{"id":28802,"date":"2022-05-19T14:35:20","date_gmt":"2022-05-19T17:35:20","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28802"},"modified":"2022-05-19T14:35:20","modified_gmt":"2022-05-19T17:35:20","slug":"notas-soltas-sobre-a-grave-situacao-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28802","title":{"rendered":"Notas soltas sobre a grave situa\u00e7\u00e3o mundial"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-25.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Jorge Cadima, via <a href=\"https:\/\/www.omilitante.pcp.pt\/pt\/378\/Internacional\/1894\/Notas-soltas-sobre-a-grave-situa%C3%A7%C3%A3o-mundial.htm?tpl=142\">ODIARIO.INFO<\/a><\/strong><\/p>\n<p>A guerra na Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 um mero conflito entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia. Trata-se de um epis\u00f3dio num embate que, ap\u00f3s a fase de Ieltsin, dura h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas entre a R\u00fassia capitalista que emergiu da contrarrevolu\u00e7\u00e3o na URSS em 1991 e as velhas pot\u00eancias imperialistas, com os EUA \u00e0 cabe\u00e7a. Na boca dos dirigentes e serventu\u00e1rios do imperialismo EUA-OTAN-UE, os discursos sobre a paz na Ucr\u00e2nia escondem a estrat\u00e9gia de elevar a guerra para novos e muito mais perigosos patamares.<\/p>\n<p>O mundo est\u00e1 em profunda convuls\u00e3o. Tr\u00eas d\u00e9cadas ap\u00f3s a vit\u00f3ria das contrarrevolu\u00e7\u00f5es no Leste da Europa, a Humanidade enfrenta o perigo de uma cat\u00e1strofe. A ofensiva para impor a hegemonia planet\u00e1ria dos EUA, com os impunes ataques e assaltos \u00e0 legalidade internacional por parte dos EUA\/OTAN\/UE\/Israel, e o sistema de pilhagem global instaurado pelo grande capital financeiro \u2018ocidental\u2019 na sequ\u00eancia das contrarrevolu\u00e7\u00f5es do final do s\u00e9culo XX, desembocaram numa crise de enormes propor\u00e7\u00f5es, que a guerra na Ucr\u00e2nia est\u00e1 agudizando. O pano de fundo desta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a crise global do sistema capitalista que, tendo se tornado particularmente evidente em 2007-2008, nunca foi ultrapassada, n\u00e3o obstante os trilh\u00f5es de dinheiros p\u00fablicos gastos para sustentar artificialmente um sistema financeiro insolvente. Elemento central desta crise \u00e9 tamb\u00e9m o decl\u00ednio relativo das velhas pot\u00eancias imperialistas, face \u00e0 ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias econ\u00f4micas, com destaque para a China, e a recusa das velhas classes dirigentes imperialistas em aceitar a nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as econ\u00f4mica mundial.<\/p>\n<p>Est\u00e1 nas m\u00e3os dos povos do mundo determinar o rumo dos acontecimentos, impedindo a trag\u00e9dia que se vislumbra.<\/p>\n<p><strong>Hipocrisia sem limites<\/strong><\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o militar russa na Ucr\u00e2nia, iniciada em 24 de fevereiro de 2022, n\u00e3o aconteceu num vazio. N\u00e3o \u00e9 o come\u00e7o da crise, mas sim uma das suas express\u00f5es. Quem ouvir hoje os dirigentes das principais pot\u00eancias imperialistas pensar\u00e1 que s\u00e3o ang\u00e9licos defensores da paz e da legalidade internacional, ciosos da soberania dos pa\u00edses. Mas a realidade \u00e9 exatamente o oposto.