{"id":28835,"date":"2022-05-28T08:37:53","date_gmt":"2022-05-28T11:37:53","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=28835"},"modified":"2022-05-30T15:34:14","modified_gmt":"2022-05-30T18:34:14","slug":"cultura-e-poder-popular-possibilidades-de-acao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28835","title":{"rendered":"Cultura e Poder Popular: possibilidades de a\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"420\" width=\"747\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/image-33-2048x1152.png?resize=747%2C420&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Rafael Ayres &#8211; Secret\u00e1rio Pol\u00edtico do Coletivo Cultural Vianinha S\u00e3o Paulo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201cA arte pode elevar o homem de um estado de fragmenta\u00e7\u00e3o a um estado de ser \u00edntegro total. A arte capacita o homem para compreender a realidade social e o ajuda n\u00e3o s\u00f3 a suport\u00e1-la como a transform\u00e1-la, aumentando-lhe a determina\u00e7\u00e3o de torn\u00e1-la mais humana e mais hospitaleira para a humanidade. A arte, ela pr\u00f3pria, \u00e9 uma realidade social\u201d.<br \/>\nErnst Fischer em \u201cA necessidade da arte.\u201d<\/p>\n<p>Em comemora\u00e7\u00e3o aos cem anos da realiza\u00e7\u00e3o da semana de arte moderna de S\u00e3o Paulo, a Secretaria Municipal de Cultura da cidade organizou uma s\u00e9rie de eventos no Theatro Municipal e pela cidade, com diversos artistas, apelidados pela Secretaria de \u201cnovos modernistas\u201d. Um dos shows foi do grupo Clarianas, junto com duas apresenta\u00e7\u00f5es de saraus da periferia de S\u00e3o Paulo. A ocupa\u00e7\u00e3o das Clarianas no Municipal apresentou a diferen\u00e7a entre as formas de fruir a arte: de um lado, a estrutura arquitet\u00f4nica r\u00edgida do Theatro Municipal, inspirado no modelo europeu contemplativo de apreciar \u00f3peras, bal\u00e9s e concertos; de outro, o resgate dos ritmos ancestrais africanos e ind\u00edgenas das Clarianas, que impele seu corpo a experimentar a m\u00fasica atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o ativa: a dan\u00e7a. Essa aparente contradi\u00e7\u00e3o foi resolvida com o p\u00fablico ocupando os corredores e dan\u00e7ando livremente, desvencilhando-se das cadeiras, absorvidas nos ritmos do show. Aconteceu ali, por um momento, uma transforma\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, uma reapropria\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo cultural (o Theatro e o local da cultura cl\u00e1ssica), um momento de convers\u00e3o, de igualdade das diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Este breve exemplo pode trazer alguns indicativos importantes para n\u00f3s preocupados com a cria\u00e7\u00e3o de poder popular. Pretendo passar por estes indicativos e refor\u00e7ar a import\u00e2ncia da arte e cultura na luta pela constru\u00e7\u00e3o do poder popular e da revolu\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p><strong>Uma quest\u00e3o de criatividade<\/strong><\/p>\n<p>Apesar dos exemplos de Cuba, Vietn\u00e3, China e at\u00e9 mesmo Venezuela, a influ\u00eancia estadunidense e europeia \u00e9 praticamente hegem\u00f4nica sobre n\u00f3s, brasileiros. Temos dificuldade de apresentar novas possibilidades de sociedade; a principal for\u00e7a de esquerda brasileira h\u00e1 tempos abandonou qualquer perspectiva socialista \u2013 e arrisco dizer que abandonou tamb\u00e9m qualquer perspectiva reformista para nossa sociedade. O que se apresenta no cen\u00e1rio \u00e9 um combate difuso e esparso ao neofascismo brasileiro e \u00e0s pol\u00edticas neoliberais implementadas p\u00f3s-golpe de 2016, e um longo trabalho a ser realizado pelos comunistas.