{"id":28740,"date":"2022-05-04T15:49:58","date_gmt":"2022-05-04T18:49:58","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28740"},"modified":"2022-05-04T15:49:58","modified_gmt":"2022-05-04T18:49:58","slug":"o-desejo-a-conjuntura-e-a-luta-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28740","title":{"rendered":"O desejo, a conjuntura e a luta de classes"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 40px;\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2022\/05\/coluna_iasi.png?w=747\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2022\/05\/04\/o-desejo-a-conjuntura-e-a-luta-de-classes\/\">Blog da Boitempo<\/a><\/p>\n<p>Fazer an\u00e1lise de conjuntura \u00e9 algo arriscado. Mao Ts\u00e9-Tung nos dizia que h\u00e1, pelo menos, tr\u00eas riscos comuns ao analisar uma determinada situa\u00e7\u00e3o: a unilateralidade, o subjetivismo e a superficialidade. Uma conjuntura \u00e9 um quadro complexo, uma s\u00edntese de m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es. Desta maneira, o analista pode se ater a um dos aspectos (a unilateralidade) e n\u00e3o perceber as contradi\u00e7\u00f5es, ou ainda, fixar-se naquilo que se torna mais vis\u00edvel (a superficialidade). Tanto em um como em outro desvio est\u00e1 presente o subjetivismo: escolher destacar uma vertente da conjuntura porque ela nos interessa ou nos seria ben\u00e9fica, deixando de aprofundar a an\u00e1lise por temer que, das determina\u00e7\u00f5es mais profundas, revele-se um quadro distinto daquele que desejamos e que parecia se confirmar na superf\u00edcie.<\/p>\n<p>A conjuntura \u00e9 uma totalidade inserida em totalidades mais determinantes: o per\u00edodo hist\u00f3rico, a particularidade hist\u00f3rica de uma forma\u00e7\u00e3o social e as caracter\u00edsticas de um modo de produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil captar a totalidade no momento de sua concretiza\u00e7\u00e3o, de sua media\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica na conjuntura. Estamos convencidos que essa media\u00e7\u00e3o est\u00e1 na luta de classes, uma vez que \u00e9 nela que se encontram concretizadas as determina\u00e7\u00f5es mais profundas da forma\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-hist\u00f3rica e do modo de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel que o desejo n\u00e3o se apresente, pois n\u00e3o acreditamos em an\u00e1lises neutras ou no falacioso pressuposto da sociologia compreensiva da neutralidade axiol\u00f3gica. Somos militantes e nossa an\u00e1lise \u00e9 um instrumento de nossa inten\u00e7\u00e3o na luta de classes e n\u00e3o um exerc\u00edcio diletante. A melhor forma n\u00e3o \u00e9 negar o desejo, mas confront\u00e1-lo com a objetividade do real, como na famosa s\u00edntese gramsciana que afirma a necessidade do pessimismo do intelecto e o otimismo da vontade.<\/p>\n<p>Uma forma de procurar evitar esses desvios \u00e9 tra\u00e7ar cen\u00e1rios, isto \u00e9, considerando a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e as contradi\u00e7\u00f5es presentes, indagar quais seriam as principais vertentes para onde pode se dirigir uma determinada conjuntura.<\/p>\n<p>Ao analisar a conjuntura atual temos um bom exemplo disso. O personagem principal de muitas das an\u00e1lises que se apresentam \u00e9 o desejo, o que nos leva \u00e0 predomin\u00e2ncia do subjetivismo. Portanto, devemos indagar sobre o que deixamos de lado ou o que se esconde nas determina\u00e7\u00f5es mais profundas. Todos n\u00f3s queremos que esta p\u00e1gina infeliz de nossa hist\u00f3ria seja definitivamente virada. O bolsonarismo n\u00e3o \u00e9 o pior governo da hist\u00f3ria brasileira, isto \u00e9 um exemplo de superficialidade. O governo miliciano \u00e9, sem d\u00favida, o pior governo desde o chamado per\u00edodo da democratiza\u00e7\u00e3o, portanto, \u00e9 natural que todos n\u00f3s desejemos sua supera\u00e7\u00e3o. Este princ\u00edpio pode cegar a an\u00e1lise levando a crer que qualquer solu\u00e7\u00e3o que tire da pauta o genocida miliciano \u00e9 boa.