<\/p>\n<p>EUA\/OTAN\/UE violaram repetida e descaradamente a legalidade internacional. Foi assim na Iugosl\u00e1via, no Afeganist\u00e3o, no Iraque, na L\u00edbia, na S\u00edria e noutros pa\u00edses. Essas guerras e agress\u00f5es foram sempre apresentadas como \u2018justas\u2019, \u2018humanit\u00e1rias\u2019, \u2018necess\u00e1rias\u2019 \u2013 ou apenas esquecidas, como acontece no I\u00eamen \u2013 apesar de os pretextos invocados para as desencadear serem monumentais invencionices e os seus resultados trag\u00e9dias de enormes propor\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m das guerras mais ou menos convencionais, foi assim tamb\u00e9m nas sucessivas opera\u00e7\u00f5es de \u2018guerra h\u00edbrida\u2019 e subvers\u00e3o multifacetada contra qualquer pa\u00eds que manifestasse vontade soberana, como Cuba, Venezuela, Bol\u00edvia, Ir\u00e3, RPD da Coreia e tantos outros. Foi a sistem\u00e1tica destrui\u00e7\u00e3o do Direito Internacional por parte dos EUA\/OTAN\/UE que abriu as portas para a crise ucraniana.<\/p>\n<p>\u00c9 uma evid\u00eancia que a interven\u00e7\u00e3o militar russa na Ucr\u00e2nia viola o Direito Internacional. Mas ningu\u00e9m pode afirmar que a R\u00fassia tenha feito algo que n\u00e3o tenha sido repetidamente feito, ao longo de d\u00e9cadas, pelos EUA\/OTAN\/UE e seus aliados. A hipocrisia sem limites hoje reinante tem de ser firmemente combatida. N\u00e3o apenas por se tratar de hipocrisia, mas sobretudo porque por detr\u00e1s dela \u2013 e do habitual cortejo de mentiras e propaganda \u2013 est\u00e1 o Partido da Guerra imperialista, que desde h\u00e1 muito prepara a confronta\u00e7\u00e3o com quem n\u00e3o se submete aos seus ditames, e est\u00e1 disposto a usar todos os meios, incluindo uma catastr\u00f3fica guerra mundial, para alcan\u00e7ar os seus objetivos de hegemonia planet\u00e1ria. Na boca dos dirigentes e serventu\u00e1rios do imperialismo, os discursos sobre a paz na Ucr\u00e2nia escondem a estrat\u00e9gia de elevar a guerra para novos e muito mais perigosos patamares.<\/p>\n<p><strong>Do fim da URSS ao assalto \u00e0 R\u00fassia<\/strong><\/p>\n<p>A guerra na Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 um mero conflito entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia. Trata-se de um epis\u00f3dio num embate que, ap\u00f3s a fase de Ieltsin, dura h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas entre a R\u00fassia capitalista que emergiu da contrarrevolu\u00e7\u00e3o na URSS em 1991 e as velhas pot\u00eancias imperialistas, com os EUA \u00e0 cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando da tr\u00e1gica desintegra\u00e7\u00e3o da URSS, os EUA e seus sat\u00e9lites n\u00e3o reservaram \u00e0 nova R\u00fassia capitalista um papel de parceiro, mas sim de pa\u00eds a saquear e, se poss\u00edvel, desintegrar. Entre as raz\u00f5es de tal op\u00e7\u00e3o encontra-se a inevit\u00e1vel tend\u00eancia do imperialismo para se apoderar das riquezas de outros \u2013 ainda mais de um pa\u00eds t\u00e3o vasto e rico em recursos como \u00e9 a R\u00fassia \u2013 mas tamb\u00e9m a vontade de desforra hist\u00f3rica e \u2018castigo exemplar\u2019 ao pa\u00eds herdeiro da primeira grande experi\u00eancia hist\u00f3rica de transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade e constru\u00e7\u00e3o do socialismo. O objetivo de abocanhar as colossais riquezas naturais russas tornou politicamente conveniente \u2018esquecer\u2019 que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica socialista foi destru\u00edda em 1991, reorientando d\u00e9cadas de violenta propaganda anti-sovi\u00e9tica para uma martelante propaganda anti-russa.