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise e conceitua\u00e7\u00e3o de Mark Fisher \u2013 sobre o realismo capitalista \u2013 \u00e9 de excelente utilidade para pensarmos o per\u00edodo hist\u00f3rico que vivemos no Brasil. A tend\u00eancia \u00e9 sermos muito mais reativos que propositivos e, segundo Fisher, isso n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a ao capitalismo em si. Afinal, \u201co realismo capitalista n\u00e3o exclui um certo tipo de anticapitalismo\u201d. As cr\u00edticas ao capital sem apresenta\u00e7\u00e3o de uma sa\u00edda, uma nova possibilidade, nos leva a um lugar de cinismo e niilismo infrut\u00edfero para a luta e para a eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia da classe trabalhadora. O que estamos propondo de fato?<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s sofremos da explora\u00e7\u00e3o e dos efeitos do neoliberalismo; o aumento do adoecimento mental, destrui\u00e7\u00e3o das redes de prote\u00e7\u00e3o ao trabalhador \u2013 CLT, previd\u00eancia, SUS, assist\u00eancia social, todos a caminho da privatiza\u00e7\u00e3o e mercantiliza\u00e7\u00e3o \u2013 destrui\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre trabalhadores, seguindo uma l\u00f3gica competitiva individualista onde n\u00e3o vemos solidariedade de classe, mas sim, advers\u00e1rios; falta de tempo para \u00f3cio e lazer, a cultura transformada em puro entretenimento para ser consumida individualmente e passivamente. Nossas intera\u00e7\u00f5es tornaram-se virtuais violentas e foram monetizadas por novos bilion\u00e1rios que controlam a internet. E o grito majorit\u00e1rio da esquerda \u00e9: \u201cresistir\u201d. Resistir para qu\u00ea? Quais s\u00e3o as outras possibilidades? Onde est\u00e1 a utopia?<\/p>\n<p>Para termos um trabalho consequente, precisamos resolver nossa crise de criatividade. Precisamos olhar para outras experi\u00eancias, oferecer novas possibilidades, ir al\u00e9m da cr\u00edtica pela cr\u00edtica. O novo homem precisa reaparecer no debate. O anticapitalismo n\u00e3o pode ser somente um polo de oposi\u00e7\u00e3o ao capitalismo; isto \u00e9 uma forma inocente de lutar contra o capital, seja rom\u00e2ntica &#8211; voltar a um passado id\u00edlico inexistente \u2013 seja niilista \u2013 n\u00e3o h\u00e1 alternativa. Temos que propor o al\u00e9m, a constru\u00e7\u00e3o da nova sociedade, com a consci\u00eancia que ela n\u00e3o se desenvolve apenas de belos ideais, mas da condi\u00e7\u00e3o concreta da sociedade que pretendemos mudar.<\/p>\n<p><strong>As possibilidades da cultura<\/strong><\/p>\n<p>Um pequeno ajuste metodol\u00f3gico se faz necess\u00e1rio aqui, para facilitar o entendimento. Compreendo a cultura como mais que as express\u00f5es art\u00edsticas; afinal, ainda que possam ser as linguagens art\u00edsticas o locus social privilegiado da manifesta\u00e7\u00e3o da cultura, \u00e9 preciso estar atento ao fato de que o fato cultural se espraia para muito al\u00e9m dessa \u2013 na religi\u00e3o, nas rela\u00e7\u00f5es entre os g\u00eaneros, no trabalho (todo ele, n\u00e3o apenas o trabalho na cultura), nas rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais etc. Por\u00e9m, seguindo o senso comum, ao me referir ao termo cultura estarei focando mais nas express\u00f5es art\u00edsticas, de forma similar ao entendimento que temos quando pensamos em pol\u00edticas p\u00fablicas para a cultura. Cultura e arte, neste texto, podem ser consideradas como sin\u00f4nimos.<\/p>\n<p>Arte tem potencialidade. Retornando a Ernst Fischer (citado no come\u00e7o do texto), o homem, enquanto ser social, \u201canseia por absorver o mundo circundante, integr\u00e1-lo a si; (&#8230;) anseia por unir na arte o seu \u2018Eu\u2019 limitado com uma exist\u00eancia humana coletiva e por tornar social a sua individualidade\u201d . Portanto, a arte \u00e9 \u201co meio indispens\u00e1vel para essa uni\u00e3o do indiv\u00edduo com o todo; reflete a infinita capacidade humana para a associa\u00e7\u00e3o, para a circula\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia e ideias\u201d . \u00c9 importante frisar aqui que ao colocar \u201cmeio indispens\u00e1vel\u201d, a arte n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico meio; o ponto aqui \u00e9 refor\u00e7ar a import\u00e2ncia da arte como um dos meios indispens\u00e1veis para a uni\u00e3o do indiv\u00edduo com o todo.