n<p>Ao completar 100 anos, em 2007, Oscar Niemeyer elaborou um estudo para o Memorial Lu\u00eds Carlos Prestes na capital do Rio Grande do Sul. Um edif\u00edcio cil\u00edndrico cortado por uma parede vermelha diagonal que atravessa com um p\u00f3rtico uma rampa serpenteante de entrada. Uma \u201ccunha vermelha\u201d suprematista cortando a hist\u00f3ria. O arquiteto faleceria em 2012 sem ver a obra pronta, que em todo caso seria inaugurada na Praia de Belas em 2017: um edif\u00edcio, um ponto de reuni\u00e3o, um memorial que simboliza n\u00e3o apenas a trajet\u00f3ria revolucion\u00e1ria do \u201cCavaleiro da Esperan\u00e7a\u201d, mas tamb\u00e9m de seu Partido, e do arquiteto que o concebeu.<\/p>\n<p>Ferreira Gullar certa vez sintetizou de modo feliz: \u201ccom seu tra\u00e7o futuro Oscar nos ensina que o sonho \u00e9 popular\u201d. Os duros caminhos percorridos pelo partido e pelo arquiteto centen\u00e1rios mostram que a talha desse sonho na realidade \u00e9 dura e envolve sempre luta. Estamos de volta a Copacabana na d\u00e9cada de 1980, Niemeyer, algo culpado em seu escrit\u00f3rio na cobertura do edif\u00edcio Ypiranga, conversa com seus amigos sobre os poss\u00edveis desdobramentos do entrevero com Tavares, que lhe retrucara um murro em pleno restaurante Nino. O cronista, treinador de futebol e comunista Jo\u00e3o Saldanha d\u00e1 ao arquiteto uma li\u00e7\u00e3o de dial\u00e9tica capaz de fazer inveja a Hegel: \u201cSe for de rev\u00f3lver, atira para baixo, porque o tiro levanta a pontaria\u201d.<\/p>\n<p><em>Oscar Niemeyer, mensagem \u00e0 ala revisionista que j\u00e1 tentava liquidar o PCB no IX Congresso do Partid\u00e3o em 1991: enquanto existir mis\u00e9ria e opress\u00e3o, ser comunista \u00e9 nossa decis\u00e3o, Fonte: Partido Comunista Brasileiro.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28691\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"Oscar Niemeyer, mensagem \u00e0 ala revisionista que j\u00e1 tentava liquidar o PCB no IX Congresso do Partid\u00e3o em 1991: enquanto existir mis\u00e9ria e opress\u00e3o, ser comunista \u00e9 nossa decis\u00e3o.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[365,1],"tags":[224],"class_list":["post-28691","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-centenario-do-pcb","category-geral","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7sL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28691","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28691"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28691\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28691"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28691"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28691"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}