<\/p>\n<p>O ataque direto \u00e0 R\u00fassia capitalista era imposs\u00edvel, dado o seu arsenal nuclear herdado dos tempos sovi\u00e9ticos, mas isso n\u00e3o impedia um processo gradual de assalto, visando a sua desagrega\u00e7\u00e3o. O colapso da R\u00fassia esteve por um fio em meados dos anos 90. N\u00e3o apenas pela enorme trag\u00e9dia social e econ\u00f4mica que se abateu sobre o pa\u00eds com o fim do socialismo e a destrui\u00e7\u00e3o e pilhagem dos seus recursos pelas \u2018terapias de choque\u2019 do imperialismo que est\u00e3o na origem dos famigerados oligarcas russos (e tamb\u00e9m dos oligarcas ucranianos que continuam a saquear aquele pa\u00eds sem que a comunica\u00e7\u00e3o social deles se lembre). Todos, afinal, criados pelos oligarcas ocidentais. A sobreviv\u00eancia da R\u00fassia esteve por um fio tamb\u00e9m como resultado da sistem\u00e1tica interven\u00e7\u00e3o dos EUA e outras pot\u00eancias que alimentou um sem n\u00famero de guerras nos territ\u00f3rios da ex-URSS (Arm\u00eania, Azerbaij\u00e3o, Ge\u00f3rgia, Mold\u00e1via) e no pr\u00f3prio seio da R\u00fassia (Chech\u00eania). Desde o in\u00edcio, o imperialismo financiou e armou a subvers\u00e3o, tendo o assalto \u00e0 R\u00fassia como objetivo estrat\u00e9gico. O fato de o poder russo ter conseguido travar e depois inverter estes processos de desagrega\u00e7\u00e3o e afirmar uma R\u00fassia soberana e independente \u00e9 o verdadeiro \u2018crime\u2019 que o imperialismo \u2018ocidental\u2019 nunca perdoar\u00e1 a Putin.<\/p>\n<p>A ofensiva multifacetada contra a R\u00fassia manifestou-se tamb\u00e9m nas cinco ondas de expans\u00e3o da OTAN para pa\u00edses ex-socialistas e mesmo ex-sovi\u00e9ticos, acompanhadas pela instala\u00e7\u00e3o de bases, meios militares e repetidas manobras militares envolvendo milhares de soldados da OTAN, cada vez mais pr\u00f3ximos das fronteiras russas. Simultaneamente, os EUA repudiaram os acordos de controle de armamentos. Em 2019 os EUA n\u00e3o renovaram o Tratado sobre For\u00e7as Nucleares de Alcance Intermedi\u00e1rio (INF), seguindo-se uma declara\u00e7\u00e3o oficial do MNE da Ucr\u00e2nia manifestando o seu direito a dotar-se de armas nucleares. Essa inten\u00e7\u00e3o foi reiterada pelo Presidente Zelenski na Confer\u00eancia de Seguran\u00e7a de Munique de fevereiro de 2022.<\/p>\n<p>Em 1962 a URSS instalou m\u00edsseis na Cuba socialista que os EUA haviam atacado no ano anterior (Playa Gir\u00f3n). Os EUA consideraram inaceit\u00e1vel a presen\u00e7a de armas nucleares sovi\u00e9ticas junto \u00e0s suas fronteiras e levaram o planeta \u00e0 beira da guerra nuclear. Mas instalar armas nucleares cada vez mais pr\u00f3ximas de Moscou \u00e9 apresentado como um ato de \u2018liberdade\u2019.<\/p>\n<p><strong>Planos de guerra imperialistas<\/strong><\/p>\n<p>A ofensiva do eixo EUA\/OTAN\/UE n\u00e3o se dirige apenas contra a R\u00fassia. No seu livro de 1997, \u00abO grande Tabuleiro de Xadrez \u2013 A primazia americana e os seus imperativos geoestrat\u00e9gicos\u00bb, o ex-Conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional dos EUA Brzezinski explica: \u00abos tr\u00eas grandes imperativos da geoestrat\u00e9gia imperial s\u00e3o impedir a colabora\u00e7\u00e3o entre os vassalos e mant\u00ea-los dependentes em termos de seguran\u00e7a, manter os tribut\u00e1rios d\u00f3ceis e impedir que os b\u00e1rbaros se associem\u00bb. Para a superpot\u00eancia imperialista, h\u00e1 apenas duas op\u00e7\u00f5es para qualquer povo e pa\u00eds: tornar-se vassalo e d\u00f3cil, ou ser tratado como b\u00e1rbaro.