<\/p>\n<p>A sociedade capitalista n\u00e3o \u00e9 necessariamente o melhor \u201clugar\u201d para a arte. A tend\u00eancia em tornar todas as rela\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00f5es de troca afeta a arte, transformando seus produtos em mera mercadoria. Por\u00e9m, o desenvolvimento do pr\u00f3prio capitalismo permitiu no desenvolvimento da arte dentro dele: \u201c(&#8230;) ao mesmo tempo em que o capitalismo era basicamente hostil \u00e0 arte, favorecia seu desenvolvimento, ensejando a produ\u00e7\u00e3o de grande quantidade de trabalhos multifacetados, expressivos e originais.\u201d Por\u00e9m, com a consolida\u00e7\u00e3o da burguesia no poder e o estabelecimento do capitalismo ao longo do s\u00e9culo XX, principalmente ap\u00f3s a derrocada da URSS, o capitalismo, decadente (e de certa forma seguro de sua vit\u00f3ria \u2013 o fim da hist\u00f3ria) j\u00e1 n\u00e3o permite de fato o desenvolvimento art\u00edstico; com o fim da hist\u00f3ria e a aceita\u00e7\u00e3o do realismo capitalista, h\u00e1 o fim do futuro tamb\u00e9m. E, se n\u00e3o h\u00e1 futuro, n\u00e3o h\u00e1 como criar o novo e contestar o presente. A produ\u00e7\u00e3o cultural capitalista sobrevive de revisar o passado, recriando superficialmente modismos antigos, revisitando temas, insistindo no que d\u00e1 retorno financeiro ao inv\u00e9s do desenvolvimento de algo original. N\u00e3o h\u00e1 necessidade de criar algo novo se n\u00e3o houver futuro para ele ser apreciado. O \u00fanico agente poss\u00edvel de transforma\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de um futuro \u00e9 a classe trabalhadora \u2013 socialismo ou a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>E como usar a arte a favor da classe trabalhadora? Fischer indica um caminho: \u201cA arte \u00e9 necess\u00e1ria para que o homem se torne capaz de conhecer e mudar o mundo. Mas arte tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1ria em virtude da magia que lhe \u00e9 inerente. (&#8230;) \u00e9 verdade que a fun\u00e7\u00e3o essencial da arte para uma classe destinada a transformar o mundo n\u00e3o \u00e9 a de fazer m\u00e1gica, mas sim de esclarecer e incitar \u00e0 a\u00e7\u00e3o; mas \u00e9 igualmente verdade que um res\u00edduo m\u00e1gico na arte n\u00e3o pode ser inteiramente eliminado, de vez que sem este res\u00edduo provindo de sua natureza original a arte deixar de ser arte.\u201d<\/p>\n<p>Se quisermos pensar em utopia, em constru\u00e7\u00e3o de poder popular, a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica pode vir a contribuir muito para a elabora\u00e7\u00e3o desses novos germens de sociedade. Afinal, por mais que tenhamos no Brasil uma ind\u00fastria cultural consolidada, com a mercantiliza\u00e7\u00e3o de diversos produtos culturais e uma cultura de massas pr\u00f3pria e importada violentamente dos Estados Unidos, essa mesma \u201cdomina\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o \u00e9 homog\u00eanea e absoluta em toda a produ\u00e7\u00e3o cultural da cidade, como bem apontado por Alfredo Bosi em seu ensaio Cultura Brasileira e Culturas Brasileiras. As contradi\u00e7\u00f5es dentro das pr\u00e1ticas culturais s\u00e3o diversas e nos apresentam diversas possibilidades de atua\u00e7\u00e3o, cria\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o do poder popular.