{"id":28726,"date":"2022-05-02T17:02:11","date_gmt":"2022-05-02T20:02:11","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28726"},"modified":"2022-05-02T17:02:11","modified_gmt":"2022-05-02T20:02:11","slug":"terreiros-como-espacos-de-luta-contra-o-racismo-no-df","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28726","title":{"rendered":"Terreiros como espa\u00e7os de luta contra o racismo no DF"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 40px;\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/revistaoipe.files.wordpress.com\/2022\/04\/jorgeamado_maemenininha.jpeg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Danilo Josaphat, via Revista <a href=\"https:\/\/revistaoipe.org\/2022\/04\/24\/terreiros-como-espacos-de-luta-contra-o-racismo-no-df\/\">O Ip\u00ea<\/a><\/strong><\/p>\n<p><em>A sistem\u00e1tica viol\u00eancia religiosa contra locais de cultos de matriz africana escancara a mentalidade higienista, fundada no racismo e no elitismo, que ainda impera no Brasil e no Distrito Federal.<\/em><\/p>\n<p>Apesar da liberdade de culto religioso ser garantida constitucionalmente, o Estado elitista e racista brasileiro permite e, por vezes, promove a persegui\u00e7\u00e3o contra religi\u00f5es de matriz africana. O comportamento intolerante \u00e0s express\u00f5es da religiosidade candomblecista e umbandista est\u00e1 profundamente enraizado no projeto de na\u00e7\u00e3o burgu\u00eas e branco, e a situa\u00e7\u00e3o em Bras\u00edlia, infelizmente, n\u00e3o \u00e9 diferente. O Distrito Federal (DF) desponta, nos \u00faltimos anos, com in\u00fameros casos na m\u00eddia de ataques a terreiros, o que provoca uma reflex\u00e3o sobre como tem se constitu\u00eddo esse quadro de persegui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica banalizada de persegui\u00e7\u00e3o aos povos de terreiro e invas\u00e3o de seus espa\u00e7os de culto pode ser evidenciada pela forma truculenta e agressiva com que a Pol\u00edcia Militar entrou e depredou terreiros a partir de den\u00fancias an\u00f4nimas sobre o paradeiro do autor de uma chacina no entorno do DF, no m\u00eas de junho de 2021. O evento escancara a ampla difus\u00e3o do preconceito religioso fundado no racismo e a rapidez com que o bra\u00e7o armado do Estado ratifica a pretensa conex\u00e3o entre espa\u00e7o de culto religioso de matriz africana e criminalidade.<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que terreiros s\u00e3o, historicamente, locais onde ocorrem a\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o, muito pelo que eles representam, \u00e9 fato. Esses espa\u00e7os sagrados s\u00e3o congrega\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias do povo preto, que remontam ao per\u00edodo da escraviza\u00e7\u00e3o, de forte sentimento comunit\u00e1rio, com alta capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o social e que destoam do projeto individualista, mercadol\u00f3gico e embranquecedor da classe dominante brasileira, inclusive o contrapondo. Assim sendo, como toda express\u00e3o do poder popular, a exist\u00eancia dos povos de terreiro estabelece uma contradi\u00e7\u00e3o direta com os aparatos de reprodu\u00e7\u00e3o social do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>As correntes da contradi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Esse conflito, uma contradi\u00e7\u00e3o em deflagra\u00e7\u00e3o h\u00e1 s\u00e9culos no Brasil, entre sistemas e ideias contra-hegem\u00f4nicos das camadas populares (principalmente negras) e a pr\u00e1tica, a moral e os bons costumes da burguesia branca, ou embranquecida, \u00e9 uma das for\u00e7as hist\u00f3ricas que moldaram e ainda moldam a forma\u00e7\u00e3o deste pa\u00eds. Se antes a coer\u00e7\u00e3o contra subvers\u00f5es ao projeto de na\u00e7\u00e3o da classe dominante estava a cargo do clero com apoio juramentado do Estado, como ocorreu at\u00e9 o s\u00e9culo XIX, passando posteriormente \u00e0 a\u00e7\u00e3o de aparatos policiais e militares durante o s\u00e9culo XX, neste s\u00e9culo XXI a for\u00e7a que complementa e se destaca a servi\u00e7o da repress\u00e3o de espa\u00e7os populares, como os terreiros, s\u00e3o os agrupamentos ultraconservadores das igrejas neopentecostais.<\/p>\n<p>Foi a partir do t\u00edpico discurso reacion\u00e1rio com base na teologia da prosperidade e atrav\u00e9s de um apelo \u00e0 viol\u00eancia que, no \u00faltimo m\u00eas de mar\u00e7o, na zona rural de Planaltina, um homem que se apresentou como pastor evang\u00e9lico invadiu um terreiro e destruiu v\u00e1rias imagens de orix\u00e1s. Infelizmente, fatos como esse t\u00eam ocorrido \u00e0 margem da a\u00e7\u00e3o do Estado e sem sobressaltos ou qualquer indigna\u00e7\u00e3o da sociedade civil, contrariando a prote\u00e7\u00e3o constitucional de liberdade de culto.