<\/p>\n<p>Ao longo destes anos foi patente o tratamento brutal reservado aos \u2018b\u00e1rbaros\u2019 que afirmavam a sua soberania, seja na Am\u00e9rica Latina, Oriente M\u00e9dio, \u00c1sia, \u00c1frica ou Europa. Em 1999, durante a guerra da OTAN contra a Iugosl\u00e1via, os EUA bombardearam at\u00e9 a Embaixada da China em Belgrado.<\/p>\n<p>Mas o mundo n\u00e3o ficou parado. A China, agindo no contexto de regras econ\u00f4micas internacionais ditadas em grande medida pelos EUA e as estruturas de domina\u00e7\u00e3o financeira mundial por eles hegemonizadas, alcan\u00e7ou um PIB compar\u00e1vel ao dos EUA e cresce a ritmos mais acelerados, manifestando capacidade de desenvolver setores tecnol\u00f3gicos de ponta. Esta fenomenal ascens\u00e3o econ\u00f4mica \u00e9 considerada inaceit\u00e1vel e encarada como uma amea\u00e7a pelos EUA, cujas doutrinas militares proclamam, de forma cada vez mais expl\u00edcita, a China como principal inimigo. O eixo China-R\u00fassia, reafirmado no in\u00edcio de fevereiro aquando da visita de Putin \u00e0 China, \u00e9 um pesadelo para as velhas pot\u00eancias imperialistas.<\/p>\n<p>Quando a hegemonia planet\u00e1ria dos EUA era incontest\u00e1vel, o General Loureiro dos Santos revelou o objetivo de os EUA desencadearem uma guerra de grandes propor\u00e7\u00f5es contra qualquer pa\u00eds ou grupo de pa\u00edses que \u00abre\u00fanam capacidade para se opor ou desafiar os Estados Unidos\u00bb (Di\u00e1rio de Not\u00edcias, 13.3.00). Afirmava: \u00abos Estados Unidos precisar\u00e3o atuar. Isso n\u00e3o ser\u00e1 para j\u00e1, mas dentro de 15, 20 anos, \u00e9 praticamente inevit\u00e1vel\u00bb. A \u00abinevit\u00e1vel\u00bb guerra mundial prevista por Loureiro dos Santos resultaria da mera exist\u00eancia de pa\u00edses soberanos, que se \u2018opusessem\u2019 ou \u2018desafiassem\u2019 os EUA. Dizia o General: \u00abn\u00e3o podemos esquecer que na base de tudo isto est\u00e1 a disputa dos recursos mundiais\u00bb.<\/p>\n<p>Provavelmente canalizando concep\u00e7\u00f5es a que teria acesso enquanto alta patente de For\u00e7as Armadas da OTAN, o General Loureiro dos Santos antevia (e desvalorizava) a possibilidade de a guerra se tornar nuclear, sonhando com imposs\u00edveis invulnerabilidades: \u00abCome\u00e7am contudo a aparecer novas tecnologias, nomeadamente nos EUA, que v\u00e3o permitir tornar os teatros de opera\u00e7\u00f5es invulner\u00e1veis a ataques de m\u00edsseis advers\u00e1rios. [\u2026] Tem de haver formas novas de fazer a guerra. Possivelmente as outras armas de destrui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a v\u00e3o passar a ter um papel muito mais importante, nomeadamente a arma biol\u00f3gica. A arma at\u00f4mica continuar\u00e1 a ser uma arma muito importante, embarreirando os territ\u00f3rios para m\u00e9dias pot\u00eancias que n\u00e3o possuam essas novas tecnologias, mas para as grandes pot\u00eancias deixar\u00e1 de ser um obst\u00e1culo\u00bb. Assinale-se a refer\u00eancia \u00e0s armas biol\u00f3gicas, com as insistentes den\u00fancias recentes da R\u00fassia e China sobre as centenas de laborat\u00f3rios biol\u00f3gicos criados e financiados pelos EUA em todo o mundo, muitos dos quais junto \u00e0s fronteiras desses dois pa\u00edses. E registe-se tamb\u00e9m a frase que, considerando que as armas nucleares \u00abn\u00e3o ser\u00e3o um obst\u00e1culo\u00bb para grandes pot\u00eancias, confessa implicitamente quem pensa come\u00e7ar a guerra.