<\/p>\n<p>Lembremos que um setor das classes dominantes, que encontrou na Rede Globo seu porta-voz, j\u00e1 havia chegado \u00e0 conclus\u00e3o do car\u00e1ter delet\u00e9rio do governo atual e pregado explicitamente seu afastamento. Seria bom que o miser\u00e1vel sofresse impedimento por qualquer um de seus crimes. No entanto, qual seria a alternativa naquele momento? Mour\u00e3o? Rodrigo Maia?<\/p>\n<p>Agora, no contexto das elei\u00e7\u00f5es que se aproximam, creio que se apresentam tr\u00eas cen\u00e1rios mais vis\u00edveis e um quarto que todos preferem n\u00e3o acreditar que seja poss\u00edvel. Os tr\u00eas cen\u00e1rios para o desfecho eleitoral seriam: uma vit\u00f3ria de Lula, uma virada de Bolsonaro ou a chamada terceira via. Ao contr\u00e1rio da maioria das an\u00e1lises que t\u00eam se apresentado, acredito que as tr\u00eas s\u00e3o poss\u00edveis e t\u00eam recursos de poder para se viabilizar, o que n\u00e3o impede que uma seja mais poss\u00edvel que as outras.<\/p>\n<p>Evidente que analisando o quadro atual a vit\u00f3ria de Lula parece mais prov\u00e1vel (hoje mais no segundo do que no primeiro turno), no entanto, se enganam aqueles que creem que a fatura j\u00e1 est\u00e1 liquidada. O miliciano, com toda a opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, midi\u00e1tica e jur\u00eddica que foi desfechada contra ele, segue em p\u00e9 e vem diminuindo a dist\u00e2ncia para o candidato do PT, apontando para um segundo turno.<\/p>\n<p>Vivemos em um pa\u00eds fraturado e isso leva ao fato que as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o capazes de conter movimentos que se d\u00e3o na base da sociedade e que n\u00e3o se expressam como de costume, nem nas prefer\u00eancias eleitorais, nem na a\u00e7\u00e3o vis\u00edvel \u2013 algo como as correntes sociais que Durkheim imaginou, que quando emergem acabam virando o jogo.<\/p>\n<p>Mesmo a terceira via, que no momento parece um naufr\u00e1gio eminente, pode se reapresentar no curso do processo eleitoral, talvez com uma unifica\u00e7\u00e3o de candidaturas ou suas inviabiliza\u00e7\u00f5es, levando o descontentamento com a polariza\u00e7\u00e3o a se concentrar em algu\u00e9m. Este \u00e9 o desejo expl\u00edcito de Ciro Gomes. Estou convencido que a possibilidade de uma terceira via \u00e9 mais um desejo de um bloco das classes dominantes do que uma verdadeira possibilidade, mas n\u00e3o devemos desconsiderar o poder destes segmentos, seja midi\u00e1tico, seja econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Aqui come\u00e7a a superficialidade. Alguns adorariam parar por a\u00ed para justificar suas escolhas e come\u00e7ar a pensar na distribui\u00e7\u00e3o de cargos no novo governo. As coisas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o lineares quando pensamos cen\u00e1rios. A polariza\u00e7\u00e3o entre o petismo e o bolsonarismo pode provocar um deslocamento em dire\u00e7\u00f5es opostas, isto \u00e9, tanto uma op\u00e7\u00e3o pelo retorno seguro \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o de classes do petismo, quanto para a seguran\u00e7a da manuten\u00e7\u00e3o da pauta do capital pelo bolsonarismo. O que nos parece prov\u00e1vel \u00e9 que tal movimento sangre at\u00e9 a inani\u00e7\u00e3o a terceira via, ao contr\u00e1rio de fortalec\u00ea-la. Mesmo enfraquecida, a insist\u00eancia em manter essas candidaturas joga um papel importante na defini\u00e7\u00e3o dos cen\u00e1rios, uma vez que a pulveriza\u00e7\u00e3o dos votos nestes candidatos, ou sua concentra\u00e7\u00e3o em um deles, acaba for\u00e7ando o segundo turno. Esta indica\u00e7\u00e3o nos leva a crer que dificilmente a elei\u00e7\u00e3o se resolva no primeiro turno e que a polariza\u00e7\u00e3o se radicalize durante o processo eleitoral, o que favorece as inten\u00e7\u00f5es do bolsonarismo.