<\/p>\n<p>O processo de cria\u00e7\u00e3o de um produto cultural qualquer (seja ele um objeto, uma m\u00fasica, uma pe\u00e7a de teatro, uma exposi\u00e7\u00e3o, dan\u00e7a, festivais, etc.) sempre apresenta a possibilidade de ser uma produ\u00e7\u00e3o coletiva; isso envolve n\u00edveis de organiza\u00e7\u00e3o, divis\u00e3o de tarefas e uma sociabilidade enquanto esse processo ocorre. A nossa possibilidade &#8211; enquanto comunistas &#8211; \u00e9 de estimular e estar presente nestes processos, para expandirmos, politizar e aprender dentro da cria\u00e7\u00e3o. Temos que ir al\u00e9m da simples \u201cinstru\u00e7\u00e3o das massas\u201d e usar ferramentas j\u00e1 dispon\u00edveis na arte, como o Teatro do Oprimido de Augusto Boal \u2013 que j\u00e1 \u00e9 empregado pelo MST \u2013 ou os saraus, outrora perseguidos em S\u00e3o Paulo na gest\u00e3o Kassab (2006-2012) justamente por dar voz cr\u00edtica e plural a diversas pessoas das periferias paulistanas, como o Sarau do Binho , os slams e batalhas, ocupa\u00e7\u00f5es culturais como a Casa Cultural Hip Hop no Ja\u00e7an\u00e3 , entre outros in\u00fameros exemplos de diferentes formatos dentro da arte, cultura e resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Compreender a classe trabalhadora como produtora da cultura, e romper a divis\u00e3o entre artista e trabalhador, tamb\u00e9m \u00e9 fundamental no processo de cria\u00e7\u00e3o de poder popular. A arte n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 margem da sociedade, esperando para ser capturada e mistificada por algum artista. A arte est\u00e1 dentro das rela\u00e7\u00f5es da sociedade, produzida pela classe trabalhadora, inclusive como s\u00edntese das contradi\u00e7\u00f5es da classe \u2013 como olhar para o fen\u00f4meno do funk ostenta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o identificar uma contradi\u00e7\u00e3o de nosso capitalismo perif\u00e9rico e dependente?<\/p>\n<p>Temos a nosso favor uma pluralidade enorme da cultura brasileira &#8211; heran\u00e7a do violento processo de forma\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o brasileira, que massacra os povos origin\u00e1rios e os afrodescendentes. Diversas manifesta\u00e7\u00f5es, formatos, meios e experi\u00eancias que j\u00e1 constituem germens de poder popular. As rela\u00e7\u00f5es sociais criadas dentro das express\u00f5es art\u00edstico-culturais t\u00eam a tend\u00eancia de serem diferentes das rela\u00e7\u00f5es sociais dentro do capitalismo. Isso n\u00e3o quer dizer que s\u00e3o anticapitalistas em si; muito pelo contr\u00e1rio, diversos grupos liberais se utilizam do processo art\u00edstico junto \u00e0 classe trabalhadora para \u201cdomestic\u00e1-la\u201d. N\u00f3s devemos ir al\u00e9m. Estimular processos de cria\u00e7\u00e3o pr\u00f3prios, com ag\u00eancia dos trabalhadores, para a forma\u00e7\u00e3o de novas est\u00e9ticas, novas lideran\u00e7as, uma nova vanguarda plural consciente dos desafios da nossa classe, mas com a esperan\u00e7a na utopia que j\u00e1 \u00e9 experimentada nos processos criativos.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1 uma forma de atua\u00e7\u00e3o junto \u00e0 classe, para oferecermos algo al\u00e9m da cr\u00edtica ao capitalismo: a camaradagem, a constru\u00e7\u00e3o conjunta, o acolhimento, reconhecimento&#8230; Toda essa fraseologia muito adotada por uma esquerda liberal, mas que para n\u00f3s possui um significado diferente, pois estaremos construindo a consci\u00eancia de classe durante este processo; teremos sempre no horizonte a necessidade de trabalhar a favor da totalidade e da realidade concreta, de n\u00e3o oferecer simples espa\u00e7os de ref\u00fagio criativo, mas de preparar toda a classe para a luta imediata e revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Como fortalecer essa luta<\/strong><\/p>\n<p>Compreendendo a possibilidade da cultura, e a possibilidade da nossa atua\u00e7\u00e3o junto \u00e0 cultura, tanto de formar a classe e quanto a forma\u00e7\u00e3o dos germens de poder popular nos territ\u00f3rios, \u00e9 necess\u00e1rio pensarmos como fortalecer estes espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o criativa.