<\/p>\n<p><strong>O fascismo na Ucr\u00e2nia\u2026 e n\u00e3o s\u00f3<\/strong><\/p>\n<p>No dia 16 de dezembro de 2021, a Assembleia Geral da ONU votou uma mo\u00e7\u00e3o, apresentada pela R\u00fassia, de \u00abCondena\u00e7\u00e3o da Glorifica\u00e7\u00e3o do nazismo, neonazismo e outras pr\u00e1ticas\u00bb. A mo\u00e7\u00e3o foi aprovada por larga maioria, com 130 votos a favor (incluindo pa\u00edses em confronto aberto, como Israel e S\u00edria). Apenas dois pa\u00edses votaram contra a mo\u00e7\u00e3o: os EUA e a Ucr\u00e2nia. Como negar o significado deste fato? Confirmando um seguidismo que desde ent\u00e3o deu um salto qualitativo, os pa\u00edses da UE (incluindo Portugal) abstiveram-se na condena\u00e7\u00e3o do nazifascismo.<\/p>\n<p>Est\u00e1 hoje em voga negar ou minimizar a influ\u00eancia do fascismo nas mais altas esferas do poder na Ucr\u00e2nia. Esse negacionismo n\u00e3o adv\u00e9m de o fascismo ucraniano ser uma fic\u00e7\u00e3o. Existe e tem lugar de destaque nas For\u00e7as Armadas, que incorporaram oficialmente as mil\u00edcias nazifascistas como o Batalh\u00e3o Azov. Fascistas colaboracionistas da II Guerra Mundial, respons\u00e1veis por enormes massacres, como Bandera, foram transformados em her\u00f3is nacionais. O negacionismo visa encobrir a inc\u00f4moda realidade de os fascistas ucranianos serem aliados \u2018do Ocidente\u2019 na estrat\u00e9gia de domina\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria dos EUA\/OTAN\/UE. Aliados necess\u00e1rios como tropa de choque do regime e como carne de canh\u00e3o na guerra contra a R\u00fassia. No contexto da guerra h\u00edbrida contra a R\u00fassia, os EUA investiram particulares esfor\u00e7os na Ucr\u00e2nia. N\u00e3o por amor ao povo ucraniano, que os dirigentes imperialistas desprezam tanto como outro povo qualquer. Mas porque os EUA querem combater a R\u00fassia at\u00e9 ao \u00faltimo ucraniano.<\/p>\n<p>Em 2013 a Vice-MNE dos EUA Victoria Nuland confessava que os EUA j\u00e1 haviam canalizado 5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para \u00abapoiar a democracia\u00bb na Ucr\u00e2nia. O significado dessa \u2018democracia\u2019 tornou-se claro com o golpe de Estado que, em 24 de fevereiro de 2014, derrubou o Presidente eleito Yanukovitch. A fa\u00edsca para o golpe de Maidan foi o massacre de manifestantes anti-governamentais e policiais. A comunica\u00e7\u00e3o social pr\u00f3-imperialista culpou o governo. Mas a hist\u00f3ria \u00e9 mais complexa e indicia uma provoca\u00e7\u00e3o cometida por franco-atiradores que disparavam sobre os dois lados, instalados no topo do Hotel Ukraina que estava sob o controle de fascistas ucranianos.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia fascista que se seguiu ao golpe de Estado de 2014 incidiu na repress\u00e3o \u00e0 resist\u00eancia popular ao golpe, nas zonas do pa\u00eds maioritariamente russ\u00f3fonas (que haviam dado maiorias eleitorais esmagadoras ao Presidente deposto). Em Odessa, pelo menos meia centena de pessoas foram assassinadas, ap\u00f3s bandos fascistas atacarem manifestantes anti-golpe e incendiarem a Casa dos Sindicatos onde se haviam refugiado. No Donbass, a resist\u00eancia popular proclamou as Rep\u00fablicas Populares de Donetsk e Lugansk. A resposta militar foi conduzida pelos fascistas ucranianos. Os acordos de Minsk de 2015, que previam uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica preservando o Donbass aut\u00f4nomo no seio da Ucr\u00e2nia, foram sempre desrespeitados pelo governo ucraniano. \u00c9 imposs\u00edvel compreender o que se passa hoje sem ter em conta a guerra no Donbass, que causou a morte a 14 mil pessoas durante oito anos, perante a indiferen\u00e7a da comunica\u00e7\u00e3o social ocidental.