<\/p>\n<p>O desejo se apresenta em todos os protagonistas. O desejo petista \u00e9 que seja uma quest\u00e3o apenas entre primeiro ou segundo turno, mas acredita que sua volta ao governo estaria garantida por dois motivos principais: o profundo desgaste de um governo desastroso e uma ampla frente de alian\u00e7as eleitorais que j\u00e1 visam a governabilidade. Essa frente \u00e9, na subst\u00e2ncia, de centro e deve se desenvolver para uma governabilidade de centro-direita.<\/p>\n<p>O desejo de segmentos de esquerda e de centro-esquerda que se somam a essa frente se resume na inten\u00e7\u00e3o louv\u00e1vel de tirar Bolsonaro da disputa. Do ponto de vista program\u00e1tico e em rela\u00e7\u00e3o ao car\u00e1ter do governo, parece muito pouco prov\u00e1vel uma inclina\u00e7\u00e3o mais popular ou \u00e0 esquerda. Pelo contr\u00e1rio, tudo indica um governo ainda mais acorrentado ao pacto e \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o com o grande capital. Esses setores parecem n\u00e3o ter aprendido nada das experi\u00eancias passadas e da profunda diferen\u00e7a entre promessas e situa\u00e7\u00e3o real de governo.<\/p>\n<p>O desejo da direita \u00e9 que, como dissemos, a polariza\u00e7\u00e3o leve ao fortalecimento da terceira via, mas isto \u00e9 s\u00f3 apar\u00eancia. O bloco dominante joga com tr\u00eas alternativas e n\u00e3o com uma. Aposta na sua almejada terceira via (n\u00e3o importa quem), mas tem planos tanto para o cen\u00e1rio petista como para a sobreviv\u00eancia do bolsonarismo. Provavelmente se dividir\u00e1 na elei\u00e7\u00e3o para se unificar diante do futuro governo, seja ele quem for.<\/p>\n<p>O quarto cen\u00e1rio \u00e9 aquele que ningu\u00e9m ousa pronunciar por medo de sua concretiza\u00e7\u00e3o. Quando avaliamos o conjunto dos fatores, uma elei\u00e7\u00e3o disputada e marcada por tens\u00f5es e manipula\u00e7\u00f5es do poder econ\u00f4mico e dos esquemas criminosos de massifica\u00e7\u00e3o de mentiras, um pa\u00eds fraturado, uma indefini\u00e7\u00e3o das classes dominantes, um agravamento profundo da crise econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica, temos que levar em conta, inclusive por evidentes indicativos do per\u00edodo que se encerra, uma outra possibilidade.<\/p>\n<p>O bolsonarismo n\u00e3o joga exclusivamente no cen\u00e1rio institucional, inclusive quando esteve no governo. O miliciano passou mais tempo conspirando do que governando. Acredito que o bolsonarismo trabalha com duas possibilidades: virar o jogo e ganhar as elei\u00e7\u00f5es no segundo turno aprofundando a fratura e adiando o seu intento golpista, como fez em 2018; ou, em caso de derrota, desfechar uma tentativa golpista. Todos n\u00f3s, inclusive eu, n\u00e3o acreditamos que essa tentativa tenha condi\u00e7\u00f5es de se consolidar, principalmente pelo que parecem ser os interesses do grande capital monopolista e do imperialismo e que podem com mais seguran\u00e7a e estabilidade se manifestar na manuten\u00e7\u00e3o da institucionalidade pretensamente democr\u00e1tica. No entanto, esta pode ser uma zona cinzenta determinada pelo desejo, que pode obscurecer uma vertente objetiva que se apresenta na luta de classes.