<\/p>\n<p>Na unidade da federa\u00e7\u00e3o com maior concentra\u00e7\u00e3o de renda do pa\u00eds, os interesses pol\u00edticos est\u00e3o afastados das camadas populares, especialmente dos setores marginalizados. Repise-se que a invas\u00e3o de terreiros em \u00e1reas pobres e perif\u00e9ricas, de popula\u00e7\u00e3o majoritariamente preta, acontece sob o acinte de comunidades religiosas reacion\u00e1rias, que s\u00e3o verdadeiros cabos eleitorais da direita e da extrema-direita. Em 2019, segundo dados da delegacia especializada na investiga\u00e7\u00e3o de crimes de intoler\u00e2ncia no DF, 59% dos crimes de intoler\u00e2ncia tinham os grupos de religi\u00f5es de matriz africana como alvos. Em verdade, a invas\u00e3o, a coer\u00e7\u00e3o e o desmantelamento dos espa\u00e7os de culto de matriz africana s\u00e3o configurados pelos interesses de uma classe dominante, que \u00e9 comprometida com a realiza\u00e7\u00e3o do projeto de sociedade brasiliense higienista, baseado no racismo e no elitismo classista.<\/p>\n<p><strong>Quebrando as correntes<\/strong><\/p>\n<p>Portanto, faz-se fundamental compreender e reafirmar que a viol\u00eancia contra os povos de terreiro est\u00e1 articulada a condi\u00e7\u00f5es estruturantes que conformam a sociedade profundamente injusta, em que grande parcela da popula\u00e7\u00e3o permanece oprimida. Prezar e defender os espa\u00e7os de resist\u00eancia como terreiros e as pr\u00e1ticas de organiza\u00e7\u00e3o social como as religi\u00f5es de matriz africana deve fazer parte das tarefas daqueles que s\u00e3o comprometidos com a transforma\u00e7\u00e3o radical da sociedade. Nesse sentido, algumas media\u00e7\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias, como bem lembrou a Iyalorix\u00e1 Luciana de Oya, do Il\u00ea Ax\u00e9 Obod\u00f3, em S\u00e3o Paulo, para quem \u201ca intoler\u00e2ncia religiosa (\u2026) exige que o tempo todo a gente tenha instrumentos para poder se defender\u201d. De acordo com a l\u00edder religiosa, \u00e9 importante saber que \u201ctem uma legisla\u00e7\u00e3o que normatiza isso e as casas, na maioria das vezes, n\u00e3o sabem\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 fato que denunciar o avan\u00e7o de reacionarismos como a teologia da prosperidade, que se apresenta como promotor do projeto da classe dominante, bem como fomentar a consci\u00eancia racial e de classe junto \u00e0 classe trabalhadora \u00e9 imprescind\u00edvel. Dar voz e inspirar-se na capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o dos povos de terreiro \u00e9 de suma import\u00e2ncia para garantir a vitalidade dos povos de ax\u00e9, os quais s\u00e3o testemunha hist\u00f3rica dos processos de luta popular no Brasil. No dizer de M\u00e3e Marinalva, l\u00edder de um terreiro em Santa Maria\/DF, \u201cax\u00e9 \u00e9 uma palavra que quer dizer for\u00e7a, luta, vit\u00f3ria\u201d. \u00c9 preciso lan\u00e7ar m\u00e3o de todas as pr\u00e1ticas, com for\u00e7a e luta, que s\u00e3o capazes de frear a escalada de viol\u00eancia contra as religi\u00f5es de matriz africana, com o fim de buscar objetivamente um projeto de sociedade digna, justa, antirracista e verdadeiramente liberta.<\/p>\n<p>Os ataques a terreiros no Brasil s\u00e3o a manifesta\u00e7\u00e3o do racismo que permeia a sociedade e o Estado. Tal situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m retrata o quadro de profundo arraigamento do higienismo como corol\u00e1rio da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e do interesse dominante no Brasil e no DF. Nessa toada, \u00e9 imperioso reafirmar o forte compromisso dos constituintes comunistas de 1946, como Jorge Amado, Claudino Jos\u00e9 da Silva e Luiz Carlos Prestes, que apresentaram emenda que consagrou a liberdade de culto. Igualmente, Carlos Marighella defendeu em discurso, \u00e0 \u00e9poca, \u201ca posi\u00e7\u00e3o do Partido Comunista em querer lutar, com todas as for\u00e7as da democracia, (\u2026) para garantir, no Brasil, a liberdade de consci\u00eancia\u201d. E arrematou confirmando o respeito a \u201ctodos os credos, fazendo que n\u00e3o se estabele\u00e7a privil\u00e9gio de um credo sobre os demais, ou n\u00e3o se recorra a essa situa\u00e7\u00e3o, no sentido de impedir a liberdade democr\u00e1tica e acorrentar mais ainda a nossa gente\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, n\u00e3o \u00e9 demais citar o livro <em>Revolu\u00e7\u00e3o africana \u2013 Uma antologia do pensamento marxista<\/em> , segundo o qual o encontro entre hist\u00f3ria e tradi\u00e7\u00e3o ancestral na luta do povo preto com o materialismo hist\u00f3rico dial\u00e9tico deve possibilitar o negativo total do capitalismo mundial e a efetiva e necess\u00e1ria quebra dessas correntes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28726\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"Como toda express\u00e3o do poder popular, a exist\u00eancia dos povos de terreiro estabelece uma contradi\u00e7\u00e3o direta com os aparatos de reprodu\u00e7\u00e3o social do capitalismo.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[223],"class_list":["post-28726","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7tk","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28726","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28726"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28726\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28726"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28726"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28726"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}