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a dos EUA\/OTAN\/UE com o fascismo n\u00e3o \u00e9 \u2018contra-natura\u2019. O fascismo foi sempre a express\u00e3o mais violenta e brutal do poder do grande capital, usado em momentos de crise para impor pela for\u00e7a a sua domina\u00e7\u00e3o de classe. Nos anos 20 e 30 do s\u00e9culo XX, grande parte das classes dominantes dos pa\u00edses capitalistas europeus e EUA nutriam fortes simpatias pelo fascismo. Ap\u00f3s a derrota do nazifascismo na II Guerra Mundial, gra\u00e7as sobretudo \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o imperialismo norte-americano promoveu uma alian\u00e7a global anticomunista, na qual os nazifascistas derrotados desempenharam papel de destaque. Muitos fascistas ucranianos foram recrutados para a guerra (nem sempre fria) contra a URSS e os comunistas.<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o de aut\u00eanticos ex\u00e9rcitos terroristas, capazes dos mais brutais crimes, \u00e9 uma caracter\u00edstica permanente das interven\u00e7\u00f5es do imperialismo nos quatro cantos do mundo. Foi assim nos anos 80 com os contras nicaraguenses, a Unita ou Renamo, os mujahedins afeg\u00e3os ou, mais recentemente com os bandos fundamentalistas e terroristas do tipo ISIS, na L\u00edbia, S\u00edria, Iraque e outros pa\u00edses. \u00c9 assim hoje na Ucr\u00e2nia.<br \/>\nPor debaixo do verniz \u2018democr\u00e1tico\u2019 do poder do grande capital e do imperialismo, est\u00e1 sempre o gatilho pronto. Em momentos de crise aguda, essa veia fascizante vem \u00e0 tona.<\/p>\n<p><strong>A interven\u00e7\u00e3o militar russa<\/strong><\/p>\n<p>Se \u00e9 certo que os dirigentes russos leem, e n\u00e3o sem raz\u00e3o, os acontecimentos das \u00faltimas d\u00e9cadas como uma amea\u00e7a mortal \u00e0 sobreviv\u00eancia do seu pa\u00eds, \u00e9 igualmente um fato que a natureza de classe do poder russo se reflete na a\u00e7\u00e3o militar iniciada no dia em que passavam oito anos do golpe de 2014. Ao optar por uma opera\u00e7\u00e3o militar \u00e0 margem do Direito Internacional, a R\u00fassia enfraqueceu a sua posi\u00e7\u00e3o no plano internacional. Ao centrar a sua resposta no plano estritamente militar e n\u00e3o no papel ou interven\u00e7\u00e3o de for\u00e7as populares nos territ\u00f3rios da Ucr\u00e2nia, revela desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos povos. Ao atacar o legado hist\u00f3rico da URSS no reconhecimento e defesa dos direitos nacionais dos povos \u2013 nomeadamente do povo ucraniano \u2013 ajuda a alimentar os mitos do nacionalismo fascista ucraniano. Ao relegitimar o Imp\u00e9rio czarista, coloca-se fora da Hist\u00f3ria e estreita a sua base de apoio interno e externo. Estas limita\u00e7\u00f5es, cujo peso no desenrolar dos acontecimentos ainda est\u00e1 por se avaliar, revelam a natureza capitalista e as concep\u00e7\u00f5es de classe na R\u00fassia atual, o que, entretanto, n\u00e3o impede o PCP de apontar os EUA, a OTAN e a UE como os grandes respons\u00e1veis pela grave situa\u00e7\u00e3o a que se chegou no Leste da Europa.<\/p>\n<p><strong>Uma nova ordem internacional?