<\/p>\n<p>O principal problema a ser pensado \u00e9 o problema econ\u00f4mico: como financiar a cria\u00e7\u00e3o desses espa\u00e7os, como fornecer as condi\u00e7\u00f5es materiais para a cria\u00e7\u00e3o das mais diversas matizes art\u00edsticas? Atualmente temos duas grandes formas de financiamento: a privada, atrav\u00e9s de empresas doando para ONGs e\/ou com institutos pr\u00f3prios, al\u00e9m de tamb\u00e9m pequenas campanhas de subsist\u00eancia dos espa\u00e7os empreendidos pelos pr\u00f3prios trabalhadores de um territ\u00f3rio. A segunda forma \u00e9 o financiamento p\u00fablico, atrav\u00e9s de fomento, editais e de pol\u00edticas p\u00fablicas de cultura.<\/p>\n<p>Entendo que nossa atua\u00e7\u00e3o precisar\u00e1 passar &#8211; para al\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o e apoio dos locais existentes criados pela classe trabalhadora \u2013 na luta e fortalecimento da institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Temos a possibilidade, atrav\u00e9s da luta e da proposi\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas consequentes, de ampliar os equipamentos culturais e o acesso a eles; de fazer uma cr\u00edtica consequente ao modelo competitivo de editais, de criticar e propor altera\u00e7\u00f5es aos sistemas de isen\u00e7\u00e3o fiscal como lei Rouanet e similares. \u00c9 necess\u00e1rio pensarmos e atuarmos de forma cr\u00edtica para o fortalecimento da cultura nacional, em todos os \u00e2mbitos \u2013 federal, estadual e municipal. De exigir pluralidade na cultura. E de agir diretamente na base da cultura \u2013 os trabalhadores. Criar, fortalecer e melhorar a verba para cultura \u00e9 ampliar as nossas possibilidades de atuar junto aos trabalhadores atrav\u00e9s da cultura; \u00e9 ampliar nossas possibilidades de produzir, as experi\u00eancias de poder popular; \u00e9 ampliar a cr\u00edtica aos limites de um estado burgu\u00eas autorit\u00e1rio no Brasil.<\/p>\n<p>Utilizarmo-nos das elei\u00e7\u00f5es burguesas para fazer a den\u00fancia e a defesa das pol\u00edticas p\u00fablicas de cultura \u00e9 fundamental para estarmos junto \u00e0 classe trabalhadora. Devemos nos perguntar quais as motiva\u00e7\u00f5es para uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es do poder p\u00fablico contra as pol\u00edticas culturais. Por que n\u00e3o h\u00e1 mais Minist\u00e9rio da Cultura? Por que h\u00e1 interfer\u00eancia direta do governo na Ancine, no Conselho, na lei Rouanet, nos setoriais, na Funda\u00e7\u00e3o Palmares e afins? Por que as a\u00e7\u00f5es culturais dos Estados e Munic\u00edpios s\u00e3o voltadas para grandes eventos e est\u00edmulo ao empreendedorismo? Por que h\u00e1 pouco di\u00e1logo com os movimentos culturais?<\/p>\n<p>Responder essas perguntas e fazer novas parece fundamental para alinharmos nossa luta. A direita j\u00e1 entendeu a import\u00e2ncia e o valor da cultura para uma popula\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o s\u00e3o \u00e0 toa os diversos ataques a esse setor e o uso requentado do \u201cmarxismo cultural\u201d. Ser\u00e1 que n\u00f3s compreendemos a import\u00e2ncia tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>Dada a atual conjuntura, onde a classe trabalhadora, suas franjas e a na\u00e7\u00e3o est\u00e3o sofrendo ataques di\u00e1rios da burguesia, do capital estrangeiro, do entreguismo, do fascismo, do golpismo e do imperialismo, devemos nos inspirar em Rosa Luxemburgo e n\u00e3o cometer os mesmos erros da social democracia tardia brasileira. Os movimentos culturais brasileiros \u2013 com muita luta &#8211; v\u00eam construindo um belo arcabou\u00e7o legal e de equipamentos p\u00fablicos para a cultura brasileira desde o fim da d\u00e9cada de 80; casas de cultura, Plano Nacional de Cultura, Sistema Nacional de Cultura, leis de fomento, etc. N\u00e3o podemos parar na institucionalidade. N\u00e3o podemos aceitar, de um lado, a amplia\u00e7\u00e3o de direitos, enquanto de outro, governos \u201cprogressistas\u201d aprovam a entrada da privatiza\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada de \u201cOrganiza\u00e7\u00f5es