<\/p>\n<p>Um golpe que n\u00e3o tenha como se consolidar pode ser tentado e, uma vez colocado em movimento, alterar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e se apresentar como alternativa para o capital e o imperialismo. S\u00f3 para ilustrar, acredito que o golpe de 2016 n\u00e3o era o cen\u00e1rio em que primeiramente o grande capital apostava, mas uma vez colocado em marcha acabou se consolidando com sua b\u00ean\u00e7\u00e3o. Ao lado das condi\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis para consolidar uma interven\u00e7\u00e3o desta natureza, existem indicativos objetivos que nos levam a crer na possibilidade do bolsonarismo tentar este caminho. Primeiro, que o bolsonarismo n\u00e3o \u00e9 um partido no sentido cl\u00e1ssico, mas um movimento de extrema direita profundamente heterog\u00eaneo que capitaliza o descontentamento e o ressentimento de amplos setores que v\u00e3o de setores m\u00e9dios at\u00e9 por\u00e7\u00f5es da massa. Apoia-se em media\u00e7\u00f5es institucionais como as igrejas S\/A, as mil\u00edcias, grupos de extrema direita e parcelas dispersas n\u00e3o organizadas que encontram a media\u00e7\u00e3o em redes sociais dirigidas por esquemas profissionais e criminosos de massifica\u00e7\u00e3o dirigida por algoritmos. Soma-se a isso uma d\u00favida, mas uma d\u00favida essencial que, exatamente por n\u00e3o sabermos se real ou blefe, funciona como recurso de poder que tem sido eficaz na sustenta\u00e7\u00e3o do bolsonarismo no governo: o apoio de setores das for\u00e7as armadas e das corpora\u00e7\u00f5es policiais.<\/p>\n<p>O bolsonarismo se preparou para as elei\u00e7\u00f5es, principalmente com o controle da m\u00e1quina de governo e a alian\u00e7a pol\u00edtica com o centr\u00e3o, mas tem se preparado para a ruptura institucional durante todo este tempo. O crescimento do armamento a partir da libera\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 compra de armas, os supostos clubes de colecionadores e de agremia\u00e7\u00f5es de tiro foram a fachada para a ampla distribui\u00e7\u00e3o de armas, para n\u00e3o falar do tr\u00e1fico de armas como o enorme arsenal na casa do vizinho do miliciano.<\/p>\n<p>Tudo isso pode ser somente um recurso de persuas\u00e3o, que ao que parece tem sido muito eficiente. O desejo de muitos analistas \u00e9 de que seja somente isso, para que assim a disputa ocorra nos limites da legalidade institucional no qual petistas, o capital e o imperialismo acreditam que podem vencer e governar com melhores condi\u00e7\u00f5es de estabilidade e legalidade. Esse desejo revela uma coisa, principalmente por parte dos petistas e de uma parte da esquerda que optou pela institucionalidade: n\u00e3o est\u00e3o de forma alguma preparados para o cen\u00e1rio da ruptura institucional e n\u00e3o t\u00eam nenhum meio de se contrapor ao golpe caso este ocorra. J\u00e1 vimos isto em 2016, em um cen\u00e1rio muito menos dram\u00e1tico. O mesmo n\u00e3o \u00e9 verdade para as classes dominantes e o imperialismo, esses sim t\u00eam meios e recursos para usar a for\u00e7a, seja pelos aparatos de defesa do pr\u00f3prio Estado, seja para apoiar as aventuras golpistas como normalmente ocorre.<\/p>\n<p>O que resta a certos protagonistas \u00e9 somente isso: desejar.