<\/strong><\/p>\n<p>Mas a histeria \u2018ocidental\u2019 reflete tamb\u00e9m o desespero. O desespero de compreender que, longe de estar \u2018mais fortes e unidos que nunca\u2019, como proclama a propaganda de guerra, os EUA\/OTAN\/UE vivem uma crise sem precedentes (a UE em particular). As \u2018san\u00e7\u00f5es do inferno\u2019 anunciadas contra a R\u00fassia cedo revelaram os seus limites e as contramedidas russas (exig\u00eancia de rublos para a compra do petr\u00f3leo, bem como a liga\u00e7\u00e3o do rublo ao ouro) parecem ter evitado o colapso da economia russa que os centros imperialistas desejavam. As san\u00e7\u00f5es est\u00e3o acentuando um processo inflacion\u00e1rio (que j\u00e1 vinha h\u00e1 tempos) nos centros capitalistas, com inevit\u00e1veis consequ\u00eancias econ\u00f4micas e sociais. Este processo, a se confirmar, poder\u00e1 dar lugar \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da hegemonia do d\u00f3lar como moeda de reserva internacional e ao fim do sistema financeiro sobre o qual se assenta a pilhagem das riquezas do planeta pelo centro imperialista. O confisco dos bens do Banco Central e de cidad\u00e3os russos no Ocidente, ap\u00f3s an\u00e1logos atos de pilhagem dos bens estatais da Venezuela, Ir\u00e3, Afeganist\u00e3o e outros pa\u00edses, ir\u00e1 acelerar a desconfian\u00e7a geral em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 confiabilidade do sistema financeiro hegemonizado pelos EUA.<\/p>\n<p>Fato saliente da atual crise \u00e9 a dificuldade dos centros imperialistas em arregimentar \u00e0 sua estrat\u00e9gia numerosos pa\u00edses, incluindo alguns dos maiores do mundo. Apesar das vota\u00e7\u00f5es na Assembleia Geral da ONU, os pa\u00edses que aplicaram san\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00fassia resumem-se \u00e0 Am\u00e9rica do Norte, Uni\u00e3o Europeia e alguns dos seus mais estreitos \u2018aliados\u2019. Pa\u00edses como a China, \u00cdndia, Paquist\u00e3o, Brasil, Indon\u00e9sia e mesmo pa\u00edses da OTAN como a Turquia, t\u00eam se recusado a entrar na guerra das san\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Se estas afirma\u00e7\u00f5es parecem ousadas, leia-se o Financial Times (7.4.22): \u00abPode parecer que a maioria do mundo est\u00e1 unido na sua condena\u00e7\u00e3o da guerra na Ucr\u00e2nia, mas embora exista uma coliga\u00e7\u00e3o dirigida pelo Ocidente contra a R\u00fassia, n\u00e3o existe uma coliga\u00e7\u00e3o global. Este fato pode ter importantes implica\u00e7\u00f5es para o futuro da finan\u00e7a internacional \u00e0 medida que os pa\u00edses do mundo responderem \u00e0 decis\u00e3o dram\u00e1tica dos EUA e seus aliados congelarem as reservas em divisas estrangeiras da R\u00fassia [\u2026]. Ao utilizar desta forma o d\u00f3lar como arma, os EUA e aliados arriscam-se a provocar uma rea\u00e7\u00e3o que poder\u00e1 minar a divisa dos EUA e desagregar o sistema financeiro global em blocos rivais. [\u2026] Se houver um afastamento sistem\u00e1tico em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar nos pr\u00f3ximos anos, as san\u00e7\u00f5es contra o Banco Central russo poder\u00e3o vir a ser vistas, n\u00e3o como uma nova e audaz forma de exercer press\u00e3o sobre um opositor, mas como o momento em que o dom\u00ednio do d\u00f3lar come\u00e7ou a declinar\u00bb.<\/p>\n<p><strong>Que perspectivas para os trabalhadores e os povos?<\/strong><\/p>\n<p>Os perigos para a Humanidade s\u00e3o evidentes. A guerra n\u00e3o \u00e9 do interesse dos povos, que s\u00e3o as suas primeiras v\u00edtimas. \u00c9 urgente p\u00f4r fim \u00e0 guerra na Ucr\u00e2nia e ainda mais urgente impedir o seu alastramento.<\/p>\n<p>Mesmo que seja poss\u00edvel travar o passo dos belicistas e evitar a cat\u00e1strofe, em todo o centro imperialista ser\u00e1 refor\u00e7ado, a pretexto da conjuntura, o assalto aos n\u00edveis de vida dos trabalhadores e dos povos, desviando-se recursos gigantescos para as m\u00e1quinas de guerra e refor\u00e7ando o pendor autorit\u00e1rio e fascizante que j\u00e1 se entrev\u00ea. Planos h\u00e1 muito existentes (recordem-se as troikas e as medidas tomadas a pretexto da pandemia) ser\u00e3o agora de novo ensaiados, numa escala maior.