Sociais\u201d. Que fazem acordos com a burguesia que desmonta tudo que foi conquistado \u00e0 duras penas. Que compreendem nossas derrotas como \u201cparte do jogo democr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p>N\u00f3s, por outro lado, estamos lutando pela constru\u00e7\u00e3o do poder popular e pelo socialismo brasileiro. Queremos conquistar o poder. N\u00e3o h\u00e1 ilus\u00f5es quanto a isso. Para tanto, n\u00e3o podemos fazer concess\u00f5es estapaf\u00fardias. Precisamos estar sempre ao lado da classe trabalhadora, inclusive dentro da cultura. Usar a estrutura do Estado e ampli\u00e1-la, explorar as contradi\u00e7\u00f5es e usar as bases desse mundo falido para criarmos o mundo novo.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, travamos uma grande luta pela reconstru\u00e7\u00e3o do movimento comunista brasileiro, pela luta revolucion\u00e1ria consequente para al\u00e9m do reformismo e do social-liberalismo. Somos minoria na esquerda brasileira, e por isso mesmo, apesar das conquistas dos movimentos sociais nos governos petistas, tudo est\u00e1 sendo devorado pela burguesia e pelo imperialismo em uma velocidade espetacular, praticamente sem rea\u00e7\u00e3o. \u00c9 chegada a hora, juntamente com a continuidade de nossa reconstru\u00e7\u00e3o, de reconstruirmos a esperan\u00e7a revolucion\u00e1ria neste pa\u00eds. De influenciarmos e sermos agentes ativos da disputa dos corpos e mentes em prol da revolu\u00e7\u00e3o brasileira.<br \/>\n______________________________<br \/>\nFala, camarada. Ficaram faltando as notas de rodap\u00e9 no texto do Coletivo Vianinha.<\/p>\n<p>Eles pediram para incluir.<\/p>\n<p>Abs,<\/p>\n<p>Rico.<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p>FISCHER, E. A necessidade da arte. Zahar Editores, Rio de Janeiro. 1983. p. 57<\/p>\n<p>\u201c\u00e9 um grupo musical formado por tr\u00eas cantoras\/atrizes (Martinha Soares, Naloana Lima e Naruna Costa), um rabequeiro\/violonista (Giovani Di Ganz\u00e1) e uma percussionista (Fef\u00ea Camilo), que tem como mote principal a investiga\u00e7\u00e3o da voz da mulher &#8220;ancestral&#8221; na m\u00fasica popular do Brasil, a partir do contexto da m\u00fasica &#8220;natural&#8221;,  de tradi\u00e7\u00e3o popular, dos cantos caboclos de matriz africanordestina-ind\u00edgena-perif\u00e9rica, das comunidades brasileiras.\u201d http:\/\/espacoclario.blogspot.com\/p\/clarianas.html acessado dia 14\/03\/2022.<\/p>\n<p>\u201cO realismo capitalista, como o entendo, n\u00e3o pode ser confinado \u00e0 arte ou a maneira quase propagand\u00edstica pela qual a publicidade funciona. Trata-se mais de uma atmosfera abrangente, que condiciona n\u00e3o apenas a produ\u00e7\u00e3o da cultura, mas tamb\u00e9m a regula\u00e7\u00e3o do trabalho e da educa\u00e7\u00e3o \u2013 agindo como uma esp\u00e9cie de barreira invis\u00edvel, bloqueando o pensamento e a a\u00e7\u00e3o.\u201d FISHER, M. Realismo Capitalista: \u00e9 mais f\u00e1cil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo? Autonomia Liter\u00e1ria, S\u00e3o Paulo. 2020. p. 33<\/p>\n<p>Idem, p. 27.<\/p>\n<p>FISCHER, E. A necessidade da arte. Zahar Editores, Rio de Janeiro. 1983. p. 13<\/p>\n<p>Idem. p. 13<\/p>\n<p>Ibidem. p. 61<\/p>\n<p>Idem. p.20<\/p>\n<p>\u201cNo entanto, a dial\u00e9tica \u00e9 uma verdade mais s\u00e9ria do que sup\u00f5e a nossa v\u00e3 filosofia. A explora\u00e7\u00e3o, o uso abusivo que a cultura de massa faz das manifesta\u00e7\u00f5es populares, n\u00e3o foi ainda capaz de interromper para todo o sempre o dinamismo lento, mas seguro e poderoso da vida arcaico-popular, que se reproduz quase organicamente em microescalas, no interior da rede familiar e comunit\u00e1ria, apoiada pela socializa\u00e7\u00e3o do parentesco, do vicinato e dos grupos religiosos.