<\/p>\n<p>Este quadro conjuntural e os cen\u00e1rios poss\u00edveis de seu desdobramento t\u00eam ainda uma fun\u00e7\u00e3o importante em esconder determina\u00e7\u00f5es que seriam essenciais que fossem reveladas. Uma forma\u00e7\u00e3o social como a nossa, de capitalismo dependente e subordinada ao imperialismo, com um Estado burgu\u00eas de tipo autocr\u00e1tico que no m\u00e1ximo chega a uma democracia de coopta\u00e7\u00e3o, com um tipo particular de capitalismo que produz uma profunda disparidade econ\u00f4mica, social, cultural e pol\u00edtica fraturando a sociedade brasileira em interesses antag\u00f4nicos, um pa\u00eds que passou por uma longa transi\u00e7\u00e3o tutelada, lenta gradual e segura para desembocar numa revers\u00e3o pol\u00edtica abrindo espa\u00e7o para um governo de extrema direita com tend\u00eancias fascistas e que durante todo o \u00faltimo per\u00edodo refor\u00e7ou o dom\u00ednio do grande capital monopolista (na ind\u00fastria, no agroneg\u00f3cio, nos bancos, no com\u00e9rcio externo e interno, nos servi\u00e7os e na comunica\u00e7\u00e3o), que no m\u00e1ximo de democracia n\u00e3o superou esta subordina\u00e7\u00e3o e serviu de capa legitimadora do desmonte de direitos, privatiza\u00e7\u00f5es e precariza\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, massacre nas condi\u00e7\u00f5es contratuais dos trabalhadores, que chega \u00e0s elei\u00e7\u00f5es com a alternativa de voltar \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o de classes ou seguir com o bolsonarismo.<\/p>\n<p>O grande sucesso da ordem \u00e9 lograr uma esfera pol\u00edtica e uma consci\u00eancia social dominada pela ideologia que limita sua discuss\u00e3o a quem ser\u00e1 a pessoa que vai governar, se as alian\u00e7as ser\u00e3o suficientes para garantir uma governabilidade, se a economia encontrar\u00e1 o caminho para crescer (junto com os lucros), se a forma democr\u00e1tica ser\u00e1 rompida ou mantida ou se quem ficar na oposi\u00e7\u00e3o vai respeitar os limites da ordem institucional. Enquanto isso, seguem sem respostas a urgente necessidade de uma reforma agr\u00e1ria e uma nova pol\u00edtica agr\u00edcola, o modelo urbano fracassado a servi\u00e7o do capital, a constante destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, a viol\u00eancia sist\u00eamica nas mais diferentes formas de express\u00e3o, no aparato policial, no racismo, na homofobia, no machismo, uma resposta categ\u00f3rica ao sistema financeiro e a supera\u00e7\u00e3o definitiva do sequestro do fundo p\u00fablico pela mecanismo de expropria\u00e7\u00e3o operada pelo capital financeiro e a ditadura da d\u00edvida, a revers\u00e3o imediata do desmonte do Estado pela l\u00f3gica neoliberal, ultraliberal ou social liberal em nome das necessidades do grande capital, a urgente desmercantiliza\u00e7\u00e3o da vida em nome da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o, da moradia, do saneamento, da cultura e da vida. Principalmente, a urgente discuss\u00e3o sobre a necessidade inadi\u00e1vel de superar a ordem do capital na dire\u00e7\u00e3o da emancipa\u00e7\u00e3o humana e do socialismo. \u00c9 a vit\u00f3ria da pequena pol\u00edtica sobre a grande pol\u00edtica, da possibilidade pragm\u00e1tica contra a a\u00e7\u00e3o transformadora e revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>No fundo, o \u201cFora Bolsonaro\u201d e o \u201cVolta Lula\u201d n\u00e3o respondem categoricamente essas quest\u00f5es, por mais que o \u201cFora Bolsonaro\u201d una a todos deste lado da fratura, n\u00e3o pode significar por si mesmo a revers\u00e3o da reforma trabalhista, dos ataques \u00e0 previd\u00eancia e a subalternidade em rela\u00e7\u00e3o aos ditames do capital financeiro, a prioridade ao agroneg\u00f3cio e a sacrossanta lei de responsabilidade fiscal e irresponsabilidade social, uma vez que os governos anteriores ao golpe de 2016 j\u00e1 caminhavam nesta dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A esquerda, porque existe uma esquerda, est\u00e1 fragmentada, dividida e derrotada. Espalha-se por partidos que cursaram o dif\u00edcil caminho da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o de classes, mas tamb\u00e9m na saud\u00e1vel resist\u00eancia dentro do PT e outras siglas