<\/p>\n<p>Aos comunistas cabe a responsabilidade hist\u00f3rica de, tal como no passado, saber ler os acontecimentos e identificar as orienta\u00e7\u00f5es que correspondam \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Fazendo bom uso da nossa teoria, que resulta da experi\u00eancia acumulada pelo movimento oper\u00e1rio ao longo de d\u00e9cadas. E compreendendo que a cada situa\u00e7\u00e3o concreta t\u00eam de corresponder an\u00e1lises concretas, adequadas \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, com a identifica\u00e7\u00e3o do inimigo principal e o esfor\u00e7o por criar a melhor correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as poss\u00edvel para isolar e combater esse inimigo principal. Uma coisa \u00e9 certa: ser\u00e1 a luta dos povos que poder\u00e1, tal como no passado, derrotar os incendi\u00e1rios da guerra imperialista.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>Brzezinski foi Conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional entre 1977 e 1981 e art\u00edfice da pol\u00edtica de armar e legitimar o terrorismo fundamentalista isl\u00e2mico, para combater o governo popular do Afeganist\u00e3o em 1979, seis meses antes do envio de tropas sovi\u00e9ticas para aquele pa\u00eds, como confessou em 1998 em entrevista \u00e0 revista Le Nouvel Observateur.\u21b2<\/p>\n<p>Entre as numerosas refer\u00eancias recentes, vejam-se os seguintes artigos no jornal chin\u00eas Global Times:<br \/>\nUS biolabs need exposure and investigation: US scholar<br \/>\nChinese FM raises six key questions on US bio labs in Ukraine, demanding truth<br \/>\nUS biolabs unacceptable: Putin<br \/>\nNew evidence shows US-funded biolabs used to attack Donbass, Russia: RT \u21b2<\/p>\n<p>A censura sistem\u00e1tica introduzida na UE no rescaldo da guerra torna mais dif\u00edcil o acesso a fontes, mas eis uma pormenorizada investiga\u00e7\u00e3o dos fatos: The Buried Maidan Massacre and Its Misrepresentation by the West in Consortium News \u21b2<\/p>\n<p>Entre muitas outras fontes confira o livro do jornalista norte-americano Christopher Simpson, Blowback. America\u2019s recruitment of Nazis and its effects on the Cold War, Weidenfeld &amp; Nicolson, 1988.\u21b2<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28802\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"A guerra na Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 um mero conflito entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia: \u00e9 um epis\u00f3dio num embate que dura h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas entre a R\u00fassia capitalista que emergiu da contrarrevolu\u00e7\u00e3o na URSS em 1991 e as velhas pot\u00eancias imperialistas, com os EUA \u00e0 cabe\u00e7a.","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[233],"class_list":["post-28802","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7uy","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28802","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28802"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28802\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28802"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28802"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28802"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}