\u201d BOSI, A. Cultura Brasileira e Culturas Brasileiras in Dial\u00e9tica da Coloniza\u00e7\u00e3o. Cia das Letras. S\u00e3o Paulo, 1992. p. 329<\/p>\n<p>O Sarau do Binho, realizado semanalmente desde 2004 no Bar Las Tetas e depois no Bar do Binho, no bairro do Campo Limpo (periferia da Zona Sul de S\u00e3o Paulo). Foi perseguido pela gest\u00e3o Kassab, que tentou fechar os bares onde operavam diversos saraus nas periferias da cidade. Tornou-se itinerante e um dos mais relevantes da cidade, com participa\u00e7\u00f5es nas Viradas Culturais de S\u00e3o Paulo e outros diversos programas de fomento no Brasil. Recomendo a visita e a leitura da disserta\u00e7\u00e3o de mestrado de Diego Elias Santana Duarte, Sarau do Binho Vive! Identidades alteradas e o sarau como processo de identifica\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica , do departamento de Geografia da FFLCH \u2013 USP.<\/p>\n<p>Sobre a Ocupa\u00e7\u00e3o do Hip Hop no Ja\u00e7an\u00e3, ver mais em https:\/\/www.ofuturodesp.com.br\/ocupacao-cultural-e-ponto-de-resistencia-que-reune-educacao-cultura-e-autonomia-no-jacana-a-historia-de-luta-emocao-e-construcao-popular-contada-de-dentro\/<\/p>\n<p>Recentemente a imprensa finalmente notou a discrep\u00e2ncia que \u00e9 a contrata\u00e7\u00e3o de \u201cartistas\u201d, principalmente sertanejos (h\u00e1 tamb\u00e9m os gospels) pelos governos municipais por valores exorbitantes, ao inv\u00e9s de fomentar a cultura local: https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/musica\/noticia\/2022\/05\/19\/verbas-publicas-de-prefeituras-a-sertanejos-e-outros-viram-debate-apos-ze-neto-criticar-lei-rouanet.ghtml<\/p>\n<p>\u201ca democracia \u00e9 talvez in\u00fatil ou menos inquietante para a burguesia atual. Para a classe oper\u00e1ria \u00e9 necess\u00e1ria, digamos mesmo indispens\u00e1vel. \u00c9 necess\u00e1ria porque criou as formas pol\u00edticas (autoadministra\u00e7\u00e3o, direito de voto, etc.) que servir\u00e3o ao proletariado como trampolim e sustent\u00e1culo na sua luta pela transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade burguesa. Mas tamb\u00e9m \u00e9 indispens\u00e1vel porque \u00e9 lutando pela democracia e exercendo os seus direitos que o proletariado ter\u00e1 consci\u00eancia dos seus interesses de classe e das suas tarefas hist\u00f3ricas. Numa palavra, a democracia \u00e9 indispens\u00e1vel, n\u00e3o porque torne in\u00fatil a conquista do poder pol\u00edtico pelo proletariado; pelo contr\u00e1rio, torna necess\u00e1ria e simultaneamente poss\u00edvel a conquista desse poder.\u201d ROSA, L. A Conquista do Poder Pol\u00edtico in Reforma ou Revolu\u00e7\u00e3o, acessado em https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/luxemburgo\/1900\/ref_rev\/cap04.htm#p2c3<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA<br \/>\nBOSI, A. Dial\u00e9tica da Coloniza\u00e7\u00e3o. Cia das Letras. S\u00e3o Paulo, 1992.<br \/>\nDUARTE, Diego Elias Santana. Sarau do Binho vive! Identidades alteradas e o sarau como processo de identifica\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica. 2015. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Geografia Humana) &#8211; Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas, University of S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 2015. doi:10.11606\/D.8.2016.tde-08032016-141025. Acesso em: 2022-05-25.<br \/>\nFISCHER, E. A necessidade da arte. Zahar Editores, Rio de Janeiro. 1983.<br \/>\nFISHER, M. Realismo Capitalista: \u00e9 mais f\u00e1cil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo? Autonomia Liter\u00e1ria, S\u00e3o Paulo. 2020.<br \/>\nLUXEMBURGO, R. Reforma ou Revolu\u00e7\u00e3o. Acessado em: https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/luxemburgo\/1900\/ref_rev\/index.htm<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/28835\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"\"\u00c9 chegada a hora, juntamente com a continuidade de nossa reconstru\u00e7\u00e3o, de reconstruirmos a esperan\u00e7a revolucion\u00e1ria neste pa\u00eds. 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