que endossaram, direta ou indiretamente, o pacto e uma estrat\u00e9gia que nos conduziu \u00e0 derrota e ao atual impasse. Diante dos cen\u00e1rios, mais uma vez nos dividimos sobre a melhor t\u00e1tica a ser adotada. Neste momento \u00e9 inevit\u00e1vel. No entanto, o que se cobra de uma esquerda que ainda queira ser identificada como tal \u00e9 n\u00e3o embarcar no autoengano, identificar os interesses de classe e fazer uma profunda autocr\u00edtica da experi\u00eancia recente, seja diante do fracasso da concilia\u00e7\u00e3o e da cren\u00e7a infundada na possibilidade de uma melhoria aqu\u00e9m de reformas sob o manto do Estado burgu\u00eas e sua institucionalidade, seja diante da amea\u00e7a do desenvolvimento de uma extrema direita e o risco do fascismo. H\u00e1 uma clara diferen\u00e7a entre apoio t\u00e1tico e rendi\u00e7\u00e3o incondicional que apaga erros, soterra equ\u00edvocos e trai\u00e7\u00f5es, impedindo o que de mais positivo podemos tirar de nossa experi\u00eancia, ou seja, o aprendizado do que n\u00e3o fazer.<\/p>\n<p>Sartre dizia que \u201co ato de imagina\u00e7\u00e3o [\u2026] \u00e9 um ato m\u00e1gico\u201d, completando: \u201c\u00c9 um encantamento destinado a fazer aparecer o objeto no qual pensamos, a coisa que desejamos, de modo que dela possamos tomar posse. Neste ato, h\u00e1 sempre algo de imperioso e infantil, uma recusa de dar conta da dist\u00e2ncia, das dificuldades\u201d (SARTRE, 1996, p. 165).<\/p>\n<p>Sabemos que estamos distante de nossos objetivos estrat\u00e9gicos, mas nunca os alcan\u00e7aremos se ficarmos justificando todo tipo de desvio como genialidade t\u00e1tica, o que na pr\u00e1tica nos distancia ainda mais dos verdadeiros interesses dos trabalhadores e da humanidade. A esquerda pode e deve se unir, mas para isto \u00e9 preciso balizar muito claramente o que se constitui como t\u00e1tica rebaixada e ataque direto \u00e0 classe trabalhadora, superando o servilismo governista e se dispondo a organizar a classe e suas lutas, mesmo que essas se choquem com o governo de plant\u00e3o. Um projeto de esquerda que rompa a defensiva precisa definir uma estrat\u00e9gia diante do que sabemos que \u00e9 o Estado burgu\u00eas no Brasil e dos meios necess\u00e1rios para uma supera\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Podemos nos dividir sobre as melhores t\u00e1ticas e a forma de implementar nossas estrat\u00e9gias, mas temos que abdicar de uma vez por todas da cren\u00e7a ing\u00eanua e infantil de que poderemos avan\u00e7ar de qualquer forma nos aliando aos nossos inimigos de classe sob o manto protetor de seu Estado.<\/p>\n<p>Refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica<br \/>\nSARTRE, J. P. O imagin\u00e1rio. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1996.<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28740\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"Sabemos que estamos distante de nossos objetivos estrat\u00e9gicos, mas nunca os alcan\u00e7aremos se ficarmos justificando todo desvio como genialidade t\u00e1tica, o que na pr\u00e1tica nos distancia ainda mais dos verdadeiros interesses dos trabalhadores e da humanidade.\"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[222],"class_list":["post-28740","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7ty","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28740","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28740"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28740\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28740"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28740"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28740"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}